Um casal simpático. argentinos, altos, saídos há pouco tempo da casa dos cinquenta, em viagem pela Europa, além do mais com passagem por Lourdes.
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Saturday, September 21, 2024
ARGENTINA
- Como vai a Argentina, agora com Milei na Presidência?
- Melhor, mas não tanto quanto podia ser se Milei tivesse maioria na Câmara Alta (Senado) e na Câmara Baixa (Deputados) mas não tem. As reformas possíveis têm melhorado a situação.
- Como explica a queda da economia argentina depois de ter sido uma das mais prósperas?
- O roubo, há muito roubo, o sistema de justiça não funciona, comprado pelos que roubam ...
- Mas quem rouba?
- Os políticos. Há muita prata (muito dinheiro) a circular e a fugir do país. Há muitos ladrões, sabes? Com Milei como Presidente, a situação está a melhorar ... Há menos políticos a roubar.
- Como é que está o vosso sistema educativo?
- Mal, muito mal, não há responsabilização, não há disciplina, os estudantes têm liberdade para fazerem o que quiserem.
- Contudo, segundo o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), o sistema de ensino na Argentino posiciona-se acima do português ...
- Ah, sim, mas é assim tão mau o o sistema de ensino em Portugal?
- Pior que na Argentina, se a classificação do PNUD está correcta.No ranking do índice de desenvolvimento do PNUD Portugal ocupa a 42ª posição e a Argentina a 47ª, tendo Portugal melhor classificação na esperança de vida à nascença e no rendimento médio, em termos de paridade de poder de compra, e pior na educação.
- É curioso ... Quem lidera o ranking?
- A Suíça ocupa a primeira posição, a Noruega, a Islândia, Hong Kong (China), Dinamarca, Suécia, Alemanha, Irlanda, Singapura, Austrália e Países Baixos, Bélgica, Finlândia, Lichtenstein, Reino Unido. Nova Zelândia, Emiratos Árabes Unidos (petróleo)...
- E a Coreia do Sul, que lugar ocupa?
- O 19º, a seguir ao Canadá. O Luxemburgo e os Estados Unidos da América, completam a lista dos vinte primeiros. Na Argentina, segundo este ranking, parece existirem problemas no sistema de saúde e na distribuição da riqueza.
- O sistema de saúde é mau. Nós temos o nosso seguro de saúde pago pela nossa empresa, pessoalmente não temos razões pessoais de queixa. Mas a política de portas abertas, que Milei quer contrariar, é responsável pela pressão sobre os serviços médicos pagos pelo Estado, em grande parte pelos imigrantes vindos de outros países vizinhos que recorrem a esses serviços médicos e se dispõem a trabalhar a qualquer preço.
- Quer dizer que Milei se propõe imitar Trump em questões de imigração.
- É isso mesmo.
- Apoiariam Trump se votassem nos Estados Unidos.
- Sem dúvida.
- Vão passar por Lourdes, já estiveram em Fátima, já passaram por Roma. Visitaram o Papa Francisco, um Papa argentino?
- Não, não. O Papa é muito político ...
- Não entendo ...
- Não considerou falsos os resultados na Venezuela e ilegítima a reeleição de Chaves.
- Mas pediu que fossem analizados os resultados.
- Não chega. O Papa é muito político.
- Ontem ouvi que o Papa voltou a considerar o aborto um mal que tem de ser condenado e a imigração uma necessidade que deve ser facilitada.
- Uma no cravo, outra na ferradura. É muito político. Não gostamos dele. É argentino, mas na Argentina era um desconhecido. Agora que o conhecemos, não gostamos dele. Diz ele que quer uma igreja dos pobres, se assim continua todos ficarão pobres. Não, não gostamos dele. É muito político.
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Tuesday, May 10, 2022
195 MILHÕES DE DÓLARES POR UMA SERIGRAFIA
Contínuos sinais de progressiva concentração na acumulação de riqueza e de continuada progressão da dispersão da desigualdade social

A Christie's, responsável pela venda, esperava que a serigrafia - intitulada "Shot Sage Blue Marilyn" - arrecadasse até 400 milhões de dólares. Ainda assim, o valor acordado coloca-a no segundo lugar do pódio, em termos globais, apenas atrás de "Salvator Mundi", de Leonardo da Vinci, que arrecadou mais de 450 milhões de dólares em 2017. Por outro lado, destronou os 110,5 milhões, pagos também em 2017, por uma pintura de caveira do norte-americano Jean-Michel Basquiat. - c/p aqui
Tuesday, August 10, 2021
HIPOCRISIA LíQUIDA
Por que chora o bilionário Messi?
Porque vai ganhar mais 45 milhões além de direitos de imagem e etc.
Leo Messi: “No sé el Barcelona, pero yo hice todo lo posible para quedarme”
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Friday, October 30, 2020
AFIRMA PIKETTY
" Qual é a mensagem deste novo livro, Capital e Ideologia?
Primeiro
é a de que se queremos resolver os problemas actuais, temos de olhar
para a história da desigualdade, para a história dos regimes
desigualitários. E a segunda grande mensagem é de optimismo. Quando olho
para a História, o que vejo é uma evolução rumo a mais igualdade e mais
prosperidade e penso que é possível continuar nessa direcção. Se
pegarmos nas lições da História, será possível continuar a avançar.
Correl . - Thomas Piketty vira Marx do avesso?
Wednesday, February 19, 2020
"THE SPLASH"

Na semana passada, "The Splash" foi vendido por mais de 23 milhões de libras.
Em Novembro de 2018, vd. aqui, atingiu os 90 milhões de dólares.
Valem tanto?
Se foram transaccionados por aqueles valores, valem. Nem mais nem menos.
Reflexos da acumulação de riqueza no percentil da estrema-direita da curva de distribuição de rendimentos.
Understanding "The Splash" of David Hockney
Tuesday, December 10, 2019
BANANA POR 120 MIL DÓLARES
Nunca tinha ouvido o nome dele, até ontem: Maurizio Catellan.
Deste artista lia-se no Público "Artista "com fome" comeu banana de 120 mil dólares de Marizio Catellan. Mais uma breve exploração na internet e constatei que a notícia já tinha dado a volta ao mundo vezes que ninguém será capaz de contar.
Afinal o Maurizio Catellan, que eu não conhecia, já anda a expor as suas criações em reputados museus desde, pelo menos, meados da década de 90.
Entre outras:
Resumidamente,
Catellan criou a sanita de ouro em 2016 para o Guggenheim Museum de Nova Iorque e foi instalada
numa das casas de banho do museu. Segundo informações dos serviços de guarda colocados para segurança da peça, (feita com 103 quilos de ouro, que em Setembro deste ano valia 4 milhões de dólares, como obra de arte poderá valer seis milhões), mais de 100 000 visitantes esperaram na fila para ver América.
Em Setembro de 2017, da Casa Branca solicitaram ao museu que emprestasse Landscape With Snow de Van Gogh para um dos quartos privados de Donald Trump. O curador do museu declinou o pedido mas ofereceu o empréstimo da sanita de ouro, América.
Da Casa Branca não veio resposta à proposta do museu.
Mas há mais sobre a América para quem quiser continuar a ler.
Assim vai o mundo. O espectáculo da arte é um espelho dele.
Tuesday, October 16, 2018
VOLATILIDADE AMERICANA
Daily chartAfter a year of #MeToo, American opinion has shifted against victims
Survey respondents have become more sceptical about sexual harassment

ONE
year ago Alyssa Milano, an American actress, posted on Twitter: “If
you’ve been sexually harassed or assaulted write ‘me too’ as a reply to
this tweet.” Within 24 hours she had received more than 500,000
responses using the hashtag “#MeToo”. Ms Milano’s tweet came days after
the New York Times and New Yorker had published
detailed allegations of sexual harassment by Harvey Weinstein, a
Hollywood producer. Mr Weinstein was the first in a long line of
prominent entertainers and executives to be toppled by such investigations, which dominated the headlines throughout late 2017 (see chart below).
Even
as these stories broke, it was #MeToo that resonated most on social
media, as millions of women shared their experiences of abuse,
intimidation and discrimination. In the past 12 months, the hashtag has
been tweeted 18m times according to Keyhole, a social-media analytics
company. The phrase has come to encapsulate the idea of sexual
misconduct and assault. In recent months American journalists have used
the hashtag in their articles more frequently than they have mentioned
“sexual harassment”, according to Meltwater, a media analytics
company.
c/p Aqui
c/p Aqui
Tuesday, December 12, 2017
TRABALHOS DE TRUMP
Trump, de algum modo, cumpre o que promete.
Prometeu reduzir os impostos sobre os maiores rendimentos, e está a conseguir.
É a política do Trickle down economics segundo a qual a redução dos impostos sobre os mais ricos beneficiará, por tabela, os mais pobres. E há muitos pobres que acreditam nisso: Trump foi eleito em grande parte com os votos de eleitores das regiões mais deprimidas dos EUA.
Quem também contribuiu em larga escala para a eleição de Mr. Trump foram as mulheres norte-americanas. Mesmo depois de contra ele terem sido disparadas, durante a campanha eleitoral, várias denúncias de práticas de assédio sexual. Curiosamente, a avalanche de denúncias do mesmo tipo, desencadeada nas últimas semanas a partir, sobretudo, de Hollywood, continua, aparentemente, a não causar mossa a Mr. Trump.
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Act. - Entretanto, o candidato democrata ao Senado dos EUA pelo Alabama, Doug Jones, causou surpresa ao vencer esta terça-feira o republicano Roy Moore naquele estado conservador, acusado de abuso sexual por oito mulheres, durante a campanha eleitoral.
Por outro lado, na semana passada, Al Franken, senador pelo Minennesota, acusado de condutas sexuais impróprias, anunciou que vai renunciar, aguardando que a Comissão de Ética do Senado o julgará inocente.
"Eu, como toda a gente, estou ciente de que há alguma ironia no facto de estar de saída (do Senado) enquanto um homem que se vangloriou, em registo gravado, da sua história de agressão sexual continua sentado na Sala Oval ... " - Al Franken, no anúncio de saída
Segundo estas notícias, o vendaval de acusações de casos de assédio sexual a derrubar políticos não vai dissipar-se tão depressa.
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Act. - Apesar dos esforços de Trump para acabar com o Obamacare, o número de aderentes está exceder as mais optimistas expectativas, aumentando a inviabilidade política do actual presidente anular os objectivos do acto mais representativo do governo do seu antecessor. - aqui
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Act. - Poderá uma acusação de obstrução à Justiça determinar um processo de impeachment a Trump em 2018.
Mais do que quaisquer denúncias ou testemunhos, serão os resultados das midterm elections que, se retirarem a Trump o suporte que ele ainda detém no Congresso, poderão determinar o desencadeamento do processo de impeachment ou garantir-lhe roda livre para continuar a proceder como até aqui até ao fim deste mandato. vd. aqui: ."Doubting the intelligence, Trump pursues Putin and leaves a Russian threat unchecked"
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Act. - Entretanto, o candidato democrata ao Senado dos EUA pelo Alabama, Doug Jones, causou surpresa ao vencer esta terça-feira o republicano Roy Moore naquele estado conservador, acusado de abuso sexual por oito mulheres, durante a campanha eleitoral.
Por outro lado, na semana passada, Al Franken, senador pelo Minennesota, acusado de condutas sexuais impróprias, anunciou que vai renunciar, aguardando que a Comissão de Ética do Senado o julgará inocente.
"Eu, como toda a gente, estou ciente de que há alguma ironia no facto de estar de saída (do Senado) enquanto um homem que se vangloriou, em registo gravado, da sua história de agressão sexual continua sentado na Sala Oval ... " - Al Franken, no anúncio de saída
Segundo estas notícias, o vendaval de acusações de casos de assédio sexual a derrubar políticos não vai dissipar-se tão depressa.
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Act. - Apesar dos esforços de Trump para acabar com o Obamacare, o número de aderentes está exceder as mais optimistas expectativas, aumentando a inviabilidade política do actual presidente anular os objectivos do acto mais representativo do governo do seu antecessor. - aqui
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Act. - Poderá uma acusação de obstrução à Justiça determinar um processo de impeachment a Trump em 2018.
Mais do que quaisquer denúncias ou testemunhos, serão os resultados das midterm elections que, se retirarem a Trump o suporte que ele ainda detém no Congresso, poderão determinar o desencadeamento do processo de impeachment ou garantir-lhe roda livre para continuar a proceder como até aqui até ao fim deste mandato. vd. aqui: ."Doubting the intelligence, Trump pursues Putin and leaves a Russian threat unchecked"
Friday, June 02, 2017
O PREÇO DA IMITAÇÃO DA POBREZA
A imitação da pobreza continua na moda, mas é cara, muito cara mesmo.
A Levi´s, suponho que foi a Levi´s, lançou há três décadas a moda dos jeans rasgados, desbotados, quanto mais esfarrapados melhores, e, portanto, mais caros. Compreensível: a aparência de empobrecimento ou leva tempo, e quem não quer andar fora da moda não espera até que o material empobreça, ou exige tratamentos adicionais, que têm custos.
Uma ou duas décadas antes, a arte povera tinha-se imposto a partir de Itália, e os criativos da moda pegaram na ideia.
Hoje reparo aqui que uma casa de moda de luxo francesa está a lançar no mercado uma linha de ténis rasgados, a um preço - 1400 euros - que será uma pechincha para quem recebe mesada de vários múltiplos do salário mínimo.
A explicação mais comum para este prestígio da decadência aparente junto dos jovens, com recursos materiais, é a afirmação de rebeldia. Mas não será antes, como sugere uma das inscrições no modelo acima, um sintoma de tédio precoce de jovens enjoados com tanta fartura à volta, mais uma consequência dos efeitos perversos da desigualdade social?
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Monday, February 01, 2016
DIREITO À INVEJA
A desigualdade é um obstáculo ao crescimento económico e ao desenvolvimento humano. Em situações extremas conduz, mais tarde ou mais cedo, à revolta colectiva.
E a nível individual?
A comparação que suscita estados de infelicidade naqueles que não podem atingir consumos que vêm promovidos e desfrutados por outros à sua volta pode conduzir a sentimentos perversos, de inveja e mesquinhez? Podem os menos favorecidos, quaisquer sejam as razões da desigualdade, os mais pobres, aqueles que a sorte não protegeu, as boas pessoas tornarem-se menos, ou até más, pessoas, por serem invadidos por sentimentos perversos, de inveja e mesquinhez?
Não é invulgar assacarem-se os portugueses sentimentos congénitos de inveja, - a última palavra dos Lusíadas, cita-se para reforçar o argumento, - mas será a inveja uma particularidade nossa ou propagou-se por todo o lado? As pessoas boas são levadas a comportamentos menos éticos em consequência das circunstâncias em que sobrevivem? A inveja é um direito que assiste aos desprotegidos da sorte?
Questões suscitadas pelo autor, norte-americano, em Boas Pessoas, em cena no Teatro Aberto.
Vale a pena ir até lá.
Questões suscitadas pelo autor, norte-americano, em Boas Pessoas, em cena no Teatro Aberto.
Vale a pena ir até lá.
Monday, August 17, 2015
ÉS RICO, POBRE OU ESTÁS NA MÉDIA?
O El País publicou ontem aqui um artigo sustentado num estudo/programa inter activo da OCDE - ¿Es usted rico, pobre o está en la media? Calcúlelo aquí.
Para alguns o programa será talvez irrelevante. Ou são bastante ricos ou muito pobres para não lhes restarem dúvidas da posição que ocupam na curva de distribuição de rendimentos. Em todo o caso, como o programa permite simular a situação relativa da cada um supondo que habita noutro país qualquer, a comparação pode surpreender muita gente.
Hoje, o mesmo diário publica aqui um outro artigo, - ¿Cuánta gente cumple años el mismo día que tú?- desta vez recorrendo a um programa interactivo - population.io - do Banco Mundial com alcance bastante mais extenso do que o título fará supor.
Wednesday, May 06, 2015
O PERFUME DA RIQUEZA
Há duas semanas atrás comentei aqui, e ontem, aqui , sobre o mesmo tema: a acumulação de riqueza na Ásia e a crescente participação dos investidores, japoneses e chineses (e a China é ainda governada por um sistema formalmente comunista, supostamente igualitário) no muito restrito grupo de investidores em obras de arte que atingem em leilões cotações galácticas.
Hoje retiro do Financial Times a notícia, aqui, dos resultados do leilão de primavera da Soteby´s, em Nova Iorque, onde três dos cinco lotes de topo foram arrematados por compradores asiáticos, que despenderam um terço do valor total de 368,3 milhões de dólares atingido pelas vendas realizadas.
Um investidor asiático não identificado desembolsou 61,3 milhões de dólares na aquisição de “L’Allée des Alyscamps”(1988) de Van Gogh, uma obra que tinha sido transaccionada em 2003 por 11,8 milhões de dólares, e que agora atingiu o valor recorde deste leilão. Em Novembro de 2014, Wang Zhongjun, um produtor cinematográfico chinês adquiriu, também de Van Gogh, “Still Life, Vase with Daisies and Poppies”, por 61,8 milhões de dólares, bem acima da estimativa de 50 milhões anotada aqui.
"Still life, Vase of Daisies and Poppies" (1890)
Van Gogh
61,8 milhões
Assim vão os negócios da China.
Que não envolvem apenas, e apenas em Portugal, a EDP, a Fidelidade, a REN, a Luz Saúde (antes, Espírito Santo Saúde), e, provavelmente, o Novo Banco. Para já.
Tudo à custa de muito trabalho chinês. Quem duvida?
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Sunday, March 08, 2015
A MULHER DO DIA
Os resultados apresentados pelo relatório do World Economic Forum de 2014 acerca das desigualdades entre homens e mulheres em todo o mundo - The Global Gender Gap Report 2014 - são, no mínimo surpreendentes. Portugal ocupa no ranking global a 39ª. posição ente 142 países, atrás de países como a Nicarágua, o Ruanda, as Filipinas, o Burundi, a África do Sul, o Equador, a Bulgária, a Moldávia, Moçambique, Cuba, a Bielorrússia, Barbados, Malawi, Bahamas, Lesotho, mas, ainda assim, à frente de Israel, da Itália, do Brasil, da China e (tinha de ser) da Grécia!
Se não acedita veja a página 16 do The Global Gender Gap Report 2014 mas tenha em consideração que o nível de desigualdade calculado pelo WEF é o observado em cada país de per si. A menor desigualdade entre géneros na Nicarágua que na Itália, por exemplo, não fará, certamente, as italianas invejarem a condição feminina das nicaraguenses. Na página 314 encontrará um detalhe da avaliação da desigualdade em género observada em Portugal.
Anteontem, o governo português anunciou - vd. aqui -, pretender que as empresas cotadas em bolsa se comprometam que, até ao final de 2018, 30% dos seus administradores sejam mulheres. Caso
este objetivo não seja cumprido, o governo pode avançar com uma lei de quotas disse Teresa Morais, secretária de Estado da
Igualdade à Renascença.
A ideia vem da União Europeia e é politicamente correcta. Os votos femininos excedem os masculinos em qualquer país da Europa. Imagino, contudo, que, para cumprir as quotas, daqui por três anos nos conselhos de adminitração as quotas femininas estejam preenchidas principalmente, se não exclusivamente, por mulheres ou amigas dos senhores administradores ou dos principais accionistas. E porquê apenas as empresas privadas cotadas, por que razão não adopta, desde já, o governo, ou a Assembleia da República, idêntica medida para os principais cargos da administração pública?
.
.
Se houvesse, neste dia internacional da mulher uma votação para a "mulher do dia" em Portugal, fora da órbita dos laços afectivos de cada um, eu votaria em duas: Maria José Pereira e Mariana Mortágua, ambas com 28 anos de idade.
Nenhuma delas é administradora de empresas nem provavelmente serão candidatas a esses cargos mas desse facto não resulta nenhum handicap que as torne menos superiores ou menos influentes que os mais capazes indivíduos masculinos da sua geração quaisquer que sejam os cargos que estes ocupem ou venham a ocupar em qualquer empresa, cotada ou não.
Merkel, o mais poderoso político da União Europeia e dos mais influentes em todo o mundo, nunca, que se saiba, administrou empresa alguma.
Merkel, o mais poderoso político da União Europeia e dos mais influentes em todo o mundo, nunca, que se saiba, administrou empresa alguma.
Sunday, December 07, 2014
DESIGUALDADE ENCOBERTA
O tema da desigualdade está na ordem dia. "O Capital no sec. XXI" de T. Piketty globalizou a discussão acerca das culpas da concentração da riqueza na redução do crescimento económico. Anteontem foi apresentado em Madrid o relatório da Organização Mundial do Trabalho (OIT) - vd. aqui - relativo ao período entre 2006 e 2010. Os dados divulgados no artigo do El País são críticos relativamente a Espanha, que terá observado o maior agravamento da desigualdade no conjunto dos países da União Europeia e os Estados Unidos da América, e lisonjeiros para Portugal, que terá observado um decréscimo na desigualdade entre o decil da população mais pobre e o decil da população mais rica.
E são lisonjeiros porque os efeitos das medidas de austeridade fizeram-se sentir a partir de 2011 sobre
os estratos sociais intermédios, vulgo classe média, que, quer pelo aumento do número de desempregados, quer por terraplanagem fiscal dos rendimentos, alargaram a faixa de pobreza e reduziram substancialmente os rendimentos médios dos restantes. Provavelmente, em 2014, não só a desigualdade entre os dez por cento mais pobres e os dez por cento mais ricos se agravou como, certamente se agravou muito mais ainda a desigualdade entre as classes colocadas nos decis intermédios e o decil superior.
Resumindo: Uma análise comparativa entre os rendimentos dos 10 por cento mais pobres e dos 10 por cento mais ricos ignora um segmento que representa 80 por cento da população, que, ou transitou parcialmente para a faixa de pobreza, ou suporta a solidariedade prestada ais mais carenciados, e viu, na sua maior parte, reduzidos os seus rendimentos.
Não li o relatório. Certamente que as suas conclusões vão além daquelas que o artigo do El Pais desvenda. Mas, porque se reporta a um período anterior à política de austeridade que castigou, e
continua a castigar, os países mais fragilizados, carece, flagrantemente, de actualidade.
Wednesday, November 26, 2014
DE QUE TE RIS, MARIA LUÍS?
Angel Gurría e Maria Luís Albuquerque
O Economic Outlook da
OCDE divulgado anteontem, e a que já me referi aqui, conclui, além
do mais, que a Zona Euro tem vindo a evoluir desde 2008 de modo frouxo e que
assim continuará pelo menos até 2016, admitindo que possa mesmo entrar num
longo período de crescimento débil. Pior do que isso são os dados da evolução e
as perspectivas da economia portuguesa: há retoma, em termos de PIB, mas é tão
anémica que não altera a perspectiva de que se manterá o sentido de divergência
da economia portuguesa relativamente à média da OCDE. No conjunto dos 34 países
da OCDE, Portugal é agora considerado um dos mais pobres e desiguais. E,
recomenda,
---
Correl.- Portugal diverge sete anos seguidos dos países mais desenvolvidos
OCDE vê Europa e Portugal em risco de estagnação prolongada
Bruxelas alerta: Portugal está em risco de incumprimento défice (28/11)
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pobreza
Wednesday, November 12, 2014
O CAPITAL NO SÉC. XXI
Soube-se hoje, vd. aqui, que "O Capital no Sec. XXI" de Thomas Piketty foi considerado pelo Financial Times e pela McKinsey Business Book of the Year, uma distinção que lhe atribui ainda um prémio de 30 mil libras.
A primeira referência a Piketty registada aqui, neste caderno de apontamentos, em Junho de 2008, está numa transcrição de um texto de Robert Reich (que foi membro do governo de Clinton para o emprego) no blog do economista norte-americano. Recordo hoje esta nota porque ela revela bem que já há seis anos Piketty tinha alcançado notoriedade mundial entre os seus pares. Em Maio deste ano, coloquei aqui um apontamento sobre a obra hoje premiada, quando ainda não a tinha lido integralmente. Há três semanas atrás, voltei a acrescentar aqui mais alguns comentários, a propósito do nosso embaraço com dívida pública.
Curiosamente, sendo Portugal um país onde é elevada a desigualdade social, o crescimento económico anémico e insuportável o peso da dívida pública, os três temas nucleares à volta dos quais Piketty construiu a sua abordagem, é quase total a indiferença que a obra do economista francês tem deparado aqui. Servirá a atribuição deste prémio, pouco tempo depois de ter sido lançada a edição em português, de estímulo a uma discussão das conclusões e propostas de Piketty? Seria útil.
A primeira referência a Piketty registada aqui, neste caderno de apontamentos, em Junho de 2008, está numa transcrição de um texto de Robert Reich (que foi membro do governo de Clinton para o emprego) no blog do economista norte-americano. Recordo hoje esta nota porque ela revela bem que já há seis anos Piketty tinha alcançado notoriedade mundial entre os seus pares. Em Maio deste ano, coloquei aqui um apontamento sobre a obra hoje premiada, quando ainda não a tinha lido integralmente. Há três semanas atrás, voltei a acrescentar aqui mais alguns comentários, a propósito do nosso embaraço com dívida pública.
Curiosamente, sendo Portugal um país onde é elevada a desigualdade social, o crescimento económico anémico e insuportável o peso da dívida pública, os três temas nucleares à volta dos quais Piketty construiu a sua abordagem, é quase total a indiferença que a obra do economista francês tem deparado aqui. Servirá a atribuição deste prémio, pouco tempo depois de ter sido lançada a edição em português, de estímulo a uma discussão das conclusões e propostas de Piketty? Seria útil.
Saturday, October 18, 2014
SOLUÇÕES PARA A DÍVIDA PÚBLICA
A Europa é a mais rica do mundo.
A Europa é a mais endividada do mundo.
A concentração da riqueza é imparável enquanto a taxa de remuneração do capital exceder o taxa de crescimento económico. A crescente desigualdade daí resultante é causa do decréscimo do crescimento económico, potenciando mais desigualdade.
Só há três, e não mais que três, soluções para a inversão da tendência de crescimento da dívida pública e a sua recolocação a níveis sustentáveis pelo crescimento económico:
- ou se repudia, com consequências negativas incomportáveis; a reestruturação, sendo uma forma negociada e suave que depende do acordo dos credores, terá sempre consequências negativas embora menos dramáticas que o repúdio; e, em qualquer dos casos, não se trava o efeito perverso do crescimento da desigualdade.
- ou se dissolve num quadro inflacionista que pode não ser contido e é gerador de mais desigualdade;
- ou se paga através de um imposto sobre a riqueza, dependendo o valor da taxa e o período de amortização da dívida do rácio dívida pública/riqueza acumulada.
Um imposto sobre a riqueza não é apenas a solução para a dívida pública dos estados europeus endividados mas para a sustentabilidade do próprio sistema capitalista a longo prazo. É o que, além do mais, diz Piketty. Vale a pena lê-lo e discuti-lo. A edição portuguesa acaba de chegar às livrarias.
Para quem quiser ler alguns comentários que o livro já suscitou tem aqui uma boa selecção.
Wednesday, March 05, 2014
A CRISE NÃO MORA LÁ
Sintoma muito evidente que há cada vez mais gente para quem a apropriação de dinheiro, muitíssimo dinheiro, é uma tarefa fácil e acelerada. A desigualdade social também nunca tinha atingido níveis tão elevados nas sociedades desenvolvidas. Nem os tráficos criminosos.
É esta a melhor altura para vender os Mirós? Continuo a pensar que sim. Por todos os motivos que têm sido apontados e mais um, por minha conta: repugnar-me-ia olhar para obras de arte arrematadas e arrumadas por um bando de patifes num buraco nauseabundo imenso que eles escavaram e que, quase todos nós, somos coercivamente obrigados a cobrir.
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Thursday, January 30, 2014
OS CAVALOS NÃO VOTAM
Pois não.
E foi esta a razão que levou à redução massiva do seu número quando o desenvolvimento tecnológico tornou redundante a sua força física no desempenho de múltiplas funções de carga e reboque. Sem direito a greve, nem a manifestação de descontentamento, nem a voto, o número de equídeos é hoje uma reduzida amostra do que era no começo do século XX. No caso do burro, o pachorrento e frequentemente maltratado burro, está mesmo em vias de extinção.
Por incrível que possa parecer, há quem, e não são assim tão poucos, a propósito da questão da desigualdade social e das consequências para o crescimento económico, defenda que tal como os cavalos se tornaram redundantes com o avanço tecnológico por não merecer mais a sua capacidade física o suficiente para os alimentar, também se confrontam com situação idêntica aqueles (seres humanos) que, no século XXI, por falta de habilitações não conseguem um salário decente.
A analogia é chocante mas a questão da desigualdade e suas consequências no crescimento económico recrudesceu nos últimos tempos e foi tema fulcral do discurso de Obama "Estado da União" proferido anteontem no Congresso. E a questão recorrente é esta: é o persistente crescimento da desigualdade decorrente do avanço tecnológico a causa ou apenas uma das causas da redução de postos de trabalho tecnologicamente menos avançados?
Segundo o articulista do Economist, 60% do crescimento do rendimento no top decile foi apropriado por indivíduos com funções financeiras, que em 1998 não seriam mais que 12% dos trabalhadores que se incluiam naquele grupo dos dez por cento melhor remunerados. Foi esta apropriação fruto de vantagens decorrentes de mais capacidades ou melhores habilitações ou resultado de acções e simulações fraudulentas que redundaram em perdas cuja factura foi depois apresentada aos que pagam impostos? Nos EUA em 2010, os top 25 hedge fund managers ganharam quatro vezes mais que o conjunto dos top S&P 500. Para quem tiver dúvidas, ver "The Wolf of Wall Street" pode ser útil.
Os homens votam, e é no exercício da democracia, que não se esgota no voto, no amadurecimento da consciência cívica, que os efeitos perversos da desigualdade sobre do desenvolvimento humano podem e devem ser pacificamente combatidos. "Se os ricos não cuidarem dos pobres, os pobres cuidarão dos ricos".
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Sunday, January 19, 2014
DESIGUALDADE E POBREZA
A desigualdade será o principal tema da mensagem sobre o Estado da Nação que o Presidente Obama dirigirá ao Congresso no próximo dia 28 de Janeiro. Uma redobrada razão para estar a aparecer em jornais, revistas e blogs uma vaga de artigos que está longe de correr toda para o mesmo lado. A Bloomberg BusinessWeek publica esta semana um quadro (aqui) elucidativo da evolução da situação de pobreza e uma série de slides (aqui, na versão on line) sobre a desigualdade, naquela que é considerada a mais rica nação do mundo.
A propósito do tema, seleccionei duas perspectivas diferentes: uma, de Krugman sobre o "o mito do merecimento de ser rico" (The Myth of the Deserving Rich) e outra, oposta, no Economist (Income inequality : Those crazy class-conscious leftists).
clicar no gráfico para aumentar
Para além da subjectividade que determina as conclusões de cada autor (cada um o que quer prova) há uma imagem objectiva traduzida nos gráficos isentos de manipulação. Estes, da Bloomberg BusinessWeek, não podem ser olhados com desconfiança por nenhum quadrante ideológico, e traduzem o recrudescimento da desigualdade e pobreza após a crise.
Em Portugal, as medidas de auteridade não terão agravado a situação de pobreza relativa (terão até reduzido, a julgar pelo que é citado e comentado aqui) mas não deixou de aumentar a situação de desigualdade nos quartis extremos. Quer isto dizer, que as medidas de austeridade, se reduziram o nível de pobreza relativa, essa redução foi paga exclusivamente pelas classes médias. No Top 1% cresceu a prosperidade.
Alguém tem dúvidas quanto a este último ponto?
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