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Wednesday, January 01, 2025

ADMIRÁVEL MUNDO VELHO

 
Houve tempos, antes da chegada da Internet e das suas maravilhas, mas também das suas aplicações malévolas, a via postal era a forma de maior aproximação entre gente fisicamente distante.
Os cartões de felicitações, de boas festas, de Natal e Ano Novo, sobretudo estes, levavam calor humano, aqueciam a natureza de quem remetia e de quem recebia.
Por esta altura do ano, recebíamos dezenas.
 
Hoje, recebemos um via postal, com o timbre de original e pessoal, o mesmo que no ano passado, e no ano anterior, e no anterior ...
Todas as outras mensagens natalícias que recebemos e, diga-se em abono da verdade, também as que enviámos, com mais ou menos folclore, chegaram ou saíram frias. 

Bom Ano!
Aqueçam-se que está frio lá fora.

Monday, December 27, 2021

COMO NASCEU O NATAL

"A Europa tem uma cultura que convém proteger sobretudo face a modos de estar que reagem fortemente aos valores que constituem os pilares da sua civilização. 

Soçobrar na sua defesa acarreta o risco de um regresso às trevas da Idade Média.

Basta não fechar os olhos ao que se está a passar em muitas cidades europeias, onde hordas de fanáticos religiosos estão a impor comportamentos abomináveis nos guetos que dominam, para perceber a relevância dessa defesa.

Lamentável será deixar à iniciativa da extrema-direita a denúncia dessas situações e a defesa desses valores. 

Quem se revê na democracia e na liberdade não poderá deixar de ter um papel activo nessa defesa."

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Totalmente de acordo contigo, JB.

Só não penso que a citação de palavras com conotações religiosas possa ser uma barreira à expansão de práticas que são contra a cultura europeia.
Nos EUA, onde a diversidade religiosa é bem maior do que a que se observa na Europa, adoptaram a expressão "Winter Break" para este período do ano, sem que isso tenha beliscado a celebração do Natal pelas famílias cristãs. O Hanukka que, como bem sabes é uma festividade religiosa judaica que se prolonga desde a tarde de domingo de 28 de novembro até à tarde de 6 de janeiro (mês judaico) coincidindo em grande medida, aliás ultrapassa, o período das festividades das comunidades cristãs, católicas, ortodoxas, etc. As comunidades indianas celebraram o Durga Puja este ano entre 11 e 15 de outubro. Os chineses celebram com grande exaltação o primeiro dia do ano chinês ... etc., etc, etc.
Como se conciliam convivências num mosaico tão diversificado?

Em França, onde a questão da expansão islâmica está a pôr os nervos dos franceses "puros" em pulgas, o assunto está a estremecer a democracia fundada na liberdade, igualdade e fraternidade. Parece, segundo alguns, necessário juntar laicismo. O "Expresso" deste fim de semana, publica um interessante artigo sobre o assunto - Porque tem a França tanto medo de Deus?

Se a Europa tem crescimentos demográficos insuficientes, as entradas de imigrantes exigem políticas concertadas e adequadas ao fenómeno. É difícil, pois é, mas não se podem suportar em raciocínios do tipo "Querem-nos tirar o Natal!,  um dia destes colocam todas as obras dos grandes pintores que exaltam o cristianismo na fogueira!"
Isto porque a Comissária da UE para a Igualdade, além de outras propostas, algumas das quais também considero ridículas, se atreveu, mas já recuou, a propor que passem a ser omitidos termos com conotações religiosas em documentos oficiais.

O Natal não corre qualquer perigo se deixar de ser referido em documentos oficiais. É uma celebração cristã no dia 25 de dezembro, a 7 de janeiro nos países eslavos e ortodoxos, com origem na celebração do nascimento do Deus Sol no solstício de inverno e ressignificada pela Igreja Católica no  século III para estimular a conversão dos povos pagãos sob o domínio do Império Romano, passando a comemorar o nascimento de Jesus de Nazaré . A Wikipédia é um manancial de sapiência! E ainda por cima, gratuito. 

É o que me parece.

Saturday, December 25, 2021

O NATAL, HOJE

A Comissária Europeia para a Igualdade provocou alarido por, além do mais, propor que se passe a designar a quadra natalícia, o Natal, por uma expressão mais englobante da diversidade de religiões que coexistem na União. Mas já recuou e propõe-se rever os termos da proposta : EU advice on inclusive language withdrawn after rightwing outcry Guidelines promoted use of ‘holiday season’ instead of Christmas.

"Deportado o Natal da escrita oficial, reescreve-se a história, banindo porventura as grandes representações inspiradas por esse nome agora proscrito, e condenando ao esquecimento, senão a fogueira póstuma, os seus autores, de Corregio a Tintoreto, de Da Vinci a Rembrandt, de Dickens a Eça e a Pessoa, de Bach a Beethoven ou a Gruber, e a tantos outros."  - aqui.

Muitas obras, muitos autores, pintores, sobretudo, inspiraram-se no poder do dinheiro e de problemas de consciência dos seus patrocinadores. Sem as encomendas desses patronos, provavelmente, a sua inspiração ter-se-ia voltado para outros temas - Da Vinci pintou, p.e.,  Madona e o Menino, mas a sua obra máxima, Gioconda, é uma figura que permanece enigmática, não é de exaltação religiosa.

O Réquiem, de Mozart e muitas obras musicais de grande inspiração espiritual resultaram de encomendas de gente com as arcas a abarrotar de ouro e de problemas de consciência.

Quanto a catedrais, abundam os exemplos magnânimos de cumprimento de promessas. O Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido por Mosteiro da Batalha, pretendeu ser um tributo pago a Nossa Senhora por ter alinhado pelo lado dos portugueses. Aliás, o rei D, João I cumpriu a promessa mas tinha-se comprometido com Nuno Álvares Pereira a pagar-lhe competitivamente ... se não ele ter-se-ia passado para o lado contrário.

E hoje? 

O presépio foi substituído pelos abetos de plástico feitos na China, - a propósito, onde  se inspiram os chineses, na criação da tralha com que se trocam prendas natalícias, senão no dinheiro? -  O  Menino Jesus da minha infância é hoje um figurante icónico imaginado pelo marketing da Coca Cola nos anos 30, salvo erro, do século passado. 

Novas "religiões" crescem e multiplicam-se imparavelmente. Por esportularem uma parte significativa dos seus salários pretendem também os seus fiéis comprar a reserva de lugares nos céus. Mas, se na origem de muitas guerras, estão fundamentalismos religiosos, - e a participação das abraâmicas é muito evidente -, não podemos desconsiderar a contínua complicação do mosaico religioso nas sociedades contemporâneas.

Nos EUA, para evitar conflitos religiosos, há muito que foi estabelecido considerarem "Férias de Inverno - Winter Break - este período "natalício".

A União Europeia não pode manter-se unida se não expurgar dos seus documentos oficiais todos os termos que sustentem fundamentalismos que possam quebrar o mosaico que, quer queiramos quer não, já existe, e vai continuar a existir. 

Shalom!

Bom Natal!

Bom Ano Novo!

 

Saturday, April 10, 2021

NATAL

 

Num dia como o de hoje, nasceu a nossa menina.
Sábado de Aleluia.
Num dia de sol, porque não há sábado sem sol
e o sol tinha sido convidado para o nascimento da nossa Aninhas.
Alé ... Alé ... Alé ... Alé  ... lllllluia!
Foi ontem,
há tão pouco tempo.
Tão pouco entre ontem e hoje.
O que podem estes pais,
tolos de saudade,
oferecer como lembrança deste dia de hoje à sua menina,
que nasceu quase agora mesmo,
mas agora tão longe?
Um simples postal não chegaria antes do Natal
e o nosso natal é hoje.
Pi!
É o uótesape!
Poiim!
É o aipede!
Doses homeopáticas de felicidade vindas de tão longe!
Boas para o coração, relógio de cadência variável ....
e avariável,
instável, a tocar pela pauta do pensamento.
Pensamos nestes dias dos nossos natais,
e é esta vibração deste relógio tonto
que pode soltar o nosso amor por ti
num chicoração!

Sunday, December 27, 2020

Sunday, December 24, 2017

PATÉTICA


Querida RMF,
Querida DFF,

Hoje é véspera de Natal, o dia em que se celebra o nascimento do Menino-Deus, há mais de dois mil anos. É uma noite muito bonita porque o Menino-Deus cresceu e ensinou que as pessoas deveriam gostar de praticar o bem, ajudar os que precisam, e viver em paz, sem lutar nem ofender ninguém.

E, porque viver em paz com todos os outros começa pelo viver em paz dentro das nossas casas, o Pai Natal todos os anos, aparece no meio de muitas iluminações e muitos cânticos para deixar em todas as casas uma recordação da mensagem de paz do Menino-Deus, nascido em Belém para o bem de todos. 

É por esta razāo que, durante estes dias antes da noite de Natal, o Pai Natal anda muito contente, embora um pouco cansado com tanto trabalho, a entregar lembranças às pessoas e, muito especialmente com muito carinho, às crianças, porque são as crianças que, quando forem mais crescidas, vão tornar o mundo melhor, lembrando-se da mensagem divina de paz entre todos os povos do mundo. Infelizmente, nem sempre essa mensagem de paz é recebida. 

Quisemos, a vossa avó e eu, que o Pai Natal vos entregasse essa mensagem e algumas lembranças, testemunhos do nosso grande amor por vós. Mas o Pai Natal veio desanimado porque não conseguiu saber onde estão duas das nossas queridas netas, mesmo depois das muitas tentativas que fez durante os últimos três dias.

Não é nada provável que esta mensagem venha agora a ser lida por vós. 
Mas, se por milagre divino, alguém ler e vos disser o que escrevi, acreditem que é tão grande o nosso amor como a mágoa de não sabermos onde podemos, e quando poderemos, voltar a ver-vos.

O nosso grande amor fica, por agora, de braços abertos à espera desse milagre.




Sunday, December 25, 2016

O AVÔ

Sentou-se o homem, à espera do autocarro das quatro, num dos blocos de cimento que resguardavam a entrada de automóveis a menos de uma dúzia de metros da igreja, e a olhar o espaço à volta começaram a desbobinar-se-lhe as imagens desbotadas pelo tempo, quando na estrada tangente  ao largo acanhado passavam menos automóveis que carros de bois. Agora, atrás de um vinha logo outro lá acima. Sem praga automobilística que ameaçasse quem desse uma salto para a estrada atrás da bola, aquele era um espaço disponível onde, ao fim da tarde, se juntava a miudagem da primária para o jogo com bola de meia. Faziam as equipas, por escolha alternada de quem comparecia, os dois melhores em campo. Os últimos escolhidos, defendiam as balizas definidas com os sapatos, que todos descalçavam por uma questão de princípios democráticos e de poupança do material.  
No espaço agora reduzido a pouco mais de metade, entretinha-se naquela tarde com uma bola de borracha um puto, quatro, cinco anos, fintando adversários que só ele via e rematando contra o muro, mais em jeito do que em força, não fosse a bola ao fazer ricochete escapar-se para a estrada.
Quando a bola veio por capricho ter com ele,  o homem devolveu-a ao pequeno jogador com o pé mais pronto e deteve nele um olhar demorado na tentativa de reconhecer na cara do pequeno  rapaz sinais de alguém do tempo em que o largo era todo deles.
Como te chamas?,
perguntou o homem ao garoto para início de conversa, mas não obteve resposta. O puto continuou entretido com os seus dribles e remates suaves, que interesse tem o meu nome, repara na minha técnica.
E o teu pai, como se chama o teu pai?
Nada, o puto não abria  boca. Esteve tentado  a fazer  um palpite, procurando no rosto do rapaz vestígios dos rostos dos que poderiam ser os dos avós dele, mas conteve-se para não errar, acertando. Tirar alguém pela pinta é arriscado porque há sempre quem não seja filho ou neto de quem lhe disseram que era.
Onde moras?
Respondeu-lhe o jogador com cara de quem não percebeu a pergunta, mas já era, em todo o caso, uma resposta.
Onde é a tua casa?
O puto parou por uns instante a bola debaixo do pé direito, olhou para a casa em frente, do outro lado da estrada, é aquela, disse no atirar brusco da cabeça que já informava o homem de alguma coisa mais.
E a tua mãe, como se chama?
Mas que te interessa a ti, desconhecido, o nome dela ou dele?, repara mas é neste domínio do esférico, respondeu o pequeno jogador com mais dribles e atirar para um golo de levantar um estádio. O homem bateu palmas, em resposta o rapaz redobrou as fintas aos defesas e atirou para o canto inferior da baliza, se atirasse demasiado por cima poderia ficar sem bola, para lá do muro havia um cão a guardar a propriedade vizinha. 
Estava a conversa entre o velho e o jovem neste nem digo nem nego, quando da porta entreaberta da igreja saiu uma mulher, encostando-a atrás de si.
São horas de ir para casa,
avisou a mulher sem que o aviso parasse os dribles e os remates sem defesa possível.
É seu filho?
Filho??? Era bom, era!
Sorriu a mulher entroncada, rosto redondo rosado,  cabelo claro, talvez pintado, comprido, amarrado atrás num carrapito farto, pelos cálculos do homem deve ser mais velha do que aparenta.
Não é mãe, é avó do imparável driblador. É, por assim dizer, a dona da igreja, a igreja está por conta dela ou ela por conta da igreja, não sei se vai dar ao mesmo, o padre, é de São Tomé veja bem, vem, normalmente, para a missa de domingo, cerca das onze, e, depois do vão em paz e que o Senhor vos acompanhe, abala para outra freguesia porque párocos há cada vez menos e paróquias mais ou menos as mesmas. Agora mesmo tinha ela acabado de limpar, arrumar e colocar nos sítios certos os precisos e os paramentos para a missa do galo. Que estava marcada para as dez, a falta de sacerdotes dá nisto, de ter de cantar o galo duas horas antes da meia noite.
A senhora é de cá?
Não senhor, sou russa, mas já cá estou há vinte anos.
Russa ... vinte anos ... não se lhe nota sotaque. Como é que veio cá parar?
Andanças da vida ... que levariam mais que uma noite inteira a contar ... Andei por muito lado aos baldões, compreende?, antes de dar à costa aqui. Em Lisboa juntei-me com um português, que era destes lados, tinha mais vinte anos que eu, faleceu há dois, ... foram os melhores da minha vida ... Com dezassete já tinha uma filha, que é mãe deste maroto ...
E o pai do miúdo é de cá?, perguntou o homem baixando a voz, mas era escusado bichanar porque a concentração requerida nas fintas aos defesas e os remates imparáveis à parede não davam para o puto ouvir, mesmo em tom alto, o que diziam os velhos um ao outro.
O pai dele é de cá, e não é ... Como é que posso explicar isto ... A minha filha é enfermeira, fez agora este mês quarenta e dois, casou e descasou duas vezes antes de emigrar para Inglaterra com um colega, manda notícias de vez em quando e algum dinheiro, e eu cá estou com o neto ... A mim, nunca ela me disse quem era o pai da criança. Insisti vezes sem conta, mas ela amarrou-se a um segredo insondável que não devia ser permitido, as crianças têm o direito de conhecer de quem são filhos, não lhe parece? Dizem para aí que o pai é um fulano de cá, metido em negócios da droga, desaparecido do mapa antes do puto nascer. Quanto a mim, o pai é um médico que trabalhou com ela no hospital, é casado, com filhos, muito conhecido no meio. Aí tem a história a correr rápido da minha vida.
Por instantes, interrompeu-se a conversa entre os velhos, alarmados por ver o jogador correr atrás da bola que se desviara para a estrada em resposta a um remate menos suave contra o muro. E foi nesse relance de corrida que o homem reconheceu, não o do pai, mas o jeito característico de correr do avô do rapaz. Calou consigo a descoberta. Que direito tinha ele de confirmar o que dizia o povo se à avó confortava convencer-se que o neto era filho de médico e não de um traficante de droga?
E o senhor? ... O que é que o faz estar aqui sentado a estas horas a apanhar frio?
Estou à espera da camioneta das quatro ...
Bem pode esperar sentado, porque esta tarde a camioneta não volta a passar ...
Não???
Pois não. No inverno, em vésperas de feriados e fins-de-semana a camioneta das quatro deixou de passar há muito tempo. Não tinha clientela que justificasse o retorno. E hoje é noite de Natal, as pessoas querem estar em casa com a família.
Posso chamar um táxi, não?
Vai para longe?
Ainda vou hoje para Lisboa.
Ui! Conta passar a noite de Natal no comboio?
Se não encontrar hotel por aqui para esta noite.
Hotel, aqui, não encontra mas pode encontrar hospedaria ali em frente. Cama e jantar. Tenho um frango a assar no forno, com batatinhas e cebolinhas. Ah! Temos também uma canjinha do frango para começar a aquecer. Agrada-lhe?  Depois às dez temos a missa do galo. É católico?
Sou crente. Creio que sou ignorante.
Eu era ortodoxa mas ninguém me perguntou por contas quando me propus tomar conta da limpeza e arranjo da igreja. Mas venha daí, vamos para casa, que começa a arrefecer e os anos não perdoam. Edu, vamos para dentro!
Eduardo?
Não, não, é mesmo Edu, só Edu. Não sei onde foi a mãe dele desencantar tal nome.

Avançou a mulher com o neto pela mão para atravessar a estrada, a olhar à esquerda e à direita, o homem,  a olhar a casa de alto a baixo, enquanto atravessava a estrada, sorriu-lhe.
Habitamos no piso de cima, é o único senão da casa, subir e descer escadas sempre que temos de vir cá abaixo. Quando comprámos a casa, comprámos ruínas. Aproveitaram-se as paredes exteriores e pouco mais. Deve ter estado abandonada durante muitos anos, talvez mais de trinta, disse-me um dia a vizinha que vivia do outro lado da rua.
Disse vivia, já não vive?
Ah não... Se ainda fosse viva, pelas minhas contas teria hoje mais de cem anos ... Ora cá estamos nós em cima. É puxado, hem! O frango deve estar pronto, ... as batatinhas ... prove lá esta mas sopre-lhe para não queimar a língua ... está cozida, não está?, bem me parecia. Começamos pela canjinha ... frango da capoeira ... temos uma capoeira ali atrás ... amanhã mostro-lhe. Lá em baixo ...
Lá em baixo foi em tempos uma adega ...
Como é que sabe?
Com uma porta larga deve ter sido porta de adega ...
Ah! É uma suposição?
Neste caso, é uma certeza. Nasci aqui.
Oh céus! Já poderia ter dito há mais tempo ...
Não tive oportunidade. Mas não se perdeu nada com o atraso, ou perdeu?
Não, não, de modo algum. Quando diz que nasceu aqui  quer dizer que nasceu aqui na aldeia, é isso?
Nesta aldeia, nasci aqui ...
Aqui mesmo?
Ali naquele canto, ao lado de onde agora construíram uma casa de banho. Antes, a casa tinha menos profundidade, a casa de banho era lá atrás, no quintal ...
Onde agora tenho as capoeiras?
Presumo que sim. O quintal não era assim tão grande e agora, com o alongamento da casa, é certamente mais pequeno.
Estou, como se diz por aqui, completamente banzada!
Não esteja. A casa é sua, o meu pai vendeu-a tinha eu doze anos, emigrou para França em 64, a minha mãe foi ter com ele dois anos depois levando-nos com ela, a mim, ao meu irmão e à minha irmã. Com algumas economias que juntaram compraram um apartamento na cidade, com melhores condições, vínhamos a Portugal todos os anos em Agosto, e por aqui a visitar os amigos. Depois os anos foram passando, esta casa ficou abandonada às agruras do tempo, um dia destes ainda compramos isto, dizia o Pai, custa-me ver a casa a desfazer-se ... e que fazemos depois? vens para cá? perguntava a Mãe, e o Pai não tinha resposta. Ficámos todos satisfeitos quando um dia, já lá vão muitos anos ...
Vinte?
Talvez vinte, sim, talvez vinte, encontrámos a casa recuperada. Ao meu Pai vieram-lhe as lágrimas aos olhos ... não porque a casa fosse de outrem mas porque alguém lhe tinha dado vida à casa ... ... ...
E o que é que fez vir até cá agora no começo do inverno? Tem casa em França, deduzo ...
Tenho um pequeno apartamento nos arredores de Paris ... Fui motorista de longo curso toda a vida, ainda trabalhei durante uns anos na Citroën, mas do que eu gostava era andar na estrada. Resultado, tive cinco filhos, quase um de dois em dois anos, um dia cheguei a casa tinha a mulher desaparecido para parte incerta ... fartou-se de tantas ausências... percebi ... um homem não deve andar muito tempo fora de casa, não é?
E agora?
Reformei-me, vivo sozinho, reunimos-nos todos os anos pelo Natal. Este ano lembraram-se os filhos de passar o Natal na neve, convidaram-me, insistiram, mas para que iria eu apanhar frio se o Natal para mim só é Natal junto à lareira? A saudade ou o instinto trouxe-me aqui este ano no inverno. Cheguei às dez no comboio, um quarto de hora depois desembarquei aqui. Percorri todos os caminhos da aldeia e quer acreditar que não encontrei ninguém conhecido? Noutros tempos a aldeia era uma alegria, rua abaixo, rua acima, bom dia, boa tarde, para toda a gente. Agora há mais casas arruinadas que com sinais de gente lá dentro.
O que há mais por aqui são velhas ... velhos também há, mas muito menos ... Está bom ou não está bom o franguinho?
Está excelente!
E a pinga?
Uma maravilha... O Edu ... saiu?
Parece-me que se escapou há pouco, talvez tenha ido à casa de banho. Edu! Edu! Edu! Não, na casa de banho não está, onde é que se terá metido o maroto numa casa tão pequena? Edu!!!!!! Vou lá abaixo ao rés-do-chão ...
...
Uf! estava no rés-do-chão, adivinhe a fazer o quê? Pois, é difícil adivinhar. No rés-do-chão temos uma sala ampla com lareira, televisão, essas coisas que não cabiam cá em cima. E um quarto para hóspedes. O Edu ganhou com o avô o gosto de olhar para o lume, passavam horas seguidas à lareira à conversa um com o outro. Ouviu-nos falar, foi colocar madeira na lareira ... de vez em quando apanho cá cada susto com as aventuras dele ...
Mas hoje parece muito calado, não lhe parece?
Quando não conhece as pessoas, é tímido, depois que ganha confiança não se cala. Comigo leva o dia a fazer perguntas, umas em cima das outras, sabe como é?, e depois, e depois, e porquê, e porquê ... agora quer que lhe explique como consegue descer o Pai Natal pela chaminé ... por cá ainda se mantém esse costume.
Edu, diz-me lá o que pediste que te traga  o Pai Natal esta noite? perguntou o homem.
O meu avô de volta..., respondeu sem hesitar o garoto.
Já viu no que estou metida? Como é que  me posso sair desta?  Bom, são quase dez horas, isto fica assim tal como está, arrumamos quando voltarmos ... E passaremos a meia noite à lareira. Depois voltamos para cima porque mesmo com a lareira acesa o quarto de hóspedes não é recomendável no inverno. Faz lá um frio ...

Hombrechtikon, 24 de Dezembro de 2016

Friday, December 25, 2015

FILHOS DE ABRAÃO

Não há, certamente, manifestação mais evidente da estupidez humana que matarem-se os homens uns aos outros em nome do mesmo Deus. O cartoon de Kal, que coloquei anteontem neste caderno de apontamentos, não podia ser mais acutilante do cúmulo dessa estupidez.

Num artigo do El País de ontemLa ola de violencia arruina la temporada de Navidad en Tierra Santa - o jornalista sintoniza a sua reportagem aos prejuízos causados à indústria turística por uma guerra milenária entre crentes fanáticos ou coercivamente fanatizados das religiões abraâmicas, monoteístas. 


Na foto, um palestiniano lança uma pedra com uma funda contra soldados israelitas enquanto três homens vestidos de São Nicolau deambulam em direcções opostas. Há dez anos que não se observava em Jerusalém uma onda de violência como esta que se exacerba há três meses entre judeus e muçulmanos . Mesmo no meio da luta fratricida, que nunca teve fim à vista entre os filhos de Abraão, passeiam-se impassíveis os negócios da estação festiva cristã. 

---
Correl . -

Cristo nació cinco años antes de Cristo, si realmente nació
Turkey´s vote against Christmas
La ola de violencia arruina la temporada de Navidad en Tierra Santa
Diez canciones para celebrar la Navidad más "sexy"

Thursday, December 24, 2015

O COMPROMISSO

24 de Dezembro de 1948



....
....
- Mãe ... ?
- Diz. 
- Falta muito tempo para Ele chegar?
- Falta, falta. Devias ir para a cama.
- A cama está fria, aqui está mais quentinho, não está?
-  Já tens na cama a botija de água quente à tua espera.
- Só mais um bocadito aqui, depois vou.
...
...
- Mãe, não era melhor tirar as linguiças da chaminé?
- Que disparate! Tirar  para quê?
- Para Ele descer... assim ele não desce porque vê a entrada tapada com as linguiças...
- Hum! Passa bem, nunca se atrapalhou com as linguiças, também não se vai atrapalhar esta noite.
- Vai enfarruscar-se todo ...
- Não enfarrusca nada. Está habituado ...
... 
...
- (aaaaaaaaaan!)
- Não páras de abrir a boca com sono. Vai deitar-ve, vai ...
- Não tenho sono nenhum... Mãe, achas que Ele vem?
- Vem, claro que vem. Vem sempre, todos os anos.
- Vou ficar aqui acordado toda a noite, à espera que Ele chegue.
- Ah!, assim não sei se aparece. Ele gosta de fazer surpresa. Quando chega lá acima, espreita se há alguém cá em baixo. Se vê que há gente não deixa  prenda e segue viagem.
- E se a gente se esconde para que Ele não nos veja?
- Não sei. Ninguém arrisca esconder-se. Ele vê tudo.
...
...
- Mãe, ele é pequeno ou grande?
- Ah! não sei, nunca o vi. Ele não se deixa ver.
- Então como é que sabes que ele vem?
- Porque deixa aqui as prendas.
- Só por isso?
- É. Só por isso. Não chega? Vai deitar-te, se não te deitas ele não desce.
...
...
- Mãe, já sei que prenda ele me traz.
- Já sabes? Então o que é?
- É outro borreguinho de barro ... 
- Pode não ser.
- Então o que pode ser?
- Como é que posso saber? Vai deitar-te, e de manhã sabes.
...
...
- Mãe, eu queria que Ele me desse outra coisa...
- Outra coisa? Que coisa?
- Um aeroplano!
- Um aeroplano? Que ideia é essa? Não tens falado noutra coisa nestes dias. Agora os aeroplanos já não servem para nada. Para que queres tu um aeroplano se a guerra acabou?
- No ano passado Ele deu um aeroplano ao Álvaro...
- O pai do Álvaro é rico. 
-  ... E a mim só me deu um borreguinho ...
- E deu-te umas calças... e umas meias ... 
- Quem deu as calças e as meias foste tu.
- Eu? 
- E calças e meias não são prendas ...
- Então o que são?
- São coisas precisas. Não são para brincar.
- Lá isso é verdade. Mas eu acho melhor que te vás deitar. Se não te deitas, nem um borreguinho desce pela chaminé ...
...
...
- Mãe, por que é que Ele já deu um aeroplano ao Álvaro e a mim só me dá  borreguinhos de barro e coisas assim?
- Porque o pai dele é rico, deve ser por isso, não sei.
- Não é justo.
- O que é que não é justo?
- Se o pai do Álvaro é rico, não precisava que Ele lhe desse o aeroplano....
- E então?
- ... dava-me o aeroplano a mim, já que tu não podes comprar.
- Estás a ser invejoso. Não é bonito. Isso só mostra que estás com sono. Vai deitar-te, vai.
...
...
- Mãe, o que é ser invejoso?
- É querer tudo igual ao que os outros têm.
- Mas eu não quero ter tudo, mãe. Só queria ter um aeroplano como o do Álvaro.
- Então tens inveja do Álvaro...
- Não tenho, não. Não me importo que ele tenha um aeroplano. Só gostava de também ter um.
- Oh!!! Também eu gostava de ter muita coisa e não tenho ...
- Então também és invejosa, és?
- Eu??? Coitada de mim ... Nunca invejei nada de ninguém.
- Eu também não...
- Tu??? 
- Eu também não invejo nada de ninguém. Mas gostava mais que ele me desse um aeroplano que um borreguinho. 
- Agora já estás a dizer sempre o mesmo. O que tu tens é sono. Vai deitar-te ...
...
...
- Mãe, já tenho três borreguinhos, o menino Jesus, Nossa Senhora, o São José, a burrinha, ...
- ... o pastor ...
- ... o pastor ... Já tenho tudo, não tenho? Não preciso doutro borreguinho, pois não?
- Não sei. Tu é que não sais dessa do borreguinho ...
- Então talvez este ano receba o aeroplano...
- Não sei. Mas aeroplano não é coisa que apareça no presépio.
- Porquê?
- Ora porquê ... Tens cada uma. Naquele tempo não havia aeroplanos ou havia?
- Mas agora há, não há? 
- Há, há, e tu deves é ir deitar-te ...
...
...
- Mãe,...
- Ora a minha vida !... Esta noite não dormes, não?
- E tu mãe, não vais dormir?
- Vou, e é para já. Ficas aqui?
- Fico mais um bocadito ...
- Isso é que era bom. Vais para a cama e não há mais conversa.
- Mãe, ...
- Já te disse, não há mais conversa. Vamos deitar, vamos ...
- Mãe, eu queria dizer só mais uma coisa ...
- Que coisa?
- Mãe, eu parti o aeroplano do Álvaro ...
- Partiste o quê? Tu partiste o aeroplano do Álvaro???!!! Como é que tu partiste o aeroplano do Álvaro???
- Foi sem querer ...
- Já percebi: ele deu-te o aeroplano para a mão, tu lançaste o aeroplano ao ar, e era uma vez um aeroplano, foi isso?
- Não... Foi diferente ...
- Foi diferente? Como é que foi diferente?
- O Álvaro levava o avião na saca da escola ...
- Hum!!! E depois?
- Depois eu não sabia que ele levava o aeroplano lá dentro ...
- ... E depois?...
- Ele bateu-me e fugiu ...
- E tu foste atrás dele ...
- ...e dei-lhe um chuto na saca ... 
- ... e partiste o aeroplano...
- Foi isso mesmo...
- E agora queres um aeroplano novo para dar ao Álvaro ...
- Pois, porque se não ele diz que o pai dele vai fazer queixa ao meu pai ...
- E se o teu pai sabe ...
- Pois ...
- Bem ...Vamos para a cama e amanhã tratamos disso.
...
...
...
...
- Tu aqui? O que é que fazes aqui?
- Não consigo dormir ... voltei para aqui para esperar por Ele ...
- ... E para quê se ele nem sabe que partiste o aeroplano?  
- Sabe, sabe. Tu disseste que Ele sabe tudo.
- Sabe tudo mas precisa de tempo. Quando é que partiste o aeroplano?
- Foi na outra semana passada ... Ele teve tempo para me comprar o aeroplano, não teve?
- Como é que eu posso saber? Amanhã, se não tiveres o aeroplano, vou falar com o pai do Álvaro...
- Não, não, não ...
- Porque não?
- O pai do Álvaro não sabe e o Álvaro não quer que ele saiba...
- Mas porque é que não há-de saber? Vocês andavam a brincar, tu partiste o aeroplano sem querer ... não foi?
- Foi, mas eu prometi arranjar o aeroplano ... quando Ele descer vou pedir-lhe muito. 
- Enquanto aqui estiveres ele não desce, já te disse.
- Eu fico aqui escondido, só apareço quando Ele cá estiver mesmo em baixo
- És tonto... Ele sabe que estás aqui, escondido ou não dá no mesmo. E enquanto aqui estiveres não desce.
- Eu sei que ele desce ... 
Sabes mais que eu. 
- Pois sei.
- Ainda estou para ver esse milagre ...
- Então espera aqui comigo.
...
...
...
- Mãe, ...
- Han!?
- Ele já desceu ..
- Ele, quê?
- Desceu enquanto tu e eu adormecemos aqui ...
- Estás a sonhar?
- Estive a sonhar e, quando acordei, vi que ele deixou esta caixa ao teu lado!, e nesta caixa, este aeroplano!
- Hum! Parece milagre ...
- Foi só quase um milagre... 
  ... Milagre mesmo era Ele ter deixado dois aeroplanos!!!....
 ... não era?...

Thursday, December 25, 2014

SUAVE MILAGRE*


Xavier jogava ao bingo a feijões, a níqueis ter-se-ia arruinado naquela tarde fria e enfarruscada, a cabeça dele andava longe dali, Xavier anima-te, anima-te Xavier, má sorte ao jogo, mais dia menos dia, a Carmen aparece-te por cá. Conversa fiada que não lhe tirava aquele peso de cima, mais pesado que qualquer outro que alguma vez lhe havia passado pelas costas. Pelas contas dele, Carmen deveria ter aparecido já há três dias. Dera notícias há uma semana, depois tinham-se calado os contactos. Desde então passava as noites em claro, contraía-se-lhe o peito, doía-lhe o corpo todo, alagava-se em suores, escorriam-se-lhe os olhos, Xavier deves andar a chocar uma valente gripe, é o que é, devias comer uns bifes a sério e beber uns copos valentes. Mas não lhe apetecia comer nem beber, ia trabalhar como um autómato, porque tinha de ir, tinha os seus clientes, não podia perder-lhes a confiança ganha ao longo de quase oito anos. No dia anterior tinha escorregado e rebolado de um telhado, por sorte baixo, para uma cama de folhas ajuntada pelo outono. Mais dor menos dor, as dores da queda não o distraíram do tormento maior.

Cerca das nove da noite, aproximou-se do grupo um tipo desconhecido, mas latino-americano das pontas dos cabelos às unhas dos pés, que perguntou com voz pesada: Está por aqui Xavier Gonzalez Sagunto? Todos se calaram, Xavier levantou-se a caminho do desconhecido, Sou eu, Sagunto sou eu.Vem daí, disse o outro, encaminhando-se para a saída do local. Depois sussurrou-lhe: Segue-me, mas não te aproximes. Vamos ter de andar por aí um bocado de tempo, assim.

Xavier seguia o outro saltitando-lhe as ideias, agora ainda mais perturbadas pela estranha frieza do hispânico, entre a esperança de encontrar Carmen e o desespero de a ter perdido em tantos maus encontros que as noites de insónia lhe haviam inventado. Percorreram ruas que Xavier conhecia de olhos fechados, repetiram percursos, adivinhava-se que o estranho pretendia assegurar-se que não era seguido. Depois parou, e chamou Xavier com a mão. Como se chama a tua mulher? Carmen, Carmen Sagunto, respondeu Xavier, perturbado sentindo o coração a sair-lhe da boca. Onde está Carmen? Além,  naquela furgoneta cinzenta. Está com a minha mulher. Ela depois explica-te como tudo aconteceu. Agora temos de pagar duzentas e cinquenta notas de vinte ao rapaz que nos trouxe de lá de baixo, onde os três nos perdemos do grupo, até aqui. A mim, já não me resta nada. Carmen gastou o que lhe sobrava com algumas coisas que comemos pelo caminho. O rapaz está armado? Não, creio que não, mas não trabalha sozinho e seria mau não pagar o que prometemos.

Foram-se as economias amealhadas para se sustentarem aos dois enquanto Carmen não tivesse trabalho, mas Xavier e Carmen estavam juntos após três anos de separação. E era tanta a falta que tinham um do outro que durante dois dias seguidos ninguém viu abrir-se a porta da caravana. Reapareceram ao terceiro dia, passado pouco tempo Carmen estava grávida de um segundo filho. Xavier, especialista em tudo o  que for preciso, canalizador, electricista, pintor, estufador, carpinteiro, pedreiro, electrónica doméstica, andava de ânimo redobrado. Mas Carmen, passados três meses, começou numa choradeira sem fim. Por que choras Carmen? Não era preciso perguntar. Mais ou menos pela altura em que soube estar grávida,  o desespero que carregara consigo desde que deixara Diego, o seu pequenino Dieguito, em Chiloloquo com a avó, instalou-lhe no peito uma mola solta que lhe enchia e despejava incontroladamente as fontes lacrimais.

Xavier e Carmen nasceram em Chiloloquo, ele em 1975, ela em 1984. Casaram na Igreja de Nossa Senhora do Pilar em Março de 2001. Xavier já era pau para toda a obra em Chiloloquo mas quando ninguém tem para fazer outra coisa além de qualquer coisa que apareça, cada qual é electricista, pintor, ferreiro, canalizador, tudo o que for preciso, em sua casa, mas não passa disso, e isso só chega, quando chega, para uma sobrevivencia miserável, e dois anos depois, Xavier decidiu saltar para o outro lado da fronteira. Carmen derreteu-se em lágrimas, Xavier prometeu tê-la com ele  na primavera do ano seguinte. Não teve. Pela primeira carta que recebeu soube que Carmen tinha ficado grávida, Dieguito viria a nascer na primavera, Carmen juntou-se a Xavier três anos depois.

De tanto se debulhar em lágrimas por Dieguito, Carmen perdeu o segundo filho, em gestação, e entrou em modo de autoflagelação e degradação física durante dois anos por um sentimento de pecado que ninguém, nem Deus, lhe perdoaria. Meu Deus! Meu Deus! Eu queria tanto ver Dieguito! Entretanto, tornara-se cada vez mais difícil saltar a fronteira. Dieguito tinha já nove anos, não conhecia o pai, não se lembrava da mãe, a avó era sua mãe e pai, Chiloloquo o mundo todo debaixo do céu, mas não sossegou mais desde o dia em que soube que havia diligências em curso para o levarem para junto dos progenitores.

Aconteceu anteontem.
Durante três dias, tantos quantos passaram desde que souberam que Dieguito tinha passado a fronteira, Xavier contorceu-se, mudo e tenso, com as recordações do desencontro que o fizera desesperar há sete anos pela sorte de Carmen.
Ontem, andaram por aí os três para repararem algumas fugas no sistema de aquecimento de uma casa.
Não completaram o trabalho, por falta de tempo. Voltam amanhã. Hoje é dia de celebrarem o renascimento do seu Dieguito.
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* "Suave Milagre", Eça de Queiroz

Saturday, December 20, 2014

QUANDO O NATAL ACABAR

Em Prince William habita gente de todo o mundo. Segundo o Censo de 2010, de um total de cerca de 454 mil habitantes (serão 500 mil agora): 57.8% são brancos, 20,2% negros ou afro-americanos, 0,6% nativos, 1,5% indianos, 1,2% filipinos, 1,2% coreanos, 0,8% vietnamitas, 0,6% chineses, 0,1% japoneses , 2,1% de outras origens asiáticas, 0,1% de ilhas do Pacífico, 9,1% de outras origens, 5,1% mistos, de duas ou mais origens. Do total, 20,3% eram de origem hispânica ou latina, de várias raças: 6,8% salvadorenhos, 3,7% mexicanos, 1,8% porto-riquenhos, 1,1% guatemaltecos, 1% peruanos, 0,9% hondurenhos, 0,4% bolivianos, 0,4% colombianos, 0,3% nicaraguense, 0,3% dominicanos.

À diversidade demográfica corresponde a diversidade  religiosa, não muito divergente da observada na totalidade dos EUA*. Em Prince William há 57 "elementary schools" (até ao sexto ano de escolaridade), 16 "middle schools" (até ao oitavo ano), 12 "high schools" (até ao décimo segundo ano), e 4 Universidades. O PIB per capita situa-se acima da média do Estado da Virgínia, que, por sua vez se situa na sexta posição do ranking dos estados norte-americanos.

Até há alguns anos atrás, as escolas fechavam durante a quadra natalícia para ´"Férias do Natal".   Mas por que não também férias por ocasião das celebrações de outros credos?, perguntaram outros crédulos e incrédulos. Resultado: As "Férias de Natal" tornaram-se  "Winter Break", e ficaram todos felizes. Em Prince William e todos os outros condados à volta da capital federal do país.


Ocorreu-me este comentário quando há dias li o artigo do Financial Times, que citei aqui, acerca do crescendo radicalismo que está a apodrecer a paz na Europa.

E se o Natal fosse abolido, o que aconteceria à economia?, pergunta provocatória que titula um artigo publicado aqui hoje, também no Financial Times. Provavelmente, não aconteceria nada, segundo o autor do artigo, e explica porquê. O frenesim das compras que se apodera da generalidade das pessoas nesta época do ano não se inspira no espírito natalício e continuaria a progredir bem sem este.
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* c/p aqui

ReligionPrince William, VAUnited States
Percent Religious36.11%48.78%
Catholic14.81%19.43%
LDS0.98%2.03%
Baptist4.35%9.30%
Episcopalian0.02%0.63%
Pentecostal2.65%1.87%
Lutheran1.05%2.33%
Methodist3.25%3.93%
Presbyterian0.85%1.63%
Other Christian3.40%5.51%
Jewish0.05%0.73%
Eastern0.35%0.53%
Islam4.35%0.84%

Monday, December 23, 2013

UM OUTRO CONTO DE NATAL

Miguel, Doralice, Rosa, Rita,
                                                                 
Lembro-me que naquela manhã a Mãe disse:  - Jonas, chegou o Inverno, o regato já canta.
O meu nome é João mas a Mãe sempre me chamou Jonas. Eu tinha, então, quase seis anos.

- Os regatos cantam, Mãe?
- Se os ouves cantar, cantam. Se não, não cantam. Consegues ouvir o regato cantar?
- E também assobiam?
- Alguns assobiam, se os ouvimos assobiar.
- Ouves este assobiar?
- Não. Este, ouço-o cantar. E tu, que ouves?
- Não sei.
 - Então tens de lavar melhor os ouvidos.
 - Ouço-o dizer: já vou, já vou, já vou ...
-  Afinal ouves bem. O rio chama-o e o regato responde.
 - O regato também fala?
-  Fala. Se tu o ouves falar é porque fala. Anda daí.
-  Aonde vamos?


Era domingo, tinha chovido toda a semana, estava menos frio, envolvia-nos uma cortina húmida enquanto subíamos o outeiro  à procura de musgo, barro, pequenas piteiras, que havia naquela dobra da serra a poente da nossa casa. No fim desse dia, a Mãe tinha moldado o cenário do presépio em cima de uma mesa num canto da sala, percebia-se nele sensivelmente o recorte do monte de onde viera o barro, coberto com o musgo, salpicado com meia dúzia de pequenas piteiras, no centro do palco estava uma casa rudimentar que a Mãe contruíra  com folhas de espigas de milho e pedaços de vime apanhados à beira do ribeiro para onde corria o regato.

- Quando é o Natal, Mãe?
- Daqui a três semanas, mais ou menos.
- Agora faltam as figuras.
- Pois faltam.
- Onde estão elas?
- Daqui até ao Natal, chega uma em cada dia, se te portares bem.

Portar-me bem, queria dizer comer para crescer, que era coisa que não me apetecia muito. Logo na manhã do dia seguinte apareceu José no presépio em frente da casa de folhas de espigas de milho. Era uma figurinha de barro, do comprimento do meu indicador, não mais que isso, pintada a azul e branco, salvo as barbas, que eram grisalhas.

 -Por que é que o José foi o primeiro a aparecer?
- Porque era o mais velho da família. Senta-te aí que eu conto-te.
- O quê, Mãe?
- A história do Natal.
- Já conheço essa história.
- Mas eu conto de outra maneira.
- A mesma história?
- As histórias são sempre mais ou menos as mesmas. A diferença está no modo como as contas.
- E são todas verdadeiras?
- Só aquelas em que acreditas que sejam.

Naquele tempo, na nossa casa cozinhavam-se os alimentos no lume da lareira de lenha, que era suficientemente larga para se sentar a mãe de um lado e eu do outro em pequenos bancos de pernas curtas. Antes de nos deitarmos, aproveitávamos o calor das brasas que se extinguiam e a Mãe filosofava . O Pai, porque tinha as pernas compridas, não cabia na lareira, ia para a cama mais cedo.

Este José, disse a Mãe, era carpinteiro, e viveu há muitos anos na Judeia, uma terra muito longe, para aquele lado, de onde o sol se levanta todas as manhãs. José vivia sozinho, sem família, numa casa de madeira que ele construíra na encosta do monte, e de onde o seu olhar abrangia a aldeia toda lá em baixo. Fazia  obras de madeira por encomenda: portas, janelas, cancelas, portões, coisas assim. Chegava um, queria um a porta, ele fazia uma porta, era só escolher a madeira e o feitio. Se outro queria uma janela, José fazia a janela. Como o Manuel Abade? Sim, como esse. À volta da casa tinha uma horta onde cultivava legumes, couves, cenouras, batatas?, não, batatas não havia por lá nessa altura, favas, ervilhas, e alguns cerais, centeio, aveia, também tinha oliveiras, macieiras, pereiras, castanheiros?, castanheiros não tenho a certeza, mas laranjeiras e limoeiros, tinha com certeza. Também tinha parreiras à volta da casa. E tinha galinhas, coelhos e ovelhas, ovelhas tinha pelo menos dez. E um jumento e três cabras. Dava para ele comer e vender. Como era poupado, constava que tinha algum dinheiro, mas essas coisas nunca se sabem ao certo. Porque vivia sozinho e não tinha família também não é possível saber, são segredos pessoais. Um dia, quase ao fim do dia, estava José a aplainar umas tábuas para um portão, que se comprometera entregar daí a três dias, viu iniciarem a subida do caminho que dava para sua casa dois jovens, à primeira vista pareciam dois jovens, um homem e uma mulher, estariam perdidos, pensou José, montados em cavalos soberbos, bem arreados, José nunca tinha visto nada assim. A sua casa só subia gente da aldeia, a pé, pessoas que trabalhavam nos campos, pastores, um ou outro funcionário público, mas nunca a cavalo nem vestidos daquela maneira. José, depois de os observar por alguns momentos, pegou de novo na plaina e recomeçou o trabalho, porque tinha um compromisso a cumprir e não era pessoa que ficasse embasbacada mesmo que, de repente, lhe aparecesse o rei David. Levaram algum tempo os estrangeiros a subir a encosta, José dava conta do seu avanço sempre que levantava um lado da tábua que aplainava para lhe avaliar o alinhamento, piscando o olho esquerdo, e recomeçava a aplainar. - Senhor José, bom dia!-, disse o cavaleiro ao mesmo tempo que desmontava. Assim, de repente, José ficou surpreendido que o cavaleiro soubesse o seu nome mas deduziu logo a seguir que não seria assim descoberta tão difícil uma vez que não haveria ninguém, em cinco léguas ao redor dali, que não soubesse que ele se chamava José e que era mestre carpinteiro.- Bons dias nos dê Deus, respondeu José, logo que a surpresa lhe passou. O que os trás por cá, a este lugar no fim do sol posto? perguntou a seguir, já confiante, pensando numa encomenda de requinte, a carpintaria de um palácio, podia muito bem ser que o procurassem para a carpintaria de um palácio, porque não, talvez até um trabalho de marcenaria fina, coisa que não fazia há algum tempo mas de que não estava esquecido de todo. Pensava nisto José, o pensamento é rápido, enquanto o cavaleiro ajudava a sua companheira a desmontar, coisa que fizeram num ápice e elegância bastante para encantar José. - O meu nome é Gabriel, esta é a minha mulher, disse o jovem, e ambos cumprimentaram José. Não sendo homem dado a grandes cortesias, José era hospitaleiro e convidou o casal a entrar para sua casa. Aí se sentaram à volta da mesa e beberam água, vinham com sede, antes de Gabriel dizer porque estavam ali. 

Continuamos amanhã à mesma hora, disse a Mãe.
E na manhã seguinte, no presépio,  estava Maria.

A mulher de Gabriel chamava-se Maria e esperava um filho dali a uns meses. Gabriel era descendente do rei David, ele mesmo seria rei se o seu reino não estivesse ocupado há muito anos pelos romanos. Ninguém sabia por onde andava Gabriel, mas toda a gente pensava que ou já teria sido preso pelos romanos ou se encontraria escondido nas montanhas. Nem uma coisa nem outra: Gabriel tinha saído do país para organizar a resistência à ocupação romana, e procurava um refúgio seguro para sua mulher. Tendo mandado que lhe indicassem quem poderia receber a jovem, a escolha recaiu sobre José: não tinha mulher nem filhos e vivia num local bem afastado das estradas por onde passavam as tropas ocupantes. Se Gabriel vencesse, viria buscar Maria e o filho, e retribuiria generosamente José; se fosse vencido, José registaria o filho como seu, Gabriel deixaria uma bolsa de moedas, suficiente para garantir a subsistência de todos. José recusou a bolsa mas aceitou a incumbência de proteger mãe e filho. Gabriel não voltou e,  a partir daqui, a minha história não difere daquela que é conhecida: Maria deu a seu filho o nome Jesus, durante cerca de trinta anos Jesus trabalhou com José, seu pai adoptivo. Depois, subitamente, por uma inspiração inexplicável percorreu toda a Judeia pregando o amor entre toda a humanidade. Se fez milagres, não sei. Depende do que se entende por milagre. Se milagre é um acontecimento sem explicação, ainda hoje acontecem muitos mas naqueles tempos aconteciam muitos mais. Mas é, certamente, um milagre que, depois de passados tantos anos, em toda a Terra se celebre o nascimento do filho de Gabriel e Maria. 

Nas manhãs seguintes foi-se completando o presépio, cada dia uma nova figura, salvo o rebanho de dez ovelhas que entrou junto. Na noite de 24 de Dezembro, a Mãe ficou a trabalhar até tarde. Contra o combinado mantive-me acordado muito tempo mas acabei por adormecer. Na manhã de 25, ficou completo o presépio, via-se o menino dentro de casa ao colo de sua mãe, envolto num bonito manto de seda azul claro. José, continuava junto à porta, de sentinela a guardar o tesouro que meses atrás lhe entrara em casa. Na lareira, no sapato que lá deixara à noite, estava uma bola, uma bola grande e linda, de gomos coloridos de carneira, cheia de lã, a bola mais linda que vi na minha vida. 

- Foi Jesus quem deu, Mãe?
- O que é que tu achas?
- Penso que sim.
- Então foi.