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Wednesday, June 21, 2023

POR QUE RAZÃO O ENSINO PÚBLICO É PIOR QUE O PRIVADO NO SECUNDÁRIO E MELHOR NO UNIVERSITÁRIO?

Não tinha a mínima intenção de voltar a este tema, que abordei aqui há mais de 15 anos.

Contudo, um comentário ouvido ontem na SIC Notícias suscitou-me o interesse em rever o que tinha escrito em 7 de Novembro de 2007. 

Curiosamente, o que escrevi e os comentários que o meu apontamento suscitou, naquele altura, só não se mantêm actuais porque a situação no ensino secundário público piorou relativamente ao ensino secundário privado. E a questão que coloquei há 15 anos é esta: Porque passam os bons alunos do ensino secundário privado para o ensino superior público?, idêntica à levantada ontem pelo comentador da SIC Notícias.

Para o comentador, a razão da inferioridade de sucesso do sector secundário público deve-se ao facto de se subordinar aos desígnios dos sindicatos, uma subordinação que não prevalece no ensino superior público por ser este mais autónomo e independente de pressões sindicais.

Há melhor explicação para este facto resistente ao tempo?

Saturday, January 29, 2022

EM DIA DE REFLEXÃO, A EDUCAÇÃO

Que as debilidades da educação em Portugal são um factor decisivo da perda de posições no ranking do pelotão do desenvolvimento humano, anualmente publicado pelo PNUD - Programa de Desenvolvimento Humano - das Nações Unidas, ninguém contestará, salvo se colocar em causa a fiabilidade dos relatórios da ONU.

Ouve-se, repetidamente dito, por vários quadrantes de opinião que a actual geração é a mais qualificada de sempre. Mas esquece-se que 
 
1 - não basta continuar no pelotão se o objectivo é o crescimento económico e o desenvolvimento hunano; é forçoso manter ou melhorar o posicionamento relativo dos portugueses não só no conjunto europeu mas também no mundial. E tem sucedido o contrário. 
2 - uma parte significativa da juventude mais qualificada de sempre tem emigrado. 
3 - o saldo migratório será hoje, certamente, menos qualificado do que era há duas ou três décadas.

Ouve-se também repetidamente que uma das razões pelas quais fomos ultrapassados no ranking do crescimento económico - parcela importante do índice de desenvolvimento humano,  IDH - por países de leste que aderiram depois de Portugal à União Europeia, foram, à sua entrada na UE,  os níveis de educação desses países, superiores aos observados entre nós. 

Comparando os ranking do PNUD respeitantes aos valores observados em 2000 e 2019 (ainda não se encontra disponível o relatório 2021 que publicará os dados respeitantes a 2020) observa-se que:

1 - Em 2019 Portugal ocupava o 38º. lugar do ranking do PNUD, ajustado à desigualdade (IDHAD). Em 2000 ocupava o 28º. lugar no IDH.
Comparando a evolução dos coeficientes componentes (esperança de vida à nascença, educação, rendimento nacional bruto per capita) em todos os países, observa-se que, no pelotão da UE, Portugal caiu no ranking sobretudo pelo coeficiente educação.

2 - Em 2000 apresentava um índice de educação de 0,94, influenciado negativamente pela taxa de alfabetização de adultos: 0,92.
Também em 2000 os índices de educação nos países que nos ultrapassaram nos últimos 20 anos ou progridem para nos ultrapassar, eram:
Eslovénia - 0,94 
República Checa - 0,89
Hungria - 0,93
Eslováquia - 0,91
Polónia - 0,94
Estónia - 0,95
Croácia - 0,88
Lituânia - 0,93
Letónia - 0,93
Bulgária - 0,90
Roménia - 0,88
 
Observa-se que em 2000 Portugal comparava bem com os restantes países em análise. Apenas a Estónia com 0,95 apresentava um índice ligeiramente superior a Portugal (0,94)

Em 2019 houve alteração dos índices de educação, que passaram a comparar os anos de escolaridade esperados com a média de anos de escolaridade.
 
Portugal - 16,5 - 9,3  = 7,2 anos
Eslovénia - 17,6 - 12,7 = 4,9 anos
República Checa - 16,8 - 12,7 =  4,1 anos
Hungria -15,2 - 12 = 3,2 anos
Eslováquia -14,5 - 12,7 = 1,8 anos
Polónia - 16,3 - 12,5 = 3,8 anos
Estónia -16 - 13,1 = 2,9 anos
Croácia -15,2 - 11,4 = 3,8 anos
Lituânia -16,6 - 13,1 = 3,5 anos
Letónia -16,2 - 13 = 3,2 anos
Bulgária - 14,4 - 11,4 = 3 anos
Roménia - 14,3 - 11,1 = 3,2 anos

Os números falam por si. 
Portugal apresentava em 2019 o pior número médio de anos de escolaridade.
Até a Roménia com 11,1 anos está bem acima de Portugal.

Este ano comemoraram-se 48 anos do 25 de Abril.
Tempo mais que suficiente para o presente não admitir a atribuição de culpas ao passado.
...
Correl. -Produtividade

Monday, January 03, 2022

PRODUTIVIDADE

Produtividade, produtividade, produtividade ...
Não faltam comentadores, há mais comentadores profissionais que moscas neste país, a clamar que o país está no charco porque a produtividade é fraquinha.
E é. Porquê?
Sector público e sector privado colhem, cada um, grosso modo, metade do PIB.
Qual é a produtividade do sector público em Portugal?
É difícil responder. A resposta mais simples seria o quociente entre o VAB do sector público e o número de empregos no sector, mas ficamos na mesma.
Aliás, se no VAB o pagamento de remunerações apanha a maior fatia, o aumento das remunerações no sector público sem correspondente aumento da produtividade no sector equivale a uma transferência de VAB do sector privado para o sector público.
Parece, portanto, que uma análise da produtividade do sector público só pode realizar-se por via indirecta. Se comparamos produtividade em Portugal com, p.e., a produtividade no pelotão que corre na UE, forçosamente se torna necessário segmentar a comparação.
Como comparamos a produtividade da Justiça em Portugal com a produtividade dos outros corredores no pelotão? A produtividade na Justiça é fulcral para o aumento da produtividade do país. Espero não estar a dizer nada de novo, que esteja a dizer o que é óbvio. Ou não?
O mesmo na Educação. Proclamamos que temos hoje a juventude mais bem preparada de sempre. Admitamos que é verdade. Estamos a correr no pelotão, ainda não descolámos, mas estamos cada vez mais para trás. Porquê? Comparem-se os indicadores críticos. Segundo o relatório anual do PNUD, estamos persistentemente  a cair no ranking mundial. Desde 2000, descemos do 28º. lugar para o 38º em 2019., posição, neste caso, do IDHAD, índice de desenvolvimento humano ajustado pela desigualdade. E porque caímos persistentemente? Sobretudo pelo critério de avaliação da educação.
Que fazer? Comparar e tirar conclusões.
Na estrutura do tecido empresarial. Ouve-se mil uma vezes repetido que os nossos pequenos empresários não têm formação, que os trabalhadores têm mais formação que os pequenos empresários, que a economia portuguesa vive de pequenas e médias empresas, como se tal facto fosse, por si,  uma vantagem. Não é. Temos pequenas e médias empresas a mais e grandes empresas a menos. Como fazer crescer as PME sem diabolizar as grandes empresas? Comparem e tirem conclusões.
Destaca-se, frequentemente, a importância do turismo. Mas pode uma economia que se quer produtiva e crescente sustentar-se em grande medida no turismo?
Não pode.
Há muitos anos, na ressaca do Verão de 1975, o Prof. Pereira de Moura afirmava, com nítido exagero, que o turismo é a prostituição da economia. Não é, mas vive muito da vida fácil, de empregos de baixa ou mediana qualificação. Do turismo vivem os restaurantes, de emprego não geralmente muito qualificado. O que também lhes vale é os portugueses adorarem comer em restaurantes por se terem esquecido de cozinhar em casa.


Saturday, June 23, 2018

A CRISE DA MEIA IDADE DE TIAGO BRANDÃO RODRIGUES


RETROVISOR

WEDNESDAY, NOVEMBER 25, 2015

A CRISE DA MEIA-IDADE DE TIAGO BRANDÃO RODRIGUES

Afirma-se no jornal i de hoje que "Cavaco convocou Costa para nova reunião por estar irritado com a divulgação dos nomes dos membros do seu governo antes dos mesmos terem sido aprovados pelo PR". Formalmente, o PR tem razão mas de pouco vale a irritação já que, irritado ou não, não lhe será fácil arranjar argumentos consistentes para mandar substituir qualquer dos nomes da lista divulgada ontem.

Entretanto, notícias da tarde dão conta que a posse do Governo será amanhã.

E, no entanto, é intrigante que o Sr. António Costa tenha convidado um ainda jovem (38 anos) e bem sucedido cientista para ocupar o lugar que é um verdadeiro triturador de ministros. Ao Sr. Mário Nogueira, que durante o seu consulado de vinte anos à frente da Fenprof já derrubou vinte ministros, começou logo a crescer água na boca. Ontem mesmo já deu instruções básicas ao doutor Tiago Brandão Rodrigues. E, ou ele faz o que o Nogueira manda, ou tem o pelotão de derrubamento à porta.

Mais intrigante ainda é, contudo, que o cientista tenha aceitado o sacrifício da incumbência. Terá sentido esgotado o seu filão cientista? Terá sido inebriado pelo perfume do poder político? Ou, mais cientificamente, foi prematuramente assaltado pela crise da meia-idade?
Ainda segundo a citada edição do jornal i, que resume uma notícia do "The Guardian" sobre um artigo publicado no Economic Journal, 

"a crise da meia-idade é um facto científico. Investigadores britânicos acompanharam 50 mil adultos na Austrália, Reino Unido e Alemanha e concluíram que a fase mais negra acontece entre os 40 e os 42 anos. O lado bom dessa descoberta é que, após bater no fundo, os degraus seguintes são sempre a subir até aos 70 anos, altura em que se atinge um novo pico de bem estar."

E nem Cavaco Silva pode valer ao Tiago Brandão.


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Quando o secretário-geral do PS, António Costa, o convidou para integrar as listas por Viana do Castelo às eleições legislativas de 4 de Outubro, Tiago Brandão Rodrigues pensou em dizer que não. Foi esse “o primeiro impulso”, confessou ao PÚBLICO em entrevista neste Verão. Aos 38 anos — e apesar de nunca ter sido militante em nenhum partido —, o cientista doutorado em Bioquímica pela Universidade de Coimbra é o novo ministro da Educação do Governo liderado por António Costa.
Nasceu em Paredes de Coura e sempre se considerou “um homem de esquerda”. Madrid, Dallas e Cambridge são cidades que conhece bem: viveu, estudou e trabalhou em todas elas — 15 dos últimos 16 anos foram passados no estrangeiro. Para concorrer como cabeça de lista do PS pelo distrito de onde é natural, Tiago Brandão Rodrigues deixou para trás um lugar de investigador na Universidade de Cambridge, em Inglaterra. Há cinco anos que se dedicava a estudar, no laboratório Cancer Research UK, técnicas de detecção precoce do cancro. No fim de 2013, apresentou na revista Nature Medicine uma técnica de ressonância magnética que provou conseguir detectar mais cedo e com maior precisão esta doença. Saltou para os noticiários, foi capa de revista, deu muitas entrevistas sobre a investigação que o apaixona, ganhou visibilidade e reconhecimento nacional.
Vê na escola pública e na educação para todos dois “dos pilares-mores da democracia”, sem esquecer a ciência, pasta para outro ministro. Em campanha pelo Alto Minho, Brandão Rodrigues notou “alguma resignação” por parte das pessoas. Acreditava, contudo, que o PS conseguiria “criar as condições para construir melhor”. “Não temos que baixar as expectativas de ter um Estado que as assista, um Serviço Nacional de Saúde com esperança e uma escola que as eduque”, sublinhou.
A um mês das legislativas, garantiu estar preparado para fazer parte de um meio “aparentemente não tão consensual”. Acredita que a cultura científica pode ter um contributo importante na política, “que não é um quadrado fechado”. - in Público

THURSDAY, JANUARY 07, 2016

ALGUÉM DEVERIA SAIR

Soube-se hoje que 

o Conselho Nacional de Educação, presidido pelo ex-ministro da Educação e consultor do actual Presidente da República para os Assuntos Sociais,  David Justino, defende a manutenção  de provas externas no 6º. e no 9º. ano com peso na classificação final dos alunos, e que
a maioria dos professores que o CNE ouviu queria a manutenção dos exames de português e de matemática no 4º. ano.  

Formalmente, compete ao ministro Tiago Brandão Rodrigues decidir.
Realmente, Tiago Brandão Rodrigues não tem grande margem de manobra, considerando os compromissos assumidos pelo primeiro-ministro com comunistas e bloquistas, restando-lhe desvalorizar o parecer do CNE. 

E, se houvesse sentido de Estado, ou se demitia o presidente do CNE e, eventualmente o CNE em bloco, ou se demitia o ministro.

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08/01 - 
Comunicado do Ministério da Educação , emitido esta sexta-feira, revela que os alunos do 2º, 5º e 8º anos de escolaridade vão ser submetidos a processos de aferição "antes da conclusão de cada ciclo de modo a poder agir atempadamente sobre as dificuldades detetadas". "No entanto, Ministério decidiu manter os exames nacionais de Português e Matemática no 9º de escolaridade, terminando apenas com os exames para os alunos do 6º. Os alunos do 2º e 5º anos irão realizar as provas na última semana de aulas, enquanto os do 8º vão fazê-la depois de as aulas terminarem."

É uma decisão Salomónica.

Veremos durante quanto tempo a vai aceitar o sr. Mário Nogueira.

TUESDAY, JANUARY 12, 2016

OS EFEITOS PRECOCES DA CRISE DA MEIA IDADE DE TIAGO BRANDÃO RODRIGUES

Quando há pouco mais de um mês diagnostei aqui um sintoma da crise da meia idade em Tiago Brandão Rodrigues não esperava que os efeitos começassem a fazer-se sentir tão cedo.  O ministro novo da Educação tinha, à partida,  a vida descomplicada pelos compromissos assumidos no âmbito dos acordos bilaterais que permitiram a nomeação do sr. António Costa como primeiro-ministro. Bastava-lhe despachar em conformidade e acabar com os exames de alunos e professores, o sr. Mário Nogueira ficaria sossegado por uns tempos, e quem não concordasse já teria discordado dos termos dos acordos.

Mas Tiago Brandão Rodrigues, apanhado pela crise da meia idade, não se ficou por aí, recorreu ao Conselho Nacional da Educação para um parecer sobre o assunto, e espalhou-se: o CNE defendeu a manutenção das provas no 6º. e no 9º. ano com peso na classificação final dos alunos e a maioria dos professores ouvidos pelo CNE queria a manutenção dos exames de português e matemática no 4º. ano. 

Colocado entre as exigências do sr. Nogueira e o parecer do CNE, T B Rodrigues optou por uma saída apressada que está a ser generalizadamente criticada por professores, directores de escolas e pais dos alunos. Por um lado, impõe que as alterações tenham efeitos imediatos, a meio do ano escolar, do que, se o sr. Marcelo Rebelo de Sousa não fosse candidato a PR, diria "não lembraria ao careca". Depois, acaba com as provas de avaliação, como mandou Nogueira, mas inventou outras, de aferição, a primeira das quais é realizada logo no 2º. ano de escolaridade. A reforma do ministro anterior foi completamente varrida para entrar em vigor, em passo de corrida, a 15ª alteração em 16 anos dos exames no ensino básico. 

Não é por acaso que Portugal apresenta, vd. aqui, um tempo médio baixo de escolaridade ainda que seja normal o tempo institucionalmente pretendido.

Tuesday, April 10, 2018

IVONE E A CABRA*



Há dias fomos com uns amigos assistir no "Teatro do Bairro" a "Ivone, Princesa de Borgonha".
Nunca tínhamos ido ali, nem sabíamos da existência daquele espaço  criado para artes do espectáculo
no rés-do-cão (um bar) e cave (sala de teatro) de um imóvel recuperado na Rua Luz Soriano, ao Bairro Alto.

O espaço é esteticamente agradável, o palco é uma adaptação imposta pela presença inamovível de duas colunas das que suportam o edifício recuperado. Não será pelas tais colunas que os desempenhos nos espectáculos que ali se realizam perderão aplausos do público se o merecerem. Mas tenho dúvidas se a licença de utilização daquela cave para aqueles fins teve vistoria não complacente dos bombeiros.
Continuo a pensar que se o teatro se arrasta atrás de subsídios públicos e de entradas gratuitas, em muitos casos mas não em todos, louváveis, o alheamento generalizado pelas artes cénicas não é atribuível à falta de espaços adequados mas à falta de pedagogia que o teatro deveria merecer a partir desde o ensino pré-primário até ao universitário. O teatro é a melhor forma de ler, compreender e expor, qualidades negligenciadas por muitos licenciados e doutores.
Espaços desaproveitados há vários, não é por falta de investimento público que o teatro passou a ser um espectáculo geralmente mal amado pelo público. 

No fim do espectáculo perguntaram-me:
Gostaste?
Gostei, respondi na altura. Dias depois, outros amigos, por sugestão dos primeiros, foram ver o "Ivone ...". Não gostaram.
E eu? Tinha gostado?
É um divertimento, divertiu-me, respondi.

Ontem, para desanuviamento de algumas apoquentações, recordei-me de "A Cabra ou Quem é Sylvia" de Edward Albee quando repensava a minha avaliação a quente da "Ivone, Princesa de Borgonha". O autor desta, Witold Gombrowicz, um polaco, publicou-a em 1938. Edward Albee, foi premiado em 2000 pela "Cabra ou Quem é Sylvia".

Por que é que trouxe estes dados para aqui?
Por que, pela minha leitura comparada destas duas obras, aparentemente tão diferentes, há um traço comum que as une. Quero eu dizer com isto que Albee se inspirou na obra de Gombrowicz porque, em meu entender, em cada uma delas os principais protagonistas são uma cabra e na outra uma mulher feia, mal vestida, que quase nunca fala?
De modo algum.
O tema comum é o bode expiatório, aquele que tem de ser sacrificado para que volte à  superfície a harmonia na sociedade presa a raízes contraditórias. E esse já vem de lá tão de trás, detrás até dos tempos bíblicos. O homem anda a contar as mesmas histórias há milénios, que apenas se distinguem na forma como são contadas. Porque no homem, no sapiens, pouco se mudou, se mudou alguma coisa.

Quanto ao desempenho dos actores, em "A Cabra ou Quem é Sylvia", que vimos no Teatro da Comuna, (em 2004?) recordo-me do excelente desempenho de Carlos Paulo. Em "Ivone, Princesa de Borgonha" apreciei sobretudo o desempenho da actriz que quase não fala, e de que não sei o nome.

---

*Esta expressão significa aquele que suporta a culpa de actos que não praticou, ou que é responsabilizado por procedimentos de outros.
O Dicionário de Expressões Correntes, de Orlando Neves, edição da Editorial Notícias, diz que «a origem é de natureza religiosa». Acrescenta, ainda, que «Em quase todos os credos, o bode tem um importante papel. Por exemplo, entre os Egípcios era venerado como princípio de toda a fecundidade. Nos Evangelhos é símbolo dos maus e dos réprobos. Expiar é acalmar Deus, oferecendo-lhe um gesto cultual de reparação e exprimindo-lhe um desejo de ficar limpo do mal feito. No Antigo Testamento, no Levítico (16), encontra-se, referida a Aarão, a cerimónia que deveria efectuar-se no "Dia da Expiação" (Yom Kippur). Um bode recebia como carga simbólica as iniquidades do povo judeu e era conduzido ao deserto para aí despejar todos os pecados e depois morrer.» - c/p aqui

Wednesday, March 01, 2017

TRUMP E A DEFESA DO ATAQUE

Os noticiários do mundo, vd. aqui, p.e., dão hoje destaque ao discurso de Mr.Trump ontem no Congresso, e os títulos não divergem: Mr. President Trump baixou o tom e amaciou as mensagens, mas confirmou o que já vinha anunciando: mais 10% da despesa com a defesa para o Pentágono,  54 mil milhões de dólares, outro tanto a menos para todos os departamentos não directamente envolvidos na defesa e segurança do país, o mesmo é dizer, menos para a protecção social, menos para a saúde, menos para a educação, menos para a defesa do meio ambiente.
Confirmou ainda, sem detalhar, um enorme programa de investimentos em infraestruturas que será suportado pelo crescimento económico que, promete Mr. President, triplicará ao longo do seu mandato. 

Que fará o Pentágono com tanto dinheiro? 
O Pentágono é que sabe o que deve fazer, responde Mr. Presidente, que, no entanto, já garantiu que "a América vai ganhar todas as guerras". 
Resumindo: segundo Mr. Trump, a melhor estratégia é aquela, antiga e nem sempre bem sucedida, que  garante que a melhor defesa está no melhor ataque.

Foi muito aplaudido.
Aconteça o que acontecer, nunca ninguém poderá um dia atribuir a Mr. President Trump a inteira responsabilidade das consequências deste programa dito em tom mais manso mas não menos agressivo. 



Mr. Putin ouviu e disse que logo se verá. 

Tuesday, November 15, 2016

A OUTRA GERINGONÇA

O sr. António Costa é um homem bem equipado.  Geringonças, tem duas.
Se a da esquerda embirra e não arranca, ele salta para a do lado, que com toda a boa vontade o leva onde ele quer. Aqui, por exemplo.

A propósito da revogação do limite de idade para continuar ao serviço na função pública depois dos 70 anos, comentei aqui:

Estou de acordo que as pessoas possam continuar a trabalhar para além dos 70 anos de idade, e enquanto quiserem, em funções públicas ou privadas.
Não estou de acordo que se acumulem remunerações de trabalho e pensões de reforma. Salvo se a pensão de reforma fique aquém, e na medida em que fique aquém, do rendimento líquido enquanto trabalhador.

Se, p.e., o rendimento líquido era de 1000 euros mensais e a pensão de 900, se continuar a trabalhar a reforma deverá ser de 100 enquanto se mantiver como trabalhador remunerado.

Afirma, e eu estou de acordo, que muita gente está ainda aos 70 anos com capacidade e competência que não deve ser desperdiçada. Pois muito bem: se o argumento é esse, e não o interesse na acumulação de rendimentos, a vontade de trabalhar fica confirmada com a minha proposta.

Acontece que muita gente na função pública, sobretudo, onde a avaliação de competências é geralmente excessivamente benevolente, há muito tempo que deixou de ser competente, se alguma vez o foi no exercício das funções pelas quais é remunerada.
Quem pretende continuar para além dos 70 nem sempre é competente mas porque se julga competente ou porque não se preparou psicologicamente para deixar o local de trabalho onde, não poucas vezes, há muito tempo é redundante.

Acontece ainda que - para usar o exemplo que deu da docência universitária - a idade média dos professores é já, nas nossas universidades, bastante elevada. Há eugenia típica do recrutamento de docentes no ensino superior alia-se a resistência dos que garantiram inamovibilidade enquanto aqueles que se vão doutorando no país e no estrangeiro se vêm rejeitados no seu país e têm de procurar lugar lá fora.
Não, por acaso, houve um crescimento exponencial de doutoramentos nas duas últimas décadas, mas o número de patentes registadas em Portugal continua a ser, relativamente, muito baixo. Há, felizmente, alguns raros casos de sucesso internacional que apenas confirmam a regra que referi.

Quanto à chamada ao serviço de médicos reformados é uma história que se explica, em parte, com o que atrás escrevi.
Todos sabemos que as notícias oscilaram nas últimas décadas entre a excessiva entrada de alunos para medicina - argumento da Ordem - e a necessidade de recrutamento no exterior e chamada de médicos reformados. E porquê?

Porque, para além, da política de admissão aos cursos de medicina ser influenciada pelos interesses corporativos da Ordem, também os sucessivos governos, ao introduzirem instabilidade nas regras de acesso à reforma, incentivaram muitos clínicos na função pública a reformarem-se e a passarem, muitos deles, a continuar a exercer clínica privada, acumulando pensões e rendimentos que, na totalidade, excedem bastante os seus rendimentos líquidos antes da reforma.

Evidentemente, a saída por entrada não beneficia apenas os médicos reformados. Longe disso.
Para citar um caso público recente temos o sr. António Domingues. 
Reformou-se do BPI, onde era vice-presidente - antes dos 65 anos (esgotou a competência no banco onde trabalhou durante 27 anos?) para passar a acumular a reforma com as retribuições e prémios como presidente da Caixa Geral de Depósitos.
Onde poderá trabalhar bem para além dos 70 anos.


De insubstituíveis, garante a filosofia popular, estão os cemitérios cheios.

Tuesday, November 01, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS - DOUTORA CARICA


Recebi a notícia, sem outro aviso prévio, logo de manhã, pelo telefone: 

- ...  ... Já agora aproveito para lhe dizer que vai apresentar-se aí hoje uma tal Manuela, Manuela C... da Silva, para trabalhar na sua Direcção... 
- Muito bem. E para fazer o quê?
- Qualquer coisa, invente qualquer coisa. Ela tem habilitações, é doutora ... É pessoa de confiança...

O grupo de empresas tinha sido nacionalizado na ressaca do delírio revolucionário pós-25 de Abril, mas a interferência política no recrutamento ou promoção dos quadros da empresa nunca tinha atingido notoriamente os níveis abaixo da administração. Os administradores, sim, esses eram de nomeação governamental, e rodopiavam nos cargos consoante o sentido dos vendavais políticos. Entrou gente muito competente, gente assim-assim, e gente claramente incompetente, a roçar os mais elevados níveis de incompetência previstos no Princípio de Peter, para a administração. Mas a empresa resistiu bem na prova de competitividade a que estava sujeita pela concorrência a nível mundial, cresceu e diversificou, porque a sua estrutura orgânica dorsal tinha experiência e conhecimentos que ombreavam com os melhores do sector, e não foi alterada por influências políticas. O caso da Manuela C ... da Silva seria, naquela altura, a excepção que faltava à regra.

Poucos minutos depois do telefonema que me incumbia de dar trabalho "à doutora", entrou-me no gabinete o Salgueiro carregado de notícias. Eu, que sempre fui alérgico ao diz-se, diz-se, dos corredores, na ausência de quaisquer informações sobre a senhora que iria trabalhar comigo por decisão unilateral do presidente, ouvi atentamente o Salgueiro, que teve o estranho cuidado de se certificar que as portas estavam fechadas, e falou baixinho, começando por avisar-me: Tenha cuidado com a tipa que vem trabalhar consigo! Ela é sobrinha de ... não sei o nome do tio, mas sei que foi Secretário de Estado num governo do Soares. Ora você não espera que a sobrinha de um Secretário de Estado vá trabalhar durante muito tempo sob as suas ordens, pois não? 
Olhe, meu caro Salgueiro, obrigado pelas informações que me traz mas não fico minimamente preocupado de quem a senhora é sobrinha. Se ela é, como diz, sobrinha de quem é, um dia destes talvez venha a ser administradora, tão transitoriamente como todos os outros que têm passado pelo sétimo. Quanto à hipótese que põe de ela, um dia destes, me substituir no cargo que ocupo, fique tão descansado quanto eu, isto é, totalmente. 

Quando, a seguir à hora de almoço, a  Manuela C ... da Silva entrou no meu gabinete, pensei, conheço esta cara de algum lado, era dos corredores da Universidade que ambos tínhamos frequentado. Pouco mais nova que eu, disse-lhe que me recordava vagamente dela, ela disse que não se recordava de mim. Depois deste meio empate, em pouco mais de meia hora de conversa combinámos um conjunto de tarefas que ela poderia desempenhar até que se pudesse redesenhar a estrutura orgânica da direcção de modo a integrá-la consistentemente no conjunto. E disse-lhe que deveria ir à Direcção de Pessoal preencher os requisitos de admissão estabelecidos na norma da empresa. Foi.

Passaram-se muitos meses, a Manuela C ... da Silva desempenhou sem reparos as funções que lhe atribuí, até ao dia em que fui sobressaltado por um indício de fuga de informações para a concorrência. 
Uma das suas funções era a compilação e análise de informações sobre os mercados e, durante uma reunião com um dos nossos principais concorrentes, percebi que ele sabia sobre nós mais do que devia e que, ou era bruxo, ou a Manuela andava a traficar informações reservadas. Registei e activei o meu sistema de alerta. Falei com ela, disse-lhe o que se tinha passado na reunião com o concorrente, e ela, sem deixar transparecer surpresa, respondeu-me que não fazia ideia nenhuma como é que uma informação que só era do conhecimento dela e meu tinha chegado ao conhecimento do concorrente. Será bruxo? Sei lá, respondeu ela, "yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay" . E ficámos por ali.

Ela a sair, e o Carvalhão a entrar.
O Carvalhão, um engenheiro silvicultor, cultivava a intriga mais que os pinheiros e os eucaliptos. 
A meio da tarde, saía do gabinete, e deambulava ao sabor das portas abertas. Como a minha estava quase sempre aberta, o Carvalhão não desistia de tentar contrariar a minha falta de apetite pelas últimas novidades da casa. E, como a Manuela ia a sair, ele entrou para perguntar se eu tinha cinco minutinhos, só cinco, para uma conversa do meu interesse.
Homem, desembrulhe! Quer a porta aberta ou a porta fechada? Geralmente, o Carvalhão fechava a porta, o rosário dele o mais que continha eram contas contra os adversários políticos, que, por coincidência eram os mesmos que os da Manuela e do tio da Manuela. 
O Carvalhão, não sei porque razão, não acreditava que eu fosse politicamente independente, ainda que não neutro, e não desistia de me catequizar com as virtudes do seu lado político já que, em matéria de futebol, outro dos seus assuntos preferidos de conversa, era notório que eu não dava uma para a caixa. Esperava, portanto, que ele voltasse a mais uma sessão de proselitismo. Mas não.

- Meu caro, disse-me ele quase ao ouvido, tenha cuidado com esta que acabou de sair.
- Hum! E posso saber porquê, Carvalhão?
- Cá por uma conversa que um dia haveremos de ter, mas vai ser demorada. Por agora fique sabendo que ela,  ao contrário do que se pensa, não é licenciada.
- Não é? 
- Não, não é. Mande vir o processo dela da Direcção de Pessoal.

Chegou o processo, estavam cumpridos todos os requisitos estabelecidos nas normas. Carvalhão, como pode ver, está tudo nos conformes. Não está, não. Veja a certidão da carta de curso.
Está aqui, assinada, selo branco, e tudo. Como somos mais ou menos da mesma altura, eu mesmo consigo reconhecer a assinatura. Veja melhor, insistia o Carvalhão. Mirei, remirei o documento, não vi nada que me suscitasse dúvidas. A assinatura, aliás muito simples, estava lá e o selo branco por cima. A irreprimível tendência do Carvalhão para a intriga tinha-se claramente excedido.
Bom, acrescentou ele perante a minha incapacidade de ver o que ele via, vou dar-lhe uma ajuda. Fixe-se no selo branco, o que vê? E só, então, eu descobri onde ele queria chegar. 

O selo branco era o resultado da pressão de uma tampa de uma garrafa de cerveja, ou de qualquer outra gasosa, vulgo carica, num formulário subtraído na secretaria da Universidade, sobre uma assinatura falsificada. Logo que o Carvalhão saiu, mandei chamar a Manuela.

- Manuela, este documento foi entregue por si na Direcção de Pessoal?
Ela olhou, frente e verso, e, displicentemente, devolveu-me o documento.
- Foi.
- Tem a certeza?
- Tenho.
- Não quer verificar antes de confirmar que o documento é mesmo seu, aquele que você mesmo entregou na Direcção de Pessoal?
- Não. Porquê?
- Porque este documento é falso, e se você não me entregar até amanhã, em mão, um documento que prove as suas reais habilitações literárias sou obrigado a abrir um processo disciplinar por declarações falsas graves. 

Ficou a olhar uns largos minutos para o chão, numa atitude completamente oposta da frontalidade com que dialogava com todos, e depois disse: Faça como entender. Não posso obter nenhum documento que possa validamente substituir esse. Amanhã já não volto cá.

Cumprimentei-a, desejei-lhe, francamente, sucessos no futuro, até porque, segundo me contara em tempos o Carvalhão, ela tinha cinco ou seis filhos. 
Não houve processo disciplinar, mas rescisão por mútuo acordo, com uma indemnização correspondente ao período em que trabalhara na empresa.
Nunca mais tive qualquer conversa sobre o assunto com o Carvalhão.



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Obs. - A história é verídica, os verdadeiros nomes dos intervenientes citados são outros. 

Sunday, October 30, 2016

A MAIORIA DAS UNIVERSIDADES DO MUNDO VÃO DESAPARECER

"A maioria das universidades do mundo vão desaparecer"
A conclusão não é minha.
É uma opinião expressa por David Roberts no El País de 24 deste mês.
Vale a pena ler.

Quem é David Roberts?

"Roberts es uno de los mayores expertos en tecnología disruptiva del mundo y también uno de los rostros más conocidos de Singularity University, la universidad de Silicon Valley creada en 2009 con el apoyo de la NASA y de Google."

Deve estar consciente do que afirma.




Thursday, September 29, 2016

A CEREJA EM CIMA DE UMA CONTROVÉRSIA

"... arrancaram as obras para o novo campus da Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE), junto à praia de Carcavelos e ao forte de S. Julião da Barra. O objectivo é que o projecto esteja concluído em Março de 2018 ... 
... a cerimónia foi marcada por alguma polémica, uma vez que os antigos proprietários do terreno discordam e reclamam sobre o valor pago pela Câmara Municipal de Cascais, que dizem ser demasiado baixo para o tamanho e localização do espaço. Carlos Carreiras, presidente da autarquia de Cascais, defendeu que “o terreno tinha um valor patrimonial fiscal muitíssimo baixo” e que a autarquia “não podia dar outro valor que não esse” -  aqui




- V. leu a notícia que vem hoje no Público ...
- Qual delas?
- A expropriação de um terreno em Carcavelos, com uma área equivalente a dez campos de futebol, junto ao mar, ... sabe por quanto?
- Não faço a mínima ideia.
- 132 mil euros! É a golpada do costume.
- O terreno é seu?
- Não, claro que não, mas acho que é escandaloso ... ali anda negócio ...
- Se foi expropriado por preço baixo ...
- Baixo, não, baixíssimo ... 
- Se foi expropriado por preço baixíssimo só é negócio suspeito se vier a ser vendido, mais tarde, a particular para urbanização ... É esse o caso?
- Não, não é. Vão instalar lá a escola de gestão da Nova.
- Então não vejo que possa haver, neste caso, a golpada  do costume.
- Por 132 mil euros? Menos que o valor de um pequeno apartamento naquela zona? 
- Admitamos que sejam mesmo 132 mil euros, embora eu presuma que deve haver aí falta de algum ou alguns algarismos, como é que foi feita a avaliação, sabe?
- Aplicaram o valor das finanças...
- Do meu ponto de vista, se consideraram esse valor, consideraram bem.
- É um valor baixíssimo. Toda a gente sabe que os valores das finanças estão desactualizados e os dos terrenos não têm nada a ver com os valores de mercado. 
- E qual é o valor do mercado? Houve transacções de terrenos naquela área há quanto tempo?
- Não sei. Mas muito mais que 132 mil euros valem com certeza. Que culpa têm os proprietários que as finanças não tenham os valores actualizados?
- Não sei imputar culpas mas quero acreditar que se a Câmara ... Qual foi a câmara que expropriou?
- A de Cascais.
- Hum! Não é do lado da esquerda ...não é medida anti capitalista, ... 
- É golpada!
- Como é que pode ser golpada se os terrenos são para utilização de uma instituição pública?
Se a Câmara de Cascais invocou o valor matricial para fixação do valor da indemnização aos proprietários certamente que se escorou na lei. Ou não?
- Não, porque os valores das finanças estão desactualizados ... 
- O critério parece-me justo. Os proprietários, que beneficiaram de uma tributação baixa ao longo de muito anos, devem conformar-se com o preço dos terrenos por expropriação por utilidade pública com base no valor base de incidência dos impostos. 
- Não sei se é o que está estabelecido na lei ...
- Nem eu, mas espero que a Câmara de Cascais saiba. 

Wednesday, July 13, 2016

IRONIA E REALIDADE

Enquanto Portugal se indigna com a iniquidade das sanções que estão a chegar da União Europeia e o governo português prepara a lista das atenuantes em defesa da redução da pena, os noticiários económicos relatam o espanto dos economistas de todo o mundo pelo crescimento de 26,3% do PIB da Irlanda em 2015. 



Como é que isto aconteceu?
As respostas são unânimes: A baixa taxa de impostos que a Irlanda cobra às empresas (IRC de 12,5%) continuam a atrair cada vez mais multinacionais. - cf. aqui, aqui, aqui, aqui, por exemplo. 

Entretanto, em Portugal a economia continua balbuciante e o sistema financeiro a naufragar, enredado nas malhas rotas que forjou. 


Não de propósito, recebemos hoje de pessoa amiga uma laracha, via e-mail:



"... Os portugueses já podem ser felizes porque têm quem trate das suas coisas ...

- da banca, os espanhóis;
- da electricidade, os chineses;
- dos combustíveis, os angolanos;
- da TAP, os brasileiros e os chineses;
- dos aeroportos e espaço aéreo, os franceses;
- dos correios, os ingleses, os franceses, os alemães e os noruegueses; (os noruegueses também nos tratam do bacalhau, acrescento eu)
- das comunicações, os angolanos e os franceses;
- da moeda, o Banco Central Europeu;
- do governo, a Comissão Europeia;"

A lista está longe de ser completa (ocorrem-me, por exemplo, os holandeses na Sociedade Central de Cervejas (100%) e os dinamarqueses na Unicer (44%).

É a presença do investimento estrangeiro culpada do nosso arrastamento?
É muito óbvio que não, e o exemplo irlandês é a prova concludente do contrário. 
Sem investimento estrangeiro Portugal não conseguirá atingir níveis de crescimento que o desafoguem das águas estagnadas em que mergulhou. Do que Portugal não precisa é de investimento financeiro, improdutivo, aquele que entra para comprar o que existe e cobrar as rendas dos capitais aplicados em actividades de monopólio de facto. 

Observe-se que a Irlanda não oferece apenas taxas reduzidas de impostos às multinacionais. Oferece-lhes também competências. Ao Reino Unido, após o Brexit, presta-se para oferecer-se como relais nas relações financeiras com a UE. 
E, nós, como vamos de competências futuras?

Porquê?  O ministro Mário Nogueira deve saber. 
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Sunday, July 03, 2016

AQUI HÁ GATO

Das três funções primordiais do Estado - educação, saúde e justiça - é na saúde que Portugal mais tem conseguido progredir nas últimas décadas. 
Segundo os relatórios do Desenvolvimento Humano da ONU - vd. aqui - Portugal caiu 15 lugares, de 28º. para 43º, no ranking entre 2000 e 2014, fundamentalmente devido aos maus resultados obtidos na educação. 
Quanto à justiça, a avaliação do seu desempenho caiu há muito tempo na praça pública e as consequências do fracasso são notórias na frequência com que se repetem as notícias desabonadoras. Pelo contrário, são muito positivos os resultados divulgados na área da saúde.

São no entanto incompreensíveis algumas notícias vindas a público.  

Ouço na rádio, há dias, e confirmei aqui, que,

"segundo um inquérito realizado pela secção centro da Ordem dos Médicos em 2015, os clínicos sentem-se pouco realizados e cansados, 25% apresenta sinais de depressão e 16% trabalha 60 a 80 horas semanais" ... "são os clínicos mais jovens, entre os 26 e os 35 anos, que mais sentem os efeitos do burnout" . ... "a maioria dos médicos trabalha em regime exclusivo para o SNS e são estes que apresentam níveis maiores de exaustão emocional e menos realização profissional, 53,2% faz entre 40 a 60 horas  semanais e 15,9  e entre 60 e 80 horas. Mais de metade faz urgências e 44% trabalho nocturno"

Situações destas, pensa o cidadão comum, podem provocar erros médicos. Como é que se explica isto, quando, segundo outras notícias vindas a público recentemente, não estão agora garantidas vagas de acesso às especialidades a todos os candidatos? Como é que se explica a reposição das 35 horas semanais para a função pública ao mesmo tempo que para mesma entidade patronal trabalham profissionais obrigados a horários de trabalho de tal modo esgotantes que podem colocar vidas em perigo? 

Um relatório do FMI, que referi  aqui critica a reposição das 35 horas semanais, mas não há nenhuma alusão ao trabalho extraordinário de médicos que ultrapassa aquele valor e duplica a carga horária semanal considerada adequada para a generalidade da função pública.

Ontem, ouvi a notícia do anúncio de uma greve dos enfermeiros que reclamam, além de mais, a aplicação do horário de trabalho de 35 horas a toda a classe, incluindo aqueles que têm contrato individual de trabalho.

A Ordem dos Médicos, secção centro, faz inquéritos que concluem pela necessidade de mais profissionais mas o sistema (o sistema tem sempre as costas largas) não tem capacidade para os admitir em formação nas especialidades.
Por outro lado, aparentemente, a situação é tolerada, ou até bem recebida, pela generalidade da classe, que assim compõe uma retribuição condigna porque o vencimento base fica muito aquém.
Que pretende a Ordem?

Sunday, May 29, 2016

O JOGO DA CABRA CEGA


Segundo o mesmo Obervador, de ontem, a PGR dá e não dá razão ao governo
"Mesmo sem dar a cara em público,o ministro da Educação conseguiu uma vitória: o conselho consultivo da PGR dá razão ao entendimento do Governo nos contratos de associação, e António Costa manteve-se firme e, sem recuar no braço e ferro com os colégios privados, mesmo contra a vontade do Presidente da República" - lê-se na pg.02 do primeiro caderno.

La donna è mobil/Qual piuma al vento ...

Tuesday, May 17, 2016

UM FATO PARA UM MARRECO

- É uma abdicação.
- Discordo. É o reconhecimento da imbecilidade deste ministro da Educação. Concordo totalmente com a decisão do ministro da Defesa. O ministro da Educação é uma marioneta do Nogueira, é, portanto, muito natural que rejeite a intromissão do Nogueira nos colégios que dele dependem.
- Não creio que a rejeição seja do ministro da Defesa ...
- Nem eu. Quem rejeita é a tropa, visualmente é o ministro da Defesa.
- Insisto: dando por adquirido que este ministro da Educação faz o que lhe manda fazer o Nogueira, a aceitação do governo é uma abdicação.
- Talvez. Mas, reconheça-se, este governo não tinha alternativa.
- Então a abdicação, neste caso, não seria evitável com a demissão do ministro.
- Ah, pois não! Se o ministro da Educação não é imbecil está a fazer o papel que aceitou desempenhar.  A partir do momento em que o actual primeiro-ministro aceitou as regras impostas, neste caso, pelo Nogueira, aquando da assinatura dos acordos que lhe permitiram ser primeiro-ministro, o ministro da Educação faz o que manda o Nogueira, salvo se a tropa ou a igreja dizem que não.
Nestes casos, até o Nogueira baixa a garupa.
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Correl. - 24/05/2016
Fenprof vai processar JSD por ter comparado Nogueira a Estaline


Saturday, May 07, 2016

EXPLICAÇÃO DO MAU TEMPO

4 de Abril de 1949

"Hoje vamos aprender que devemos sempre, sempre, cumprir o que prometemos. Se não cumprimos o que prometemos poderemos ter de pagar pelas nossas faltas. 
Abram "O Livro de Capa Verde" na página 31.
Começa a ler o Raul"



Clicar para ampliar



Saturday, April 23, 2016

O EXAME DO MINISTRO

Esta semana foi feita a avaliação de desempenho do ministro da Educação e, vd. aqui, e "teve nota positiva. Teve alguns bons desempenhos, tem algumas hesitações, mas o avaliador vai dar-lhe oportunidade para que ele  diga exactamente ao que vem." 
Mas a advertência do avaliador é um simulacro porque, há quatro meses o avaliador disse ao ministro o que pretendia e o ministro aceitou submeter-se às ordens dele. 

O ministro veio para obedecer ao avaliador, e assim continuará se quiser manter-se no lugar. 
O ministro e o Governo. 



Wednesday, April 13, 2016

A GUERRA DA CAPOEIRA

O CEME apresentou pedido de demissão ao PR, e o PR não demorou tempo a aceitar-lhe o pedido.
Caiu-lhe a capoeira em cima.
Fez bem o PR em não contribuir para aumentar a poeira polémica que o caso em questão inevitavelmente levantou.

Inevitavelmente, porque há, porventura, razões respeitáveis de ambos os lados - castrense e político - mas não podem subordinar-se as leis da República aos regulamentos da disciplina militar.
Neste caso, o confronto acontece porque subsiste uma situação em que a tutela de uma escola secundária pública escapa, e não devia escapar, às atribuições do Governo na matéria.

O PR fez o que devia.
Falta ao Governo fazer o que lhe compete, retirando do âmbito do Estado Maior do Exército a competência para interferir num assunto que exorbita das suas atribuições militares, e integrando as escolas secundárias ainda sob alçada castrense na rede de escolas públicas do país.
Mas isso não vai acontecer. O ministro da Defesa falou alto de mais mas por prosápia.

Friday, April 01, 2016

O SENHOR DEPUTADO É RACISTA!

No debate quinzenal de anteontem na AR o Primeiro Ministro (PM) acusou o presidente do principal partido (PPP) de pretender o máximo de exames no ensino com a ideia de que "quanto mais chumbos, melhor se apura a "raça dos eleitos".
PPP tinha afirmado momentos antes que "acabar com os exames no ensino piora a qualidade do ensino". 
Há três meses, a líder do Bloco de Esquerda (LB) tinha dito, vd. aqui, que "queria ser operada por um cirurgião que em vez de testado na escola tenha sido feliz na escola". 
Resumindo: Duas escolas de pedagogia em confronto.
De um lado, o hedonismo da LB, e, contratualmente, do PM; do outro, o estoicismo do PPP.

Registe-se, antes de mais, o paradoxo deste confronto corporizado, (por exemplo, porque casos destes abundam) no sr. Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas (MR), braço direito, ou esquerdo, ou os dois braços, do PPP : MR com quatro cadeiras (não necessariamente quatro exames) licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais, tornando-se um eleito pela via da felicidade, contrariando a teoria do PPP.

De muitos se conhecem os currículos com mais exames que um enxame de abelhas, que não chegam, nem chegarão aos calcanhares de MR, e de vários outros personagens públicos com CV semelhantes. Quod erat demonstrandum: os exames são um empata eleitos e não, como pretende o PM, um apuramento racista de eleitos.

Assim sendo, urge retirar destas evidências as racionais consequências, acabando todos e tudo o que com exame se assemelhe. Em todas as escolas, incluindo as escolas de condução. Os exames de condução são um pavor que tem obrigado muitos eleitos a desistirem  de ter os seus pópós. Que frequentem uma escola, vá lá, até porque a actividade emprega muita gente, mas obrigar os pretendentes ao volante a exames de código e condução, induzem nos condutores traumas de menos felicidade  que se lhes depositam nos crânios para o resto da vida, sendo provavelmente a maior causa da elevada sinistralidade na estrada observada em Portugal.

E os exames médicos?
São um flagelo para a nossa felicidade individual e colectiva. Quem é que nunca sofreu a ânsia extrema e prolongada de espera dos resultados de exames médicos? Não há quem, a menos que seja feito de pau.
Sem exames médicos, aumenta-se a alegria de viver e reduzem-se flagrantemente os custos do financeiramente arrombado Serviço Nacional de Saúde.

E os exames às contas do Estado?
Uma exercício de sadomasoquismo colectivo sem sentido porque as contas públicas, como repetidamente se comprova, estão sempre erradas.

E abatam-se ainda, e antes que todos os outros, os atormentadores exames de consciência!

Tome nota disto, sr. Primeiro Ministro!