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Tuesday, August 13, 2024

DEPOIS DA FESTA

Paris foi uma festa. E agora?

Uma abordagem serena, incontestável, de Teresa de Sousa sobre Paris, a Europa, o Mundo, hoje, que não agradará aos eurófagos, aqueles que afirmando-se sempre estar deste lado sustentam-se sempre em um qualquer mas para equilíbrio das suas convicções profundamente petrificadas. 

Quem não usa nem precisa de conjunções adversativas porque nunca deixaram de estar do lado de lá onde nasceram as suas deformações morais totalitárias são aqueles para os quais, por exemplo, "o regime da Coreia do Norte é o regime que o próprio povo coreano decidiu para si".
 
Subentenda-se que, só por lapso, o Secretário-geral do PCP não considera nesta afirmação, muitas vezes reafirmada, que o povo coreano, são cerca de 26 milhões de habitantes em 150 mil km2, na Coreia do Norte, mais cerca de 52 milhões em 100 mil km2 na Coreia do Sul.
A Coreia do Sul, posiciona-se  em 19º. lugar no HDI, índice de desenvolvimento humano (relatório UNDP das Nações Unidas). Portugal na 42ª.
Da Coreia do Norte, o mesmo relatório só regista a esperança de vida: 74 anos: Na Coreia do Norte, 84, um dos mais elevados do mundo.
Pois não. O Secretário-geral do PCP não quer saber o que dizem os relatórios sobre o desenvolvimento humano das Nações Unidas. Os eurófagos também não. Se não estão do mesmo lado, parece.
Sendo governados a Norte por um regime totalitário, aliás dinástico, e a Sul por um regime de democracia liberal onde a expressão de pensamento é livre, o povo da Coreia do Norte escolheu ser governado por uma monarquia de poder absoluto?
 
Por que razão perco tempo com o que diz Paulo Raimundo?
Porque ainda há quem continue a querer fazer-nos crer que o partido comunista é importante para a democracia portuguesa.
Não é, nem nunca foi.

Correl. - Da Venezuela à Ucrânia, a política externa continua a deixar o PCP em contracorrente

Sunday, June 09, 2024

BRANCO OU TINTO

Valeu o meu apontamento de ontem - O QUE VALE O MEU VOTO? - um comentário, pertinente, que, no entanto, não responde à questão em causa.

"... O voto de cada um de nós vale efectivamente uma quota numericamente  insignificante, mas isso é a essência dos regimes democráticos, onde ninguém, por mais poderoso que seja do ponto de vista político, económico ou religioso, tem um voto com maior significado do  que qualquer um dos outros votos !!!!  Omitir esta verdade, seja a que pretexto for, é como que um convite à abstenção do acto eleitoral !"

Votar é um direito cívico, não é uma obrigação.
Dizendo isto, de modo algum desvalorizo a essência primordial da democracia da liberdade de pensamento e da sua expressão.
O que me repugna é a feira, o leilão, com que, por motivação maior da emoção, a exaltação desvalorize a decisão de voto tomada conscientemente.
Culpa dos partidos e dos média que tendem a arrastar muitos eleitores pela paródia das arruadas para os lados dos seus interesses próprios e não do país.
Foi, e continua a ser, a complacência da democracia com os seus inimigos, que sufragou maiorias intencionalmente autocráticas, a caminho de ditaduras, que eliminaram democracias. 
Hitler foi o monstro que foi porque a democracia estava debilitada pela derrota alemã em 14-18 e os alemães, emocionalmente, engoliram as promessas propagadas a partir das cervejarias de Munique, pelo radicalismo de um fulano, austríaco, candidato frustrado a artista de belas-artes.
Aconteceu há cerca de 100 anos. Está a começar a acontecer agora.

Já votei hoje. 
Serve o meu voto para alguma coisa?
Não sou tão tolo para pensar que sim.
 
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A propósito de eleições europeias, encontrei no meu arquivo de recortes de imprensa alguns comentários sobre o livro de Saramago, publicado há vinte anos - Ensaio sobre a Lucidez - um ano em que Saramago integrou a lista de candidatos da CDU ao Parlamento Europeu "em lugar não ilegível, simplesmente como uma expressão de fidelidade ao PCP ", segundo o secretário-geral do partido nessa altura.   

     
  


 (cartoon de Vasco)

"Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembleia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado ..." 
 
Assim começa e prossegue em rame-rame tipicamente saramaguiano "Ensaio sobre a Lucidez" (2004) até chegar onde quer chegar: o temporal não afastou os votantes, a abstenção foi baixa, mas houve oitenta e três por cento de votos em branco, um resultado que exprimia a perda da credibilidade da população nas instituições, nos partidos políticos, da esquerda da direita e do meio e a indignação pelo descalabro praticado por políticos de partidos diferentes, mas de atuações iguais, usufruindo de privilégios que ofendiam a população. 
 
O livro, estruturalmente mal amanhado mas ideologicamente muito direccionado, constituía para a maioria dos críticos o ataque mais evidente à democracia em toda a obra de Saramago, e isso incomodou os fiéis do partido, que logo defenderam que, se por um lado,  oitenta e três por cento tinham votado em branco, por rejeição massiva dos partidos da direita, da esquerda e do meio, por outro lado, dezassete por cento tinham votado no único partido isento de todos os pecados imputáveis ao sistema. E se assim fosse, os dezassete por cento do eleitorado elegeria em 2004, vinte e sete, isto é, a totalidade dos candidatos ao Parlamento Europeu.
Na realidade só elegeu um.
 
Era uma parábola? Era uma anedota?
Fosse o que fosse, Saramago parecia ter descoberto a forma de implodir a democracia "se o voto em branco passasse a dez por cento", afirmava ele em entrevista ao Expresso em Abril de 2004, "isso era o terramoto de 1755 sem vítimas e sem estragos".
Hoje, provavelmente, estaria do lado de Putin, contra a União Europeia. 
Tem candidato sucessor em lugar elegível: perdeu Beja, pode ganhar Bruxelas. Como negócio, nada mau para o candidato.  

Sunday, November 06, 2022

O LÍDER PRÉ FEITO*

"Nasceu em Cascais. Os pais, naturais de Beja, trabalhavam como funcionários do Estoril Futebol Clube quando nasceu e viviam nas instalações do clube.

Com três anos, foi viver com os pais para Setúbal, onde frequentou a Escola Primária do Faralhão, na freguesia do Sado, uma escola construída em pleno período revolucionário. A infância foi passada entre a vivência “de rua” e a acompanhar a mãe nos trabalhos na agricultura, nas limpezas e nas obras. Houve momentos em que chegou a trabalhar com a mãe na apanha do marisco.

O 5.º e 6.º anos foram concluídos graças à telescola, mas foi na Escola Secundária da Bela Vista, por altura do seu 10.º ano, que contactou com a política como integrante das listas para associação de estudantes. Acabou o 12.º ano à noite já como trabalhador-estudante.

Já com o serviço militar obrigatório concluído, em Vila Nova de Gaia e no Porto, em 1991,  “desperta para a política partidária e junta-se à JCP”. Quatro anos depois já figura no quadro de funcionários da juventude comunista, onde também progrediu até à direcção nacional, comissão política e secretariado.

No último congresso, em Novembro de 2020, foi reeleito para os três principais órgãos da direcção do partido. tornando-se um dos poucos militantes a acumular funções nos órgãos mais restritos da direção comunista -- Comissão Política e Secretariado.

Casado e pai de três filhos, foi também eleito na Assembleia Municipal de Setúbal, cidade onde cresceu.

O futuro secretário-geral do PCP é apresentado pelo partido como um dirigente que “associa qualidade humanas próprias a uma experiência densa e diversificada”, um trabalho político de proximidade com todas as estruturas do partido, desde a juventude comunista aos órgãos mais circunscritos da direcção.

O PCP descreve o militante de há quase três décadas como um homem com “um percurso de vida dedicado à defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo português, por um Portugal com futuro, pelo ideal e projecto comunistas”.

Com excepção do título*, suceptível de revisão e melhoria, o texto deste apontamento está publicado aqui.



 

Saturday, March 12, 2022

Thursday, March 03, 2022

A DESPUDORADA COERÊNCIA DOS COMUNISTAS PORTUGUESES

Vejo* de relance algumas imagens repugnantes das atrocidades provocadas por ordens de Putin e do seu entourage -  aqui - que horrorizam as pessoas de consciência limpa e vistas livres de antolhos, e revoltam-me as posições assumidas pelos comunistas portuguesas de defesa da história contada por Putin & Companhia para justificar o assalto que destrói indiscriminadamente instalações militares, edifícios residenciais, monumentos, hospitais, e mata civis, obrigando sobreviventes  mulheres e crianças a abandonar o país, despedindo-se de maridos e pais. 

Chegam-me por e-mail mensagens desses obstinados defensores  da legitimidade da invasão da Ucrânia pelo poder russo. Reconheça-se, considerando o longo percurso do PCP,  que há alguma despudorada coerência nessa obstinação, insensível aos horrores do espectáculo desta guerra transmitida em directo.

Em 1975 os comunistas portugueses moviam-se por alcançar o poder, guiados pelo farol da  ditadura, dita do proletariado, pela qual haviam lutado e alguns morrido, durante décadas, que iria colocar Portugal na órbita da União Soviética, substituindo uma ditadura por outra. 

Putin não será comunista mas o seu desideratum é o mesmo do Politburo instalado no Kremlin, de onde hoje Putin pretende reconstruir o domínio do império czarista, destronado em 1917 pelo regime comunista, que implodiu em 1991 depois de sete décadas de uma experiência encantatória esmagada sob o peso do seu fracasso total.
 
E os comunistas portugueses, ficaram náufragos e sem farol. 
Eles não confundem, certamente, Putin com a União Soviética mas não condenam as atrocidades do regime plutocrático russo porque, sendo Putin hoje o czar detentor de um enorme poder bélico herdado do regime soviético, de que Putin foi parte, o revanchismo é lenitivo para a orfandade de quem ficou náufrago e sem o seu mágico farol. 

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1975 - Julho

"Agora que os deputados comunistas, ou melhor, os deputados do Partido Comunista abandonaram a sala, aqueles que são contra a liberdade, eu só quero dizer, antes de continuar, que há naquelas bancadas do Partido Comunista gente que se acolheu em minha casa, que, nos duros anos do fascismo, procurou abrigo na modesta casa de um camarada antifascista como eles. Agora abandonam esta Assembleia, mostrando à evidência que eles não sabem sentir e compreender a palavra "liberdade".
Porque saíram da sala esses deputados? Um dia o povo português responderá" - António Arnault

--- act.

Hoje, 04/03, ouço esta manhã na rádio que Putin decretou a Lei Marcial no país e que, durante a noite, foram bombardeadas pelos militares russos instalações anexas à Central de Zaporizhia, a maior central nuclear da Europa. Kiev fica a meio caminho entre Zaporizhia e Chernobyl, cerca de 350 quilómetros para cada lado.


Wednesday, February 23, 2022

QUEM ESTÁ DO LADO DE LÁ

Há dias colocava neste caderno de apontamentos uma dúvida: o PCP apoia Putin; e o CHEGA?

Hoje lê-se aqui a resposta: "À excepção do PCP e do PEV, os partidos parlamentares são unânimes na crítica às posições russas e deverão manifestar a sua posição na Comissão Permanente (órgão que substitui o plenário da Assembleia da República) marcada para quinta-feira, com a participação do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva."

"O PCP diverge e, em comunicado, acusa os Estados Unidos, a NATO, a UE e o regime ucraniano pela situação que se vive naquele país, defende a dissolução da NATO e a desmilitarização da UE, assim como um “processo de diálogo com vista a uma solução pacífica para o conflito”. Os comunistas culpam o Ocidente pela promoção do que dizem ser uma “perigosa estratégia de tensão e propaganda belicista” e de confrontação face à Federação Russa ao ser permitida a entrada da Ucrânia na NATO."

O  Avante já tinha informado de que lado estão os comunistas portugueses neste conflito que pode degenerar numa guerra global: estão do lado de lá.

E no lado de lá estão aqueles que se submetem aos dictats de regimes onde a democracia sustentada no voto popular é considerada uma ameaça a abater. Xi Jinping colocou a democracia liberal como o primeiro inimigo do comunismo chinês - conf. aqui. Putin está do mesmo lado.

Muito mais do que o actual conflito localizado na disputa pela posse do território da Ucrânia, o que está em jogo é a disputa pela supremacia dos regimes totalitários pelo seu espaço vital, no actual contexto geo estratégico, o espaço global.
Na Europa, o primeiro objectivo é a destruição da União Europeia. Onde o voto popular pode deixar-se atrair pelos populismos que campeiam desenfreados: se não se defendem os valores da democracia o totalitarismo abafa-os. 

Sunday, February 20, 2022

O PCP APOIA PUTIN. E O CHEGA?

Há quase 1 mês perguntava aqui: No caso de um conflito armado (mais provável que impossível) de que lado se posicionariam os comunistas portugueses? 
 
E os extremistas de direita? pergunta-se aqui

Putin no parlamento português

Já não espanta que o PCP insista no apoio ao regime da Rússia. O que não sabemos, por enquanto, é se o Chega tem um alinhamento tão claro como outras forças do grupo europeu Identidade e Democracia.

Há dois equívocos habituais sobre a crise na Ucrânia. O primeiro é o de que estamos na antecâmara de uma guerra, expectantes para ver se ela deflagra ou não. O segundo é o de que a crise é só uma questão de luta pelo poder geoestratégico, nada tendo de ideológico.

Sobre o primeiro equívoco, a verdade é que uma invasão russa significará apenas mais uma batalha de uma guerra em curso, travada por outros meios que não só os meios militares clássicos. Nessa guerra, que é uma guerra de reconquista da vocação imperial da Rússia, percebe-se que Vladimir Putin queira reconstruir uma zona de influência contra o bloco ocidental. E percebe-se que, para isso, precise de ter a NATO longe das suas fronteiras. Mas é falaciosa a ideia de que a intenção é simplesmente a de que haja uma zona neutral de amortecimento entre os dois blocos, como assegura a propaganda do regime.

A Ucrânia tem na sua Constituição o projecto de aderir à União Europeia e à Aliança Atlântica. Se esse desejo for inviabilizado por imposição de Moscovo, então a Ucrânia passará a ser de facto um Estado subalterno da Rússia. Estará sempre dependente do que o vizinho achar aceitável. Não há qualquer neutralidade na “neutralidade” que Putin quer.

Além disso, a guerra extravasa em muito aquela hipotética barreira protectora de países não-alinhados. Putin levou a sua guerra ao centro do mundo ocidental, com o lançamento de ciberataques às nossas instituições, a tentativa de manipulação das nossas eleições, os envenenamentos de opositores nas nossas capitais, o financiamento de partidos amigos nos nossos sistemas políticos e o apoio a regimes criminosos que forçam a aterragem dos nossos aviões para prenderem activistas que os ameaçam. São actos hostis de uma guerra que se serve da liberdade do Ocidente para minar a confiança dos ocidentais no seu próprio modelo de convivência.

O que me traz ao segundo equívoco – o de que nesta guerra não há nada de ideológico. É claro que a luta pela expansão da influência internacional é basicamente amoral. Mas, neste caso, há uma luta entre dois blocos que assentam em duas concepções antagónicas sobre qual é a ordem política legítima: de um lado, a ordem política autoritária; do outro lado – o nosso lado –, a ordem política democrática. É inevitável que a prevalência de um bloco sobre o outro tenha um impacto no quadro de valores com que o mundo se organiza. É por isso indispensável conhecer o pensamento dos protagonistas políticos sobre estas duas tensões, geoestratégica e ideológica, que marcarão os próximos tempos.

Em Portugal, já não espanta que o PCP insista no apoio ao regime da Rússia, mesmo que haja lá um partido comunista congénere na oposição. Foi o que fez de novo há dias, com um comunicado em que Putin aparece como uma vítima incauta da agressão imperialista americana. O PCP nunca se conseguiu libertar do sentimento de orfandade desde o fim da URSS. É um perdedor ressentido que se alia cegamente a qualquer potência que desafie os Estados Unidos.

Mais original é o que se está a passar à direita. Sabemos do fascínio que Putin exerce sobre as forças da direita iliberal na Europa, de Le Pen, Orbán ou Meloni. É um fascínio natural, dada a afinidade ideológica dos conservadores autoritários com um líder que se opõe às instituições do liberalismo político e coloca no centro do regime a figura do “homem forte”, guardião carismático da ordem moral. Sabemos, também, como a Rússia apoia activamente essas forças. O que não sabemos, por enquanto, é se o Chega, que está com elas no grupo europeu Identidade e Democracia, terá um alinhamento tão claro com Putin.

Se isso acontecer, então a profundidade da fragmentação da direita democrática portuguesa não significará apenas que, pela primeira vez, há um partido parlamentar desconfortável com o regime pós-1974. Significará igualmente que, espelhando o que sempre sucedeu à esquerda, a direita deixou de estar inequivocamente unida no europeísmo, no atlantismo e na fidelidade geoestratégica e ideológica ao bloco ocidental. Um caso a acompanhar.


Sunday, September 05, 2021

HOJE, NÂO. DEPOIS, SIM

 

"O secretário-geral do partido (comunista) disse que a "pressa" do Governo para marcar as eleições autárquicas para 26 de setembro "condicionou tudo" e, por isso, "não havia condições, nem há, para qualquer discussão prévia em relação à proposta de Orçamento do Estado que ainda não existe".- aqui

Friday, November 20, 2020

OS AMIGOS SÃO PARA OUTRAS OCASIÕES

 21 Agosto 2020

“No dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou” - António Costa em entrevista do Expresso - aqui

 Hoje, 20 Novembro 2020

O Parlamento aprovou esta sexta-feira a renovação do estado de emergência, que permitirá ao Governo apresentar medidas de combate à pandemia em função do concelho. Na Assembleia, só PS, PSD e a deputada não inscrita Cristina Rodrigues votaram a favor, mas o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, quis salientar o apoio de “mais de 90%” dos deputados para a viabilização da renovação do estado de emergência, numa altura em que um estudo aponta para a redução do apoio dos portugueses às medidas adoptadas pelo executivo. - c/p aqui

PCP não fará testes nem medição de temperatura no congresso e, mesmo que haja recolher obrigatório para Loures, as reuniões dos órgãos partidários não estão suspensas

 



Saturday, December 02, 2017

VERTICALIDADE E RESSABIAMENTO


Num país onde a generalidade dos empresários se abriga, ou faz por isso, debaixo do chapéu do Estado, mal seguro pelos procuradores alternantes, Belmiro de Azevedo foi, de longe, a mais evidente excepção. Recusando a participação em jogadas de compadrios partidários, perdeu as propostas que apresentou em cursos de privatização de algumas empresas nacionalizadas em sequência do golpe 11 de Março de 1975.

Se as contas referidas num artigo do Expresso publicado ontem aqui* estão certas, e não tenho nenhum indicação em contrário, os comissários políticos a quem foram dados poderes para defender os interesses do Estado, cometeram erros, e, provavelmente crimes, que prejudicaram os interesses públicos em valores incalculáveis, mas, em qualquer caso, enormíssimos.
Belmiro de Azevedo, ainda assim, por inabilidade ou conivência de quem decidiu ou mandou decidir, ganhou, em três tentativas perdidas, muito dinheiro: cerca de 123 milhões de euros.

Provavelmente, ressabiado, o PCP votou contra o voto de pesar pelo falecimento de Belmiro de Azevedo aprovado na Assembleia da República. Não conseguem os comunistas admitir que o Estado é um ente sem capacidade volitiva e os procuradores mais propensos a defender os seus próprios interesses que o bem comum. E que, lamentavelmente para o país onde nascemos e vivemos, empresários com a dimensão e verticalidade que caracterizaram Belmiro de Azevedo, não se vislumbram, por agora.

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*
"... Houve um tempo em que na Sonae se gracejava sobre a semelhança entre o jornal “Público” e as privatizações. Com o “Público”, Belmiro perdia dinheiro e ganhava inimigos, com as privatizações ganhava dinheiro e inimigos. Belmiro defendia que um grupo industrial poderoso como a Sonae teria vantagens em controlar um banco. E logo na abertura das privatizações tentou o Totta & Açores mas depressa sentiu que o jogo estava viciado. Recusara uma aliança com o espanhol Banesto que se aproximaria depois de José Roquette. A aliança levou Belmiro a abdicar da luta pelo controlo, vendendo a sua posição a Roquette. Em cinco meses, ganhou 3,4 milhões de contos (€17 milhões) e teve a virtude de arrastar no negócio outros 200 acionistas que lhe permitiram representar 12% do capital. No Totta, não quis “prolongar guerras difíceis” e o banco para ele foi “just another business”.
Desafiado por Elias da Costa, secretário de Estado das Finanças à época (1991), Belmiro entusiasmou-se com o BPA, um dos bancos com que a Sonae lidava. Mas acabaria derrotado, indignado com o árbitro (Eduardo Catroga). No BPA, a batalha foi árdua, Belmiro lutou mesmo pelo seu controlo, beneficiando do apoio de um núcleo duro e da gestão do banco.
Quando, em 1994, o BCP lança uma inesperada OPA parcial sobre o BPA, o Estado tinha 24,5% e o núcleo duro de Belmiro dava sinais de incoerência e vulnerabilidade. Num primeiro momento, Catroga alinha com o núcleo de Belmiro e recusa a OPA. O BCP reincide, com uma segunda oferta sobre a totalidade do capital. Catroga está em últimas exibições, quer resolver o dossiê BPA e maximizar receitas. Aceita a operação, desprezando o compromisso que celebrara com o núcleo do norte para a venda das ações do Estado. Catroga desafia Belmiro a lançar uma OPA concorrente. Belmiro desdobra-se em reuniões em Lisboa, desde o primeiro ministro, Cavaco Silva, ao líder da oposição, António Guterres. A OPA avança e Belmiro perde a batalha. No fim, recebeu €60 milhões pelo lote de 7% com o investimento de perto de €40 milhões. Ainda recorreu a tribunal, exigindo uma indemnização ao Estado (€37,5 milhões) por quebra de compromisso. O juiz reconheceu que o Estado criara legítimas expectativas e violara o compromisso com o núcleo duro, mas que a indemnização não se justificava.


Portucel: a hostilidade de Carlos Tavares

Na Portucel, Belmiro registou o desaire mais doloroso por ter comprometido de vez o seu projeto coerente na fileira florestal. O caso Portucel dava uma novela, com namoros desfeitos, traições e um final inesperado. Belmiro reforçara em bolsa até 30%, aprovou a fusão com a Soporcel de que era acionista e desistira no fim por se sentir hostilizado pelo ministro Carlos Tavares. Por sinal, o mesmo Carlos Tavares que Belmiro defendera para ver a dirigir o BPA, quando alimentava o sonho de comandar o banco.
Também neste caso, a visão do Executivo não se encaixou no plano da Sonae. Belmiro contestou desde o primeiro momento o modelo da operação e rejeitaria um aumento de capital que viabilizaria, em 2003, a entrada, como acionista de referência, do consórcio Cofina/Lecta, selecionado após um concurso lançado pelo Governo. Desautorizado, Belmiro estraga o plano de Tavares por achar que a solução “diluía o valor das participações” dos acionistas. Belmiro pressionou o Governo até ao último momento para rever a estratégia, acreditando numa negociação direta com quem já era acionista relevante. Mas não. Tavares avisa que a solução “não privilegiaria um acionista”. Belmiro declara “não estou vendedor, mas não sou um empata”. Tavares desafiara Belmiro a lançar uma oferta geral sobre a empresa, recusando uma negociação particular da posição do Estado. A Sonae queria um controlo sem grandes despesas e afastou-se do processo. A Portucel seria disputada por dois grupos (Cofina e Semapa) e ganho por quem não tinha currículo no sector — a Semapa, de Pedro Queiroz Pereira.
A Sonae deixaria o negócio do papel com muita pasta (€297 milhões) e um ganho de €86 milhões, o mais suculento das privatizações em que esteve enredado. O desfecho levaria a Sonae a vender no ano seguinte a Gescartão. Sempre que se meteu com o Estado, Belmiro perdeu os negócios mas ganhou na tesouraria. E fez a promessa de nunca mais falar com Carlos Tavares...  - aqui

Friday, October 27, 2017

O VENTO MUDOU

"Eu tenho nervos de aço" - 27/10/2017

Ao primeiro-ministro são sobejamente reconhecidas as suas qualidades de negociador. 
Não ganhou as eleições mas foi capaz de atrelar os partidos à esquerda, concedendo e transigindo dentro dos limites que os compromissos com a UE impunham. E, durante metade do prazo da legislatura, conseguiu o que muitos, ente os quais me encontro, não acreditavam que fosse possível. 
Contou com o apoio do Presidente da República, a colaboração da Comissão Europeia e a tranquilidade laboral consentida pelos comunistas. 

De repente, o vento mudou.
Os incêndios de Junho e o roubo de armas de Tancos, continuando ainda impunes larápios e coniventes, já tinham abalado a boa estrela do executivo mas as sondagens continuavam-lhes favoráveis. 
As eleições autárquicas são ganhas, destacadamente, pelo PS, o PCP não escondeu o seu desagrado e acusou o parceiro de práticas desonestas, e o presidente do PSD declarou não querer continuar no seu posto. 
Em Outubro, reacendem-se dramaticamente os fogos e, pela primeira vez, o primeiro-ministro vê-se obrigado a assumir responsabilidades dos serviços de protecção civil na dramática extensão das perdas materiais e humanas.

E, quase simultâneamente, acontece a tempestade perfeita, mau augurada dois anos antes:
O PR muda de discurso, os parceiros à esquerda mobilizam os sindicatos para a greve, fiando-se, além do mais, que, estando a direita sem líder, o governo não está ameaçado, e, para cúmulo das coincidências, Bruxelas passa a ver, quando o OE entra na AR para debate, "risco significativo nos défices de 2017 e 2018". 

Não sei se ao primeiro-ministro ajudarão nervos de aço, porque do que ele vai continuar a precisar é de muito jogo de cintura. 

Wednesday, October 18, 2017

POR ENTRE OS PINGOS DE SANGUE


Já foi dito e demonstrado que o actual primeiro-ministro é mui hábil manobrador. 
Mas não há habilidade que chegue se o espaço de manobra se estreita e deixa o manobrador sem margem de manobra. 
Depois da tragédia de Pedrogão Grande e arredores percebeu-se muito nitidamente que, para além das circunstâncias naturais excepcionais, a protecção civil do território estava entregue a um conjunto de gente geralmente incompetente. A ministra da Administração Interna, soube-se esta manhã, pediu a demissão, mas o primeiro-ministro sempre confiante no seu jeito e na boa estrela procurou safar-se entre a chuva de sangue que caiu naquela noite de um Junho normalmente tórrido. E não aceitou o pedido de demissão da ministra obrigando-a a desempenhar um papel que ela não queria continuar a exercer.

Terá o ministro da Defesa, embrulhado em discursos contraditórios no caso de Tancos, também visto recusado pedido de demissão que o mais elementar sentido de Estado impunha? Não sabemos, mas as dúvidas levantam-se e não se dissipam porque o primeiro-ministro insiste em refugiar-se atrás das atribuições do Ministério Público ignorando o óbvio: independentemente da identificação dos larápios e eventuais coniventes, em Tancos havia, e continua a haver, cadeias de comando com responsabilidades fixadas que já devem ter identificado, mas não dizem, quem não estava onde devia ter estado e porquê. Não dizem esperando que o tempo passe e a memória colectiva se esqueça. *

Ontem, não tão inesperadamente quanto as memórias curtas terão sido levadas a  supor, o Presidente da República, interpretando o espanto e o desespero dos portugueses foi claro e disse e fez o que se impunha, impedindo que a habilidade do primeiro-ministro pretendesse continuar a escapar intocado entre os pingos grossos de uma segunda chuva de sangue. Ordenou-lhe que revisse os quadros e os esquemas e apresentasse desculpas aos portugueses, assumindo, reconhecendo, que, entre outros,  os serviços de protecção civil tinham provado que não tinham protegido o que deviam ter protegido.

E agora, sr. primeiro-ministro, como se despe a soberba e veste a dignidade de obedecer e pedir desculpas? Logo, veremos.
E agora, srª Catarina Martins, como sustenta a continuidade deste Governo, que circunstâncias inevitáveis obrigaram a tergiversar quando prosseguia uma caminhada de sucesso que parecia imparável? Não tem alternativa, tem de garantir-lhe o voto de confiança que os comunistas não garantirão nem negarão.
Ou caem todos sem se saber quem se levanta.
---
* Segundo notícia de última hora, "Armamento roubado em Tancos foi recuperado pela Polícia Judiciária Militar O material de guerra foi encontrado esta noite na região da Chamusca."

A polícia fez o que lhe competia. Falta ao Governo fazer o que lhe compete. Há responsabilidades políticas a que não pode esquivar-se. Caso contrário, para que serve o Ministério da Defesa?

---
Correl. -
O PINHAL DO REI

Catedral verde e sussurrante, aonde
A luz se ameiga e se esconde
E aonde, ecoando a cantar,
Se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
Ditoso o «Lavrador» que a seu contento
Por suas mãos semeou este jardim;
Ditoso o Poeta que lançou ao vento
Esta canção sem fim ...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Rei Dom Dinis, bom poeta e mau marido,
Lá vêm as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
Aonde a minh'alma aprendeu
A música do Longe e o ritmo da distância,
Que a tua voz marítima lhe deu;
Místico órgão cujo além se esfuma
No além do Oceano, e onde a maresia
Ameiga e dissolve em bruma,
E em penumbras de nave, a luz do dia.
Por este fundos claustros gemem
Os ais do Velho do Restelo ...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
Teus velhos troncos de saudosos fremem .

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
Que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
São as caravelas, teu corpo cortado,
É lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
Foi do teu corpo e da tua alma também
Que nasceram as nossas caravelas
Ansiosas de todo o Além;
Foste tu que lhes deste a tua carne em flor
E sobre os mares andaste navegando,
Rodeando a terra e olhando os novos astros,
Ó gótico Pinhal navegador,
Em naus erguida levando
Tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Que grande saudade, que longo gemido
Ondeia nos rames, suspira no ar!
Na sussurrante e verde catedral
Oiço rezar a alma de Portugal:
Ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
Sonâmbulos de surda ansiedade,
No roxo da tardinha,
Abre a flor da Saudade;
Ela aí vem, sozinha,
Dorida do naufrágio e dos escolhos,
Viúva de seus bens
E pálida de amor,
Arribada de todos os aléns
De este mundo de dor;
Ela aí vem, sozinha,
E reza a ladainha
Na sussurante catedral aonde
Toda se espalha e esconde,
E aonde, ecoando a cantar,
Se alonga e se prolonga a longa voz do mar…


In  "Ilhas de Bruma", de Afonso Lopes Vieira, (1878-1946)


 D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
                                                                                   

                                                                                      Fernando Pessoa