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Friday, May 01, 2020

CONVERSAS EM CLAUSURA





Recebi de um amigo de longa data este vídeo, via WhatsApp.
Normalmente, não abro mensagens reencaminhadas, mas vindo de quem vinha, é obrigação de velho amigo, abrir, ver e ouvir, o que o meu Amigo me envia. E discordar, quando for caso disso, a amizade não se consolida com a passividade do silêncio.

Ouvi com toda a atenção discurso do senhor J. A. Melé, e não discordo das boas intenções sustentadas num projecto - A Banca Ética - de que o conferencista é promotor.
Eu não sabia da existência do senhor Melé, mas, uma breve visita na internet, esclareceu-me, julgo eu, suficientemente, acerca dos objectivos que o conferencista promove. Sem grandes reticências subscrevo a mensagem do senhor Melé.

Contudo, notei que ao conferencista, em Buenos Aires, escapou, propositadamente ou não, duas  formas concretas de garantir na banca em geral a observância da ética que o senhor Melé promove sem nos dizer como atinge a banca, onde é assessor e promotor, os objectivos que definiu como lema, aparte referências vagas à condenação moral de certas marcas que exploram mão-de-obra em países onde as condições de trabalho são infra-humanas, que também subscrevo.

O que estranho e considero insólito, no mínimo, é que o senhor Melé fala durante cerca de meia hora sobre a falta de ética na banca, mas não faz qualquer referência aos offshores e aos fundos de especulação mobiliária e imobiliária.
Considero, há anos, escrevi vários apontamentos sobre o assunto neste caderno de apontamentos, desde a crise das sub-prime e dos activos tóxicos que implodiram o sistema financeiro global, que os bancos deveriam dividir-se em bancos sem qualquer envolvimento, directo ou indirecto,  em operações em offshores ou em aplicações em fundos de, ditos, de investimento,
e os outros.
Aos primeiros, e só a esses, que designei por bancos verdes, por similitude com a economia verde, seria garantida, em caso de crise financeira sistémica, o apoio dos contribuintes, aos outros, aplicar-se-iam as regras estabelecidas para o funcionamento dos casinos. Quem quisesse ver as suas poupanças garantidas,  optaria pelos primeiros, quem quisesse obter maiores ganhos teria de aceitar todas as consequências dos riscos assumidos.

Se houvesse leis que não consentissem as ousadias com rede garantida pelos nossos impostos não teriam os senhores Ricardo Salgado, Jardim Gonçalves, Oliveira e Costa, e ..., muitos outros, jogado como jogaram, aqui e quase por todo o mundo.

Não é tudo, há muito mais para aprofundar a questão.
Quem quiser ler o que escrevi neste caderno há cerca de dez anos sobre o assunto pode procurar nas etiquetas, bancos, banca, moral hazard, ...


Wednesday, July 11, 2018

O AVÔ DE LUKAKU

A ler o artigo de Paulo Curado no Público de ontem -  Romelu Lukaku: “Na Bélgica já não me pedem a identificação” - A surpreendente história e o exemplo de vida do melhor marcador da história da selecção belga. Nesta terça-feira, um país de muitas cores e línguas aguarda pela sua inspiração frente à França. ", emocionei-me, numa hora amarga.

A Bélgica perdeu contra a França, Lukaku teve uma actuação discreta, quase apagada, não será campeão do mundo este ano, mas não é por essa razão nem pelo desenrolar do encontro, nem pelo resultado final que a minha emoção, quando agora releio o testemunho de Lukaku, se esvaiu. 

Eu não sabia nada acerca de Lukaku, mas fiquei a perceber que, para além de um atleta de alto gabarito, é um homem íntegro, ancorado nas raízes familiares, imbuído dos valores morais que a sociedade europeia, individualista, egoísta, a caminhar a passos largos para o cenário, racista, xenófobo, nacionalista, que em meados do século passado ateou fogo ao mundo inteiro, despreza. 

"Aos 25 anos, Romelu Lukaku é uma lenda no futebol belga. É o melhor marcador da história da selecção. É a estrela do ataque do Manchester United. ... É também um jovem humilde que a fama não mudou. Tem uma maturidade anormal moldada por sacrifícios e uma fé inabalável.

Para além do pai e da mãe, o avô, no Congo [antiga colónia belga], era a pessoa mais importante da sua vida, com quem falava sempre que podia ao telefone.
“Ele era a minha ligação ao Congo, de onde são os meus pais. Um dia liguei-lhe e disse-lhe que o meu futebol estava a correr muito bem, que tinha marcado 76 golos, que vencemos o campeonato e que as grandes equipas começavam a reparar em mim. Normalmente ele queria saber, mas dessa vez estava estranho.

- ‘Sim Rom, isso é bestial. Mas podes fazer-me um favor?’- ‘Claro, o que é?
- ‘Podes olhar pela minha filha, por favor?’
Fiquei muito confuso.
- ‘A mamã? Sim, tudo bem.’
- ‘Não, promete-me. Podes prometer-me? Trata da minha filha. Cuida dela por mim, está bem?’
- ‘Sim avozinho. Entendi. Eu prometo.’
Cinco dias depois ele morreu  e eu percebi tudo. Fico tão triste ao pensar nisto, porque gostava que ele tivesse vivido mais quatro anos para me ver a jogar no Anderlecht. Para saber que tinha cumprido a minha promessa e que tudo ia ficar bem.”

“Quando as coisas corriam mal na selecção os jornais chamavam-me Romelu Lukaku, o atacante belga de origem congolesa; quando corriam bem, era Romelu Lukaku, o atacante belga. Alguns riam-se de mim quando não estava a jogar no Chelsea e fui emprestado. Mas não estavam comigo quando tinha de pôr água nos cereais e não podem realmente entender-me. Se não gostam da minha forma de jogar, tudo bem. Mas eu nasci aqui. Cresci em Antuérpia, Liége e Bruxelas.”

Romelu nunca esconde o orgulho pelo país e por vestir a camisola da selecção, com a qual fez história individual e colectiva. Já não pode contar ao avô que agora todos conhecem o apelido da família.
“Falo francês, holandês, alemão, espanhol ou português, dependendo do bairro onde estiver em Bruxelas. Somos ‘todos’ belgas. É isso que torna este país fixe, não é?”
Devia ser, Lukaku, devia ser. 

Antes do jogo e da leitura do Público, tinha enviado a seguinte mensagem aos nossos emigrantes: 
"Aposto que ganha a Bélgica, e será, segundo meu palpite a vencedora do mundial.
Interessante é que tanto do lado da França como da Bélgica a grande maioria dos jogadores ou são emigrantes ou descendentes de emigrantes, facto que deve colocar os nacionalistas, os neo-nazis, os racistas, e outros da mesma espécie, a espumar de raiva."

Para quem não perceba porquê recomendo a leitura de
 https://www.theguardian.com/education/2002/jan/04/highereducation.books
Hitler 1936-45: Nemesis by Ian Kershaw