Palavras cruzadas para entreter a viagem.
"Não há questões filosóficas, há questões de linguagem." - Wittgenstein
"Insanity is doing the same thing over and over again, expecting different results" - Albert Einstein
BHL "o intelectual francês que mais anticorpos gera no mundo das letras está perto do desespero perante a escalada dos extremismos, que vê (também) como um falhanço pessoal" ... "Percorre ( ) os perigos de uma segunda presidência de Donald Trump nos Estados Unidos, a guerra em Gaza e na Ucrânia, e a escalada dos populismos na Europa, perante a qual BHL se revela humilde e admite que outros intelectuais como ele falharam ao não conseguir convencer as pessoas que não há soluções nos extremos. A civilização (ocidental), diz, não é mais que uma "fina película" sobre um abismo de ignorância".
Esta entrevista, que considero muito bem conduzida, expõe com suficiente clareza as posições mais polémicas de BHL com as quais muitos concordam e, talvez, outros tantos discordam, mas, parece-me inquestionável que, passadas apenas oito décadas após o fim da Segunda Grande Guerra, a grande maioria dos povos de cultura ocidental, que não viveu em sociedades oprimidas pelos extremismos que vingaram entre os dois maiores conflitos mundiais, só dará pela falta dos valores democráticos quando a democracia for derrubada e os extremismos impuserem as suas regras autocráticas.
Só então, perdido o que antes tinha considerado como adquirido, a democracia renascerá movida pela vontade inabalável da espécie humana de assumir a sua condição de ser racional, não necessariamente obediente ao diktat de qualquer ditador e seus sequazes.
Entre a ignorância daqueles que não viveram a ausência da liberdade de expressão do pensamento e as consequências dessa ausência de vivência, há (resume BHL) uma "fina película" que designamos como civilização ocidental ameaçada de ruptura pelos extremismos outra vez em ascensão.
E, aqueles, incluindo-se BHL, que, pela sua condição intelectual ou outra, deveriam evidenciar que não há soluções nos extremismos dignas da condição humana, falharam ou estão em vias de falhar, assistindo impotentes à caminhada do Ocidente para uma reposição da hecatombe sofrida no século passado, desta vez em versão provavelmente muito mais devastadora. Até que ponto? Ninguém saberá.
Escrevo isto e recordo alguém dizer, invocando, se bem me recordo, a sabedoria chinesa, que "se não podes vencer os teus inimigos junta-te a eles".
Haverá listas de inscrição ou emblemas para colocar na lapela que identifiquem, claramente, quem se passa para o outro lado, não vá o inimigo, sem querer, eliminar quem, por amor à vida, acaba com a cabeça cortada?
Como se numa realidade paralela, que é a
do digital, fala-se de uma nova arte, a criptoarte, mas, a julgar pelas
obras, o escândalo é mais económico do que estético.
José Marmeleira
Obra "#444 - The Fork" do artista português Rodolfo Oliveira
Uma nova arte ou (apenas) mais um modo de mostrar, circular e vender
produtos? A pergunta é pertinente no lastro da notícia que chegou da
Internet e da Christie's. A casa leiloeira britânica vendeu uma obra digital intitulada Everydays — The First 5000 Days, uma colagem de imagens que o artista americano Beeple (Mike Winkelmann) colocou online
desde 2007. Um comprador conhecido como Metakovan, arrecadou o trabalho
por 69,3 milhões de dólares, mas a compra não se realizou com a moeda
oficial dos EUA. O que possibilitou a transacção foi uma criptomoeda
conhecida como ether.
Em poucas horas, o acontecimento estava transformado em notícia: a venda ultrapassara os recordes anteriores da Christie’s (Jeff Koons e David Hockney), mas a obra em causa, Everydays — The First 5000 Days não era uma pintura ou uma escultura, antes um arquivo de imagem, um .jpg. Em
termos visuais, nada tinha de singular ou disruptivo: tratava-se,
simplesmente, de uma imagem digital composta de várias imagens digitais,
passível de ser reproduzida e distribuída. Mas aquela venda foi
descrita, pela leiloeira e pelo artista, como um objecto não fungível,
no original, em inglês, um non-fungible token (NFT), isto é, uma coisa não trocável, único.
“Somos muito pequenos e, ao mesmo tempo, se olhar para os destinos
dos países europeus que são mais ou menos da nossa dimensão, é uma
espécie de milagre quase absoluto como este cantinho se conseguiu
preservar.”
Porque tomamos certas decisões e não outras? O próprio
termo ‘decidir’ é ambíguo, implicando que as ações resultantes são produto de
uma faculdade chamada livre-arbítrio, ela própria mal definida. Filósofos e
moralistas asseguram que a temos, e a nossa experiência pessoal parece
confirmá-lo. No entanto, segundo alguns neurocientistas, entre os quais o autor
do presente livro, isso poderá ser uma ilusão. Tantos fatores concorrem para
tornar possível uma ação consciente que é legítimo especular se ela não é forçosamente
determinada pela biologia, ainda que de momento não conheçamos todo o mecanismo
por via do qual isso acontece. - Expresso de 19/1, aqui
--- A propósito deste tema apontei algumas notas neste caderno de apontamentos. Por exemplo, aqui: ...
Só compreendo a idolatria por figuras públicas,
frequentemente transitórias, como uma necessidade instintiva, talvez decorrente de outra
imposição dos genes da espécie, nunca satisfeito com os deuses que fez
crescer e multiplicar.
E, afinal, somos cada um de nós, senhores dos nossos
destinos?
Ortega y Gasset afirmava que, cito de cor, o homem é ele
e as suas circunstâncias.
Penso que o homem é tão só a resultante que
enfrenta no mar das circunstâncias em que é lançado no exacto momento em que,
de entre muitos milhões de espermatozóides ejaculados, um atinge um óvulo que
no período se soltou e ficou por pouco tempo à espera.
Einstein, provavelmente o expoente máximo dos limites
atingidos pela inteligência humana nos tempos modernos, fez-se a ele mesmo ou
foi apenas a resultante de um acaso primordial que lhe traçou o percurso
durante toda a sua vida? O génio fez-se ou aconteceu por mero acaso?
E o filho dele, o Eduardo, com esquizofrenia revelada aos
vinte anos? Fez-se ou resultou do momento primordial do acaso
incontornável de um encontro entre muitos milhões possíveis?
Não, não há génios, há acasos incontornáveis. Escolher no
mar das circunstâncias implica optar sendo que a resultado, sempre incerto da
opção, é sempre condicionado pela resultante do acaso primordial... - ACERCA DE DEUSES E GÉNIOS E aqui:
...
O livre arbítrio é uma armadilha em que
cada um pode cair consoante a fórmula dinâmica gerada no instante da concepção
e das circunstâncias que defronta uma vez lançado no lago amniótico e depois no
mar exterior. O homem, só em parte é um ser racional porque nunca se livra de
alguns instintos primitivos comuns a todos os bichos. A alienação parental, por
exemplo ... - NA CASA DO LOUVA-A-DEUS Casualmente, tinha lido há dias em "Uma História de Amor e Trevas" de Amos Oz,: ... "Ela (a mãe de Amos Oz) escreveu-me (à sua irmã) aproximadamente o seguinte: que a hereditariedade, tal como o meio ambiente onde crescemos e a classe social, são cartas que nos distribuem às cegas antes do início do jogo. Aí não há liberdade nenhuma: limitamo-nos a receber o que o mundo nos dá arbitrariamente. Mas, ...., a questão é o que cada um de nós faz das cartas que recebeu? Pois há quem jogue de forma excepcional com cartas não muito boas, e há quem faça precisamente o contrário - esbanjando e perdendo mesmo com cartas maravilhosas! Eis ao que se resume a nossa liberdade: Jogar com as cartas que recebeu. Mas, ..., a forma como jogamosdepende, ironicamente, da sorte de cada um, da paciência, da inteligência, da intuição e da audácia, virtudes essas que também dependem das cartas que nos distribuem, sem que nos perguntem nada. E sendo assim, o que é que nos resta da tal liberdade de escolha? Não muito, ... , talvez apenas a liberdade de rir ou de chorar da nossa situação, de jogar ou não, de tentar compreender as implicações ou de desistir de o fazer, em resumo - temos a possibilidade de escolher entre passar a vida despertos ou apáticos. " Ou nem isso, penso eu. Quem nasceu para apático pode não chegar a despertar. Mas que ninguém confunda esta afirmação com determinismo ou fatalidade. A sorte não se deita sempre para o mesmo lado. Cada sujeito navega do lago amniótico, onde começa por defrontar circunstâncias que não domina, para o mar das circunstâncias exteriores onde o seu percurso é influenciado por circunstâncias fortuitas e pelas capacidades (pelas cartas) que recebeu, não escolheu, à partida. ---
“Comportamento” vem ocupar um lugar nessa intersecção de ciência e filosofia. O autor, Robert Sapolsky, é um cientista importante e divulgador de ciência, com uma combinação de especialidades no mínimo original. Além de neurobiólogo, dedica-se ao estudo de babuínos no Quénia. Em particular, interessam-lhe os efeitos do stresse nos babuínos, o que parece ser um tema com grande potencial de extrapolação para os humanos. Sapolsky explica que os babuínos só precisam de trabalhar três horas diárias para ganhar o seu sustento, ficando com grande parte do dia livre para chatear — “conspirar, lutar e difamar” — os outros babuínos.
Os paralelos vão mais longe. “A agressividade deslocada induzida pelo stresse (ou pela frustração) é generalizada em várias espécies”, escreve Sapolsky. “Entre os babuínos, quase metade das agressões é desse tipo: um macho de alto nível hierárquico perde uma briga e persegue um macho subadulto, que prontamente morde uma fêmea, que então investe contra um filhote (...) Quanto mais um babuíno tende a descontar a sua agressividade depois de perder uma briga, menores são os seus níveis de glicocorticoides”.
Ele tem o cuidado de notar que os humanos são especialmente dados a esse tipo de reação, como se vê pelos aumentos de violência familiar em recessões económicas ou após uma derrota desportiva. A tendência humana para agredir os outros como reação à frustração é facilitada pela enorme quantidade de objetos de desejo e de ódio que a nossa sociedade gera. O papel das ideias na criação de miséria humana é explorado em vários capítulos, incluindo um intitulado “Nós Contra Eles”. “Metáforas pelas Quais Matamos” é igualmente sugestivo.
Interessantes como essas partes são, elas constituem apenas uma fração da história. “Comportamento” tem como objetivo pôr em relevo as causas diretas e remotas de uma ação humana, desde aquilo que se passa há um segundo no cérebro — e há segundos ou minutos no ambiente à nossa volta — até evoluções que aconteceram ao longo de séculos, quando a sociedade em que vivemos foi adquirindo as características distintivas. Ou há milénios, quando se produziram mudanças irreversíveis na paisagem da Terra. Ou antes do nascimento.
Cada uma dessas coisas teve efeitos sobre o cérebro. É lá que todos os elementos e momentos da história confluem, e é ele o verdadeiro centro do livro. As revelações são tais que nos levam a questionar que margem de escolha pessoal resta numa ação humana — uma dúvida com implicações, por exemplo, na justiça criminal. Se concluirmos que o livre-arbítrio de facto não existe, como justificar uma pena de prisão? Ignorar o papel da biologia num crime pode ser arbitrário, mas ainda o é mais afirmar que ela elimina a culpa — a razão do castigo enquanto tal, para além do seu efeito dissuasor. A compreensão atual das decisões humanas não atingiu um estado de perfeição que nos consinta dar esse passo.
Para quem tiver nem que seja uma curiosidade residual sobre os assuntos deste livro, um aviso: se começar a ler, arrisca-se a ter de adiar os seus planos para o serão. “Comportamento” explica matérias complexas de uma forma tão clara, segura e sensata, e ao mesmo tempo tão naturalmente coloquial, que consegue tornar agradável aquilo que noutros autores poderia soar obscuro.
No capítulo “De Volta ao Berço, de Volta ao Útero”, bastam duas meias páginas para descrever uma versão do Inferno quando se fala dos orfanatos romenos em 1989. “O que acontece quando tudo dá errado — nenhuma mãe ou família, interação mínima com os pares, negligência emocional e cognitiva e mais um pouco de subnutrição? (...) Como adultos, esses órfãos são em grande parte aquilo que se esperaria: têm baixo Q.I. e habilidades cognitivas deficientes; dificuldades para estabelecer relações, muitas vezes beirando o autismo; ansiedade e depressão em abundância.” “Há redução do tamanho cerebral total”, continua o texto, “nas substâncias cinzenta e branca, no metabolismo cortical frontal, na conectividade entre as regiões e no tamanho das áreas individuais do cérebro. Exceto pela amígdala, que é aumentada. Isso basicamente diz tudo”. A amígdala é a parte do cérebro mais envolvida no medo e na ansiedade. E também na agressão.
Ontem, foi tornada pública correspondência mantida, ao longo de três décadas, entre o Papa João Paulo II e a filosofa norte-americana Anna Teresa Tymieniecka, nascida na Polónia de uma família aristocrata franco-polaca. Os noticiários televisivos transmitiram excertos dessa correspondência, regalando, certamente, o voyeurismo que habita, com mais ou menos intensidade, em cada indivíduo psicologicamente imaturo.
Mas o acontecimento, contudo, pode suscitar reflexões que exorbitam da esfera da curiosidade mórbida porque situa-se no plano da interrogação que as relações contraditórias de Wojtyla com as mulheres caracterizadas por um comportamento desinibido demonstrado em muitas situações e circunstâncias e uma posição rigidamente conservadora que nunca reconheceu nem ensaiou qualquer convergência para a igualdade entre sexos na mediação religiosa.
Para outros, Koons é um génio e uma das sua obras, Balloon Dog (orange), atingiu em Novembro do ano passado mais de 58 milhões de dólares, num leilão da Christie´s, um record para uma artista vivo.
O Centro Pompidou acolhe agora uma retrospectiva deste artista norte-americano, nascido em 1955.
O crítico de arte do Financial Times esteve lá, e não gostou. Considera a exposição absurda e repulsiva até. Explica aqui porquê.
Merece uma leitura. Não porque dela se apreenda qualquer reflexão filosófica sobre a total disparidade de opiniões que a arte contemporânea suscita entre os especialistas na matéria mas porque realça a mistificação em que sempre se embrulhou a condição humana e que anda de braço dado com a mitificação, que é uma forma de religiosidade, dos ícones e dos ídolos que a mistificção talhou.
Nas artes plásticas como em todas as artes e artistas em geral.
Um estudo recente (divulgado há uma hora atrás no Economist) descobriu que a actividade cerebral dos matemáticos quando olham para equações é motivada na mesma área emocional do cérebro e tão intensa quanto a que estudos anteriores tinham reportado durante experiências de contemplação de beleza em outros domínios. Dito de outro modo, as fórmulas emocionam no mesmo sentido que as artes visuais e a música. - vd. aqui. Ainda segundo o mesmo estudo nem todas as fórmulas são susceptíveis de entusiasmar a mente com igual intensidade. Talvez porque o assunto ainda esteja mal aprofundado.
Pessoa, o assombroso Pessoa, já lá chegou há uns 84 anos atrás.
--- Dedicado a Catarina F., que amanhã defende tese de doutoramento na área de neurologia pela Universidade de Lisboa.
Decorrem as acções de um e outro espectáculo em períodos diferentes da vida de Arendt - o filme em 1961, e as crónicas que escreveu a propósito do julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém após a sua captura na Argentina, onde se refugiara; a peça de teatro reporta-se à época da relação amorosa de Arendt com o filósofo Heidegger entre 1924 e 1928.
Apesar das distâncias temporais é muito evidente que a tese fulcral da banalidade do mal, a que dedicou grande parte da sua construção filosófica, e que lhe fundamentou a justificação do comportamento de Eichmann enquanto corresponsável pelo extermínio de milhões de judeus, se sustenta nos princípios filosóficos bebidos durante a relação com o seu amante e mentor nos anos da juventude.
Linearmente, para Hanna Arendt, o julgamento de Eichmann foi um erro porque alvejou um indivíduo, que não era mais que uma peça inconsciente de um sistema demoníaco, e ao enforcá-lo não enforcou o sistema que ele, por imposição das funções que desempenhava, serviu esmeradamente. Se esta perspectiva bondosa de Arendt já tinha, só por si, um efeito detonador da ira dos judeus que sobreviveram ao holocausto, a responsabilização que ela carregou sobre alguns líderes judeus, mais disponíveis para a aceitação que para a resistência, por um tão elevado número de vítimas do nazismo, ostracizou-a para toda a vida.
Que culpa tem o indivíduo que não é mais que um elo numa cadeia do mal? Eichmann, argumentava Arendt, não pensava, e a prova que não pensava é que agiu como agiu. Quantas vezes não ouvimos, entre nós, a propósito de crimes incomparavelmente menores, o mesmo argumento invocado por criminosos deixados à solta? Pelos crimes perpetrados no BPN apenas Oliveira e Costa, que aliás ainda nem foi julgado, é responsável?
" ...gostos e sensibilidades não se discutem..." (aqui)
É a única afirmação neste seu apontamento de que discordo. Por que razão não se devem (ou não podem) discutir os gostos? Porque um aforismo do tempo do outro senhor manda? Se assim fosse a estética nunca teria sido, talvez, o mais polémico ramo filosófico e a arte nunca teria passado de um nado morto.
Estivemos há dias no Museu dos Coches com parte da nossa gente mais nova e, vendo o interesse deles, recordei-me da primeira vez que lá estive, tinha, então, a idade deles agora.
O espaço é acanhado para tamanho acervo? Admitamos que sim. Mas os coches estão num ambiente do tempo da idade deles. Tirá-los de lá é tirar-lhes metade da alma. O antigo Picadeiro Real é a sua casa adoptiva e, como qualquer pessoa de idade, sinto-os a recusarem-se a habitar um espaço que de todo em todo lhes é estranho.
Fico, portanto, satisfeito que a falta de dinheiro evite uma tropelia ao aconchego das nobres carruagens. Aliás, assim como o excesso de crédito nos condenou a esta badalada vil tristeza também a falta de recursos obrigará a refrear a sofreguidão de alguns pelo lucro fácil.
E só essa sofreguidão, do meu ponto de vista, justifica aquele excesso de cimento que, pior do que os 35 milhões que lá foram enterrados, obrigará, quando abrir as portas, a custos que, ao fim de uma dúzia de anos, se tanto, terão consumido o equivalente ao investimento na bisarma.
Razão de tudo isto: A conivência perversa entre os políticos, que se sustentam dos votos, dos construtores civis e atividades correlativas que lhes fazem as obras com que enchem os bolsos e compram os votos dos papalvos.
No fim de tudo isto, o que mais custa, não é o que já custou, é o que vai custar no futuro se continuarem a faltar mecanismos legais que evitem a continuação do desaforo.
Que continua. Estamos, precisamente agora, em plena época de caça ao voto com chumbo a crédito.
"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
"Os filósofos foram sempre inúteis em relação às coisas da vida, como por exemplo Sócrates, o único sábio proclamado pelo oráculo de Apolo. Querendo defender-se em público de não sei que acusação, teve que desistir perante o riso de todos. Só manifestou bom senso quando recusou o cognome de sábio que reservou para Deus, e quando aconselhou aos sapientes que se abstivessem de tratar da República. Melhor teria feito se aconselhasse a serem temperados na sapiência todos os que quisessem pertencer ao número dos homens. Qua acusação o levou a beber a cicuta senão a sapiência? Enquanto filosofava nas nuvens e nas ideias, enquanto mensurava as patas das pulgas e admirava o zumbido do moscardo, não prestava atenção às coisas da vida comum...
...Quem é que celebrará ainda a famosa sentença de Platão: "Felizes as repúblicas em que imperem os filósofos e em que filosofem os imperadores". Se consultardes a História, vereis que não houve piores príncipes para as repúblicas do que os se ocuparam da filosofia e da literatura... " - Erasmo/Elogio da Loucura