Wednesday, January 20, 2010

ACONTECEU NO MASSACHUSETTS


Desde 1972 que nenhum republicano ocupava um lugar no Senado pelo Massachusetts. Edward Kennedy, senador por este Estado durante 45 anos, um dos mais representativos apoiantes de Obama, o homem que fez da reforma do sistema de saúde dos EUA a sua causa, terá o seu lugar ocupado por quem acusou Obama de tirano durante a sua campanha porque o presidente dos EUA, (vd. aqui )vencedor em Novembro de 2008 no Massachusetts com 62% dos votos expressos, arvorando com Kennedy a bandeira da reforma do sistema de saúde, ousa fazer a reforma que muitos tentaram, mas fracassaram, no passado.
.
Massachusetts não é o Kansas ou outro qualquer Estado do centro conservador dos EUA. É um dos Estados mais liberais, no sentido que os norte-americanos dão ao termo, onde as afinidades culturais com o Norte da Europa são mais nítidas.
.
Apesar desta perda, os democratas continuam ainda em maioria no Senado (59 contra 41) mas o resultado de ontem terá consequências por enquanto ainda imprevisíveis na agenda de Obama e, muito particularmente, nos contornos da lei da reforma de saúde que vier a ser aprovada. Em Novembro haverá mid-elections, e esta vitória do GOP funcionará como fermento da sua intervenção nessa altura. Conseguirá Obama abortar os efeitos da levedura? Até lá terá de enfrentar os filibusters que se lhe atravessaram no caminho quando ele menos esperava.

O QUE SOMOS NÓS?

/

The Known Universe

Tuesday, January 19, 2010

O JOGO DA CABRA CEGA

"Estou de volta": Rendeiro começa a investir fora de Portugal

Os negócios promovidos pelo ex-banqueiro passam pelo Brasil, Estados Unidos, Macau e Reino Unido. Em Portugal, Rendeiro considera que há poucas oportunidades.

UM ANO DEPOIS

Na véspera do primeiro aniversário da tomada de posse de Obama, que culminou uma corrida vitoriosa iniciada no Massachusetts, o presidente norte-americano pode ser confrontado com uma derrota no mesmo Estado se o candidato republicano ao lugar vago pelo morte do Senador Edward Kennedy vencer as eleições de hoje.
.
Mais do que a ironia perversa dessa derrota (Edward Kennedy, Senador durante 45 anos pelo Massachusetts - quase record -, fez da reforma da saúde, um dos pontos mais emblemáticos da campanha de Obama, a sua causa) ela teria consequências demolidoras no prestígio do actual presidente, confrontado com as críticas dos conservadores decorrentes de factores (desemprego de dois dígitos, crescimento ímpar da dívida federal) desencadeados durante a anterior administração republicana.
.
Uma vitória republicana, hoje, ensombraria irremediavelmente as celebrações de amanhã. Até onde? Só daqui a três anos se saberá.
.
Obama tomou posse há apenas um ano, no começo de um terramoto financeiro que ameaçou destruir o sistema global e envolvido em várias de frentes de guerra (o terrorismo é tentacular), e não dispõe, como muitos pensam, de poderes de manobra excepcionais. É, antes pelo contrário, obrigado permanentemente a compromissos que as circunstâncias impõem e que, não raro, colidem com as propostas em que acredita. O eleitorado, contudo, move-se frequentemente em função dos resultados imediatos. E esse imediatismo é mais premente quando a situação económica e social se degrada. Nestas ocasiões, as consequências fazem esquecer as causas.

O QUE É ISTO?

Dark Sand Cascades on Mars

Monday, January 18, 2010

IMORALIDADE BANQUEIRA: DUAS PERSPECTIVAS

Smarter ways to punish a banker
Clive Crook

Whenever you wonder if rage at Wall Street is getting a little out of hand, some titan of the industry speaks up and makes you think, “Let’s go down there and smash some windows.”
Top banking executives appeared last week before the
Financial Crisis Inquiry Commission, set up by Congress to look into the debacle. Lloyd Blankfein of Goldman Sachs and Jamie Dimon of JPMorgan Chase were far from contrite. Both said how well their companies were doing despite the crisis, which had been a nuisance, to be sure, but more an act of nature than something their industry brought about. “There are a number of things we could have done better,” Mr Dimon conceded graciously.
When you measure that complacency against the harm the slump has inflicted on millions of innocent bystanders, rage seems the only apt response. Revenge is called for. How about a fine, to punish the bandits and show them who’s boss?
Last week the White House said the country’s biggest banks should pay a “
financial crisis responsibility fee”. Levied at 0.15 per cent of liabilities (excluding deposits and regulatory capital), it would raise about $90bn (€62bn, £55bn) over 10 years if enacted. The administration wants the fee to remain until fiscal losses under the troubled asset relief programme, estimated at about $120bn (but likely to be less) are recovered. “We want our money back, and we’re going to get it,” said Barack Obama. Tough talk, and good politics. The Democrats need both.
.
.
.
Why does Wall Street make the big bucks? A nation with 10 percent unemployment is understandably puzzled and outraged when the very people at the center of the financial crisis seem to be the first to recover and are pulling down fabulous pay packages. At Goldman Sachs, the average pay for 2009 has been estimated at nearly $600,000; at J.P. Morgan Chase's investment bank, it's been reckoned at slightly below $400,000. These averages conceal multimillion-dollar bonuses for top traders and investment bankers; underlings get smaller sums. Are Wall Street's leaders that much smarter and more industrious than everyone else?
.

O ANO DO ERRO DE RICARDO REIS

Ricardo Reis, considerado um dos melhores economistas portugueses publicou no blog da Sedes um artigo onde, além do mais afirma que

"na opinião (dele), a probabilidade de uma bancarrota na Grécia é entre 1 e 2%. Mas, se a Grécia cai, (pensa) também que com 50% de hipóteses Portugal vai ver-se sujeito a enorme pressão dos mercados e pode também cair. Por isso, ( ) a probabilidade de bancarrota Portuguesa está algures abaixo dos 0,5%-1%. (Acha) que é uma probabilidade pequena, pelo que (está) muito distante de muitos colegas que falam de uma catástrofe iminente. Mas também (acha) que as consequências são tão assustadoras, que ignorar esta possibilidade é irresponsável".

Há um ano atrás, coloquei aqui um link para um artigo do Washington Post onde a probabilidade de bancarrota dos EUA era estimada em 6% nos próximos dez anos. Algum tempo após deflagrar a crise, Ricardo Reis, contrariando Nouriel Roubini, por exemplo, prognosticava uma recuperação rápida da economia norte-americana

Se os cálculos de Ricardo Reis e do Washington Post fossem razoavelmente fiáveis teríamos de concluir que os EUA se encontram muito mais próximos da bancarrota durante esta década que Portugal, mesmo que a Grécia caia. Ninguém duvida, contudo, que a bancarrota dos EUA seria um terramoto de magnitude com consequências globais devastadoras.

Por quê, então, valorizar a probabilidade de um tremor de terra e esquecer a hipótese mais provável de um terramoto?

Só tenho uma explicação: alguém errou as contas. Mas a ameaça que paira sobre Portugal, de qualquer modo, persiste.

---

comentário de Ricardo Reis, aqui

Nao ha contradicao entre os dois numeros: as limitacoes do meu vocabulario tecnico em portugues explicam a confusao.Tenho de explicar em ingles porque nao sei os termos em portugues: I describe the *hazard rate*, or arrival rate of a bankrupcy, whereas the Washington Post article talks about the probability of a bankrupcy in a *10-year period*. Sao probabilidades diferentes. Pode consultar, por exemplo, um manual de estatistica sobre a distribuicao Poisson para ver a relacao entre estas duas probabilidades.

Sunday, January 17, 2010

POLITICAMENTE INCORRECTO

Pôr os desempregados a limpar matas/varrer as ruas?

Não Miguel, você não tem razão.
E não tem razão porque a comparação não é aceitável. O subsídio de desemprego (ou seguro de desemprego, a designação não altera as conclusões) é pago aqueles que perderam o emprego enquanto não conseguirem outro. Ao desempregado cumpre-lhe diligenciar no sentido de obter um novo emprego. O subsídio (ou seguro) só subsiste se a diligência é feita e durante o período em que ainda não resultou.
.
Assim sendo, ao Estado, que tem por missão, além do mais, assegurar a assistência social aos desempregados através dos mecanismos de repartição dos rendimentos ao seu dispor, compete-lhe também diligenciar no sentido de promover as acções ao seu alcance para o aumento da oferta de emprego.
.
Ora, havendo tanto que fazer no domínio dos trabalhos de que o Estado se incumbe, tanto a nível central como a nível local, é da inteira responsabilidade do Estado oferecer trabalho aos que o não têm, que caiba dentro das suas atribuições e das capacidades dos desempregados.
.
Esta oferta de trabalho, que é suposto dirigir-se à realização de tarefas que os serviços regulares dos orgãos centrais e locais do Estado não estão a cumprir por falta de meios humanos, não colide com os interesses daqueles meios regulares. Além do interesse comunitário desta política existe o da realização pessoal das pessoas envolvidas. O desemprego, para além da frustração do indivíduo é também, ou talvez por isso, muitas vezes fonte de maus hábitos.
---------
Se o Governo anuncia a criação de alguns milhares de estágios pagos a licenciados porque razão ignora os não licenciados desempregados para a realização de tarefas ao alcance das suas aptidões físicas?

O QUE É ISTO?

clicar para aumentar Atlantis to Orbit

Saturday, January 16, 2010

NÃO SE GANHA, NÃO SE PAGA*

Há uma semana a S&P colocou dívida da Islândia sob vigilância negativa depois de o presidente islandês ter tomado a decisão de referendar uma lei do Parlamento que aprovava o reembolso faseado dos depósitos feitos por estrangeiros no banco Icesave.
Martin Wolf, em artigo desta semana que transcrevi aqui não encontra suficiente razoabilidade para que esse reembolso seja assegurado pela Islândia e, consequentemente, pago pelos contribuintes islandeses.
.
A economia islandesa colocou-se sustentadamente no topo do ranking mundial do índice de desenvolvimento humano (terceiro, em 2007, segundo os dados do mais recente relatório do PNUD e o 13º. mais elevado PIB/capita do mundo) até ao momento em que a crise financeira deflagrou e ardeu o sistema financeiro que sustentava em grande parte o sucesso económico e social dos finlandeses.
.
Ainda que se percebam os argumentos de Martin Wolf de que os depositantes e investidores em bancos islandeses (são ingleses e holandeses os mais atingidos) deveriam saber com quem lidavam e os riscos que corriam, não pode ignorar-se que dos excessivos riscos assumidos pelos bancos resultaram vantagens para os depositantes e investidores (sob a forma de juros ou dividendos excepcionais) mas também para os islandeses, que, sendo muito poucos (cerca de 320 mil) viram os seus rendimentos, directa ou indirectamente, benificiados com as habilidades e, certamente também, algumas desonestidades dos seus banqueiros. Sobre a Islândia pesa um ónus que, só perante os investidores holandeses e ingleses, equivale a 40% do seu PIB. A quem compete pagar a conta? A Islândia não pode eximir-se ao pagamento porque tal facto colocá-la-ia fora do sistema. Mas também não será razoável que os credores possam exigir a totalidade dos seus créditos. O caminho, parece, não poder ser outro senão a negociação da dívida em moldes tais que a Islândia não venha a ser ostracizada nem forçadamente empobrecida.
.
Mutatis mutandis, que encargos deveriam suportar os contribuintes portugueses na liquidação do BPN e do BPP? Nenhuns.
Porque os juros e dividendos excepcionais, enquanto duraram, foram embolsados pelos depositantes e investidores nesses bancos, há muito tempo sob desconfiança pública, a quem não coube, nem poderia caber, qualquer vantagem, não deveria ser imposta qualquer contribuição para os que confiaram em quem não deviam.
---
*Não se Ganha, Não se Paga!, é o título de uma comédia de Dario Fo, actualmente em cena no Trindade

OS ISLANDESES

How the Icelandic saga should end
By Martin Wolf
.
Iceland is famous for its sagas. But the latest one is truly dramatic: the balance sheets of its privatised financial sector grew from twice to 10 times gross domestic product, in five years. In the absence of a lender of last resort, this story had to end badly. In the panic of 2008, it did.
Because
Iceland was a member of the European Economic Area, its banks were allowed to set up branches freely. To raise money, Landsbanki, one of Iceland’s now collapsed banks, set up an internet bank, Icesave, which gulled depositors by offering attractive interest rates. Under the European Union directive, Iceland also had an obligation to establish a deposit insurance scheme, which it did, through a levy on those banks.
Then came the collapse. Some Icelanders
blame Gordon Brown, Britain’s prime minister, for pulling the plug on their banks. That is unreasonable. Competent observers had long concluded that the financial system was a house of cards. It was sure to collapse in a panic. Less unreasonable is the complaint over the UK’s use of a section of its anti-terrorism laws to freeze assets. But some such action was justified.
...
Do Iceland’s taxpayers have a moral obligation to pay this loan? My view is: no.
.
more

Friday, January 15, 2010

SANTO PADROEIRO

O Santo padroeiro de Lisboa pode vir a abençoar casais de lésbicas e gays que se candidatem à benção do santo popular numa próxima edição dos Casamentos de Stº. António .
.
Não tenho nada contra. Mas talvez a Igreja tenha.
Mas já sou contra a continuada incapacidade do actual presidente da câmara municipal de Lisboa em começar a resolver alguns dos mais urgentes e antigos problemas da cidade que poderia ser, pela sua localização geográfica ímpar, uma das mais acolhedoras do mundo. E não é.
.
Não é, até para os que nela trabalham e são repelidos para a periferia enquanto permanecem abandonados e a esboroarem-se com o tempo milhares de edifícios arruinados, alguns mesmo nas zonas mais nobres.
Estes "fait-divers" entreterão os mais distraídos e os contadores de anedotas. Lisboa continua à espera que olhem bem para ela.
Este presidente terá certamente muitos méritos mas não percebe Lisboa.
----

O JOGO DA CABRA CEGA

A história conta-se em três linhas: o secretário-geral de Segurança Interna, juiz Mário Mendes, teve de ser hospitalizado em São José em consequência de um acidente na Avenida da Liberdade quando a viatura em que circulava se deslocava a mais de 120 quilómetros/hora. O processo não será enviado para averiguações para o Ministério Público.
.
Isto é normal? É normal em Portugal.
.

DE VOLTA AO PASSADO PERDIDO

Na Outra Banda, os amanhãs que cantavam.

Thursday, January 14, 2010

POLUIÇÃO UNIVERSAL

impression of the Venus Express spacecraft separating from the Soyuz Fregat upper stage rocket after launch (ESA)
.
O nosso habitual, e não raro bem negro-humorado comentador António, colocava ontem aqui este aviso:
.
"Hoje ficámos a saber que ainda nenhum avião da Tap bateu na Lua, por mero acaso. Sabendo que eles conseguem voar do Porto até Faro, que é uma distância muito maior que da Terra à Lua, já podia ter acontecido, só não sei se foi por ser para cima, mas quando a Lua nasce a leste, podia ter acontecido. Está mais baixinha. Tenha cuidado, ao andar de avião!"
.
O aviso relacionava-se com a notícia de que um objecto não identificado iria passar a uma distância consideravelmente inferior (cerca de 128 mil quilómetros) aquela que separa a Terra da Lua (384.405 quilómetros). De qualquer modo, e mesmo considerando que Faro fica, apesar de tudo, um pouco mais perto, o aviso é de agradecer.
.
Procurei na net* outras informações sobre o estranho objecto e as conclusões são inconclusivas: tanto pode tratar-se de um asteróide como de lixo humano. Uma conclusão é, no entanto possível: a hipótese de ser lixo humano não é descartável. A aventura espacial começou há pouco mas a capacidade poluente do homem deixa marcas por onde quer que ele passe.
.
E se essa capacidade é tanta que pode colocar em risco a vida na Terra será que um dia colocará em risco o equilíbrio do próprio Universo?
Não exageremos, mas a questão surge.
---

DR. SOLOMON


ACERCA DA FILOSOFIA ANTIDEMOCRÁTICA



Por que é que tantos aderiram aos discursos inflamados de ódio e de racismo de Hitler? Por que é que tantos estavam convencidos da superioridade dos seus genes e de terem recebido a incumbência natural de destruir os outros e remodelar a humanidade? O princípio da tendência de rebanho explicará muitas adesões, sobretudo explica o entusiasmo desenfreado dos menos favorecidos, fustigados pelas imposições dos vencedores da Primeira Guerra à Alemanha derrotada.
.
Mas como explicar a adesão do maior filósofo alemão do seu tempo às traves mestras do nacional socialismo e a sua adesão às teses do regime nazi? Como perceber porque vias ínvias do pensamento humano, mesmo dos mais dotados, as mesmas deduções existencialistas que levam à consideração que o homem é um ser eminentemente livre conduzem à rejeição da democracia e à opção por caminhos por eles pretensamente opostos? Sartre encaminhou-se no fim da vida para o comunismo, Heidegger, no meio do turbilhão nazi, fez-se um deles. Transitoriamente? Não é claro que tenha revertido as convicções, que lhe assolaparam o pensamento, até ao fim da vida. Na melhor da hipóteses, considerou-se traído por Hitler.
.
A tentativa de resposta de Kate Fodor (“Hannah e Martin”, no Teatro Aberto ) é frouxa e, do ponto de vista da estruturação dramática, pouco conseguida. A encenação de João Lourenço procura condimentar, com relativo sucesso, um texto sem a confrontação consequente que o tema sugere. Martin Heidegger entra e sai de cena inexplicado.
Ou a explicação é mais linear do que aquela que buscamos?
Serão, realmente, todos os filósofos intrinsecamente antidemocráticos?
Por quê?

Wednesday, January 13, 2010

ACERCA DA FINITA RESISTÊNCIA DO BURRO

Era previsível.

A partir do momento em que o Governo foi obrigado a ceder, pelos sindicatos dos professores mas também pelas oposições, e nomeadamente pelo PSD que, sendo o maior partido da oposição é (deveria ser) o mais responsável, ficava aberta a porta para a contestação generalizada em toda a função pública. E porque não haveria de ser assim? Que legitimidade têm os professores do ensino secundário para reclamar condições de trabalho, de progressão na carreira, de avaliação (bonificação, entenda-se) dos seus méritos, que não seja extensível aos outros servidores do Estado?
.
Quando existe um reconhecimento generalizado de que o país se afunda na falta de competitividade da sua economia, de que o Estado é, pela enorme fatia que come do bolo comum, o maior responsável pela letargia em que a actividade económica se encontra há mais de uma década, quando é por demais evidente que os resultados das funções primordiais da justiça e da educação são desastrosos, quando reconhecidamente o sector público remunera, em média, muito acima da remuneração média do sector privado, quando o défice engrossa a dívida pública e a dívida pública ameaça sufocar ainda mais a economia, é trágico que não haja quem, reconhecendo tudo isto, não possa ou não queira levar os portugueses a arrepiar caminho.
.
Dispondo da maior (quase única) capacidade de mobilização sindical, com emprego garantido para toda a vida e progressões de carreira asseguradas mesmo para os mais inaptos, os funcionários públicos têm vindo progressivamente a aumentar o preço dos serviços que prestam à custa da redução dos rendimentos dos outros portugueses em geral. Até quando?
.
Mais quero asno que me leve, mas asno sobrecarregado dá de lado.
.

Tuesday, January 12, 2010

CONTAS GREGAS

A Grécia está metida num buraco de que nem eles sabem a profundidade. O Financial Times* de hoje destaca hoje a condenação da Comissão Europeia pela falsificação deliberada das contas públicas e obstrução na recolha de valores correctos. Não é a primeira vez, nem será a última, que a manipulação dos números é usada para retirar proveitos ou escapar a sanções por parte de dos governantes em Atenas. Mas a Grécia, sendo provavelmente o caso mais patológico na matéria, está longe de ser único.
.
Entre nós, as mudanças de governo e as discussões do OE têm sido épocas propícias à caça destes gatos escondidos, muitos dos quais, desde sempre, com os rabos de fora. Depois a época da caça passa e os bichos continuam sossegados e cultivados. No combate político aproveitam-se deles mas não extinguem. A Comissão Europeia também não tem sido particularmente eficiente e exigente na normalização das regras contábeis.
.
Na semana passada, o BPI tornou público os resultados de umas contas que os seus serviços fizeram à volta da dívida pública oficial e da encoberta em desorçamentações e responsabilidades realmente assumidas mas não oficialmente contadas como dívida pública. A diferença é grande. O que dirá a União Europeia quando decidir tomar oficialmente conhecimento dela?
.
Entretanto soube-se ontem que o Governo grego solicitou o apoio do FMI**, que já aceitou apreciar a petição. Como era previsível a UE não se substituirá ao FMI na resolução de situações de insolvência iminente que possam ocorrer com qualquer um dos seus membros. Compreende-se que assim seja. A intervenção da UE nestes casos comprometeria a prazo o equilíbrio institucional na União.
.
**FMI na Grécia

O JOGO DA CABRA CEGA

Só faltava esta!
.
.
O Instituto de Gestão Financeira e de Infra-estruturas da Justiça (IGFIJ), que gere o capital do ministério da Justiça, passou nove cheques que foram interceptados, falsificados e levantados na Caixa Geral de Depósitos, na ordem dos quase 800 mil euros.
A grande maioria (90 por cento) dos saldos bancários deste instituto encontra-se ainda em 12 contas ilegais, também na CGD. Dos 850 milhões de euros envolvidos, muitos não se sabe de onde vêm, para que servem ou a que se destinam.
Estes dados constam de uma auditoria da Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça (IGSJ), cujo relatório o DN teve acesso.
O novo ministro da Justiça, Alberto Martins, teve conhecimento do relatório e afastou os gestores do IGFIJ, ao contrário do seu antecessor, Alberto Costa, que o ignorou. Os novos responsáveis têm dois meses para apresentarem propostas de rectificação, enquanto o Tribunal de Contas já iniciou uma nova auditoria.
.

O JOGO DA MARIONETA

"Lucros privados, prejuízos públicos". Este foi um dos anátemas da crise financeira 2007-… que jurámos não esquecer. E não esquecemos: aprendemos tão bem a lição que continuamos a praticá-la: afinal a entrada de Isabel dos Santos na Zon destinou-se a dissolver uma golpada de 100 milhões de euros que três portugueses terão feito aos angolanos. A notícia foi revelada este sábado pelo "Correio da Manhã": o Estado angolano retirou a 28 de Dezembro a queixa-crime contra o advogado Francisco Cruz Martins e os empresários Eduardo Morais e António Figueiredo (este entretanto falecido) no "Caso Banif". Uma semana antes, a filha do Presidente de Angola tinha fechado o acordo para comprar 10% da Zon. Uma coisa foi, afinal, a contrapartida da outra, diz o "Correio": o Estado angolano ameaçava levar o caso até às últimas consequências, exercendo represálias nas relações empresariais, suspendendo autorizações para a Caixa Geral de Depósitos e Sonae abrirem em Angola. "Tudo está bem quando acaba bem"? Não, neste caso Shakespeare teria de renomear a sua peça, que para uns é comédia, para outros é tragédia. De facto, tudo acaba bem: o processo criminal, o embaraço político, as ameaças às empresas alheias; a Zon ganha um parceiro com capital e mercado, os seus accionistas vêem as acções valorizar. Como dizem os brasileiros, é "ganha-ganha". Mas tudo está mal. Está mal a eterna mistura entre política e negócios. Está mal a fraqueza diplomática portuguesa. Está mal o socorro do Estado, através da Caixa, de uma vigarice de privados, assim seja verdadeira a suspeita, como parece crível, segundo as notícias desde o Verão de 2008. Dois dos três visados acabam aliás de devolver o dinheiro que alegadamente extorquiram. O terceiro morreu. Proença de Carvalho, advogado do empresário de António Figueiredo, advogado de Sócrates e presidente do Conselho de Administração da Zon foi, segundo o "Correio da Manhã", o pivô de todo o negócio. Chame-se polivalência ou promiscuidade, conflito ou conjugação de interesses, é uma forma de estar que em Portugal (e Angola…) parece normal. Armando Vara, na entrevista a Judite de Sousa há algumas semanas, explicou-o candidamente: o seu trabalho era, disse, pôr pessoas a falar umas com as outras, para resolver problemas e solver negócios. A reputação de Proença protege-o de quaisquer insinuações e efectivamente o problema foi "tratado", aliás em benefício da empresa: a Zon efectivamente ganhou acesso a mercados africanos onde por exemplo a sua "progenitora" PT não singra por falta de empatia com os angolanos, sócios pouco cooperantes na Unitel. A intromissão da política nos negócios não é todavia apenas conceptual. Os angolanos ameaçaram Portugal por causa de problemas abastardados, que não eram das empresas ameaçadas, muito menos do Estado. Se três homens deram um golpe do baú a Angola, devia ser problema entre eles e ela. Mas a "diplomacia económica" portuguesa é fraca. E Angola, como se viu neste fim-de-semana no ataque à selecção de futebol do Togo, ainda é um País com guerrilheiros e um Estado necessariamente militarizado que conhece a linguagem da ameaça. O cordeiro pode ter sido a Caixa, como de costume. Vendeu 2,5% da Zon a Isabel dos Santos, assim entregando a partilha do poder da empresa (o máximo de votos de cada accionista é de 10%, que ambos têm). Ainda lhe financiou a compra de 5%, o dobro do que lhe vendeu (e ao trocar acções de uma empresa por créditos para comprá-la está a assumir que pode ganhar menos como accionista do que como credora, o que é bizarro). E vende por 5,3 euros acções que tinha comprado ao Barclays há três anos por 12 euros. O balanço dirá diferente mas vender a 5,3 o que custou 12 não tem outro nome: é prejuízo. De quem? Do Estado.

Monday, January 11, 2010

A COISA ESTÁ (QUASE) PRETA

.
Portugal has been warned it faces a credit rating downgrade unless the government takes firm measures to reduce its swollen budget deficit.
"If Portugal wants to avoid a downgrade, it is going to have to take meaningful, credible steps to get the deficit under control," said Anthony Thomas, a senior sovereign risk analyst with Moody's credit rating agency.
Portugal, where the budget deficit tripled to more than 8 per cent of gross domestic product last year, is among several European Union countries seeking to reassure international financial markets that they will not follow Greece into a debt crisis.
Portugal's budget for 2010, due to be debated in parliament this month, is seen as a crucial test for the recently re-elected socialist government to show a strong commitment to fiscal rigour. "This budget is very important for people like us," said another senior ratings analyst. "If the government puts forward ambitious measures to bring down the deficit, it will help take the pressure off the rating."
Moody's and Fitch both placed Portugal's sovereign debt rating on a negative outlook in the autumn, a measure that implies a probable downgrade within 12 to 18 months.
Lifting the warning or downgrading the rating, said Mr Thomas, would depend on what steps the government took to improve the outlook for fiscal consolidation and the underlying growth rate. The economy is estimated to have contracted by close to 2.5 per cent last year following zero growth in 2008.
In Greece, downgrades by three international ratings agencies in December pushed up spreads on government bonds and left the country facing the humbling risk of an EU bail-out.
However, ratings analysts said there was no short-term risk that Portugal would become the next Greece by suffering a debt crisis. "Both countries suffer from deteriorating government deficits and poor international competitiveness that will hit economic growth. But the situation in Greece is far worse than in Portugal," said Mr Thomas.

BANCOS VERDES

A 12 de Janeiro do ano passado coloquei aqui um apontamento acerca do até agora insolúvel problema da aparente inevitabilidade de serem os cidadãos colocados entre a espada e a parede quando uma crise financeira ameaça derrubar todo o sistema e desencadear uma catástrofe de consequências incalculáveis: o efeito "moral hazard" que beneficia os infractores à custa dos contribuintes. Sendo demasiado grandes, ou influentes, para poderem ser deixados cair, tornam-se inimputáveis, com todas as consequências que daí decorrem.
.
Na altura, ocorreu-me, por similitude com as preocupações que a degradação da natureza levanta, a ideia de Bancos Ecológicos, aqueles que se autoexcluiriam da realização de operações financeiras especulativas e de transacções em offshores. Deste modo, os depositantes estariam conscientes das autolimitações de alguns bancos e poderiam, preferi-los. Aos clientes destes bancos, e só a estes, o Estado garantiria o reembolso dos depósitos. Todos os outros optariam por sua conta e risco.
.
Não faço a mínima ideia se a proposta é original. Hoje, a propósito de um e-mail que recebi do meu Amigo Deus Vê, voltei a recolocá-la com outro nome: Bancos Verdes. Como a turma em que estes e-mails circulam é formada por gente com muito tino e grande tarimba, espero que alguém apareça a destroçar-me o boneco.
--
Caro Deus Vê,
.
Das tuas várias propostas, para não alongar demasiadamente a minha apreciação, destaco uma: A nacionalização da banca, à excepção da banca de retalho.
Não creio que se resolveriam, desse modo, nem os problemas nem os vícios que referes.O grande problema com que as sociedades se defrontam e que esteve (está) muito presente na origem, e agora na digestão, da actual crise, é o factor "moral hazard" aquele que beneficia o infractor demasiado grande para que se possa deixar cair. Por vezes não será assim tão grande (casos do BPN e do BPP) mas a situação de alarme (o efeito sistémico) que poderia desencadear levou o governo a intervir, imitando o que foi feito um pouco por todo o mundo mais contaminado pelos produtos tóxicos importados ou por actos de gestão criminosos. Ben Bernanke dizia isto mesmo à Time há pouco tempo: "Too big to fail is one of the biggest problems we face in this country".
.
Não vejo que a solução seja a nacionalização da banca de investimento. A captura do Estado é tanto mais facilitada e frequente quanto maior for o Estado. Só há captura do que existe e, sobretudo, só há capturado que, na perspectiva dos captores, vale a pena capturar. Mais Estado, mais captura.
.
Proponho a identificação obrigatória dos bancos "vermelhos" (se quiseres chama-lhe negros, cinzentos ou amarelos, a cor pouco importa, desde que não seja verde ou parecido) que seriam aqueles que teriam nos seus estatutos concedida a faculdade de realizarem todas as operações financeiras, incluindo a ligação a off shores. Por oposição, existiriam os "verdes" que se auto excluiriam de operações financeiras especulativas e, nomeadamente, a ligação a offshores. Os depositantes deste últimos teriam a cobertura do Estado em caso de crise financeira iminente, os dos outros não. Se esta lei já existisseos depositantes do BPN e do BPP não teriam nada a reclamar. Dir-me-ás: Os outros bancos faziam quase o mesmo. Pois bem: é fundamental que aqueles que recorrem à banca, e é difícil não recorrer a um deles, saibam o que eles podem fazer ou não não podem fazer com as nossas economias.
.
Nunca fui bancário. Muito provavelmente algum senão crítico estará a passar despercebido por detrás da minha ingenuidade.
Tu, que fizeste carreira na banca, o que é que dizes a esta minha proposta?

O QUE É ISTO?

clicar para ampliar The Astronaut Who Captured a Satellite

Sunday, January 10, 2010

DE VOLTA AO PARAÍSO

A geração que está agora com 16-25 anos estará perdida?

O tema é cada vez mais recorrente. Já lhe dediquei vários apontamentos neste caderno. Nomeadamente, a 16 de Junho de 2006 transcrevi aqui, do Público, parte de uma premonição feita numa entrevista concedida por Agostinho da Silva em 1990 aquele jornal, que concorre no mesmo sentido das minhas convicções acerca da inevitabilidade da redução do trabalho até à sua quase extinção:
.
“Não podemos pôr de parte a ideia de que o capitalismo domina a nossa vida. E tem que dominar, porque só uma economia capitalista pode levar a um desenvolvimento pleno do mundo e acabar a guerra contra a carência, que vem de longe”“Um dia, chegaremos a um ponto em que toda a economia desaparecerá e que será apenas uma recordação do passado, como queriam os portugueses do sec XIII (Ilha dos Amores, segundo Luis de Camões) (…) Esses portugueses queriam que a vida se tornasse gratuita, não reclamavam apenas que a vida se tornasse mais barata do que era, mas sim que se fizesse todo o possível para que um dia fosse inteiramente gratuita”“Continuamos, hoje, a dizer que as pessoas que têm o tempo livre e que talvez nunca mais trabalhem são “desempregados”, como se houvesse emprego para eles. Não há. E nós temos que resolver esse problema de alimentar, educar e instruir os homens com tempo livre, para que eles sejam plenamente os tais poetas à solta”“Espero que, um dia, tudo o que é obrigatório fazer, hoje, para assegurar a campanha de produção deixe de ser necessário, porque as coisas vão melhorando de tal ordem, que será possível a cada um entrar cada vez menos nesse jogo geral da produção. E, então, cada um pode dar a sua mensagem particular ao mundo e fazer a sua obra, porque é único. Acho que chegaremos a esse tempo, porque, quando se olha para a marcha da história, as aproximações têm acontecido e estão a acontecer hoje de uma forma cada vez mais rápida”“Eu costumo dizer que a vadiagem é uma das formas de poesia”“O homem não nasce para trabalhar (mas sim) para criar”
“No futuro, não vai haver emprego para os meninos”.
.
A crise actual veio acelerar a tendência que tenho realçado e que contraria aquilo que muitos têm por adquirido: o aumento da produtividade conduzirá inevitavelmente à redução da necessidade de trabalho; o aumento de produção não pode ser correspondido por uma aumento paralelo de consumo, por várias razões (exaustão dos recursos naturais, degradação ambiental, entre outros) e também porque o homem dispõe individualmente de um tempo limitado para consumir e de um tempo tendencialmente ilimitado para produzir. Consequentemente, as sociedades habituar-se-ão a trabalhar cada vez menos. O ajustamento a essa nova realidade sociológica será tanto mais traumatizante para os atingidos quanto mais vigoroso for o crescimento da produtividade nas sociedades economicamente mais desenvolvidas.

Saturday, January 09, 2010

OS ALMAS GRANDES

Se tenho uma pequena dívida ao banco e não tenho possibilidade de pagar, tenho um problema. Se a minha dívida ao banco é enorme e não a pago, o problema é do banco.
.
É, muito provavelmente, na suposição da inabanável consistência desta asserção que o crescimento da dívida e do défice não parecem apoquentar por aí além muita gente responsável ou supostamente responsável. O país não fecha para obras, os bancos não vão deixar de financiar o Estado, a dívida soberana será sempre honrada. Parou a Grécia? Não parou. Parou a Islândia? Não. A Irlanda? Não. O México? Abalou mas não parou. A Argentina? Continua. A Rússia? Recuperou. É uma questão de tempo, e tudo entra nos eixos. Se os alemães querem um euro forte têm de aguentar os mais fracos.
.
O Governo português não parece especialmente preocupado com o crescimento da dívida. Daqui até 2013 ainda há tempo para acontecer muita coisa. Se calhar o melhor é continuar a gastar, afinal de contas o efeito "too big to fail" favorece os que não se preocupam com contas. Aliás, tanto à direita como à esquerda invocam-se as somas mas ninguém discute as parcelas de forma séria.
.
Dizia-me ontem um Amigo meu que não é no poupar que está o ganho, o que é preciso é que a dívida, tal como a alma, não seja pequena. Dias antes, dois outros Amigos diziam-me que os problemas do mundo decorrem todos da existência de dinheiro, acabe-se com ele e o mundo será como deve ser.
.
E que mais, caros pardais?

Friday, January 08, 2010

INEVITÁVEL

O PSD dispôs-se a negociar com o PS a sua abstenção (que permitirá a aprovação) na votação do OE. Não tinha alternativa. Na situação actual, sem líder nem programa alternativo, o PSD não poderia arriscar o chumbo do OE, a demissão do Governo e a convocação de eleições antecipadas. Fez o que podia: mostrar que ainda mexe embora não saiba como.
.
Desta negociação, contudo, não vai sair o OE que a situação do país impunha: os grandes investimentos, a que o PSD pelo menos parcialmente se opunha já foram aprovados pelo Governo, não haverá propostas do PSD de cortes na despesa que possam desgastar ainda mais a sua imagem junto dos que seriam atingidos, não haverá compromissos conjuntos de médio prazo porque ambos, PS e PSD, o mais que pretendem é ver este OE aprovado.
.
Aprovado o OE, a economia continuará em estado letárgico, o desemprego subirá, o défice e a dívida pública continuarão incontrolados. O PSD dirá que tudo isso se deve ao facto de as políticas do Governo não serem as adequadas, o CDS acusará o Governo e o PSD de terem aprovado um OE irresponsável, o BE dirá que o desastre continua em consequência das políticas de direita deste Governo, o PCP dirá mais ou menos a mesma coisa por outras palavras, ou mesmo as mesmas. O PR chamará a atenção dos portugueses para a situação crítica em que o país se encontra e que explodirá mais dia menos dia. O PM continuará a garantir que a despesa está controlada e as dificuldades são importadas.
.
Cada qual em seu canto e nas suas tamanquinhas.

Thursday, January 07, 2010

CARTEL FARMACÊUTICO

Nenhuma farmácia aderiu à venda de medicamentos em unidose, seis meses após a entrada em vigor da lei.
.
O que prova três coisas, pelo menos: Que as prescrições dos médicos não têm em consideração a economia dos doentes, muitas vezes tão débil como a sua saúde; Que mesmo os médicos do SNS não receberam instruções para prescreverem as quantidades à medida das necessidades dos tratamentos; Que os Ministérios da Saúde e da Segurança Social ainda não se entenderam no sentido de obrigar as farmácias a satisfazerem as receitas consoante as quantidades prescritas.
Sendo a Segurança Social um cliente com um peso decisivo no negócio farmacêutico, não se percebe a distracção deste tutor dos interesses do Estado (dos contribuintes, no fim de contas) numa acção de poupança que poderia ser expedita. Não é, por quê?
.
Mas também se prova outra coisa: Há um cartel farmacêutico que os poderes públicos não conseguem ou não querem desmantelar. Houve, recentemente, um Ministro que tentou, mas despediram-no.
.
Quando tanto se fala da urgente redução da despesa pública porque é que tão pouco se fala daquilo onde ela pode e deve ser reduzida?
-----
Quando, há quase trinta anos, recorri a um Hospital em Londres, fiquei surpreendido quando aviei a receita: sete comprimidos retirados de um frasco grande de vidro para o outro pequeno que me entregaram com a quantidade prescrita. Nem mais um nem menos um do que aquilo que o médico me tinha indicado: um comprimido por dia ao almoço durante sete dias. O que prova que não somos um país rico mas não olhamos a gastos. Neste caso, há pelo menos trinta anos.

CORTAR, SIM, MAS ONDE?

"Há que cortar na despesa pública e, em particular, na despesa corrente ...
Muito bem, mas onde? O que é que cortava?"
.
É sempre a mesma conversa. Toda a gente (ou quase) concorda que o crescimento da dívida pública, o crescimento da dívida externa, o crescimento das dívidas das famílias, o crescimento das dívidas das empresas, o crescimento do endividamento externo dos bancos, um dia destes não pode continuar. As árvores não crescem até aos céus mesmo que sejam eucaliptos. As dívidas também não.
Às perguntas: Como? Onde? Quanto?, os analistas, os políticos, os amigos à volta do almoço, gaguejam e não sabem onde fica a a porta de saída.
.
O OE vai ser discutido na AR mas de nenhuma bancada há, por enquanto, propostas que conduzam ao objectivo de estancar o crescimento explosivo do endividamento público. Explosivo foi o termo usado pelo PR no seu discurso de Ano Novo e só os inconscientes, os ignorantes ou os políticos subjugados à demagogia partidária podem considerar a expressão excessiva. Algumas propostas que têm vindo ser reclamadas vão até em sentido contrário: aumento da despesa ou redução da receita. É o caminho, imediatamente, mais fácil, aquele que conduzirá ainda mais para o fim do beco sem saída e, de onde, a marcha atrás será cada vez mais complicada.
.
O PR insistiu na convergência partidária no sentido da adopção das medidas que a situação impõe. O Governo avançou com uma missiva aos partidos convidando-os a essa convergência. Mas todos sabem, ou deveriam saber, que não há convergência possível quando os custos políticos não tiverem uma equidade assegurada. E essa não se consegue se o Governo for monopartidário e, sobretudo, minoritário na AR.
.
O PR também sabe isso. A fácil aceitação da nomeação deste Governo minoritário nas condições difíceis em que o país se encontrava é um ónus político que o PR deveria tentar corrigir. Como?
Começando por dizer, claramente, isso mesmo aos portugueses.
.

Wednesday, January 06, 2010

BONIFICAÇÃO GERAL

Mais de 80 por cento dos professores foram classificados com Bom. Houve menos de 0,5 por cento de classificações com a nota regular ou insuficiente.
.
Se os professores são bons porque é que os resultados são maus?
Uma boa equipa consegue, geralmente, bons resultados. Por que razão não consegue a maior parte das equipas portuguesas de educação bons resultados? Por uma razão simples: A avaliação não é feita em função dos resultados obtidos.
.
Ninguém, se não for tonto, afirmará que os jogadores de uma equipa que se situa nos últimos lugares da classificação geral são bons, alguns são muito bons e alguns excepcionais, e menos de 0,5% são regulares ou menos que isso. No ensino secundário em Portugal, os professores, que não são geralmente tontos, pretendem à viva força tomar por tontos os portugueses em geral.
.
A Ministra, que não é tonta, deduz, e bem, que mais de 80% são regulares, e propõe a progressão mais rápida na carreira para os muito bons e excepcionais. Mas os sindicatos não consentem e prometem lutar, com o apoio de várias bancadas parlamentares, pela bonificação geral. Até ao fim.
.
De quê?

A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR EURO

.
What would have happened during the financial crisis if the euro had not existed? The short answer is that there would have been currency crises among its members. The currencies of Greece, Ireland, Italy, Portugal and Spain would surely have fallen sharply against the old D-Mark. That is the outcome the creators of the eurozone wished to avoid. They have been successful. But, if the exchange rate cannot adjust, something else must instead. That “something else” is the economies of peripheral eurozone member countries. They are locked into competitive disinflation against Germany, the world’s foremost exporter of very high-quality manufactures. I wish them luck.
The eurozone matters. Its economy is almost as big as that of the US. It is three times bigger than those of Japan or China. So far, it has passed its initial test. Nevertheless, the peak to trough decline of the US economy was only 3.8 per cent (second quarter 2008 to second quarter 2009), while the eurozone’s was 5.1 per cent (first quarter 2008 to second quarter 2009).
.

Tuesday, January 05, 2010

LIBERDADE E TERRORISMO

O A. nunca chegou a viajar de avião. Mas desafiavam-lhe a imaginação as várias explosões de aviões perpretadas por terroristas suicidas há alguns anos atrás.
Segundo A., o problema resolvia-se obrigando os passageiros a despir toda a sua roupa e a vestirem uma bata fornecida pela companhia de aviação antes de entrarem na aeronave.
E se os terroristas dominarem a tripulação e os passageiros pela força dos punhos?
Amarrem-se os passageiros às cadeiras.
E como podem comer, nesse caso? Não comem. Quem vai para o ar avia-se em terra.
E se quiserem ir à casa de banho? Os aviões têm casa de banho? perguntava A., incrédulo.
.
Exagero nas medidas ou nos protestos?
Compreendo a irritação que as medidas provocam a alguns passageiros mais impacientes mas prefiro-as enquanto não forem descobertos processos mais expeditos e subtis. Leio em SuperFreakonomics que a localização de terroristas pode vir a ser mais bem sucedida a partir de bases de dados a partir das quais algoritmos que cruzam vários marcadores os identificam com elevada probabilidade de sucesso (acima de 99,9%).
.
É uma esperança. Se assim não for, ou parecido, um dia destes, por este andar, não estaremos longe de uma "solução à A."
Poupavam-se as refeições a bordo e ganhava-se o espaço das casas de banho para sentar mais dois passageiros no local de cada uma.

Monday, January 04, 2010

THE WORST IS YET TO COME

clicar para aumentar

ANTIAMERICANISMO

Não sou anti-americano, o que sou é contra Bush e a sua pandilha, ouvia-se ou lia-se frequentemente.
.
Entretanto, Obama foi eleito, e, prematuramente, nobelizado. No discurso de agradecimento do prémio não fugiu à abordagem do visível conflito de consciência que a atribuição do Nobel da Paz impõe ao presidente da maior potência mundial envolvida em duas frentes de guerra. Completará um ano de mandato no próximo dia 20.
.
Entretanto, tanto internamente como no exterior, a sua estrela empalideceu. Era esperável que isso acontecesse, tanto mais que as opções militares de que Obama é o primeiro responsável não são susceptíveis de modificações súbitas e extremas. Por outro lado, a gestão da crise financeira que nasceu nos EUA e alastrou a todo o mundo nunca teria solução eficaz sem efeitos colaterais. Tudo conjugado, ninguém, por mais pintado que fosse, poderia manter intocável a sua popularidade.
.
Para alguns, contudo, o discurso mantem-se: Não sou anti-americano, o que sou é contra alguns norte-mericanos.
Também eu.
E a favor de todos quem?

Sunday, January 03, 2010

CAUSAS DO TERRORISMO

Há muita gente que vê no terrorismo uma consequência das injustiças deste mundo que o fazem germinar nos meios mais pobres onde o desespero fomenta a vingança contra os poderosos.
Levitt e Dubner ( SuperFreakonomics ) recolheram resultados de estudos realizados com o objectivo de identificar as causas do terrorismo e que concluem que assim como há famílias que produzem jogadores de baseball (ou músicos, ou outras artes e profissões quaisquer), há outras que produzem terroristas.
.
O economista Alan Krueger passou a pente fino uma newsletter do Hezbolah (Al-Ahd ) e analisou as biografias de 129 suicidas em actos terroristas (shahids, mártires). Comparou-as com as dos homens da mesma idade da população em geral do Líbano. Constatou que é menos provável que um shahid seja oriundo de uma família pobre (28% em 33%) e mais provável que possua pelo menos educação secundária (47% em 38%).
.
Um estudo com idênticos propósitos de Claude Berrebi conclui que na Palestina apenas 16% dos suicidas bombistas pertencem a famílias pobres, que incluem mais de 30% dos homens em geral. Mais de 60% dos bombistas estudaram para além do ensino secundário, o que acontece apenas a 15% da população em geral.
.
Em geral, conclui Krueger, "os terroristas são oriundos das classes com mais frequência escolar, da classe média ou de famílias com rendimentos elevados".
.
Sabendo perfeitamente interpretar o que lêem, o fanatismo leva-os a interpretar à letra o que lêem. O terrorista inspirado por ditames religiosos pretende construir o mundo à medida da sua imagem distópica. Krueger cita mais de uma centena de diferentes noções de terrorismo. "Numa conferência realizada em 2002, ministros dos negócios estrangeiros de mais de 50 países islâmicos concordaram em condenar o terrorismo mas não conseguiram por-se de acordo acerca de uma definição do conceito dos actos que condenavam".
.
Condenavam o quê? O que o seu livro sagrado claramente determina?
Começa tudo lá.

WALENSEE - HEIDILAND

clicar par ampliar

Saturday, January 02, 2010

MOONSTRUCK

clicar para aumentar

Blue Moon Eclipse

XEQUE AO REI - 9

O PR volta a dizer* aos partidos que a situação é grave e requer tratamento urgente. Entendam-se, diz ele, e ficamos sem saber se a indicação é uma ordem ou uma advertência e um encolher de ombros. E deviamos saber: se o PR exige o pacto interpartidário que as circunstâncias impõem e, caso esse acordo não seja atingido de motu próprio ele tomará conta das rédeas do cavalo à solta, ou prossegue na posição minimizante das suas funções, deixa que a irracionalidade nos faça estampar a todos, e no fim apareça a dizer-nos, "eu bem avisei!"
.
*Cavaco Silva diz que dívida externa e desemprego podem levar a “situação explosiva”
Na sua mensagem de ano novo, Cavaco Silva traçou um cenário negro da situação económica do país dizendo mesmo que “podemos estar a caminhar para uma situação explosiva”.
.

Friday, January 01, 2010

ST GALLEN

clicar para aumentar




AMEN

Missa em Igreja Reformadora. A Oficiante, na casa dos quarenta, de toga preta, recebia os crentes ou convidados à entrada da Igreja. Da prédica, em alemão, não entendi senão algumas, poucas, palavras soltas. Os cânticos acompanhei-os em surdina. No final, houve comunhão com distribuição de um pequeno pedaço de pão e de um cálice de sumo de uva a cada um dos presentes. À saída, voltou a Oficiante a saudar os participantes.
.
Durante a vida já entrei em igrejas católicos, ortodoxas, protestantes de várias tendências, sinagogas, mesquitas, templos hindus e outros orientais. Se nunca assisti a celebrações religiosas em sinagogas ou mesquitas foi porque a entrada estava vedada a não seguidores. Já participei em cerimónia onde balbuciei em sânscrito segundo as indicações de um ponto sentado a meu lado. Se Deus é único deve estar satisfeito com a minha pluralidade de presenças em locais onde O veneram.
.
Quando, há já muitos anos, participei nos trabalhos de recenseamento a nível local, preenchi os formulários daqueles que o não sabiam fazer. Algumas das respostas que recolhi retive-as até hoje. A uma senhora a quem perguntei qual o estado civil respondeu-me às quatro hipóteses do questionário (solteira, casada, viúva ou divorciada) que nem uma coisa nem outra: "estava obrigada"ao "seu" Silvestre. À pergunta sobre qual a religião que professava disse que ia à Igreja Protestante por gostava dos cânticos mas também ia à Igreja Católica e contribuia regularmente com um litro de azeite para iluminar o Santíssimo. Tive alguma dificuldade em preencher o papel, que não previa nenhuma das situações.
.
Há dias o João Vaz indignava-se com alguns e-mails islamofóbicos que recebeu. Qual seria a reacção daquela senhora, que há várias décadas declarou para os efeitos daquele inquérito a sua naturalidade ecuménica, se soubesse que, em nome de um livro tido por sagrado há indivíduos que se destroem voluntariamente para destruir os outros? Pensei, mais uma vez, nela ontem à noite.
.
Se os tempos mudaram e o espírito das escrituras sagradas agora é outro, mudem os islâmicos de boa fé e boa vontade os textos que incitam ao ódio para que esses textos deixem de justificar os actos tresloucados dos que os intrepretam à letra. Até lá a sua passividade torna-os coniventes das acções terroristas que se pretendem justificar na leitura do mesmo livro sagrado que eles lêm. Disse-me isto, ontem, aquela senhora simples, quer vocês acreditem quer não.