Tuesday, July 05, 2022

A CULPA DOS RUSSOS

...

- Também discordo da invasão da Ucrânia, mas ...

- Aquilo não é invasão, aquilo é arrasamento, genocídio; o que os russos estão a fazer é uma destruição de cidades inteiras, atingindo indiscriminadamente não só instalações militares como edifícios civis, incluindo hospitais, maternidades, escolas, centros comerciais, zonas residenciais, bombardeados por mísseis disparados de longas distâncias. ..

- São imagens horríveis, sem dúvida. Mas não devemos confundir Putin e a governo do Kremlin com o povo russo ...

 - ... o ditador dá ordens para disparar para objectivos calculados com grande precisão que os meios de localização hoje permitem, e o míssil sai, e dentro de segundos o objectivo é atingido, os edifícios destruídos, as notícias são conhecidas em todo o mundo livre, os mortos, os feridos, e o ditador rebola-se contente e feliz. E o povo aplaude! 

- Não sei se o povo aplaude ...

- É o que dizem as sondagens feitas por instituto russo de idoneidade reconhecida: oitenta por cento dos russos está do lado de Putin e dos seus capangas. Os russos, na sua esmagadora maioria batem palmas  aos sucessos da pontaria dos seus mísseis disparados de longas distâncias.

- Há quem discorde ...

- Há, desde que não se manifeste. Aqueles que se manifestam ou são presos ou envenenados à distância, sempre bem longe do refúgio do assassino,

- Não pode menosprezar-se o facto de grande parte do território russo fazer parte do continente europeu e a sua cultura. Grandes nomes da cultura europeia eram russos: Tolstoi, Dostoievski...

- Dostoievski, o nome maior da literatura russa e um dos maiores da cultura europeia, foi condenado a trabalhos forçados na Sibéria, acusado de conspirar contra o czar. Há outros grandes nomes da cultura russa,  e, portanto da cultura europeia, não só no campo da literatura e da música; Pushkin, Tchekhov, Gogol, Tchaikovsky, Rachmaninoff, Stravinsky, Prokofiev ...Prokofiev morreu no mesmo dia que Stalin mas a sua morte não foi desde logo anunciada para não ofuscar as homenagens que o regime prestou ao ditador. Mas que luminosidade se projectou sobre a cultura de um povo, na sua imensa maioria ignorante e servo? Quase nenhuma, se alguma existiu. O mesmo se pode dizer da literatura e da música durante o regime soviético, durante o qual aqueles que ousassem contestar o regime ou emigravam ou eram perseguidos e desterrados para a Sibéria. Leu o Arquipélago de Gulag?

. Não podemos ostracizar nem desvalorizar a cultura russa...

- Obviamente, não. Mas a maioria do povo russo que apoia Putin não o faz por orgulho nos seus poetas, escritores, compositores, másicos, artistas, mas por admiração pela ambição desmedida de um ditador querer conquistar o mundo. É a ele que bate palmas, não bate palmas a Dostoievski. Aliás, esta situação não tem nada de original, tem-se repetido ao longo dos séculos. Quem aplaudiu de forma acéfala Hitler, Mussolini, e outros ditadores menores, não foram povos com culturas recheadas de nomes que iluminaram o mundo mas se apagaram quando o delírio dos povos os fez matar e morrer por causas apenas movidas por promessas de fortuna e poder  que os demagogos nunca podem cumprir? Goethe, Thomas Mann, Dante, Beethoven, e tantos outros? Não aplaudiram os franceses, entusiasticamente, as tropas nazis a desfilarem nos Campo Elíseos? Não todos, evidentemente. Mas de que lado estava naquele momento o povo francês? Quantos, dos que aplaudiam Hitler nos Campos Elíseos eram o povo francês?  Os que resistiram, relativamente poucos, na clandestinidade?Vítor Hugo,Voltaire, Claude Monet, e tantos outros, quem inspiraram naquela época de vergonha que nem a Marselhesa motivou?

- Putin não é Hitler.

- Não, Putin não é Hitler, porque Putin é muito mais perigoso com as armas, sobretudo o arsenal atómico  de que dispõe e que Hitler não tinha. Hitler, mesmo que quisesse, no momento em que se viu encurralado no bunker com os seus mais fiéis, não podia eliminar a espécie humana. Putin pode.

- Não acredito nisso. A decisão de usar o armamento atómico não depende apenas dele.

- Ninguém sabe como uma decisão dessas será tomada, agora ou algum momento no futuro, desencadear uma guerra atómica. O que se sabe é que instintivamente o ser humano tem como objectivo imediato salvar a pele e apoiar a decisão do comandante para não considerado traidor e eliminado imediatamente se manifestar desacordo.

Sunday, June 19, 2022

O MEDO DOS VIZINHOS DA RÚSSIA

 
Entretanto, o vice-primeiro ministro da Moldávia insistia na necessidade de expansão da UE: 
Moldova’s deputy prime minister urges the EU to expand its membership.Nicu Popescu says his country is eager to join - c/p aqui
 

AFTER THE great destruction of the second world war, there was a singular purpose behind the creation of what is now the European Union: lasting peace. The EU must renew its commitment to this mission in light of Russia’s invasion of Ukraine. And enlargement is the most effective instrument that it can use to foster peace and bring stability to fragile eastern Europe.

Article 49 of the founding treaty of the EU establishes that any European state which respects human dignity, freedom, democracy, equality, the rule of law and human rights, and which is committed to promoting them, may apply to become a member of the union. Moldova is committed to these values. We have demonstrated it the hard way. 

O alargamento da UE não será um caminho fácil nem isento de grandes riscos políticos, económicos e sociais. Sendo um caminho minado, o avanço precipitado pode destruir irremediavelmente a ainda frágil solidez da unidade dos seus actuais membros, mas o retardar do acolhimento dos que, por medo dos vizinhos russos, estão ansiosos por se libertarem das ameaças que tempos ainda recentes lhes recordam, será uma vitória de Putin, que o incentivará a progredir na sua habitual prática de arrasamento e genocídio imparáveis.
 
Imparáveis, enquanto na UE não houver liderança firme, férrea e convicta de que o monstro pode e deve ser derrotado. A ideia de que Putin não pode ser humilhado nem derrotado significa, para os vizinhos da Rússia, e todos os que são vizinhos dos vizinhos, isto é, aqueles que, por agora, vivem em sociedades livres, o reconhecimento de que o despotismo está de volta e disposto a eliminar, mas desta vez, se for encurralado, a extinguir a espécie humana com o holocausto nuclear. 

Wednesday, June 08, 2022

PAULA REGO

                     "A arte é a melhor forma de vingança?" 
                     Foi o único método que encontrei"
 
 

 A pintora Paula Rego, uma das mais aclamadas e premiadas artistas portuguesas a nível nacional e internacional, morreu na manhã desta quarta-feira em Londres

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 Lunch with the FT: Paula Rego : September 4 2009

This bell does NOT work,” reads a note stuck on the door to Paula Rego’s studio in a street of mews conversions and small warehouses in Camden, north London. I knock half a dozen times before a face appears, her wide blue eyes, crooked teeth and furrowed features framed by spiky auburn hair and gold hoop earrings. Rego beckons me into a huge, light interior, a former stretcher factory. The door snaps shut and a bucket suspended by a rope from the glass roof swings before me. Hanging over the edge of the bucket, about to be tossed out to their deaths, are two lifelike and compelling plastic baby dolls.

“I had an old woman holding them but I needed her for something else,” Rego remarks. Nearby what looks like a foetus lies in a sink, a blackboard towers over a gaggle of terrified ragdoll urchins, and a plastic figure with a skull head, twisted matt hair and purple robes is “Dona Violetta, my teacher when I was 10. She was horrid, I’ve never stopped punishing her.” Rego is one of the greatest living painters. For four decades, as minimalism, pop and conceptualism ebbed and flowed around her, she has stuck doggedly to a narrative art as gripping and powerful as it is unfashionable. A new museum dedicated to her work, the Casa das Histórias Paula Rego, is shortly to open in Cascais, up the coast from Lisbon, near where she lived as a child. This “House of Stories” pays tribute to Rego’s reinvention of visual storytelling in a contemporary idiom, at once savagely realistic, rich in fantasy, and rooted in folklore. Rego talks fast in a high, lilting voice and darts among her ghoulish figures energetically, though she notes that she is 74 “and my grandmother died at this age; now it’s my turn”. She picks up a dirty stuffed toy monkey sitting in an ornate 19th-century chair, and cradles him in her arms. “He is the only thing Bertha was allowed to take with her into the mad room, she kissed him so much his fur wore away.” The reference is to lunatic Mrs Rochester, and plunges us into the world of Jane Eyre. Rego’s series of lithographs inspired by the novel, first exhibited in 2003 and printed in a de luxe edition of the book, are celebrated. In her introduction, Marina Warner commented that through the rebellious vitality of the lithographs Rego explored, as Charlotte Brontë did 150 years earlier, “the conditions of her own upbringing, her formation as a girl and woman, and the oscillation between stifling social expectations and liberating female stratagems”. Rego reinvented rather than merely illustrated the world of the novel; the limp, pathetic monkey, for example, is her own addition, as is the oversized chair, a remnant from a film version of Alice in Wonderland directed by her son Nick Willing. Elfin and delicate in a blue blouse, black T-shirt and leggings, Rego contrasts vividly with her shocking, cruel creatures, modelled in plaster, fabric and plastic, before she casts them as characters in painted tableaux. “I don’t seem to be able to do without the models, it’s a bloody nuisance,” she says. It is a unique creative process and makes walking into her studio appear unnervingly like walking into her mind. Rego has declined a restaurant lunch because she is working frenziedly towards the exhibition that will open the museum this month. I have brought Singapore chicken noodles from Marks and Spencer. “I love noodles,” she whoops. She microwaves spicy rice with chorizo, prepared at home by her Portuguese housekeeper, and places the rice in a plastic dish alongside some mushroom quiches. Then she digs around for plates and fixes drinks (“it has to be tap water”). We eat beneath a giant altarpiece dramatising the cruel history of single mothers and orphans in 19th-century London, which Rego recently completed for the nearby Foundling Museum, set up on the site of the foundling hospital established by 18th-century philanthropist Thomas Coram. She takes me through the narrative of her unfortunate heroine. “I was dying to do it,” she says. “Look – these are drawings before the girl gets pregnant, here’s the rape, here she’s giving birth by moonlight on her own, then she throws the baby out of the window like Michael Jackson.” It is a typically vigorous piece of feminist storytelling, made more affecting by a central group of children in clay, one holding a wizened grandmother wearing a nappy, another “is giving this boy his titty because he’s feeling so lonely. This is what went on – the streets of London were full of dead babies, just thrown away.” As I tuck into the steaming rice, Rego fixes me with a glinting eye and begins another tale. “There was a poor couple with children. One day the father came home and there was no food, so the mother cut off her left breast and cooked it. He ate it and said, ‘Delicious’. Next day, again no food, so she cut off her right breast. ‘Delicious’, he repeated, ‘but why are you bleeding?’ ‘I cut off my breasts for you to eat,’ she said. ‘O bother’, he replied ‘now I’ll have to start on the children’.” My forkful of rice is suspended in mid-air; Rego is toying abstractedly with the noodles. “This thing of pleasing your husband, it’s universal, the cruelty and the idiocy,” Rego continues. “Other stories have witches and so on doing dreadful things, but in Portuguese ones the people do it to themselves – it’s like in life – that’s why you identify with them. There is nothing more violent or tender than old Portuguese tales. This is what we must preserve, this is the truth in us all. I don’t want a museum of this or that name” – her voice trills in mockery – “I called it the House of Stories because that’s what I deeply believe in.” Born in 1935, Rego caught the last days of an oral storytelling tradition that survived in Portugal a century longer than in more industrially advanced nations. Such tales have, she reckons, “a richness equivalent to a kind of religion”. An only child in a privileged family, she grew up with a bevy of retainers, including “an old woman who used to come up to my bedroom and tell me stories because I was scared of the dark”. Her childhood was “both happy and unhappy”, above all when, as a toddler, she was deserted by her parents, passionate Anglophiles, who spent a year in England, leaving her for alternate weeks with “an aunt who never moved from her chair; I cut up the curtains and threw them out of the window, my taste for collage came from there”, and grandparents she adored. “They had a model pig, you turned a key in its bum and it moved.” She waves her hands comically. Her grandfather introduced her to Dante, Gustave Doré’s drawings, the films of Disney and Buñuel – all influences in her work – and his gifts included Wizard of Oz shoes and a bathing costume for every day of the week. She failed to recognise her parents when they returned, and a sense of fear never left her. She began drawing at four. “I did punishments to the people I didn’t like,” and portrayed her mother as a cabbage doing the ironing: “When I told her the cabbage was her, she said, ‘Oh, you make me look so young!’” She finishes the noodles. I have devoured the rice and quiches and proffer a box of cherries. We eat our way through them as she tells me how she came to finishing school in London at 16, then attended the Slade [art school]. “They said, ‘She’s a rich girl, she won’t stick to it, she’ll get married, she can come part-time and draw statues’. After a year they let me stay. The Slade is a killer – I became shy there.” She fell in love with an older student, Victor Willing, already married, and became pregnant at 20. “I told my father on the phone. He arrived by car from Lisbon 36 hours later and drove me home. We listened to opera all the way; he was in a very good mood. My mother wasn’t. He took her to the beach so she could scream on her own. She screamed and screamed.” Some months later, Willing travelled to Portugal to join her and they later married in London. “I was so happy to be married. I loved him so much, so much. It was a great honour to be married to him.” They had three children and at first lived in Portugal, working together in “a huge barn, divided with a straw mat; he had the left side, I had the right side. Big white owls used to fly in. I was jealous of him, I still am. He’s much better than I am. He was immensely intelligent and knew how to do pictures. He always had a book of Matisse next to his paintings. I hated Matisse.” They returned to London and, in 1973, while making a key work, “The Dogs of Barcelona”, Rego had what she calls a “funny turn”. “I had a tendency to depression and I went to a Jungian psychotherapist – that’s where the stories came in. I realised I didn’t have to do art. Matisse is art, Picasso isn’t art – he’s how things are.” She rejects absolutely a link between depression and creativity. “No, the real whoppers are not part of the creative life. I’m a manic depressive, I can’t help it. I think it’s something that happens in your brain. The way out is drawing – I only feel really well when I am drawing.” Willing died of multiple sclerosis in 1988. Did her work change? “Yes,” she answers without hesitation. “Everything I did I would show my husband so he could tell me if it was all right or not. When he was ill, I rolled up my paintings and took them home to show him – like ‘The Maids’. He said, ‘You’ve got good figures but you can’t see them – all that furniture is rubbish.’ So I painted it out. These peculiar perceptions are left; and then it worked.” “The Maids” (1987), depicting a pair of servants turning murderously on their employers, was a landmark. That year, she joined the Marlborough Gallery and Charles Saatchi began buying her work. Saatchi acquired an impressive collection of her paintings and drawings and held on to them, she says wryly, “longer than most”. This year he needed to sell, to fund his new London gallery, and threatened to put them on the open market; Marlborough “saved my bacon” by negotiating with him to buy the lot. The haul includes “The Maids” and another notable work of menace and abuse, “The Policeman’s Daughter”; these and many more bought by the gallery from Saatchi will feature in the Cascais opening show, along with some of Rego’s favourite pieces. “My animals are going” – she means the gigantic, floppy creatures in her large pastels inspired by Martin McDonagh’s play The Pillowman; so are portraits of her children (“they look like animals, they’ve got beaks”), the gold-grey “The Angel” – “very important to me, an avenging angel”, she hisses – little-known early drawings, and an example of every print she has made. Rego produces an apple tart, cuts it into slivers but, discussing the forthcoming show, becomes too tense to eat. She is honoured by the museum, yet nervous. She inherited her mother’s house in Estoril and built a studio, but “I couldn’t work there. It takes you back to when you were little. My parents’ bedroom still smells, the ghosts are around one like mad – I can’t rid myself of them. You’re not free in Portugal. I can’t talk about art in Portuguese, you know.” However, she always speaks Portuguese with her children (“we meet every week to talk”), the housekeeper “who looks after me, I wouldn’t want to live alone”, and Lila Nunes, her regular model of 20 years. I suggest that her work follows an Iberian tradition of painting fear – El Greco, Goya, Picasso – and she looks astonished at the comparison. Her favoured medium is pastel, and she admits that she is a skilled printmaker, but “I’m not really a painter, I draw,” she says, then thumps her elbow on the table. “I can’t do oil – I must learn – you’re not a painter till you do oil. And it does matter. Even now, I don’t believe my work is good.” What about when she is making it? “That’s different. I love doing it, and have hopes that I am doing something truthful – no, new – a discovery into secret passages and secret ways, arriving somewhere you haven’t been before. But when it’s finished it very quickly palls. Perhaps I’ll do one work I really like, you never know.” 

She looks suddenly both weary and urgent. I remember that she has thrived by being left alone. She bids me goodbye charmingly but, as I slip out into the din of Camden, I sense her relief at having her studio-playroom to herself again. Casa das Histórias Paula Rego, Cascais, Portugal, opens on September 18; 

www.casadashistoriaspaularego.com Jackie Wullschlager is the FT’s art critic

 

 

Sunday, May 29, 2022

QUANDO O DITADOR DIZ "DANÇA!", UM HOMEM SÁBIO DANÇA

 

Vi-o pela primeira vez há cerca de trinta anos na Embaixada da Finlândia em Lisboa. Os diplomatas nórdicos promoviam naquele tempo, presumo que não tenham, entretanto, abandonado a diplomacia económica, encontros de promoção das relações de sectores de actividades onde tinham posição relativa relevante.
Ele já me tinha telefonado duas ou três vezes nos últimos anos, alguém ter-lhe-ia indicado o meu contacto, tratava-se de desbloquear questões menores, encaminhei-o para quem podia dar-lhe a informação possível, mas nunca, até ali, o conhecera pessoalmente; sabia apenas que representava a sua empresa no nosso país. 
Na Embaixada, apresentou-se-me um homem alto e forte, a cara redonda, rosada, amabilidade no olhar, a declinar a aparente força física do personagem. Quando entrei na sala de reuniões encontrei a animação normal nestas situações, meia dúzia de grupos de copos na mão, um empregado de bandeja, bebidas e mini salgados, cirandava no meio dos convidados. Mal entrei, apareceu um funcionário que, já avisado pela recepção, me disse que o sr. M., já presente na sala, gostaria que eu lhe fosse apresentado.  

Suponho que é  a primeira vez que vem a estas reuniões na Embaixada, perguntou-me M., ...

Sim, é a primeira vez; ando frequentemente em viagem, deslocações para contactos com clientes, fora do país, até agora nunca me foi possível aceitar os convites que me enviaram ...

A quem o diz, meu caro amigo, a quem o diz... andei trinta anos em tournée, até ter decidido candidatar-me a uma posição mais tranquila. Ainda assim, antes de ser colocado aqui, estive em mais de meia dúzia de delegações da Empresa, na Europa e nos Estados Unidos. Agora, espero que os anos passem, faltam-me dois ou três para a reforma, e, muito provavelmente, continuarei por cá a desfrutar o clima, a cozinha e a simpatia dos portugueses ... Adoro este país, fique sabendo! Mas continuarei a passar largos períodos na minha terra natal; fifty-fifty é o meu objectivo ... Conhece a Finlândia? Pergunta desnecessária... é mais que óbvio que conhece.

Estive na Finlândia cerca de uma dezena de vezes, por razões profissionais, mas salvo uma ou outra ocasião, não passei de Helsínquia; No último dia de um congresso estava prevista uma deslocação extra-programa até a Rovaniemi, à Lapónia, e fui até lá; aliás, tanto quanto me recordo, todos os participantes no congresso se inscreveram na excursão e foram pôr os pés no círculo polar ártico, ... sem o ver... 

À Lapónia …, também eu, que sou finlandês, e já lá estive várias vezes como cicerone de clientes, fornecedores e amigos, tenho o certificado de ter pisado o círculo; Rovaniemi, a cidade de Santa Claus ... faz parte de muitos roteiros turísticos; é encantadora; Lamentavelmente, restam pouquíssimas casas antigas, que, na sua quase totalidade eram de madeira; cerca de noventa por cento da cidade foi incendiada pelos alemães em 44, após a rendição nazi; Os soviéticos tinham invadido a pequena e pacífica Rovaniemi em 39, mas foram expulsos em 40; para evitar o retorno dos soviéticos aceitou-se aliança com os alemães; com a derrota à vista, os alemães saíram de Rovaniemi em 44 mas, sem razão nem interesse algum, antes de partirem incendiaram a cidade. 
A Rovaniemi actual foi recriada por Alvar Aalto, o nosso Nobel de arquitectura, o seu plano urbano replica a forma de uma cabeça de rena, as ruas da cidade, os chifres do cervídeo. 
Não deu por isso; ninguém dá senão for informado ... 
Rovaniemi, das auroras boreais; aconteceu-lhe assistir a esse fenómeno natural lindíssimo? 

Tive essa sorte, sim.

Parabéns! As auroras boreais são frequentes nas proximidades do círculo polar ártico, mas não prometem aparecer sempre a quem se desloca lá de propósito para as observar. Agora os invasores são turistas ... muitos turistas ... turistas a mais... mas pacíficos, e Rovaniemi tornou-se um centro turístico importante do país; que, contudo, foi bem premiado pela natureza. Os nossos rios, os nossos lagos, as nossas florestas, ...  teve oportunidade de se deliciar nos meandros de tanta abundância natural?

M., falava como quem segreda, suspendia o seu contido entusiasmo apenas quando um ou outro convidado, a passar por perto do canto onde nos encontrávamos o cumprimentava. 

M., temos de falar. 

M., ouvia e repetia: Pois temos, pois temos. Não demoro. 
A propósito: apresento-te o sr. F., sr. F., este é  ...

Percebeu-se que M., tinha uma agenda de encontros bilaterais já bem preenchida, o entusiasmo do meu interlocutor na promoção do seu país tinha de ficar por ali.

Desculpe-me, tenho uma série de compromissos para esta tarde, mas não me quero esquecer de lhe agradecer a amabilidade da sua cooperação no estabelecimento de contactos que me ajudaram a solucionar uma série de problemas que tinha pendentes há já algum tempo.  
Gostaria de poder continuar esta nossa primeira reunião ... 
Podemos jantar um dia destes para uma divagação sem tempo limitado? Resido em Cascais, conheço um bom restaurante no Guincho, podemos agendar para ... vejamos as nossas agendas ... ....
Posso reservar?

Chegámos ao mesmo tempo ao restaurante, eram sete e meia da tarde, a hora em que o restaurante começava a servir refeições. M. tinha reservado uma mesa no exterior, numa varanda longa de madeira sobre os rochedos que o mar, naquela tarde, de maré cheia, abraçava suavemente.

Considero este sítio um lugar esplêndido, quando o mar está chão, como agora, e a brisa é amena, refrescante, isto é o paraíso terrestre... 
O que é que o meu convidado gostaria de jantar? 
Peixe, claro ... não faria sentido jantar carne aqui com o mar a espreitar-nos.

Escolhidas as entradas e o prato principal, dourada ao sal para ambos, as bebidas, M., demorou o olhar extasiado sobre a linha do horizonte.
 
Isto é lindo em qualquer parte do planeta desde que, como aqui e agora, os nossos sentidos não sejam distraídos dos sons da natureza por ruídos do bicho humano. São revigorantes estes momentos de contemplação em silêncio, a encher o peito de ar fresco desta maresia discreta; a mim, ajudam-me a sobreviver no meio do turbilhão dos dias...
Há dias, durante o encontro na Embaixada, penalizou-me não ter tido mais tempo para falarmos. Só soube da sua participação quando entrei e vi o seu nome da lista de convidados; tinha-me comprometido com dois ou três outros amigos alguns momentos que tinham mais a ver com agendas de torneios de golfe que de abordagem de algum negócio pendente. Aliás, aqueles encontros são óptimos para as pessoas se conhecerem pessoalmente mas, convenhamos, não são momentos para se acertarem ou concertarem questões de negócios. Joga golfe?

Mal; tão mal que não devo dizer que sim, que jogo golfe; passeio os tacos, e, só pelo prazer do passeio, para mim vale a pena andar atrás das bolas ... 
 
Tem o perfil ideal para ganhar o vício, garanto-lhe; não desista; se quiser juntar-se ao nosso grupo, tudo gente já muito madura e mais que amadora, terei muito gosto em propor a sua adesão; pense nisso e depois diga-me que aceita o meu convite ... Portugal tem excelentes condições para atrair golfers de toda a Europa. É hoje um país tranquilo, depois das dores de parto da democracia, há ... dezoito anos? Aqui nunca chegará nenhuma guerra...
 
Estivemos treze anos em guerra; mobilizou e deixou marcas em muitos dos que combateram em África ...

Também esteve lá, no meio do mato, a combater a guerrilha?

Não, não estive, ...
(respondi, lendo naquela interrogação a recordação do apoio de alguns países nórdicos aos guerrilheiros envolvidos no combate aos movimentos independentistas) 
... não estive, mas há quem, tendo lá estado e escapado, por mero acaso, a tiroteios em emboscadas ou ao rebentamento de minas perto de si, ainda hoje, passados todos esses anos, se ouve, inesperadamente, o estampido de um foguete, ou qualquer estrondo semelhante, se atira imediatamente para o chão. São feridas invisíveis indeléveis, que nenhum tempo vai conseguir sarar...
 
... Se são ...
 
E o Finlandês, naquele momento não me apercebi porquê, voltou o seu olhar,  mas, desta vez, um olhar cabisbaixo, que pressenti ferido, para o mar. 
Sem saber o que dizer perante aquela reacção de mutismo repentino, muito demorado,  de uma pessoa que conhecia mal, mas pelo que conhecia, me deixou confundido: 
sente-se mal? 
Valeu-me na ocasião a chegada do empregado com as entradas para o jantar. Aqui têm os senhores, para começar, uns carabineiros magníficos que encomendaram como entrada... E, para beber, já escolheram as bebidas?
Já pensámos nas bebidas mas ainda não escolhemos. O que vamos beber? 
 
Hein?  Ah! as bebidas ... desculpe ...

Sente-se indisposto?

Não, não, estou bem. Bebidas? Tínhamos escolhido um ... 
 
Pois tínhamos, mas com a conversa esquecemos de encomendar. Encomenda-se-se agora; ainda vamos a tempo.

Durante o jantar, o Finlandês voltou a ser o que eu conhecera, há pouco tempo mas com tempo suficiente para ver nele um tipo com comportamento desinibido, que me pareceu pelo menos tão latino quanto nórdico, medido pelos  estereótipos que geralmente tomam a parte pelo todo e vice-versa. 
No fim da refeição, sugeriu que passássemos para um recanto à  entrada do restaurante, ficando a mesa disponível para quem chegasse, onde poderíamos tomar um café e continuar a nossa conversa interrompida pelo fim do jantar. 
Sentámo-nos num sofá de dois lugares, o mar à nossa frente, visível através de uma janela ampla; o barman não pareceu desiludido com o pedido de dois cafés, que colocou numa mesa baixa entre o sofá e a janela. 
Nada mais? 
Por enquanto, nada mais.
Estejam à vontade. 
 
Percebi que estranhou e ficou, naturalmente, preocupado quando, ainda não tinham chegado as entradas à mesa; eram carabineiros, não eram? São feridas invisíveis indeléveis, que nenhum tempo vai conseguir sarar, disse o meu amigo, e com isso, involuntariamente, rebobinou em instantes toda a minha vida, acredite ...
...tinha, então dez anos, era aluno do ensino primário e ao primeiro estrondo do bombardeamento russo sobre Helsínquia em fins de Novembro de 1939, atirei-me, instintivamente, para o chão; atirámos-nos todos, como se o impacto do som da metralha nos tivesse empurrado para o único abrigo possível, debaixo das carteiras; e não se ouviu um grito, o medo engoliu o medo, o silêncio perdurou enquanto o bombardeamento prosseguiu e os seus ecos ao longe deixaram de se fazer ouvir ao fim do dia.
O meu pai, engenheiro químico, tinha sido mobilizado uma semana antes dos bombardeamentos soviéticos na Finlândia. Na primeira semana de Outubro, os russos convidaram o nosso governo para uma reunião de "ajustamentos territoriais". Uma semana depois, uma delegação finlandesa encontra-se com os líderes russos no Kremlin e recebe exigências de concessões da nossa parte que não admitiram as sucessivas contrapropostas que foram apresentadas.
As negociações são quebradas em meados de Novembro e Estaline dá ordens para uma ofensiva imediata contra a Finlândia.  
Nesta altura, havia seiscentos mil militares russos ao longo da fronteira russo-finlandesa.... A Finlândia tinha em 39 cerca de três milhões e meio de habitantes, a União Soviética cento e setenta milhões, feitas as contas, cerca de cinquenta vezes mais;  
.... Nós residíamos numa pequena cidade, próximo da fábrica, a meia dúzia de quilómetros da nossa casa, onde o meu pai era responsável pelo laboratório de controlo de qualidade. Tinha trinta e quatro anos, a minha mãe era dois anos mais nova, eu nasci em 29, as minhas irmãs, tenho duas irmãs gémeas, nasceram em 31, tinham oito anos quando nos mudámos para Helsínquia.
A nossa cidade ficava a pouco mais de duzentos quilómetros de São Petersburgo, o Pai estava muito consciente da progressão dos regimes totalitários na Europa, considerou que ter a família tão próximo de uma vizinhança que, mais tarde ou mais cedo, estaria envolvida numa guerra que se adivinhava estar a chegar, arrendou um apartamento nos arredores de Helsínquia, a dez quilómetros do centro, onde, supunha ele, estaríamos menos expostos à guerra... 
...  fizemos o trajecto de autocarro, atrás de nós chegou, numa camioneta de carga, quase tudo o que tínhamos na nossa casa, incluindo o piano; a Mãe não abdicou do piano, dava lições de piano, participava em concertos, mesmo que algumas coisas tivessem que chegar na semana seguinte...
Apesar de uma resistência, que ninguém supunha ser possível, para garantir a  independência do país o nosso governo aceitou em meados de Março do ano seguinte  ceder aos soviéticos dez por cento do  território e um quarto da capacidade de produção industrial... Morreram cerca de vinte e seis mil militares finlandeses, quase quarenta e quatro mil feridos, as baixas dos soviéticos, mortos e feridos terão sido, no mínimo, seis vezes mais.
"Quando Estaline diz "dança", um homem sábio dança", escreveria muitos anos depois Nikita Khrushchev, que sucedeu a Estaline, nas suas memórias. Khrushchev, sabiamente, deve ter dançado para alcançar o supremo poder de um ditador. Nós, finlandeses, queríamos apenas continuar a viver e trabalhar tranquilamente onde tínhamos nascido... 
.... para que queriam eles, que possuíam o maior território do planeta, mais um pequeno pedaço de terra? ... 
...  e por que é que estou agora a relembrar isto? ...  O meu amigo não é um desconhecido mas pouco sei de si, além de que é director de uma empresa relevante no sector industrial onde também eu trabalho... 
... Neste aspecto, estamos empatados, conhecemos-nos pouco, quase nada, e, talvez por isso, sinto, não obrigação, mas necessidade de lhe contar por que espantaram as suas palavras os demónios, indeléveis, invisíveis,  que carrego comigo desde quase sempre...
O Pai ficou connosco em Helsínquia durante dois dias, prometeu voltar no fim da semana seguinte.
Aqueles dias, que se seguiram até ao fim de semana, foram tão ocupados com as idas à escola mais próxima para inscrição dos filhos, a arrumação dos móveis, estantes, livros, o piano, as voltas que ela deu ao piano para lhe encontrar o lugar certo!, a compra de alimentos, enfim, passaram cansativos para a Mãe mas, aparentemente, despreocupados; não terá sido fácil encontrar alojamento disponível, percebi isso quando, na escola, disseram à Mãe que, como havia milhares de famílias a abandonar as povoações situadas nas proximidades da fronteira com os soviéticos, teríamos que entrar para classes que já tinham, nas mesmas salas de aulas, mais de cinquenta alunos.
Soubemos mais tarde que tinham sido obrigadas a abandonar as suas casas, os seus bens, as suas actividades, as suas fábricas, tudo o que tinham, mais de quatrocentas mil pessoas.
Do Pai não recebemos notícias durante a semana, devia estar bem, as más notícias correm depressa ...
Sexta-feira, que antecedeu a sua chegada, a Mãe chegou ao fim da tarde esgotada com a preocupação de tudo limpar, arrumar, e preparar o jantar preferido do marido; às sete da tarde a mesa estava posta, e ao esgotamento físico sucedeu-se uma inquietação angustiada; sentava-se, levantava-se, vezes sem conta, ao mínimo ruído, das vozes de quem passava, até dos rumores do vento, ia à porta espreitar, voltando a repetir os mesmos movimentos, os mesmos ciclos de ansiedade e desânimo, até à exaustão e ao desmaio. Eu e as minhas irmãs não tivemos naqueles momentos a percepção do sofrimento da Mãe. Tínhamos feito os trabalhos de casa, e depois entretivemos-nos com um velho jogo de tabuleiro, meio desconjuntado por tanto uso; estávamos tão concentrados no jogo, sentados no chão a um canto da sala de jantar, só quando sentimos fome e nos levantámos, reparámos, espantados, com a Mãe desmaiada, junto a uma das quatro cadeiras à volta da mesa de jantar, no lado oposto onde nos tínhamos sentados no chão a jogar; 
Uma das gémeas, saiu pela escada de acesso à porta da rua; a outra imitou-a, sem nenhuma delas saber para quê; eu, sem saber o que fazer, instintivamente, tentei levantá-la, ela era, e ainda é, sim, sim ainda é viva, tem agora noventa e quatro anos de idade, era uma mulher magra e relativamente alta, mas do meu esforço resultou, involuntariamente,  rolar-lhe o corpo, sem que ela mostrasse sinais de vida; fiquei, assim sozinho, ainda mais desesperado a olhar para a minha Mãe, convicto que estava morta.
E assim me mantive até que entrou uma mulher, que vim a saber depois era a nossa vizinha do rés-do-chão, o prédio tinha três pisos, as gémeas tinham-lhe batido à porta, a vizinha ajoelhou junto do corpo inanimado da minha mãe, não sei que voltas lhe deu, o certo é que a Mãe começou a dar sinais de reanimação. 
Reanimada, a Mãe convidou e a vizinha aceitou jantar connosco, sentando-se no lugar do Pai, que não chegara. 
O Pai não chegou naquela noite nem chegou nunca. Morto, desaparecido ou deportado, não tivemos mais notícias dele; 
Entretanto, continuavam a chegar da fronteira bombardeada e ocupada pelos soviéticos vagas de deslocados à força; a nossa cidade tinha sido arrasada, soubemos anos depois que o arrasamento dos soviéticos tinha propositadamente apagado todos os vestígios da presença finlandesa naquele território incluindo os cemitérios; todos os vestígios, excepto as instalações industriais, incluindo a fábrica onde trabalhava o Pai, uma excepção que acalentou a ideia por muitos anos que ele continuava vivo como engenheiro prisioneiro dos soviéticos. 
Seguiram-se anos muito difíceis para todos os finlandeses e terríveis para os que perderam os familiares dos que perderam a vida ou ficaram fisica ou psicologicamente lesados para sempre. 
Com a perda do Pai, ficámos dependentes dos magros e incertos dinheiros que a Mãe recebia pelas lições de música e alguns esporádicos concertos em que participava. Tornou-se possessiva dos filhos, as discussões com as minhas irmãs tornaram-se quase constantes, as moças não podiam nunca sair do seu raio de observação sem serem reprimidas.
Para ela, o Pai continuava vivo, e continua vivo. 
Cinquenta anos depois, sempre que o telefone toca ou alguém bate à porta, ela corre e pergunta esperançada, Timo!?
Alzheimer? 
Não, os médicos dizem que não. O tremendo e indelével trauma da perda ocorreu há mais de cinquenta anos...

A conversa prolongou-se até ao sol posto e da ampla janela apenas se poderem ver algumas luzes de ocasionais embarcações que passavam ao largo.
No dia seguinte, M., enviou-me dois livros acompanhados de um cartão :
                 "Caro F., 
               No seguimento da nossa conversa durante o jantar, envio-lhe dois livros que espero serem do seu interesse"
                    M.