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Wednesday, November 01, 2023

MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA - MAC/CCB

Estivemos lá ontem. 
 
Tínhamos visitado aquele espaço algumas vezes; agora, que tinham passado alguns anos e as notícias prometiam, voltámos.
Voltámos e saímos desiludidos, não porque tivéssemos colocado demasiado alto as expectativas mas porque, à parte as obras da colecção Berardo (em depósito no MAC/CCB, sem que, supomos, se saiba ainda em que condições), que já conhecíamos, e da Ellipse, de que já conhecíamos alguma parte, a colecção de Teixeira de Freitas não nos pareceu merecer tanto metro quadrado de exposição; 
As obras de Berlinde de Bruyckere, que ocupam muito mais metros quadrados, e merecem lugar de destaque à entrada, com um objecto que, a mim, me sugeriu o porco morto, desviscerado, pendurado de um gancho, a escorrer, a receber os visitantes.
Para quem, como eu, assistiu, enquanto jovem, a várias anuais matanças do porco, aquilo que Berlinde moldou, se não se inspirou num porco morto a escorrer, terá andado por perto.
"Se queres conhecer o teu corpo mata o teu porco"  

O que Berlinde de Bruyckere nos propõe é o confronto com a arte do horrendo, o que, considerando que ontem, dia da nossa visita, era "Dia das Bruxas", fomos no dia certo.
Mas, certamente, haverá quem goste. 

Merecem destaque neste caderno de apontamentos

Logo à entrada para o Museu, pela ironia que transbordam e os efeitos de multiplicação das imagens colocadas entre dois espelhos, mas também pela singeleza dos materiais utilizados (madeira, sobretudo), duas esculturas (do diabo e do anjo) de  Stephan Balkenhol
Ocasionalmente, tínhamos visto há dias, em Berlim, esculturas deste artista, em espaços públicos.

 

 Gerhard Richter - Abstraktes Bild , 1987

A foto não pode dar a ideia da  grande dimensão desta pintura de óleo sobre tela, de 1987. Que incluo apenas porque sobre o mesmo artista coloquei comentário aqui em outubro de 2012, e aqui em abril de 2015.


Thursday, September 28, 2023

UM NOVO PILAR PARA A SEGURANÇA SOCIAL

A Segurança Social, garantem os pessimistas, tem o futuro ameaçado. 
Tem carência de pilares, garantem os liberais. Falta-lhe a constituição do pilar por conta própria, retirando ao Estado o monopólio da segurança social colectiva. 
E todos parecem ignorar que, com muita evidência pública, milhões de portugueses há largos anos  se encostam ao pilar dos jogos de azar sem receio dos tombos que a sorte dá.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa anda há anos sem conta a fazer com que a sorte acerte em alguns multimilionários à custa de milhões que não sabem fazer contas, convencidos que a sorte um dia acerte neles. 
Segundo as notícias, que só ignora quem quer ignorar, os alvos e as vítimas da raspadinha e de outros jogos de azar são, na esmagadora maioria dos casos, pessoas idosas e fracos, se alguns, rendimentos. 
O vício do jogo que promete fazer de cada jogador um multimilionário, se a tômbola é larga, ou um felizardo por um dia, se for estreita, provoca rupturas sociais que, recentemente, foram abordadas nos meios formais de comunicação social.
Que fazer para que a raspadinha não seja, em muitos casos, um vírus multiplicador de miséria material ou mental?
 
Sabia-se há já muito tempo que o governador da Santa Casa se tinha metido em novas aventuras de azar e perdido, por conta da Casa, uns largos milhões. Saiu o desgovernador e entrou, na expectativa de endireitar o desgoverno, a ex-ministra da Saúde, médica, Ana Jorge.

Ontem soube-se,
A provedora da Santa Casa revelou que a autorização inicial para o investimento no projecto da internacionalização era de apenas cinco milhões de euros e foram gastos 27 milhões."
 
Hoje soube-se,
É mais um jogo a ser lançado, desta vez destinado a um público-alvo mais jovem. O prémio não é imediato e vai resultar em pagamentos mensais, de acordo com o conceito conhecido por Win for Life.

Haverá neste novo jogo o propósito de incentivar os mais novos a começarem desde cedo a construir o seu próprio pilar de segurança social, um maná sem riscos, inesperadamente, caído da Santa Casa?

Tuesday, July 04, 2023

E O OCIDENTE CONTINUA À VENDA

                                              "Lady with a Fan," oil on canvas by Gustav Klimt.
  

At over $108 million, Klimt's "Lady with a Fan" becomes most expensive painting ever sold in Europe

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Quem comprou? Um coleccionador de Hong Kong.

Quem comprou Salvator Mundi, supostamente de Leonardo da Vinci? - Mohammad bin Salman, Príncipe herdeiro da Arábia Saudita, o mesmo que em setembro de 2015, comprou o Castelo Luís XIV, a propriedade privada mais cara do mundo, perto de Paris, por 275 milhões de euros. O castelo foi construído em 2011 e batizado com o nome do monarca que reinou em França nos séculos XVII e XVIII.  Em junho de 2019, um relatório da ONU sustentou existirem “indícios credíveis” de que Mohammed bin Salman e outros altos responsáveis do reino saudita estiveram envolvidos no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, crítico do regime.[




Wednesday, September 14, 2022

O MUNDO É MONÁRQUICO

O mundo é monárquico?

Aparentemente, pelo menos, o fascínio da espécie humana pela monarquia é geral e tem milénios, ainda que muitos se digam republicanos de sete costados.

As andanças do corpo de Isabel II  (Elisabeth, no original) desde o local onde faleceu no seu castelo de Balmoral, na Escócia, no dia 8 deste mês até à abadia de Westminster de onde sairá o funeral para a capela de São Jorge no seu Castelo de Windsor no dia 19, são um espectáculo admirado por milhões de pessoas, presencialmente no Reino Unido, pela televisão por centenas de canais televisivos.

O que fez Isabel II de notável para ser tão adorada ou, pelo menos, tão admirada?

Pelo que fez, segundo a pretensa original opinião, aqui, de um crónico cronista, do Público, Isabel II é digna de pena.

"Faz pena uma mulher que perdeu uma vida inteira a agradar aos outros. Faz pena uma mulher que nasceu com tantas maneiras de passar agradavelmente a vida — com amor, terras, família, tempo, dinheiro e sentido de humor — ter passado tanto tempo em cerimónias públicas, a aturar pessoas das quais qualquer pessoa fugiria se pudesse." 

Esqueceu-se, ou desconhece, o cronista que Isabel II foi hábil gestora financeira : The sovereign’s wealth: UK royal family’s finances – explained. Entre aturar terceiros e os dissabores da sua prole, sua majestade também se divertiu a aumentar uma enormíssima herança, que ninguém saberá calcular. 

Faz pena.


Tuesday, May 10, 2022

195 MILHÕES DE DÓLARES POR UMA SERIGRAFIA

 
Contínuos sinais de progressiva concentração na acumulação de riqueza e de continuada progressão da dispersão da desigualdade social


Foi batido um recorde esta segunda-feira no mercado da arte norte-americana. A icónica Marylin Monroe, de Andy Warhol, a serigrafia de 1964, foi vendida em leilão por um preço ligeiramente acima de 195 milhões de dólares (184,47 milhões de euros à taxa de câmbio atual), o valor mais alto de sempre para uma obra de um artista dos Estados Unidos em leilão.

A Christie's, responsável pela venda, esperava que a serigrafia - intitulada "Shot Sage Blue Marilyn" - arrecadasse até 400 milhões de dólares. Ainda assim, o valor acordado coloca-a no segundo lugar do pódio, em termos globais, apenas atrás de "Salvator Mundi", de Leonardo da Vinci, que arrecadou mais de 450 milhões de dólares em 2017. Por outro lado, destronou os 110,5 milhões, pagos também em 2017, por uma pintura de caveira do norte-americano Jean-Michel Basquiat. - c/p aqui 

 

Friday, October 22, 2021

À PROCURA DE AMBROSIA

 Jeff Bezos em busca do elixir da juventude. A nova obsessão de Silicon Valley é viver para sempre 

- cf. aqui

Já construíram foguetões. Agora, os super-ricos estão a gastar milhões para descobrir o segredo da juventude eterna.

Foto: DR
07:00 | Harry de Quetteville /The Telegraph/Atlântico Press

Imortalidade: a que preço? É a grande ironia da condição humana que, enquanto os jovens anseiam por riqueza, os ricos anseiem por juventude. Por isso, se você fosse o homem mais rico do mundo, quanto estaria disposto a gastar para ter a possibilidade de viver para sempre? Aos 57 anos e recentemente reformado do cargo de CEO da Amazon, Jeff Bezos dificilmente estará a jogar xadrez com a morte – mas isso não o impediu de financiar uma nova empresa que pretende vencer o próprio envelhecimento.

Fundado no início deste ano nas colinas de Los Altos, com vista para Silicon Valley, o Altos Labs foi financiado com 270 milhões de dólares de investidores, dos quais uma quantia não divulgada veio, alegadamente, de Bezos. A empresa recrutou várias mentes brilhantes de todo o mundo, arrancando especialistas de laboratórios e universidades de elite, multiplicando instantaneamente os seus salários e libertando-os da burocracia da vida institucional dos comuns mortais. No Altos, têm uma única e simples tarefa – descobrir o elixir da juventude.

Bezos não está sozinho. A outra – grande – preocupação dos fundadores de Silicon Valley quando chega a hora de esbanjarem o seu dinheiro, depois das missões espaciais, é vencer as fronteiras da biotecnologia. Da Amazon à Google, passando pelo Facebook, entre outras, um novo health club para os rapazes multimilionários está em marcha.

Peter Thiel, de 53 anos, co-fundador da PayPal que, enquanto um dos primeiros investidores adquiriu uma posição acionista de 10 por cento no Facebook por 500 mil dólares, já referiu a sua intenção de viver "para sempre". Quando, um dia, lhe perguntaram a sua opinião sobre a morte, deu a famosa resposta: "Sou, basicamente, contra". Thiel investiu na Unity Biotechnology, uma empresa em busca de um remédio contra o processo de envelhecimento celular, conhecido como senescência. Bezos também investiu na Unity quando a empresa angariou 116 milhões de dólares no outono de 2016.

Nessa altura, Larry Page e Sergey Brin, da Google, já tinham anunciado a Calico – ou seja, a California Life Company. À semelhança do Altos, recrutou muita gente e pagou-lhes generosamente, tudo em nome de compreender os processos fundamentais do envelhecimento e de recolher informações para melhorar a longevidade. O que é difícil é ter a certeza de quando as nossas esperanças de vida vão ser alteradas porque, como tanta coisa no mundo da tecnologia, o segredo é valorizado.

Claro que é fácil fazer troças destes homens de meia-idade com dificuldades em lidar com a morte – algo que, por mais milhões que tenham, não conseguem vencer. Silicon Valley até tem um Prémio de Longevidade de 1 milhão de dólares para atrair projetos que "curam o envelhecimento". Estarão eles assim tão errados em querer alcançar algo tão inatingível? Afinal, Bezos acaba de se lançar para o espaço a bordo do seu próprio foguetão – nada mau para um homem que abriu uma livraria online. Com efeito, a fé que os habitantes de Silicon Valley depositam no seu modelo – financiando empreendimentos ousados que desafiam as normas previamente estabelecidas – incentiva ativamente a arrogância. E a saúde humana está numa curva ascendente extraordinária.

A esperança de vida duplicou nos últimos 150 anos, à medida que infeções, vacinas, nutrição e saúde materna melhoraram radicalmente. Os grandes assassinos de hoje – nomeadamente o cancro e a demência – são muito mais difíceis de resolver. Investigadores de todo o mundo especializam-se em tratar estas doenças como problemas individuais. Mas e se as abordássemos de uma forma diferente, dizem os gurus da Costa Ocidental, não como condições compartimentalizadas, mas como sintomas comuns ao envelhecimento? Então, dizem eles, a idade seria a doença a curar.

É verdade que a passagem do tempo aumenta dramaticamente as probabilidades de contrair essas doenças. Não admira que a possibilidade de inverter o relógio seja tão apelativa. E é por isso que é tão importante que o homem que preside ao conselho científico do Altos seja Shinya Yamanaka.

Em 2012, Yamanaka partilhou um Prémio Nobel por ter descoberto que quatro proteínas, atualmente conhecidas como os Factores de Yamanaka, podem induzir as células a regressar a um estado prévio, nem cansado nem especializado pela passagem do tempo, mas novamente jovem e cheio de potencial – como se um contabilista reformado voltasse a ser um adolescente com um blusão de cabedal prestes a decidir que exames de acesso à universidade queria fazer. Quatro anos depois de Yamanaka receber o prémio, não apenas células, mas ratos inteiros foram tratados com os fatores, tornando-se visivelmente mais jovens.

"Há uma corrida pelo rejuvenescimento em curso", comenta Daniel Ives, CEO de uma das principais pioneiras britânicas no negócio da inversão da idade, a Shift Bioscience. A empresa pretende "rejuvenescer células e tratar doenças associadas à idade". Como Ives explica num vídeo do website da empresa, essa é apenas uma das duas principais técnicas que estão a ser exploradas pelos cientistas que desafiam a idade. A outra, vampiricamente, é o sangue. Em tempos idos, isso implicava mesmo ligar o sistema circulatório de dois ratos, um velho e um novo e ver a juventude, literalmente, a fluir para o animal mais velho. Hoje em dia, nas pessoas, o objetivo é refrescar o sangue velho e, com ele, o corpo – Silicon Valley emprega frequentemente "rapazes de sangue" jovens e em boa forma para partilharem o seu produto com os executivos mais velhos – tudo sem a necessidade de dentes afiados.

O rejuvenescimento celular, explica Ives, "pode fazer uma célula passar de 60 anos para 0 [anos] em apenas 17 dias". Por volta dos 15 dias, há um ponto mágico no processo – uma "zona ótima" de rejuvenescimento discernível. Ele fala em "restaurar todas as funções dos órgãos para níveis jovens". Contudo, ir demasiado longe acarreta riscos de desenvolver cancro. "Temos de avançar com cuidado", diz.

Ives prova que, embora possa soar totalmente a disparate californiano, a inversão da idade também tem profundas raízes britânicas. Além da Shift, o Reino Unido é o lar do Babraham Institute, junto a Cambridge, que é líder na área da investigação sobre o envelhecimento. É um dos institutos assaltado pelo Altos. Pensa-se que Wolf Reik, seu antigo diretor e luminária da reprogramação celular esteja agora a caminho da Costa Ocidental – e dos seus fabulosos salários.

Não são apenas os investigadores que pretendem ganhar uma fortuna. Os investimentos dos titãs tecnológicos são exatamente isso. "Quando vemos algo lá ao fundo que parece uma pilha de ouro gigante, devemos correr depressa", disse um empresário da área da biotecnologia ao MIT Tech Review.

Contudo, apesar de todo o falatório, há poucos artigos científicos que documentem o progresso e nenhum sinal de remédios inovadores que possam impedir o envelhecimento das pessoas – em vez dos ratos. Existe outra questão óbvia: não será de mau tom gastar tanto dinheiro em apostas com baixas probabilidades para prolongar a esperança de vida dos super-ricos quando existem tantas invenções baratas, desde água potável a redes de proteção contra mosquitos, que sabemos terem a capacidade de prolongar a esperança de vida dos super-pobres? E não estariam as várias empresas que fogem ao fisco – como a Amazon – a fazer mais pela vida humana contribuindo para essas coisas em primeiro lugar? Alguns líderes tecnológicos parecem ter-se lembrado de que existem crises de saúde atuais que deveriam receber atenção primeiro: o pioneiro do software Larry Ellison, de 77 anos, com uma fortuna superior a 100 mil milhões de dólares, investiu em tempos centenas de milhões em investigação sobre o envelhecimento. Em 2013 pareceu mudar de ideias, atribuindo subsídios a esforços para erradicar a poliomielite.

E os grandes nomes não são imunes a serem apanhados pelo entusiasmo gerado pela tecnologia de gama média. Um dos maiores escândalos de Silicon Valley é a história da Theranos, uma start-up que prometia diagnósticos milagrosos e não cumpriu rigorosamente nada. O seu valor subiu antes de cair completamente por terra. Os lesados incluíram Rupert Murdoch (que investira mais de 100 milhões de dólares) e o próprio Ellison. Entretanto, tendo atingido um valor de 22 dólares por ação há três anos, a Unity, a última aposta desafiadora da idade de Bezos, definha agora nuns meros 3 dólares. O seu fundador e pessoal foram dispensados. No indústria anti-idade, parece que algumas coisas envelhecem depressa.

Harry de Quetteville/The Telegraph/Atlântico Press

Tradução: Érica Cunha Alves

Tuesday, August 10, 2021

HIPOCRISIA LíQUIDA

 

 

Por que chora o bilionário Messi?

Porque vai ganhar mais 45 milhões além de direitos de imagem e etc.

 

Leo Messi: “No sé el Barcelona, pero yo hice todo lo posible para quedarme”

 

Wednesday, February 19, 2020

"THE SPLASH"



Na semana passada, "The Splash" foi vendido por mais de 23 milhões de libras.
Em Novembro de 2018, vd. aqui, atingiu os 90 milhões de dólares.
Valem tanto?
Se foram transaccionados por aqueles valores, valem. Nem mais nem menos.
Reflexos da acumulação de riqueza no percentil da estrema-direita da curva de distribuição de rendimentos.

Understanding "The Splash" of David Hockney

Thursday, May 16, 2019

POR MAIS DE 91 MILHÕES DE DÓLARES

A feira continua aqui
Um novo recorde obtido em leilão por uma obra de um artista vivo.
É bolha?
Não. É dinheiro a mais.


"Rabbit"

Jeff Koons (1986)

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Jeff Koons' "Rabbit," the Brain, and Postmodern Art

With postmodern art, your thought is the medium.

Norman N Holland Ph.D. /This Is Your Brain on Culture/Posted Jun 25, 2010


Two approaches divide the world of neuroesthetics. On the one hand, neuroscientists like Semir Zeki and Vilayanur Ramachandran and William Hirstein argue that artists, probably unconscously, obey certain "laws" of the brain's perceptual systems and so achieve beauty. On the other hand, neuroscientists like Jennifer McMahon and Bernard J. Baars point out (correctly, it seems to me) that beauty is a feeling, and whatever perceptions we may have, only a certain feeling equals beauty. Notice that these theories invoke two quite different brain systems: posterior perceptual systems and the limbic system.
But what about the postmodern? No longer do we have a beautiful object. We have Andres Serrano's Piss Christ or Chris Ofili's The Holy Virgin Mary complete with elephant dung. I think that these works involve a kind of response that depends neither on laws of perception nor on a feeling of beauty. Postmodern art, it seems to me, works in an altogether different way.
As a sample of that other way, I offer a response of my own to a less controversial work but a work that is surely an icon of postmodernism: Jeff Koons' "Rabbit" (1986).
This sculpture comes to about half human size, in cast stainless steel, an exceedingly difficult medium to work. Koons has had a casting made of a cheap, inflatable--here, inflated--bunny such as one would give to a child as a worthless, throwaway toy. It is, a catalog tells me, 41 x 19 x 12 inches. That is, it would (like its original) stand about waist high if it were on the floor, but it is usually shown on a pedestal so that one is face to face with the object.
It is a big bunny. It consists of four large blobs, head, thorax, and two legs. On the head two projecting liferaft shapes form ears. On the thorax there are two horn-shaped bumps for arms. Attached to the rabbit's left "paw" is a carrot-like object pointed toward the "mouth" from which dangles a limp "leaf" which must have been plastic in the original and is a thin, crumpled stainless steel foil in the sculpture.
The surfaces of the object are shiny, shinier than a glass mirror, if that is possible. Exact silvery reflections seem to leap from it. At the same time the seams and dimples of the inflated plastic show as seams and dimples in the steel.
It is, of course, outrageous to make all this of an inflatable bunny, and I laughed out loud a lot when I was looking at "Rabbit." It is a joke! This is kitsch glorified, and kitsch that received its ultimate accolade when, in the Macy's Thanksgiving Day Parade it joined the neon signs in Times Square.
"Rabbit" in the Macy's Parade
But is an inflated bunny any more trivial or ridiculous than the half-eaten apples and spilled wine of a Dutch still life? I think "Rabbit" asks me to think about the ugly, the trivial, about kitsch. What is kitsch? Isn't it an attitude on my part? An attitude that Koons has turned around, asking me if kitsch doesn't also deserve some vague reverence as an expression, no matter how base, of the human spirit, of pneuma. Koons asks me to think, just as the Dutch still life painters asked me to look at the deserted table and the half-eaten meal and think that "In the midst of life, we are in death."
As I looked at "Rabbit," what I became most aware of was the reflection of me, the surrounding gallery, other Koons works, other art works. We were all doubly reflected, from the snout and from the belly. It occurred to me that Koons might be playing with the idea that art is a "reflection" of its surrounding culture. In any case the work of art is not self-contained. Rather, it represents part of its culture (something you could buy it in Toys R Us) and we are part of it. Kitsch and art and culture and us together forever.

I also felt intensely that I was "facing" something: I was facing the rabbit and it was facing me. Eye to eye. I to I? No, the rabbit had neither eye nor I. The lines that would have been drawn on the original plastic to indicate eyes, nose, or whiskers were not there. There were no distinguishing features on the rabbit. This is a mass produced object. Or is it? "Rabbit" exists in three castings and an artist's proof. It is not itself a mass-produced object, although it represents one and in principle could itself be mass-produced. Is that important to its status as "art"?

Koons did not make this object. Some foundry did. All Koons did was have the idea and supervise the workers. Is that all an artist need do? Have an idea? Like conceptual sculpture? Isn't the idea more important than the necessarily fallible embodiment of the idea? Plato relevant here. What about Rodin? Who did his castings?
"Rabbit" has no face itself, but there is my face, staring out at me. Is Koons asking me to face myself? To face the objects of my culture? To ask what difference and individuality consist of? Has Koons created a work of art that will be physically different for every person looking at it? Can that be art? Is Koons, by creating this outrageous thing, "in my face"?
"Rabbit" is heavy. It must weigh a couple of hundred pounds. Think of the original. Ounces of plastic film and air. Is Koons talking about the "monumentality" of art? The way we use art to make the most trivial, empty (pun here) thing (all those half-witted Hapsburg princes, say) weighty, important, significant.



Like the Dutch still lifes, "Rabbit" got me to playing in my mind between the monumentality and the ephemerality of things. All the inflatable toys I ever had eventually, slowly deflated. The dimples got bigger and bigger until the thing got ugly and deformed. This one never will. A thing of beauty is a joy forever. A work of art like this is supposed to be permanent, timeless, plus it can endow with its own timelessness even such ephemerae as the dimples in a temporarily inflated piece of plastic junk.
It is also perfect. Koons has expressed a lot of interest in the "perfect" object, and "Rabbit" is surely that with its gleaming, shiny surfaces of an industrial perfection earlier ages could not even dream of. And it is also junk. And what is the difference, pray?
It is clean. The mark of a fingertip would show up as a profanation, a stain on this stainless steel. Again, I think of another artistic taboo: we are not to touch the objects in museums. I also remember that Koons is much interested in "clean" and "dirty," ranging from the antiseptic vacuum cleaner sculptures (also involving pneumatics) to the "dirty" pictures of him with La Cicciolina, his former porn star wife.


"Rabbit" is conspicuously without genitals, and genitals are another theme in Koons' work. There is an absolutely smooth surface where a real rabbit would have a penis. This too has a long tradition in art (no pun intended!), of representing women (but sometimes any creature) as having nothing whatsoever in the genital area. (I remember John Ruskin's shock on his wedding night. Would he have been happier with "Rabbit"?) Koons is said to be the only artist to have represented himself with an erection (in the sexual act, actually in the porn pictures with La C.) Yet shouldn't that be part of a self-portrait? Isn't sex, aren't genitals, important parts of us? What does it say about our culture that this child's toy has no penis, no vagina? Is that "clean"? Is it "stainless"?
"Rabbit" is a representation of an inflated rabbit which is a representation of a rabbit. Shades of Plato here. Sort of like my double reflection in the head and thorax. Which is at least as exact and perfect (although distorted) as either the inflated representation of a rabbit or the stainless steel one. And yet no one would say my reflection was "art"—or might someone?
What is distortion in art? Is the stainless steel bunny a perfect representation of the plastic bunny's imperfect representation of a bunny? Is not distortion intrinsic in every representation, including the mirror reflection of me which is me, moves with me, interacts with me? What is the relation between Picasso's distortions and, say, Sargent's?
And so on.
If you have followed me this far, you will have noticed that I am invoking neither of the two brain systems the neuroestheticians draw on. I am performing pure intellection, pure frontal lobe stuff with just the necessary perceptual information. There are no "laws of beauty" involved.


Koons, it seems to me, is very postmodern in that he works more with my relation to the object he creates than with the object itself. ("Rabbit" is a joke. It flaunts its very triviality.) Even more than stainless steel, my thought is his medium. He prompts me to think about the nature of art, of our looking at art, of humanity, of our times, of myself. Of course, all art does that, but it seems to me that the postmodern art of our times does it far more explicitly, demandingly, and shockingly. And postmodern art quite dispenses with the "beautiful object," the oil painting or the marble sculpture. It is true, I think, as has often been said, that postmodern art may be the thinning end of a long line of development from the modernism of the early twentieth century. Sure, but so was Watteau the end of a long line. So is every artist. And so are we. But we still deserve attention.
I think we owe every work of art as much thoughtful and empathic attention as we can afford to give it. It is wrong esthetically and even morally to give no more than a hasty dismissal to another human's work. Following one's gut reaction or this or that notion of "what is art" is wrong to the artist, but also wrong to ourselves. Hasty dismissal deprives us of aesthetic experiences.
We may end up disliking Koons' work, but at least we will have enjoyed the experience of getting to that conclusion. We will have enjoyed exercising our own frontal lobes, and that, not beauty, is the way the postmodern makes its special appeal to us.
Items I've referred to:
Baars, B. J. (1999, Jun-Jul). Art must move: Emotion and the biology of beauty. Journal of Consciousness Studies, 6(6-7), 59-61.
McMahon, J. A. (2000, Aug-Sep). Perceptual principles as the basis for genuine judgments of beauty. Journal of Consciousness Studies, 7(8-9), 29-35.

Ramachandran, V. S. (2000). The science of art: How the brain responds to beauty. In W. S. Brown (Ed.), Understanding wisdom: Sources, science, and society (pp. 277-305). West Conshohocken, PA: Templeton Foundation Press.

Ramachandran, V. S., & Hirstein, W. (1999). The science of art: A neurological theory of aesthetic experience. Journal of Consciousness Studies, 6, 15-51.

Zeki, S. (1999). Inner vision: An exploration of art and the brain. New York: Oxford University Press.

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Wednesday, May 15, 2019

POR 111 MILHÕES DE DÓLARES


                                                                   

Claude Monet (1890)


Há uma bolha no mercado da arte?
Não. O que há é uma crescente concentração na acumulação de riqueza.

Mas há quem pense e teorize sobre a bolha. Por exemplo, aqui:

Is the art market bubbling or just casually simmering?

The search in Google for “art market bubble” renders more than 90 thousand hits, with top headlines screaming: “Could the contemporary art market bubble burst?”, “Is there a bubble in the art market?”, “Be cautious… the art market could be in a bubble” and alike. This sentiment is not new. Basically every year since the big crash of the market in 2008, some experts are warning that the art market is the new bubble and it is about to burst big time. Don Thompson in his book “The Orange Balloon Dog: Bubbles, Turmoil, and Avarice in the Contemporary Art Market” published in 2017 writes that there are various indicators, which all “point to the contemporary art market as a looming price bubble”. Before Thompson, there were Kräussl, Lehnert, and Martelis with their academic paper “Is There a Bubble in the Art Market?” (2014) claiming that in certain segments we were then right in the middle of a bubble (specifically in “post-War and Contemporary” and “American” art). Several years earlier BBC came out with a documentary “The Great Contemporary Art Bubble”, which named the art market the “longest lasting bubbliest bubble”. Then again, we are in 2019 now and no really big “bang” happened yet. Does it mean it is about to happen shortly, or on the contrary, does it mean it never will?

Let’s go back in time, shall we? September 15, 2008. On that date Lehman Brothers filed for bankruptcy, turning the US subprime mortgage crisis into an international banking crisis and the financial crisis of 2008 as we know it now. Ironically, September 15, 2008, was notable also by another event — the opening of the notorious single-artist auction of Damien Hirst’s works at Sotheby’s London with over 200 items selling for a total of over 110 million pounds. As Graham Bell had it: “when one door closes, another one opens”.The art market was not immune from the financial crisis, as sales in the contemporary art plunged by almost 60% in the period of 2008-2009, and yet overall the art market recuperated pretty fast. According to the UBS and Art Basel Art Market report, already in 2010, the global art market reached the pre-crisis numbers and a year later exceeded those numbers by $2.6 billion ($62 billion in 2008; $57 billion in 2010 and $64.6 billion in 2011). Since then, there were slight ups and downs, but nevertheless, in 2018 the global art market reached $67.4 billion, showing growth of over $5 billion in 10 years. Why is there a concern then?

The anxiety might be the result of the peculiarities of the market ruled by information asymmetry and consequently imprecise conclusions. The ArtTactic Art Market Confidence Indicator shows that by the end of 2018 the confidence in the contemporary art market has dropped. Again. Far from the fall in confidence occurred in late 2008, but still showing much lower confidence than it was registered even at the beginning of 2018. Moreover, last year the major auction houses boasted quite some surprising and question-provoking records. David Hockney’s Pool with Two figures sold for a noncompos mentis $90,3 million; Edward Hopper’s Chop Suey sold for a comparable $91.9 million, and the Portrait of Edmond Belamy (claimed to be the first AI work sold at auction) rendered almost half a million as opposed to its modest pre-auction estimate of mere $7 thousand. Those are objectively insane numbers and logically they cause questions as to how long can this last. Bubble suspicions are luring. On the other hand, as above mentioned Don Thompson said: “You only read about the successes. No one ever promotes the work that was bought for $25million and sold for $6million.” Like, for example, at the height of the market in 2014 one of the “rain paintings” by Lucien Smith sold for over 200 thousand pounds, while four years later a comparable piece was sold for 10 times less that amount (and this information did not hit the front page headlines). Does it mean that the bubble popped? Hardly. More accurately would be to say that there was some sort of ongoing price correction. Moreover, price corrections happen all the time. In The New York Times article of almost thirty years ago (16.12.1990) “The Art Boom: is it over, or is this just a correction?” Peter C.T.Elsworth cited Milton Esterow, saying: “What has crashed in the art market is all the speculation”, adding that art auctions “constitute a secondary market, often dominated by speculators, as opposed to the primary market of artists, galleries and collectors, where, some dealers say, prices are holding up”.

Worth stressing again that the big numbers everyone knows are numbers from public auction sales. Big and heavily promoted public auction sales to be precise. This information is heavily skewed and most of the times fails to represent the actual trends of the art market in general. In October 2018 in the article at Vox “Why art is so expensive” Gaby Del Valle rightly notes that: “a small group of collectors pay astronomical prices for works made by an even smaller group of artists, who are in turn represented by a small number of high-profile galleries.” In other words, could it be that a feared bubble is actually a small particular bubble in the small particular part of the art market? In cooking, there is a term simmering, which is used to describe the state of heating when the water (or food) is gently bubbling, but the temperature stays just below boiling point. That is to say there are some tiny bubbles, but no overheating and no boiling. Could this analogy be used to describe the art market?

Are the art market bubbles even possible? The real-estate bubble (at the outset of the financial crisis), the same as the dot-com bubble and even the Tulip mania of the 17th century were all following the classic five stages of a bubble. It starts with the (1) displacement, when there is an excitement about the asset and it starts dramatically going up in value; followed by (2) take-off (or a price boom) when the speculation on the future value starts, reaching (3) euphoria, then (4) the critical stage, when some investors realize that it is time to cash out, and ultimately (5) the pop, burst, panic (whatever you call it), when everyone realizes how insane it all was and prices plummet. Even if one assumes that the art market (or better — a particular part of it) reached euphoria stage of the bubble, it seems highly unlikely that collectors would be cashing out any soon, and even more so, that the realization of insanity would lead to plummeting prices. Likewise, according to the classic definition “during a bubble, prices for a financial asset or asset class are highly inflated, bearing little relation to the intrinsic value of the asset” (Investopedia). However, when it comes to the intrinsic value of an artwork, the bubble discussion in the essence exhausts itself.

Of course, tastes (or call it — fashion) change, and the perceived intrinsic value of particular artworks changes as well, but it is doubtful that this can ever be extrapolated to the whole art market. Not even to the specific market for Contemporary Art; only perhaps to individual artists. Here again, some artists might be “bubble-vulnerable”, while others are “bubble-proof”. In the “Mornings with Maria” at Fox Business channel, art advisor Michel Cox Witmer commenting on the sale of Alfred Taubman’s art collection rightly pointed that, for example, Picasso is bubble-proof; he will always be there. What about “not-Picassos”? The simple answer would be: the market will correct itself in a while. It is indeed possible that certain young hyped artists are not going to be there in 10 years and hundreds of thousands paid for their artworks will never be possible even to recuperate; though this comes down to the reasons behind the purchase of artwork in the first place. If a collector bought a piece rather because of its intrinsic appeal than because of the investment potential, even if the latter fails to materialize, so be it. On top of that even in the case of young and hyped it is not about all young and even not about all hyped. Some of them will enter the art history and their works will still be worth a lot of money, while others will disappear, and this is perfectly normal.

Thus, no significant bubble would probably pop in the art market at large, however, this “frog” might still be boiled. Currently, there are a number of significant alarming trends and some inspiring evolutions which all combined have a potential to seriously alter the game field. Now, that might be a reason for anxiety. First of all, the guarantees — this hybrid of a speculative gamble and a risk hedge. Harry Smith, the executive chairman at Gurr Johns said in this respect: “Guarantees have the potential to be the next big art-market scandal if they are not carefully managed”. In the sense of “careful management” there are quite some issues: from the discussion about the role of an auction house turning into financier to the pure money speculations (like in Modigliani’sNu couché, which despite being the highest realized price of 2018 at $157 million, was hardly profitable for Sotheby’s exactly because of the guarantee. The actual bid was almost $20 million less.) Secondly, the gap between the top of the market and all the rest seems to be extremely wide. For example, while large mega-galleries are opening more locations around the world, smaller galleries are actually almost massively closing down. The same goes for artists. According to the Artnet report, nearly half of all contemporary auction sales (in the first half of 2017) were made by 25 artists. ”The rich get richer and the poor get poorer”. Thirdly, while on one hand a positive development, yet on the other, an alarming one — banks are increasingly offering loans against art. This, of course, enables more capital to be freed up, but raises many discussions related to proper art valuation and, surely, to the attitude towards art as an investment only, locking it up in freeports out of sight of anyone, collector (read: investor) including.

At the same time, there are also, as I called them, inspiring evolutions. More and more initiatives appear with the aim of democratizing the art world, of making it accessible to the general public as opposed to the super-rich only. There are possibilities of fractional ownership of artworks (offered by e.g. Maecenas, Feral Horses, etc); there are many digitalization projects, like for example Artland where people can visit galleries in three dimensions on their phones; also more and more ventures emerge with an aim of breaking down the barriers of buying art (e.g. Singulart, RiseArt, etc.). The increased interconnectedness and the general trends of sharing economy also shift the perspective of ownership. As John Bailey said in one of his articles: “You don’t need to own the work to experience it”. If the concept of ownership eventually transforms into supporting, participating and engaging (where it seems to be heading), this has a huge potential to change the art market. It does not mean, however, that the very top of the art market will reform drastically. As the opening quote for the BBC documentary (perhaps a bit harshly) went: “At any particular times, a great deal of stupid people have a great deal of stupid money” (Walter Bagehot, Economist 1859) and some of it undoubtedly will be floating around in the art world. However, the big chances are that the astronomical art prices will  see some corrections and the art market of the future at large will develop into a different, possibly more inclusive, game field.


Friday, April 13, 2018

NATUREZA VIVA


O quadro estava exposto num museu de uma cidade de província,  há anos sem conta.
Raramente aparecia um visitante, o vigilante passava os dias a dormitar, à hora do almoço fechava a porta, reabria-a de tarde consoante, mais ou menos, se prolongasse a conversa com os amigos que apanhasse pelo caminho. Era uma natureza-morta, aquilo que os britânicos designam mais apropriadamente, para o meu gosto, still life

Um dia, era Setembro, às três da tarde, passou por ali um grupo excursionista, que incluía três garotos. Dois deles, preferiram não entrar e ficar a entreter-se com uma bola no lago fronteiro ao museu. O outro, o que entrou no museu, poderia ter ido para outro lado qualquer, às vezes à miudagem dá-lhes para desaparecer e pregar um susto aos progenitores, quando a comitiva já debandava, após uma ronda breve pelas obras expostas, que não eram muitas, e foi feita a contagem de quem estava ou faltava na viatura, tinha ficado lá dentro, a olhar e a remirar, em bicos de pés, porque o puto ainda era baixote, o tal quadro.
Nada, nem naquele quadro nem nos outros, havia suscitado interesse que tivesse merecido a mais, fugaz que fosse, atenção dos que tinham entrado e saído tão silenciosamente que o vigilante não deve sequer ter acordado da passagem pelas brasas com que habitualmente se reconfortava depois do almoço. Se fosse gente entendida, capaz de avaliar o que tinha ali para ver, e mal intencionada, talvez um ou outro daqueles quadros tivesse  sido levado naquela tarde, ou em qualquer dos dias em que o museu estava aberto, quando não estava aberto também estava mal guardado.

O quadro era de autor desconhecido, provavelmente do Séc. XVII, e figurava sobre uma mesa coberta com toalha branca, um peru com ar bem disposto, de bem bebido, de asas abertas, se aquilo era natureza morta ele parecia estar ainda bem vivo, umas ostras, umas frutas num cesto descaído ao lado do peru, uns pedaços de pão, um vaso de vidro, um vaso de estanho, o trivial em obras daquela natureza.

A atenção do pequeno homem centrava-se, no entanto, apenas no canto inferior direito, quando, alvoraçados, os pais e mais uns quantos, que o procuraram durante uns bons dez minutos nas redondezas do museu, foram dar com ele naquela concentração que o fazia mover muito ligeiramente a cabecita à esquerda e à direita, à volta de qualquer coisa onde ninguém mais via senão o remate indiferenciado do fundo da tela. Mas o rapazinho garantia que havia ali naquele cantinho, mesmo no cantinho, um passarinho que voava, mas é que voava mesmo, de um lado para o outro, mas só no cantinho.    

Entretanto, voltaram ao museu os outros viajantes que tinham ficado no autocarro, e todos eles, e mais dois ou três visitantes ocasionais, passaram a discutir se era ou não era visível, ali naquele cantinho do quadro, um passarinho a voar, pequenino, talvez um beija-flor. Uns tinham a certeza que, sim senhor, o rapazinho tinha razão e boa vista, havia ali passarinho a voar, podia não ser beija-flor mas se não era beija-flor era passarinho parecido; outros, que miravam e remiravam, coçando e balanceando a nuca, afiançavam, uns com óculos outros sem óculos, que não havia ali passarinho nenhum. Havia, não havia, a discussão já levava um tempão, esgotou-se a paciência ao motorista, que entrou no museu, que é que se passa?, ele não tinha mais tempo para esperar por conclusões unânimes, tinha horário a cumprir, e, ainda a discutir o caso do passarinho, voltou a gente ao autocarro, um ainda disse que passarinho não tinha visto mas passarinhas havia várias a bordo, só que não estavam visíveis naquele momento, e, com a brejeirice, pôs o pessoal  bem disposto, e acabou com a questão do passarinho.  
E nunca mais se soube daqueles nem do pequenote que tinha visto naquela natureza morta um passarinho a voar, que outros também viram e os outros não viram, nem nada que se parecesse com um passarinho a voar.

Voltou a calma regulamentar à sala do museu, despertou o vigilante da sua modorra, e, por desfastio ocasional, foi olhar para o que nunca tinha olhado, aliás, um vigilante não é pago para ver os quadros mas vigiar quem entra para os ver, regras do regulamento. Para comodidade conveniente e atenção concentrada, trouxe o banco do canto em que se sempre se sentava e sentou-se nele em frente do quadro que talvez tivesse mas talvez não tivesse um passarinho a voar. Mirou, remirou, foi até buscar a lanterna para melhor observar, não viu passarinho nenhum, voltou a colocar o banco no canto do banco, e dormitou até que no relógio da torre da igreja tocaram as seis, horas para fechar as portas e ir até casa, não sem ter passado antes pela roda de amigos que se reunia por ali à tardinha até ao sol se pôr.

No outro dia, de manhã, fez o que fazia desde que fora contratado como vigilante do museu municipal: abriu a porta de entrada principal e as portadas das janelas, deu uma volta de ronda às salas, que eram só cinco, a confirmar que não havia parede sem quadro, nem quadro torto na parede, o que mais o chateava era ver um quadro torto, um desequilíbrio que lhe arranhava os nervos e obrigava a indispor-se com a mulher da limpeza que, por acaso, era a sua mulher.
Depois, ia a sentar-se no banco, ainda não se tinha sentado, entra um grupo excursionista que o vigilante, facilmente, percebeu serem brasileiros. Se não a totalidade, pelo menos a maioria era. Ficou abismado com o fenómeno, nunca antes, que ele se lembrasse, tinha o museu recebido excursões em dois dias seguidos, e ainda estava a começar aquele dia. Não restavam dúvidas que o país estava agora em franco crescimento e o turismo era o grande motor desse desenvolvimento.
Também facilmente percebeu, eles falavam bem alto, subvertendo as regras em visitas a museus,  que tinham aqueles brasileiros voado de São Paulo e Rio até Paris, e dali tinham passado em autocarro por Madrid, Salamanca, Santiago de Compostela, Coimbra, Fátima, e, a caminho de Lisboa, de onde voltariam a Paris para o voo de retorno, convenceu-os a casualidade de o avô de um deles ter nascido numa aldeia que ficava perto, a passarem aquela amanhã naquela cidadezinha de província que nenhum dos restantes alguma vez ouvira falar. O descendente foi até à aldeia avoenga, por, prometeu ele, não mais que três horas, e a comitiva tinha-se ali dispersado entre o mercado, algumas lojas de roupa e calçado, tudo caríssimo não acha?, um ou outro preferiu uma ou outra tasca para petiscar as especialidades locais, umas bebidinhas da zona, uma escassa dezena, a princípio, uns quinze depois, entraram no museu, mais pela traça antiga do edifício do que qualquer chamamento do recheio.

Já viu Nenhinha esta belezinha de natureza morta? Adoro natureza morta. Não perco. No Louvre não tinha muito pois não?
Ah! O Louvre, querida, o Louvre é um mundo inteiro de cultura ... Você teve lá tempo de ver o que há naquele luvrão todo?
Pois não...pois não. Aquela entrada é simplesmente esmagadora, a gente sente-se imergir num oceano de cultura clássica. A gente desce, e, só de olhar para toda aquela pirâmide cai de pasmo, sem saber por onde é melhor começar. Aquilo, para ser visto como deve ser, quanto tempo precisa, tem ideia?
Tenho, não, mas não aguentava mais do que aguentei. Ao fim do dia estava mortinha para zarpar para o hotel e dormir até ao dia seguinte.
Já o Prado, é diferente, tem muito corredor, é mais orientativo. Em todo o caso, nada que se compare ao Louvre, não acha?
E o Rainha Sofia, que lhe pareceu?
Para lhe ser franca, minha amiga, a mim não me pareceu museu.
Nem Guernica?
Bom, nesse caso, o que eu não gosto mesmo é do Picasso. Mas não diga às nossas amigas, por favor.
Para elas, o Picasso é o máximo. Você gosta do Picasso?
Não muito ... não muito ...assim, assim, tem coisas que gosto, tem outras que não gosto. Gosto do período azul, do rosa ...
Pois isto será anedota, mas eu não sabia que Picasso tinha períodos ...
Teve. E teve até períodos de naturezas mortas.
Nados-mortos?
Não, não, naturezas mortas ...
Como estas, com peru e tudo isso, tão bem pintado que até parece estar vivo?
Diferentes, bastante diferentes, menos realistas, menos fotográficas, não sei se me fiz entender.
Quase. Tenho de dar, um dia destes, uma mirada nisso.

Ia a conversa cultural entre as duas neste ritmo alucinante quando se aproximou delas um homem do grupo.
Não é uma maravilha?
O homem chegou-se ao quadro, mais do que a distância regulamentar permitia, mas o vigilante entendeu condescender e não fazer cumprir as regras.
Logo a seguir outro, outro, e outro, enfim todos, obedecendo à força da curiosidade individual na formação dos grupos quando ignora as razões pelas quais os grupos se começaram a formar, e, em pouco tempo, estavam todos à volta, se não todos, quase todos a desrespeitar as regulamentadas distâncias mínimas de proximidade das obras expostas.
Não é uma maravilha?, voltava a perguntar a senhora que adorava naturezas mortas a cada um que se ia juntando ao grupo . Não é uma maravilha de natureza morta?, insistia perante a mudez do grupo.
É quê?, arriscou um tímido do fundo para o vizinho do lado.
Natureza morta, sussurrou quem estava à frente dos dois.
Em minha casa não entraria, nem dada. É coisa mórbida, não é? Eu acho. Prefiro os impressionistas...

Acercou-se o vigilante do grupo com a intenção de proteger o quadro de tanta concentração de gás carbónico, e, num inesperado momento de génio, que nele existia congénito mas nunca antes se manifestara, informou que aquele quadro era uma natureza morta mas que também era uma natureza viva.
Como é isso?, perguntou a maior admiradora de naturezas mortas, que nunca tinha ouvido falar em naturezas mortas e vivas ao mesmo tempo, e já lhe custara a engolir aquela do Picasso ter dado à luz nados-mortos.
É assim, começou a explicar o vigilante quando o grupo todo se calou, aqui neste quadro, que sem dúvida alguma é uma natureza morta, de autor desconhecido, talvez do séc.XVII há, no canto inferior direito, mesmo no cantinho, um passarinho que voa de um lado para o outro ... sempre no cantinho. Por isso lhe chamamos o quadro do passarinho, acrescentou o vigilante, e fez história.
Como é isso?
Sente-se, o senhor, aqui neste banco, concentre-se, e verá que um passarinho, muito pequeninho, esvoaça constantemente. Há quem pense que seja um beija-flor.
O homem sentou-se, colocou óculos de ver ao perto, espreitou que se fartou, saiu do banco, e disse, não tem porra de passarinho nenhum.
Há beija-flor em Portugal, perguntou curiosa e tímida uma das senhoras que até ali não tinha aberto a boca.
Não tem, mas natureza morta pode ser matada em qualquer lado, respondeu e riu-se do que disse, um que entendia estar o assunto a ficar pesado demais para o momento.
Pelo sim, pelo não de averiguação, sentou-se um voluntário, espreitou, fez óculo juntando polegar ao indicador, esteve tempo estranho a espreitar, estranho por coisa tão pouca, entenda-se, levantou-se vagarosamente e disse: tem passarinho, sim senhor. É mesmo muito pequenininho, mas tem.
E voa?
Voa, está sempre a voar. Se é beija-flor não sei.
A partir dali, sentaram-se todos e as conclusões só não foram unânimes porque o primeiro observador nem quis repetir a observação. Para ele, não havia passarinho nenhum, ponto final, e vamos embora.

Foram quase todos, só ficaram dois na sala.
E você acha mesmo que pode ser negócio mesmo?
Pela alma da minha mãe lhe juro que estou seguro que pode ser negócio mesmo. Vamos falar com o vigilante.
Vigilante, o senhor, por favor pode marcar uma reunião, ainda hoje, com o presidente do município?
Eu???, perguntou com interrogação aterrorizada o vigilante.
A questão, senhor vigilante, é que nós dois estamos interessados em comprar esse quadro, o do passarinho, entende?, e estamos dispostos a pagar um preço justo por ele.
O quadro do passarinho? O quadro do passarinho não está à venda, aliás, nenhum quadro aqui está à venda. Isto é um museu, senhores, não é galeria de arte.
Que bobagem!, vigilante, tudo se compra e vende mesmo sendo quadro de museu. Telefone a ele! Vá telefone a ele!
É do séc. XVII, senhores, não tem preço.
Tudo tem preço, vigilante, tudo neste mundo tem preço. Muito ou pouco, tudo tem preço.

Neste ponto, chamou um dos interessados o outro à parte, o vigilante aproveitou para voltar ao seu posto, se bem se lembram, sentado no banco.

Você acha mesmo que, sendo o quadro do séc. XVII, pode andar o passarinho andar a voar há mais de trezentos anos? Quanto tempo de esperança de vida tem um beija-flor? Não mais que três anos, cinco no máximo, sabia?
Pode não ser beija-flor. Aliás, pelo que você agora se lembrou, não é beija-flor, mas não é por isso que deixa de ser passarinho.
Então que passarinho pode ser este que voa há trezentos anos, pelo menos?
Só Deus sabe os limites ilimitados da criação. Talvez o quadro tenha sido pintado por Deus? Tem prova do contrário?
Não, não, o quadro é de autor anónimo. Pode ter sido Deus quem pintou essa coisa morta-viva? Pode, mas não vamos alterar a chapa da autoria na moldura. Iria o negócio do quadro ao ar, como autor de obra de arte, Deus não vende, como milagre talvez possa vir a ser mina sem fundo.
Vamos comprar a porra do quadro!

Vigilante, por favor pode pelo menos indicar-nos o número do telefone do município.
Posso, não é favor nenhum, aqui o tem, mas devo informá-los que hoje nem o presidente nem os vereadores estão disponíveis.
E por que não? É feriado?
Estão todos reunidos em sessão de discussão de aumentos ao pessoal.
Bom, se assim é, convém não perturbar eles. E amanhã?
Amanhã é sábado, fim-de-semana, e na segunda-feira é feriado municipal.
Que azar, hem! Bom, estamos de saída para Lisboa para pegar o voo de Paris para o Rio e São Paulo.
Vamos telefonar de lá. Afinal, que negócio é que não pode ser feito hoje pelo telefone? Como é que licitam os árabes, e outros parecidos com eles, nos leilões da Sotheby´s  ou da Christie´s  para comprar anonimamente por milhões e milhões arte europeia, americana, ou do fim do mundo? Pelo telefone. Pelo telefone! Pela internet! Talvez até pelo feicebuque, pelo WhatsApp ... A propósito, você já instalou no seu celular o Instagram? Instale.
Viu como o museu estava a precisar de obras?
Se vi! Eles vão vender-nos o quadro por tuta-e-meia.

Não tinha ainda passado uma semana, a quietude do museu voltara ao normal, um ou outro visitante de passagem, de vez em quando uma excursão ou outra, do passarinho vivo em natureza morta guardou o vigilante o maior segredo, que, afinal nem segredo seria, porquanto ele, vigilante experimentara, entretanto, sem sucesso, aproximado que fosse, enxergar passarinho ou réstia dele, quando toca o telefone, da secretaria da câmara. Vigilante, pode comparecer na câmara esta tarde, por volta das quatro? Sim. Pode encerrar esta tarde mais cedo. Deixe aviso na porta que o museu reabrirá amanhã com o horário habitual.
Tremeu o vigilante com a convocatória, nunca lhe tinha acontecido coisa assim em tantos anos de serviço, às quatro horas em ponto estava ele a entrar na secretaria.
Veio a secretária do vereador da cultura e desportos, como está senhor vigilante, ligou para aqui um senhor brasileiro, disse que esteve no museu há uma semana, que viu lá uma natureza morta, e que quer comprar o quadro ...
Sim, senhora secretária, tivemos a visita de uma excursão de brasileiros, aliás tínhamos tido antes outra de gente de não sei donde no dia anterio, esgotou-se há uns tempos o livro das visitas, requisitei outro mas ainda não chegou, e dois brasileiros quiseram falar com o nosso senhor presidente, logo naquele instante. Disse-lhes que não seria possível, que era dia de reunião da câmara, foi isto, portanto, na sexta-feira passada, depois metia-se o sábado, o domingo e o feriado municipal, disseram-me que nesse caso, porque tinham de voltar ao Rio e São Paulo, contactariam o nosso presidente pelo telefone.
E não disseram mais nada?
Disseram que queriam comprar o quadro.
E o vigilante que lhes disse?
Que o quadro era de museu, que eu soubesse, não estava à venda, depois eles disseram que tudo se compra e tudo se vende, pelo telefone fazem-se vendas de quadros por milhões e milhões. Ah! Já me esquecia, não sei se é importante, antes, no grupo da excursão anterior, um rapazinho, seis, sete anos, tinha estado a ver o quadro e afirmava que no canto inferior direito do quadro havia um passarinho, vivo, a esvoaçar. Às tantas andava toda a gente à procura do miúdo que faltava no autocarro, e, em pouco tempo estava toda a gente a ver se via ou não via o passarinho. Uns viam, outros não viam, e lá se foram sem acordo sobre o assunto.
Na manhã seguinte, logo que abri a porta entraram os brasileiros, uma dúzia, para mais, não para menos. E logo duas senhoras se puseram a admirar o tal quadro de natureza morta. Devem ter entabulado conversa sobre arte, pelos vistos tinham estado no Louvre e no Prado, às tantas estava todo o grupo a falar mais alto no museu do que o regulamento do museu permite. Para desanimar a discussão disse-lhes que um menino que tinha estado no museu no dia anterior tinha visto um passarinho vivo naquele quadro de natureza morta. Toda a gente se calou, e, calmamente, cada um se pôs a observar, a distância conveniente, o quadro para tentar encontrar o passarinho que, alguém admitiu, pudesse ser um beija-flor. Depois, discordaram todos entre si. Uns viam, outros não viam, uns às vezes viam, depois deixavam de ver, acabaram por sair todos menos dois, que, à viva força queriam falar com o senhor presidente. O resto já contei tudo, penso eu.
E o vigilante viu algum passarinho?, perguntou com sorriso irónico a secretária.
Não, senhora secretária, não vi, mas confesso que a minha curiosidade também me levou a espreitar numa altura em que não tinha visitantes na sala.
Não tem mais nada a acrescentar?
Sobre este caso, não, senhora secretária.
Obrigado, boa tarde!, despachou a secretária antes que tivesse ouvir o relato de casos que, certamente, o vigilante teria para contar mas não constavam da convocação daquele dia.

Na sessão da câmara da sexta-feira seguinte foi agendado, a pedido do vereador da cultura e desportos, o inusitado telefonema, depois confirmado por e-mail, de dois cidadãos brasileiros, convenientemente identificados e referenciados como industriais no sector da produção de etanol, propondo a compra de uma natureza morta que tinham visto no nosso museu há duas ou três semanas
durante uma visita ocasional no caminho para Lisboa, onde iam apanhar o avião para o Rio e São Paulo na segunda-feira seguinte ao da visita ao museu. Pela obra de arte, de autor anónimo, tido por pintada no séc. XVII, ofereciam os magnatas brasileiros trezentos e cinquenta mil cruzeiros.
Lida a proposta pelo vereador da cultura e desportos, insurgiu-se logo de seguida o mesmo vereador,  considerando a proposta simplesmente repugnante. Que pensam, esses ricalhaços pançudos, quem somos para vender património cultural nosso? Que estamos de rastos a ponto de vendermos aquilo  que é parte importante da nossa memória?
Seguiu-se o silêncio da praxe, aguardando a palavra do presidente.
Parece que o quadro tem passarinho, disse o presidente ao fim de alguns momentos de expectativa, por que não vamos lá dar uma olhadela? Já agora, aproveitamos para ver como está o museu, confesso que há já alguns anos que não entro lá.
Parecia à generalidade da vereação que talvez a visita ao museu fosse justificável, a maioria nunca lá tinha posto os pés, mas aquela do passarinho uma treta que só podia caber na cabeça do presidente.

E, na sexta-feira seguinte, depois da sessão da câmara foram até ao museu, considerando a visita um prolongamento dos trabalhos do dia.
Viram e consideraram unanimemente que o museu estava a precisar de obras urgentes. No canto do vigilante, por exemplo para o qual o mesmo chamara a atenção, pingava água em dias de chuva, obrigando o trabalhador a sentar-se noutro canto, menos conveniente para a observação do espaço.
Quanto à natureza morta com passarinho a voar, ninguém conseguiu ver passarinho algum, também os esforços foram poucos para não dizer negligentes, salvo o vereador dos cemitérios que viu e se entusiasmou com o que viu, e que nunca tinha pensado que alguma vez poderia vir a ver, uma natureza morta com um passarinho, talvez um beija-flor a voar.
Resumindo e concluindo, nenhum vereador, incluindo o vereador da cultura e desportos, nem o presidente, que foi o primeiro a observar e a dizer que não tinha visto passarinho algum, e, para irritar o vereador discordante, o dos cemitérios, que era da oposição, disse que só poderia ver passarinho naquele quadro quem tivesse defeito na vista.
Quanto é que oferecem os brasileiros?
Trezentos e cinquenta mil cruzeiros, líquidos de impostos.
Quanto é isso?
Hoje, para aí uns setenta mil euros, calculou o vereador tesoureiro, recorrendo ao telemóvel, mas,
cruzeiro não é moeda de transacção, amanhã pode não valer nada. Se queremos negociar devemos negociar em euros.
Responda-se que o quadro se vende por duzentos mil euros, disse o presidente, para logo acrescentar, se houver unanimidade da vereação, oposição incluída.
Duzentos mil euros dariam um jeitão, o orçamento tinha sido aprovado mas muito esmagado, com algum dinheiro daquele, inclusive, se repararia o museu que bem precisado estava de obras, como todos haviam visto.
Observou o vereador da cultura e desportos que a proposta de venda tinha de ser submetida a aprovação da tutela, mais prudente seria que não se contasse com o ovo ainda no ovário da galinha.
Vigilante, diga-nos quantas naturezas mortas temos em acervo? ... Na cave.
Para aí umas dez.
Em boas condições?
A mulher da limpeza passa-lhe com o espanejador todas as semanas.
Constam todas do inventário?
Peço desculpa mas não sei responder.
Saberia, ou deveria saber o vereador da cultura e desportos, mas não assim do pé para a mão.
A sessão camarária do dia terminou por ali, em inventário havia menos naturezas mortas que as que tinham sido contadas  no dia seguinte, e, para não alongar demais nem ser indiscreto mais do que a prudência aconselha, o que ouvi dizer é que, passados três meses, chegava a São Paulo, embalado com seguro assegurado pelos compradores, uma natureza morta onde uns viam, outros não viam, mas os compradores tinham visto, um passarinho, pequenininho a esvoaçar constantemente, para aí há uns trezentos anos, não menos, no canto inferior direito.
O valor da transacção foi colocado, por unanimidade e compromisso de confidencialidade, no saco azul, alegadamente por já não ter chegado a tempo de constar no orçamento aprovado para aquele ano. Oportunamente, seria feita a correcção com a justificação devida. E, na sala do museu, ninguém deu por falta de quadro algum, nem o vigilante nem  a mulher da limpeza que, como já se disse, era a
mulher dele.

Entusiasmados com a chegada do quadro, trataram os compradores de contratar agente que garantisse o lucro que uma natureza morta e viva merecia, quanto mais não fosse pela originalidade impossível no campo da física, talvez da física quântica, mas, se assim viesse a ser concluído, aquilo era negócio
para deixar para trás todos os recordes imagináveis por largo tempo.
Não fosse o diabo tecê-las, guardaram a natureza morta e viva num cofre forte capaz de se aguentar com uma bomba atómica, assegurou o vendedor do cofre forte.
Compareceu um agente, representante local de uma leiloeira mundialmente bem conhecida,  que não mencionamos, não vá alguém pensar que vivemos de publicidade, abriu-se o cofre, colocou-se o quadro em local com luz adequada, e, perguntou um dos vendedores ao agente se ele conhecia aquele quadro.
Aquele não, mas conhecia centenas, quase todos de autores conhecidos, reconhecia algum mérito à obra, mas não tinha valor que merecesse ser levado a leilão. Valeria, com boa vontade e muito amor às naturezas mortas, para aí uns duzentos mil cruzeiros, valor sujeito a correcção contra o câmbio o dia em dólares.
Duzentos mil cruzeiros, sem passarinho? Em quanto avaliaria o agente quando visse o passarinho?
Fortunas!
Sente-se, por favor, senhor agente aí em frente do quadro, concentre-se no canto inferior direito, o que vê?
O agente fez várias tentativas para ver algum coisa que não tivesse visto à primeira vista, pôs óculos, tirou óculos, usou lente, e disse, não vejo nada de especial, nem cagadela de mosca sequer. Talvez uma muito imperceptível ruptura mesmo no canto da tela, mas isso ocorre com muita frequência, com obras antigas e contemporâneas, é simplesmente irrelevante.
Caíram os corações aos pés dos industriais de etanol, agradeceram ao agente, depois mande a factura para pagarmos o seu trabalho.

Mal o agente saiu, sentaram-se e levantaram-se os dois industriais junto do quadro, tantas vezes que
ficaram-lhes derreados os ossos e a arder insuportavelmente os olhos.
O que é que se passou? O que é que se passou? O que é que se passou?
Trocaram os portugueses o quadro e mandaram-nos um, parecido, com peru bêbado e tudo, mas sem passarinho? Teria o passarinho aproveitado o voo no avião para se safar de um aprisionamento de três séculos?
Foram descansar, voltaram no dia seguinte, e, para os  mesmos ensaios, os mesmos resultados. Não havia dúvida, ou os portugueses tinham feito marosca, mas como prová-lo?, ou o passarinho andaria agora a voar, talvez por ali perto, mas quem é que poderia convencer um passarinho em liberdade a voltar para um quadro do séc. XVII, de mais a mais, uma natureza morta?
Talvez o Tancredo?
Quem?
O Tancredo é um restaurador, pessoa muito competente e idónea, talvez o Tancredo possa colocar-nos aqui um passarinho, afinal uma coisa que passa tão despercebida mas com tanto potencial.
Foram ter com o Tancredo.
O Tancredo estava de saída, era fim de dia, ouviu atentamente os parceiros, e foi peremptório recusando o trabalho, mesmo sem saber por que queriam aqueles dois etanois um rabisco seu numa obra antiga.
Porquê, Tancredo, diz cá ao teu amigo há tantos anos já, porque recusas uma coisa que para ti é uma pequeníssima pincelada, para ti que já fizeste tantas ... Quantas pinceladas já fizeste Tancredo, em toda a tua vida? Milhões e milhões, hem?!
Destas, que vocês me pedem, nunca fiz na minha vida. Nem vou fazer.
Tancredo, pagamos bem.
Não pagam, que eu não recebo.
Olharam os do etanol um para outro, fizeram sinal entre eles, e colocaram, cada um cinco mil cruzeiros num envelope.
Tancredo, se não te importas, ficas cá com o quadro na oficina até amanhã, e este envelope.
E decides livremente, se fizeres o trabalho, ficas com o envelope, se não levamos o quadro e o envelope, o que nunca deixaremos é de ser amigos como dantes. Nem teve tempo o Tancredo de dizer que não, porque saíram os dois antes que ele desse por isso.
Por prudência guardou o envelope num cofre que tinha escondido em lugar bem seguro, na cave.

No dia seguinte, aparecem-lhe os dois do etanol ao fim do dia, estava o Tancredo a fechar a loja, a começar a correr a cortina de aço que protegia a entrada. Entraram, olharam para o quadro e não viram o envelope. O Tancredo tinha cedido, estava o trabalho feito. Olharam os dois o quadro, e lá estava o passarinho. Entretanto, o Tancredo tinha descido à cave da oficina, quando subiu já os dois tinham sumido, tanta era a pressa para chegar a qualquer lado que, de cá de cima, disseram até um destes dias Tancredo e saído com o quadro.

Um ou dois anos depois, estava o Tancredo às voltas com uma restauração delicadíssima, entram os do etanol com cara de satisfeitíssimos da vida, dá cá um abração, desculpa termos saído naquele dia tão sem te dar um abraço, tinhas descido à cave, mas não esquecemos o que te deve ter custado fazer o que fizeste por nós. Nunca, nunca em caso algum contaremos a quem quer que seja esse trabalho que tanto te deve ter custado à consciência de homem impoluto. Fica para sempre entre a gente. Só te pedimos que aceites este envelope para tranquilidade  da nossa consciência e da nossa amizade.
Tancredo sentiu-se, por breves instantes, faltar-lhe o sentido do equilíbrio, tinha estado todo o dia envolvido num trabalho extenuante de restauro de uma obra valiosíssima, a exigir-lhe a máxima atenção, precisão, competência, e, a ouvir aqueles dois, não percebeu patavina da conversa deles. Quando recuperou a memória, subitamente nublada, passou a mão esquerda pela testa e, a segurar-se com a mão direita no corrimão que dava para a cave, desceu, e demorou-se lá por pouco tempo. Quando subiu, trazia um envelope com ele.

Tenho aqui o envelope que aqui deixaram há um, dois anos? o tempo passa depressa, esperando que vocês por aqui passassem. Nunca passaram e eu também não tive tempo, com o trabalho que tenho tido, de vos procurar. Mas aqui está ele, é vosso, e pelas mesmas razões não vou aceitar esse que me querem oferecer agora.
Mas porquê, Tancredo, tanta honestidade é exagero, amigão. Sabemos que foi só uma pincelada, nem pincelada sequer se deve chamar, mas foi uma pinceladazinha, que nos trouxe o passarinho de volta.
Queremos, fazemos questão, de partilhar contigo, ainda que simbolicamente, o trabalho teu, que sem ele, o passarinho nunca mais voaria.
Ao fim de muitas insistências de um lado e mais resistência do outro, saíram os do etanol com os dois envelopes

Se me perguntarem se eu vi ou não vi o passarinho, devo confessar que nunca vi o quadro.
Nem sei onde para agora.