Showing posts with label crescimento económico. Show all posts
Showing posts with label crescimento económico. Show all posts

Sunday, May 31, 2020

OPORTUNIDADE PARA O INTERIOR DO PAÍS


Há dezenas de anos que os sucessivos governos têm prometido acções de desenvolvimento do interior do país, cada vez mais desertificado.

Houve protestos contra a redução das escolas, dos correios, dos tribunais, e outras actividades, insustentáveis com a emigração do interior para o litoral, para o estrangeiro, para onde o desenvolvimento económico requeria emprego.
Entretanto assistia-se à entrada de imigrantes para desempenharem actividades que - argumento geralmente usado - os portugueses não aceitavam, ou porque não eram compatíveis com as suas competências ou não eram remunerados em conformidade com elas.
Dos projectos promotores com intenções de desenvolvimento no interior do país - o desenvolvimento anémico do país a nível global é outro tema - resultou pouco, o interior continuou a esvair-se de gente, a desertificação cresceu. As autoestradas de ligação ao interior, as SCUT, que se pretendiam gratuitas e muito virtuosas, segundo o pai da ideia, o sr. João Cravinho, promoveram sobretudo a facilidade de visitar o interior e voltar mais rápido para casa.

Mas há uma oportunidade para fazer crescer o interior proporcionada por esta experiência alargada de tele-trabalho forçado pela pandemia. Se o sr. Costa e Silva, convidado pelo primeiro-ministro para  "coordenar e negociar o Programa de Recuperação Económica e Social", acreditar, como eu acredito há três dezenas de anos, no fundamental da mensagem transmitida no vídeo que coloco a seguir, talvez possa eleger uma acção de colocação de funcionários públicos (incentivada ou para novos recrutamentos) em regime de tele-trabalho no interior do país. Atrás dos tele-trabalhadores, por consequência natural, seguir-se-iam os não tele-trabalhadores necessários aos primeiros: professores, médicos, entre outros.



Wednesday, January 02, 2019

POR CULPA DE QUEM?




para ver melhor, clicar na imagem 


Portugal rodará em 2019 na cauda do pelotão, muito chegado a França e a outros países comunitários, muito melhor posicionados na classificativa geral. Bem posicionado e a continuar a rodar com muito melhor andamento que os outros europeus continuará a Irlanda. No fim da etapa, e entre os membros da equipa da União Europeia, Portugal continuará a descer na classificativa geral.

Não, certamente, por culpa do ministro das Finanças português, considerado o Ministro das Finanças do Ano em 2018, segundo o "The Banker". 

Saturday, October 27, 2018

SUPER REALISTA AUSTRÁLIA








WHAT IS THE biggest problem facing America? Or Japan? Or Britain? Or France? Opinions vary, naturally, but some worries crop up again and again. Those of a materialist bent point to decades of slow growth in median incomes, which has bred disillusion and anger among working people. Fiscal hawks decry huge public debts, destined to grow even vaster as ageing populations rack up ever bigger bills for health care and pensions. Then there is immigration, which has prompted a furious populist backlash in the United States and all over Europe. That hints at what, for many, is the most alarming trend of all: the lack of any semblance of a political consensus about how to handle these swelling crises.

c/p aqui

vd. também aqui

Friday, September 01, 2017

O CALCANHAR DE CENTENO 2


O Banco de Portugal divulgou hoje aqui a evolução recente da Dívida Pública até ao fim de Julho.
Voltou a aumentar, rondando agora os 250 mil milhões.
Líquida de depósitos, a DP era de 230,3 mil milhões, 
Nuno Carregueiro do JN online volta a expressar aqui, em gráficos muito elucidativos, a evolução desse crescimento, que parece imparável. Parece ou é?
Enquanto a taxa de crescimento económico nominal for inferior à taxa média de remuneração da dívida, e é essa a situação previsível até ao fim do ano, cifrando-se a diferença em mais de um ponto percentual, a dívida em relação ao PIB continuará a subir, salvo se o saldo primário fosse suficientemente positivo para pagar a factura dos juros e amortizar dívida. Mas não vai ser.

Mas o ministro M Centeno afirmou, cf. aqui, que a dívida pública irá baixar até ao fim do ano dos actuais 132 vírgula umas décimas para os 127,9% estimados pelo Governo. 
A evolução da DP relativamente ao PIB é a prova ácida da gestão das finanças públicas, sobretudo quando, como é o caso, os níveis atingidos tornam a sua contenção muito dependente de factores externos.
Para que a relação entre a Dívida Pública e o PIB seja reduzida em cerca de 4,5 pp até ao fim deste ano (de eleições autárquicas) forçoso se torna que o ministro tire da cartola um extraordinário par de coelhos. Aliás, nada que não tenha sido recurso recorrentemente usado pelos vários governos, umas vezes por indisciplina grossa na gestão das finanças públicas outras, sobretudo desde 2008, porque as colisões bancárias têm provocado, e continuam a provocar, grossos rombos nos cofres públicos.

" ... a pressionar em alta (o endividamento público em Julho) também esteve o "acréscimo de empréstimos no montante 0,1 mil milhões de euros, resultante do aumento de empréstimos junto de bancos residentes, com destaque para o acordo assinado entre o Estado e o Banco Santander Totta respeitante aos contratos de derivados com empresas públicas de transportes (2,3 mil milhões de euros)" - cf. aqui.


Como é que M Centeno vai descalçar esta bota?

---
Correl . Hoje às 21,40 - Depois da Fitch, ontem foi a Moody’s a pôr a dívida em outlook positivo”. Agência só quer menos défice e dívida, e retoma ampla. - cf . aqui

Thursday, August 31, 2017

MAIS DÍVIDA E BOLAS FORA

O Prof. Cavaco Silva foi a Castelo de Vide dar aula na "universidade de verão" do PSD.
Sobre a intervenção do anterior PR publicou ontem o DN online, aqui, uma reportagem que, a avaliar pelo título - Cavaco arrasa Governo e faz críticas veladas a Marcelo -, destaca as afirmações mais contundentes do professor.

E o que disse CS de tão arrasante?
Além do mais, que são trocos quando as questões fundamentais para a opinião pública são outras, destacou "que a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia" para convocar Alexis Tsipras a testemunhar que "depois de uma certa bazófia inicial, correu com Varoufakis [o seu primeiro ministro das Finanças], pôs a ideologia na gaveta e aceitou negociar um terceiro resgate ainda mais duro". Conversa requentada.

Era preciso invocar a subjugação à troica para realçar a inevitabilidade de políticas de contenção da despesa pública? Não era.
O ex-PR poderia abordar essa inevitabilidade salientado a progressão até agora indomável da dívida. 
E a ameaça que esse monstro representa se as tendências dos mercados financeiros, por natureza instáveis, um dia destes se invertem, e os juros se tornam insustentáveis mesmo se a economia se espevita. 

Os indicadores económicos mais recentes divulgados pelo INE* são animadores, o Negócios online titula um artigo sobre o tema - O INE reviu em alta o crescimento económico do segundo trimestre do ano para 2,9%, o valor mais elevado em quase 17 anos. - que deve empolgar o Governo mas que não é indicativo de que os problemas estão resolvidos e a crise financeira ultrapassada. Bem longe disso, Portugal ainda não recuperou os níveis do PIB observados antes da crise de 2008. 

O ex-PR poderia ter voltado ao palco político como professor mas deu-lhe a veneta para o discurso partidário. 
31 de agosto de 2017
A taxa de desemprego de junho foi de 9,1% - Julho de 2017
30 de agosto de 2017
Índice de Produção Industrial acelerou - Julho de 2017
30 de agosto de 2017

Friday, December 09, 2016

DRAGHI NÃO CHEGA PARA AS ENCOMENDAS*

Concordo com a leitura que faz da mensagem de Draghi.

Draghi tem desempenhado com bastante competência e ousadia quanto baste para manter em funcionamento a caranguejola europeia. Tivesse sido o seu antecessor menos atento venerador e obrigado ao diktat alemão e o desastre das dívidas soberanas europeias não teria atingido, irremediavelmente, os níveis desastrosos que atingiu.

Em resumo: Draghi tem cumprido e promete continuar a cumprir.

Mas o cumprimento de Draghi não chega para as encomendas, que a outros competiria cumprir mas não cumprem. E a Europa, atingida de novo pelo vírus nacionalista, com agressivas estirpes racistas, que a destruiu na primeira metade do século passado, é outra vez o mesmo sonâmbulo a caminho do abismo.

O grotesco da ironia deste destino europeu avalia-se na esperança depositada na chanceler alemã continuar no posto e conseguir reunir os cacos que, no passado recente, a sua liderança política, ou a do seu ministro das finanças causaram. Afinal, se não for ela, quem pode ser?


Draghi faz o que pode e sabe fazer. Mas não chega para curar a Europa da furunculose que ameaça cobrir-lhe o corpo todo.   

---
* Comentário colocado aqui

Friday, February 19, 2016

POR 500 MILHÕES DE DÓLARES

Foram comprados por Kenneth C. Griffin, um multi-bilionário norte-americano, no Outono, mas o negócio só foi conhecido ontem à noite, dois quadros - Interchange (1955) de Willem de Kooning, e Number 17 (1949) de Jackson Pollock - supondo-se que o primeiro terá sido adquirido por 300 milhões e o segundo por 200 milhões de dólares. O quadro de de Kooning passa, deste modo, a deter o recorde do valor mais elevado atingido por uma obra de arte contemporânea nunca antes transaccionada.


















"Nafea Faa Ipoipo" (Quando é que casamos?)  de  Paul Gauguin, pintado em 1892 - vd. aqui -,  também foi transaccionado por 300 milhões de dólares em Fevereiro de 2015.  O que marca a diferença é o facto de Interchange (1955) de de Kooning ter atingido o mesmo valor recorde na primeira transacção. 

Segundo um artigo publicado hoje no FT - Auction houses: Art market on the block - "depois de uma década de recordes, a Sotheby´s e a Christie´s confrontam-se agora com uma escassez de obras primas".  

Uma afirmação que nos coloca desde logo perante uma dúvida: O que é uma obra-prima?

Friday, October 16, 2015

FOTOS DE FAMÍLIA

- Não é grave. Vamos estar dois meses sem governo? Em 2011, a Bélgica esteve 541 dias sem governo, e não acabou por isso ... 
- Pois não, mas a questão não se dirime entre acabar ou não acabar, aguentar ou não aguentar, mas em recuperar ou continuar a penar. A economia portuguesa não tem nem parecenças nem semelhanças com a economia belga. Ou a economia irlandesa, por exemplo. A economia, as finanças públicas (e privadas) portuguesas ainda se encontram nos cuidados intensivos. Alguém tem dúvidas disso?







c/p Economist

Thursday, September 17, 2015

POVO INDEPENDENTE

Os islandeses serão provavelmente, o povo mais cioso da sua independência. Poucos, cerca de 330 mil, mas orgulhosos da sua capacidade para ultrapassar as barreiras que a natureza ou os homens lhe colocaram pela frente. Deles se pode dizer que sempre se governaram porque nunca se deixaram governar. 

Na transição do primeiro para o segundo milénio já os godi, os representantes das comunidades, se reuniam em assembleia legislativa, anualmente no mesmo local, integrado hoje num parque nacional, para discutir e aprovar as leis que regiam as relações sociais em todo o território. 

Uma vez, a sua capacidade para consensualizar o modo de regular os seus interesses colectivos atingiu quase o ponto de ruptura quando o rei da vizinha Noruega, senhor de uma força naval considerável, entendeu que era tempo de os relapsos pagãos da Islândia abandonarem os seus ritos pagãos e as suas sagas e abraçarem a mensagem da Bíblia cristã.  

Por essa altura, já muitos habitantes da ilha, por uma razão ou outra, adoravam o crucificado. Reunidos os godi, o consenso tardou mas foi conseguido: Aceitaram o baptismo mas, quem quisesse, poderia continuar a adorar quem bem entendesse desde que o fizesse em privado; e, como prova irrefutável da sua conversão logo ali se fizeram baptizar e aclamaram o rei da Noruega como seu rei.
Este, no entanto, viria a morrer pouco depois numa batalha com outros vizinhos nórdicos sem nunca ter posto os pés na ilha ao lado. 

A mesma história repetir-se-ia ao longo dos séculos: sempre reinados por outros e sempre independentes. 

Halldór Laxness , Nobel da Literatura em 1955, é o gigante maior de um povo que se habitou a contar sagas nas longas noites árticas desde os começos da colonização do território no séc. IX.  Escreveu dezenas de obras, "Povo Independente" é uma novela épica deste povo geograficamente isolado mas culturalmente avançado. 
---
"Povo Independente" encontra-se traduzido em dezenas de línguas.  Em Portugal foi editado pela "Cavalo de Ferro"com o título "Gente independente".

Monday, August 31, 2015

O COMBATE DOS ALGARISMOS

Os "Destaques - Informação à Comunicação Social" do INE são, agora que a guerrilha partidária se excita com o aproximar das eleições legislativas, cada vez mais utilizados pelos blocos em confronto como armas de destruição lenta. Lenta, porque cada parte lê da forma que lhe convém, de modo que o cidadão comum acaba por ficar sempre confundido, salvo se for crente acredita piamente no que lhe dizem os seus pastores. 

Hoje sairam dois desses comunicados.
Um sobre o comportamento do desemprego, vd. aqui, que desceu para 12,1%, uma descida de 0,2 pontos percentuais. Quase nada, portanto, mas uma descida.
Outro, vd. aqui, sobre o crescimento de 1,5% do PIB no segundo trimestre deste ano, relativamente ao valor atingido no fim do período homólogo do ano anterior. Um crescimento que fica muito aquém daquilo que o país precisa para recuperar do tombo da crise, mas crescimento. 

Saiu, entretanto, vd. aqui, outro comunicado. Este, do PS. 
E sairão outros: 
do lado dos partidos do Governo para enfatizar as proezas em que poucos, há um ano atrás, acreditavam serem possíveis; 
dos lados das oposições para desvalorizarem os valores publicados quase em vésperas de eleições. 

O comunicado de Mário Centeno tem o mérito de esclarecer de forma sucinta aquilo que tem sido dito e repetido sobre a ilusão dos números estatísticos isolados. O desemprego desceu, mas também desceu emprego, e bastante. Houve crescimento económico, pois houve, mas decorreu sobretudo do aumento da procura interna, muito sustentada no aumento do crédito bancário ... para a  compra de automóveis. 
O que é verdade.

Mas também é verdade que a crise, que irrompeu em 2011, foi engordada durante anos pelo crescimento da procura interna - privada e pública - pela importação desmedida e irresponsabilizada de dívida externa. E que o Programa Eleitoral do PS, onde Mário Centeno tem contributo relevante, cf. Estudo Sobre o Impacto Financeiro do Programa Eleitoral do PS, recorre à dinamização da procura interna como mola mestra para animar o crescimento económico. 

Se houvesse mais honestidade intelectual e menos ânsia de poder pelo poder, poderiam concertar-se os rombos do barco com menos chinfrim.

Sunday, August 23, 2015

QUE PARTE DA RIQUEZA PROVEM DE LIGAÇÕES POLÍTICAS?

O Washington Post publica hoje, aqui, dois artigos correlacionados - How much wealth comes from political connections? - e - Why some billionaires are bad for growth and others aren´t - que julgo interessantes, apesar de Portugal não estar inserido no restrito conjunto de 20 países abrangidos pelo primeiro.

A questão da desigualdade económica como factor travão do crescimento económico tem vindo a ser debatida nos meios académicos e políticos, sobretudo após publicação do "Le Capital au 21e siècle" de Thomas Piketty. Mas serão as conclusões de Piketty incontestáveis ou, pelo contrário, há situações de acumulação de riqueza que favorecem o crescimento económico das nações? Segundo um estudo aceite pelo "Journal of Comparative Economics" não é sobretudo o nível de desigualdade que implica com o crescimento mas as causas que estão na origem da acumulação de riqueza. É nociva a acumulação de riqueza sustentada em ligações políticas, é geralmente virtuosa a que é angariada em confronto concorrencial. 

No quadro publicado, que não consigo aqui reproduzir, é, pelo menos para mim, inesperado o posicionamento da Austrália, um dos países mais desenvolvidos do mundo, mas onde, segundo os autores, 65% da riqueza acumulada é fundada em relações políticas. É a Austrália a excepção que confirma a regra?

Não sei onde se posicionaria Portugal se constasse do grupo. Entre os três países latinos - Itália (41%), Espanha (30%), França (4%) - há uma divergência relevante. Considerando que a fonte da análise é o  ranking da Forbes, os bilionários portugueses mais notáveis - Américo Amorim, Soares dos Santos, Belmiro de Azevedo - não parecem suspeitos de evidentes favores dos políticos. Mas, os outros, os que se governam ou governaram das suas ligações no governo, quanto pesam? Alguém sabe? São públicas, ou quase, algumas dessas ligações que, se não os guindam ainda ao palco da Forbes, terão importância global relevante considerando o número de suspeitos.
.
Tantos que é notável que o sr. José Sócrates esteja preso preventivamente supostamente suspeito de angariação de fortuna por aproveitamento das funções políticas que exerceu ou quando as exercia.

Sunday, July 26, 2015

QUANTAS VEZES JÁ PASSOU A CRISE?

Aproximam-se as eleições legislativas.

Novos empréstimos para habitação e consumo cresceram 52% e 25% entre janeiro e maio, voltando a níveis pré-troica. Caiu 32% o crédito às empresas no mesmo período. Cf. aqui
António Costa (jornalista) : Os bancos têm os cofres vazios. Cf. aqui

Foram vendidos 91.075 veículos ligeiros nos primeiros cinco meses de 2015, representando um crescimento homólogo de 30,3%, valor que ultrapassa o número de veículos registados durante o mesmo período de 2011. A manter-se este volume de vendas, o número total de veículos vendidos em 2015 poderá ultrapassar as 200 mil unidades. Renault, Peugeot, Volkswagen, Mercedes-Benz, Citroën e BMW mantêm, por esta ordem, os seis primeiros lugares da tabela de vendas de ligeiros. Cf. aqui
 
Entre março e maio, o défice da balança comercial ampliou-se 611,4 milhões de euros para -2.965,8 milhões de euros e a taxa de cobertura diminuiu 2,2 pontos percentuais para 81,3%. Cf. aqui

Após um crescimento de 0,9 por cento do PIB em 2014, prevê-se uma aceleração para 1,7 por cento em 2015. Cf. aqui

No fim de maio a taxa desemprego era, estatísticamente, de 13,2%, ainda a quinta mais elevada da União Europeia. Cf. aqui

Passos garante que a crise já acabou. "Pusemos a crise para trás" - Cf. aqui

Resumindo: Os bancos têm os cofres vazios mas aumentaram o crédito para habitação e consumo. As vendas de automóveis continuam de vento em popa. Consequentemente, voltou o défice comercial e o aumento da dívida externa privada. O ténue crescimento económico é alimentado pelo crescimento do consumo e este pelo crescimento do crédito externo. 
Passou a crise? 
Quantas vezes?

Wednesday, February 04, 2015

DE MÃOS DADAS


Estimado António,

Posso também ter, e tenho, as minhas dúvidas acerca do rato que vai sair da montanha, mas não podemos deixar de reconhecer que negociações são feitas de avanços e recuos.

Desagrada-me muito a ideia de ter de pagar para os gregos. Aliás, se as estatísticas da ONU (PNUD), do FMI e da CIA, entre outras, estão correctas,o rendimento médio per capita grego, em termos de paridade de poder de compra, é agora equivalente ao português, apesar do trambolhão que eles deram (-25%) ter sido muito superior ao que demos nós (-6%).

Parece-me, no entanto, que não devem subestimar-se as propostas que colocaram em cima da mesa: pagam a dívida consoante lhes permitir o crescimento económico. Pode ser de outro modo?
Alguém alguma vez pagou a outrem se não tiver com quê?*

E, repara aqui como já andam de mãos dadas.
---
* Excluindo propostas ultrajantes como as de dois deputados alemães, um liberal, outro democrata-cristão, que em Março de 2010 - vd. aqui - defenderam que a Grécia deveria vender as ilhas para reduzir o défice orçamental.
---


Em 1953, a delegação alemã assina o acordo que lhe perdoaria parte da dívida e lhe atribuiria juros favoráveis para pagar o restante. Hoje, a Alemanha é a principal credora de países como a Grécia ou Portugal e é contrária a um perdão dessa dívida - c/p aqui
---
Correl .
- Yanis Varoufakis : Confessions of an Erratic Marxist /// 14th May 2013

Refém de Atenas

Wednesday, January 14, 2015

ECONOMIA E MORAL

"O que é a economia? Qual o seu alcance? Esta nova religião, como é por vezes rotulada, de onde veio? Quais são as suas possibilidades e as suas limitações e fronteiras, se é que existem? Por que estamos tão dependentes de um crescimento permanente do crescimento, e de um crescimento de crescimento do crescimento? De onde veio a ideia do progresso, e aonde é que ele nos conduz? Porque é que há tantos debates económicos acompanhados de obsessões e fanatismos? Estas questões ocorrem a qualquer pessoa que pense mas só muito raramente as respostas vêm dos economistas"  - Václav Havel - Prefácio a Economics of good and evil de Tomas Sedlacek

"A proibição (de  "O Velho Testamento") de não trabalhar ao sábado é uma mensagem de que o propósito da criação (produção) não tem um fim único ... a criação é um processo, não é um propósito. O objectivo último de qualquer criação não é mais outra criação mas a fruição do que foi criado. Dito em linguagem económica: o sentido da utilidade não está no crescimento permanente mas na fruição dos ganhos obtidos. Por que razão nos dizem constantemente como aumentar os ganhos e não como usufrui-los, como ter percepção deles? Esta dimensão desapareceu da economia de hoje. A economia não considera   qualquer objectivo de desfrute no meio do trabalho. Hoje, os mandamentos da economia resumem-se ao crescimento pelo crescimento, e se a tua empresa ou o teu país prospera, isso não significa que possas descansar mas que deves continuar a obter mais e melhores resultados" - Economics of good and evil - resumo de pg. 89.

Monday, January 12, 2015

QUEM ESTÁ PIOR: A GRÉCIA OU PORTUGAL?

As expectativas quanto aos resultados das eleições legislativas gregas, dentro de duas semanas, estão a a elevar a tensão nos mercados financeiros, com particular incidência na zona euro, sobretudo porque o Syriza lidera nas sondagens, embora com margem apertada, e Alexis Tsipras  prometeu colocar os credores perante a inevitabilidade da renegociação da dívida pública grega, envolvendo eventualmente mais um hair-cut, invocando que os níveis atingidos - 175% do PIB - a tornaram insustentável. 

Esta, a pergunta que titula um artigo publicado no Financial Times, a que o seu autor - Lorenzo Bini Smaghi -, um credenciado economista italiano, responde, concluindo após apresentação de argumentos, que "a dívida grega não parece tão insustentável quanto os 175% do PIB podem sugerir." Mais problemática que a dívida pública grega, segundo Smaghi, será dívida pública italiana, a espanhola e a portuguesa. 

Porque,
"- a carga dos juros será de cerca de 4% do PIB em 2015, inferior às da Irlanda, Portugal ou Itália, e próxima  da dos EUA; Isto porque os credores aceitaram a redução das taxas de juro para níveis semelhantes aos dos membros da zona euro com melhor reputação financeira;
- é esperável que a Grécia observe este ano um crescimento do PIB perto de 3%, acima da média da zona euro;
- é esperável que a Grécia atinja este ano um saldo primário de 4,1% (de 1,4% em 2014), melhor que Portugal e a Itália;
- consequentemente, a dívida reduzir-se-á em 7 pontos do PIB em 2015 e 11 pontos em 2016, situando-se em 135% do PIB em 2019. Em Portugal a dívida reduzir-se-á em 2 pontos este ano e 1,5 no próximo ano. Em Itália a dívida deve estabilizar-se à volta de 135% do PIB este ano e em Espanha no próximo ano. Na Irlanda está prevista uma redução de 1 ponto em 2015 e 2,5 em 2016.
- resumindo, a dívida grega parece mais sustentável que a de outros países da zona euro, nomeadamente Portugal, Espanha e Itália. O PIB/capita caiu cerca de 25% desde a erupção da crise. Na Itália caiu 13%, em Espanha 9%, em Portugal 6%. No entanto, apesar da queda seu rendimento per capita médio grego ainda está 8% acima do valor à entrada na união monetária, melhor que Itália e Portugal. Isto porque, entre 1999 e 2007 o crescimento rendimento médio foi de 36%, três vezes o da zona euro, o que, por outro lado, explica a razão do reajustamento com que agora se confrontam. 

Como a quase totalidade da dívida grega está parqueada no Fundo Europeu de Estabilização Financeira,os custos decorrentes de uma eventual renegociação da dívida grega recairão sobre os contribuintes dos outros estados membros."

O Governo do sr. Passos Coelho tem-se reclamado como estrito cumpridor dos compromissos assumidos e de espectador das cedências ao país credor mais renitentemente incumpridor, esperando que Portugal possa beneficiar, por tabela, daquelas cedências. E é verdade que algumas vantagens foram obtidas. Mas serão suficientes? 

Dito de outro modo: Se a dívida pública grega for sustentável, também será sustentável a dívida pública portuguesa? Não. Se os argumentos do sr. Smaghi são consistentes, se as estatísticas gregas já não são falseadas, Portugal estará já em piores lençóis que a Grécia. Esperar sempre por aquilo que vai acontecer lá não parece a melhor estratégia para alterar o rumo que a dívida pública, e sobretudo a economia, por que é na economia que todos as ameaças e todas as oportunidades se reunem,  levam por cá.

Friday, January 02, 2015

O QUE DIZ PIKETTY

Piketty recusou ontem a distinção de cavaleiro da Legião de Honra francesa invocando que não deve competir ao Governo a decisão de quem é "honorável". Não foi o primeiro. Camus, Marie Curie, Sartre, entre outros, recusaram no passado a distinção. No caso de Piketty, é a razão invocada pelo economista que torna mais saliente a sua decisão: não o tendo dito explicitamente é muito óbvio que Piketty não reconhece ao governo (a este e a qualquer um) honorabilidade para distinguir os "honoráveis". É difícil, creio eu, não concordar, também neste caso, com ele.

- Já leste o "Capital no Séc. XXI"?
- Piketty, é isso?
- Esse mesmo.
- Li, li. Mas é uma estopada de séries estatísticas e de conclusões erradas.
- E, tu, leste?
- Já não tenho pachorra para coisas tão pesadas.
- E a ti, que te parece?
- Desde logo, embirro com o título ...
- Mas  foi distinguido como livro do ano pelo Financial Times e pela Mckinsey ...
- Pois, ...

O DN de hoje transcreve aqui uma entrevista concedida em Outubro do ano passado. Para quem não esteja disposto a ler e perceber mais de nove centenas de páginas, esta entrevista resume o pensamento de Piketty. Depois de, já há alguns meses atrás, ter lido o pesado "Capital no Séc. XXI" confesso que não sei se todos os dados e resultados de Piketty são exactos e todas as conclusões pertinentes. Mas sei que me identifico com as suas previsões e as suas propostas. Até que me convençam do contrário.

---

Para memória futura, não vá o DN descontinuar o registo.

"Crescimento de 4% ou 5% acabou e os políticos já perceberam isso"

por Manuel Queiroz em ParisHoje
"Crescimento de 4% ou 5% acabou e os políticos já perceberam isso"

Thomas Piketty, economista francês que recusou condecoração do governo, defende que o capital está cada vez mais concentrado porque a rentabilidade do capital cresce mais do que a economia e os salários. 


O economista francês recusou ontem a distinção de cavaleiro da Legião de Honra francesa por considerar que não cabe ao governo decidir quem é "honorável". Piketty defendeu ainda que o Executivo francês faria bem se "se dedicasse a relançar o crescimento em França e na Europa". 

Autor do livro "O Capital no Século XXI", o economista deu, a 19 de outubro do ano passado, uma entrevista ao Diário de Notícias, que pode ler na íntegra:

A certa altura no livro põe a questão central: trabalho ou herança. As desigualdades que o seu livro quer provar que vão num sentido crescente, com o rendimento do capital muito mais elevado do que o do trabalho, podem mesmo acabar onde?
Vamos numa direção de mais desigualdades, mas até onde não sei porque isso depende de tomarmos medidas. A principal conclusão é que é preciso mais transparência, menos opacidade, para não termos um dia uma sociedade muito diferente daquela que pensamos que estamos a construir e que deve ter por base o mérito de cada um e a igualdade de oportunidades. O problema é que tivemos uma longa fase de reconstrução, depois das duas guerras mundiais, que teve taxas de crescimento da economia anormalmente altas - do ponto de vista histórico - e tão longas que pareciam infinitas. Para as novas gerações não voltaremos aos tempos de Balzac e do seu Père Goriot, mas será outra coisa em relação àquilo que nós conhecemos. Para saber o que vai ser, teremos de nos ir adaptando e tomando medidas no sentido de o mérito e o trabalho serem decisivos e que a herança o seja menos.
O capitalismo é o pior dos regimes económicos com exceção de todos os outros, como Churchill dizia da democracia?
Acho sobretudo que há diferentes maneiras de organizar as instituições que permitem continuar o capitalismo. É que de outro modo arriscamos que seja a democracia a estar ao serviço do capitalismo, em vez do contrário. Não sou marxista, sou pela propriedade privada, mas há coisas que a propriedade privada não sabe fazer. Não podemos ter uma desigualdade que aumenta porque o rendimento do capital, das rendas, das heranças, é muito maior do que o do trabalho, em que nascer numa família com posses é muito mais seguro para ter uma vida boa do que trabalhar muito, a não ser que se consiga entrar no centil ou decil superior dos salários, como alguns managers. Quando a taxa de rentabilidade do capital, que eu utilizo quase como definição de património porque englobo todos os ativos, é maior do que a taxa de crescimento da economia como foi sempre até ao século XIX e deve voltar a ser neste século, isso quer dizer que as desigualdades aumentam e, certamente, pela via pior, que é a da herança. Há que regular a riqueza e a sua redistribuição.
E no fundo o seu livro aponta num sentido aterrador: as desigualdades da Belle Époque, a que podemos estar a voltar segundo as suas contas, acabaram em duas guerras devastadoras...
Bem, não é inevitável, quero crer. Há diferentes formas de retorno aos nacionalismos. Há uma fração crescente da população que acha que a mundialização não traz coisas boas para eles e esse é o risco principal. Em certos países, é inegável que as desigualdades têm contribuído para conflitos difíceis. Penso sobretudo no Médio Oriente onde as questões ligadas ao petróleo e aos rendimentos dele derivados têm um papel importante. Mas a guerra não é uma fatalidade. As sociedades democráticas têm de se saber regular e encontrar os caminhos para resolver os problemas.
Mas uma das ideias essenciais da sua investigação é que, historicamente, o crescimento normal é 1% ou à volta disso.
As pessoas não dão conta que, no longo prazo, se a economia crescer 1% ao ano, real, ou seja expurgada a inflação, numa geração, em 30 anos, o crescimento composto é de 35%, o que é muitíssimo. É uma transformação muito grande da sociedade, muito rápida, é uma mutação em que já é difícil toda a gente encontrar o seu lugar. O crescimento mundial desde a Revolução Industrial, desde 1712, foi em média de 1,6%. Ao longo de três séculos. Metade desse crescimento tem diretamente que ver com o crescimento da população e o resto veio da melhoria da produtividade. Parece um crescimento minúsculo, mas mudou tudo na nossa sociedade. O que fazer então nesta altura? Eu não sou adepto do crescimento zero, mas claro que temos de pensar num crescimento mais limpo, temos de investir na energia e na formação, porque se já temos muita gente nas universidades temos de dar essa oportunidade realmente a todos. A difusão do conhecimento é a força mais poderosa que tende para a igualdade de condições entre todos a longo prazo. É um dos setores em que tem de se investir largamente - ainda não proporcionamos oportunidades iguais a todos no que toca a formação.
Nestes países, as pessoas vão ter de se habituar a que não podem trocar de carro todos os quatro ou cinco anos ou de telemóvel de dois em dois anos...
O que eu digo no livro é que os períodos de crescimento a 4% ou 5% são raros na história e só acontecem em períodos de recuperação. Como na França e na Alemanha depois da Guerra, ou com a China e os BRIC agora. Aquilo a que eu chamo o "retorno ao normal" quer dizer voltar a períodos como o do início do século XX, em que havia muita inovação, os primeiros carros, o telefone. Mas claro que temos de nos habituar. Uma das coisas importantes é que os políticos já adaptaram o discurso a esta nova realidade de crescimento de 1%.
Acha que sim? Em Portugal não...
Bem, não conheço o caso particular, mas na generalidade na Europa isso já acontece. Já ninguém acredita que se possa voltar a crescimentos de economia de 3% ou 4% no nosso continente, porque não será possível.
Sem crescimento o que pode fazer a Europa?
Aí já entramos na análise mais de futuro. A crise na Europa é de dívida, mas nós conseguimos transformá-la numa crise mais importante do que noutros lados. A moeda única é um sistema que não promove uma igualdade de taxas no seu interior, o que é impensável. Chega a haver diferenças de 5% nos juros pagos para contrair dívida, o que quer dizer que o mercado, num caso desses, está a dizer que acredita que dentro de cinco ou dez anos um dos países deixará o euro. Fizemos prova de egoísmo em relação aos países do Sul simplesmente porque a Alemanha e a França - sim, a França também - disseram que nunca iriam partilhar as taxas de juro. O resultado é mais crise.
Uma das coisas que diz no seu livro é que sem inflação não vão pagar-se as dívidas...
Pelo menos, sem inflação a diluir uma parte das dívidas vai demorar muito, muito tempo a pagar. É isso que mostra a história - não se pode reduzir a dívida rapidamente com uma inflação tão baixa. O Reino Unido no século XIX é uma boa prova disso. A Itália gasta 7% do PIB em juros, é mais do que gasta nas suas universidades. É incrível! É inacreditável! O rendimento do património progride mais do que a dívida e a dívida é em grande parte até interna - está nos bancos e fundos europeus. E nós não conseguimos arranjar maneira de a pagar ou de a reduzir? É difícil pôr em comum as dívidas, ou seja pôr uns a pagar a dívida dos outros, mas é possível partilhar as taxas. Pôr em comum as taxas, não as dívidas. E isto mudava tudo. Os países deixavam de estar submetidos aos fundos e aos mercados da forma que estão. Pedimos ao BCE um papel heroico que é o de escolher entre as dívidas, como se a Fed americana tivesse de escolher um dia a dívida da Califórnia, outro dia a do Texas e por aí fora. Enquanto os governos europeus não derem esse passo decisivo a desconfiança será muito profunda e agravar-se-á. Há um egoísmo nacional da Alemanha e da França...
Mesmo de Hollande, em quem votou, suponho?
Sim, votei Hollande. Eu acho Sarkozy de uma direita perigosa, mais próxima de Berlusconi do que de De Gaulle, para dar uma ideia. Sarkozy estigmatiza os trabalhadores imigrados de uma forma que me parece indigna. Mas Hollande é tão egoísta e vê as coisas tão a curto prazo como Merkel. E assim não se pode avançar.
Falou de Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu [BCE], há pouco. Também o elogia?
Draghi tem procurado corresponder ao interesse geral. O BCE tem a vantagem de não estar bloqueado pela regra da unanimidade e toma decisões por maioria. Se tivéssemos mais disso na Europa - regra de maioria - as coisas seriam diferentes. Pomos a soberania em risco e depois temos um sistema muito antidemocrático entre os países, com a Comissão e tal. É tudo muito opaco. É por isso que proponho um parlamento da zona euro, com deputados cooptados nos parlamentos nacionais. E veremos o que dá, veremos como a Alemanha fará se ficar em minoria. Proponho isso no livro, se calhar começando apenas com uma parte dos países...
Lá está, a regra da unanimidade é defendida pelos países mais pequenos...
Pois, mas as instituições europeias têm de ser modificadas. Esse parlamento permitiria um debate à luz do dia, fora dos conselhos fechados, sobre o euro. Não podemos viver com uma moeda única e querer depois cada um manter o seu défice sem nenhum controlo.
Vem aí o semestre europeu de que a esquerda não gosta...
Eu sou contra o semestre europeu, que é negativo. Vamos ver no outono como vai gerar descontentamento entre todos e desde logo com a França, que não quer manter os compromissos do défice. Toda a gente vai ficar descontente. Mas não se pode ser contra tudo e é preciso propor soluções. A esquerda às vezes parece que quer que tudo acabe em planos sociais. Não sei o que decidiria um parlamento da zona euro, como reagiriam os deputados alemães. Mas seria democrático um debate parlamentar sobre isto. É difícil, reconheço, mas não vejo outra solução. E claro que tem de haver algum controlo sobre os défices.
Imagino que Durão Barroso, de saída da presidência da Comissão Europeia, não lhe seja muito simpático.
Não é bem a pessoa, é mais um problema de instituições. O BCE tem sido melhor porque tem regras melhores, mais adaptadas, e a Alemanha fica muitas vezes em minoria nas decisões do BCE. Mas pode haver, isso sim, um problema de geração com Barroso, como também com Angela Merkel. Para eles a Europa é importante porque permitiu a democracia de Lisboa a Varsóvia, o que é formidável, mas isso já não chega para as novas gerações, que querem mais. Tem de haver uma política da Europa mais forte e determinada, que se preocupe com a regulação mundial do capitalismo. Será normal que os Estados Unidos multem como têm feito os bancos europeus sem nenhuma reação? Será possível que as taxas de imposto real das grandes empresas sejam mais baixas na realidade do que as que pagam as pequenas e médias empresas? Barroso brilhou pela ausência em tudo isso. E mal.
Acha que a esquerda já conseguiu reconhecer-se numa narrativa sobre a crise?
Não, claramente não. Perturba-nos muito que a crise financeira de 2007-2008, dos excessos da finança, das acusações aos mercados, se tenha tornado, em 2010--2011, uma crise de dívidas soberanas, de Estado social, e ainda não saímos dessa contradição. A verdade é que, ao contrário do que alguns dizem, esta crise não foi tão grave como a dos anos 1930, em boa parte porque os governos não deixaram cair o sistema financeiro. E depois nos anos 1930 o Estado era mínimo e hoje não é. E é também por isso que a crise leva a questionar muito o Estado. O grande passo do aumento do peso do Estado já foi dado - era perto de 10% antes das guerras, agora é de 50% - e não vai haver outro. Mas a partir do momento em que as despesas públicas representam cerca de 50% do rendimento nacional, é evidente que haverá nos próximos anos em toda a Europa debates sobre a melhor forma de organizar as coisas de modo a reformar o Estado social sem o desmantelar. E a esquerda deve discutir isso também.
A "utopia útil" como chama à sua proposta de imposto mundial sobre o património é útil em quê?
Não acredito na imposição, acredito em cooperação internacional reforçada. Um imposto sobre o património total seria uma forma nova de olhar para problemas novos. Antes de mais é preciso que se melhore mesmo a informação entre países e designadamente entre países europeus e chamar a atenção para isto pode ser útil desde logo. O património deve estar acessível de forma a que se possa taxar de facto tudo e de forma progressiva. Há estudos que mostram que hoje há regressividade fiscal sobre os rendimentos do decil mais elevado - os 0,1% mais altos. Este imposto seria anual, moderado de 1% a 3% ou 4%, mas teria efeitos. É uma das formas que encontro para que aquilo que designo como a primeira lei do capitalismo possa ser controlada. Esta lei implica que os patrimónios que vêm do passado se recapitalizam mais depressa do que sobem a produção e os salários, o que cria desigualdades crescentes. O passado devora o futuro.

Thursday, January 01, 2015

CHAMAM-LHE POPULISMO


Merkel atacou no seu discurso de Ano Novo a vaga populista da direita e, nomeadamente, os organizadores dos recentes protestos anti-islâmicos na Alemanha, frequentemente pejados de "preconceitos e de ódios, até". Hollande bateu palmas e disse o mesmo. Giorgio Napolitano, agora com 89 anos, juntou-se ao trio no seu anúncio de resignação próxima, denunciou o alastrar dos crimes de corrupção e o perigo dos populistas que reclamam a saída da Itália do euro. 

Congratulou-se Merkel com a performance da economia alemã em 2014, com o emprego a atingir níveis máximos e a garantia de que em 2015 a Alemanha atingirá um défice de zero por cento. Entretanto, o BCE reviu em baixa as previsões de crescimento na zona euro para 1% este ano (anterior 1,6%) e as estimativas em 2014 para 0,8%.

Antes do Natal soube-se que a economia dos EUA terá crescido 5% no terceiro trimestre. 
Na Europa alastram os movimentos nacionalistas, na maior parte dos casos turbinados por ressentimentos chauvinistas, xenófobos e racistas. 
E não há racismo nos EUA? Há racismo em toda a parte. Como em tudo, o problema é a densidade em cada caso. E, muito claramente, os líderes europeus, com particular destaque para Ângela Merkel, tardam em reconhecer que não é com o arremesso de mensagens de moralidade que vão evitar o desmoronamento de um edifício cada vez mais desunido.

O embevecimento de Markel pelo défice zero do orçamento alemão no ano que hoje começa é a prova mais saliente de uma persistência obtusa.

Monday, December 08, 2014

CÂNDIDO E LEOPOLDO

O El País de ontem incluía ontem um caderno - El mejor de los mundos possibles  - de diferentes perspectivas, umas mais optimistas, outras mais pessimistas, sobre o mundo de hoje, o futuro previsível, e a comparação com o passado mais ou menos recente.

De todo o conteúdo do caderno, que vale a pena ler, destaco as transcrições  parciais de duas mensagens, de Obama e Ban Ki-Moon, muito exemplificativas da polarização de pontos de vista que a questão - é o mundo hoje melhor ou pior e mais perigoso que ontem? - suscita.

Muitos filósofos e ficcionistas abordaram o tema no passado. Cândido, o personagem criado por Voltaire é, provavelmente, o mais emblemático olhar optimista sobre o mundo para, sarcasticamente, servir o ponto de vista oposto do seu criador. Leopoldo, o personagem de Woody Allen em "Para Roma com amor" representa o perseguido pelos media, que lhe atormentam uma vida simplória. Para Obama, há uma realidade percepcionada, veiculada pelos media, diferente de uma outra reflectida nos indicadores numéricos dessa mesma realidade. Entre as duas, a segunda imagem é mais concreta, e a primeira a mais imediatamente adquirida pela opinião pública em geral.

Mas todos aqueles que chegaram já ao cume da idade adulta, com um conhecimento razoável do mundo que atravessaram, ao olharem para trás, não poderão deixar de reconhecer que, globalmente, o desenvolvimento humano, observado pelos principais indicadores da saúde, da educação, da segurança individual e colectiva, nunca foi tão elevado como hoje.

---

Obama:

“En todo el mundo, hay señales de progreso. La sombra de la Guerra Mundial que existía en la fundación de esta institución ha desaparecido; la posibilidad de un conflicto armado entre grandes potencias se ha reducido. El número de Estados se ha triplicado y más personas viven bajo el mandato de Gobiernos elegidos. Centenares de millones de seres humanos se han liberado de la cárcel de la pobreza. La proporción de personas que viven en la pobreza extrema se ha reducido a la mitad. Y la economía mundial sigue reforzándose después de la peor crisis financiera de nuestras vidas. Hoy, ya sea en Nueva York o en el pueblo de mi abuela a más de 300 kilómetros de Nairobi, hay más información disponible que en las mayores bibliotecas del mundo. Juntos, hemos aprendido a curar enfermedades, a dominar el poder del viento y el sol. La mera existencia de esta institución es un logro único: personas de todo el mundo comprometidas a discutir sus diferencias de manera pacífica y resolver juntos sus problemas. Con frecuencia les digo a los jóvenes en Estados Unidos que este es el mejor momento de la historia humana para nacer, pues tienes más probabilidades que nunca de saber leer y escribir, de estar sano y de ser libre de perseguir tus sueños”.

Sunday, December 07, 2014

DESIGUALDADE ENCOBERTA

O tema da desigualdade está na ordem dia. "O Capital no sec. XXI" de T. Piketty globalizou a discussão acerca das culpas da concentração da riqueza na redução do crescimento económico. Anteontem foi apresentado  em Madrid o relatório da Organização Mundial do Trabalho (OIT) - vd. aqui - relativo ao período entre 2006 e 2010. Os dados divulgados no artigo do El País são críticos relativamente a Espanha, que terá observado o maior agravamento da desigualdade no conjunto dos países da União Europeia e  os Estados Unidos da América, e lisonjeiros para Portugal, que terá observado um decréscimo na desigualdade entre o decil da população mais pobre e o decil da população mais rica.

E são lisonjeiros porque os efeitos das medidas de austeridade fizeram-se sentir a partir de 2011 sobre
os estratos sociais intermédios, vulgo classe média, que, quer pelo aumento do número de desempregados, quer por terraplanagem fiscal dos rendimentos, alargaram a faixa de pobreza e reduziram substancialmente os rendimentos médios dos restantes. Provavelmente, em 2014, não só a desigualdade entre os dez por cento mais pobres e os dez por cento mais ricos se agravou como, certamente se agravou muito mais ainda a desigualdade entre as classes colocadas nos decis intermédios e o decil superior.

Resumindo: Uma análise comparativa entre os rendimentos dos 10 por cento mais pobres e dos 10 por cento mais ricos ignora um segmento que representa 80 por cento da população, que, ou transitou parcialmente para a faixa de pobreza, ou suporta a solidariedade prestada ais mais carenciados, e viu, na sua maior parte, reduzidos os seus rendimentos.

Não li o relatório. Certamente que as suas conclusões vão além daquelas que o artigo do El Pais desvenda. Mas, porque se reporta a um período anterior à política de austeridade que castigou, e
continua a castigar, os países mais fragilizados, carece, flagrantemente, de actualidade.


Wednesday, November 26, 2014

DE QUE TE RIS, MARIA LUÍS?





Angel Gurría e Maria Luís Albuquerque



O Economic Outlook da OCDE divulgado anteontem, e a que já me referi aqui, conclui, além do mais, que a Zona Euro tem vindo a evoluir desde 2008 de modo frouxo e que assim continuará pelo menos até 2016, admitindo que possa mesmo entrar num longo período de crescimento débil. Pior do que isso são os dados da evolução e as perspectivas da economia portuguesa: há retoma, em termos de PIB, mas é tão anémica que não altera a perspectiva de que se manterá o sentido de divergência da economia portuguesa relativamente à média da OCDE. No conjunto dos 34 países da OCDE, Portugal é agora considerado um dos mais pobres e desiguais. E, recomenda, 

"Para reduzir a pobreza e a desigualdade, o impacto redistributivo do sistema de prestações sociais deve ser fortalecido de uma forma neutral do ponto de vista orçamental"

 ---
Correl.- Portugal diverge sete anos seguidos dos países mais desenvolvidos
OCDE vê Europa e Portugal em risco de estagnação prolongada
Bruxelas alerta: Portugal está em risco de incumprimento défice (28/11)