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Monday, May 06, 2024

PARA A HISTÓRIA DA INSANIDADE DA POLÍTICA EM PORTUGAL

O Cartoon de António    

A família 

                                                     (clicar na imagem para a aumentar)

Thursday, April 18, 2024

O DESASSOSSEGO DE UM DESPEITADO

Ouvi ontem a entrevista de M J Avilez a Passos Coelho. Já tinha lido e ouvido alguns comentários esparsos sobre essa entrevista sem lhes ter dado grande atenção por rejeição saturante de tantos comentários e comentadores sobre este e mil e um outros assuntos tão frequentes e previsíveis como as ondas do mar.

Ouvi algo dignamente novo? Algo que não tivesse previsto ainda antes das eleições que passaram para  Passos Coelho e Paulo Portas um tição engendrado por José Sócrates  que só poderia queimar-lhes as mãos e as carreiras políticas? 

Ouvi nesta entrevista Passos Coelho desvendar que tinha, antes das eleições em 2019 terem acontecido, tido conhecimento ou indícios válidos que António Costa tinha preparado o, ainda inédito em Portugal, golpe de cintura que, sem ganhar as eleições, poderia legitimamente ser primeiro-ministro mandando Passos para a travessia do deserto. Se assim foi, e foi Passos Coelho que o disse, Passos Coelho, por desmedida ambição de ser primeiro-ministro por qualquer custo ou ingenuidade quixotesca, assumiu em 2011 o ónus e o ódio que o irão marcar a seguir até hoje.

A entrevista de M J Avilez termina com Passos Coelho dizer e a repetir-se que não sente (só agora?) qualquer constrangimento em intervir na praça política. 
Interpretação linear minha: O actual quadrante político à direita do PS, até ao mais extremo dos extremismos daquele lado, possui potencial mais que suficiente para vingar Passos Coelho do golpe de cintura, até então inédito, de António Costa em Julho de 2015.
Ganha André Ventura, muito conhecido de Passos Coelho.
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Transcrevo a seguir, na íntegra, o que escrevi aqui neste caderno de apontamentos em 2 de Junho de 2011, dia anterior às eleições:

PASSAGEM DE TIÇÃO


c/p de aqui

Se no próximo domingo os resultados das eleições confirmarem os das sondagens mais recentes, tudo leva a crer que PSD e CDS se coligarão para governar o país, o mesmo é dizer, para aplicar a receita da troica.

Porque, dificilmente, haverá margem para ficar aquém sem colocar em risco a solvência do país, ou possibilidade de ir mais além, tantos são os objectivos a alcançar e tão apertados são os prazos e as condições impostas. 

As probabilidades de fracasso não são menores que as probabilidades de sucesso. Mas, tanto num caso como noutro, a receita obriga a esforços que podem espoletar distúrbios sociais em larga escala. Que não deixarão de ser assanhados pelos dois partidos anti-sistema.

Qual será o comportamento do PS, fora do Governo, se a maré alta do descontentamento saltar para a rua? O PS é subscritor do memorando (MoU) mas a aplicação deste  não obedece a critérios tão objectivos que não possam provocar diferenças de interpretação e os resultados diferentes leituras logo à partida. Repare-se, por exemplo, na tão controversa redução da TSU. Quando o Governo e os partidos subscritores do MoU se comprometem a uma "major reduction" de quanto é que se está a falar? Sabemos que não se trata de uma redução pequena e gradual, como, para efeitos eleitorais, tem prégado Sócrates. Mas não sabemos quanto nem como. Só esta questão, e há dezenas delas sensíveis à controvérsia, dá para excitar a opinião pública ao rubro e corroer o governo.

Uma coligação tripartida parece, neste momento, estar fora das perspectivas dos partidos da troica, apesar de ter sido, e continuar a ser, sugerida de vários quadrantes politicos. Do meu ponto de vista, que defendo praticamente desde quando iniciei este caderno, há mais de cinco anos, Portugal, na situação de crise em que se encontra há mais de uma dezena de anos,  precisa de um governo que represente a grande maioria a população. Será sempre um governo fraco o que deixar de fora a representação de quase 50% dos portugueses.
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Manuel Pinho apareceu num comício do PS para defender um novo bloco central. Pena é que Manuel Pinho não se tenha lembrado, enquanto foi ministro, que Portugal há muito precisa de um governo capaz de reestruturar a sua economia e, por tabela, as suas finanças públicas. Pena é que nem ele nem a entourage
do primeiro-ministro tenham influenciado Sócrates no sentido de abandonar a sua autosuficiência. Agora, corremos o risco de mudar de autosuficiente. Até o tição queimar as mãos de quem, autosuficientemente, lhe pega.
(Já me enjoa repetir-me)

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Oito anos,  depois, escrevi aqui

A SEGUNDA DERROTA DE PEDRO PASSOS COELHO

Hoje é dia de reflexão.
Reflictamos!

A 2 de Junho de 2011, quatro dias antes das eleições legislativas daquele ano,  coloquei neste caderno de apontamentos uma reflexão -
PASSAGEM DE TIÇÃO -.
Voltei durante estes oito anos algumas vezes ao tema, e hoje, véspera das eleições legislativas não encontro título mais apropriado para o que, segundo as últimas sondagens conhecidas, vais suceder: o PS ganha as eleições destacadamente, com 10 pp. acima do PSD.

Segundo as sondagens, as posições na grelha de partida em 6 de Junho de 2011 seriam estas: O PSD com 36% ganharia com 5 pp sobre o PS e o CDS atingiria os 11%. O PSD coligado com o CDS teria maioria absoluta na Assembleia da da República.

Os resultados foram estes:


O PSD atingiu os 38,63%, o CDS 11,74%, e Passos Coelho avançou, peito feito, para o touro troica.

Errou.

Errou, estrondosamente!

Apontei várias vezes neste caderno que, ao deixar de fora o PS e enfrentar uma situação que prometia ser escaldante, Passos Coelho pegou no tição ... e queimou-se irremediavelmente. Tanto mais que não só segurou o tição como o apertou e gabou-se disso.

Perguntar-me-ão: E se o PS não aceitasse fazer parte de um governo fortemente condicionado por um acordo com a troica de que o PS era o primeiro signatário? Perderia toda a razão para culpar mais tarde o governo de que recusara fazer parte.

Depois, foi o que sabemos. Nas legislativas de 2015 a coligação PSD/CDS ganhou - vd. aqui - por maioria relativa (36,86%) mas perdeu cerca de 14 pp relativamente às eleições de 2011, o PS subiu para 32,31% e António Costa inventou a geringonça. Catarina Martins reclama que foi ela quem deu a dica, Jerónimo de Sousa garante que foi ele quem falou primeiro.

Fosse quem fosse o inventor, o padrinho parece ter sido Vasco Pulido Valente e Portas o altifalante,

com o terreno terraplanado pela austeridade imposta pela dívida atingida, o governo de António Costa levantou voo a bordo da geringonça, e o PS fez um brilharete. 

Vai ganhar as eleições amanhã. E depois? Conseguirá António Costa reconstruir e fazer andar novamente a geringonça que, entretanto, resvalou e está em posição de cair pela ribanceira abaixo?

O PCP já adiantou que lhe dará apoio se António Costa aceitar anular a revisão das leis do trabalho que aprovou recentemente com o apoio do PSD. Coisa pouca, portanto. Passos Coelho estará à espera para se divertir com a vinda do diabo que, prematuramente, anunciou.
Mas não tem, nem ele nem os seus companheiros forcados amadores, razão para se regozijarem com a derrota de Rui Rio. Porque a derrota é deles. 

 

Tuesday, March 12, 2024

O ÊXITO DO ÁCIDO DESOXIRRIBONUCLEICO

"O ADN (ácido desoxirribonucleico) é um polímero composto por duas cadeias polinucleotídicas que se enrolam umas sobre as outras para formar uma dupla hélice O polímero carrega instruções genéticas para o desenvolvimento, funcionamento,  crescimento e reprodução de todos os organismos conhecidos e muitos vírus..." Pois é, é isto e muito mais, a descoberta que mudou radicalmente o entendimento da espécie humana relativamente sobre seres que sendo, aparentemente tão diferentes, são realmente tão semelhantes por diferirem quase nada entre si, considerando a extrema complexidade da formação da vida. 

Muito pouca gente saberá o que é que ADN significa. Incluindo, obviamente, o bom povo português que votou no domingo no ADN. 
E, no entanto, o acrónimo é usado a propósito, mas sobretudo a despropósito, na linguagem corrente: por exemplo, o tipo é um malandro, não há nada a fazer, está-lhe no ADN. Ou o tipo é um lutador, está-lhe no ADN.
Quando o ADN ainda não tinha chegado ao conhecimento humano, dizia-se, por exemplo, o tipo é um lutador, está-lhe na massa do sangue. Não era bem assim mas não estava longe.

O ADN, sigla que identificava um dos partidos no boletim de voto,  Alternativa Democrática Nacional, teve, desde a sua fundação uma aventura tortuosa até se tornar no mais falado no dia das eleições. 
Agora, quando os resultados das eleições já são conhecidos, parece que o país entrou em estado de choque. E as explicações multiplicam-se. 
Sem necessidade nenhuma disso porque bastava analisar o ADN deste ADN que constava entre os 14 partidos concorrentes, a maioria dos quais estranhos ao bom povo português.
 
Nasceu com outra designação, em 2014, pela mão do advogado António Marinho e Pinto. 
Foi registado como PDR, Partido Democrático Republicano, concorreu às eleições de 2015, não elegeu nenhum deputado. 
Na altura, o chamado Partido Democrático Republicano (PDR) concorreu nas eleições legislativas de 2015 sem eleger nenhum deputado. Quatro anos depois, em 2019, perdeu mais de 80% dos votos e voltou a não eleger ninguém.
Em 2019, concorreu com o mesmo nome e voltou a eleger ninguém.
Decidiu mudar de nome, passou a chamar-se Alternativa Democrática Nacional, mas nas eleições de 2022 voltou a não eleger qualquer deputado. 
 
Para as eleições deste domingo apresentou-se a AD, Aliança Democrática, a ressuscitar o CDS e o PPM, com a sigla AD. Foi óptimo para o ADN. Não elegeu nenhum deputado mas cometeu a proeza de ter tirado à AD, dois ou três deputados. Descuido do PSD em analisar o ADN do ADN.

Alteraram-se significativamente as perspectivas de instabilidade decorrentes da entrada do Chega com 48 deputados na Assembleia da República? Não. Os dados estavam lançados com o lançamento, pelos outros partidos,  de Montenegro para os braços de Ventura. 
Disse isso aqui oito dias antes do dia das eleições: Se perderes, ganhas; se ganhares, perdes.
Saiu a bola preta a Luís Montenegro e a bola branca a Pedro Nuno Santos. 
A rapidez com que este felicitou o adversário, antes de serem conhecidos os resultados que dirão a quem cabem os 4 deputados eleitos pelos emigrantes é sintomático que lhe coube a sorte de perder.


Sunday, February 20, 2022

O PCP APOIA PUTIN. E O CHEGA?

Há quase 1 mês perguntava aqui: No caso de um conflito armado (mais provável que impossível) de que lado se posicionariam os comunistas portugueses? 
 
E os extremistas de direita? pergunta-se aqui

Putin no parlamento português

Já não espanta que o PCP insista no apoio ao regime da Rússia. O que não sabemos, por enquanto, é se o Chega tem um alinhamento tão claro como outras forças do grupo europeu Identidade e Democracia.

Há dois equívocos habituais sobre a crise na Ucrânia. O primeiro é o de que estamos na antecâmara de uma guerra, expectantes para ver se ela deflagra ou não. O segundo é o de que a crise é só uma questão de luta pelo poder geoestratégico, nada tendo de ideológico.

Sobre o primeiro equívoco, a verdade é que uma invasão russa significará apenas mais uma batalha de uma guerra em curso, travada por outros meios que não só os meios militares clássicos. Nessa guerra, que é uma guerra de reconquista da vocação imperial da Rússia, percebe-se que Vladimir Putin queira reconstruir uma zona de influência contra o bloco ocidental. E percebe-se que, para isso, precise de ter a NATO longe das suas fronteiras. Mas é falaciosa a ideia de que a intenção é simplesmente a de que haja uma zona neutral de amortecimento entre os dois blocos, como assegura a propaganda do regime.

A Ucrânia tem na sua Constituição o projecto de aderir à União Europeia e à Aliança Atlântica. Se esse desejo for inviabilizado por imposição de Moscovo, então a Ucrânia passará a ser de facto um Estado subalterno da Rússia. Estará sempre dependente do que o vizinho achar aceitável. Não há qualquer neutralidade na “neutralidade” que Putin quer.

Além disso, a guerra extravasa em muito aquela hipotética barreira protectora de países não-alinhados. Putin levou a sua guerra ao centro do mundo ocidental, com o lançamento de ciberataques às nossas instituições, a tentativa de manipulação das nossas eleições, os envenenamentos de opositores nas nossas capitais, o financiamento de partidos amigos nos nossos sistemas políticos e o apoio a regimes criminosos que forçam a aterragem dos nossos aviões para prenderem activistas que os ameaçam. São actos hostis de uma guerra que se serve da liberdade do Ocidente para minar a confiança dos ocidentais no seu próprio modelo de convivência.

O que me traz ao segundo equívoco – o de que nesta guerra não há nada de ideológico. É claro que a luta pela expansão da influência internacional é basicamente amoral. Mas, neste caso, há uma luta entre dois blocos que assentam em duas concepções antagónicas sobre qual é a ordem política legítima: de um lado, a ordem política autoritária; do outro lado – o nosso lado –, a ordem política democrática. É inevitável que a prevalência de um bloco sobre o outro tenha um impacto no quadro de valores com que o mundo se organiza. É por isso indispensável conhecer o pensamento dos protagonistas políticos sobre estas duas tensões, geoestratégica e ideológica, que marcarão os próximos tempos.

Em Portugal, já não espanta que o PCP insista no apoio ao regime da Rússia, mesmo que haja lá um partido comunista congénere na oposição. Foi o que fez de novo há dias, com um comunicado em que Putin aparece como uma vítima incauta da agressão imperialista americana. O PCP nunca se conseguiu libertar do sentimento de orfandade desde o fim da URSS. É um perdedor ressentido que se alia cegamente a qualquer potência que desafie os Estados Unidos.

Mais original é o que se está a passar à direita. Sabemos do fascínio que Putin exerce sobre as forças da direita iliberal na Europa, de Le Pen, Orbán ou Meloni. É um fascínio natural, dada a afinidade ideológica dos conservadores autoritários com um líder que se opõe às instituições do liberalismo político e coloca no centro do regime a figura do “homem forte”, guardião carismático da ordem moral. Sabemos, também, como a Rússia apoia activamente essas forças. O que não sabemos, por enquanto, é se o Chega, que está com elas no grupo europeu Identidade e Democracia, terá um alinhamento tão claro com Putin.

Se isso acontecer, então a profundidade da fragmentação da direita democrática portuguesa não significará apenas que, pela primeira vez, há um partido parlamentar desconfortável com o regime pós-1974. Significará igualmente que, espelhando o que sempre sucedeu à esquerda, a direita deixou de estar inequivocamente unida no europeísmo, no atlantismo e na fidelidade geoestratégica e ideológica ao bloco ocidental. Um caso a acompanhar.