Monday, December 06, 2021

NÃO SE RECOMENDA

O filme está a ser geralmente aplaudido pela crítica.

Mas é um patchwork de tecidos recorrentes na filmografia de Almodóvar, a homossexualidade, entretecidos com temas de histórias de cordel, a troca de bebés na maternidade, uma actriz sempre deslumbrante, mesmo se rejuvenescida por make-ups excepcionalmente bem conseguidos, Penélope Cruz. Seria um melodrama ao gosto de romantismos serôdios se Almodóvar não tivesse atrelado ao trivial das telenovelas uma das sequelas mais dolorosas que continuam a pesar no consciente colectivo dos povos de Espanha.

A Almodóvar não faltavam casos incontáveis de bebés roubados a mães e pais fuzilados, muitos deles entregues a instituições católicas onde famílias ricas relacionadas com o regime franquista, iam comprar bebés, sobretudo meninas, que mantinham na ignorância da sua progenitura durante toda vida. Até ao dia em que o escândalo foi denunciado e iniciados julgamentos dos crimes cometidos e reabilitação da integralidade possível das vítimas.


Friday, December 03, 2021

25 DE NOVEMBRO, SEGUNDO MÁRIO SOARES

 

BREVE REFLEXÃO SOBRE O 25 DE NOVEMBRO*

por Mário Soares

Passou na última 5a. feira o 35o. aniversário do 25 de Novembro de 1975.

A maior parte dos leitores jovens, desta breve crónica, talvez não saiba sequer do que se trata. E, no entanto, é, na história contemporânea de Portugal, uma data tão importante, para a afirmação da democracia  pluralista, pluripartidária, e civilista, que hoje temos, como a  Revolução dos Cravos.

Não tenho nenhum gosto de levantar polémicas passadas. Mas a verdade é  que a memória histórica não deve ser esquecida. Sobretudo, quando os  responsáveis de termos estado à beira da guerra civil, o Partido  Comunista e a Esquerda radical - lembremo-nos dos SUVs e do poder popular - nunca fizeram uma autocrítica a sério do seu comportamento  passado, como lhes competia. Pelo contrário, continuam a pensar - e às vezes a dizer - que o 25 de Novembro foi uma contra- Revolução, que impediu que Portugal fosse uma  Cuba europeia. Onde estariam hoje esses responsáveis - e os seus herdeiros - se tivessem ganho? Seguramente não viveriam tão bem e em paz  como hoje, felizmente, vivem.

Depois disso, o Mundo deu muitas voltas. Assistimos ao colapso do comunismo na URSS e nos Estados então satélites, como a queda do muro de Berlim, ao desaparecimento da cortina de ferro, ao fenómeno do  terrorismo islâmico, à invasão do Afeganistão, com o aval da ONU e à  guerra do Iraque - dois novos Vietnames - da globalização económica e, sobretudo financeira, e à crise do capitalismo financeiro especulativo, dito de casino. Trata-se, como sabemos, de uma crise global e profunda,  que nos atinge a todos, com maior ou menor incidência e que está longe  de ter passado.

O Mundo de hoje é muito diferente do de 1975. E a relação de forças internacionais mudou, com o aparecimento dos Estados emergentes. Tornou-se plurilateral e os blocos de Estados rivais pertencem ao passado. Quem nos diria que o Presidente da Rússia participaria numa  Cimeira da NATO e tornava o seu País, um parceiro fiável do Ocidente? Quem nos diria que Fidel Castro, agora sem papas na língua, reconheceria  que a experiência cubana fora - como se sabe - um tremendo fracasso? Contudo, a nossa Esquerda comunista e a radical, parece terem passado por tudo isto sem ter dado por nada, sem interiorizar qualquer reflexão, continuando a repetir os mesmos slogans de sempre. É triste! Porque contribui para inquinar o nosso futuro, já de si difícil e extremamente complexo. Diga-se, contudo, que o socialismo democrático também precisa de fazer uma séria autocrítica. E ainda não a fez. Pelo menos na Europa, onde se  deixou influenciar pelo colonialismo ideológico neo-liberal americano e  pela fantasiosa "terceira via" de Blair, de que já poucos se lembram. Foi o que levou a maioria dos Estados europeus ao conservadorismo acéfalo, que hoje nos governa, e está a arrastar a União para a  decadência e o descrédito.

É urgente, assim, que os europeus repensem a Esquerda e pressionem o  Partido Socialista Europeu e a Internacional Socialista a mudar o  paradigma de desenvolvimento, reafirmando a contrato social, os valores  éticos e a necessidade tão actual de medidas ambientais. Sem isso - tenhamos a convicção - marchamos a passos rápidos para a desagregação da União Europeia. O que seria uma tragédia para os países membros da  União, para a América e para o Mundo.

Lisboa, 2 de Dezembro de 2010

* Publicado na Revista Visão  - vd. aqui

A ORDEM DA ECONOMIA

Ordem dos Economistas elege esta sexta-feira novo bastonário 

Para quê?

Um candidato dos candidatos foi ministro de um governo de Sócrates, o outro presidente da AICEP, nomeado durante o governo de Passos Coelho. Um é académico, o outro é ‘head’ de marketing estratégico e negócio de empresas no BCP. 

Economia política ou política económica, eis a bizantina questão.



 

 

Tuesday, November 30, 2021

TRÊS TRASTES TESTES

São sequências a mais de testes falsos ou sequências normais de falsificação de testes? - aqui

"De acordo com o que o PÚBLICO apurou, Cafu Phete foi submetido a um teste ainda na África do Sul, antes de embarcar, com resultado negativo. E registou o mesmo desfecho à chegada a Lisboa, onde foi novamente testado. Face aos resultados, foi dado como apto para o treino com o restante plantel e jogou mesmo diante do Caldas, no dia 21, para a Taça de Portugal.

O dia-a-dia do Belenenses SAD correu normalmente até à passada sexta-feira. Pelas 15h30, um dos jogadores da equipa principal dirigiu-se ao departamento médico com queixas de vómitos e sintomas de febre. Dado o quadro clínico, foi feito um teste antigénio e o resultado foi positivo, colocando todo o universo do clube em alerta. Nesse mesmo dia, foi reunido todo o plantel e todos os elementos foram testados, tendo sido detectados outros 14 casos positivos, a maioria dos quais sem sintomatologia.

" O jogo com o Benfica estava agendado para o dia seguinte e, salvaguardada desta onda de possível contágio, estava a equipa de sub23, que habitualmente trabalha num espaço distinto do da formação principal. O plano de contingência foi activado, a delegada regional de saúde contactada e a lista de contactos entregue por volta da meia-noite, para que fossem tomadas as medidas sanitárias devidas.

Já no sábado, por iniciativa do clube, foi feita uma ronda completa de testes PCR. Desta sequência resultaram várias confirmações de casos positivos (um dos quais o de Cafu Phete), tendo então sido retirados quatro elementos do regime de isolamento. Mas o quadro definitivo só seria integralmente divulgado às 19h13, a cerca de uma hora do início da partida. Foi nesta altura que, face aos elementos forçados pelas autoridades de saúde a cumprirem isolamento profiláctico, depois de cruzados os resultados dos testes PCR e antigénio, o Belenenses SAD concluiu que só teria nove jogadores disponíveis, dois dos quais guarda-redes."

E, ainda assim, foi assucatado meio jogo.

As leis do futebol são insondáveis.

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Efeitos colaterais - Para já, vd. aqui, Covid-19: Suíça exige quarentena de dez dias a passageiros portugueses

Sunday, November 28, 2021

O NOVO BANCO E O VELHO BANCO DE PORTUGAL

Cliente faz queixa pelo desaparecimento de 70 mil euros do Novo Banco 

"Questionado sobre este tema, fonte oficial do BdP disse ao PÚBLICO que “não tem por prática comentar casos concretos” deste tipo."

A PÉROLA É A AUTOBIOGRAFIA DA OSTRA

 

                                 
Diego y yo  - Frida Khalo (1949)

                   vendido por 34,9 milhões de dólares                    

No Público, um extenso mas muito interessante, artigo de Vasco Câmara - aqui

"A pintura de Frida Kahlo não é autobiográfica, porque ela não está a contar a sua vida. Isso não interessa a Frida. Porém, ela é o eixo em torno do qual analisa o que lhe sucede. Sim, é esse o referente, o que não quer dizer que o quadro esteja a contar a sua vida, mas pode devolver a angústia que lhe provoca o que acontece. O histórico, o ideológico, o político, o pessoal, o artístico e nesse cenário, supostamente, estaria o que lhe acontece com a sua doença".

"Frida como uma artista que pensou o corpo de uma forma total, uma artista que hoje chamaríamos performativa." . - . cit. Luis-Martín Lozano.

 “Toda a arte é autobiográfica, a pérola é a autobiografia da ostra.” - Federico Fellini

 

PODIAM TER SIDO VINTE ... OU MAIS

Vivam!* 

A boa disposição, a perspectiva anedótica, são imprescindíveis no meio do túnel que atravessamos.
Mas o assunto é sério.
Entro nesta, não porque tenha entusiasmos clubísticos - gosto ver mas não tenho, nunca tive clube -, mas porque ouvi o presidente do Benfica afirmar que o que se passou foi uma vergonha ... mas nenhumas responsabilidades podem ser imputadas ao Benfica; ouvi o treinador da SAD Belenenses (ou Belenenses SAD?) enaltecer a atitude dos "seus" jogadores que se apresentaram em campo, indiscutivelmente, inferiorizados pela pandemia; ouvi que a culpa é da DGS e da Federação (que, sonsamente, alega não ter recebido nenhum requerimento para o adiamento do jogo).
Mas não exigem as regras de protecção contra a pandemia o dever de comportamento individual e colectivo de respeito mútuo pelo próximo?
Que lei pode impor que duas equipas se confrontem quando é público é evidente que um dos conjuntos defronta um surto que atinge a maior parte dos seus jogadores?
É fácil atirar as culpas para a DGS e para a Federação, ainda que algumas culpas lhes possam ser averbadas no cartório, mas nada justifica o comportamento dos clubes a quem assistia o dever de invocar força maior para adiar o jogo e enfrentar com esse direito quem pretendesse prejudicá-los por cumprirem as leis de segurança sanitária em vigor no país.
E o árbitro, não tinha, também ele, a obrigação de não dar início ao jogo, considerando não existirem condições de segurança para os jogadores de ambas as equipas? Se havia um surto num lado, que garantias havia que os que alinharam não estavam também contagiados e que, naturalmente, poderiam infectar os jogadores da equipa contrária? Se interrompeu a meio, por que iniciou? Por se ter reduzido o número de jogadores em campo para o mínimo exigível pelas regras futeboleiras e o número de golos já ser insuficiente?
As regras do futebol sobrepõem-se às regras de prevenção de saúde pública?
Parece ser o caso se observarmos o delírio que voltou às bancadas dos estádios.
Depois, queixamo-nos.
 
Comentário dirigido a um grupo de amigos que anedotizou o resultado do confronto entre duas equipas de futebol, uma das quais alinhou com nove jogares, dois dos quais guarda-redes, por o resto da equipa estar infectada com covid 19)


Friday, November 26, 2021

O JOGO DA CABRA CEGA

CNN PORTUGAL GOES LIVE 

A CNN está no ar em Portugal! 

O país precisa de investimento, sobretudo investimento tecnologicamente avançado, daquele que aumenta a produtividade, o crescimento económico, condição necessária para o aumento dos salários e da felicidade dos portugueses.

Passei por lá durante uns instantes. Notícia do dia, a entrevista ao banqueiro de quem se desconhece o paradeiro. O foragido sente-se perseguido pela justiça portuguesa, que, segundo ele, usa duas medidas. Usa mais, mas para o efeito duas chegam para avaliar o argumento do entrevistado: ele, um inocente foi condenado à prisão, fugiu à iniquidade do julgamento que o quer preso; outro, o que foi dono disto tudo,  causou rombos irreparáveis, continua em liberdade a aguardar que o tempo o amnistie por prescrição dos processos.

É verdade o que diz o banqueiro sem paradeiro conhecido: por cada grande canalha preso ou perseguido pela justiça há dezenas de grandessíssimos canalhas à solta. Quase todos os dias se ouvem notícias de buscas de molhadas de procuradores à procura de provas de crimes; dias depois,  aparecem outras que apagam da memória dos dias  as anteriores.

Não é por muito trabalhar que a produtividade da justiça irá crescer apesar do investimento da CNN em Portugal. A CM já ocupou o mesmo espaço e os resultados são os que se sabem: uma indiferença total de uma audiência anestesiada que engole tudo e não regurgita nada.

 

Tuesday, November 09, 2021

GOSTAVA DE SER CONDE

O Parlamento aprovou, na generalidade, o projecto de lei do PS que visa conferir "maior transparência e independência" às ordens profissionais. - aqui

As Ordens Profissionais ou são de índole essencialmente corporativa (tendem a limitar a entrada de novos membros, sendo o caso mais evidente desta prática obstrutiva observado na Ordem dos Advogados), ou corporativa e sindical (p.e, Ordem dos Médicos), normativa (p.e, Ordem dos Engenheiros) ou de casa aberta (entra quem quer entrar e pagar quota). A Ordem dos Economistas é um exemplo acabado de uma Ordem Profissional de casa aberta. 

Concorrem a uma eleição próxima duas candidaturas a Bastonário da Ordem dos Economistas. Distinguem-se nos argumentos dos apoiantes de uma e outra no enquadramento político de cada um dos candidatos: um foi nomeados pelo governo de Passos Coelho para presidente da AICEP,  o outro foi ministro dos Transportes no governo de José Sócrates. Não há nenhuma motivação corporativa de restrição de entrada de novos membros nem nenhuma motivação de reivindicação sindical. Navega-se num mar bonançoso onde os membros se reúnem em Congressos para, fundamentalmente, confraternizarem e provarem que a Ordem existe.

O que é um economista?
Pereira de Moura, afirmava em 1964 (Lições de Economia, Clássica Editora, pg. 6), que para esta pergunta, não haverá, talvez, melhor  resposta que uma, aliás tradicional: a Economia é aquilo que fazem os economistas. Tem pelo menos  o mérito de de resistir a todas as críticas (expostas)" ... O que obriga é ter alguma ideia do que os economistas efectivamente fazem." . 
 
Obs. - Pereira de Moura parece, neste caso, deduzir por equivalência semântica que se um médico pratica medicina e um advogado pratica advocacia um economista pratica (estuda, investiga, analisa) economia.
A seguir vêm alguns exemplos das actividades dos economistas indicados por Pereira de Moura, todos incidindo sobre análise/investigação na área económica/financeira.

Tanto quanto julgo saber, a inscrição na Ordem dos Economistas requer prova mínima de sub graduação (licenciatura, agora de três anos) numa das escolas licenciadas.
Um licenciado em economia (ou gestão de empresas), recente ou veterano, que exerce um cargo, ou realiza um trabalho que pode ser realizado sem qualquer restrição legal ou insuficiência de conhecimentos, com habilitações em outras escolas (engenharia, direito, medicina, letras, arquitectura, enfermagem, etc.) é um economista?
Um licenciado em história é, só por isso, um historiador?
Um licenciado em física é, só por isso, um físico?
Um licenciado em matemática, é, só por isso, um matemático?
Um licenciado em geografia, é, só por isso, um geógrafo?
Ser economista é ser detentor de um título como, por exemplo, o major Valentim Loureiro, major para toda a vida?

Dos dois candidatos ao lugar de bastonário qual deles é economista, no sentido de que realiza funções que requerem habilitações específicas para o exercício da função economista, inconfundível com outras funções?
Um foi (ou ainda é) director de um banco. Grande, à medida das nacionais grandezas.  E presidente da AICEP. Directores de bancos não licenciados em economia, finanças, gestão de empresas, há muitos ... e bons. Da AICEP, foi presidente o actual presidente da Câmara Municipal de  Sintra, jurista e político, segundo a Wikipédia.
O outro é um académico, licenciado e doutorado no ISEG. Foi Ministro, mas para o exercício de cargos ministeriais  qualquer habilitação serve, salvo (sem se saber porquê) se for Ministro da Justiça.

A Ordem dos Economistas  é tão aberta, que um candidato a bastonário pode ser admitido hoje na Ordem e eleito amanhã bastonário dos economistas, sem nunca ter realizado funções que qualquer outro profissional, com as mais diversas qualificações académicas, não possa realizar ou ter realizado.
Em conclusão: estas eleições, se não estou mal da vista, é uma disputa entre a esquerda e a direita, o que, só por si, demonstra a isenção científica de qualquer dos candidatos.

O português é um nostálgico da monarquia por mais republicano que se convença ser. Gosta de títulos, e a República não acabou com essa congénita necessidade de ter ou reconhecer títulos.
 
AC, era presidente de uma empresa industrial, provavelmente a maior, medida pelo VAB, e um dia foi convocado para uma reunião pelo Ministro do Planeamento da altura.
A conversa discorria amavelmente, mas algo começou a fazer mexer AC na cadeira em que estava sentado.
O ministro tratava-o por senhor engenheiro isto, senhor engenheiro aquilo, senhor engenheiro ... senhor engenheiro ...
AC, quando o ministro deu uma oportunidade a AC para falar, AC disse-lhe: senhor ministro eu não sou engenheiro ...
Não é engenheiro? perguntou o ministro, que era engenheiro, estupefacto perante o insólito, para ele, ministro, do presidente da maior empresa industrial não ser engenheiro. Não é engenheiro? Então o que é que o senhor é?
AC, um veterano licenciado pelo ISCEF nos anos 50, respondeu: O que sou, senhor ministro? Não sei, mas sei o que gostava de ser. Gostava de ser Conde.


EXCELENTÍSSIMO DINOSSAURO

EXCELENTÍSSIMO DINOSSAURO 

Um dinossauro invadiu a Assembleia Geral das @nacoesunidas para convencer os líderes mundiais a levarem a ação climática mais a sério e não escolherem a extinção.

"Ao menos nós tivemos um asteróide. Qual é a vossa desculpa?" - pergunta o dinossauro neste filme do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - @undp - que faz parte da campanha "Não Escolha a Extinção".

Os subsídios governamentais para a extração de combustíveis fósseis rondam os 423 milhões de dólares por ano, o suficiente para vacinar todas as pessoas do mundo contra a Covid-19 ou três vezes o valor necessário para acabar com a fome a nível mundial.

🌍 O mundo não vai eliminar a presença dos combustíveis fósseis a não ser que haja pressão do público para o fazer.

Por isso, partilha esta mensagem com a tua família, os teus amigos e conhecidos e convence-os de que precisamos de agir AGORA!

Estão prontos para parar de subsidiar a extinção da nossa espécie?

Friday, November 05, 2021

TUDO MENOS SACERDOTE. DEFINITIVAMENTE!

Freira franciscana e cientista política é primeira mulher “número dois” do Vaticano - aqui

Raffaella Petrini tem 52 anos e é licenciada em Ciências Políticas. O Papa Francisco tem vindo a dar visibilidade ao trabalho das mulheres na Igreja e, em Agosto, escolheu seis como especialistas leigas do Conselho de Economia.

 
Raffaella Petrini, à esquerda Reuters/VATICAN MEDIA 
 
 
O Papa Francisco nomeou secretária-geral da Governação do Estado da Cidade do Vaticano a freira franciscana e cientista política Raffaella Petrini, tornando-a assim a primeira mulher a ocupar o cargo de “número dois” do Vaticano.

Petrini, de 52 anos, que até agora era funcionária da Congregação para a Evangelização dos Povos, nasceu em Roma e pertence à Congregação das Irmãs Franciscanas da Eucaristia.

É licenciada em Ciências Políticas pela Universidade Internacional Livre de Guido Carli e doutorada pela Pontifícia Universidade de San Tommaso d'Aquino, onde actualmente é professora de Economia do Bem-Estar e Sociologia dos Processos Económicos.

O Papa Francisco tem vindo a dar visibilidade ao trabalho das mulheres na Igreja e, em Agosto, escolheu seis como especialistas leigas do Conselho de Economia.

Uma delas, a professora Charlotte Kreuter-Kirchhof, foi nomeada vice-coordenadora deste conselho em Setembro.

---- Por que não podem as mulheres ser padres

A Igreja Católica argumenta que não pode ordenar mulheres como sacerdotisas porque não tem sequer essa faculdade. Advoga que se limita a seguir a tradição começada por Jesus Cristo, que apenas escolheu homens como discípulos.

A posição da Igreja relativamente a este assunto está formalizada numa carta apostólica de 1994, assinada pelo Papa João Paulo II. Neste documento, intitulado Ordinatio Sacerdotalis, o Papa define que “esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”.

O documento cita uma outra declaração, aprovada pelo Papa Paulo VI em 1976, onde são apresentados seis argumentos para impedir o acesso das mulheres àquele sacramento:

  1. A tradição da Igreja, que foi sempre mantida “de tal maneira firme” que nunca foi contestada. “Todas as vezes que esta tradição teve oportunidade para se manifestar, ela deu testemunho da vontade da Igreja de se conformar com o modelo que o Senhor lhe havia deixado”, lê-se no documento.
  2. A atitude de Jesus Cristo, que não chamou nenhuma mulher para o grupo dos apóstolos.
  3. A prática dos apóstolos que, apesar de reservarem um “lugar privilegiado” para Maria, sempre se mantiveram fiéis “à atitude de Jesus”.
  4. O “valor permanente da atitude de Jesus e dos apóstolos”. Isto é, as atitudes de Jesus não podem ser desligadas atualmente do comportamento da Igreja. Segundo a declaração de 1976, a prática “é seguida assim porque é considerada conforme com os desígnios de Deus sobre a sua Igreja”.
  5. O padre atua in persona Christi, o que quer dizer que age “na pessoa de Cristo”. Por isso, argumenta a Igreja, “não se pode transcurar o facto de que Cristo é um homem”, o que significa que “o seu papel há de ser desempenhado por um homem”. Ainda assim, recorda o documento, “isto não depende de haver neste último superioridade alguma pessoal na ordem dos valores, mas tão-somente de uma diversidade de facto, ao nível das funções e do serviço”.
  6. Em última análise, a escolha é de Deus e não do homem, segundo a explicação oficial do Vaticano. Mais do que isso, “o sacerdócio não é conferido para honra ou para simples vantagem daquele que o recebe; mas sim para ser um serviço a Deus e à Igreja”, lê-se no documento.

 

 

Wednesday, November 03, 2021

O JOGO DA CABRA CEGA

É divertidíssimo. Pela módica quantia de 120 euros.

Mulher de João Rendeiro condenada a pagar multa de 1020 euros pelo desaparecimento de obras; Maria de Jesus Rendeiro pode ser processada pelo crime de descaminho e desobediência. Juíza mandou extrair certidão e agora cabe ao Ministério Público abrir um inquérito.- vd. aqui

Mulher de João Rendeiro detida. Ministério Público alega forte perigo de fuga- vd.aqui

Foram feitas buscas na Quinta Patino, em Cascais, e na casa do presidente da Antral e do filho deste, que foi motorista de João Rendeiro. Em causa estão suspeitas de branqueamento de capitais, num esquema que tinha como finalidade ocultar a fortuna do ex-banqueiro.

Perdidos e achados: um inventário da Colecção João Rendeiro tal como a PJ a encontrou em 2010

Através do registo fotográfico do auto de apreensão, a que o PÚBLICO teve acesso, foi possível identificar, com a ajuda de especialistas em arte contemporânea, muitas das 124 obras arrestadas ao ex-banqueiro. O que nos permite finalmente ter uma ideia da qualidade da colecção de arte que reuniu ao longo dos anos, e que inclui nomes referenciais da arte portuguesa e internacional. vd. aqui

Sunday, October 31, 2021

QUESTÕES DE FÉS

 

A,

Leio as tuas arremetidas contra os ambientalistas, persistentes, convictas, com tanta persistência (dura há anos) e convicção que, se não são, parecem imbuídas de um proselitismo fundado numa fé que te tocou, a outros tocou ao contrário, e a mim, profundamente ignorante, não atingem. 

Há, penso que concordas, nas atitudes que sustentam a adesão incondicional a determinada causas uma carga emocional que esmaga qualquer racionalismo.
Ocorreu-me comentar (voltar a comentar, aliás; há anos que defendes os teus argumentos) porque um amigo meu, médico há muitos anos, considera as vacinas contra o covid 19 uma forma das farmacêuticas abarrotarem os cofres. Ele previne o contágio da pandemia tomando o seu Ivermectina diariamente. Não discuto o assunto com ele, que é médico, só falo com médicos quando preciso deles. Mas pergunto-me: será que o meu amigo tem razão (e como ele há muitos no mesmo lado)  e as vacinas são apenas um negócio porque a Ivermectina não passa nos crivos viciados das entidades que comandam os semáforos das autorizações oficiais?
 
Esta a dúvida que, se não me atormenta, é porque penso que a espécie humana é mais ignorante do que crê não ser. 





ALIÁS

                                                                            Aliás, 16

Friday, October 22, 2021

À PROCURA DE AMBROSIA

 Jeff Bezos em busca do elixir da juventude. A nova obsessão de Silicon Valley é viver para sempre 

- cf. aqui

Já construíram foguetões. Agora, os super-ricos estão a gastar milhões para descobrir o segredo da juventude eterna.

Foto: DR
07:00 | Harry de Quetteville /The Telegraph/Atlântico Press

Imortalidade: a que preço? É a grande ironia da condição humana que, enquanto os jovens anseiam por riqueza, os ricos anseiem por juventude. Por isso, se você fosse o homem mais rico do mundo, quanto estaria disposto a gastar para ter a possibilidade de viver para sempre? Aos 57 anos e recentemente reformado do cargo de CEO da Amazon, Jeff Bezos dificilmente estará a jogar xadrez com a morte – mas isso não o impediu de financiar uma nova empresa que pretende vencer o próprio envelhecimento.

Fundado no início deste ano nas colinas de Los Altos, com vista para Silicon Valley, o Altos Labs foi financiado com 270 milhões de dólares de investidores, dos quais uma quantia não divulgada veio, alegadamente, de Bezos. A empresa recrutou várias mentes brilhantes de todo o mundo, arrancando especialistas de laboratórios e universidades de elite, multiplicando instantaneamente os seus salários e libertando-os da burocracia da vida institucional dos comuns mortais. No Altos, têm uma única e simples tarefa – descobrir o elixir da juventude.

Bezos não está sozinho. A outra – grande – preocupação dos fundadores de Silicon Valley quando chega a hora de esbanjarem o seu dinheiro, depois das missões espaciais, é vencer as fronteiras da biotecnologia. Da Amazon à Google, passando pelo Facebook, entre outras, um novo health club para os rapazes multimilionários está em marcha.

Peter Thiel, de 53 anos, co-fundador da PayPal que, enquanto um dos primeiros investidores adquiriu uma posição acionista de 10 por cento no Facebook por 500 mil dólares, já referiu a sua intenção de viver "para sempre". Quando, um dia, lhe perguntaram a sua opinião sobre a morte, deu a famosa resposta: "Sou, basicamente, contra". Thiel investiu na Unity Biotechnology, uma empresa em busca de um remédio contra o processo de envelhecimento celular, conhecido como senescência. Bezos também investiu na Unity quando a empresa angariou 116 milhões de dólares no outono de 2016.

Nessa altura, Larry Page e Sergey Brin, da Google, já tinham anunciado a Calico – ou seja, a California Life Company. À semelhança do Altos, recrutou muita gente e pagou-lhes generosamente, tudo em nome de compreender os processos fundamentais do envelhecimento e de recolher informações para melhorar a longevidade. O que é difícil é ter a certeza de quando as nossas esperanças de vida vão ser alteradas porque, como tanta coisa no mundo da tecnologia, o segredo é valorizado.

Claro que é fácil fazer troças destes homens de meia-idade com dificuldades em lidar com a morte – algo que, por mais milhões que tenham, não conseguem vencer. Silicon Valley até tem um Prémio de Longevidade de 1 milhão de dólares para atrair projetos que "curam o envelhecimento". Estarão eles assim tão errados em querer alcançar algo tão inatingível? Afinal, Bezos acaba de se lançar para o espaço a bordo do seu próprio foguetão – nada mau para um homem que abriu uma livraria online. Com efeito, a fé que os habitantes de Silicon Valley depositam no seu modelo – financiando empreendimentos ousados que desafiam as normas previamente estabelecidas – incentiva ativamente a arrogância. E a saúde humana está numa curva ascendente extraordinária.

A esperança de vida duplicou nos últimos 150 anos, à medida que infeções, vacinas, nutrição e saúde materna melhoraram radicalmente. Os grandes assassinos de hoje – nomeadamente o cancro e a demência – são muito mais difíceis de resolver. Investigadores de todo o mundo especializam-se em tratar estas doenças como problemas individuais. Mas e se as abordássemos de uma forma diferente, dizem os gurus da Costa Ocidental, não como condições compartimentalizadas, mas como sintomas comuns ao envelhecimento? Então, dizem eles, a idade seria a doença a curar.

É verdade que a passagem do tempo aumenta dramaticamente as probabilidades de contrair essas doenças. Não admira que a possibilidade de inverter o relógio seja tão apelativa. E é por isso que é tão importante que o homem que preside ao conselho científico do Altos seja Shinya Yamanaka.

Em 2012, Yamanaka partilhou um Prémio Nobel por ter descoberto que quatro proteínas, atualmente conhecidas como os Factores de Yamanaka, podem induzir as células a regressar a um estado prévio, nem cansado nem especializado pela passagem do tempo, mas novamente jovem e cheio de potencial – como se um contabilista reformado voltasse a ser um adolescente com um blusão de cabedal prestes a decidir que exames de acesso à universidade queria fazer. Quatro anos depois de Yamanaka receber o prémio, não apenas células, mas ratos inteiros foram tratados com os fatores, tornando-se visivelmente mais jovens.

"Há uma corrida pelo rejuvenescimento em curso", comenta Daniel Ives, CEO de uma das principais pioneiras britânicas no negócio da inversão da idade, a Shift Bioscience. A empresa pretende "rejuvenescer células e tratar doenças associadas à idade". Como Ives explica num vídeo do website da empresa, essa é apenas uma das duas principais técnicas que estão a ser exploradas pelos cientistas que desafiam a idade. A outra, vampiricamente, é o sangue. Em tempos idos, isso implicava mesmo ligar o sistema circulatório de dois ratos, um velho e um novo e ver a juventude, literalmente, a fluir para o animal mais velho. Hoje em dia, nas pessoas, o objetivo é refrescar o sangue velho e, com ele, o corpo – Silicon Valley emprega frequentemente "rapazes de sangue" jovens e em boa forma para partilharem o seu produto com os executivos mais velhos – tudo sem a necessidade de dentes afiados.

O rejuvenescimento celular, explica Ives, "pode fazer uma célula passar de 60 anos para 0 [anos] em apenas 17 dias". Por volta dos 15 dias, há um ponto mágico no processo – uma "zona ótima" de rejuvenescimento discernível. Ele fala em "restaurar todas as funções dos órgãos para níveis jovens". Contudo, ir demasiado longe acarreta riscos de desenvolver cancro. "Temos de avançar com cuidado", diz.

Ives prova que, embora possa soar totalmente a disparate californiano, a inversão da idade também tem profundas raízes britânicas. Além da Shift, o Reino Unido é o lar do Babraham Institute, junto a Cambridge, que é líder na área da investigação sobre o envelhecimento. É um dos institutos assaltado pelo Altos. Pensa-se que Wolf Reik, seu antigo diretor e luminária da reprogramação celular esteja agora a caminho da Costa Ocidental – e dos seus fabulosos salários.

Não são apenas os investigadores que pretendem ganhar uma fortuna. Os investimentos dos titãs tecnológicos são exatamente isso. "Quando vemos algo lá ao fundo que parece uma pilha de ouro gigante, devemos correr depressa", disse um empresário da área da biotecnologia ao MIT Tech Review.

Contudo, apesar de todo o falatório, há poucos artigos científicos que documentem o progresso e nenhum sinal de remédios inovadores que possam impedir o envelhecimento das pessoas – em vez dos ratos. Existe outra questão óbvia: não será de mau tom gastar tanto dinheiro em apostas com baixas probabilidades para prolongar a esperança de vida dos super-ricos quando existem tantas invenções baratas, desde água potável a redes de proteção contra mosquitos, que sabemos terem a capacidade de prolongar a esperança de vida dos super-pobres? E não estariam as várias empresas que fogem ao fisco – como a Amazon – a fazer mais pela vida humana contribuindo para essas coisas em primeiro lugar? Alguns líderes tecnológicos parecem ter-se lembrado de que existem crises de saúde atuais que deveriam receber atenção primeiro: o pioneiro do software Larry Ellison, de 77 anos, com uma fortuna superior a 100 mil milhões de dólares, investiu em tempos centenas de milhões em investigação sobre o envelhecimento. Em 2013 pareceu mudar de ideias, atribuindo subsídios a esforços para erradicar a poliomielite.

E os grandes nomes não são imunes a serem apanhados pelo entusiasmo gerado pela tecnologia de gama média. Um dos maiores escândalos de Silicon Valley é a história da Theranos, uma start-up que prometia diagnósticos milagrosos e não cumpriu rigorosamente nada. O seu valor subiu antes de cair completamente por terra. Os lesados incluíram Rupert Murdoch (que investira mais de 100 milhões de dólares) e o próprio Ellison. Entretanto, tendo atingido um valor de 22 dólares por ação há três anos, a Unity, a última aposta desafiadora da idade de Bezos, definha agora nuns meros 3 dólares. O seu fundador e pessoal foram dispensados. No indústria anti-idade, parece que algumas coisas envelhecem depressa.

Harry de Quetteville/The Telegraph/Atlântico Press

Tradução: Érica Cunha Alves

Thursday, October 14, 2021

ARTE ULTRACONTEMPORÂNEA DE ROUBAR

ARTE ULTRACONTEMPORÂNEA DE ROUBAR DO CASAL RENDEIRO 

Vai ser mais um quebra-tolas tolas dos agentes da Judiciária e especialistas que eles convoquem para provar que uma obra dita ultra contemporânea é original ou cópia.

Mais fácil será provar que a mulher de rendeiro descaminhou activos pertencentes ao Estado e de que ela foi nomeada fiel depositária.

Mais difícil, conhecendo os hábitos judiciários em Portugal (e não só; os caminhos da Justiça são globalmente ínvios), será colocá-la na prisão em cumprimento da pena pelo crime cometido.

Até porque a senhora Rendeiro poderá invocar a jurisprudência do senhor bispo auxiliar de Lisboa: só me prendem se prenderem todos os grande ladrões desta terra; que são vários e muito mais ladrões do que eu e o meu intelegentíssimo esposo. Ou há moralidade ou ninguém vai preso!

Onde páram estes quadros de Paula Rego e Amadeu Souza-Cardoso?

Parece estranho. Tanto mais estranho quanto o facto de essas obras não terem sido incluídas no inventário das obras arrestadas.

Trama tramada para um policial empolgante. 





Tuesday, October 12, 2021

SIMPLESMENTE, INFAME


Igreja Católica admite investigação de casos de pedofilia desde que não seja limitada ao clero -  aqui

Coordenador da comissão de prevenção e combate aos abusos de menores do patriarcado de Lisboa, Américo Aguiar, admite levantamento retrospectivo dos caso de abuso sexual de menores, desde que não seja circunscrito à Igreja Católica. Trata-se de um “crime transversal”, justifica.

Thursday, October 07, 2021

GLOBAL PANDORA


Papers, papers, papers …

Continuam a ser expelidos pelas bocas do vulcão de magma de crime financeiro. 

Sem que quem pode não quer implodir as fontes onde se formam as lavas que escorrem imparavelmente para cima do cidadão comum.

 https://expresso.pt/pandora-papers/2021-10-03-Chegaram-os-Pandora-Papers.-Ha-dezenas-de-presidentes-e-primeiros-ministros-expostos-numa-nova-fuga-de-informacao-0359bc80

https://expresso.pt/pandora-papers/2021-10-06-Como-comprar-um-iate-em-tempos-dificeis-6733f3dd


Monday, October 04, 2021

FREGUESIAS

M: Tenho, há muitos anos, acerca das atribuições das juntas de freguesia, sobretudo das urbanas, uma ideia muito diferente daquelas que vejo geralmente enaltecidas. Dizes que estás muito satisfeito por continuar a ter o Pedro Costa a presidir à tua freguesia, onde tem continuado o excelente trabalho do agora deputado Cegonho. O que me coloca, a propósito das competências das juntas de freguesia ( sobretudo das urbanas) uma interrogação não são os nomes dos eleitos, quaisquer que eles sejam, mas "o excelente trabalho" que eles (presidentes das juntas de freguesia) podem realizar. Pergunto, porque não sei. Resido aqui há 22 anos, numa freguesia urbana, depois de ter residido 29 noutra freguesia urbana. Nunca precisei de entrar nem numa nem noutra. Parece que isso se deve ao facto, segundo me disseram, de não ter cão nem gato. Mas devo acrescentar, em abono da verdade, que há dias, antes das eleições de domingo, observei que dois moços, com identificação da freguesia nas costas dos seus fatos de trabalho, cortavam a relva num canteiro nas proximidades da rua por onde passo frequentemente, um deles com soprador/juntador de folhas caídas (um trabalho com eficiência digna de ser observada) enquanto o outro conduzia um corta-relva. O canteiro, triangular, tem, segundo os meus cálculos, base vezes altura a dividir por dois, cerca de oitenta metros quadrados. E mais não sei. E comecei a trabalhar, tinha catorze anos, duas horas ao fim da tarde, como escriturário (único) de uma junta de freguesia rural, a maior do concelho. Naquele tempo, todos os trabalhos eram realizados com pá e pica, não havia meios mecânicos. Aliás, o edifício da Junta foi totalmente construído, gratuitamente, evidentemente, pelos residentes do lugar. O mundo das freguesias deve ter mudado muito e eu não dei por isso.

Wednesday, September 29, 2021

O JOGO DA CABRA CEGA

Notícia do dia - João Rendeiro não tenciona voltar a Portugal - aqui

Ouço na rádio alguns juristas e nenhum deles aponta autores das falhas na justiça. É o corporativismo a corroer um órgão de soberania e, inevitavelmente, a democracia.

"Condenado a três penas de prisão efetiva por crimes enquanto liderava o Banco Privado Português, o ex-banqueiro terá fugido para fora da Europa e adiantou no seu blog que não pretende regressar."

Pergunta inevitável de quem não esteja a dormir o sono dos coniventes:  A quem terá pago Rendeiro a facilidade da fuga?

Sunday, September 26, 2021

POR ONDE VAI ANDAR O EMPREGO?

"A indústria é o único sector da economia que tem condições para criar emprego", escreveu o homem que foi um industrial bem sucedido, depois fez algumas incursões na política

Caiu-lhe em cima JB : " Mas que idiotice mais chapada !!!!!!
O homem continua nos finais do século XIX …."

Continuará, por esta afirmação que fez?

Transcrevo da Wikipédia, mas posso retirar conclusão idêntica de outras fontes insuspeitas: "Na Suíça, menos de 10% da população activa trabalha no sector primário, embora seja fortemente apoiado pelo governo federal. Já 40% têm profissão na área secundária da indústria, na qual se incluem produções de máquinas e metalúrgica, o têxtil e a relojoaria.

Continuam os suíços no século XIX?
Em Maio de 2012 escrevi isto?

Abstraindo-nos dos números, a que nos conduz uma reflexão acerca da trajectória do trabalho num mundo cada vez mais informático?
Que actividades humanas são mais susceptíveis de serem automatizadas, dispensando emprego? 
Os bancos, a indústria seguradora, o turismo, ou a construção civil, a metalurgia, a agricultura, a produção de software ou a de hardware? 
Há dias, num artigo publicado no Economist, perguntava-se: Por que é que os suíços estão a ser bem sucedidos nos semicondutores? Mais ou menos nesse dia ouvia-se a notícia de que a Autoeuropa estava parada por falta de semicondutores produzidos na Ásia.

Muitas projecções indicam que a grande procura de trabalho no futuro vai ocorrer em áreas da saúde, artificial intelligence, e outras requerendo qualificações científicas altamente especializadas. Muita gente não terá nem vocação nem capacidade para actividades científicas, além de que não é esperável, além do mais, que é muito mais, que a espécie humana deixa de comer, beber e andar de pópó.

Saturday, September 25, 2021

A BESTA E O BURRO

 


London (CNN)In the week that world leaders gathered in New York City for the UN General Assembly, one person's absence cast a long shadow over what was already set to be a tense few days.

French President Emmanuel Macron was never going to be at UNGA in person. It was, however, impossible to detach his non-attendance -- even in virtual form -- from the spat that broke out following the submarine deal between Australia, the UK and US (AUKUS), which subsequently saw the Australian government ditch a multi-billion-dollar agreement with France.
French officials have been, justifiably, furious. Three of its supposed allies struck a deal behind its back with one reneging on a contract agreed years ago. For a man who has spent his presidency presenting himself as Europe's most serious leader both internally and on the world stage, it was a major embarrassment .- aqui

 

GOLPES AUTÁRQUICOS

Há muitos. Este, é apenas um exemplo:

Golpe em Idanha-a-Nova da mulher de ex-autarca

Médica anestesista reformada e casada com Joaquim Morão, um histórico autarca e membro da Comissão Política Nacional do PS, conseguiu 16 hectares de terras do Estado destinadas, em primeiro lugar, a jovens agricultores. Recebeu mais de 63 mil euros em subsídios e seis anos depois o terreno está praticamente abandonado.

Tuesday, September 21, 2021

GOLPE NA GALP

À COSTA

“Há oito meses que apelamos a que o primeiro-ministro venha a terreiro assumir a defesa da refinaria e dos postos de trabalho”, disse ao PÚBLICO Hélder Guerreiro. “Enviámos n cartas, pedimos n reuniões, ao primeiro-ministro e ao Presidente da República, e nada”, lamentou.

Agora, sobre as críticas à Galp em pleno comício de apoio à recandidatura de Luísa Salgueiro, Hélder Guerreiro defende que António Costa “cole as palavras aos actos” e exija a reversão do encerramento da refinaria. “Sejam campanha [as palavras] ou não, não se lhes pode negar um significado verdadeiro, mas agora é preciso concretizar”, afirmou.

Um trabalhador contactado pelo PÚBLICO garante que as palavras do primeiro-ministro na noite de domingo deixaram “as pessoas mais estupefactas e mais indignadas do que já estavam, porque quem não conhece a história até poderia pensar que não teve nada a ver com o assunto”.

“Se havia alguém que podia ter mandado parar tudo e analisar as coisas era ele [Costa]”, acrescentou.

Wednesday, September 15, 2021

A IMPORTÂNCIA FUNDAMENTAL DE UM MINISTRO


"O Cabrita é tão importante para o PM porque enquanto olham para o Cabrita não olham para as suas nódoas" 

c/p - "Isto é gozar com  quem trabalha" - RAP

Monday, September 13, 2021

O BUSTO

 

Tinha confirmado estar no almoço com uns velhos amigos, mas atrasei-me com a demora de um interrogatório da polícia. Saí de lá arguido.

Sou, ou estou, deve dar no mesmo, arguido num processo crime de roubo. Sou acusado de ser autor material ou moral do roubo de uma escultura, um busto, um bem público, assente em pedestal de pedra com identificação do esculpido, segundo relatório da polícia nos autos. 

Quem é ou quem foi o homenageado?

Perguntei a residentes no lugar antes da ocorrência do roubo de que sou acusado; ninguém soube dizer.

Não estranhei, pela figura exposta se adivinhava que foi pessoa de finais do século dezoito, começos do dezanove. Quando morreu, mesmo que tenha morrido velho, ainda não tinha nascido, à excepção de um ou outro teimoso resistente, quase toda a gente, que é pouca, hoje residente na localidade.

Cara redonda, olhos decididos, bigode farto, grisalho, habitual nas elites  daquele tempo, calvo, sobram-lhe cortados curtos os cabelos brancos que rodeiam a calvície. Ombros largos, a gravata sobressai no peito, sobre a camisa, entre as bandas subidas do casaco apertado, de bom corte.

Quem foi, quem não foi, se lesse a inscrição no pedestal ficaria a saber que o homem vivera mais de noventa anos, nascera na sede do concelho, fora ministro dos três últimos governos que precederam a ditadura, durante cerca de nove meses.

E, localmente, o que fizera o homem para merecer busto, plantado ali num sítio onde só o raro trânsito automóvel passa apressado porque apeado ninguém tem motivos para passar por lá?

Era, disse-me um vogal da junta local, há mais de cem anos, proprietário de largos hectares de pinhal onde, de uma fonte, jorrava água virtuosa. Viu o feliz contemplado pela mãe natureza oportunidade para um empreendimento de engarrafar e vender o líquido. Terá ganho muito dinheiro? Talvez. Mas o negócio da água não se terá sustentado muito tempo porque há setenta anos, garantem os sobreviventes, ou a fonte se terá esgotado, hipótese possível porque os lençóis de água capricham por vezes em mudar de cama, ou o negócio tornou-se desinteressante, e já, então, ninguém sabia quem era o homem nem bebia a sua água engarrafada.

Quanto ao sítio deserto, disse o vogal da junta, tinha sido escolhido por ser ali que começava o limite da sua propriedade. Simbolicamente, o homenageado terá sido instalado junto a um imaginário portão, quase cem anos depois de entrar para um governo, que ameaçava cair em qualquer momento,  como anfitrião de quem entrar no pinhal, que ninguém sabe, e muito menos o busto, a quem a propriedade pertence agora.

Parece-lhe bem que a junta tenha gasto uns largos milhares do orçamento para colocar lá aquele despropósito? 
Muitos apoiaram a obra do autarca, muitos ignoraram, poucos contestaram e discutiram, defendendo ou atacando, em privado,  o busto.
Desaparecido o busto, quem antes batera palmas no descerramento com a presença do presidente da câmara e outras individualidades paroquiais,  ria-se depois com o facto rocambolesco do roubo de uma coisa que, afinal, não lhes interessava minimamente. 
Quando cheguei para o almoço, já os meus compinchas tinham entrado na sobremesa.

Desculpem o atraso, fui chamado à polícia, acusam-me de ser autor material ou moral do furto do busto; saí de lá constituído arguido.

(Gargalhada geral)

Nenhum de nós acredita que tenhas sido capaz de ter roubado aquilo; mas foi bem roubado, penso eu.

Pensas tu porque não valorizas o investimento cultural; o capitalismo não valoriza o investimento público, sobretudo na cultura, se não vê escorrer-lhe lucro para o bolso.

Fala o apoiante do autarca...

Com muita honra.

... com ligação directa ao presidente da câmara, com ligação directa ao chefe do governo; é assim que se consomem os dinheiros públicos, em obras de oh pacóvio olha o balão; como o dinheiro não lhes sai directamente dos bolsos, qualquer obra, mesmo que seja obra de caca, merece palmas dos tansos.

Fala a dor de cotovelo; se a obra tivesse sido feita por autarca do teu partido, seria boa e prestigiante para a freguesia.

Prestigiante? Mas que prestígio traz um busto de um fulano que ninguém sabe quem foi, que já desapareceu há quase meio século sem cá deixar rasto, colocado num sítio por onde ninguém passa?

É um símbolo cultural; nós defendemos o investimento na cultura.

Nós também, mas nós sabemos como se deve investir na cultura; e sabemos que o investimento no busto foi um investimento do autarca nele mesmo, querendo passar sub-liminarmente a mensagem de que a autarquia investe na cultura; é um logro!

Nós, o que vemos no busto é uma disfarçada homenagem ao capitalismo; contribuiu a riqueza do latifundiário para o desenvolvimento económico da região, para a melhoria das condições de vida das pessoas que aqui viviam na altura? estou informado que naquele tempo todos os terrenos nas imediações do pinhal pertenciam a pequenos proprietários, eram hortas onde cultivavam milho, centeio, batata, feijão, nabo, cenoura, couve, alface, toda a espécie de legumes porque o terreno era fértil nas várzeas, onde corria e ainda correm ribeiros; nas encostas havia vinhedos e pomares; hoje o que há à volta, num diâmetro de quilómetros, do sítio onde meteram o busto do político ricalhaço? silvas, mato, a dominar tudo por abandono daqueles que foram obrigados a emigrar; onde antes se via  gente a criar riqueza hoje não se vê ninguém.

Fala o comunista que continua a ver capitalismo monopolista em todo o lado; até aqui, onde a propriedade, mesmo a maior, nunca teve tamanho suficiente para enriquecer ninguém; e a água, pelos vistos, sumiu-se do mesmo modo que apareceu.

Já cá faltava o anti-comunismo primário; quando é que esta gente é capaz de ver o mundo com olhos de ver  e perceber que o liberalismo económico só tem conduzido ao crescimento galopante da desigualdade em todo o mundo? às alterações climáticas que estão a destruir o planeta; o do busto fez, no seu tempo, parte da elite que manteve este país ignorante durante décadas.

Estás confundido; o homem não foi ministro durante a ditadura; era ministro quando os militares fizeram o golpe do vinte oito de maio; ainda assim, sobreviveu dois dias como ministro; foi um sobrevivente da primeira república; deve ser esse o mérito que mereceu o busto.

Só agora? 
 
Mais vale tarde que nunca.
 
Mais valia nunca do que agora; se, durante dezenas de anos, gerações seguidas não se lembraram do indivíduo, esqueceram-se completamente dele, porque carga de água, ocorreu a este autarca gastar dinheiro com obra despropositada? só há uma resposta, óbvia: esta e outras obras sem mérito cultural ou económico, servem para os autarcas distraírem os basbaques e caçar-lhe os votos enquanto os mantém de boca aberta: dinheiro em mãos da ignorância não serve a cultura mas a ganância de poder a todo custo;
 
Ele foi um dos lançaram o país na bancarrota, depois de quarenta e cinco governos em dezasseis anos de bagunça, que conduziram à ditadura; um tipo destes merece um  busto, aqui, onde, que se saiba, nunca fez nada para além de só tirar proveito próprio das suas terras a vender água engarrafada?

Isso são águas passadas, passe o trocadilho; o que mais importa agora é saber como se permite um autarca, que por ignorância ou vaidade cega derrete milhares num busto, como se esses dinheiros não fizessem falta em investimentos realmente importantes para a população desta terra; o que lá vai, lá vai, se há alguma coisa a aprender com o passado é a lição de que a má política no uso dos dinheiros públicos corrói a democracia ...

Continua a corromper ...

... tentar passar ideia de que uma homenagem, despropositada no tempo e no espaço, a um ministro da primeira república numa terra onde poucas vezes terá posto os pés, é um acto de serviço à cultura é uma desavergonhada burla.

Para quem desvaloriza a cultura, qualquer investimento cultural é um desperdício com intuitos demagógicos.

Nós também queremos que o investimento na cultura seja reforçado mas concordamos que este investimento não valoriza a cultura desta freguesia; há muitos investimentos à espera de verbas que, esses sim, podem contribuir para a valorização das populações; não se valoriza a cultura com homenagens a quem não serviu o povo, para além de ter sido irrelevante a sua intervenção política há quase um século; trata-se do investimento numa obra, a todos os títulos, despropositada; esta aldeia, …

Agora é vila.

... agora é vila mas é menos vila que antes; noutros tempos …

Queremos falar do passado ou do futuro?

... falamos do presente; esta vila é sobretudo um dormitório dos que trabalham fora dos seus limites; há casas desertas há anos, e as ruas são de travessia automóvel da freguesia; não há agricultura mas também não há indústria, há escolas mas os professores residem na sede do concelho e o mesmo acontece com os médicos do posto de saúde; a população residente decresceu, as actividades culturais locais estão em extinção; e, no meio deste contexto, de que se lembra a junta? encomendar um busto a um escultor e a peanha a um canteiro para celebrar um fulano que cá não deixou nem rasto.

Devemos apoiar os artistas, os artistas plásticos; o mesmo é dizer que devemos apoiar a cultura.

Não para a concepção e execução de um busto que nada diz ao povo desta terra.

Diz, diz;

Diz nada; o povo bate palmas se vê bater palmas, desde que não lhe peçam dinheiro para isso.

Pedir, não pedem, tiram-lho sem que ele se aperceba; tiram-lhe em impostos e taxas em número incalculável...

Incalculável, porquê? é só contar, não?

... experimenta contar e diz-me quando souberes;

Mas, afinal, que fizeste tu para te chamarem à polícia e te constituírem arguido por suposto larápio do busto? foste apanhado em flagrante delito?

(Gargalhada geral)

Há meses encontrei o Valter, que insiste em tornar o seu semanário, o único do concelho, mais interventivo e menos paroquial; é uma aposta perdida mas ele insiste; quando o jornal noticiava nascimentos, casamentos, funerais e chegadas de emigrantes nas férias, o jornal vendia-se, até muito no estrangeiro, assinado pelos emigrantes; foi chão que deu uvas, disse-me ele, e quis dar uma volta ao jornal; convidou gente dos partidos, alguns dos quais, que muito respeito, se sentam aqui à volta desta mesa, e o jornal tornou-se campo de lutas ideológica; com cada qual a opinar para o seu lado, as assinaturas caíram redondamente, ninguém quer ler jornal que dê guarida a baboseiras de políticos de outros quadrantes, palavras do Valter; convidou-me para, também palavras dele, temperar o ambiente, com perspectivas menos radicalizadas para recuperar alguns leitores moderados, que também há, não é verdade? perante a insistência do Valter de manter o jornal mesmo continuando a perder dinheiro porque a publicidade também convive mal com disputas partidárias, passei a enviar pequenos comentários, o mais apartidários possível; e o que é que o eu enviei, e foi publicado há uma semana, que provocou engulhos ao presidente da junta para me denunciar como muito provável autor material do furto ou, pelo menos, autor moral? simplesmente mais ou menos isto: o busto descerrado há quinze dias no casal dos cágados motivou polémica e eu não poderia ignorar isso; e escrevi ...

... escrevi notícia da colocação em local quase deserto de uma escultura a homenagear quem tinha sido, há quase um século, ministro de três governos durante quase nove meses, sendo dono, na altura, de relativamente extensa mancha florestal, onde durante alguns anos engarrafou água nascida nos seus terrenos, provavelmente por nela existir alguma virtude que, no entanto, lamentavelmente se esgotou cedo.

Como a escultura, um busto, foi colocada em local distante da área residencial da vila, parece-nos, alertava eu, que a probabilidade de a obra vir a ser vandalizada e até derrubada, ser elevada.

Por estas razões, afigurava-se-nos recomendar à junta a vedação do espaço com rede de arame farpado suficientemente alta para desanimar possíveis tentações de vandalização da obra.

Foi só isto; o comentário saiu no jornal na quinta-feira, o roubo foi praticado na noite de domingo para segunda; às oito da manhã de hoje tinha a polícia a bater-me à porta, levaram-me para a esquadra para interrogatório. Saí de lá meia hora antes de chegar aqui, com intimação de me a apresentar amanhã no tribunal para ser ouvido por um juiz;  atribuem-me a autoria material ou pelo menos a autoria moral do furto por tornar pública uma ideia que, de outro modo, não ocorreria a mais ninguém. 
Só a mim, uma mente perversa.