Tuesday, February 23, 2021

O QUE SE DEVE DISCUTIR

 
 
Caro Rogério*

Li o teu testemunho e gostaria que me ajudasses a perceber um pouco o contexto em que Marcelino da Mata foi acusado e ilibado.
A primeira vez que soube da existência de Marcelino da Mata foi no dia em que li a notícia sobre a sua morte .
Não combati em África, cumpri o serviço militar em Santarém e Lisboa, onde encontrei, além de outros, o Vieira, o Estrela, o Carmona, o Carvalho Pereira. Não meti cunhas, foi sorte; de vez em quando acontece.
Tu estiveste lá, saberás certamente esclarecer-me algumas dúvidas que um texto de Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, publicado no Facebook e muito citado nas redes sociais, me suscitou.
Transcrevo:

“Respeito a memória deste homem, Marcelino da Mata, que acaba de morrer, como respeito a memória, com os sem veneração, de qualquer outro.

Não tenho porém o direito de calar o que sei, em lembrança das vítimas que não podem falar.

Como jurista a cumprir a minha comissão no Serviço de Justiça, no Quartel General em Bissau, fui muitas vezes encarregado de informar processos-crimes e disciplinares, motivados pelo comportamento ilícito, e por vezes atrozmente delitual, deste militar. A despeito das reiteradas propostas da sua responsabilização pelas infrações em que incorria, muitas delas de extrema gravidade, os autos, que não poderiam deixar de lhe ser levantados, terminavam infalivelmente no arquivamento sumário, por ordem superior sem rosto”


Leio, e interrogo-me:

Se o alferes, tenente, ou capitão?, Barbot Costa foi muitas vezes encarregado de informar processos-crimes e disciplinares, motivados por comportamento ilícito, e por vezes delitual, deste militar, quem desencadeou esses processos?

As denúncias (ou participações) de alguns camaradas envolvidos nas missões em que MM interveio?

Outros camaradas não envolvidos mas que ouviram relatos das infracções e participaram? E a quem?

Barbot Costa não refere se, para além de MM, houve outros militares infractores, ainda que em menor número e com menor gravidade. Se houve, não foram penalizados?

E foram condecorados?

Ou as participações foram feitas por testemunhas ou vítimas civis das infracções de MM?

Barbot Costa afirma que os autos terminaram infalivelmente no arquivamento sumário, por ordem superior sem rosto. É credível este testemunho? É credível que o jurista, responsável pelos processos, os  arquive sem ter conhecimento de quem ordenou arquivar?

Como se explica a intervenção de um jurista, num contexto de guerra, para ponderação da justiça de  actos de guerra?

Tenho muito mais dúvidas, mas não quero abusar da tua paciência.

Abraço e saúde!

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* "Sob as ordens de Stalin foram assassinados e torturados milhares de russos.
Mas alguns ainda o consideram como herói.
Raramente, muito raramente, uma pessoa é considerada herói/heroína pelas facções que combatem entre si.
Usualmente é herói para uma e assassino ou traidor para a outra.
Conheci e fiz, poucas, operações com o Marcelino da Mata no Norte da Guiné quando ele comandava um grupo de milícias denominado “Roncos de Farim.”
Foi um combatente de uma coragem e bravura excepcionais.
Nunca o vi cometer qualquer acto hediondo, mas conheço pessoas que me merecem confiança e afirmam que assassinou mulheres crianças e velhos quando estes fugiam."
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Rogério S.

Monday, February 22, 2021

PANDEMIAS HISTÓRICAS

 History’s deadliest pandemics, from ancient Rome to modern America 

 


 

GÉNIOS

Jovem prodígio pagava luxos com esquema Ponzi em criptomoedas

Animado pela confiança juvenil, Qin, um autoproclamado prodígio da matemática da Austrália, deixou a faculdade em 2016 para lançar um hedge fund em Nova Iorque que chamou de Virgil Capital.
Qin disse a potenciais clientes  que havia desenvolvido um algoritmo chamado Tenjin para monitorizar as trocas de criptomoedas em todo o mundo e obter lucro com as oscilações de preços. Pouco mais de um ano depois do lançamento, gabava-se que o fundo tinha tido um retorno de 500%, alegação que gerou um fluxo de capital novo de investidores.
O jovem ganhou tanto dinheiro que assinou um contrato de arrendamento de 23 mil dólares por mês em setembro de 2019 por um apartamento no 50 West, um condomínio de luxo de 64 andares no distrito financeiro de Manhattan, com piscina, sauna, banheira de hidromassagem e simulador de golfe.
Na verdade, segundo os procuradores federais, a operação era uma mentira, essencialmente um esquema Ponzi que levou cerca de 90 milhões de dólares de mais de 100 investidores que ajudaram a pagar o estilo de vida luxuoso de Qin e os seus investimentos pessoais em apostas de alto risco como ofertas iniciais de moedas.
A certa altura, perante as reclamações por dinheiro de vários clientes, Qin culpou a "má gestão do fluxo de caixa" e "agiotas na China" pelos seus problemas. Na semana passada, o jovem, agora com 24 anos, demonstrou remorsos e declarou-se culpado num tribunal federal de Manhattan por uma única acusação de fraude de valores mobiliários.
"Eu sabia que o que estava a fazer era errado e ilegal", disse Qin à juíza distrital dos Estados Unidos Valerie E. Caproni, que pode condená-lo a mais de 15 anos de prisão. "Lamento profundamente as minhas ações e vou passar o resto da vida a culpar-me pelo que fiz. Lamento profundamente os danos que o meu comportamento egoísta causou aos meus investidores que confiaram em mim, aos meus funcionários e à minha família."
Investidores ávidos
O caso faz eco de fraudes semelhantes com criptomoedas, como a da BitConnect, com promessas de retorno de dois ou três dígitos que causaram perdas de milhares de milhões a investidores. Esquemas Ponzi desse tipo mostram como investidores ávidos por obter lucros num mercado aquecido podem ser facilmente enganados por promessas de grandes retornos. A bolsa canadiana QuadrigaCX colapsou em 2019 devido a uma fraude, gerando perdas de pelo menos 125 milhões de dólares a 76 mil investidores.
Embora a supervisão regulatória do setor de criptomoedas esteja a aumentar, o segmento está repleto de participantes inexperientes. Vários dos cerca de 800 fundos de criptomoedas em todo o mundo são geridos por pessoas sem qualquer conhecimento de Wall Street ou finanças, incluindo alguns estudantes universitários e recém-formados que lançaram fundos há alguns anos.
 
 

 

Sunday, February 21, 2021

TEXTOS TOLOS DO PRESIDENTE DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL

Para a antologia do Jogo da Cabra Cega

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Passos, Mexia, Relvas e CR7. Os outros textos “ligeiros e tolos” de João Caupers

Quando foi escolhido pelos conselheiros para se tornar juiz do Tribunal Constitucional (TC), em fevereiro de 2014, João Caupers avisou que tinha escrito alguns “textos graves e amargos” e outros “ligeiros e tolos” na publicação online da Faculdade de Direito da Universidade Nova.

Um desses textos foi revelado esta semana e mostrava que o professor catedrático escreveu, entre outras coisas, que “os homossexuais não passam de uma inexpressiva minoria, cuja voz é enorme e despropositadamente ampliada pelos media”.

Numa resposta enviada por escrito ao semanário Expresso, Caupers disse que os textos que publicou eram “um instrumento pedagógico, dirigido aos estudantes que, para melhor provocar o leitor, utilizava uma linguagem quase caricatural, usando e abusando de comparações mais ou menos absurdas”.

Agora o jornal digital Observador recuperou mais textos sobre, Passos Coelho, Miguel Relvas, António Mexia e até Cristiano Ronaldo.

Num dos textos, o professor catedrático mostrou-se surpreendido por Miguel Relvas ter sido convidado para falar “num misterioso Clube dos Pensadores, onde supostamente iria espraiar o seu pensamento (?) político (?)”, e, depois, “num estabelecimento de ensino superior, onde iria dar conta do seu espírito visionário em matéria de comunicação social”.

“Por um lado, não lhe conheço obra susceptível de despertar o interesse pelo seu pensamento, se o tiver. A sua presença no tal clube de pensadores é intrigante – a menos que os próximos convidados sejam a Teresa Guilherme ou o Jorge Jesus. Por outro lado, depois das alegadas interferências no trabalho jornalístico de um conhecido diário e das peripécias da privatização (?), venda (?), concessão (?) da TP, convidá-lo a falar sobre comunicação social é assim como convidar o Oliveira e Costa [fundador do BPN] para uma conferência sobre ética financeira”, escreveu.

António Mexia também foi mencionado num texto de João Caupers sob o título “Insensibilidade e insensatez“. Nele, o juiz considerava inaceitável a medida então anunciada sobre a redução de pensões e mostrava desalento pela falta de “vergonha neste infeliz país”, lembrando declarações de Mexia sobre uma decisão do Tribunal Constitucional.

Caupers referiu-se a Mexia como o “lídimo representante do capitalismo “nacional”, no que ele tem de mais reles”. “Montado no seu salário de vários milhões de euros por ano, o mandatário do patrão chinês da EDP permitiu-se criticar o Tribunal Constitucional, considerando que as suas decisões não tiveram em conta o “contexto” e haviam aumentado os riscos de um segundo resgate”, criticava.

João Caupers dirigiu-se ainda ao ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. “O ‘despesismo alucinado’ – e, parece, alucinogénio também, já que afastou da realidade não apenas os socialistas mas também as gentes do PSD e do CDS, que não me recordo de o ter ouvido contrariar ou denunciar – endividou o país e arruinou os portugueses. O atual governo ter-se-á limitado a herdar a desgraça. Como disse? Terei ouvido bem? Então não foi o PSD que se fartou de gabar do seu papel decisivo nas negociações com a troika, sendo graças a ele – melhor, graças a essa hábil combinação do sentido de Estado do Dr. Passos Coelho com o génio negocial do Dr. Catroga, ambos amparando altruisticamente o derrotado governo socialista – que o memorando de entendimento pôde ser aquilo que é?”.

Sobre Cristiano Ronaldo, João Caupers escreveu que o jogador português era “a supervedeta, mais embirrante do que eficiente”.

O Diário de Notícias recuperou um outro texto sobre Carlos Castro: “Era um personagem medíocre, de cujo perfil apenas pude recolher dois traços, que alguma comunicação social considerou merecedores de referência: era homossexual e era ‘cronista social’ (…). O primeiro traço deveria ser completamente irrelevante, já que emerge da liberdade de orientação sexual, que apenas a cada um diz respeito. Todavia, considerada alguma prosa que a ocasião suscitou, terá tornado a vítima mais digna de dó – vá-se lá saber porquê!”.

BE espera que Caupers se retrate das declarações

A coordenadora do Bloco de Esquerda disse esta quarta-feira esperar que o novo presidente do TC se retrate das declarações de 2010 sobre homossexualidade, estranhando palavras que contrariam o “espírito de respeito pela igualdade” da Constituição.

“Levamos muito a sério a autonomia e a independência do Tribunal Constitucional. Não poderia ser de outra forma. Levamos também muito a sério o que diz a Constituição da República Portuguesa sobre a igualdade e a não discriminação”, disse Catarina Martins.

Por isso, a líder do BE estranhou declarações de “um presidente do Tribunal Constitucional que possam contrariar o próprio espírito de respeito pela igualdade que a Constituição” impõe. “Seguramente o presidente do Tribunal Constitucional terá a oportunidade de se retratar dessas declarações”.

O PAN entregou esta quarta-feira um requerimento no Parlamento a solicitar uma audição urgente do recém-eleito presidente do TC.

Fernando Veludo / Lusa

“Mesmo estando perante declarações passadas, deve o agora Presidente do Tribunal Constitucional retratar-se perante a Assembleia da República, prestar esclarecimentos sobre estes textos e demonstrar o seu atual posicionamento face à garantia dos direitos das pessoas LGBTI, tendo em conta a importância institucional que o cargo exige”, afirmou o grupo parlamentar liderado por Inês de Sousa Real.

O PAN condena as “declarações homofóbicas” e “atentatórias” aos direitos humanos das pessoas LGBTI e defende que se impõe que João Caupers se retrate perante os deputados.

O constitucionalista Vital Moreira saiu esta quarta-feira em defesa de Caupers numa publicação feita no seu blogue Causa Nossa, dizendo que as opiniões do passado não devem ser sujeitas a uma “nova Inquisição” à luz da cultura de hoje.

Vital Moreira considera “inaceitável” o processo de “julgamento público do novo Presidente do Tribunal Constitucional por causa de algumas opiniões desprevenidas, controversas e pouco ortodoxas para a cultura hoje dominante relativamente à homossexualidade”.

Saturday, February 20, 2021

DEVIA TER HAVIDO SANGUE, DEVIA TER HAVIDO MORTOS

É a opinião do sr. Ascenso Simões, deputado do PS, aqui.   

E o Padrão dos Descobrimentos deveria ter sido destruído.

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"Quando um país esquece tão rápido o seu passado, quando se nega na realidade da pobreza, do obscurantismo, da mínima existência cidadã, esse país precisa, urgentemente, de se olhar ao espelho.

O 25 de abril de 1974 não foi uma revolução, foi uma festa. Devia ter havido sangue, devia ter havido mortos, devíamos ter determinado bem as fronteiras para se fazer um novo país. Construímos Abril com a bonomia que nos produz há séculos, um ser e não ser que sempre concebeu o nosso profundo atraso, uma marca histórica que não nos abriu ao risco e ao radicalismo que provoca.

No meio disto tudo só sobrou a nossa aceitação do espaço europeu, opção que rejeitamos em sete séculos por implicação da vizinhança espanhola ou por tutela inglesa. Virá o dia em que começaremos a questionar também a Europa, influenciados pela saudade endogénica.

Não conseguimos entender a forma natural como foi encarada, pelos democratas, a eleição, em 2007, de Salazar como “o maior português de sempre”, fazendo com que Afonso Henriques ou Camões se quedassem em lugar menor. Quando um país esquece tão rápido o seu passado, quando se nega na realidade da pobreza, do obscurantismo, da mínima existência cidadã, esse país precisa, urgentemente, de se olhar ao espelho.

Os regimes totalitários constroem uma história privativa. Em Portugal, o salazarismo foi muito eficaz nessa construção, garantindo, até hoje, a perenidade dos mitos do desígnio português, dos descobrimentos, ou do império. Esta trilogia programática tarda em ser abalada, em se colocar perante o julgamento indispensável de um povo que se quedou amedrontado.

Neste último ano assistimos a quatro tempos de retorno ao salazarismo mental português. O primeiro foi o da criação de um museu na terra natal do ditador, que, mesmo que a Universidade de Coimbra inventasse uma qualquer bondosa construção museológica, seria sempre um templo de romagem, de saudade, de permanente elogio do “botas”. Os países democráticos fazem a leitura histórica nos bancos da escola, aportam novas visões históricas que não sejam anacrónicas na interpretação ética que sempre importa. Todos os países que sofreram pelas longas ou intensas ditaduras fizeram o seu luto, fazem ainda o seu luto como acontece em Espanha, mas em Portugal o luto nunca existiu.

O segundo tempo foi o da opção sugerida por largas franjas da política e da opinião publicada de uma outra presença, mesmo intrusiva, de Portugal na situação de “guerra” que se vive em Cabo Delgado, Moçambique. Este espírito advém do facto de nunca termos aceitado plenamente a emancipação dos povos, de existir uma franja muito significativa de portugueses que continua a achar que os africanos prefeririam a chibata portuguesa à fome dos dias de hoje. Recuando no tempo da nossa existência e por analogia, poderíamos ter um povo português que preferiria a dependência da dinastia dos Filipes à restauração, tudo porque as décadas seguintes, de guerras e fome até à chegada do ouro do Brasil, foram verdadeiramente terríveis.

O terceiro tempo tem um enquadramento mais grave e que não pode deixar de ser avaliado politicamente. A Nova Portugalidade é o mais fascista dos movimentos subversivos da nossa democracia atual, muito mais radical que o Chega, muito mais preocupante, sob o ponto de vista ideológico, que qualquer outro movimento de skinheads. A petição da Nova Portugalidade a propósito de uns florões de mau gosto colocados numa praça a que ainda chamam de império teve o apoio de dois antigos Presidentes da República e deu-lhe credibilidade. É um facto grave, nenhum dos dois Presidentes pode desconhecer o caminho do grupo neofascista da Nova Portugalidade e também não pode desconhecer que os seus gestos têm um valor político muito significativo.

Os florões são, como bem demonstra Francisco Bethencourt em História da Expansão Portuguesa, uma invenção tardia semelhante ao mamarracho do Padrão dos Descobrimentos, são a eleição da história privativa que o Estado Novo fabricou, não têm qualquer sentido no tempo de hoje por não serem elemento arquitetónico relevante, por não caberem na construção de uma cidade que se quer inovadora e aberta a todas as sociedades e origens. Mesmo o Padrão, num país respeitável, devia ter sido destruído.

Vejo pelo buraco estreito da fechadura uma próxima petição neofascista para o derrube do memorial do Largo de S. Domingos em Lisboa que elege a paz, exigência mimética dos franquistas madrilenos na proposta recente de eliminação de um mural que elegia a igualdade.

O quarto e último tempo é o que acompanha hoje a morte de Marcelino da Mata. Quantos soldados africanos combateram ao lado das tropas portuguesas pela defesa de um império inconcebível? O que fizemos a esses milhares? Como os acompanhamos e lhes garantimos sustento? Portugal quase esqueceu todos eles, mas salvou Mata como normalizou Kaúlza de Arriaga.

As insígnias militares nos regimes totalitários não são atribuídas por atos de bravura e de coragem, são atribuídas por atos de excesso, por denegação de humanidade. O que aconteceu com Mata foi exatamente isso mesmo, o regime fascista e os fascistas que perduraram na democracia abrilista construíram um mito a partir de um títere, aplicaram bem o pensamento de Désiré Roustan quando afirma que a evocação do passado pelos inimigos da História é sempre 99% de construção e 1% de evocação verdadeira.

O ser humano, todo ele, merece o maior respeito na morte. Porém, são os que se aproveitaram e aproveitam de Mata, do seu passado e das suas medalhas fascistas, quem o desrespeita, quem lhe nega a paz eterna como salvação do seu passado abusador.

À esquerda democrática bastou escrever uma lista das condecorações para aprovar um voto de pesar pela morte de Marcelino da Mata, mesmo que essas condecorações sejam as cruzes de ferro da nossa doméstica vida das décadas de 1960 e 1970

Há colunistas que não podem ouvir a comparação entre salazarismo e nazismo. É o passo mais largo do caminho para a normalização do nazismo. Milhares de oficiais alemães foram vítimas de um facínora, muitos foram obrigados a cometer as maiores atrocidades, mas os alemães não passaram os anos seguintes à grande guerra a elogiar as várias Cruz de Ferro que foram atribuídas, souberam construir a honorabilidade sobre a vergonha. E isso é que é dignidade.

Uma parte da esquerda democrática parece atravessar um tempo de esquecimento do passado. Isso viu-se, no ano transato, numa anormal agitação perante um voto sobre o 25 de novembro, o esforço feito para a normalização do gonçalvismo; mas também se vê na apreciação de cada um dos que fizeram a guerra dita colonial pela mira de uma avaliação de percurso do major Marcelino da Mata. À esquerda democrática bastou escrever uma lista das condecorações para aprovar um voto de pesar, mesmo que essas condecorações sejam as cruzes de ferro da nossa doméstica vida das décadas de 1960 e 1970.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico



 


Tuesday, February 16, 2021

O JOGO DA CABRA CEGA

Uma nova variante do jogo chega ao topo da pirâmide da justiça portuguesa.
André Ventura estará a bater palmas; 
Ouves, Ana Gomes? 
Mais um divertimento em tempos de pandemia.

Novo Presidente do Tribunal Constitucional considera homossexuais uma "inexpressiva minoria" e rejeita promoção das "respectivas ideias"

 "Uma coisa é a tolerância para com as minorias e outra, bem diferente, a promoção das respetivas ideias: os homossexuais não são nenhuma vanguarda iluminada, nenhuma elite. Não estão destinados a crescer e a expandir-se até os heterossexuais serem, eles próprios, uma minoria. E nas sociedades democráticas são as minorias que são toleradas pela maioria - não o contrário. (...) A verdade - que o chamado lobby gay gosta de ignorar - é que os homossexuais não passam de uma inexpressiva minoria, cuja voz é enorme e despropositadamente ampliada pelos media".

...

O professor escrevia este texto na sequência  de uma polémica que envolveu o professor Paulo Otero, na Faculdade de Direito de Lisboa, que decidiu propor um enunciado de exame sobre o casamento poligâmico entre humanos e entre humanos e animais vertebrados domésticos como "um complemento" à lei do casamento gay.

João Caupers assegurava no entanto não ser "adepto" de "nenhuma forma de discriminação, contra quem quer que seja", e ser-lhe "indiferente" que os amigos "sejam homossexuais, heterossexuais, católicos, agnósticos, republicanos ou monárquicos", considerando que "as minorias devem ser tratadas com dignidade e sem preconceito, tanto pelo Estado, como pelos outros cidadãos".

"É-me indiferente que os meus amigos sejam homossexuais, heterossexuais, católicos, agnósticos, republicanos ou monárquicos. Os homossexuais merecem-me o mesmo respeito que os vegetarianos ou os adeptos do Dalai Lama. São minorias que, como, como tais, devem ser tratadas com dignidade e sem preconceito, tanto pelo Estado, como pelos outros cidadãos. (...) A minha tolerância para com os homossexuais não me faria aceitar, por exemplo, que a um filho meu adolescente fosse “ensinado” na escola que desejar raparigas ou rapazes era uma mera questão de gosto, assim como preferir jeans Wrangler aos Lewis ou a Sagres à Superbock".

...

"O novo presidente do Tribunal Constitucional faz também questão de sublinhar o uso do termo "homossexuais". "Rejeito o uso da palavra gay, a que recorrem os bem pensantes para “adoçar” a dureza agreste dos termos vernáculos portugueses que lhe são sinónimos. Mudar o nome da coisa não muda a coisa", justifica.

O Diário de Notícias tentou chegar à fala com João Caupers, nomeadamente para saber se continua a subscrever o escreveu há quase 11 anos, mas sem sucesso."

 

 

Friday, February 12, 2021

PALÍNDROMO, AMBIGRAMA E ... PINO!

 

Para o ano há mais ...
Depois, daqui a quantos anos?

Thursday, February 11, 2021

UM SALTO À DICK FOSBURY

                              

Moramos aqui, … há quantos anos Mary? a Mary é que tem todas as datas apontadas. 
Viemos para aqui em 60, em Setembro de 60, esteve um dia muito quente, à noite, estivemos à janela a saborear uma brisa fresquinha antes de nos deitarmos … e era a nossa primeira noite … 
A nossa primeira noite na nossa casa; já nos tínhamos deitado algumas vezes… 
E o que é que isso interessa agora? foi a nossa primeira noite nesta casa, ponto final. 
Foi a nossa primeira noite, sim senhor, a Mary tem boa memória, antes de nos deitarmos estivemos à janela a apanhar fresco. Viemos para aqui em Setembro de 60, portanto, portanto, chegando a Setembro, se lá chegarmos, é sempre bom pôr esta ressalva porque o bicho anda aí por todo o lado, chegando Setembro celebraremos 61 anos na Charles Street; … parece mentira termos chegado aqui há 61 anos … 
Chegarmos, não; tu chegaste; quando eu nasci já a minha família morava na Charles Street, noutra casa, mas na Charles Street; eu sempre residi na Charles Street, nunca residi noutro local qualquer. 
Residimos várias vezes fora … 
O que é que queres insinuar com isso? 
Nada, nada, foram residências ocasionais … de turismo, por exemplo, em Paris, Londres, Roma, … viajámos muito, … mas concordo com a Mary, residir, residir mesmo, na comum acepção da palavra, a Mary nunca residiu noutra rua, eu é que resido aqui apenas há 60 anos, 61 em Setembro, se lá chegar. Agora é que não saímos daqui, nem para ir à rua; o que nos vale são as duas janelas que dão para a Charles Street; passamos grande parte dos nossos dias a olhar para o que se passa na rua; mas agora não se passa quase nada, parece que o mundo parou; quem a viu e quem vê agora Charles Street! Dia e noite, sempre acordada! agora dorme e só de vez em quando parece querer mexer-se … é muito triste. 
Não se vê ninguém na rua mas mesmo assim ele não quer ir até lá abaixo dar uma voltinha ao quarteirão, só para que as pernas não se esqueçam como se anda … 
Tenho medo, confesso que tenho medo, com a nossa idade, se o bicho atira sobre nós é tiro e queda. 
Queda nenhuma, levamos máscaras, chegando a casa lavamos as mãos, não passa ninguém na rua, onde está o perigo? 
O perigo está em ti, Mary, lamento dizer isto, mas a Mary é um perigo … 
Eu sou um perigo? 
És, és, se te apanhas lá em baixo, na rua, nunca mais te ponho a vista em cima … quero dizer, tenho receio que tu nunca mais pares de andar em toda a zona, és mesmo muito capaz de dar a volta toda à cidade; não seria a primeira vez. 
A primeira vez, o quê? 
Que daríamos a volta toda à cidade, num dia inteiro; quantas vezes não saímos às oito e voltámos às oito, vinte quatro horas, sem parar? levávamos sanduíches e água … 
Só doze horas, eram doze horas, não exageres; e tu, levavas cervejas. 
É verdade, eu carregava com as cervejas, a Mary com as garrafas de água; no Verão bebíamos muito, fazíamos reabastecimento nas Deli que encontrávamos pelo caminho. 
Não percebo por que é que agora não podemos fazer o mesmo. 
Não é verdade o que eu digo? se vamos até à rua, a Mary não se fica pela Charles Street, não pára. 
E qual é o perigo? 
O perigo é muita gente andar sem máscara, não respeitar as devidas distâncias, passarem os atletas urbanos a bufar para nós, a espalhar o bicho; a Mary ainda não percebeu que há muita gente que quer ver os velhos todos mortos; 
Isso é uma perspectiva doentia, cínica, … 
Será cínica por parte dos que se julgam imortais. 
E tétrica da tua parte porque, já alguém disse, que se morre cada vez que se pensa na morte. 
Tu nunca pensas? 
Eu? nem parece que nos conhecemos há mais de sessenta anos; vives aterrorizado, não vives, ainda não percebeste isso? 
Fomos apenas uma vez à rua depois que tudo isto começou … 
E tu não paravas de dizer a quem passava: Ponha a máscara! Ponha a máscara! Ponha a máscara! … 
Só dizia a quem passava sem máscara. Não disse isso a muita gente. 
Já não te lembras, parece que já não te lembras, mas um dia, foi logo ao princípio, saímos durante uma hora, se tanto, ele a agarrar-me para voltar para trás, quase me deitava ao chão, fiquei muito preocupada com a saúde mental dele, fiquei mesmo preocupada, eu quase a cair e ele a continuar a gritar, ponha a máscara! ponha a máscara!
E ninguém punha … 
Dois ou três tiraram a máscara do bolso ou puxaram para cima a que tinham a cobrir-lhe o queixo; quando chegámos a casa, estava ele nervoso e cansado, só se acalmou com um chá que lhe dei com um calmante dissolvido sem ele saber; dormiu toda a tarde, ficou cliente do chá desde então, mas eu agora já não dissolvo calmante nenhum, se ele quiser tomar, toma, se não quiser não toma; quando não toma, passa a noite a voltar-se de um lado para o outro; o que me vale é ter bom feitio e não acordar com tanto movimento. 
Lá isso é verdade, a Mary tem muito bom feitio, sai à mãezinha dela, era uma santa paciência, a minha sogra, o meu sogro também era a calma em pessoa; mas dinâmico, foi ele que construiu grande parte desta zona … 
Quem começou foi o meu avô, aliás, quem começou mesmo na actividade foi o meu bisavô; já não o conheci, mas o meu pai tinha uma enorme admiração pelo avô; muito determinado, muito organizado, muito sem medo, acredito que saio a ele. 
Não sei se ele hoje seria tão inconsciente para descer à rua e andar por aí a desafiar a sorte de passar incólume sem pensar na possibilidade de vir a espernear num ventilador … 
Sobreviveu à pneumónica. 
Muitos sobreviveram, não foi só ele, o teu bisavô e o teu avô; muitos também sobreviverão a esta pandemia, mas há muita gente a morrer. 
Sempre houve e continuará a haver. 
Não é o que eu digo? a Mary se vou na conversa dela e descemos à  rua, desaparece-me da vista. 
E então? Que mal viria ao mundo se eu desaparecesse? 
Estás a ser pouco simpática, sabes muito bem que não conseguiria sobreviver sem ti. 
Já tinha desconfiado; não é o bicho que te assusta mas a falta que posso fazer-te; sou o teu seguro de vida. 
Sempre foste; sabes bem que nunca sobreviveria se, por um mau acaso da vida, ficasse sem ti; morreria logo de desgosto. 
Ninguém morre de desgosto. 
Eu morreria de desgosto se alguma vez deixasses de estar comigo. 
É por isso que não dormes no quarto ao lado e passas as noites às voltas na cama; só não me acordas mais vezes porque durmo bem, tenho a consciência tranquila. 
Eu também não tenho pesos na consciência, nunca tive, mas sonho muito; tu não sonhas? 
Se sonho, não me recordo do que sonho; tanto quanto julgo saber passa-se o mesmo com as pessoas normais. 
Eu durmo pouco, nunca fui grande dorminhoco, só raramente me levanto depois das sete, mas já me tenho levantado às nove e até às dez se a Mary está ainda a dormir a essas horas, só para não perturbar-lhe o sono;   se a insónia me põe picos na pele, saio da cama e vou ler qualquer coisa na sala só para não a acordar; outras vezes, deito-me a meio da noite na cama do outro quarto, e aí alargo os braços e as pernas, fico vitruviano, e adormeço … 
Devias fazer isso todas as noites; não percebo porque não fazes isso todas as noites … 
Porque me faz falta o calor da tua companhia. 
Tens medo que eu abra a porta e me ponha a andar … 
Não é bem isso … 
Mas quase. 
Talvez, inconscientemente, sim. 
Esta noite dormiste na outra a cama; não sentiste a minha falta. 
Senti, senti muito, até porque fui acordado por alguém que batia à porta. Tinha adormecido, talvez duas horas antes, saí da nossa cama eram cinco e meia da manhã e ainda não tinha dormido um minuto sequer; acordei estremunhado por aquele bater tão insólito, nunca tinha acontecido; levantei-me. Coloquei logo uma máscara cirúrgica, made in China já se sabe, exportaram para cá o bicho, agora fazem negócio com a exportação de máscaras, ventiladores, gel, tudo o que é necessário mas que não nos tira esta carga de medo que nos meteram em cima. Mal entreabri a porta entra-me na casa, sem autorização minha, uma mulher, na casa dos oitenta, não, não teria ainda oitenta, mas não andaria longe. Depois de ter recuperado do meu espanto perante aquela invasão privada perguntei-lhe qual era a ideia dela; 
Venho para a vacina? 
Para quê?, perguntei sem ter percebido o que ela tinha dito. 
Para a vacina, respondeu ela muito empertigada, como quem quer dizer, venho para a vacina e o senhor não tem nada com isso. 
Deve estar enganada … 
Não, estou não, recebi sms a indicar-me que hoje é o meu dia para ser vacinada … 
Talvez seja, mas não aqui. 
No sms indicam o dia, a hora e o local aonde devo dirigir-me. Quer ver? Tirou o telemóvel da mala, mensagens, mensagens, aqui! leia. 
Li … às oito a.m., Charles Street, 39, 5º., não há dúvida, é essa a indicação da mensagem, mas é erro, um erro lamentável porque aqui não há serviço nenhum de vacinação; gostaria que houvesse, já teria aproveitado, mas não é aqui, aqui é a minha casa, minha e da minha mulher; lamento, faça o favor de sair. 
Saio nada; quem é o senhor para me mandar sair? 
Antes de mais, ponha a máscara! Ponha a máscara! já lhe disse; sem máscara, é muito possível que já me tenha infectado. 
Eu? O senhor não deve estar bem do juízo; Quem é o senhor para me mandar pôr a máscara? 
Nesta altura, eu já estava começara perder a estribeiras. Quem sou eu? Sou o Arnold Schwarzenegger; diz-lhe alguma coisa o meu nome? Não, já vi que não; ponha a máscara! e ponha-se na rua! disse e empurrei-a para a saída. Empurrei-a para a porta, mas, eu não queria acreditar, a porta ficara aberta e, a tentar convencer a mulher que entrara primeiro, não reparara que tinha entrado gente que me enchera a casa, certamente, todos convocados pelo mesmo irresponsável sms. 
E toda aquela multidão, sem máscara! 
Ponha a máscara! o que é que o fez vir até aqui? 
Mensagem, sms, Charles Street, 39º., 5º. Só a hora era diferente, pelos vistos teriam chegado todos ao mesmo tempo para não perder a vez. 
Ponha a máscara! e saia! 
Ponha a máscara! e saia! Já! 
Ponha a máscara! e saia! Já! Já! Já! 
Ponha a máscara! e saia! Já! Já! Já! Já! 
Estava a ficar exausto, talvez até já estivesse infectado com tantos aerossóis a dançar no ar. 
Um após outro iam saindo; é melhor irmos saindo, ainda dá alguma coisa má ao velho e dirão que a culpa é nossa. 
Quando pensava que já tinha metido aquela invasão na rua, reparo que no sofá do canto que temos à esquerda do hall de entrada, continuavam em amena conversa, como se nada se tivesse passado ali, duas velhas. ... Sem máscaras! 
Ponham as máscaras! 
Levantaram-se, espantadas, as máscaras? nós estamos aqui para a vacina não precisamos de máscaras para nada … 
Precisam, precisam, e façam o favor de sair porque vieram ao engano; receberam uma mensagem, eu sei que receberam uma mensagem, mas não é aqui o local de vacinação, mensagens erradas, percebem as senhoras? Aqui, é a minha casa. 
Olharam desconfiadas para mim, só perceberam que tinham mesmo que sair quando lhes berrei, Rua! Rua! Rua! E ponham as máscaras! Irra! 
Bati com a porta, quando me volto, reparo que está sentado a uma secretária, um fulano, ainda jovem, alheado a bater no teclado de um PC portátil. 
O que é que está a fazer aqui? 
O meu trabalho, responde ele sem olhar para mim; vim para fazer o registo das vacinações aqui. 
Já percebi. Ponha a máscara! Ponha a máscara, quero falar consigo, mas, primeiro, ponha a máscara! 
Tirou do bolso, com muito custo gravado na cara, uma máscara, aspecto machucado, e  disse que estava ali porque recebera indicação por sms para se deslocar à … 
Charles Street, 39 … já sei, já sei, não precisa de mostrar o sms; é engano, esta casa é minha, não está à disposição para vacinações do público. Faça o favor de sair! 
Tenho de falar para o centro de saúde … 
Pois tem, mas tem de telefonar lá fora, não quero libertação de mais aerossóis aqui. Com tantos que já entraram, penso que já estou infectado. 
Remédio santo; o escriba de serviço agarrou no portátil e saiu parecia um foguete a caminho de Marte. 
Uf! Acabou-se, finalmente, o pesadelo.
Mary! Mary!, a Mary não estava no quarto, nem no outro, nem no outro, nem em nenhuma das quatro casas de banho do apartamento.  
Mary! Mary! Mary! A Mary não me respondia. 
Oh! Céus! Que é feito da minha Mary?, implorei, as lágrimas a soltarem-se-me, incontíveis. 
A Mary aproveitou a confusão para sair e deve andar lá em baixo a saborear o ar fresco na solidão da rua. Saltei até à janela, estava uma manhã linda, lá em baixo não passava ninguém. Pensei, vou também sair, tenho de encontrar a minha Mary, a força da minha vida, sem ela, o que sou eu? 
Coloquei a máscara, revesti-me o mais possível de roupa, com óculos não haveria polegada de pele minha exposta aos aerossóis. 
Aproximei-me da porta, ouvi um alarido do lado de lá. Discutiam. 
Como é possível? Avisam-nos para vir aqui para a vacinação e a morada está errada? Quem é que acredita nisso. 
Eu não. 
Nem eu. 
Eu ouvia muito distintamente aquela multidão na escada, espreitei pelo buraco da fechadura, calculei que estaria congestionada até à entrada do prédio; tentar atravessar em sentido oposto aquela multidão embriagada pela oportunidade de uma injecção que os livrasse da peste seria um suicídio. Fui novamente até à janela, e a rua convidou-me; não tinha alternativa, ou saltava e talvez me salvasse para encontrar a minha Mary ou ficava ali a morrer de desespero se os aerossóis não me dessem o golpe de misericórdia. 
Olhei, mais uma vez para a rua; havia lá em baixo uma vegetação rasteira que as chuvas de inverno tinham feito crescer o suficiente para, talvez, me proporcionarem o milagre de um colchão de amortecimento da aterragem. 
Acreditando nesse milagre, lancei-me do peitoril da janela, os pés voltados para o solo; 
Oh! azar dos azares!, ocorreu-me a meio da queda a dúvida de ter ou não ter fechado a porta e retirado a chave. 
Acontece-me frequentemente: Mary! 
Diz! 
Recordas-te se eu terei fechado a porta e tirado a chave? 
Na dúvida, fiz a pressão possível para inverter a queda, e acreditem, fui bem sucedido; como vinha de costas, passei o parapeito da janela com um salto à Dick Fosbury! E caí em cima de uma multidão que, entretanto, se apinhara na minha sala. 
A verem um  fantasma, só poderia ter-lhes parecido um fantasma, a entrar do céu pela janela, e ainda por cima de costas, fugiram aterrorizados, ficou a sala vazia em três tempos.
Mary! Mary! Mary! 
O que é que se passa Arnold? 
Temos Voltaren cá em casa? 
Caíste? Onde é que caíste? 
Depois explico-te; agora preciso que me ponhas Voltaren nas costas e me deixes dormir mais um pouco.