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Monday, May 25, 2020

VACINA EM SETEMBRO


Britânicos podem ter acesso a vacina a partir de Setembro.


Quem o garante, em declarações à BBC,  é Pascal Soriot, um francês, director de uma farmacêutica com sede em Cambridge, no Reino Unido, que também afirma que os cidadãos daquele país estarão entre os primeiros a receber as doses, a partir do outono.

Pode ser que seja verdade.
Por enquanto assiste-se à corrida mundial de declarações e promessas.
Também neste caso, não faz nenhum mal acreditar. Afinal, setembro é já ali!, talvez modere a ânsia de transigir e arriscar que ameaça uma recidiva da pandemia a forçar um esforço impossível de médicos, enfermeiros e todos quantos já estarão exaustos nas várias frentes desta guerrilha descontrolada.

Monday, June 12, 2017

DESAFIOS DE UMA MAIORIA (MUITO) ABSOLUTA

Depois dos resultados de ontem a França, que confirmaram as sondagens, os partidos tradicionais e os seus rebentos depararam-se com a perspectiva deste cenário após a segunda volta no próximo domingo:


A culpa, dizem eles, é da abstenção.
A culpa, acrescentam, é do sistema: se a eleição fosse proporcional, o partido do presidente não iria além dos 186 lugares na AN. 
E todos procuram mobilizar o eleitorado na segunda volta. 
Provavelmente, sem grande sucesso porque os abstencionistas na primeira volta não estão contra Macron mas, muito principalmente, contra os partidos tradicionais e seus filhotes. 

A abstenção, já o anotei aqui neste caderno de apontamentos, não é uma obrigação, salvo nos casos em que é uma obrigação compulsiva, mas um direito: o direito de não votar.
Em França, tudo aponta no sentido de que o centro político vai ganhar. Afinal, o centro político não está em coma mas bem desperto.
E a abstenção, contrariamente ao que dizem os mais ou menos extremos, não ganhou. Não votar não é votar. Quem se abstém, não vota, e, não votando, é absurdo atribuir uma vitória à abstenção por mais expressivo que seja o número daqueles que se abstiveram. 
E, porque há uma segunda oportunidade, a democracia não sai ferida mas robustecida qualquer que seja o nível de abstenção no próximo domingo. 

Mas o que me levou a abordar hoje o resultados das legislativas em França, mas também no Reino Unido, é o mérito relativo das eleições por círculos uninominais. Não sendo isento de eventuais efeitos negativos, é aquele que mais aproxima os cidadãos dos seus representantes na casa da democracia e que, contrariamente ao sistema proporcional, garante maior coesão dos valores que estruturam a sociedade. 

Há muito tempo que a discussão sobre a alteração do sistema vem enchendo a boca dos principais partidos em tempos de vazio eleitoral, mas ninguém avança porque ninguém cede nas prerrogativas de fazer eleger amigos e conhecidos invocando o fantasma do caciquismo. 
O caciquismo para se perpetuar precisa de suporte que lhe permita obrar sem cobrar impostos. É essa a causa da tendência para a dinossaurização dos autarcas. No caso dos deputados o efeito perverso do caciquismo é (seria) bem menor.

Saturday, May 06, 2017

PAÍSES DIVIDIDOS

O Financial Times de hoje publica, com destaque na primeira página, mais uma reportagem sobre as eleições de amanhã em França - France: A divided nation decides.

O título parece sugerir que a divisão é uma particularidade francesa na véspera de eleições, quando as sondagens apontam para Monsieur Président Macron no Palácio do Eliseu  por uma margem folgada de cerca de 20 pp.
Se as sondagens se confirmarem, a França não poderá considerar-se um país mais dividido do que muitos outros onde a prevalecem sistemas democráticos, bem pelo contrário. 
Mr.Trump ganhou as eleições norte-americanas de Novembro e o apoio maioritário no Senado e na Câmara dos Representantes mas perdeu o voto popular por quase 3 milhões de votos. 
O Brêxit venceu por margem mínima num referendo absurdo que vai influenciar sobretudo o futuro dos mais jovens, aqueles que ainda não tinham idade de votar ou, tendo-a, não se mobilizaram para expressar a sua vontade. 
Em qualquer dos casos, presidenciais nos EUA e em França, referendo no Reino Unido, os eleitores tinham duas hipóteses, e não mais que duas, para optar. 

A partição do eleitorado em dois blocos antagónicos de peso sensivelmente igual é a regra geral em democracia. Por que é que essa partição acontece com tanta frequência, não sei.
Há bastante tempo anotei neste caderno de apontamentos a mesma dúvida, sem resposta.

Se amanhã o sr. Macron superar os 60% e a srª. Le Pen não atingir os 40% poderá considerar-se que, ainda neste caso, a França é um país dividido?
Pode. Por uma razão decisiva: Entre o sr. Macron e a srª. Le Pen há um abismo que separa a democracia da protoditadura. 
Mas não se observa o mesmo nos EUA presididos por Mr. Trump, assumido suporte de Mme Le Pen?
Talvez não. Mr. Trump pode ser substituído ao fim de quatro dos de mandato, se não for antes. 
A eventual eleição de Mme Le Pen, ou a ultrapassagem da fasquia crítica dos 40%, animará os seus adoradores para uma continuada progressão das suas falácias e crescimento das suas hostes.

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Correl. - Qui est le militant pro-Trump qui a realayé les "Macronleaks"?



Entretanto, Putin continua a pescar enquanto a União Europeia continua à pesca.

Thursday, May 04, 2017

O FASCÍNIO DA MENTIRA

- Não voto na Le Pen porque não posso votar. Mas tenho dois filhos aqui em Saint-Gilles, que têm nacionalidade francesa, e que vão votar na Marine Le Pen. E se tivesse cá o terceiro, também ele votaria na Le Pen, garanto-lhe!
- E não o preocupa a possibilidade de ser expulso para Portugal por não ter nacionalidade francesa? Não o preocupa que ele tome medidas, relativamente aos emigrantes, idênticas às anunciadas pelo Trump nos Estados Unidos da América?
- Não me preocupa nada. O Trump disse que fazia muita coisa mas vai-se a ver e não faz nada do que disse que faria ...

No confronto de ontem à noite entre os dois candidatos à presidência de França, com reflexos tremendos no futuro da Europa se Le Pen vencer - e não está garantido que não possa vencer - ouviu-se, de um lado, uma argumentação consistente e elaborada, e, do outro, um corrupio de afirmações ou questões curtas para emprenhar pelos ouvidos.

Macron venceu o debate e consolidou a vantagem que as sondagens lhe atribuem? Talvez.
Mas não é descartável a hipótese de uma maioria de eleitores, como os dois portugueses de Saint-Gilles, votarem contra os seus próprios interesses iludidos pelo cântico da sereia nacionalista.

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Correl. - Emmanuel Macron files complaint over Le Pen debate 'defamation' 

"Macron came to Greece’s aid during our crisis. The French left should back him" - Yanis Varoufakis




Thursday, February 09, 2017

OS MAIS, OS MENOS E OS NADA DEMOCRÁTICOS

O Economist publica aqui o ranking anual dos índices de democraticidade observados em 2016, segundo os critérios do seu "Intelligence Unit", desta vez subtitulado com referência à declaração, que depois corrigiu, de Hillary Clinton durante a campanha eleitoral considerando "deploráveis"(mal informados) os que votavam em Trump :  Democracy Index 2016 - Revenge of the "deplorables"

O futuro se encarregará de demonstrar até que ponto aquela declaração de Hillary Clinton foi politicamente incorrecta mas premonitoriamente acertada. Para já, "a vingança dos mal informados" colocou Trump na Casa Branca, não sabemos por enquanto quantos mais "litle trumps" aproveitarão para surfar com sucesso a onda populista  que se agiganta na Europa.

A próxima ronda joga-se em França, Marine Le Pen vai à frente de vento em popa, a esquerda está desunida, a direita baralhada com o pedido de desculpas de Fillon aos franceses por pagamentos à mulher e aos filhos, mantendo, no entanto, a alegação de que tais pagamentos foram legais, continuando em campanha. 
Emerge, entretanto, com força bastante, segundo as sondagens, para disputar a segunda volta com a representante da extrema-direita, Emmanuel Macron, 39 anos, ex-ministro da Economia e ex-banqueiro de investimentos, casado com uma antiga professora, 24 anos mais velha, politicamente posicionado no quadrante moderado da direita. Enfrenta, contudo, rumores sobre alegada homosexualidade ventilados por media russos, que prometem mais novidades: cf. Macron, o alegado amante e o pael dos media russos.

Prevêm as sondagens que tanto Fillon como Macron ganharão folgadamente na segunda volta, mas as sondagens diziam o mesmo sobre o sucesso de Hillary Clinton. Com uma diferença significativa que torna menos imprecisos os números das sondagens: o candidato que recolhe mais votos a nível nacional é eleito PR. Nos EUA, Clinton ganhou o voto popular mas não foi eleita pelo colégio eleitoral. 

A democracia formal estará nos próximos anos, e desde já em 2017, submetida a uma prova de fogo dos "deplorables", aliciados pelos ventos maviosos que sopram dos extremos, à esquerda e à direita. Que subtítulo terá o "Democracy Index 2017"?

Segundo o "Democracy Index 2016", a Holanda, a Áustria, o Reino Unido, integram o grupo dos vinte países onde a avaliação democrática não oferece reservas. Manter-se-ão neste grupo no ranking de 2017?
Curiosamente, e digo curiosamente porque penso que será surpreendente para muita gente, o Uruguai faz parte deste grupo e é um dos cinco que obtem a cotação máxima no factor "Processo eleitoral e pluralismo".
Portugal posiciona-se no grupo das democracias imperfeitas, em 28º. lugar. Também, surpreendentemente, Cabo Verde ocupa o 23º.
Timor Leste em 43º., o Brasil em 51º., Moçambique em 115º., Angola em 130º., que corresponde a ausência democrática, Guiné-Bissau em 157º.

À Rússia é atribuida a 134ª. posição. Não, por acaso, sopram de lá os ventos da perturbação democrática a ocidente. 


Tuesday, August 30, 2016

PARA LÁ DO MARÃO*

É público que os principais candidatos, da esquerda à extrema direita, já assumidos como tal, à presidência da República Francesa, em Abril do próximo ano, declararam apoiar a "revolta popular" contra o burquini.

Independentemente do julgamento que possa fazer-se sobre a racionalidade da rejeição popular, pode ou não pode a suspensão decidida pelo Conselho de Estado ser revertida por uma votação maioritária na Assembleia Nacional?

Parece que sim, se a suspensão decidida pelo Conselho de Estado se configura, segundo afirma o André Lamas, como a aceitação de uma providência cautelar, sujeita a decisão definitiva, suponho eu, em sede mais competente.

Se for o caso, e ainda que a rejeição da polémica peça nos possa parecer obtusa, é caso para dizer que "para lá do Marão mandam os que lá estão".

Ou não?

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Comentário colocado aqui

Friday, December 18, 2015

TRUMP E OS OUTROS

Trump vai de vento em popa.
Os resultados de uma sondagem publicados no Washington Post de há quatro dias atrás revelam que, vd. aqui, "uma clara maioria (60%) de norte-americanos opõe-se à proibição de entrada de muçulmanos no país proposta por Donald Trump, mas a maioria dos Republicanos (59%) aprova-a."
.
Por outro lado, a mesma sondagem atribui a Trump, vd. aqui, 38% das intenções de voto dos Republicanos, bem longe dos 15% do segundo melhor classificado. 
Aonde quer que se desloque, Trump arrasta os media e estes motivam multidões de seguidores que o aplaudem entusiasmados e se sobrepõem às vaias de alguns opositores temerários que apareçam para estragar a festa. Aconteceu ontem, vd. aqui. em Phoenix (Arizona), nada sugere que ao movimento Trump sustentado basicamente na mensagem xenófoba, contra os sul-americanos e os islâmicos, se venha a opor com sucesso alguma tentativa interna para o desalojar como candidato dos Republicanos nas eleições presidenciais de 8 de Novembro do próximo ano.

Pelo contrário, os outros candidatos estão a aceitar jogar no campo e segundo as regras que Trump escolheu, a questão da segregação na imigração está a sobrepor-se a qualquer outro tema. E quanto mais ele exacerba o discurso xenófobo mais aumenta a distância que o separa dos restantes. 

Na Europa, e não só em França, ainda que sejam mais perceptíveis os confrontos que ali se observam,
os dramas dos refugiados procedentes de países islâmicos sensibilizam uns mas aperreiam as animosidades de outros. E em França, Marine Le Pen progride nos resultados eleitorais, obrigando os outros a inclinarem-se para as suas propostas. Marine como Donald ou, porque foi ela quem deu o mote, Trump como Marine. 

A propósito da vaga populista anti-imigração, lia-se, aqui, no Economist desta semana (The march of Europe´s little Trumps) que os partidos xenófobos foram durante muito tempo ostracizados pelos partidos dominantes. E relembra que os grupos populistas anti-imigrantes começaram a formar-se na Europa na década de 60 quando começaram a aquecer os debates sobre o Islão e a integração de imigrantes islâmicos. Os choques provocados pela introdução do euro vieram impulsionar o euro cepticismo e a relançar o debate anti-imigração, colocando-o no centro das atenções e dos confrontos ideológicos com a entrada massiva de refugiados à procura de abrigos na Europa. 

Para onde caminhará o mundo comandado por Trump dum lado e Le Pen do outro, ninguém sabe. 
Esperemos que essa hipótese, possível, não se concretize. 
Os partidos populistas não podem ser ignorados, conclui em título o artigo cit. do Economist.
Falta saber como confrontá-los.

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Ainda a propósito deste tema, dois artigos publicados em Maio de 2013 no Washington Post merecem uma leitura atenta: 


Mudaram-se as vontades assim tanto nos dois últimos anos?


(clicar nas imagens para aumentar)







Na foto - Menores sul-americanos são capturados pela polícia do Texas quando tentam atravessar a fronteira dos EUA com o México

Sunday, August 23, 2015

RÉSISTANCE FRANÇAISE



Na sexta-feira, Ayoub El Kahzzani entrou num comboio que fazia o trajeto Amesterdão (Holanda) - Paris armado com uma espingarda automática Kalashnikov com nove carregadores de munições, uma pistola e uma faca ( ) pouco depois das 18:00 o homem entrou numa casa de banho e começou a carregar a arma, mas dois militares norte-americanos que seguiam como passageiros no comboio - Spencer Stone e Alex Skarlatos, respetivamente da Força Aérea e da Guarda Nacional - reconheceram o som da arma a ser carregada e esperaram o homem à saída do cubículo. Os dois militares conseguiram neutralizar o jovem, mas este ainda conseguiu disparar a arma. Um dos militares norte-americanos ficou ferido, tal como um outro passageiro.

...


O ator francês Jean-Hugues Anglade, um dos passageiros, acusou os funcionários da companhia férrea de, durante o ataque, fecharem-se na carruagem principal (que opera o comboio) e recusarem-se de abrir a porta, apesar dos pedidos de ajuda dos passageiros."

 - vd. aqui.

Sunday, April 26, 2015

O ASSASSINATO DA FRANÇA

“As elites estão a assassinar a França”, afirma Michel Houellebecq  numa entrevista publicada hoje aqui. Dito por qualquer outro francês, e a maioria dos franceses dirá o mesmo, aliás como a maioria dos portugueses, dos espanhóis, etc., a respeito dos seus países, a afirmação seria anódina, de tão batida. 

Dita por Houellebecq, titula a entrevista a um escritor que, para além dos méritos que lhe possam ser reconhecidos, e serão muitos, merece agora  protecção policial permanente desde a publicação de "Submisão", ocorrida, vantajosamente para ele, quase em simultâneo com o massacre de Charlie Hebdo. Aliás, o livro e a entrevista recolhem, com humor perverso, o sentimento generalizado de uma larga maioria de franceses, e não só, que vêm na progressão islâmica motivo mais que suficiente para se barricarem em posições extremistas de direita. 

Michel Houellebecq satiriza o incómodo e a inabilidade ocidental perante um avanço que não sabe conter e muito menos combater. As elites, submergidas pela vaga invasora, limitam-se a esperar pela oportunidade de colaborar com o invasor e assassinar a França. 

Premonitório ou provocador, a Houellebecq qualquer dos atributos convém. "Soumission" não é um romance; é um manifesto político romanceado. A capa da edição portuguesa é muito elucidativa da intenção do texto.
Quem não gosta do estilo são os putativos intrusos.
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correl. - Sobre Huellbecq

Sunday, April 05, 2015

SUITE FRANCESA

As histórias contadas no cinema à volta do comportamento da resistência francesa durante a ocupação nazi acabam, geralmente, por transmitir imagens pouco dignas do povo que cento e cinquenta anos tinha degolado o Antigo Regime. Se a história contada é uma adaptação de uma obra de uma escritora nascida na Polónia de origem judaica, que viria a ser morta em Auschwitz em 1942 (apenas dois anos depois do início da ocupação da França), a colaboração cobarde das denúncias e acusações mesquinhas remetidas por habitantes de uma pequena cidade francesa aos militares ocupantes, o filme é uma acusação implacável daqueles que, com raras excepções, se comportaram da firma mais indigna. 

Para lá da fotografia a negro da sociedade retratada, há uma incontavelmente repetida história de amor, desta vez bem contada, entre militares ocupantes e mulheres dos territórios ocupados. 
O facto de os intérpretes dos personagens franceses se expressarem, entre si e com os alemães, em inglês, imprime no espectador menos atento a ilusão de uma deslocalização do cenário da história. Tanto quanto num qualquer western, dobrado, John Wayne a hablar espanõl.

 Suite francesa vale, mesmo assim, a pena ser vista.

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Correl . - Exorcizar o passado em Paris

Tuesday, March 31, 2015

EXORCIZAR O PASSADO EM PARIS

Os franceses nunca ficaram de boa consciência com a história da colaboração com o ocupante   nazi entre Maio de 1940 e a libertação total do hexágono gaulês pelas tropas aliadas em Dezembro de 1944. Os britânicos parodiaram a resistência francesa na série televisiva da BBC "Allo, Allo", transmitida entre 1982 e 1992, um sorriso amarelo aflorou da coragem dos resistentes franceses durante a ocupação, que não apagou nunca da memória a vergonha colectiva  pela adesão e submissão da França ao regime hitleriano. 

Agora, 70 anos depois, os "Archives Nationales ( Hôtel de Soubise) estão expostos 300 documentos inéditos, testemunhos dos dias negros da França. 


Anteontem, Sarkozy, com uma carga de acusações em tribunal às costas, foi  ressuscitado pelos resultados obtidos nas eleições regionais, conquistando uma notável maioria de departamentos à custa da ameaça vislumbrada pelos resultados da extrema direita liderada por Marine Le Pen na primeira volta, no domingo anterior.

Obrigados a escolher entre Marine Le Pen e os fantasmas do passado, Sarkozy, suspeito de várias ilicitudes, e Hollande, comprovadamente inepto, os franceses deram a maioria dos votos ao ex-presidente por ausência de alternativas que não lhes invocassem a memória do passado. 

Sunday, March 22, 2015

A DESCONSTRUÇÃO EUROPEIA

A construção europeia assemelha-se a um daqueles edifícios embargados, algumas paredes por levantar, o telhado meio coberto, sujeitos à erosão dos ventos e das chuvas, em risco de soçobrar perante um vendaval mais forte. As inquietações gregas têm levado muitos politólogos e outros com   devoções ou ofícios aparentados a presumirem que uma eventual saída da Grécia da zona euro e, por tabela, da União Europeia desequilibrará irremediavelmente as fundações do projecto e atirará a médio prazo com o conjunto ao chão. 

Não penso que o Grexit venha a acontecer. A Grécia ocupa uma posição geoestratégica por demais determinante no jogo político de influências entre o ocidente e o leste para ser deixada à deriva à procura do abraço de Putin ou de outro qualquer czar russo no futuro. Por outro lado, qualquer retoma de desenvolvimento da construção da união europeia não pode abstrair-se da localização das raízes mais profundas da civilização ocidental sob pena de lhe vir a faltar sustentação histórica suficiente. Se a queda do império grego de Bizâncio no sec. XV e a submissão dos gregos ao domínio turco otomano durante 350 anos lhe induziu traços indeléveis de uma cultura diferente, e se o Grande Cisma da cristandade os tinha voltado para leste, a unidade europeia tem de fazer-se pelo reposicionamento da Grécia no seu seio e nunca pela dispensa dos gregos nessa unidade. 

Mas admitamos que, por cegueira europeia e abstenção norte-americana, que considero altamente improvável, o Grexit se consuma. Cai o edifício europeu? Cairá, mas levará algum tempo a cair, apesar da aceleração e da dimensão que os factos políticos e os actos bélicos ganharam depois do princípio do século passado. E, no entanto, as ameaças de desmoronamento do edifício europeu são agora mais fortes que nunca. Hoje, os franceses votam na primeira da ronda das eleições locais que, muito provavelmente, confirmarão o alargamento da presença da FN de Marine Le Pen em todo o hexágono francês. As sondagens apontam para 30%, que se vierem a ser confirmadas, ou até superadas, nas urnas colocarão Marine em posição de conseguir chegar ao Eliseu dentro de dois anos.

Se isso acontecer, e pode acontecer, a União Europeia será submetida a um safanão de consequências imprevisíveis e, em qualquer caso, o projecto europeu concebido pelos fundadores será radicalmente alterado. A eventual separação da perna grega tornará a União Europeia perigosamente coxa; a saída do braço britânico tornará até ridícula a sua designação; a saída francesa será um ataque ao coração europeu. Entretanto, terá aumentado a força centípetra a leste, a Hungria já está há muito tempo mais lá que cá.

Merkel e os seus pais fiéis seguidores têm agora menos de dois anos para reforçar o edifício e colocá-lo  à prova de qualquer sismo anti democrático que faça voltar o fantasma da guerra de novo ao território europeu. A actual ebulição grega, se não tiver outro mérito, poderá pelo menos obrigar os europeus à inevitável opção entre a subsistência dos nacionalismos que lhe minam a unidade ou a federação mínima que, de forma suficiente, garanta a solidariedade que cimente uma unidade democraticamente sufragada.

Sunday, January 04, 2015

AFINAL, O EURO

Para muita gente supostamente respeitável por aquilo que afirma, o euro é uma construção insustentável, que não resistirá às crises inerentes aos inevitáveis ciclos económicos. Pode a resiliência demonstrada pela moeda única europeia em 2014 considerar-se um dos eventos que mais marcou o ano passado,  tendo em conta que foram muitos os que lhe previram o fim? Aqui, considera-se que sim - Ainda houve quem apostasse no seu fim no início do ano, mas agora para 2015 isso parece ter desaparecido.
Mas terá desaparecido mesmo?

2015 promete ser um ano politicamente muito complicado na União Europeia, com eleições legislativas na Grécia, dentro de duas semanas, Reino Unido, Espanha, Portugal e Itália, num contexto de generalizada progressão dos movimentos mais radicais. De direita, sobretudo a norte, mobilizados por reivindicações anti-imigração, que facilmente descambam para acções xenófobas e racistas. De esquerda, a sul, mobilizados pelo descontentamento que as políticas de austeridade geraram e continuam a gerar, porque o crescimento económico estagnou, e as dívidas soberanas continuam a crescer. 

Culpa do euro?
Anteontem, Paul Krugman comentava aqui um artigo de Simon Wren-Lewis, um economista britânico - How good has the UK recovery been? - resumindo neste gráfico,

as consequências das políticas de austeridade adoptadas na Europa vis-a-vis a evolução observada nos EUA. Notável é ainda o comportamento da economia francesa, que é parte da zona euro, avaliada em termos de PIB/capita relativamente à britânica, que não abdicou da sua libra.

Eis o triunfo da austeridade, ou talvez não, comenta Krugman
E continua: (cito, resumindo)

"O sucesso da economia reclamado pelo governo britânico durante os últimos um ou dois anos é uma falácia porque ignora o mau comportamento no período anterior. ... Por outro lado, atribui-se geralmente à dimensão do estado social em França a causa da estagnação da economia francesa. E à austeridade no Reino Unido é atribuido o sucesso da sua economia nos últimos tempos"

Tudo isto é deprimente, remata Krugman, desde o início da crise um crítico tenaz das políticas de austeridade adoptadas na Europa. 
Receio que continue a ter razão.

Saturday, May 03, 2014

OS PERIGOS DE UMA DEMOCRACIA MENOR

Andamos às voltas e não encontramos uma saída para uma democracia maior, nem em casa nem no clube europeu. Comparada com esta névoa que nos turva a vista e não permite vislumbrar uma convivência pacífica na Europa, a discussão acerca da, em qualquer caso aparente, saída limpa, ou limpa mas pouco, de Portugal da tutela da troica, não passa de um entretenimento para ocupação do tempo político. Porque é irrelevante, porque é para eleitor ver, porque sem rede, visível ou invisível, o estatelanço seria fatal para o trapezista e para a assistência em baixo.

Preocupante mesmo é outra vez o resvalar da Europa para os nacionalismos e o cortejo de fanáticos que os acompanha, de xenófobos e racistas, de variadas e variáveis espécies. Se os extremismos se impuserem maioritariamente no UK e na França o que será feito da União Europeia no dia seguinte às eleições?, perguntava-se aqui há dias, e ninguém responde, porque aqueles que se dizem europeístas se recusam, por cedência ao oportunismo, que muitas vezes se traduz em falta de vergonha,  a propor a submição ao voto popular a cedência da porção de soberania necessária à consolidação da União. E aos outros, os populistas, os que apregoam o nacionalismo e exigem a desunião europeia, que se atrelam ao desânimo dos mais fustigados por uma crise sem fim à vista, correm os ventos de feição nas intenções de voto.

- E a culpa é de quê? Ou de quem?
- Sei lá quem é o culpado... O que sei é que, se a democracia é isto, prefiro voltar à ditadura.
- Já estiveram mais longe, mas as perspectivas não são boas, para não dizer que são horríveis. Com o retorno dos nacionalismos, a guerra é mais que certa.
- Então que venha a guerra. Pior é impossível...

É este o drama europeu, o de desembocar a suturação de feridas antigas, sempre mal saradas, em tentações de novos conflitos que lhe reabrem os lanhos e impossibilitam a paz. Há doença colectiva pior que a tentação da guerra? Só de ânimo leve se pode dizer que sim.



 

Thursday, April 24, 2014

VOTAR, PARA QUÊ?

Ouço esta manhã na rádio uma parte do discurso - vd. aqui -  proferido ontem por Jorge Sampaio na  Gulbenkian:  "Este presente não pode ser o nosso futuro. Quarenta anos depois do 25 de Abril de 1974, a melhor maneira de o celebrarmos é usarmos as eleições europeias para fazer renascer a esperança e acreditar no futuro de Portugal e da Europa".

Sampaio mantem o registo que sempre caracterizou os seus discursos políticos: elegantes e redondos."Este presente não pode ser o nosso futuro" é uma senhora afirmação, esbelta, tautológica em todos os sentidos, que dá entrada a um apelo recorrente em vésperas de todas as eleições: votem!, porque é com o voto que renasce a esperança de um futuro diferente! Ou, trocado por miúdos, "votem no PS porque o neoliberalismo deste governo levou-nos a este presente desgraçado!".

Há, ou poderá haver, no Parlamento Europeu, uma bancada socialista, qualquer que seja a ideia política nuclear que lhe dê uma coesão mínima, que possa apontar, e em que sentido, para uma União Europeia significativamente distinta daquela que conhecemos hoje? Certamente que não. Os destinos da União Europeia têm sido guiados fundamentalmente pelos interesses individuais de cada um dos seus membros, e a tão proclamada unidade na diversidade é uma panaceia, porque só uma união política apropriada poderia dar consistência à União, e esse passo não está nos programas de nenhum dos principais vectores políticos representados em Estrasburgo. Mas há, por outro lado, propostas de desagregação defendidas pelos partidos radicais, em crescendo de representatividade no PE. 

Em França, por exemplo, e a França é um exemplo crítico, diz-se socialista o partido que suporta o governo de Monsieur Hollande. Muito provavelmente, o PS francês registará mais uma derrota record e Marine Le Pen poderá ver o seu nacionalismo, o seu racismo, a sua xenofobia, embaladas em propostas de retirada do euro, e da UE, representados de forma muito convincente daquilo que pretendem. Quem é que, sentado nas bancadas socialistas (ou liberais, ou o quer que seja), sobrepõe no hemiciclo europeu os interesses ideológicos do seu sector político aos interesses particulares dos países que representam? Que propostas defenderão os socialistas franceses, que não se acomodem às políticas do seu governo, recentemente remodelado?

Votar nestas eleições europeias sem rumos definidos, exceptuando os daqueles que se propõem fazer voltar ao passado, significa dar crédito a um presente que não augura nenhum futuro diferente para a Europa. A abstenção tem pelo menos o mérito de afirmar quantos, por indiferença (que também existe nos votantes) ou decisão pensada, dizem não a um presente e a um futuro que não será diferente.

Tuesday, July 09, 2013

A BANCA : O PROBLEMA DA EUROPA

Talvez a afirmação seja chocante para muitos mas foi dita pela directora-geral do FMI, a francesa
Christine Lagarde, transmitindo a exigência do FMI: a Europa tem de limpar de vez o seu sistema financeiro. E a senhora Lagarde deve saber do que fala porque era membro do G8 como Ministra dos Negócios Económicos, das Finanças e da Indústria quando foi nomeada para o FMI. Aliás, a opinião de Lagarde não é original porque é comungada por outros, tidos por credenciados na matéria. 

Escreve o correspondente do El País em Bruxelas que "Lagarde se atreveu a mandar a ferroada na presença do presidente do Eurogrupo, Jeoren Dijsselbloem e do comissário Olli Rehn: o problema é a banca." Mas Lagarde não se ficou por aí e  reclamou ao BCE que active medidas não convencionais, que vá além das meras palavras porque, "o crescimento (na União Europeia) brilha pela sua ausência, o desemprego cresce e a incerteza é elevada, a zona euro continua vulnerável e pode vir a ser atingida por mais perturbações". "A banca europeia tem de corrigir os seus balanços, avaliar a magnitude dos problemas com um exame credível dos activos e ter preparado um plano de necessidades de recapitalização" 

Segundo o El País "ninguém sabe quanto dinheiro falta: os grandes bancos alemães, franceses e holandeses empanturraram-se de activos tóxicos antes da crise, que ainda não foram declarados nas contas". "A situação exige uma resposta política integrada: limpeza do sistema bancário mas também a completa realização da união bancária de forma rápida, o incentivo fiscal da procura, a concretização das reformas estruturais necessárias"  "Pede ainda o FMI ao BCE que reduza os juros e injecte mais liquidez"

Ironicamente, acrescenta o articulista que "a União Europeia já fez aquilo tudo (já decidiu fazer) mas ainda não fez (não concretizou) nada". E porquê?

Porque a União Europeia continua enredada em contradições congénitas, e não serão as eleições alemãs de 22 de Setembro que vão permitir ultrapassá-las. A senhora Lagarde sabe que os valores em jogo, que não são apenas nem sobretudo os valores pecuniários, não são domináveis pelo senhor Draghi e companhia; que a Europa é um puzzle cultural de peças de difícil ajustamento; que os franceses são tanto ou mais nacionalistas que os outros povos europeus e mais do que nenhuns outros olham com desconfiança sistémica para a eventual preponderância política alemã numa Europa mais politicamente integrada. Integração política sem a qual, por mínima que seja, a União Europeia continuará a fazer que anda mas não anda.

A Banca é o problema da Europa? É um problema urgente à espera da solução do problema mais decisivo. Poderá a urgência do primeiro provocar a solução urgente do segundo? Se isso acontecer será péssima a solução encontrada.

Monday, August 27, 2012

A CULPA DAS CALÇAS

Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do FMI, co-autor de "This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly", professor em Harvard, afirmou numa entrevista à rádio BBC, na quinta -feira, citada aqui,  que a "Europa tem de decidir se quer romper com o euro", resumindo, deste modo tão simples de enunciar quanto complexo de atingir, o resultado da sua análise das diferentes posições que agora se confrontam na União Europeia e, mais prementemente, na zona euro.
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Segundo Rogoff,  muito poucos acreditam que a Grécia ainda estará no euro daqui a uma década, uma vez que a probabilidade de abandonar a moeda única é muito elevada, mas não é certo que o país abandone o euro se o financiamento for cortado porque a Grécia poderá dizer que “não pagamos, mas vamos ficar no euro”.  

Os responsáveis políticos devem decidir se querem seguir adiante ou romper com o projecto da moeda única, o que implica, por sua vez, decidir se querem ou não “seguir adiante e ser um país”.
A “grande tensão” nesta decisão localiza-se entre a Alemanha e França, já que os franceses acreditam que o euro pode existir sem “um centro forte”, enquanto os alemães discordam dessa visão, mas  “à maneira francesa não vai funcionar".

A Alemanha tomou uma posição coerente, dizendo que está disposta a pagar, desde que haja um sistema, e não transferências abertas sem “governação”.

Na edição de sábado, a Der Spiegel noticiava  (cit aqui) que  Angela Merkel quer que os líderes da União Europeia (UE) cheguem a acordo ainda este ano sobre um grupo de trabalho para um novo tratado que reforce a integração dos 27 países-membros, e que o assessor de Merkel para a política europeia, já comunicou a intenção da chanceler em conversações em Bruxelas. Merkel pretende que na cimeira da UE que se realiza em Dezembro se estabeleça uma data concreta para a convocatória do grupo de trabalho que irá redigir o novo tratado da UE. Merkel tem pressionado desde há algum tempo os seus parceiros europeus para completar o pacto fiscal acordado pelos países do Eurogrupo com uma união política.

Mas a iniciativa alemã não foi bem recebida por parte dos parceiros europeus, e num encontro do chamado 'grupo do futuro', uma reunião informal de trabalho de dez ministros dos Negócios Estrangeiros, a maioria opôs-se à proposta alemã. Países como a Irlanda querem evitar o risco de convocar um novo referendo, uma obrigação imposta em caso de um novo tratado, e outros países, como a Polónia, são contrários à iniciativa de Merkel por considerarem que são escassas as possibilidades de um compromisso entre os 27 países da UE.

Hoje (cit aqui), o ministro alemão das Finanças anunciou que Alemanha e França estão de acordo sobre a criação de um grupo de trabalho para preparar soluções para concretizar os avanços prometidos para a Zona Euro, que deverá caminhar para uma união bancária e no caminho de maior integração orçamental e monetária.

Obviamente, como afirmou Rogoff, "a Europa tem de decidir se quer romper com o euro", os europeus têm de decidir se "se querem ou não seguir adiante e ser um país”. Como referiu Rogoff, não pode assacar-se à Alemanha a culpa de não apresentar uma solução. No entanto, trata-se de uma solução exequível, na melhor das hipóteses, a médio prazo, enquanto no imediato a Alemanha e a França continuam a colocar dívida a taxas de juro negativas e, por exemplo, a Espanha continua a ver o seu prémio de risco situar-se acima dos 500 pontos (cit aqui).  
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É neste caldo de cultura do salve-se quem puder enquanto há tempo  que continua a afogar-se a Europa.

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Cor.- Depósitos em bancos espanhóis registam maior queda mensal desde 1997
- A ministra das Finanças da Áustria diz que é preciso pesar as consequências da saída de um país da zona euro.
- La banca espanõla sufre en julio una fuga récord de depósitos - Los depósitos del sector privado en los bancos españoles sumaron el pasado mes de julio un total de 1,508 billones de euros, lo que representa una caída mensual del 4,6%, equivalente a la retirada de 74.228 millones de euros, la mayor salida de depósitos privados de las entidades españolas desde septiembre de 1997, según los datos del Banco Central Europeo (BCE). De este modo, el importe de los depósitos del sector privado en bancos comerciales españoles registrado en julio representa el cuarto descenso mensual consecutivo del dato, que se sitúa en su nivel más bajo desde mayo de 2008, cuando los depósitos sumaban 1,507 billones.

Sunday, August 26, 2012

A EUROPA EM SALDO

Segundo contas de um relatório, citado aqui, do Instituto de Investigação Económica de Munique de há um mês atrás, será mais caro para a Alemanha e a França manterem a Grécia no euro que expulsá-la: no primeiro caso, os dois países perderiam um total de 155 000 milhões de euros, no segundo, 144 000. A diferença (11 mil milhões) entre segurar a Grécia e deixá-la cair é, segundo o prestigiado (qualificativo do El País) instituto alemão de cerca de 7,6%! Aqueles que defendem esta última opção consideram que já estão preparados para o pior, basicamente desfazendo-se de posições em dívida grega e desinvestindo no país. 
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Não faço a mínima ideia de quais os critérios adoptados pelos investigadores do IIEM para calcularem os valores que resumem os resultados do relatório mas, quaisquer que eles sejam, as conclusões são sobremaneira revelantes da miopia política avançada que atacou a Europa e a faz deambular desnorteada e trôpega, ameaçando estatelar-se de um momento para o outro.

Só por miopia política extrema se atreve alguém, por mais prestigiado que seja, a concluir que por 11 mil milhões de euros (menos de dois BPN!), franceses e alemães farão um bom negócio se abandonarem a Grécia entregue ao seu destino, atirada para os braços que lhe estenderão a leste. Só por cegueira política total é possível supor que a queda da Grécia é possível sem danos colaterais de consequências incalculáveis, porque não há investigadores, por mais geniais calculadores que sejam, que possam avaliar todas as consequências de um desmembramento da União Europeia que a saída da Grécia pode espoletar.

Obviamente, estes relatórios nunca são inconsequentes nem inocentes nas suas intenções, e são estas que encaminham as conclusões pretendidas por mais que reclamem os autores a sua independência.

Wednesday, July 11, 2012

OS MALES DOS OUTROS

Rajoy sube el IVA del 18% al 21% y suprime una paga a los funcionarios
El IVA reducido sube también del 8% al 10% como parte de un paquete de medidas económicas para ahorrar 65.000 millones
El Gobierno reducirá un tercio el número de concejales y fijará el sueldo de los alcaldes - El País

Com o mal dos outros podemos nós bem, é, das sentenças populares, a que melhor revela o egoísmo que em doses variáveis se aloja na idiossincrasia de cada indivíduo. Salvo os casos de ocorrência de situações de moléstia contagiosa a dar a volta ao mundo, a condição humana, reage, quando reage, na razão inversa da distância física que separa os isentos dos apoquentados. Ainda que a tecnologia de hoje nos traga a casa, em tempo real, imagens de gente aflita em cada canto do mundo, a torrente de desgraças é tão forte que, por defesa instintiva, vemos mas apenas remotamente e por breves instantes sentimos o que vimos. É esta dose variável de egoísmo que, extrapolada para as sociedades, as inclina para os desequilíbrios e os confrontos que fazem a parte negra da história da humanidade.

Os espanhóis vão pagar mais IVA? Toca a todos. E sorte têm eles de só pagarem 21%!
Os funcionários públicos receberão menos um mês de salários? Cá cortaram dois.
Os juros da dívida não param de subir? Quem os mandou também gastar tanto? 
Os bancos estão em apuros? Onde é que não estão?
Cameron e Hollande concordaram numa UE a duas velocidades? Só duas?
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Consoante o vizinho, assim a reacção. De um lado, os portugueses sentir-se-ão menos deprimidos porque passam a estar mais acompanhados no infurtúnio; do outro, os franceses, enchem o papo de ar   por empraceirarem ao lado da Alemanha no financiamento a custo do zero da sua dívida soberana. Os alemães emproam-se nas águas das virtudes calvinistas.

O que todos, estes e os restantes, parecem, além do mais, desconhecer é que o mal é mesmo contagioso, que a Espanha detem o recorde de desemprego mundial, que os espanhóis há muito aprenderam a matarem-se uns aos outros, e que se persistir a prevalência do egoísmo na União Europeia, se  não for percebido que com o mal dos outros não podemos nós bem, a moléstia dizimará o grupo.  

Hoje sabe-se que medidas podem suster a crise. O que não se sabe é se e quando os protagonistas decidirão tomá-las. 
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Correl. - Há cerca de um mês, Joseph Stiglitz classificava como "voodoo economics", (designação perjurativa da política adoptada pela administração Reagan nos EUA na década de 80 do século passado, a concessão de créditos para a recapitalização dos bancos (no caso, espanhóis):  Stiglitz está convencido de que o plano de emprestar dinheiro a Espanha para fortalecer seus bancos pode não funcionar. Stiglitz diz que o governo e os credores do país estarão, na realidade, apenas apoiando-se uns aos outros, não garantindo soluções de longo prazo para a crise em curso. (aqui

Thursday, May 03, 2012

MERKOLANDE VERSUS MERKOZY

O longo confronto verbal entre Sarkozy e Hollande, transmitido pela Sic ontem à noite, não deve ter alterado o sentido de voto dos eleitores franceses que as sondagens atribuem folgadamente favorável a Hollande. François Hollande será eleito presidente da França no próximo domingo, a menos que ocorra qualquer imprevisível nos três dias que restam a Sarkozy para inverter a desvantagem. Os media de hoje dividem-se entre o resultado do debate de ontem, o que significará um empate técnico. Os candidatos envolveram-se, sempre de forma muito crispada, numa discussão sustentada em cifras que, quando lançadas em catadupa, anulam-se mutuamente.  

Do meu ponto de vista, Hollande caiu numa contradição insanável: Sendo, como por convicção política lhe compete,  um acérrimo crítico da política de Merkel, comparou várias vezes o insucesso do governo de Sarkozy em França com o sucesso de Merkel na Alemanha. Sarkozy, obviamente, aproveitou para lhe verberar essa contradição.

Pois se Hollande reconhece que a economia alemã se comportou durante este período de crise de forma claramente melhor que a francesa como é que ele se propõe fazer melhor que Sarkozy adoptando políticas que claramente divergem das de Merkel? Dir-se-ia que por longos momentos Merkel se sentou entre eles.
Hollande voltou a referir a sua promessa de não ratificar o tratado de controlo orçamental ao mesmo tempo que criticava Sarkozy pela sua incapacidade de não ter controlado o défice. Merkel, nesse momento, deve ter acordado da sonolência que a disputa abespinhada e frequentemente contraditória dos dois franceses lhe terá provocado. 

Num ponto socialmente sensível,  Sarkozy poderá ter capturado as intenções de voto de muitos votantes em Marine Le Pen na primeira volta: aquilo a que poderá designar-se por lei da burka  e envolve toda a política de imigração, com especial incidência da islâmica. Será suficiente para lhe renovar o mandato? Creio que não. Mas, tendo em conta a expressividade do eleitorado nacionalista em França, a diferença entre Hollande e Mercozy será bem menor do que aquela que as sondagens recolheram antes deste debate.