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Friday, May 22, 2020

PAGA E NÃO BUFA!


Ouvi ontem à noite no Eixo do Mal, dois dos quatro comentadores considerarem que o presidente do PSD estava a juntar-se ao líder do Chega nas críticas feitas na AR ao processo como foi conduzido o pagamento de mais 850 milhões de euros ao Novo Banco.
Como não tinha ouvido o que dissera Rui Rio, procurei na Internet e leio:

Novo Banco: Rui Rio considera ser o "maior crime de colarinho branco" em Portugal (RTP);   Rui Rio quer relatórios de auditorias e Costa diz-lhe para pedir ao Fundo de Resolução . Situação e salários no Novo Banco discutidos no debate quinzenal no Parlamento. Rio quer relatórios de auditorias e Costa diz-lhe para os pedir ao Fundo de Resolução (Público) ; Rui Rio denuncia "calotes" do Novo Banco e "créditos vendidos ao desbarato" O presidente do PSD, Rui Rio, considerou inadmissível que todos os anos as auditorias feitas aos balanços do Novo Banco revelem imparidades que podem ter sido "empoladas" em anos anteriores. (tvi24) ; Novo Banco: Rui Rio quer ter acesso a toda a documentação sobre as imparidades (YouTube)

O líder do Chega disse o mesmo? Não sei. 
Mas é antidemocrático que qualquer afirmação do Ventura seja remetida para um Index de inquisição democrática e ao líder do Chega garantido o monopólio da crítica mesmo quando o que Ventura afirma seja, por vezes, democraticamente, pertinente.

À tarde, tinha ouvido na rádio que, a propósito das críticas que têm sido feitas ao facto de, ao mesmo tempo que os portugueses são chamados (directa ou indirectamente, escolham o que gostarem mais) a colocarem mais 850 milhões do roto banco, que regista avultados prejuízos desde que foi desastradamente concebido, aos administradores eram atribuídos dois milhões de prémios de gestão, a administração repudia as críticas feitas e afirma que essas críticas apenas fragilizam o banco e a confiança dos seus depositantes.

Quem é que preside a esta administração ofendida? Transcrevo da wikipédia:


"... tendo iniciado o seu percurso profissional no mercado de capitais em 1985. Entre 1993 e 2003 foi Administrador de diversas instituições financeiras (Banco Pinto & Sotto Mayor, Banco Totta &  Açores e Crédito Predial Português, entre outras). Em Janeiro de 2004 foi chamado para a RAVE, para ocupar o cargo de director financeiro, tendo sido convidado em Setembro do mesmo ano pelo Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações António Mexia para exercer o cargo de Presidente do Conselho de Administração CP. Desempenhou o cargo de Presidente da CP - Comboios de Portugal, EP entre 2004 e 2006.
O seu mandato à frente da CP ficou marcado por um clima de forte contestação social dentro da empresa, com trabalhadores e sindicatos do sector a criticar fortemente diversas decisões do Presidente. Outro marco foi a apresentação do polémico (e para alguns especialistas e quadros da empresa irrealista, já que assentava em pressupostos cujo cumprimento não dependia da CP) programa Líder 2010, com o qual António Ramalho pretendia, entre outras coisas, transformar a CP na melhor operadora ferroviária da península ibérica até 2010. O seu mandato também ficou marcado por alterações nos horários que resultaram com que os comboios da CP deixassem de funcionar tanto numa lógica de rede interligada entre si e passassem a circular mais numa lógica em que cada linha estava isolada uma da outra, o que levava à criação de mais transbordos. Assim, por exemplo, em Novembro de 2005 a CP anunciou que no mês seguinte ia acabar com os comboios entre Porto e Viana do Castelo e restringi-los ao troço entre Nine e Viana do Castelo.[2] Em Nine haveria transbordo para os comboios que circulavam entre Porto e Braga.[2] Também na mesma altura a CP anunciou alterações nos horários da Linha do Douro, que previa a extinção do Intercidades Porto–Régua e que mais comboios Regionais passassem a começar a sua marcha em Caíde (onde havia transbordo com os suburbanos Porto–Caíde) em vez de começarem diretamente na cidade do Porto.[2] Na altura, Caíde era o términus do troço eletrificado da Linha do Douro e a criação de um transbordo naquela estação rural inseriu-se numa lógica da CP de reforçar as receitas da CP Urbanos do Porto (o departamento da companhia que explorava os comboios suburbanos) em detrimento das receitas da CP Regional, evitando assim que houvesse comboios Regionais e Urbanos no troço entre Porto e Caíde.[2] Em Abril de 2006, foi divulgado que a CP ia extinguir os comboios rápidos Intercidades da Beira Alta (Lisboa–Guarda) e da Beira Baixa (Lisboa–Covilhã) e substituí-los parcialmente por Regionais entre Coimbra e Guarda e entre Entroncamento e Castelo Branco.[3] Se a medida tivesse avançado, na região Centro passariam a circular comboios rápidos somente na Linha do Norte e uma viagem entre a Covilhã e Lisboa obrigaria a pelo menos dois transbordos (em Castelo Branco e no Entroncamento).[4] A medida estava a ser preparada pelo próprio António Ramalho, mas contava com a oposição de grande parte da estrutura técnica da CP, para além de ter gerado duras críticas por parte das entidades locais das regiões afetadas.[5] Com efeito, a Governadora Civil de Castelo Branco e um deputado da Assembleia da República eleito pela Guarda contactaram o governo e divulgaram que o executivo não tinha autorizado a CP a fazer essas supressões.[5] Face à polémica, em 3 de Maio a CP divulgou um comunicado onde admitia que os Intercidades da Beira Alta e da Beira Baixa se iam manter.[6]
António Ramalho acabaria por pedir a demissão no verão de 2006, na sequência de um convite por parte da Unicre para assumir a presidência dessa mesma empresa. ...

Sunday, October 27, 2019

UM BRÊXIT SEM SAÍDA


Do Economist desta semana, transcrevo a parte publicada on line de um artigo sobre o fervor europeísta que assaltou parte significativa dos britânicos após o confronto com a iminência da saída do UK da UE.
Sempre se soube que, sobretudo os ingleses, ainda de ego cheio no tempo em que eram imperiais, se sentiam desconfortáveis como membros de um clube onde entrava gente de gostos duvidosos, avaliados pela bitola britânica, e, pior que tudo isso, não tinham a exclusividade do comando a bordo. 
Um dia ofereceram-lhe num referendo a decidir por maioria simplicíssima, a hipótese de sair, e, entre verdades e mentiras, o sim à saída ganhou por uma unha negra. 
Quem fazia contas, sobretudo em Londres, e principalmente na City, recomendava a permanência do reino britânico na UE, os outros marimbaram-se para as contas e votaram consoante lhes tocou mais ou menos o ardor nacionalista, que, entretanto, tinha crescido como cogumelos por todo o lado europeu e fora dele, esquecidos da guerra global, ateada na Europa, oitenta anos antes.
Agora o reino vai sair mas não atina com a porta de saída.

No dia em que der com ela, a saída pode funcionar como uma bomba de fragmentação: do Reino Unido e da União Europeia, onde sopram os ventos nacionalistas, a arrastar fuligem populista, racista, xenófoba, chauvinista, para gáudio do imperador Xi Jinping, do czar Putin, do inqualificável Trump.
A Catalunha, rica, não suporta pertencer ao mesmo clube frequentado pela Andaluzia pobre ou pela Galiza remediada. A Itália do Norte despreza a Itália do Sul, o Leste estende a mão ao ocidente e pisca o olho ao outro lado.
Em Portugal, os extremos políticos batem palmas, ao lado de Putin e Trump, talvez sem se dar conta, pela fragmentação da Europa.
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BEFORE THE referendum in 2016 European Union flags were as rare as golden eagles in Britain. Today they are as common as sparrows. Parliament Square is permanently festooned with them. Activist Remainers flaunt flag-themed berets and T-shirts. On October 19th a million-strong army of People’s Vote supporters marched on Westminster beneath a sea of gold and blue standards.
This points to one of the oddest paradoxes in this odd period in British politics. It took a vote to leave the EU to shock millions of Britons into realising how much they liked it. Britain had always been an outlier in believing that the EU ought to be little more than a convenient trading arrangement. A couple of Eurobarometer polls in 2015 found that the country came 28th out of 28 in terms of people’s sense of European identity and 26th in terms of trust in European institutions. Yet today a significant section of the population thinks that being European is essential to its identity.

c/p aqui 

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Act. 28/10/2019


 
 
Cerca de um milhão de 'remainers' manifestaram-se esta tarde em Londres, junto ao Parlamento, enquanto Boris Johnson tentava convencer os deputados a aceitarem o acordo com a União Euriopeia  - c/p aqui

Wednesday, October 04, 2017

QUEM É QUE NA EUROPA APOIA OS INDEPENDENTISTAS CATALÃES?

É a pergunta feita hoje no El País - ¿Quiénes en Europa apoyan en realidad a los independentistas catalanes? - e a resposta é óbvia.

Os extremistas de direita (e de esquerda, acrescento eu, porque, já se sabe, os extremos tocam-se)
Aqueles que nunca pouparão esforços para excitar instintos populistas, nacionalistas, racistas, e tudo quanto possa contribuir para a destruição da União Europeia e, consequentemente, fomentar a guerra entre os europeus depois do período mais longo de paz observado na lado oeste da Europa. 




São estes os mais notórios figurões que se apresentam como paladinos do direito de voto, aqueles que, em nome da democracia, pretendem aniquilar a União Europeia. 
Alguns argumentos dos independentistas catalães coincidem com os dos ultra direitistas nos países membros da União: invocam o nacionalismo como forma de incitar à recusa de solidariedade entre os diversos países membros. A Catalunha, rica, não se conforma com os custos da solidariedade com, p.e., a Andaluzia, mais pobre. 

A inquietação sobre o desafio da Catalunha estende-se à União Europeia, lê-se noutro artigo publicado no El País. E há quem se ofereça como medianeiro entre as partes em confronto. 
"O líder do Partido Popular Europeu, o alemão Manfred Weber reclamou "diálogo entre democratas".
O eurodeputado espanhol Esteban González Pons, contudo, descarta o diálogo com o Governo catalão e recusa a mediação da UE, pedida por vários membros do parlamento europeu."

"A todos nos duelen las imágenes que vimos el domingo. Pero España no es Yugoslavia. Somos una democracia estable y madura, y no necesitamos tutelas. Ni mediadores con los políticos insurrectos. Vamos a dialogar, pero bajo el manto de la Constitución".

São inquietantes as cenas dos próximos capítulos. 

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Correl . - MITOS Y FALSEDADES DEL INDEPENDENTISMO

Tuesday, March 28, 2017

INTELIGÊNCIA CONCORRENCIAL


Chamam-lhe "inteligência artificial" mas a designação é imprecisa porque um robô apenas se distingue de outros artefactos que a humanidade foi desenvolvendo ao longo de milénios, com o intuito de substituir o esforço humano na produção de bens e serviços, pela utilização dos desenvolvimentos científicos nomeadamente da área que, grosso modo, se designa por ciência da computação. Será o seu impacto nas relações sociológicas no futuro superiores, em termos relativos, à invenção da roda, do motor de combustão, da lâmpada de Edison, por exemplo? Sem dúvida, que sim, porque a humanidade cresceu exponencialmente e o planeta, em termos de distância-tempo, encolheu. 

A globalização, apesar das reacções violentas que suscita, vai continuar, salvo se a humanidade se auto liquidar. O planeta não é extensível e não há muros de pedra ou cimento que sustenham a inevitável e crescente mobilidade das pessoas entre todos os cantos do mundo. Globalização significa concorrência, competitividade, e competitividade determina, além do mais, redução do trabalho humano necessário para os mesmos volumes de produção. E os robôs, sem exigências,  salariais nem quaisquer outras, para além de manutenção mínima, não são entes inteligentes mas artefactos concorrentes do emprego humano concebidos e produzidos pelo homem. 

O futuro pacífico da humanidade, se não estiver comprometido pela escassez de recursos naturais - a água, por exemplo - passa pela introdução de meios e políticas que amorteçam os conflitos sociais decorrentes da crescente escassez do trabalho a nível mundial. Não haverá trabalho para todos mas a solução não passa pela destruição dos robôs. O estado social, que tantos diabolizam nestes tempos em que o populismo cresce como escalracho, é a única via para a humanidade sobreviver à crescente e generalizada redução do emprego. Não, por acaso, começam a a parecer propostas de pagamento de salários condignos a quem opta por aceitar não trabalhar. 

Contudo, o crescimento exponencial observado no gráfico, nos últimos cinco anos, e previsto até ao fim desta década, não parte de uma base relativamente reduzida, há quatro décadas. Em 1980, escrevia Jean-Jacques Servan-Schhreiber em "O Desafio Mundial": Há hoje cerca de sessenta mil robots no total, no mundo, instalados em fábricas, como os que vimos na Toyota. A sua localização é a seguinte: 6000 robots na Alemanha Federal, 3200 nos Estados Unidos, 600 na Suécia, 300 em França, 180 na Grã-Bretanha, uma centena, ou menos, em meia dúzia de outros países, e 47000 no Japão". 

A deslocalização da indústria não foi apenas pressionada pela concorrência salarial. A liderança japonesa na indústria automóvel contou bastante com a robotização. Quando o sr. Trump promete aos desempregados de Detroit recuperar a indústria automóvel norte-americana e criar milhares e milhares de novos empregos, e abolir o incipiente estado social norte-americano, em que empregos está a pensar Mr. Trump?

Seguramente no dele, da família dele, e dos amigos mais chegados.  

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O gráfico é copy/paste deste  artigo publicado esta semana no Economist.

Tuesday, March 07, 2017

ATENÇÃO A PUTIN

Há cinco anos, Putin foi reeleito presidente da Rússia.
A propósito, escrevi isto.
Hoje, o Financial Times publica aqui* um artigo que denuncia a teia tecida por Putin e os admirados e admiradores, populistas da extrema esquerda à extrema direita, que já lhe caíram na rede. 

Entretanto, passados cinco anos, a União Europeia não só não se uniu como ameaça agora desintegrar-se. O presidente da Comissão Jean-Claude Juncker apresentou há dias "O Livro Branco sobre o Futuro da Europa" - vd. aqui-, que pretende ser um conjunto de propostas alternativas submetidas à discussão pública dos povos dos países membros da União.

Como seria de esperar, porque os tempos não favorecem a coragem nem a frontalidade mas a demagogia populista-nacionalista, as primeiras reacções que o documento recebeu foram críticas à metodologia subjacente às intenções da Comissão. Juncker passou-se:  

“Gritamos aos quatro ventos que o debate é necessário e que é preciso ir ao encontro dos cidadãos e dos eleitores – que são cidadãos e não apenas eleitores – e quando o fazemos somos criticados. Então merda. Eu diria merda se não estivesse no Parlamento Europeu. O que que querem afinal que façamos?”, disse um veemente Juncker. - cf. aqui

Putin regozija-se, os putinistas rejubilam, cada qual para o lado que está virado. 
Jerónimo de Sousa, por exemplo, estará de costas voltadas, também, por exemplo, com Marine Le Pen, mas ambos esperam, e não escondem que esperam, que os nacionalismos submirjam as melhores intenções, que são poucas e débeis, para garantir a unidade dos europeus e, só desse modo, assegurar a continuidade da paz na Europa. 

Putin joga simultâneas em tabuleiros num e noutro lado do Atlântico num jogo em que os seus peões se multiplicam reproduzindo-se por contágio.
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* Transcrevo o artigo citado por considerar que deve merecer a mais alargada divulgação possível. Pela minha parte, esse possível é mínimo, é o que posso.

President Vladimir Putin’s ruling party has signed a co-operation deal with Italy’s far-right Lega Nord, deepening Russia’s ties with Europe’s populist movements. 
The deal marks the Kremlin’s latest attempt to develop formal links with populist groups ahead of elections this year in which the right is set to make gains. United Russia, the main pro-Kremlin party, signed a similar agreement late last year with the far-right Freedom party of Austria, whose leader Heinz-Christian Strache was narrowly defeated in December’s presidential election. The leader of Germany’s anti-immigration Alternative for Germany (AfD) party, Frauke Petry, also held talks with United Russia’s Viacheslav Volodin, speaker of the Duma, the lower house of parliament, during a visit to Russia last month. Moscow officials have hailed the rise of anti-establishment populist parties in Europe and Donald Trump’s victory in the US as signs that western governments will fail in their attempts to isolate Mr Putin’s regime following the 2014 annexation of Crimea. Gideon Rachman Le Pen, Trump and the Atlantic counter-revolution The two leaders share much, including nationalism, populism and protectionism Common cause in a conservative backlash against liberal values and criticism of the EU’s handling of the migrant crisis have allowed Moscow to build good relationships with European far-right parties including France’s National Front, Hungary’s Jobbik and Italy’s Lega Nord, or Northern League. Many of those parties approved of Russia’s annexation of Crimea and sent monitors who praised glaringly flawed elections in both Crimea and rebel-held eastern Ukraine. Although it is unclear what the Lega Nord agreement will entail, Sergei Zheleznyak, deputy Duma speaker, touted Russia’s willingness to lead a global anti-terror coalition alongside western nations as a priority for the Kremlin. “Russia is [Europe’s] neighbour,” Mr Zheleznyak said in a statement. “So it’s particularly strange that Europe isn’t making use of the unique experience fighting terrorism that we’ve built up in our country. Live event: The rise of the right Join FT Commentators in London on March 16 to discuss the rise of right-wing nationalism in Europe. Matteo Salvini, Lega Nord chairman, said his anti-immigration and anti-euro party would work “so that Italy has real parliamentary elections, just as open as in your country [Russia]”. The two parties will also develop ties in the Council of Europe, the Organization for Security and Co-Operation in Europe, and promote business links. Members of Lega Nord made up the bulk of an Italian delegation that visited Crimea in October, prompting protests from Ukraine. Claudio D’Amico, a senior Lega Nord member, was one of several European far-right politicians who monitored the rubber-stamp referendum that followed Russia’s annexation of the peninsula. The Netherlands, France and Germany will all hold general elections this year, with far-right parties expected to perform strongly.

Thursday, February 09, 2017

OS MAIS, OS MENOS E OS NADA DEMOCRÁTICOS

O Economist publica aqui o ranking anual dos índices de democraticidade observados em 2016, segundo os critérios do seu "Intelligence Unit", desta vez subtitulado com referência à declaração, que depois corrigiu, de Hillary Clinton durante a campanha eleitoral considerando "deploráveis"(mal informados) os que votavam em Trump :  Democracy Index 2016 - Revenge of the "deplorables"

O futuro se encarregará de demonstrar até que ponto aquela declaração de Hillary Clinton foi politicamente incorrecta mas premonitoriamente acertada. Para já, "a vingança dos mal informados" colocou Trump na Casa Branca, não sabemos por enquanto quantos mais "litle trumps" aproveitarão para surfar com sucesso a onda populista  que se agiganta na Europa.

A próxima ronda joga-se em França, Marine Le Pen vai à frente de vento em popa, a esquerda está desunida, a direita baralhada com o pedido de desculpas de Fillon aos franceses por pagamentos à mulher e aos filhos, mantendo, no entanto, a alegação de que tais pagamentos foram legais, continuando em campanha. 
Emerge, entretanto, com força bastante, segundo as sondagens, para disputar a segunda volta com a representante da extrema-direita, Emmanuel Macron, 39 anos, ex-ministro da Economia e ex-banqueiro de investimentos, casado com uma antiga professora, 24 anos mais velha, politicamente posicionado no quadrante moderado da direita. Enfrenta, contudo, rumores sobre alegada homosexualidade ventilados por media russos, que prometem mais novidades: cf. Macron, o alegado amante e o pael dos media russos.

Prevêm as sondagens que tanto Fillon como Macron ganharão folgadamente na segunda volta, mas as sondagens diziam o mesmo sobre o sucesso de Hillary Clinton. Com uma diferença significativa que torna menos imprecisos os números das sondagens: o candidato que recolhe mais votos a nível nacional é eleito PR. Nos EUA, Clinton ganhou o voto popular mas não foi eleita pelo colégio eleitoral. 

A democracia formal estará nos próximos anos, e desde já em 2017, submetida a uma prova de fogo dos "deplorables", aliciados pelos ventos maviosos que sopram dos extremos, à esquerda e à direita. Que subtítulo terá o "Democracy Index 2017"?

Segundo o "Democracy Index 2016", a Holanda, a Áustria, o Reino Unido, integram o grupo dos vinte países onde a avaliação democrática não oferece reservas. Manter-se-ão neste grupo no ranking de 2017?
Curiosamente, e digo curiosamente porque penso que será surpreendente para muita gente, o Uruguai faz parte deste grupo e é um dos cinco que obtem a cotação máxima no factor "Processo eleitoral e pluralismo".
Portugal posiciona-se no grupo das democracias imperfeitas, em 28º. lugar. Também, surpreendentemente, Cabo Verde ocupa o 23º.
Timor Leste em 43º., o Brasil em 51º., Moçambique em 115º., Angola em 130º., que corresponde a ausência democrática, Guiné-Bissau em 157º.

À Rússia é atribuida a 134ª. posição. Não, por acaso, sopram de lá os ventos da perturbação democrática a ocidente. 


Monday, January 30, 2017

A EUROPA Á DERIVA



Concordo inteiramente que cimeiras regionais podem precipitar a desintegração europeia. Aliás, registei esse receio há alguns anos no meu caderno de apontamentos, quando já era muito visível que os alinhamentos políticos na União Europeia se faziam, e continuam a fazer, mais numa perspectiva Norte-Sul do que numa vontade maior de avançar com os meios indispensáveis a uma integração política mínima que, sem se sobrepor aos valores culturais de cada estado-nação, garantisse a coesão consistente de uma nacionalidade europeia. 

É muito evidente que, por um ser um conjunto de nações culturalmente vincadamente diversificado, na União  Europeia os interesses não são  disputados acerca das medidas que podem fazer avançar o conjunto mas do confronto de interesses de cada país membro, alinhados sobretudo pelos valores culturais que historicamente se impregnaram no Norte protestante/calvinista e no Sul católico. 

Quando em 2008 a crise latente irrompeu e as dívidas soberanas pareciam ter emergido de um dia para o outro, ninguém minimamente informado e mentalmente honesto pode negar que, sem uma cooperação eficaz e oportuna do conjunto, o problema se tornaria insolucionável. A resposta do Norte, carregada de muitas e reconhecíveis razões, foi exigente mas não foi adequada. 
Os recursos voaram de sul para norte, enquanto a Norte se financiavam a taxas negativas a Sul pagavam, e pagam, juros com língua de palmo. 

Por estas e muitas outras razões, se  cimeiras a sul são mau presságio para o futuro da União Europeia, a convergência do Norte sustentada por preconceitos de superioridade moral já tinha abalado profundamente a estabilidade do edifício europeu quando a crise emergiu. 

Crise que alimentou os nacionalismos e os seus rebentos espúrios desfraldam agora as bandeiras enroladas há décadas. Ensanduichada entre Trump e Putin, e Mrs May a ver no que vai dar, nas democracias europeias crescem trumpitos e putinitos ambicionando escaqueirar o edifício em construção. 

De modo que, Caríssimo António, se a cimeira do sul foi uma masturbação política é porque, definitivamente, Norte e Sul europeus não se sentem bem na mesma cama e o divórcio será uma questão processual. 
Lamentável e extremamente perigosa, ensina a História.

Friday, January 20, 2017

DESTA VEZ, DA AMÉRICA

A partir de hoje, não sabemos até quando, o amigo de Putin, Donald Trump será o 45º. Presidente dos Estados Unidos da América. Venceu o populismo (não venceu o voto popular) excitado pelas redes sociais, inundadas de forma provavelmente decisiva pelas interferências dos hackers russos. Trump já reconheceu publicamente essa interferência, (obviamente) negou que ela possa ter influenciado os resultados que lhe garantiram a presidência. 

Tenha sido ou não decisiva a interferência de Putin na eleição de Trump, é inquestionável que Putin reforça com a eleição do amigo norte-americano a aura atribuída pela Forbes de político mais poderoso do mundo. Se a Forbes o diz, Trump aproveita para engrossar nos EUA a onda de populismo ensaiada na Europa prometendo tornar a América grande outra vez - "Make America Great Again"-. Sub liminarmente, Trump intuiu nos norte-americanos, mas não na maioria, a ideia de que se Putin - líder de um país com uma economia que valerá quanto muito tanto quanto a economia espanhola - é o mais poderoso, é porque a América perdeu a liderança do poder mundial. E ele, Trump, vai reconquistar o poder perdido. Enfrentando Putin, o mais poderoso?

Não, de modo algum. Trump é um bilionário com muitos negócios e muitos amigos na Rússia, com Putin à cabeça da longa lista, e durante a campanha eleitoral, não se eximiram de trocar lisonjas entre eles. O populismo sustentado no exacerbamento  do nacionalismo, que garante a Putin o poder na Rússia e a ambição de a tornar outra vez grande tem a mesma índole daquele que tuíta Trump. 
Porém, o nacionalismo exacerbado em populismo necessita de se alimentar num inimigo externo. Trump escolheu a China, desfraldando a bandeira do proteccionismo para erguer barreiras ao comércio e à circulação de pessoas, e, por tabela, abanar a ainda inacabada estrutura europeia criticando-lhe a perda das identidades nacionais, a permissividade da circulação de pessoas e o disponibilidade no acolhimento de refugiados. 

Desta vez não virão da América os exércitos libertadores das amarras forjadas pelos nacionalismos endémicos no velho continente. A Srª. Theresa May já anunciou que vai forçar um "Brêxit" duro, ameaçando competir com as armas usadas pelos paraísos fiscais. Trump aplaude e augura um desmembramento da União Europeia, Le Pen rejubila, Putin conta com o apoio incondicional do homem soviético, que muitos distraidamente julgaram acabado, para recuperar a influência de Moscovo sobre o leste europeu sem rumo. 
Pela primeira vez na história, os Estados Unidos da América, por vontade de Trump, estarão do lado daqueles que pretendem a fragmentação do ocidente europeu. 
Cúmplices, admiradores ou simplesmente tácitos aliados, não faltam deste lado do Atlântico a Putin e a Trump.

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Correl.- Trump apossa-se

Wednesday, January 18, 2017

FRANCISCO VS TRUMP

O canal National Geographic está a transmitir um docudrama (a próxima transmissão será na segunda-feira, 23, às 6,00h) sobre o papel desempenhado pelo Papa Pio XII durante a Segunda Grande Guerra. Foi Pio XII o "papa de Hitler" ou o anátema lançado é injusto?

"Nos dias mais negros da Segunda Grande Guerra, São Pedro estava encoberto pela sombra da suástica. Mas enquanto o Führer o rodeava, o Papa planeava uma contra ofensiva secreta. O Pontífice de Guerra Pio XII foi ridicularizado pelo seu silêncio sobre o Holocausto. Mas provas mostram que o seu silêncio poderá ter sido subterfúgio. E o homem marcado como "papa do Hitler" poderá ter querido eliminá-lo. Pio serviu de intermédio com os rebeldes alemães para montar uma revolta. Entretanto, uma rede de espiões da Igreja coloca os planos em marcha. Mensageiros católicos transportam mensagens entre Roma e Berlim, enquanto conspiradores se juntam na cripta de São Pedro. É um capítulo esquecido de uma guerra. Um confronto secreto entre o vigário de Cristo e o anti-Cristo. Papa Vs. Hitler é um docudrama entusiasmante de duas horas que explora uma das histórias menos conhecidas da Segunda Grande Guerra - o papel do Vaticano na conspiração para assassinar Adolf Hitler." - cf. aqui

Um docudrama, um neologismo que pretende significar uma versão entre a ficção e a realidade, e a ficção, neste caso, enrola-se sobretudo nas eventuais conexões entre o Pio XII e aqueles que na Alemanha arriscavam e pagavam com a vida a ousadia de parar as desmedidas atrocidades dos nazis. A realidade é um facto comprovado: Pio XII nunca fez ouvir publicamente a sua voz em protesto e condenação do holocausto em curso, que ele não ignorava porque viu, com os seus próprios olhos, uma amostra real do horror desencadeado pela fúria da besta. 

E hoje? 
O que diz o Papa Francisco perante a vaga de populismo carregado de ódios racistas, xenófobos, chauvinistas, que ameaçam desagregar a Europa e intensificar o incêndio ateado às suas portas? O que pensa, e se pensa deve dizer porque a força do Papa está na sua palavra, das declarações de Trump quando classificou de catastrófica a política de Merkel perante os refugiados?
Francisco esteve em Lesbos e até levou com ele 12 refugiados sírios para o Vaticano. É pouco, a bem dizer, é nada.
Fala Francisco!, "Estar atento não chega"* para que a história não venha a interpretar o teu silêncio como conivência.  
"Per ché non par li?".

foto c/p aqui
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* Correl . - Papa Francisco: " O que pensa de Donald Trump?"

"A resposta de Francisco que rejeita julgar políticos e diz que está atento às consequências que os seus comportamentos causam aos pobres e aos excluídos"

Monday, January 16, 2017

PESADELO

Merkel para Trump: 

"Nós, europeus, temos o nosso destino nas nossas mãos"vd. aqui 

Trump, em entrevista publicada hoje em todo o mundo, permitiu-se classificar de catastrófica a política de acolhimento a refugiados decidida por Angela Merkel, augurou o desmembramento da União Europeia, classificou a NATO como obsoleta, voltou a congratular-se com o Brêxit, além de outras afirmações que deveriam merecer uma reacção à medida deste lado do Atlântico mas foi a voz da chanceler alemã que se fez ouvir.

Nós, europeus, não temos o nosso destino nas nossas mãos mas nas mãos de Merkel. 
Se a sua determinação for submergida pela onda populista que Trump e seus apaniguados continuam a bolsar, o destino dos europeus cairá nas mãos de Putin e Trump. 
Até que um deles engula o outro.