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Friday, October 22, 2021

À PROCURA DE AMBROSIA

 Jeff Bezos em busca do elixir da juventude. A nova obsessão de Silicon Valley é viver para sempre 

- cf. aqui

Já construíram foguetões. Agora, os super-ricos estão a gastar milhões para descobrir o segredo da juventude eterna.

Foto: DR
07:00 | Harry de Quetteville /The Telegraph/Atlântico Press

Imortalidade: a que preço? É a grande ironia da condição humana que, enquanto os jovens anseiam por riqueza, os ricos anseiem por juventude. Por isso, se você fosse o homem mais rico do mundo, quanto estaria disposto a gastar para ter a possibilidade de viver para sempre? Aos 57 anos e recentemente reformado do cargo de CEO da Amazon, Jeff Bezos dificilmente estará a jogar xadrez com a morte – mas isso não o impediu de financiar uma nova empresa que pretende vencer o próprio envelhecimento.

Fundado no início deste ano nas colinas de Los Altos, com vista para Silicon Valley, o Altos Labs foi financiado com 270 milhões de dólares de investidores, dos quais uma quantia não divulgada veio, alegadamente, de Bezos. A empresa recrutou várias mentes brilhantes de todo o mundo, arrancando especialistas de laboratórios e universidades de elite, multiplicando instantaneamente os seus salários e libertando-os da burocracia da vida institucional dos comuns mortais. No Altos, têm uma única e simples tarefa – descobrir o elixir da juventude.

Bezos não está sozinho. A outra – grande – preocupação dos fundadores de Silicon Valley quando chega a hora de esbanjarem o seu dinheiro, depois das missões espaciais, é vencer as fronteiras da biotecnologia. Da Amazon à Google, passando pelo Facebook, entre outras, um novo health club para os rapazes multimilionários está em marcha.

Peter Thiel, de 53 anos, co-fundador da PayPal que, enquanto um dos primeiros investidores adquiriu uma posição acionista de 10 por cento no Facebook por 500 mil dólares, já referiu a sua intenção de viver "para sempre". Quando, um dia, lhe perguntaram a sua opinião sobre a morte, deu a famosa resposta: "Sou, basicamente, contra". Thiel investiu na Unity Biotechnology, uma empresa em busca de um remédio contra o processo de envelhecimento celular, conhecido como senescência. Bezos também investiu na Unity quando a empresa angariou 116 milhões de dólares no outono de 2016.

Nessa altura, Larry Page e Sergey Brin, da Google, já tinham anunciado a Calico – ou seja, a California Life Company. À semelhança do Altos, recrutou muita gente e pagou-lhes generosamente, tudo em nome de compreender os processos fundamentais do envelhecimento e de recolher informações para melhorar a longevidade. O que é difícil é ter a certeza de quando as nossas esperanças de vida vão ser alteradas porque, como tanta coisa no mundo da tecnologia, o segredo é valorizado.

Claro que é fácil fazer troças destes homens de meia-idade com dificuldades em lidar com a morte – algo que, por mais milhões que tenham, não conseguem vencer. Silicon Valley até tem um Prémio de Longevidade de 1 milhão de dólares para atrair projetos que "curam o envelhecimento". Estarão eles assim tão errados em querer alcançar algo tão inatingível? Afinal, Bezos acaba de se lançar para o espaço a bordo do seu próprio foguetão – nada mau para um homem que abriu uma livraria online. Com efeito, a fé que os habitantes de Silicon Valley depositam no seu modelo – financiando empreendimentos ousados que desafiam as normas previamente estabelecidas – incentiva ativamente a arrogância. E a saúde humana está numa curva ascendente extraordinária.

A esperança de vida duplicou nos últimos 150 anos, à medida que infeções, vacinas, nutrição e saúde materna melhoraram radicalmente. Os grandes assassinos de hoje – nomeadamente o cancro e a demência – são muito mais difíceis de resolver. Investigadores de todo o mundo especializam-se em tratar estas doenças como problemas individuais. Mas e se as abordássemos de uma forma diferente, dizem os gurus da Costa Ocidental, não como condições compartimentalizadas, mas como sintomas comuns ao envelhecimento? Então, dizem eles, a idade seria a doença a curar.

É verdade que a passagem do tempo aumenta dramaticamente as probabilidades de contrair essas doenças. Não admira que a possibilidade de inverter o relógio seja tão apelativa. E é por isso que é tão importante que o homem que preside ao conselho científico do Altos seja Shinya Yamanaka.

Em 2012, Yamanaka partilhou um Prémio Nobel por ter descoberto que quatro proteínas, atualmente conhecidas como os Factores de Yamanaka, podem induzir as células a regressar a um estado prévio, nem cansado nem especializado pela passagem do tempo, mas novamente jovem e cheio de potencial – como se um contabilista reformado voltasse a ser um adolescente com um blusão de cabedal prestes a decidir que exames de acesso à universidade queria fazer. Quatro anos depois de Yamanaka receber o prémio, não apenas células, mas ratos inteiros foram tratados com os fatores, tornando-se visivelmente mais jovens.

"Há uma corrida pelo rejuvenescimento em curso", comenta Daniel Ives, CEO de uma das principais pioneiras britânicas no negócio da inversão da idade, a Shift Bioscience. A empresa pretende "rejuvenescer células e tratar doenças associadas à idade". Como Ives explica num vídeo do website da empresa, essa é apenas uma das duas principais técnicas que estão a ser exploradas pelos cientistas que desafiam a idade. A outra, vampiricamente, é o sangue. Em tempos idos, isso implicava mesmo ligar o sistema circulatório de dois ratos, um velho e um novo e ver a juventude, literalmente, a fluir para o animal mais velho. Hoje em dia, nas pessoas, o objetivo é refrescar o sangue velho e, com ele, o corpo – Silicon Valley emprega frequentemente "rapazes de sangue" jovens e em boa forma para partilharem o seu produto com os executivos mais velhos – tudo sem a necessidade de dentes afiados.

O rejuvenescimento celular, explica Ives, "pode fazer uma célula passar de 60 anos para 0 [anos] em apenas 17 dias". Por volta dos 15 dias, há um ponto mágico no processo – uma "zona ótima" de rejuvenescimento discernível. Ele fala em "restaurar todas as funções dos órgãos para níveis jovens". Contudo, ir demasiado longe acarreta riscos de desenvolver cancro. "Temos de avançar com cuidado", diz.

Ives prova que, embora possa soar totalmente a disparate californiano, a inversão da idade também tem profundas raízes britânicas. Além da Shift, o Reino Unido é o lar do Babraham Institute, junto a Cambridge, que é líder na área da investigação sobre o envelhecimento. É um dos institutos assaltado pelo Altos. Pensa-se que Wolf Reik, seu antigo diretor e luminária da reprogramação celular esteja agora a caminho da Costa Ocidental – e dos seus fabulosos salários.

Não são apenas os investigadores que pretendem ganhar uma fortuna. Os investimentos dos titãs tecnológicos são exatamente isso. "Quando vemos algo lá ao fundo que parece uma pilha de ouro gigante, devemos correr depressa", disse um empresário da área da biotecnologia ao MIT Tech Review.

Contudo, apesar de todo o falatório, há poucos artigos científicos que documentem o progresso e nenhum sinal de remédios inovadores que possam impedir o envelhecimento das pessoas – em vez dos ratos. Existe outra questão óbvia: não será de mau tom gastar tanto dinheiro em apostas com baixas probabilidades para prolongar a esperança de vida dos super-ricos quando existem tantas invenções baratas, desde água potável a redes de proteção contra mosquitos, que sabemos terem a capacidade de prolongar a esperança de vida dos super-pobres? E não estariam as várias empresas que fogem ao fisco – como a Amazon – a fazer mais pela vida humana contribuindo para essas coisas em primeiro lugar? Alguns líderes tecnológicos parecem ter-se lembrado de que existem crises de saúde atuais que deveriam receber atenção primeiro: o pioneiro do software Larry Ellison, de 77 anos, com uma fortuna superior a 100 mil milhões de dólares, investiu em tempos centenas de milhões em investigação sobre o envelhecimento. Em 2013 pareceu mudar de ideias, atribuindo subsídios a esforços para erradicar a poliomielite.

E os grandes nomes não são imunes a serem apanhados pelo entusiasmo gerado pela tecnologia de gama média. Um dos maiores escândalos de Silicon Valley é a história da Theranos, uma start-up que prometia diagnósticos milagrosos e não cumpriu rigorosamente nada. O seu valor subiu antes de cair completamente por terra. Os lesados incluíram Rupert Murdoch (que investira mais de 100 milhões de dólares) e o próprio Ellison. Entretanto, tendo atingido um valor de 22 dólares por ação há três anos, a Unity, a última aposta desafiadora da idade de Bezos, definha agora nuns meros 3 dólares. O seu fundador e pessoal foram dispensados. No indústria anti-idade, parece que algumas coisas envelhecem depressa.

Harry de Quetteville/The Telegraph/Atlântico Press

Tradução: Érica Cunha Alves

Wednesday, January 23, 2019

ACERCA DO LIVRE-ARBÍTRIO


Porque tomamos certas decisões e não outras? O próprio termo ‘decidir’ é ambíguo, implicando que as ações resultantes são produto de uma faculdade chamada livre-arbítrio, ela própria mal definida. Filósofos e moralistas asseguram que a temos, e a nossa experiência pessoal parece confirmá-lo. No entanto, segundo alguns neurocientistas, entre os quais o autor do presente livro, isso poderá ser uma ilusão. Tantos fatores concorrem para tornar possível uma ação consciente que é legítimo especular se ela não é forçosamente determinada pela biologia, ainda que de momento não conheçamos todo o mecanismo por via do qual isso acontece. - Expresso de 19/1,  aqui 
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A propósito deste tema apontei algumas notas neste caderno de apontamentos. Por exemplo, aqui:
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Só compreendo a idolatria por figuras públicas, frequentemente transitórias, como uma necessidade instintiva, talvez decorrente de  outra imposição dos  genes da espécie, nunca satisfeito com os deuses que fez crescer e multiplicar. 
E, afinal, somos cada um de nós, senhores dos nossos destinos? 
Ortega y Gasset afirmava que, cito de cor, o homem é ele e as suas circunstâncias.
Penso que  o homem é tão só a resultante que enfrenta no mar das circunstâncias em que é lançado no exacto momento em que, de entre muitos milhões de espermatozóides ejaculados, um atinge um óvulo que no período se soltou e ficou por pouco tempo à espera.
Einstein, provavelmente o expoente máximo dos limites atingidos pela inteligência humana nos tempos modernos, fez-se a ele mesmo ou foi apenas a resultante de um acaso primordial que lhe traçou o percurso durante toda a sua vida? O génio fez-se ou aconteceu por mero acaso? 
E o filho dele, o Eduardo, com esquizofrenia revelada aos vinte anos? Fez-se  ou resultou do momento primordial do acaso incontornável de um encontro entre muitos milhões possíveis?
Não, não há génios, há acasos incontornáveis. Escolher no mar das circunstâncias implica optar sendo que a resultado, sempre incerto da opção, é sempre condicionado pela resultante do acaso primordial... - ACERCA DE DEUSES E GÉNIOS

aqui:
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O livre arbítrio é uma armadilha em que cada um pode cair consoante a fórmula dinâmica gerada no instante da concepção e das circunstâncias que defronta uma vez lançado no lago amniótico e depois no mar exterior. O homem, só em parte é um ser racional porque nunca se livra de alguns instintos primitivos comuns a todos os bichos. A alienação parental, por exemplo ... - NA CASA DO LOUVA-A-DEUS

Casualmente, tinha lido há dias em "Uma História de Amor e Trevas" de Amos Oz,: ... 

"Ela (a mãe de Amos Oz) escreveu-me (à sua irmã) aproximadamente o seguinte: que a hereditariedade, tal como o meio ambiente onde crescemos e a classe social, são cartas que nos distribuem às cegas antes do início do jogo. Aí não há liberdade nenhuma: limitamo-nos a receber  o que o mundo nos dá arbitrariamente. Mas, ...., a questão é o que cada um de nós faz das cartas que recebeu? Pois há quem jogue de forma excepcional com cartas não muito boas, e há quem faça precisamente o contrário - esbanjando e perdendo mesmo com cartas maravilhosas! Eis ao que se resume a nossa liberdade: Jogar com as cartas que recebeu. Mas, ..., a forma como jogamos depende, ironicamente, da sorte de cada um, da paciência, da inteligência, da intuição e da audácia, virtudes essas que também dependem das cartas que nos distribuem, sem que nos perguntem nada. E sendo assim, o que é que nos resta da tal liberdade de escolha?
Não muito, ... , talvez apenas a liberdade de rir ou de chorar da nossa situação, de jogar ou não, de tentar compreender as implicações ou de desistir de o fazer, em resumo - temos a possibilidade de escolher entre passar a vida despertos ou apáticos. "

Ou nem isso, penso eu. Quem nasceu para apático pode não chegar a despertar.
Mas que ninguém confunda esta afirmação com determinismo ou fatalidade. A sorte não se deita sempre para o mesmo lado.
Cada sujeito navega do lago amniótico, onde começa por defrontar circunstâncias que não domina,  para o mar das circunstâncias exteriores onde o seu percurso é influenciado por circunstâncias fortuitas e pelas capacidades (pelas cartas) que recebeu, não escolheu, à partida. 

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“Comportamento” vem ocupar um lugar nessa intersecção de ciência e filosofia. O autor,  Robert Sapolsky, é um cientista importante e divulgador de ciência, com uma combinação de especialidades no mínimo original. Além de neurobiólogo, dedica-se ao estudo de babuínos no Quénia. Em particular, interessam-lhe os efeitos do stresse nos babuínos, o que parece ser um tema com grande potencial de extrapolação para os humanos. Sapolsky explica que os babuínos só precisam de trabalhar três horas diárias para ganhar o seu sustento, ficando com grande parte do dia livre para chatear — “conspirar, lutar e difamar” — os outros babuínos.

Os paralelos vão mais longe. “A agressividade deslocada induzida pelo stresse (ou pela frustração) é generalizada em várias espécies”, escreve Sapolsky. “Entre os babuínos, quase metade das agressões é desse tipo: um macho de alto nível hierárquico perde uma briga e persegue um macho subadulto, que prontamente morde uma fêmea, que então investe contra um filhote (...) Quanto mais um babuíno tende a descontar a sua agressividade depois de perder uma briga, menores são os seus níveis de glicocorticoides”.

Ele tem o cuidado de notar que os humanos são especialmente dados a esse tipo de reação, como se vê pelos aumentos de violência familiar em recessões económicas ou após uma derrota desportiva. A tendência humana para agredir os outros como reação à frustração é facilitada pela enorme quantidade de objetos de desejo e de ódio que a nossa sociedade gera. O papel das ideias na criação de miséria humana é explorado em vários capítulos, incluindo um intitulado “Nós Contra Eles”. “Metáforas pelas Quais Matamos” é igualmente sugestivo.

Interessantes como essas partes são, elas constituem apenas uma fração da história. “Comportamento” tem como objetivo pôr em relevo as causas diretas e remotas de uma ação humana, desde aquilo que se passa há um segundo no cérebro — e há segundos ou minutos no ambiente à nossa volta — até evoluções que aconteceram ao longo de séculos, quando a sociedade em que vivemos foi adquirindo as características distintivas. Ou há milénios, quando se produziram mudanças irreversíveis na paisagem da Terra. Ou antes do nascimento.

Cada uma dessas coisas teve efeitos sobre o cérebro. É lá que todos os elementos e momentos da história confluem, e é ele o verdadeiro centro do livro. As revelações são tais que nos levam a questionar que margem de escolha pessoal resta numa ação humana — uma dúvida com implicações, por exemplo, na justiça criminal. Se concluirmos que o livre-arbítrio de facto não existe, como justificar uma pena de prisão? Ignorar o papel da biologia num crime pode ser arbitrário, mas ainda o é mais afirmar que ela elimina a culpa — a razão do castigo enquanto tal, para além do seu efeito dissuasor. A compreensão atual das decisões humanas não atingiu um estado de perfeição que nos consinta dar esse passo.

Para quem tiver nem que seja uma curiosidade residual sobre os assuntos deste livro, um aviso: se começar a ler, arrisca-se a ter de adiar os seus planos para o serão. “Comportamento” explica matérias complexas de uma forma tão clara, segura e sensata, e ao mesmo tempo tão naturalmente coloquial, que consegue tornar agradável aquilo que noutros autores poderia soar obscuro.

No capítulo “De Volta ao Berço, de Volta ao Útero”, bastam duas meias páginas para descrever uma versão do Inferno quando se fala dos orfanatos romenos em 1989. “O que acontece quando tudo dá errado — nenhuma mãe ou família, interação mínima com os pares, negligência emocional e cognitiva e mais um pouco de subnutrição? (...) Como adultos, esses órfãos são em grande parte aquilo que se esperaria: têm baixo Q.I. e habilidades cognitivas deficientes; dificuldades para estabelecer relações, muitas vezes beirando o autismo; ansiedade e depressão em abundância.”

“Há redução do tamanho cerebral total”, continua o texto, “nas substâncias cinzenta e branca, no metabolismo cortical frontal, na conectividade entre as regiões e no tamanho das áreas individuais do cérebro. Exceto pela amígdala, que é aumentada. Isso basicamente diz tudo”. A amígdala é a parte do cérebro mais envolvida no medo e na ansiedade. E também na agressão.