Tuesday, April 07, 2020

PÔR OU NÃO PÔR MÁSCARA





JACINTO GONÇALVES
VICE-PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO PORTUGUESA DE CARDIOLOGIA

A atitude da Organização Mundial de Saúde (OMS) na gestão da crise do coronavírus mostra, à exaustão, o risco que existe para todos nós, cidadãos do mundo, de eleger para cargos internacionais indivíduos escolhidos por consenso, geralmente político, e não seleccionados pelo seu mérito, competência ou inteligência.
Nesta crise a OMS foi sucessivamente ambígua, ziguezagueante e contraditória. A gestão da crise assemelhou-se mais à que faria um criador de carneiros na Austrália perante uma infeção nos animais. Foi preciso deixar morrer uns tantos animais para salvar o rebanho! O objetivo não era “comprimir a mola”, “ atrasar o pico” ou “aplanar a curva”.
Ao ouvir estas afirmações parece que estamos a falar de ensaios de laboratório com ratinhos. Por muito boa vontade que tenham as nossas autoridades, não devem ir a reboque de orientações estúpidas da OMS. Oiçam pessoas com experiência clínica, como o Professor Fausto Pinto.
O primeiro objetivo nesta crise é reduzir ao máximo o número de infetados, e não aceitar como uma fatalidade que tem de haver muitos doentes e que devemos apenas distribui-los no tempo. E o único meio de reduzir o número de infeções é tomar medidas drásticas de isolamento social. E nestas eu incluo o uso de máscaras, de luvas e de óculos, para toda a gente, em sítios públicos.
Sobretudo a máscara é essencial para fortalecer o isolamento social. E não são necessárias máscaras cirúrgicas difíceis de conseguir. A República Checa deu o exemplo de como as máscaras caseiras são eficazes. Uma echarpe ou um lenço a tapar a boca e o nariz são melhor que nada. Porque o objetivo não é proteger-nos a nós. É proteger os outros da nossa infeção potencial que ainda não deu sintomas mas já é infetante. E se for necessário um contato de proximidade use luvas e óculos. Luvas de borracha, de plástico, ou mesmo de pano. Que pode recuperar mergulhando-as durante meia hora numa mistura de água com lixívia a 1/10.
Os óculos não são especiais, são os seus. Todas estas medidas têm de ser musculadas e obrigatórias para toda a gente. Porque eu não quero ver os meus colegas nas Unidades de Cuidados Intensivos a arriscar a vida longe das famílias, enquanto todos nós já aceitámos que tem de morrer muita gente, incluindo muitos médicos e enfermeiros, enquanto a curva se vai aplanando.

Artigo publicado hoje no Expresso

POUPAS EM DUETO


- Então, já voltou a poupa por aí?
- Já, já, esteve a cantar,  um regalo durante uns dias seguidos. Cantava perto mas  não sabíamos onde. Afinal estava a cantar em cima do nosso telhado. Tiro uma fotografia, não tiro porque a posso espantar. Fiquei sem prova fotográfica.
Depois, apareceu por aí o gato cinzento, o preto não sabemos o que é feito dele, não tem aparecido, e deixámos de ouvir a poupa.
Teria o safado do gato deitado a luva à nossa soprano alada? Entretanto, voltaram os dias de neblina e chuva, a poupa não gosta de cantar à chuva.

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Hoje, voltou o sol.
Ouves a poupa a cantar?
Ouço. E não está longe.
Talvez esteja em cima do nosso telhado. Não estava. Estava em cima do telhado do vizinho. E, daqui, sem perigo da assustar, saquei uma foto da soprano.
E está outra do outro lado, não no telhado vizinho mas no outro atrás.
Desisti da fotografia do tenor, com o zoom do telemóvel  não se conseguem fotos aquela distância. Mas para quê a foto, se a foto não regista o canto e é o canto que encanta?

Monday, April 06, 2020

MÁSCARA

https://int.nyt.com/data/documenthelper/6860-printable-face-mask-tutorial/ded6e67bb78f2599a7ff/optimized/full.pdf


- Agora, finalmente, a DGS parece ter recomendado o uso de máscaras.
- Finalmente, agora, porque não havia nem há máscaras para quem as queira comprar.
- Telefonei para três farmácias, uma não tinha, outra não tinha mas aceitou inscrição em lista de espera, prometeram telefonar quando recebessem nova remessa, outra tem, custa €14,75 cada uma. E é reutilizável? Pode ser se quando a retirar a colocar ao sol...
- Na Internet vêem-se várias sugestões, vídeos ou artigos escritos, para as confeccionar em casa. Mas como é que se procede quando a retiramos? Faltam, do meu ponto de vista, programas de esclarecimento da população. As camisas, camisolas, cuecas, etc. eram costuradas em casa antes de a sua produção ter sido industrializada. Por que não se ensinam as pessoas a confeccionar as suas máscaras e, sobretudo, a forma de lidar com elas?
- Já fizeste alguma?
- Já. Mas não sei se a fiz bem, e, sobretudo, não sei como lidar com ela. Os canais de televisão, que tanto espaço dedicam a ensinar receitas de culinária, por que não dedicam também algum espaço 
a ensinar com que se confeccionam, como se confeccionam, e, sobretudo, como devem os utilizadores lidar com elas sem aumentar o risco com o seu uso?

Está alguém em casa?



Tuesday, March 24, 2020

COM TERNURA, PARA SAX TENOR


A tua mulher ressona?
Foi assim mesmo, de rompante, sem bom dia nem boa tarde: A tua mulher ressona?
Era o Teófilo, o velho Teófilo Braga, assim registado pelo pai, o Joaquim Braga, entusiasmado com as promessas dos republicanos, que, quando chegavam aquele mundo de curto diâmetro já tinham corrigido várias vezes a rota sem que se quebrasse nem desanimasse a esperança do pai Braga num mundo melhor, sem reis nem duques.
Já não ouvia o Teófilo há algum tempo. Está retido em casa há meses.
Sabes, não saio, não posso sair, eu bem queria mas não posso, as minhas pernas, estás a ver, o reumatismo, o reumatismo está a dar conta de mim, a vida é uma gaita, uma grande chatice, às vezes dou comigo a pensar que só são  felizes os que não nasceram, mas não, também tive muitos momentos felizes, só momentos, momentaneamente, percebes-me? Passo a maior parte do dia sentado, as minhas pernas, dizem que é reumatismo, mas, penso eu, isto não é só reumatismo, o reumatismo já não se usa, conheces alguém preso em casa, como eu, só por causa do reumatismo? Não conheces, tenho a certeza que não conheces, não há, o reumatismo, simplesmente, já não se usa. Não tenho pernas, agora não tenho pernas, tenho trambolhos, percebes?
O maior tormento do Teófilo não era ter de passar os dias sentado, não poder sair, não ir onde lhe desse na gana, o que mais lhe doía era ter sido obrigado a deixar a banda depois de mais de meio século a  tirar delícias de som do seu maior amigo, um fiel saxofone, que ele estimava acima de tudo. Preso em casa por ordem das pernas, ainda abraça o seu sax e tira dele o que em cada momento lhe ocorre, sabe-se lá vindo de onde, mas é agora um desespero improvisado aquele tocar solitário.
Há cinquenta anos, terminado trabalho, o Teófilo refugiava-se no sótão da casa a ensaiar o que, a princípio, a vizinhança não entendia que fosse música o que saía daquela dedicação do Teófilo.
O que é isto? É música, dizem, ouvi dizer que é jaze. A mim, sempre me pareceu que ele não tem queda para a música, quem não sabe tocar coisa que valha a pena toca jaze. O problema é que somos obrigados a ouvi-lo. Quem não gosta que tape os ouvidos. Hum! E achas que é fácil tapar os ouvidos para não ouvir esta trapalhada sonora? Pois, ele bem podia ir tocar para a casa da eira, lá em baixo, no vale. Ele fazia o que queria sem obrigar ninguém a ouvir o que não gosta. Eu gosto!| Pois ninguém te impediria de ir até ao vale ouvi-lo, se gostas. Há gostos para tudo. Talvez até talvez possas vir a casar com ele. Está livre. Sempre esteve livre. Casar, ele?, e a música?, se aquilo é música. 
Música mesmo era a que os punha a dançar, ao som afinado quanto possível de orquestras de amadores formadas nas redondezas, de composição ocasional e variável, geralmente, o apresentador e vocalista, dois violinos, um baixo, um trompete, um baterista, e o sax do Teófilo a deixar o jazz em casa e acompanhar a moda no clube. A menina dança? Dançavam-se modas e o jazz, por ali, não estava, nem nunca chegou a estar na moda.
Até aquela noite de baile quando o Teófilo pediu ao baixista e ao baterista que o acompanhassem e que os outros descansassem até à moda seguinte. Era uma estreia local absoluta de Tenderly, uma pérola de swing que, por mero acaso, tinha caído nas mãos do Teófilo num disco que comprara e ensaiara, tentando seguir Ben Webster durante semanas a fio com a paixão que aquela musicalidade, ali fora da moda, desprendia em cada fôlego do saxofonista. O sax do Teófilo tocava e cantava, assim cantasse o vocalista.
Mas isto é jaze? É, dizem que sim. Se isto é jaze, gosto disto.
A orquestra passou a "Jaze", "Jazz Band" desenhado a letras bem gordas, bem visíveis mesmo ao longe, no tambor da bateria, os bailes passaram a ser abrilhantados, era o termo usado, pelos "Jazes!" onde antes abrilhantavam as orquestras, mas as modas continuaram as mesmas, só perdurou, no meio do sempre o mesmo, o Tenderly e a voz inimitável do sax do Teófilo.
Mais tarde o Teófilo casou-se, nasceram dois filhos, e o sax continuou a animar-lhe a alma depois do trabalho e do jantar, aos domingos no clube, na filarmónica, conforme o calendário dos compromissos.

Se a minha mulher ressona, perguntas tu?
Só respondes se quiseres. A minha ressona. E a tua?
Provavelmente, ressonamos os dois. Um empate é sempre um bom resultado nestas circunstâncias, penso eu, agora que me colocaste a pergunta. E tu, ressonas?
A minha mulher diz que sim, que ressono, mas não muito. Ela ressona muito.
Como sabes que ressonas menos que ela?
Tens razão. É possível que ressonemos o mesmo, o problema estará na falta de afinação para ressonar ao mesmo tempo. Como pouco me mexo, durmo de dia mais do que devia, quando chega à noite é o dormes. E agora, nestes últimos dias, com quase todo o mundo em quarentena, tenho o sono completamente virado do avesso. Sabes, habituei-me ao som da rua, à passagem do pessoal, do trânsito, agora não se ouve vivalma na rua, e durmo menos de dia. O silêncio acorda-me. Sinto então um contentamento irreprimível de que logo me condeno, penso no mundo aprisionado em casa como eu, e sinto-me acompanhado, vê lá tu. Não devia dizer isto, mas é verdade, é o pensamento numa igualdade perversa num mundo congenitamente muito desigual. Que mal fiz eu a quem para não poder andar? À noite, nestes últimos dias, já me tinha habituado ao ressonar dela, e estava a dormir alguma coisa. Mas esta noite, sem explicação visível, ela não ressonou e eu, preocupado com o que poderia estar a acontecer-lhe, ali mesmo ao lado de mim, mas receoso de a acordar, porque é que não ressonava?, ela, que ressona todas as noites, estaria a respirar?, não estaria a respirar? Não preguei olho toda a noite. De manhã, perguntei-lhe, como dormiste? Dormi bem, dormi até muito bem, há muito tempo que não dormia tão bem. Mas por que é que perguntas? Não costumas perguntar. Porque não te ouvi ressonar. Porque também dormiste bem, não? Dormi nada. Nada, mesmo.
Talvez este silêncio assustador me tenha bloqueado o subconsciente, em auto defesa, e nem sequer sonhei. E ainda bem porque, quando sonho, é cada coisa mais disparatada ou pesadelo de matar um inocente.

Que me recomendas? Agora que preciso, para dormir, que ela ressone e ela não ressona?
Amanhã telefono-te. Fazia-te bem, e à vizinhança, em clausura, que lhe oferecesses as velhas melodias que o teu sax sabe cantar tão bem. E, sobretudo, não te esqueças de lhes dar dose dobrada do Tenderly, a abrir, e, no final como encore do concerto.

Hoje, 25, liguei ao Teófilo. Atendeu-me a mulher. Então o que é feito do Teófilo a estas horas. São onze da manhã, ou tenho relógio avariado?
O Teófilo está bem. Está a dormir que nem um penedo. Doze horas seguidas.
Tomou algum soporífero?
Qual soporífero, qual quê. Se tomou soporífero só se foi sem eu saber. Mas creio que não. Não há disso cá em casa, ele não foi à farmácia porque, como sabes, não pode, e a farmácia, por estes dias tem mais que fazer que entregar soporíferos ao domicilio. De modo que ele continua a dormir a sono solto porque não dormia há duas noites seguidas. Ah! Ao almoço, bocejou e disse-me que não dormia porque eu agora não ressonava. Alguém, com juízo, entende isto. Ri-me, o que é que podia fazer? Mas está descansado que quando ele acordar, liga-te.

E ligou. Felizmente, disse ele, ela tinha voltado a ressonar.

Monday, March 23, 2020

SÓ NÃO GOSTA QUEM TEM ALTERNATIVA


E dos pássaros, por aqui, continuamos sem cantos, sem saltitos, sem voos. Só este silêncio de limbo.
Porquê? Não sei.
Diz-nos uma amiga nossa que é preciso dar-lhes de comer para aparecerem. No jardim dela tem comedouro e os pardais chegam em bandos e bulham uns com os outros.
A nós, parece-nos estranho que a passarada tenha desaparecido porque nunca os habituámos a dar-lhes comidinha no prato. Chegavam, saltitavam, debicavam na relva, onde quer que encontrassem o que procuravam, e agora sumiram-se. Porquê?
Seguimos a sugestão da nossa amiga e, desde esta manhã, têm ao dispor prato com arroz descascado, carolino, e flocos finos de aveia. É do que se consome cá em casa.
Por outro lado, recordo-me bem que em casa de meus pais se alimentavam os pintainhos, acabados de sair das cascas, com arroz. Rondava a passarada para petiscar mas a mãe galinha mantinha-os de fora a ver os seus pequenotes comer.
Os pássaros não aparecem, salvo um outro melro para se banhar na piscina deles, cá em casa não temos outra piscina. Porquê?
Dê-lhes alpista, diz-nos a nossa amiga.
Não tivemos alpista em casa. Nunca tivemos aves em cativeiro a pedir alpista, alpista nunca fez parte do nosso rol de compras.

Por outro lado, só não gosta quem tem alternativa.
Nunca ninguém morreu com fome tendo comida à sua frente.
Assim, sendo, concluo: a passarada anda por outro lado onde fisgou melhor petisco, alternativo ao que aqui sempre tiveram à sua vontade, e à ementa que, excepcionalmente, colocámos hoje à sua disposição.
Que lhes faça bom proveito.
Voltem quando entenderem.
Serão sempre bem vindos.



Sunday, March 22, 2020

PARA ONDE FOSTE PRIMAVERA?


20 de Março, começa hoje a primavera.

Ouviste cantar a poupa?
Não. E, tu?
Também não?
É estranho...
Hum! Ela aparece e desaparece, depois volta.
O mais estranho é que também não vejo os nossos melros. Nem a alvéola azul, que todos os dias nos visita, nem o pisco, nem a toutinegra, nem o rabi ruivo, nem os chapins, nem em voo alto, diário, de ida e regresso, a garça real, nem, quando menos se espera, o gaio.
Devem ter ido dar um giro, voltarão ao fim do dia.
E os pardais? Desapareceram os pardais?
Pardais é bicho que nunca desaparece.
Dizem os ecologistas que até os pardais estão a desaparecer.

21 de Março

Estás a ouvir a poupa?
Estou. A poupa voltou.
Voltou e já a vi hoje aqui a picar no jardim.
Mas não vejo os melros nem pardais. O que mais me intriga é que não se veja um único pardal, para amostra. Nem o gato que, sorrateiramente, costuma vir até cá tentar deitar unha em petisco alado distraído
É do frio e do vento. Arrefeceu o tempo, estão escondidos.

Hoje, 22 de Março

Ainda hoje não ouvi a poupa.
Nem os melros, nem os pardais.
E o dia está lindo. Há sol, o céu azul, o castanheiro mostra vigorosos ramos de folhas viçosas, os callistemon thomasi estão exuberante de flores, os outros mais atrasados, nas gravíleas vêem-se todos os dias mais flores, as felícias estão lindas, as rosas sevilhanas estão prenhes de botões e um deles partiu hoje o cálice, a estrelícia mostra ao sol, vaidosa, três exuberantes cristas, os malmequeres vestem-se ufanos de branco rosa, os leptospermum voltaram a ser fantásticas bolas de florinhas rosa, que perduram assim meses sem que o vento ou frio as desanime. Até no jacarandá, que plantámos o ano passado, já estão a apontar rebentos. O ginkgo, que o Miguel plantou há quinze anos, há muito que cresceu mais alto que o plantador, que também cresceu bem, é o gigante da família. Os loureiros estão vigorosos, o pinheiro plantado pela Rita anda em competição de crescimento com o loureiro que ela também plantou.
O loureiro maior, plantado em dia de celebração conjugal, abrigo de melros e pardais, quando precisam, é agora um garboso cone com não menos de uma dúzia de metros de altura.
Tudo tão bonito, mas tudo tão silencioso. Com um dia tão bonito por que razão não comparecem os melros, por que não recreiam os nossos olhos os pardais, por que não voltou a poupa, porque nem sequer a ouvimos cantar?
E as abelhas? Já reparaste que não se vêem abelhas? Ainda há dias saltavam milhares delas nos muitos milhares de florinhas dos leptospermum, das gravíleas, dos callistemon? Por que razão fugiram daqui, agora quando chegou a primavera?

Amanhã voltarão todos: a poupa, os melros, os verdilhões, os pardais, de vez em quando o gaio, a alvéola, a toutinegra, os chapins, o pisco, o rabi ruivo, a garça real, as garças brancas a passear do outro lado da vedação, as gaivotas a dar sinal de temporal, o bando de estorninhos a chegar e a por-se a andar, todos!

Notícia de última hora: cerca do meio dia, foi avistada a alvéola, também o gato já foi visto a rondar.



O tempo do azevinho (à frente na foto) pintar-se de bolinhas vermelhas aconteceu por alturas do Natal. Agora é o tempo dos vizinhos, atrás, os leptospermum se revestirem de flores rosa.

Friday, March 20, 2020

SUPER ABEL


Fomos clientes durante seis anos de um estabelecimento de venda de mercearia e produtos geralmente consumidos em casa, aqui nas proximidades, que orgulhosamente se afirma "SUPER ABEL".
Depois instalou-se, também relativamente próximo de nós, um supermercado de uma cadeia super conhecida. Tinha mais espaço, melhor apresentação de produtos, os preços não se distanciavam significativamente dos praticados no SUPER ABEL, o pessoal era geralmente amável.
Depois aconteceu o bloqueio, entrámos em clausura, tínhamos que comprar o necessário. Fomos lá, como de costume, e o costume era praticamente diário, ainda não havia muita gente, ainda que mais que o normal.
Como os nossos hábitos compram à medida que precisamos, comprámos o normal. 
Daí a três dias voltámos e encontrámos uma fila à espera de entrar, suportando o vento e o frio. 
Tentámos telefonar para saber se faziam entregas ao domicílio. Fazemos, disseram, mas neste momento não aceitamos mais encomendas.
Demos meia volta e fomos ao SUPER ABEL. Comprámos tudo o que queríamos.
Fazem entregas em casa?
Fazemos, geralmente entregamos no próprio dia, o mais tardar no dia seguinte.

Ontem, encomendámos por e-mail. Pagámos por transferência bancária. Fizeram a entrega hoje ao fim da tarde. Vantagens de um estabelecimento familiar que conhece e estima todos os clientes.
Prometemos a nós mesmos que, aconteça o que acontecer, a partir de agora só contamos com o SUPER ABEL.
 

Sunday, March 15, 2020

BOCEJOS EM CLAUSURA


Esta noite, pouco tempo depois de desligarmos a luz, percebi que a Aurora estava a bocejar. 
Talvez não conseguisse dormir. A ouvi-la bocejar, o bocejo é contagioso, comecei a bocejar também.
Conheci em tempos um fulano que se sentava no banco da frente do carro eléctrico da manhã e, propositadamente, bocejava, bocejava, bocejava, até que punha, entretenimento dele, todos os passageiros do eléctrico a bocejar.
Estávamos, eu e a Aurora, cansados ou pouco cansados, ou seria a tensão provocada pelas notícias do dia que não nos deixavam dormir, ou as dezenas de mensagens que os amigos insistem em reencaminhar recomendando-nos  balas de pólvora seca para matar o vírus. Antes de nos deitarmos paramos os pim! nocturnos de chegada de mensagens, desligamos o som dos telemóveis, quem quiser urgentemente falar connosco fora de horas utilize o telefone fixo.
Adormecemos, nenhum de nós sabe a que horas, mas já era tarde.

Talvez, cerca das cinco da manhã, ouço o telemóvel a tocar. Teria deixado o som do meu telemóvel ligado ou teria apenas reduzido ao mínimo o som do aparelho porque o ouvia a tocar em tom baixo? Estendi o braço para calar o intruso, e concluo indignado que aquela era a sexta tentativa de alguém, que não constava da minha lista de contactos, para falar comigo. Intrigado decidi ouvir quem era e o que queria. 
Coloquei o telemóvel ao ouvido debaixo do edredão para não acordar a Aurora mas tinha dificuldade em ouvir a voz que vinha não sabia de onde. Até que, ao fim de algum tempo, pareceu-me perceber Ol-de-mi-ro.
Oldemiro? 
Sim, sou o Ol-de-mi-ro do Va-le, pareceu-me ouvir, com boa vontade da minha parte. Oldemiro, só me recordava de um, tínhamos sido colegas no liceu, já não sabia por onde andava o Oldemiro há umas duas dezenas de anos. Sabia vagamente que vivia sozinho, era solteiro com várias namoradas, segundo uns, vivia em castidade como membro da opus dei, segundo outros.

Cada vez com mais dificuldade em entender o que queria o Oldemiro, a requerer doses adicionais de paciência da minha parte acabei por concluir que o Oldemiro, quando se deitara, começara a bocejar imparavelmente e, tão frequente e intensamente o fez, acabou por deslocar o maxilar. 
E dói-te? 
Se dói, caramba, é uma dor insuportável, quase não consigo falar...
Via-se. Só com muita paciência conseguia compor as respostas do Oldemiro juntando os monossílabos intermitentes com que se expressava.
E como tu seguiste para estomatologista ...
Não Oldemiro, estás equivocado. Segui para engenharia, mas não de maxilares. Já ligaste para o 808242424?
Para quê? Não quero cá médicos em casa. Não quero cá ninguém. Estou em clausura.
Já tomaste um analgésico? Se reduzires a dor e descansares pode acontecer que o maxilar volte à posição normal. 
Já tomei um saridon, estava a guardá-lo para o corona .
Um saridon? Saridon já não se recomenda, Oldemiro, onde é que foste desencantar o saridon?
É o que tenho cá em casa.
Desde quando?
Sei lá, há nos.
Mas, Oldemiro, isso já perdeu o prazo de validade.
Naquele tempo os fármacos não tinham prazo de validade. Depois é que inventaram os prazos de validade para aumentarem as vendas, disseram-me. 
Tretas. Vai à farmácia e compra um analgésico dentro do prazo de validade. E depois arrisquei: não tens ninguém em casa?
Tenho a minha mulher. Mas está na mesma.

Sabe-se lá porquê, dei uma gargalhada que, por inacreditável que pareça, não acordou a Aurora.
Ui!!!!, ouvi do outro lado um longo e doloroso grito.
O que é que te aconteceu agora, Oldemiro?
Uma dor terrível ... com essa gargalhada, esqueci o maxilar e também me ri  de mim, ia para dar uma gargalhada, e foi o maxilar ao sítio.
Agora só a falta a tua mulher ...
É isso agora só falta ela.

Levantei-me, fui à casa de banho e voltei para a cama. Depois comecei a bocejar. 
A clausura não resiste à electrónica.