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Friday, November 08, 2024

O DIA DA FALTA DE VERGONHA

A continuidade do Aliás depende do seu merecimento, avaliado por comentários, críticas, sugestões, correcções, de quem o lê.
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Anteontem, 6 de novembro, quando foram conhecidos e reconhecidos os resultados das eleições do dia anterior, 5 de novembro, um manto de vergonha cobriu quem foi surpreendido pelos resultados conseguidos por um arruaceiro infame num país onde a expressão livre do pensamento perdura há duzentos anos.
Ontem, 7 de novembro, choveram trovoadas de explicações para o fenómeno político que, afinal, era, mais que esperado, era inevitável. Tão inevitável como as alterações climáticas sem culpa humana.

E o arruaceiro transfigurou-se em salvador de um mundo vicioso, depravado, que perdeu a alma.
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Obs. As fotos colocadas anteontem e hoje são, para mim, de autor desconhecido, razão porque não consigo identificar a sua origem.
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Correlacionado - Em 19 de agosto, cerca de três meses antes do dia das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América, J M Tavares escreveu no Público: Entre Trump e o Rato Mickey eu votaria no Rato Mickey.
Em 6 de novembro, dia seguinte aos das eleições, conhecidos os resultados, escreveu isto: Desta vez Trump tem uma equipa. E isso fez toda a diferença.
 
A ameaça medonha que esta contradição anuncia não é o facto de ter sido escrita por J M Tavares. Não. A contradição espraiou-se globalmente revelando um mundo futuro povoado por cobardes subservientes dos autocratas em crescimento imparável. 
Condição a que o Rato Mickey nunca se sujeitará.

Tuesday, November 05, 2024

O DIA DO ÓDIO

Com noventa e muitos por cento de convicção de acertar, o dia de hoje passará à História do Estados Unidos da América e de todo o mundo livre, aquele onde é livre a expressão pública do pensamento, com particular destaque na História da Europa Democrática, como o DIA DO ÓDIO.

A razão da minha convicção é muito simples: sustenta-se no que afirmou, e continua recorrentemente a reafirmar, Donald Trump.

Se Trump ganha, movido pelo ódio que instilou na metade da sociedade norte-americana que o apoiou e continua apoiar, estilhaça a Europa com a entrega, para começar,  da Ucrânia à voracidade sem freio de Putin. 
Também ficarão estilhaçados muitos dos compromissos assumidos pelos Estados Unidos, tanto a nível interno como internacional.
Poderá, por exemplo, retirar o apoio dos Estados Unidos da América na NATO, incumprindo o artigo 5º. do Tratado? Legalmente, não pode. Mas como podem ser os Estados Unidos da América, incumpridores por vontade de Trump, obrigados a cumprir a lei? 

Haverá diferenças nas consequências brutais entre uma vitória de Trump no Congresso sem maioria no Senado? Sem dúvida, mas as probabilidades dos republicanos passarem a deter maioria no Senado são muito elevadas. Também continuarão a ser muito elevadas as probabilidades do Trump manter o apoio incondicionalmente subserviente da maioria dos Juízes no Supremo Tribunal de Justiça. 
 
Se Trump não conseguir a maioria no Congresso, o mais provável é que se repita, com consequências mais devastadoras para a democracia norte-americana, o assalto ao Capitólio, destruição física da Instituição, símbolo maior da democracia, e eliminação dos que resistirem aos facínoras comandados por Trump. 
Começará então uma guerra civil por intervenção dos generais? A minha convicção não vai tão longe.

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A partir de hoje, o Aliás, que completou há dias 19 anos, só terá continuidade se merecer comentários, críticas, sugestões, correcções, de quem o lê.
Como qualquer veículo, agora só pode mover-se se tiver combustível que lhe permita avançar e boas razões para isso.

Wednesday, October 30, 2024

MAIS OU MENOS TUDO NA MESMA?

Não. 

Entre dois mundos opostos, poderá o mundo tombar para o lado mais execrável, do ponde vista de quem preza o maior valor social da humanidade: a liberdade de expressão de pensamento, por oposição à tirania de ditadores, digam-se eles de esquerda ou de direita. Porque nenhuma ditadura tem dois lados.

 

c/p - Narrow victories in a handful of swing states are likely to determine whether Donald Trump or Kamala Harris wins the US presidential election on November 5.

Não há sondagens que significativamente difiram das apresentadas pelo Financial Times.
E, no entanto, segundo as sondagens, se as diferenças são mínimas e nos swing states podem tombar para um dos lados, as consequências poderão ser tremendas para os norte-americanos e para o mundo democrático, onde a expressão de pensamento é livre mas pode ser submersa pela vaga autocrática que se está a alastrar, aliás, como há oitenta décadas, por todo o mundo.  
Já tinha dito isto, pois já. E não digo nem acrescento nada ao que a liberdade permite dizer. Por enquanto.   
Há dias, espremia-se uma comentadora num dos canais da televisão pública (ou terá sido num canal por cabo?) que Trump não é um fascista porque ... e passou a esgotar o seu cardápio  de razões que não colocam Trump ao lado de Mussolini ou Hitler.
 
Voltando à tremenda possibilidade de Trump ganhar a maioria no Congresso e a maioria no Senado, hipótese provável, segundo uns, altamente provável para outros, Trump, com o voto da maioria do Supremo Tribunal de Justiça, terá rédea solta para ir até aonde quiser. E ele, não nega, que quer ir até onde ao seu incomensurável ego der na gana.

Pelo que se sabe sobre o seu carácter (ou da falta dele) e pelo que demonstrou durante o seu primeiro mandato, não falta a Trump nenhum dos atributos que podem fazer dele um ditador narcísico, um deus terreno a quem todos devem devoção religiosa.
 
Exagero?
Era o que pensavam os que há cerca de oito décadas se curvaram perante auto arvorada divindade.
Terá, já tem aliás, dois concorrentes: Putin e Xi Jimping.
Um regime de triunvirato, também já o referi neste bloco de notas, terminou sempre com a eliminação de dois deles. 
Um filme de horror de que não verei, nem quererei ver o fim.

Wednesday, October 16, 2024

O VALOR DOS VALORES MORAIS

Anteontem a Real Academia Sueca de Ciências anunciou a atribuição do Nobel das Ciências Económicas em Memória de Alfredo Nobel, mais conhecido como Nobel da Economia, a Daron Acemoglu, Simon Johnson, do Massachusets Intitute of Technology (MIT) e James Robinson, da Universidade de Chicago,

“for studies of how institutions are formed and affect prosperity” 

(Transcrevo do Press release, distribuído após a divulgação dos nomes dos laureados, de sínteses dos trabalhos realizados, seguidas de perguntas da audiência presente no acto e respostas de Daron Acemoglu   - LIVE: Daron Acemoglu, Simon Johnson and James Robinson win Nobel Prize 2024 for Economic Sciences)

 

They have helped us understand differences in prosperity between nations

This year’s laureates in the economic sciences – Daron Acemoglu, Simon Johnson and James Robinson – have demonstrated the importance of societal institutions for a country’s prosperity. Societies with a poor rule of law and institutions that exploit the population do not generate growth or change for the better. The laureates’ research helps us understand why.

When Europeans colonised large parts of the globe, the institutions in those societies changed. This was sometimes dramatic, but did not occur in the same way everywhere. In some places the aim was to exploit the indigenous population and extract resources for the colonisers’ benefit. In others, the colonisers formed inclusive political and economic systems for the long-term benefit of European migrants.

The laureates have shown that one explanation for differences in countries’ prosperity is the societal institutions that were introduced during colonisation. Inclusive institutions were often introduced in countries that were poor when they were colonised, over time resulting in a generally prosperous population. This is an important reason for why former colonies that were once rich are now poor, and vice versa.

Some countries become trapped in a situation with extractive institutions and low economic growth. The introduction of inclusive institutions would create long-term benefits for everyone, but extractive institutions provide short-term gains for the people in power. As long as the political system guarantees they will remain in control, no one will trust their promises of future economic reforms. According to the laureates, this is why no improvement occurs.

However, this inability to make credible promises of positive change can also explain why democratisation sometimes occurs. When there is a threat of revolution, the people in power face a dilemma. They would prefer to remain in power and try to placate the masses by promising economic reforms, but the population are unlikely to believe that they will not return to the old system as soon as the situation settles down. In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy.

“Reducing the vast differences in income between countries is one of our time’s greatest challenges. The laureates have demonstrated the importance of societal institutions for achieving this,” says Jakob Svensson, Chair of the Committee for the Prize in Economic Sciences.

 

Ouvi a comunicação, já captada em vídeo, li o Press release, e ocorrem-me algumas questões que gostaria de ter perguntado mas, obviamente, não fui convidado para estar presente ...
Desloquei então as minhas questões para este meu espaço de entretenimento mental que não foram colocadas pela audiência presente nem foram minimamente abordadas pelos laureados, partindo do princípio que, se tivessem sido, teriam sido, minimamente que fosse, referidos pelos três membros da Real Academia Sueca de Ciências que anunciaram e comentaram as razões da atribuição de tão alto galardão a cientistas dedicados à profunda análise dos muito complexos meandros da economia.

Porque o tema é demasiado ambicioso para as minhas mais que exíguas qualificações, destaco uma conclusão dos estudos realizados : "In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy."
 
A democracia, sustentada na liberdade de expressão do pensamento, encontra-se hoje em situação, por demais visível, de atrofiamento em consequência da acentuada desvalorização do seu valor moral, mesmo, mesmo e sobretudo, no país e no povo onde mais floresceu porque as instituições nunca foram abaladas e o direito que regulava a vida em sociedade nunca foi posto em causa, até 6 de janeiro de 2021 quando o Capitólio dos Estados Unidos, símbolo máximo da democracia norte-americana, foi atacado, com o incentivo do ex-presidente aos assaltantes perante muitos milhões de espectadores que, em todo o mundo, assistiram ao impensável. 

Não foi a primeira vez que o Capitólio foi atacado. 
Em 24 de agosto de 1814 o Capitólio foi incendiado por tropas britânicas, durante a guerra de 1812. A 4 de julho de 1776, 13 colónias tinham declarado formalmente a sua separação do Império Britânico. 
(Obs. - O Brasil, colonizado por portugueses, mas não só,  foi declarado independente em 1822)
A 1 de Março de 1954 nacionalistas porto-riquenhos entraram no Capitólio com armas contrabandeadas. Foram presos e condenados; o Presidente Jimmy Carter mais tarde concedeu-lhes clemência.
Em 24 de Julho de 1998 foram mortos, por um atirador com histórico mental,  dois polícias em serviço na Capitólio; em 1999, um juiz federal considerou-o incapaz de ser julgado por sofrer de doença mental.
 
6 de janeiro de 2021 foi a única vez que o Capitólio foi assaltado por norte-americanos, motivados pelas declarações e incentivos do presidente que tinha perdido as eleições para Biden.
Com diversas culpas de grau elevadíssimo no cartório, em cima da maior afronta feita à democracia norte-americana, perante a passividade permissividade e conivência das suas instituições judiciais, o mobilizador do ataque em 6 de janeiro é agora novamente candidato à presidência, sendo muito provável, a julgar pelas últimas sondagens, que possa ser eleito.

Quanto vale a liberdade? Quanto vale a democracia?

Admitamos que Trump não ganha em 5 de novembro, próximo. 
Ainda assim, o valor moral da liberdade e da democracia não se alteraria significativamente porque as instituições consentiram que um assaltante do Capitólio (tão ladrão é o que assalta a vinha como aquele que fica ao portão a vigiar) se apresente a sufrágio isento e limpo como qualquer cidadão sem cadastro.

Trump já disse e reafirmou que tenciona, além do mais, retirar o apoio aos europeus unidos pela democracia, incumprindo os compromissos assumidos com os outros membros da NATO e reforçando os seus apoios aos desígnios de Putin, que sistematicamente recorda aos europeus ocidentais que o poder nuclear de que dispõe é para ser usado quando e como este Czar entender. 
Como reagirão os europeus perante a concretização desta ameaça? Ou, simplesmente, perante esta ameaça respaldada por Trump? Resigna-se e submete-se? 
Quanto vale a liberdade, quanto vale a democracia, para a parte eurocéptica e a parte eurófaga dos membros da União Europeia?
Valem alguma coisa?

Saturday, May 25, 2024

DEMOCRACIA CONTRA DEMOCRACIA

Há neste país comentadores para todos os desgostos. 

De futebol. Começam de manhã, continuam pela noite fora. Não aprecio, mas tropeço com eles quando, por mero acaso, ligo a TV com qualquer outro propósito. Nem a entrada do VAR (vídeo assistant referee, árbitro assistente de vídeo) desanimou os profissionais comentadores da arte.
Trata-se de uma função de treinador de bancada, que já promoveu gente ao patamar político. O prof Ventura começou por aí e promete vir a ser primeiro-ministro. O que não me espantaria, tal a publicidade promocional gratuita proporcionada pelos outros partidos. 
Apoquenta-me mais a apatia, ou o propósito?, não dos deputados portugueses no Parlamento Europeu, são apenas 21 entre 750, perante a Rússia de Putin, declaradamente em economia de guerra.  
 
Mas é no comentário político que é quase impossível evitar, a menos que se desligue a nossa atenção, ainda que breve, dos noticiários domésticos em qualquer meio de comunicação social.
Agora, que estamos em vaga de campanha eleitoral para as eleições europeias, o prof Ventura levantou uma polémica, arte em que é mestre, sobre os dez anos previstos para a construção do Talvez Alcochete: se os turcos, que não são propriamente os mais trabalhadores do mundo construiram um novo aeroporto em cinco anos porque razão, nós portugueses, levamos dez anos a fazer o mesmo?
(Abro aqui um parêntesis para declaração de desinteresses: além do mais, pela minha idade, não tenho a mínima esperança de algum dia ir apanhar o avião a Talvez Alcochete).
Logo se levantou uma densa poeira de protestos porque o presidente da Assembleia da República tinha deixado sem reparo a "alarvidade" do prof Ventura. Terá sido mesmo alarvidade ou uma acusação, fundamentada ou não, de Ventura à menor produtividade dos portugueses quando comparada, por exemplo, com a dos turcos? 
Mas a pergunta do prof Ventura, aparentemente pertinente, ficou sem resposta. Ganhou o Ventura em todos os sentidos perante quem, como eu, considera o prof Ventura um provocador, especialista em tirar vantagens da complacência democrática.
 
Anteontem, voltei a ver, já não via há algum tempo, um programa de "análise política", o assunto prometia, e eu suportei ouvir a primeira parte. O apresentador, moderador, começou por apresentar um vídeo onde, com muita clarividência e algum sentido de humor se demonstrava o que é evidente para quem quer não usa antolhos: o aproveitamento que os detractores da democracia, os inimigos da democracia, aqueles que pretendem destruí-la usam, abusam, a sua complacência para, por dentro dela, a corroer e acabar por matar.
Sentam-se nesta mesa mais ou menos redonda, quatro comentadores e o moderador.
No primeiro tema é abordada a repisada a decisão do actual presidente da Assembleia da República perante a intervenção, histriónica como sempre, do prof Ventura sobre a índole trabalhadora dos turcos: conseguiram em cinco anos construir um aeroporto novo, enquanto o aeroporto de Talvez Alcochete levará dez.
A primeira participante, considerou decisão de Aguiar-Branco correcta, e recordou que o uso das provocações, dos insultos, entre políticos em países onde o pensamento e a sua expressão pública é livre, foi iniciado durante a campanha, sórdida, das presidenciais de 2016, que Trump ganharia. Os canais subterrâneos de mentiras, das "fake news", até pelo nome se percebe a origem, potenciaram e espalharam-se por todo o mundo onde as deixaram correr... em nome do valor maior da democracia: da liberdade de pensamento e a sua expressão pública. 
("Democracy Dies in Darkness", "A democracia morre na escuridão", é o premonitório slogan do Washington Post)
Para o segundo participante, Aguiar-Branco refugiou-se num argumento político quando estava em causa um crime previsto no Código Penal.
Para o terceiro participante, comentador a tempo inteiro, Aguiar-Branco esteve mal. Não devia ter deixado passar a intervenção do prof Ventura sem uma advertência, coisa para que tem competência.
O quarto participante, geralmente baralhado nos argumentos se tem as câmaras à frente, não disse que sim nem não se Aguiar-Branco teve razão ou não. 
Desliguei a televisão. 
 
Mais anedóticos que estes programas de formação política da boa, mas politicamente ignara,  população deste país, são os painéis de comentadores, geralmente quatro, que entram ao serviço no fim de cada debate entre, neste caso,  os candidatos a deputados europeus. 
Anedóticos porque se supõem ungidos para explicar o que cada candidato afirmou, deste modo influenciando as decisões dos ouvintes, provavelmente   eleitores. Com que direito? 
Mas mais que as explicações de suas excelências são as notas que, como professores examinadores das palavras dos candidatos, atribuem classificações! Com que direito?
Não sabemos. Mas se toda a gente cala, devem estar escorados na liberdade de expressão, a tal que tanto dá vida como pode matar a democracia.
 
Em Portugal o ofício de comentador já produziu, além do mais, um Presidente da República.
Durante anos e anos, semanalmente, o "Grande Comentador", comentava sobre tudo e mais alguma coisa, com particular incidência no desempenho dos actores políticos em palco, a que atribuía notas classificativas, era comentador professor.
Depois passava às previsões, era comentador profeta.
A terminar a conversa em família, sem contraditório, mostrava os livros que tinha recebido, que ele transferiria para uma biblioteca no concelho da sua família de origem, onde foi deputado municipal.
Frequentemente, obsequiava a jornalista interlocutora, passiva, com brindes suscitados pelas oportunidades das ocasiões e ofertas recebidas dos seus admiradores. Eram passatempos felizes, que lhe aureleavam a imagem, num crescendo irreversível de um carisma que punha os atentos e veneradores ouvintes de boca aberta. Tinha-se tornado num raro fenómenos de popularidade ímpar.
 
Anos antes, candidatara-se à presidência da Câmara Municipal da capital, perdeu sem apelo nem agravo, mas tinha-se esforça do por vencer, chegando a lançar-se às águas do rio para demonstrar a sua determinação mesmo se as águas onde exibiu o mergulho estivessem poluídas. 
Alguém, não sei quem, um dia resumiu o "Grande Comentador" como "aquele que sabe tudo mas não sabe mais nada".
O que não era verdade, porque candidatou-se à presidência da República e ganhou sem qualquer investimento em artifícios de campanha, num país que se enche de cartazes, outdoors que tapam os horizontes, que custam certamente uns largos milhares, brindes de cacaracá, arruadas medievais, concertos para excitação dos fiéis, enfim, demonstrações pacóvias sem força capaz de resistir à presença persistente de uma conversa fiada na televisão.

E foi eleito Presidente, sorridente, atingiu o auge da popularidade beijocando a torto e a direito, não dispensando nem recusando selfies sem conta. O primeiro-ministro ajustou-se à personalidade aristocrática do presidente, chegando a protege-lo (da chuva ou do sol, não me recordo) com o chapéu aberto. Reeleito sem oposição com estatura popular, continuou a beijocar e selfiear, para atingir o grau de incontestado de o melhor de todos.
Tanta ânsia de popularidade, levou-o a escorregar em acções e declarações opacas, e o melhor de sempre esforça-se para não submergir nas águas em que agora mergulhou.
 
Mas deixou marca indelével que muitos adoptam como objectivo do seu trabalho comentador.
O país, não só este país, o mundo, sobretudo no mundo ocidental, onde os valores eram aquilatados pela dignidade da democracia, sustentada na liberdade de pensamento e da sua expressão pública é hoje vítima à espera de um golpe fatal que aproveita a sua permissividade. Com ampla e desavergonhada ampliação dos media, que vivem dos réditos que a mentira, a falta de decoro, a imunidade que protege os instigadores de notícias, obtidas junto de "fontes fidedignas" que ninguém conhece mas geralmente suspeitas, num ciclo vicioso que auto se alimenta.

Saturday, January 20, 2024

A MELHOR DEFESA É O ATAQUE

A melhor defesa contra Donald Trump é o ataque, afirmou anteontem Lagarde em Davos.
 
"Perante a possibilidade de Donald Trump vir a ser novamente eleito Presidente dos Estados Unidos, Lagarde defende que a União Europeia deve garantir a nível interno, "um mercado forte e profundo, com um verdadeiro mercado único". ...
 
Sound bites, bem enquadrados no seleccionado ambiente económico e financeiro de Davos, que esquecem ou querem fazer esquecer que a União Europeia ou se defende com armas, que, por enquanto não tem, ou é abatida impiedosamente, independentemente da unidade do mercado na sua área.
Se Trump é eleito, situação muito provável, a Ucrânia - ele já, indirectamente o garantiu - será oferecida a Putin e a NATO, sem os EUA, não terá capacidade de defesa e muito menos de ataque.  
Os regimes autocráticos submergirão em todo o espaço europeu os direitos a que nos habituámos, de liberdade de expressão e pensamento.
Exagero meu?
Supor que a liberdade se defende com armas económicas e ignorar a ameaça das armas atómicas de longo alcance denota visão muito limitada de todo o campo da UE a defender.
Ingenuidade de Christine Lagarde? Não penso que Lagarde seja tão ingénua, mas é difícil entender que ela observe a iminente ameaça de Trump, após as eleições em 8 de novembro, e, com esse alerta, queira convocar a resistência da União Europeia usando o reforço dos meios financeiros para enfrentar essa ameaça. 

A União Europeia consolidou de algum modo a sua identidade adoptando a moeda única, a que nem todos os países membros aderiram, não tem uma política de defesa comum suportada em forças armadas sujeitas a um comando-geral, não tem política comum de representação externa, sem a qual ameaça estilhaçar-se mesmo antes de Trump aparecer no palco da Casa Branca. 
Órban (mas não só) é amigo de Putin, Putin é inimigo da União Europeia, Trump é amigo de Putin, como é que a senhora Lagarde quer afastar a ameaça com políticas que ignoram as maiores fragilidades da União Europeia, e que ela se propõe agora instalar quando durante os últimos quatro anos (é presidente do BCE desde novembro de 2019) não o fez ou não conseguiu que fosse feito?

Percebe-se que Lagarde falou em Davos porque foi convidada a intervir. O que não se percebe é a razão porque levou o fantasma de Trump para a sala sem, realmente, saber como se pode enfrentá-lo.

Monday, January 15, 2024

AS ERVAS SECAS

está no
onde se pode ver bom cinema sem pipocas
 

As ervas secas, na Anatólia; mas não é apenas da Anatólia que a primavera se ausenta.
"Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida ..."
 Não há não não, Florbela. Não há primaveras para toda a gente. É lamentável, mas não há.

 --- ver também

O que há de amargo nos homens 

Era uma vez na Anatólia

Sono de Inverno 

A Pereira Brava