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Saturday, April 19, 2025

POR UM CESTO DE DEPLORÁVEIS

Por um cesto de deploráveis, perdeu Hillary Clinton as eleições de 2016.
Os deploráveis entregaram o governo dos Estados Unidos da América a Trump, um magnata sem experiência governativa para além do governo dos seus negócios pessoais.
Hillary Clinton perdeu por ter considerado, e com razão, que uma parte dos apoiantes de Trump eram, e ainda são, pouco ou mesmo nada instruidos.
Foi muito criticada por essa afirmação e apresentou desculpas públicas. O recuo custou-lhe a presidência.
Trump nunca teria recuado.
 
Trump perdeu para Biden em 2020,  mas nunca reconheceu a derrota, seguindo estritamente as instruções do seu mentor, Roy Cohn que tinha como filosofia de vida três regras: mantem-te sempre ao ataque, não admitas nada, nega tudo, clama sempre vitória e nunca admitas a derrota. 
Trump ingeriu as indicações do guru e dispensou-o, mas manteve-se agarrado às regras e levou-as tão longe a ponto de, mesmo perante todas as evidências, nunca admitir a derrota frente a Biden, excitou as hordas  ao seu serviço, e impeliu-as para a maior afronta às instituições democráticas com assalto ao Congresso e o medo a assombrar os congressistas.
Numa democracia liberal onde não governasse o medo e a cobardia, Trump deveria ter sido julgado e condenado  
Foi eleito em 2024 pelo cesto de deploráveis.
 
Dentro de dias, Trump contará cem dias na Casa Branca.
Desde a inauguração do seu segundo mandato, o déspota pode vangloriar-se de ter feito tremer o mundo, eventualmente balanceando-o, à beira do abismo, para um confronto com a China. 
Entretanto, Putin continua a bombardear a Ucrânia, 
Netanyahu a tentar empatar o genocídio na Palestina com o Holocausto perpretado pelos nazis.
Trump tinha garantido que, com ele, não teria havido a invasão russa da Ucrânia e a solução da guerra estaria encontrada em poucos dias após a sua tomada de posse. 
O mesmo, ou mais ou menos o mesmo, para Gaza.
 
A democracia liberal é susceptível de ingerir o veneno que acabará por matá-la sem que se vislumbre, desta vez, antídoto que a possa ressuscitar.
Trump ataca, ofende, desrespeita as instituições fundamentais de um estado de direito.
Ataca e subjuga todos os que, cobardemente, se prestam a bajulá-lo. 
Que são muitos. As excepções reconhecidamente assumidas são poucas.
Corta apoios à investigação científica, quer controlar actividades das Universidades, sobretudo das mais prestigiadas, desrespeita decisões dos tribunais, ontem revelou o que já era conhecido mesmo antes de tomar posse: dominar a FED, gerir segundo os seus critérios arbitrários o sistema financeiro.cf. aqui.

Há quem acredite, ou queira acreditar, que a democracia liberal é suficientemente resistente aos ataques de demagogos e ditadores, e acabará sempre por ressurgir. Se os mandatos têm termo, a alternância está garantida. Mas se deixam de ter?
A resistência à perda de liberdade requere oposição bastante. Trump já deu conta da sua intenção de ser candidato a um terceiro mandato. Nada que Putin e Xi Jimping já não tenham adquirido.

Trump considera que a União Europeia foi criada para "lixar os EUA". E pretende fracturá-la o mais possível. Não recebe Ursula Von Der Leyen, nem visita Bruxelas. Recebeu Giorgia Meloni e aceitou convite para visitar Roma. 
Trump gosta de ser bajulado?
Gosta mas despreza quem o bajula. 

Reconheça-se, contudo, que a União Europeia por ser uma União de Tribos continua a ser Um bando desorientado, sem leader democraticamente eleito e universalmente considerado como tal. 
Trump sabe que é assim e sabe que é fácil desmontar o puzzle mal concebido da União Europeia.
Putin pensa o mesmo.
Xi Jinping também mas, ainda que participe indirectamente na desagregação europeia, é mais discreto. 

Muito resumidamente: O que falta na União Europeia? 
Europeus.

Sunday, December 15, 2024

SE É PROIBIDO VER, VEJA-SE!

 

 

***

O MEU BOLO FAVORITO

"O filme, com uma intimidade preciosa e frágil numa sociedade opressiva, foi proibido no Irão e as autoridades confiscaram os passaportes dos realizadores, que também estão impedidos de filmar " . Jornal Medeia Nimas

Wednesday, October 16, 2024

O VALOR DOS VALORES MORAIS

Anteontem a Real Academia Sueca de Ciências anunciou a atribuição do Nobel das Ciências Económicas em Memória de Alfredo Nobel, mais conhecido como Nobel da Economia, a Daron Acemoglu, Simon Johnson, do Massachusets Intitute of Technology (MIT) e James Robinson, da Universidade de Chicago,

“for studies of how institutions are formed and affect prosperity” 

(Transcrevo do Press release, distribuído após a divulgação dos nomes dos laureados, de sínteses dos trabalhos realizados, seguidas de perguntas da audiência presente no acto e respostas de Daron Acemoglu   - LIVE: Daron Acemoglu, Simon Johnson and James Robinson win Nobel Prize 2024 for Economic Sciences)

 

They have helped us understand differences in prosperity between nations

This year’s laureates in the economic sciences – Daron Acemoglu, Simon Johnson and James Robinson – have demonstrated the importance of societal institutions for a country’s prosperity. Societies with a poor rule of law and institutions that exploit the population do not generate growth or change for the better. The laureates’ research helps us understand why.

When Europeans colonised large parts of the globe, the institutions in those societies changed. This was sometimes dramatic, but did not occur in the same way everywhere. In some places the aim was to exploit the indigenous population and extract resources for the colonisers’ benefit. In others, the colonisers formed inclusive political and economic systems for the long-term benefit of European migrants.

The laureates have shown that one explanation for differences in countries’ prosperity is the societal institutions that were introduced during colonisation. Inclusive institutions were often introduced in countries that were poor when they were colonised, over time resulting in a generally prosperous population. This is an important reason for why former colonies that were once rich are now poor, and vice versa.

Some countries become trapped in a situation with extractive institutions and low economic growth. The introduction of inclusive institutions would create long-term benefits for everyone, but extractive institutions provide short-term gains for the people in power. As long as the political system guarantees they will remain in control, no one will trust their promises of future economic reforms. According to the laureates, this is why no improvement occurs.

However, this inability to make credible promises of positive change can also explain why democratisation sometimes occurs. When there is a threat of revolution, the people in power face a dilemma. They would prefer to remain in power and try to placate the masses by promising economic reforms, but the population are unlikely to believe that they will not return to the old system as soon as the situation settles down. In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy.

“Reducing the vast differences in income between countries is one of our time’s greatest challenges. The laureates have demonstrated the importance of societal institutions for achieving this,” says Jakob Svensson, Chair of the Committee for the Prize in Economic Sciences.

 

Ouvi a comunicação, já captada em vídeo, li o Press release, e ocorrem-me algumas questões que gostaria de ter perguntado mas, obviamente, não fui convidado para estar presente ...
Desloquei então as minhas questões para este meu espaço de entretenimento mental que não foram colocadas pela audiência presente nem foram minimamente abordadas pelos laureados, partindo do princípio que, se tivessem sido, teriam sido, minimamente que fosse, referidos pelos três membros da Real Academia Sueca de Ciências que anunciaram e comentaram as razões da atribuição de tão alto galardão a cientistas dedicados à profunda análise dos muito complexos meandros da economia.

Porque o tema é demasiado ambicioso para as minhas mais que exíguas qualificações, destaco uma conclusão dos estudos realizados : "In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy."
 
A democracia, sustentada na liberdade de expressão do pensamento, encontra-se hoje em situação, por demais visível, de atrofiamento em consequência da acentuada desvalorização do seu valor moral, mesmo, mesmo e sobretudo, no país e no povo onde mais floresceu porque as instituições nunca foram abaladas e o direito que regulava a vida em sociedade nunca foi posto em causa, até 6 de janeiro de 2021 quando o Capitólio dos Estados Unidos, símbolo máximo da democracia norte-americana, foi atacado, com o incentivo do ex-presidente aos assaltantes perante muitos milhões de espectadores que, em todo o mundo, assistiram ao impensável. 

Não foi a primeira vez que o Capitólio foi atacado. 
Em 24 de agosto de 1814 o Capitólio foi incendiado por tropas britânicas, durante a guerra de 1812. A 4 de julho de 1776, 13 colónias tinham declarado formalmente a sua separação do Império Britânico. 
(Obs. - O Brasil, colonizado por portugueses, mas não só,  foi declarado independente em 1822)
A 1 de Março de 1954 nacionalistas porto-riquenhos entraram no Capitólio com armas contrabandeadas. Foram presos e condenados; o Presidente Jimmy Carter mais tarde concedeu-lhes clemência.
Em 24 de Julho de 1998 foram mortos, por um atirador com histórico mental,  dois polícias em serviço na Capitólio; em 1999, um juiz federal considerou-o incapaz de ser julgado por sofrer de doença mental.
 
6 de janeiro de 2021 foi a única vez que o Capitólio foi assaltado por norte-americanos, motivados pelas declarações e incentivos do presidente que tinha perdido as eleições para Biden.
Com diversas culpas de grau elevadíssimo no cartório, em cima da maior afronta feita à democracia norte-americana, perante a passividade permissividade e conivência das suas instituições judiciais, o mobilizador do ataque em 6 de janeiro é agora novamente candidato à presidência, sendo muito provável, a julgar pelas últimas sondagens, que possa ser eleito.

Quanto vale a liberdade? Quanto vale a democracia?

Admitamos que Trump não ganha em 5 de novembro, próximo. 
Ainda assim, o valor moral da liberdade e da democracia não se alteraria significativamente porque as instituições consentiram que um assaltante do Capitólio (tão ladrão é o que assalta a vinha como aquele que fica ao portão a vigiar) se apresente a sufrágio isento e limpo como qualquer cidadão sem cadastro.

Trump já disse e reafirmou que tenciona, além do mais, retirar o apoio aos europeus unidos pela democracia, incumprindo os compromissos assumidos com os outros membros da NATO e reforçando os seus apoios aos desígnios de Putin, que sistematicamente recorda aos europeus ocidentais que o poder nuclear de que dispõe é para ser usado quando e como este Czar entender. 
Como reagirão os europeus perante a concretização desta ameaça? Ou, simplesmente, perante esta ameaça respaldada por Trump? Resigna-se e submete-se? 
Quanto vale a liberdade, quanto vale a democracia, para a parte eurocéptica e a parte eurófaga dos membros da União Europeia?
Valem alguma coisa?

Saturday, September 28, 2024

PODE UM (EX) BOMBEIRO INCENDIAR O MUNDO?

A pergunta não tem intuitos sensacionalistas porque decorre do muito diversificado sistema de eleição do presidente dos Estados Unidos da América, que não está sujeito a regras idênticas em todos os EUA e também não são claras as regras de validação da votação sobretudo nos casos de votação antecipada por correspondência, já a decorrer. Em qualquer caso persistem condições para emergirem dos resultados da votação em 5 de novembro confrontos irredutíveis, incompreensíveis na democracia mais antiga da era moderna e, ainda, a maior potência mundial. 

Em 21 de dezembro do ano passado, coloquei uma nota neste caderno de apontamentos -  BIBEN NÃO SERÁ REELEITO, TRUMP TAMBÉM NÃO - sustentada num artigo publicado aqui, "Why neither Biden nor Trump will be the next president".

Para já, metade da previsão (ou profecia?) está cumprida: Biden não será reeleito Cumprir-se-á a outra parte com a não eleição de Trump?
A 37 dias da data das eleições, as sondagens não colocam nenhum dos candidatos, Trump ou Harris, em posição claramente vencedor.
 
Pode ser qualquer um deles, segundo uma longa lista de sondagens publicada ontem em diversos media.
Para cerca de metade dos norte-americanos a incerteza evidenciada nestas sondagens é preocupante para os democratas, favoráveis à continuidade de um sistema democrático-liberal, para cerca de outros tantos, entusiastas de um poder presidencial autocrático, é excitante a expectativa de um retorno de Trump à presidência.
Em qualquer dos casos não é, maioritariamente, sentida pelos norte-americanos a ameaça para o futuro de uma Europa livre de autocracias a eleição de Trump, com a consequente promessa deste de terminar o apoio norte-americano à Ucrânia, entregando-a a Putin e que, faça Putin o que entender aos países  da União Europeia, terá a sua bênção. 

É a propósito desta incerteza que teve repercussão expressiva o facto do senador Michael McDonell, do  Nebraska, com antepassados irlandeses, católicos, democratas, se ter registado recentemente no GOP republicano por discordar dos democratas em temas fracturantes: aborto, opção de orientação sexual, imigração. Como o Nebraska nomeia os seus representantes no Congresso por votação no congresso do Estado, um voto do ex-bombeiro desequilibra o empate e favorece Trump que pretende alterar as regras de votação em vigor naquele Estado.
Este senador terá, entretanto, desiludido Trump, comprometendo o seu futuro político, recusando apoiar alterações quando as eleições se encontram tão próximas.


 
Por outro lado, Trump e as suas tropas já começaram a movimentar-se no sentido de inventar situações para negar a validade dos resultados das eleições se não as vencer. Em causa as regras de votação pelo correio, já em curso, um meio essencialmente utilizado pelos democratas.
Não obstante estas intenções mal disfarçadas de Trump, este está a indicar aos seus apoiantes que utilizem também eles a votação pelo correio.
 
 
Chegados aqui, agiganta-se a probabilidade de, num mundo mais do que nunca antes na história da humanidade, a estupidez humana poder auto destruir-se e destruir todos os seres vivos no planeta Terra. 
O voto do ex-bombeiro, como qualquer outra causa aparentemente irrelevante, pode atiçar o rastilho de uma guerra nuclear de consequências incomensuráveis. 

Ainda anteontem Putin voltou a ameaçar o Ocidente com o uso de armas nucleares.
Ora, declaradamente, Trump apoia Putin. 
E Putin não esconde a sua ambição de submeter a Europa democrática ao seu dicktat.

 
Mas há quem não acredite ou não queira acreditar.
O certo é que, por todo o mundo ocidental, se alarga a mancha dos extremismos, de esquerda e de direita.
Que se tocam, como se sabe. 
Aconteceu o mesmo há mais de cem e há mais de oitenta anos. Com uma enormíssima diferença: a criatividade destrutiva da espécie humana tinha então atingido limites ínfimos quando comparados com os que hoje estão ao dispor da estupidez humana.  
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Friday, July 19, 2024

MÁS NOTÍCIAS PARA OS EURÓFAGOS*

Ursula von der Leyen reeleita presidente da Comissão Europeia.

"Horas antes, num discurso proferido no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, Von der Leyen atacou Viktor Orbán – sem citar o nome do primeiro-ministro da Hungria – pela recente deslocação a Moscovo logo após o arranque da presidência rotativa do país do Conselho da UE. “A Rússia está a contar que a Europa e o Ocidente se tornem moles” e o problema é que “alguns na Europa estão a alinhar”, afirmou."

Ursula von der Leyen não se escusou a apontar o dedo, antes mesmo de ter sido reeleita, para os eurófagos.
Orbán é, declaradamente, um deles. 
Mas com ele, alinham muitos, demasiados, outros que continuam a alimentar-se da instituição que os acolheu no pressuposto que aceitavam e respeitavam os seus princípios, nomeadamente a lealdade que garante a coesão do grupo no combate a quem quer destrui-lo.
 
Ursula von der Leyen imprimiu à Comissão Europeia um ímpeto agregador que nunca nenhum dos seus antecessores tinha sido capaz, impulsionada pela repetida ameaça de Putin estender o seu poder autocrático até onde os europeus democraticamente livres recuarem.  
 
Os ventos voltam a soprar, cerca de um século depois de as democracias, geralmente complacentes, terem soçobrado perante os regimes autocráticos, de ditaduras, a favor daqueles que se pretendem ter sido ungidos pelos deuses para governar os povos  com critérios férreos. 
Trump foi ontem nomeado candidato dos Republicanos nas eleições de 5 de Novembro.
Biden nem desiste nem dá sinais de recuperação das suas evidentes diminuídas capacidades de governar.
Putin, czar do mais extenso território do planeta, comparativamente subdesenvolvido, usa o argumento do fantasma do inimigo externo e a força perante a Ucrânia, para garantir do povo russo uma submissão que não consegue com o seu desenvolvimento económico e social**.
 
Macron está preso numa teia tecida pelos extremismos em França, e não tem agora capacidade suficiente para ombrear com o chanceler alemão Olaf Scholz, também ele em modo diminuído, na retoma do eixo económico europeu.

Perante uma mais que evidente falta de cumprimento de Trump pelos compromissos assumidos pelos EUA na NATO, a Europa Livre não tem alternativa senão enfrentar Putin sem esperar pelo auxílio norte-americano. 
Ursula von der Leyen demonstrou no seu primeiro mandato capacidade de mobilização imprescindível à continuidade da democracia europeia, enfrentando os eurófagos.
 
Se não ela, quem?
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*Eurófago, anotei há alguns dias aqui, são uma espécie de caruncho infiltrado nas estruturas da União Europeia (e, da NATO, acrescente-se agora), que se alimentam do meio hospedeiro com o objectivo de o destruir.
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**A propósito do subdesenvolvimento económico e social da Rússia de Putin, sugere-se a leitura deste artigo de Henrique Raposo publicado no Expresso.


Sunday, June 09, 2024

BRANCO OU TINTO

Valeu o meu apontamento de ontem - O QUE VALE O MEU VOTO? - um comentário, pertinente, que, no entanto, não responde à questão em causa.

"... O voto de cada um de nós vale efectivamente uma quota numericamente  insignificante, mas isso é a essência dos regimes democráticos, onde ninguém, por mais poderoso que seja do ponto de vista político, económico ou religioso, tem um voto com maior significado do  que qualquer um dos outros votos !!!!  Omitir esta verdade, seja a que pretexto for, é como que um convite à abstenção do acto eleitoral !"

Votar é um direito cívico, não é uma obrigação.
Dizendo isto, de modo algum desvalorizo a essência primordial da democracia da liberdade de pensamento e da sua expressão.
O que me repugna é a feira, o leilão, com que, por motivação maior da emoção, a exaltação desvalorize a decisão de voto tomada conscientemente.
Culpa dos partidos e dos média que tendem a arrastar muitos eleitores pela paródia das arruadas para os lados dos seus interesses próprios e não do país.
Foi, e continua a ser, a complacência da democracia com os seus inimigos, que sufragou maiorias intencionalmente autocráticas, a caminho de ditaduras, que eliminaram democracias. 
Hitler foi o monstro que foi porque a democracia estava debilitada pela derrota alemã em 14-18 e os alemães, emocionalmente, engoliram as promessas propagadas a partir das cervejarias de Munique, pelo radicalismo de um fulano, austríaco, candidato frustrado a artista de belas-artes.
Aconteceu há cerca de 100 anos. Está a começar a acontecer agora.

Já votei hoje. 
Serve o meu voto para alguma coisa?
Não sou tão tolo para pensar que sim.
 
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A propósito de eleições europeias, encontrei no meu arquivo de recortes de imprensa alguns comentários sobre o livro de Saramago, publicado há vinte anos - Ensaio sobre a Lucidez - um ano em que Saramago integrou a lista de candidatos da CDU ao Parlamento Europeu "em lugar não ilegível, simplesmente como uma expressão de fidelidade ao PCP ", segundo o secretário-geral do partido nessa altura.   

     
  


 (cartoon de Vasco)

"Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembleia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado ..." 
 
Assim começa e prossegue em rame-rame tipicamente saramaguiano "Ensaio sobre a Lucidez" (2004) até chegar onde quer chegar: o temporal não afastou os votantes, a abstenção foi baixa, mas houve oitenta e três por cento de votos em branco, um resultado que exprimia a perda da credibilidade da população nas instituições, nos partidos políticos, da esquerda da direita e do meio e a indignação pelo descalabro praticado por políticos de partidos diferentes, mas de atuações iguais, usufruindo de privilégios que ofendiam a população. 
 
O livro, estruturalmente mal amanhado mas ideologicamente muito direccionado, constituía para a maioria dos críticos o ataque mais evidente à democracia em toda a obra de Saramago, e isso incomodou os fiéis do partido, que logo defenderam que, se por um lado,  oitenta e três por cento tinham votado em branco, por rejeição massiva dos partidos da direita, da esquerda e do meio, por outro lado, dezassete por cento tinham votado no único partido isento de todos os pecados imputáveis ao sistema. E se assim fosse, os dezassete por cento do eleitorado elegeria em 2004, vinte e sete, isto é, a totalidade dos candidatos ao Parlamento Europeu.
Na realidade só elegeu um.
 
Era uma parábola? Era uma anedota?
Fosse o que fosse, Saramago parecia ter descoberto a forma de implodir a democracia "se o voto em branco passasse a dez por cento", afirmava ele em entrevista ao Expresso em Abril de 2004, "isso era o terramoto de 1755 sem vítimas e sem estragos".
Hoje, provavelmente, estaria do lado de Putin, contra a União Europeia. 
Tem candidato sucessor em lugar elegível: perdeu Beja, pode ganhar Bruxelas. Como negócio, nada mau para o candidato.  

Saturday, June 08, 2024

O QUE VALE O MEU VOTO?

Porquê votar? 
Ou, dito de outro modo, o que vale o meu voto?
 
"As probabilidades de o meu voto influenciarem o resultado de uma determinada eleição são muito, muito reduzidas" - Stephen J. Dubner and Steven D. Levitt* - 
(Para quem não consiga acesso ao artigo, transcrevo-o no final, na íntegra, do original)
 
O artigo foi publicado em 2005 e, desde então, a geopolítica mundial alterou-se substancialmente: Putin invade e anexa a península da Crimeia em 2014, dando o primeiro passo para a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.
O grande golpe nas relações com o ocidente, inexplicavelmente surpreendido com as intenções de Putin, garantiu a este o apoio da igreja ortodoxa russa e da maioria do povo russo, e, mais perigoso ainda para a União Europeia, granjeou-lhe a admiração, e o indisfarçado apoio, de pseudo-europeísta que entraram na União com o fito de lhe sugarem as vantagens e atraiçoarem os seus valores. 
Com as eleições para o Parlamento Europeu, este fim-de-semana, os extremistas podem alcançar resultados que poderão demolir as frágeis estruturas europeias.
Putin está, declaradamente, a governar em regime de economia de guerra; na União Europeia, a desunião em matéria de defesa é uma evidência gritante que só pode ser aclamada pelos que têm como intenção o descalabro da democracia e a emergência de regimes autocráticos a caminho de ditaduras.
Nos EUA balança-se também o futuro da Europa e da preservação dos valores ocidentais, porque, também nos EUA o extremismo é atractivo para quem se move pelas emoções de arraial de feira.

Passaram ontem oitenta anos após o desembarque na Normandia de milhares de soldados norte-americanos, muito dos quais deram a vida pela libertação da Europa do regime nazi. 
A Europa viveu, desde a derrota dos regimes totalitários que tinham infectado quase todo o seu território,   a excepção mais evidente foi o Reino Unido, o maior período de paz da sua história. 
Mas, por razões que escapam à racionalidade da espécie humana, a Europa, subjugada novamente pelas vagas de submissão aos autocratas, parece reincidente a prestar-se como presa fácil dos extremismos. 

Dito isto, e voltando à pergunta, o que vale o meu voto?,  não posso deixar de considerar a forma como decorreram as acções de campanha eleitoral quando passaram para a rua e alguma racionalidade observada nas discussões a quatro, em estúdio, deu lugar à excitação de arraial, com o objectivo de arrastar quem se move mais pela emoção que pela razão, e concluir que o meu voto não vale nada. 


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THE WAY WE LIVE NOW: 11-06-05: FREAKONOMICS

Why Vote?     

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By Stephen J. Dubner and Steven D. Levitt

·       Nov. 6, 2005

A Swiss Turnout-Boosting Experiment

Within the economics departments at certain universities, there is a famous but probably apocryphal story about two world-class economists who run into each other at the voting booth.

"What are you doing here?" one asks.

"My wife made me come," the other says.

The first economist gives a confirming nod. "The same."

After a mutually sheepish moment, one of them hatches a plan: "If you promise never to tell anyone you saw me here, I'll never tell anyone I saw you." They shake hands, finish their polling business and scurry off.

Why would an economist be embarrassed to be seen at the voting booth? Because voting exacts a cost -- in time, effort, lost productivity -- with no discernible payoff except perhaps some vague sense of having done your "civic duty." As the economist Patricia Funk wrote in a recent paper, "A rational individual should abstain from voting."

The odds that your vote will actually affect the outcome of a given election are very, very, very slim. This was documented by the economists Casey Mulligan and Charles Hunter, who analyzed more than 56,000 Congressional and state-legislative elections since 1898. For all the attention paid in the media to close elections, it turns out that they are exceedingly rare. The median margin of victory in the Congressional elections was 22 percent; in the state-legislature elections, it was 25 percent. Even in the closest elections, it is almost never the case that a single vote is pivotal. Of the more than 40,000 elections for state legislator that Mulligan and Hunter analyzed, comprising nearly 1 billion votes, only 7 elections were decided by a single vote, with 2 others tied. Of the more than 16,000 Congressional elections, in which many more people vote, only one election in the past 100 years -- a 1910 race in Buffalo -- was decided by a single vote.

But there is a more important point: the closer an election is, the more likely that its outcome will be taken out of the voters' hands -- most vividly exemplified, of course, by the 2000 presidential race. It is true that the outcome of that election came down to a handful of voters; but their names were Kennedy, O'Connor, Rehnquist, Scalia and Thomas. And it was only the votes they cast while wearing their robes that mattered, not the ones they may have cast in their home precincts.

Still, people do continue to vote, in the millions. Why? Here are three possibilities:

1. Perhaps we are just not very bright and therefore wrongly believe that our votes will affect the outcome.

2. Perhaps we vote in the same spirit in which we buy lottery tickets. After all, your chances of winning a lottery and of affecting an election are pretty similar. From a financial perspective, playing the lottery is a bad investment. But it's fun and relatively cheap: for the price of a ticket, you buy the right to fantasize how you'd spend the winnings -- much as you get to fantasize that your vote will have some impact on policy.

3. Perhaps we have been socialized into the voting-as-civic-duty idea, believing that it's a good thing for society if people vote, even if it's not particularly good for the individual. And thus we feel guilty for not voting.

But wait a minute, you say. If everyone thought about voting the way economists do, we might have no elections at all. No voter goes to the polls actually believing that her single vote will affect the outcome, does she? And isn't it cruel to even suggest that her vote is not worth casting?

This is indeed a slippery slope -- the seemingly meaningless behavior of an individual, which, in aggregate, becomes quite meaningful. Here's a similar example in reverse. Imagine that you and your 8-year-old daughter are taking a walk through a botanical garden when she suddenly pulls a bright blossom off a tree.

"You shouldn't do that," you find yourself saying.

"Why not?" she asks.

"Well," you reason, "because if everyone picked one, there wouldn't be any flowers left at all."

"Yeah, but everybody isn't picking them," she says with a look. "Only me."

In the old days, there were more pragmatic incentives to vote. Political parties regularly paid voters $5 or $10 to cast the proper ballot; sometimes payment came in the form of a keg of whiskey, a barrel of flour or, in the case of an 1890 New Hampshire Congressional race, a live pig.

Now as then, many people worry about low voter turnout -- only slightly more than half of eligible voters participated in the last presidential election -- but it might be more worthwhile to stand this problem on its head and instead ask a different question: considering that an individual's vote almost never matters, why do so many people bother to vote at all?

The answer may lie in Switzerland. That's where Patricia Funk discovered a wonderful natural experiment that allowed her to take an acute measure of voter behavior.

The Swiss love to vote -- on parliamentary elections, on plebiscites, on whatever may arise. But voter participation had begun to slip over the years (maybe they stopped handing out live pigs there too), so a new option was introduced: the mail-in ballot. Whereas each voter in the U.S. must register, that isn't the case in Switzerland. Every eligible Swiss citizen began to automatically receive a ballot in the mail, which could then be completed and returned by mail.

From a social scientist's perspective, there was beauty in the setup of this postal voting scheme: because it was introduced in different cantons (the 26 statelike districts that make up Switzerland) in different years, it allowed for a sophisticated measurement of its effects over time.

Never again would any Swiss voter have to tromp to the polls during a rainstorm; the cost of casting a ballot had been lowered significantly. An economic model would therefore predict voter turnout to increase substantially. Is that what happened?

Not at all. In fact, voter turnout often decreased, especially in smaller cantons and in the smaller communities within cantons. This finding may have serious implications for advocates of Internet voting -- which, it has long been argued, would make voting easier and therefore increase turnout. But the Swiss model indicates that the exact opposite might hold true.

Why is this the case? Why on earth would fewer people vote when the cost of doing so is lowered?

It goes back to the incentives behind voting. If a given citizen doesn't stand a chance of having her vote affect the outcome, why does she bother? In Switzerland, as in the U.S., "there exists a fairly strong social norm that a good citizen should go to the polls," Funk writes. "As long as poll-voting was the only option, there was an incentive (or pressure) to go to the polls only to be seen handing in the vote. The motivation could be hope for social esteem, benefits from being perceived as a cooperator or just the avoidance of informal sanctions. Since in small communities, people know each other better and gossip about who fulfills civic duties and who doesn't, the benefits of norm adherence were particularly high in this type of community."

In other words, we do vote out of self-interest -- a conclusion that will satisfy economists -- but not necessarily the same self-interest as indicated by our actual ballot choice. For all the talk of how people "vote their pocketbooks," the Swiss study suggests that we may be driven to vote less by a financial incentive than a social one. It may be that the most valuable payoff of voting is simply being seen at the polling place by your friends or co-workers.

Unless, of course, you happen to be an economist.

THE WAY WE LIVE NOW: 11-06-05: FREAKONOMICS Stephen J. Dubner and Steven D. Levitt are the authors of "Freakonomics: A Rogue Economist Explores the Hidden Side of Everything." More information on the academic research behind this column is at www.freakonomics.com.