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Wednesday, October 16, 2024

O VALOR DOS VALORES MORAIS

Anteontem a Real Academia Sueca de Ciências anunciou a atribuição do Nobel das Ciências Económicas em Memória de Alfredo Nobel, mais conhecido como Nobel da Economia, a Daron Acemoglu, Simon Johnson, do Massachusets Intitute of Technology (MIT) e James Robinson, da Universidade de Chicago,

“for studies of how institutions are formed and affect prosperity” 

(Transcrevo do Press release, distribuído após a divulgação dos nomes dos laureados, de sínteses dos trabalhos realizados, seguidas de perguntas da audiência presente no acto e respostas de Daron Acemoglu   - LIVE: Daron Acemoglu, Simon Johnson and James Robinson win Nobel Prize 2024 for Economic Sciences)

 

They have helped us understand differences in prosperity between nations

This year’s laureates in the economic sciences – Daron Acemoglu, Simon Johnson and James Robinson – have demonstrated the importance of societal institutions for a country’s prosperity. Societies with a poor rule of law and institutions that exploit the population do not generate growth or change for the better. The laureates’ research helps us understand why.

When Europeans colonised large parts of the globe, the institutions in those societies changed. This was sometimes dramatic, but did not occur in the same way everywhere. In some places the aim was to exploit the indigenous population and extract resources for the colonisers’ benefit. In others, the colonisers formed inclusive political and economic systems for the long-term benefit of European migrants.

The laureates have shown that one explanation for differences in countries’ prosperity is the societal institutions that were introduced during colonisation. Inclusive institutions were often introduced in countries that were poor when they were colonised, over time resulting in a generally prosperous population. This is an important reason for why former colonies that were once rich are now poor, and vice versa.

Some countries become trapped in a situation with extractive institutions and low economic growth. The introduction of inclusive institutions would create long-term benefits for everyone, but extractive institutions provide short-term gains for the people in power. As long as the political system guarantees they will remain in control, no one will trust their promises of future economic reforms. According to the laureates, this is why no improvement occurs.

However, this inability to make credible promises of positive change can also explain why democratisation sometimes occurs. When there is a threat of revolution, the people in power face a dilemma. They would prefer to remain in power and try to placate the masses by promising economic reforms, but the population are unlikely to believe that they will not return to the old system as soon as the situation settles down. In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy.

“Reducing the vast differences in income between countries is one of our time’s greatest challenges. The laureates have demonstrated the importance of societal institutions for achieving this,” says Jakob Svensson, Chair of the Committee for the Prize in Economic Sciences.

 

Ouvi a comunicação, já captada em vídeo, li o Press release, e ocorrem-me algumas questões que gostaria de ter perguntado mas, obviamente, não fui convidado para estar presente ...
Desloquei então as minhas questões para este meu espaço de entretenimento mental que não foram colocadas pela audiência presente nem foram minimamente abordadas pelos laureados, partindo do princípio que, se tivessem sido, teriam sido, minimamente que fosse, referidos pelos três membros da Real Academia Sueca de Ciências que anunciaram e comentaram as razões da atribuição de tão alto galardão a cientistas dedicados à profunda análise dos muito complexos meandros da economia.

Porque o tema é demasiado ambicioso para as minhas mais que exíguas qualificações, destaco uma conclusão dos estudos realizados : "In the end, the only option may be to transfer power and establish democracy."
 
A democracia, sustentada na liberdade de expressão do pensamento, encontra-se hoje em situação, por demais visível, de atrofiamento em consequência da acentuada desvalorização do seu valor moral, mesmo, mesmo e sobretudo, no país e no povo onde mais floresceu porque as instituições nunca foram abaladas e o direito que regulava a vida em sociedade nunca foi posto em causa, até 6 de janeiro de 2021 quando o Capitólio dos Estados Unidos, símbolo máximo da democracia norte-americana, foi atacado, com o incentivo do ex-presidente aos assaltantes perante muitos milhões de espectadores que, em todo o mundo, assistiram ao impensável. 

Não foi a primeira vez que o Capitólio foi atacado. 
Em 24 de agosto de 1814 o Capitólio foi incendiado por tropas britânicas, durante a guerra de 1812. A 4 de julho de 1776, 13 colónias tinham declarado formalmente a sua separação do Império Britânico. 
(Obs. - O Brasil, colonizado por portugueses, mas não só,  foi declarado independente em 1822)
A 1 de Março de 1954 nacionalistas porto-riquenhos entraram no Capitólio com armas contrabandeadas. Foram presos e condenados; o Presidente Jimmy Carter mais tarde concedeu-lhes clemência.
Em 24 de Julho de 1998 foram mortos, por um atirador com histórico mental,  dois polícias em serviço na Capitólio; em 1999, um juiz federal considerou-o incapaz de ser julgado por sofrer de doença mental.
 
6 de janeiro de 2021 foi a única vez que o Capitólio foi assaltado por norte-americanos, motivados pelas declarações e incentivos do presidente que tinha perdido as eleições para Biden.
Com diversas culpas de grau elevadíssimo no cartório, em cima da maior afronta feita à democracia norte-americana, perante a passividade permissividade e conivência das suas instituições judiciais, o mobilizador do ataque em 6 de janeiro é agora novamente candidato à presidência, sendo muito provável, a julgar pelas últimas sondagens, que possa ser eleito.

Quanto vale a liberdade? Quanto vale a democracia?

Admitamos que Trump não ganha em 5 de novembro, próximo. 
Ainda assim, o valor moral da liberdade e da democracia não se alteraria significativamente porque as instituições consentiram que um assaltante do Capitólio (tão ladrão é o que assalta a vinha como aquele que fica ao portão a vigiar) se apresente a sufrágio isento e limpo como qualquer cidadão sem cadastro.

Trump já disse e reafirmou que tenciona, além do mais, retirar o apoio aos europeus unidos pela democracia, incumprindo os compromissos assumidos com os outros membros da NATO e reforçando os seus apoios aos desígnios de Putin, que sistematicamente recorda aos europeus ocidentais que o poder nuclear de que dispõe é para ser usado quando e como este Czar entender. 
Como reagirão os europeus perante a concretização desta ameaça? Ou, simplesmente, perante esta ameaça respaldada por Trump? Resigna-se e submete-se? 
Quanto vale a liberdade, quanto vale a democracia, para a parte eurocéptica e a parte eurófaga dos membros da União Europeia?
Valem alguma coisa?

Sunday, September 24, 2023

UM HOMEM INOFENSIVO


UM HOMEM INOFENSIVO

"Renato acorda a meio da noite e sente a presença de um estranho em casa. O estranho é Rui, um homem que diz ter entrado apenas para sentir o silêncio da casa. Renato procura decifrar os verdadeiros motivos da vinda de Rui a sua casa. Não pode ter aparecido só para conviver com o silêncio, pois o que tem o silêncio de tão especial?"

Um texto que nos confronta com as contradições dos valores morais.
A inveja, é condenável?
E a vingança?
E etc.?

UM HOMEM INOFENSIVO é um espectáculo motivante. 

****


Friday, May 01, 2020

CONVERSAS EM CLAUSURA





Recebi de um amigo de longa data este vídeo, via WhatsApp.
Normalmente, não abro mensagens reencaminhadas, mas vindo de quem vinha, é obrigação de velho amigo, abrir, ver e ouvir, o que o meu Amigo me envia. E discordar, quando for caso disso, a amizade não se consolida com a passividade do silêncio.

Ouvi com toda a atenção discurso do senhor J. A. Melé, e não discordo das boas intenções sustentadas num projecto - A Banca Ética - de que o conferencista é promotor.
Eu não sabia da existência do senhor Melé, mas, uma breve visita na internet, esclareceu-me, julgo eu, suficientemente, acerca dos objectivos que o conferencista promove. Sem grandes reticências subscrevo a mensagem do senhor Melé.

Contudo, notei que ao conferencista, em Buenos Aires, escapou, propositadamente ou não, duas  formas concretas de garantir na banca em geral a observância da ética que o senhor Melé promove sem nos dizer como atinge a banca, onde é assessor e promotor, os objectivos que definiu como lema, aparte referências vagas à condenação moral de certas marcas que exploram mão-de-obra em países onde as condições de trabalho são infra-humanas, que também subscrevo.

O que estranho e considero insólito, no mínimo, é que o senhor Melé fala durante cerca de meia hora sobre a falta de ética na banca, mas não faz qualquer referência aos offshores e aos fundos de especulação mobiliária e imobiliária.
Considero, há anos, escrevi vários apontamentos sobre o assunto neste caderno de apontamentos, desde a crise das sub-prime e dos activos tóxicos que implodiram o sistema financeiro global, que os bancos deveriam dividir-se em bancos sem qualquer envolvimento, directo ou indirecto,  em operações em offshores ou em aplicações em fundos de, ditos, de investimento,
e os outros.
Aos primeiros, e só a esses, que designei por bancos verdes, por similitude com a economia verde, seria garantida, em caso de crise financeira sistémica, o apoio dos contribuintes, aos outros, aplicar-se-iam as regras estabelecidas para o funcionamento dos casinos. Quem quisesse ver as suas poupanças garantidas,  optaria pelos primeiros, quem quisesse obter maiores ganhos teria de aceitar todas as consequências dos riscos assumidos.

Se houvesse leis que não consentissem as ousadias com rede garantida pelos nossos impostos não teriam os senhores Ricardo Salgado, Jardim Gonçalves, Oliveira e Costa, e ..., muitos outros, jogado como jogaram, aqui e quase por todo o mundo.

Não é tudo, há muito mais para aprofundar a questão.
Quem quiser ler o que escrevi neste caderno há cerca de dez anos sobre o assunto pode procurar nas etiquetas, bancos, banca, moral hazard, ...


Wednesday, July 11, 2018

O AVÔ DE LUKAKU

A ler o artigo de Paulo Curado no Público de ontem -  Romelu Lukaku: “Na Bélgica já não me pedem a identificação” - A surpreendente história e o exemplo de vida do melhor marcador da história da selecção belga. Nesta terça-feira, um país de muitas cores e línguas aguarda pela sua inspiração frente à França. ", emocionei-me, numa hora amarga.

A Bélgica perdeu contra a França, Lukaku teve uma actuação discreta, quase apagada, não será campeão do mundo este ano, mas não é por essa razão nem pelo desenrolar do encontro, nem pelo resultado final que a minha emoção, quando agora releio o testemunho de Lukaku, se esvaiu. 

Eu não sabia nada acerca de Lukaku, mas fiquei a perceber que, para além de um atleta de alto gabarito, é um homem íntegro, ancorado nas raízes familiares, imbuído dos valores morais que a sociedade europeia, individualista, egoísta, a caminhar a passos largos para o cenário, racista, xenófobo, nacionalista, que em meados do século passado ateou fogo ao mundo inteiro, despreza. 

"Aos 25 anos, Romelu Lukaku é uma lenda no futebol belga. É o melhor marcador da história da selecção. É a estrela do ataque do Manchester United. ... É também um jovem humilde que a fama não mudou. Tem uma maturidade anormal moldada por sacrifícios e uma fé inabalável.

Para além do pai e da mãe, o avô, no Congo [antiga colónia belga], era a pessoa mais importante da sua vida, com quem falava sempre que podia ao telefone.
“Ele era a minha ligação ao Congo, de onde são os meus pais. Um dia liguei-lhe e disse-lhe que o meu futebol estava a correr muito bem, que tinha marcado 76 golos, que vencemos o campeonato e que as grandes equipas começavam a reparar em mim. Normalmente ele queria saber, mas dessa vez estava estranho.

- ‘Sim Rom, isso é bestial. Mas podes fazer-me um favor?’- ‘Claro, o que é?
- ‘Podes olhar pela minha filha, por favor?’
Fiquei muito confuso.
- ‘A mamã? Sim, tudo bem.’
- ‘Não, promete-me. Podes prometer-me? Trata da minha filha. Cuida dela por mim, está bem?’
- ‘Sim avozinho. Entendi. Eu prometo.’
Cinco dias depois ele morreu  e eu percebi tudo. Fico tão triste ao pensar nisto, porque gostava que ele tivesse vivido mais quatro anos para me ver a jogar no Anderlecht. Para saber que tinha cumprido a minha promessa e que tudo ia ficar bem.”

“Quando as coisas corriam mal na selecção os jornais chamavam-me Romelu Lukaku, o atacante belga de origem congolesa; quando corriam bem, era Romelu Lukaku, o atacante belga. Alguns riam-se de mim quando não estava a jogar no Chelsea e fui emprestado. Mas não estavam comigo quando tinha de pôr água nos cereais e não podem realmente entender-me. Se não gostam da minha forma de jogar, tudo bem. Mas eu nasci aqui. Cresci em Antuérpia, Liége e Bruxelas.”

Romelu nunca esconde o orgulho pelo país e por vestir a camisola da selecção, com a qual fez história individual e colectiva. Já não pode contar ao avô que agora todos conhecem o apelido da família.
“Falo francês, holandês, alemão, espanhol ou português, dependendo do bairro onde estiver em Bruxelas. Somos ‘todos’ belgas. É isso que torna este país fixe, não é?”
Devia ser, Lukaku, devia ser. 

Antes do jogo e da leitura do Público, tinha enviado a seguinte mensagem aos nossos emigrantes: 
"Aposto que ganha a Bélgica, e será, segundo meu palpite a vencedora do mundial.
Interessante é que tanto do lado da França como da Bélgica a grande maioria dos jogadores ou são emigrantes ou descendentes de emigrantes, facto que deve colocar os nacionalistas, os neo-nazis, os racistas, e outros da mesma espécie, a espumar de raiva."

Para quem não perceba porquê recomendo a leitura de
 https://www.theguardian.com/education/2002/jan/04/highereducation.books
Hitler 1936-45: Nemesis by Ian Kershaw