Monday, September 13, 2021

O BUSTO

 

Tinha confirmado estar no almoço com uns velhos amigos, mas atrasei-me com a demora de um interrogatório da polícia. Saí de lá arguido.

Sou, ou estou, deve dar no mesmo, arguido num processo crime de roubo. Sou acusado de ser autor material ou moral do roubo de uma escultura, um busto, um bem público, assente em pedestal de pedra com identificação do esculpido, segundo relatório da polícia nos autos. 

Quem é ou quem foi o homenageado?

Perguntei a residentes no lugar antes da ocorrência do roubo de que sou acusado; ninguém soube dizer.

Não estranhei, pela figura exposta se adivinhava que foi pessoa de finais do século dezoito, começos do dezanove. Quando morreu, mesmo que tenha morrido velho, ainda não tinha nascido, à excepção de um ou outro teimoso resistente, quase toda a gente, que é pouca, hoje residente na localidade.

Cara redonda, olhos decididos, bigode farto, grisalho, habitual nas elites  daquele tempo, calvo, sobram-lhe cortados curtos os cabelos brancos que rodeiam a calvície. Ombros largos, a gravata sobressai no peito, sobre a camisa, entre as bandas subidas do casaco apertado, de bom corte.

Quem foi, quem não foi, se lesse a inscrição no pedestal ficaria a saber que o homem vivera mais de noventa anos, nascera na sede do concelho, fora ministro dos três últimos governos que precederam a ditadura, durante cerca de nove meses.

E, localmente, o que fizera o homem para merecer busto, plantado ali num sítio onde só o raro trânsito automóvel passa apressado porque apeado ninguém tem motivos para passar por lá?

Era, disse-me um vogal da junta local, há mais de cem anos, proprietário de largos hectares de pinhal onde, de uma fonte, jorrava água virtuosa. Viu o feliz contemplado pela mãe natureza oportunidade para um empreendimento de engarrafar e vender o líquido. Terá ganho muito dinheiro? Talvez. Mas o negócio da água não se terá sustentado muito tempo porque há setenta anos, garantem os sobreviventes, ou a fonte se terá esgotado, hipótese possível porque os lençóis de água capricham por vezes em mudar de cama, ou o negócio tornou-se desinteressante, e já, então, ninguém sabia quem era o homem nem bebia a sua água engarrafada.

Quanto ao sítio deserto, disse o vogal da junta, tinha sido escolhido por ser ali que começava o limite da sua propriedade. Simbolicamente, o homenageado terá sido instalado junto a um imaginário portão, quase cem anos depois de entrar para um governo, que ameaçava cair em qualquer momento,  como anfitrião de quem entrar no pinhal, que ninguém sabe, e muito menos o busto, a quem a propriedade pertence agora.

Parece-lhe bem que a junta tenha gasto uns largos milhares do orçamento para colocar lá aquele despropósito? 
Muitos apoiaram a obra do autarca, muitos ignoraram, poucos contestaram e discutiram, defendendo ou atacando, em privado,  o busto.
Desaparecido o busto, quem antes batera palmas no descerramento com a presença do presidente da câmara e outras individualidades paroquiais,  ria-se depois com o facto rocambolesco do roubo de uma coisa que, afinal, não lhes interessava minimamente. 
Quando cheguei para o almoço, já os meus compinchas tinham entrado na sobremesa.

Desculpem o atraso, fui chamado à polícia, acusam-me de ser autor material ou moral do furto do busto; saí de lá constituído arguido.

(Gargalhada geral)

Nenhum de nós acredita que tenhas sido capaz de ter roubado aquilo; mas foi bem roubado, penso eu.

Pensas tu porque não valorizas o investimento cultural; o capitalismo não valoriza o investimento público, sobretudo na cultura, se não vê escorrer-lhe lucro para o bolso.

Fala o apoiante do autarca...

Com muita honra.

... com ligação directa ao presidente da câmara, com ligação directa ao chefe do governo; é assim que se consomem os dinheiros públicos, em obras de oh pacóvio olha o balão; como o dinheiro não lhes sai directamente dos bolsos, qualquer obra, mesmo que seja obra de caca, merece palmas dos tansos.

Fala a dor de cotovelo; se a obra tivesse sido feita por autarca do teu partido, seria boa e prestigiante para a freguesia.

Prestigiante? Mas que prestígio traz um busto de um fulano que ninguém sabe quem foi, que já desapareceu há quase meio século sem cá deixar rasto, colocado num sítio por onde ninguém passa?

É um símbolo cultural; nós defendemos o investimento na cultura.

Nós também, mas nós sabemos como se deve investir na cultura; e sabemos que o investimento no busto foi um investimento do autarca nele mesmo, querendo passar sub-liminarmente a mensagem de que a autarquia investe na cultura; é um logro!

Nós, o que vemos no busto é uma disfarçada homenagem ao capitalismo; contribuiu a riqueza do latifundiário para o desenvolvimento económico da região, para a melhoria das condições de vida das pessoas que aqui viviam na altura? estou informado que naquele tempo todos os terrenos nas imediações do pinhal pertenciam a pequenos proprietários, eram hortas onde cultivavam milho, centeio, batata, feijão, nabo, cenoura, couve, alface, toda a espécie de legumes porque o terreno era fértil nas várzeas, onde corria e ainda correm ribeiros; nas encostas havia vinhedos e pomares; hoje o que há à volta, num diâmetro de quilómetros, do sítio onde meteram o busto do político ricalhaço? silvas, mato, a dominar tudo por abandono daqueles que foram obrigados a emigrar; onde antes se via  gente a criar riqueza hoje não se vê ninguém.

Fala o comunista que continua a ver capitalismo monopolista em todo o lado; até aqui, onde a propriedade, mesmo a maior, nunca teve tamanho suficiente para enriquecer ninguém; e a água, pelos vistos, sumiu-se do mesmo modo que apareceu.

Já cá faltava o anti-comunismo primário; quando é que esta gente é capaz de ver o mundo com olhos de ver  e perceber que o liberalismo económico só tem conduzido ao crescimento galopante da desigualdade em todo o mundo? às alterações climáticas que estão a destruir o planeta; o do busto fez, no seu tempo, parte da elite que manteve este país ignorante durante décadas.

Estás confundido; o homem não foi ministro durante a ditadura; era ministro quando os militares fizeram o golpe do vinte oito de maio; ainda assim, sobreviveu dois dias como ministro; foi um sobrevivente da primeira república; deve ser esse o mérito que mereceu o busto.

Só agora? 
 
Mais vale tarde que nunca.
 
Mais valia nunca do que agora; se, durante dezenas de anos, gerações seguidas não se lembraram do indivíduo, esqueceram-se completamente dele, porque carga de água, ocorreu a este autarca gastar dinheiro com obra despropositada? só há uma resposta, óbvia: esta e outras obras sem mérito cultural ou económico, servem para os autarcas distraírem os basbaques e caçar-lhe os votos enquanto os mantém de boca aberta: dinheiro em mãos da ignorância não serve a cultura mas a ganância de poder a todo custo;
 
Ele foi um dos lançaram o país na bancarrota, depois de quarenta e cinco governos em dezasseis anos de bagunça, que conduziram à ditadura; um tipo destes merece um  busto, aqui, onde, que se saiba, nunca fez nada para além de só tirar proveito próprio das suas terras a vender água engarrafada?

Isso são águas passadas, passe o trocadilho; o que mais importa agora é saber como se permite um autarca, que por ignorância ou vaidade cega derrete milhares num busto, como se esses dinheiros não fizessem falta em investimentos realmente importantes para a população desta terra; o que lá vai, lá vai, se há alguma coisa a aprender com o passado é a lição de que a má política no uso dos dinheiros públicos corrói a democracia ...

Continua a corromper ...

... tentar passar ideia de que uma homenagem, despropositada no tempo e no espaço, a um ministro da primeira república numa terra onde poucas vezes terá posto os pés, é um acto de serviço à cultura é uma desavergonhada burla.

Para quem desvaloriza a cultura, qualquer investimento cultural é um desperdício com intuitos demagógicos.

Nós também queremos que o investimento na cultura seja reforçado mas concordamos que este investimento não valoriza a cultura desta freguesia; há muitos investimentos à espera de verbas que, esses sim, podem contribuir para a valorização das populações; não se valoriza a cultura com homenagens a quem não serviu o povo, para além de ter sido irrelevante a sua intervenção política há quase um século; trata-se do investimento numa obra, a todos os títulos, despropositada; esta aldeia, …

Agora é vila.

... agora é vila mas é menos vila que antes; noutros tempos …

Queremos falar do passado ou do futuro?

... falamos do presente; esta vila é sobretudo um dormitório dos que trabalham fora dos seus limites; há casas desertas há anos, e as ruas são de travessia automóvel da freguesia; não há agricultura mas também não há indústria, há escolas mas os professores residem na sede do concelho e o mesmo acontece com os médicos do posto de saúde; a população residente decresceu, as actividades culturais locais estão em extinção; e, no meio deste contexto, de que se lembra a junta? encomendar um busto a um escultor e a peanha a um canteiro para celebrar um fulano que cá não deixou nem rasto.

Devemos apoiar os artistas, os artistas plásticos; o mesmo é dizer que devemos apoiar a cultura.

Não para a concepção e execução de um busto que nada diz ao povo desta terra.

Diz, diz;

Diz nada; o povo bate palmas se vê bater palmas, desde que não lhe peçam dinheiro para isso.

Pedir, não pedem, tiram-lho sem que ele se aperceba; tiram-lhe em impostos e taxas em número incalculável...

Incalculável, porquê? é só contar, não?

... experimenta contar e diz-me quando souberes;

Mas, afinal, que fizeste tu para te chamarem à polícia e te constituírem arguido por suposto larápio do busto? foste apanhado em flagrante delito?

(Gargalhada geral)

Há meses encontrei o Valter, que insiste em tornar o seu semanário, o único do concelho, mais interventivo e menos paroquial; é uma aposta perdida mas ele insiste; quando o jornal noticiava nascimentos, casamentos, funerais e chegadas de emigrantes nas férias, o jornal vendia-se, até muito no estrangeiro, assinado pelos emigrantes; foi chão que deu uvas, disse-me ele, e quis dar uma volta ao jornal; convidou gente dos partidos, alguns dos quais, que muito respeito, se sentam aqui à volta desta mesa, e o jornal tornou-se campo de lutas ideológica; com cada qual a opinar para o seu lado, as assinaturas caíram redondamente, ninguém quer ler jornal que dê guarida a baboseiras de políticos de outros quadrantes, palavras do Valter; convidou-me para, também palavras dele, temperar o ambiente, com perspectivas menos radicalizadas para recuperar alguns leitores moderados, que também há, não é verdade? perante a insistência do Valter de manter o jornal mesmo continuando a perder dinheiro porque a publicidade também convive mal com disputas partidárias, passei a enviar pequenos comentários, o mais apartidários possível; e o que é que o eu enviei, e foi publicado há uma semana, que provocou engulhos ao presidente da junta para me denunciar como muito provável autor material do furto ou, pelo menos, autor moral? simplesmente mais ou menos isto: o busto descerrado há quinze dias no casal dos cágados motivou polémica e eu não poderia ignorar isso; e escrevi ...

... escrevi notícia da colocação em local quase deserto de uma escultura a homenagear quem tinha sido, há quase um século, ministro de três governos durante quase nove meses, sendo dono, na altura, de relativamente extensa mancha florestal, onde durante alguns anos engarrafou água nascida nos seus terrenos, provavelmente por nela existir alguma virtude que, no entanto, lamentavelmente se esgotou cedo.

Como a escultura, um busto, foi colocada em local distante da área residencial da vila, parece-nos, alertava eu, que a probabilidade de a obra vir a ser vandalizada e até derrubada, ser elevada.

Por estas razões, afigurava-se-nos recomendar à junta a vedação do espaço com rede de arame farpado suficientemente alta para desanimar possíveis tentações de vandalização da obra.

Foi só isto; o comentário saiu no jornal na quinta-feira, o roubo foi praticado na noite de domingo para segunda; às oito da manhã de hoje tinha a polícia a bater-me à porta, levaram-me para a esquadra para interrogatório. Saí de lá meia hora antes de chegar aqui, com intimação de me a apresentar amanhã no tribunal para ser ouvido por um juiz;  atribuem-me a autoria material ou pelo menos a autoria moral do furto por tornar pública uma ideia que, de outro modo, não ocorreria a mais ninguém. 
Só a mim, uma mente perversa.

 

Wednesday, September 08, 2021

O JOGO DA CABRA CEGA


PSP vai apresentar queixa contra juiz que tentou "provocar" os polícias

"O juiz Rui Fonseca e Castro “provocou” os elementos da PSP que estiveram ontem no Conselho Superior da Magistratura, gritando-lhes que deveriam colocar-se no lugar e que ele era a autoridade judiciária, estando “acima” dos mesmos...."

Como é que um personagem destes ainda é Juiz?

Quando é que o Conselho Superior de Magistratura vai expulsá-lo da corporação?

Ouço dizer, talvez daqui a um ano isso seja possível, depois de percorrido o caminho da justiça a passo de passatempo.

 

Monday, September 06, 2021

DESOBSERVATÓRIOS

Grandes bancos europeus desviam por ano 20 mil milhões de lucros para paraísos fiscai

O Observatório Fiscal da União Europeia (UE), um centro de investigação financiado pela Comissão Europeia para apoiar a luta da UE “contra os abusos fiscais”, estima que os grandes bancos europeus desviam todos os anos para paraísos fiscais 20 mil milhões de euros de lucros, 14% dos seus ganhos.

A análise, divulgada pelo observatório nesta segunda-feira, abrangeu 36 grandes grupos bancários europeus e cobriu o período de 2014 a 2020, com base nos relatórios financeiros que as instituições, à boleia das novas regras de transparência fiscal, têm de entregar às autoridades fiscais europeias sobre a sua actividade “país a país” dentro e fora do mercado interno europeu.

Mesmo com a “divulgação obrigatória” destas informações, refere o observatório, a percentagem de lucros registada nos centros financeiros de baixa ou nula tributação “tem-se mantido estável desde 2014”.

No leque de bancos analisados pelas práticas de planeamento fiscal estão desde os britânicos HSBC, Barclays, Lloyds (à data sediados no mercado único), aos franceses BNP Paribas e Crédit Agricole, do holandês ING ao espanhol Santander, passando pelos alemães Commerzbank e Deutsche Bank, o dinamarquês Danske Bank ou o italiano Monte dei Paschi.

Embora não haja bancos de raiz portuguesa neste leque, porque o critério é a dimensão, há grupos que estão presentes em Portugal.

 

Sunday, September 05, 2021

HOJE, NÂO. DEPOIS, SIM

 

"O secretário-geral do partido (comunista) disse que a "pressa" do Governo para marcar as eleições autárquicas para 26 de setembro "condicionou tudo" e, por isso, "não havia condições, nem há, para qualquer discussão prévia em relação à proposta de Orçamento do Estado que ainda não existe".- aqui

Saturday, September 04, 2021

ECONOMISTA DESCONHECIDO

A história desconhecida de um pioneiro no ensino de Economia

A introdução em Portugal de aulas de política económica internacional na segunda década do século passado foi uma inovação no ensino da Ciência Económica que tem estado esquecida. Até ali, os estudantes aprendiam uma trilogia de disciplinas em torno de uma mistura eclética a que se dava o nome de Economia Política, de várias áreas do Direito e de cadeiras mais técnicas viradas para a formação de técnicos aduaneiros e de quadros consulares e de empresas.

A mudança deve-se a um chefe de Alfândegas, Francisco António Correia, que era também professor no Instituto Superior de Comércio de Lisboa (ISC), recém-criado pela República num antigo colégio de freiras no Quelhas. O ISC era a única escola em Portugal virada para a Economia, e moldada pelos republicanos segundo as famosas Escolas de Comércio francesas. Apesar do seu papel renovador, Correia nunca foi incluído entre os ilustres economistas portugueses da época, uma galeria onde dominava a Faculdade de Direito de Coimbra, com Marnoco e Sousa e o próprio Oliveira Salazar.

Correia, que chegou a ser um muito ativo diretor do próprio ICS entre 1917 e 1928, foi agora ‘redescoberto’ e os seus dois principais livros foram republicados pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG, herdeiro do ISC), uma iniciativa sob a direção de Carlos Bastien, um especialista na história do pensamento económico. ...

mais aqui

OS DIREITOS DOS OUTROS

- Não coloca a máscara? Como é que posso ir aí abaixo falar consigo se não coloca a máscara?

- Tenho máscara aqui ... vê? ... tenho-a aqui no bolso.

- Hum! Já agora diga-me, está vacinado?

- Não senhor.

- Qual é a sua idade?

- 44

- Ainda não foi chamado para a vacina?

- Não ... quero dizer, não quero ser vacinado.

- E porquê, pode saber-se?

- Não acredito na vacina.

- Gastam-se milhões na luta contra o covid 19 e você pensa que a vacina não serve para nada.

- É o que eu penso.

- E assim pode colocar em perigo a vida de quem se aproxime de si ...

- Tenho direito à minha opinião, não tenho?

- E eu tenho o direito a não querer que continue a trabalhar mais na minha propriedade.

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" Moderna pede autorização para administrar terceira dose da vacina na Europa - vd.
aqui

“Estamos satisfeitos por termos solicitado uma autorização de comercialização condicionada à Agência Europeia de Medicamentos para o nosso reforço [de vacina] com um nível de dose de 50 microgramas”, revelou a farmacêutica norte-americana em comunicado.

Há dois dias a Moderna tinha também feito o mesmo pedido às autoridades dos Estados Unidos, noticia a agência EFE.

Segundo o CEO da Moderna, Stéphane Bancel, os estudos e análises adicionais “demonstram que uma dose de reforço de 50 microgramas” [metade da dosagem das primeiras duas injecções] da sua vacina “provoca respostas de anticorpos potentes contra a variante Delta”.

Saturday, August 28, 2021

O JOGO DA CABRA-CEGA

Sentença talibã em Paredes (Portugal).
 
Agora que os talibãs voltaram a ser senhores quase absolutos do Afeganistão (resta a resistência no Vale do Panjshir) e os noticiários televisivos preenchem-se com imagens repetidas de amostras da monstruosidade da sua misoginia, relembrem-se julgamentos de juízes e juízas portugueses em vários casos de violência doméstica, dos quais, um dos mais recentes ocorreu em Maio deste ano.

Violência doméstica. Juíza absolve homem que arrastou mulher pelo pescoço Mulher foi agarrada pelo pescoço e arrastada até ao carro. Nunca testemunhou. Tribunal de Paredes dá agressão como provada, mas ato não teve "crueldade" suficiente para ser violência doméstica.

Não foi o primeira episódio a envolver polícia. Desta vez, o homem de 37 anos agarrou na companheira pelo pescoço e obrigou-a a entrar num carro. O episódio ocorreu em outubro passado, em Paredes, e uma patrulha da GNR que ia a passar assistiu a tudo: a mulher a ser agarrada, a ser levantada do chão e, depois, a ser arrastada pelo pescoço até ao interior de uma viatura.

Apesar de os factos terem sido dado como provados pelo tribunal de Paredes, a juíza Isabel Pereira Neto considerou não haver crueldade suficiente para o ato ser considerado violência doméstica. A agredida não testemunhou nem apresentou queixa, e o homem foi absolvido. A notícia é avançada pelo Jornal de Notícias (conteúdo para assinantes).

Segundo aquele jornal, também em novembro de 2019 a GNR foi chamada, durante a noite, a casa da vítima. A mulher estava junto da habitação, debaixo de chuva intensa, e precisou da proteção da GNR para poder entrar em casa e retirar alguns objetos seus e dos filhos, já que iria procurar abrigo na casa de familiares. No entanto, o casal acabaria por reatar a relação.

Perante os mais recentes factos, que reportam a outubro passado, o homem foi acusado pelo Ministério Público de um crime de violência doméstica e três de ameaças aos militares da GNR que o detiveram. O arguido não compareceu a nenhuma das sessões de tribunal, escreve o JN, acabando absolvido de todos os crimes no final de abril. Embora os atos tivessem gravidade para ser crime de ofensa à integridade física, sem queixa da vítima para chegar a julgamento — que recusou testemunhar —- o agressor acabou em liberdade.

Na sentença, a que o Jornal de Notícias teve acesso, a juíza Isabel Pereira Neto diz que “resultou provado” que a mulher “foi agarrada pelo pescoço, pelo arguido, seu companheiro, que com recurso à violência a tentou introduzir no interior da viatura”. Apesar disso, a juíza considera que se tratou de “apenas de um ato, que não reveste a gravidade ínsita” ao crime de violência doméstica. “Entendemos que a conduta do arguido não integra o conceito de maus-tratos, previsto no artigo 152.º do Código Penal“, apoiando-se na tese de que o ato não teve a “crueldade, insensibilidade e desprezo” suficiente para ser considerado crime de violência doméstica.

Isabel Pereira Neto defende que a agressão cumpre os requisitos do crime de ofensa à integridade física, mas, por ser um crime semipúblico, depende de queixa formalizada pela vítima — o que nunca aconteceu. Já sobre as ameaças feitas aos militares da GNR, a juíza considerou que foi “um desabafo”. Embora ao ser detido e encaminhado para o posto da Guarda o homem tenha dito que queria o nome dos GNR para ir procurá-los, a magistrada entendeu que ele nunca quis “matá-los ou sequer bater-lhes”.

Friday, August 27, 2021

CUPIDO ESCONDIDO

                                                                                        

                                                                         AQUI

 


 

QUEM É QUE DIZ QUE NOS FALTAM RECURSOS FINANCEIROS?

O que nos falta são investidores que acreditem no futuro deste país.

Depósitos atingem novo recorde próximo dos 170 mil milhões 


 

Thursday, August 12, 2021

QUEIMAR VACINAS

No Queimódromo do Porto.
O que é se podia esperar de um local com um nome sinistro? 

"Covid-19: vacinação suspensa no Queimódromo do Porto, doses usadas podem ser “consideradas nulas”.  
Vacinas dadas na segunda e terça-feira podem ser consideradas nulas, admite Henrique Gouveia e Melo, mas saúde dos utentes não está em risco." - aqui

Tuesday, August 10, 2021

HIPOCRISIA LíQUIDA

 

 

Por que chora o bilionário Messi?

Porque vai ganhar mais 45 milhões além de direitos de imagem e etc.

 

Leo Messi: “No sé el Barcelona, pero yo hice todo lo posible para quedarme”

 

Sunday, August 08, 2021

DO YOU SPEAK ENGLISH?

You called Lab .... / Ligou para Lab .... / para falar em português prima um / for english press five

Premiu-se 1.

- Em que posso ser útil?

- Fizemos, eu e a milha mulher, ontem em ... um teste rápido covid 19 e, doze horas depois ainda não foi recebido o resultado do teste da minha mulher; o meu, recebi-o ontem duas horas depois de ter feito o teste.

- Diga-me o nome da sua mulher.

- S ...

- O e-mail?

- P ...

- Diz que fez o teste ontem e o resultado ainda não foi recebido?

- Exactamente. Fizemos os testes, ontem, âs 17,41.

- É estranho. Não encontro esse nome nos ficheiros. Disse-me que já recebeu o seu teste...

- Recebi ontem.

- Diga-me o seu nome.

- P ...

- Pode aguardar um momento para eu poder rever os ficheiros?

- Faz favor ....

....

- Não encontro nem o seu nome nem o da sua mulher. Vou ver o que se terá passado; depois contacto.

- Vou aguardar mas preciso do teste porque embarcamos amanhã com os nossos filhos no avião que sai âs 11 da manhã.

- Já volto a ligar.

...

Após uma longa espera, ninguém ligou. Voltou repetir-se a cena mais três vezes com resultados idênticos. Previsível. "Insanity is doing the same thing over and over again, expecting different results" - Albert Einstein.

Volto a ligar mas, desta vez, premi cinco.

Resultou. Os resultados chegaram dois minutos depois por  e-mail.



Thursday, August 05, 2021

O CONHECIDÍSSIMO CASO DOS AVIÁRIOS DE FORMADORES

Só nos faltava isto: o regresso da formação de formadores

Com as Novíssimas Oportunidades, vamos todos aprender que é possível repetir os mesmos erros e o resultado final ser totalmente diferente. É desta, portugueses! Inscrevam-se para acreditar. - João Miguel Tavares

5 de Agosto de 2021

São cinco vírgula cinco mil milhões de euros. Um tiro de bazuca de dez dígitos para investir em “qualificações e competências”, ao abrigo de um – e cito – “Acordo de Formação Profissional e Qualificação: Um Desígnio Estratégico para as Pessoas, para as Empresas e para o País”, que foi assinado na semana passada entre o Governo e os seus parceiros sociais. Apesar dos efeitos da pandemia, a paz social fica assim assegurada durante os próximos anos, com fundos europeus a serem canalizados em barda através de sindicatos e de confederações patronais com a desculpa favorita da pátria – a qualificação dos trabalhadores –, dada a “necessidade” – e volto a citar – “de agir para cumprir a meta de alcançar em 2030 os 60% de participação anual de adultos em educação e formação”.

Reparem bem no português, porque ele é sintomático. Um redactor competente e produtivo saberia que a expressão “necessidade de agir para cumprir a meta de alcançar” é apenas uma modesta “necessidade de alcançar”. Mas o comboio verbal “agir para cumprir a meta de alcançar”, na sua desmesurada redundância, é um lapso freudiano que se aplica na perfeição a este programa, cujo nome deveria ser Novíssimas Oportunidades. Lembram-se?

O Governo socialista é como aqueles casais sem imaginação que só conhecem duas ou três posições na cama, e as repetem incessantemente sempre que há alguma energia, ou, neste caso, muito dinheiro. Chovem milhões de Bruxelas? Alguém grita “Eureka!” no Palacete de São Bento – “vamos investir que nem doidos na formação de adultos!” Como dizem os ingleses: been there, done that. Essa estratégia foi a menina dos olhos de José Sócrates. Chamou-se Novas Oportunidades e tratou-se de um programa espectacular – sobretudo para o anedotário nacional, com centenas de milhares de adultos a completarem magicamente o 12.º ano após despenderem vários serões a assistir à projecção de slides em paredes brancas.

É verdade que o Novas Oportunidades foi um sucesso de participação. Entre o seu início, em 2006, e até meados de 2011 – quando chegou Passos Coelho e a troika malvada –, inscreveram-se no programa cerca de 1,5 milhões de adultos. Estamos a falar de quase 30% da população activa em Portugal. Os socialistas ainda hoje se orgulham muito do Novas Oportunidades, e há mesmo estudos que perguntaram às pessoas se foi bom para elas, elas disseram que fez maravilhas pela sua autoestima, donde, o programa foi um sucesso.

Ainda assim, foi um sucesso insuficiente, porque António Costa quer agora formar mais 1,145 milhões de adultos activos, que isto da formação é um trabalho de Sísifo. E talvez também porque, olhando para a evolução da produtividade em Portugal, o efeito nos indígenas não parece ter sido espectacular. Para citar não Passos Coelho, mas a CGTP (que recusou subscrever o acordo), “o Governo não rompe com um passado de desaproveitamento de milhares de milhões de euros gastos em ‘formação profissional’, que não logrou tirar-nos do último lugar dos países europeus em matéria de qualificação média da população activa”. Ups.

Ah, mas desta vez vai ser diferente, não é? Claro que vai. Os objectivos são os mesmos, a estratégia é idêntica, os parceiros mantêm-se, e a sede de ir ao pote é igualzinha. Mas, com as Novíssimas Oportunidades, vamos todos aprender que é possível repetir os mesmos erros e o resultado final ser totalmente diferente e completamente maravilhoso. É desta, portugueses! Inscrevam-se para acreditar.

A ADSE E O 19

A juntar às referidas  aqui.

" ... A pandemia veio pôr um travão ao aumento da despesa da ADSE com a saúde dos funcionários e aposentados do Estado que atingiu, em 2020, o nível mais baixo dos últimos cinco anos. Mas se os gastos caíram 13% em comparação com 2019, já as receitas provenientes dos descontos dos beneficiários aumentaram 2,6%, o que acabou por ter um efeito positivo na sustentabilidade do sistema." - aqui

A ADSE, repete-se esta afirmação pela enésima vez neste caderno de apontamentos, é um dos sistemas de saúde que prova, pelo menos 

- Que o SNS não é universal; todos os utentes do SNS, incluindo os associados da ADSE podem, teoricamente, recorrer ao SNS mas a inversa não é verdadeira.

- Que a ADSE representa um encargo contingente para todo os contribuintes, através do  OE.

- Que se todos os associados de sistemas particulares de saúde suportados pelo OE e pelos subscritores de seguros privados recorressem ao SNS, este, manifestamente implodiria. A prova desta afirmação está no conhecimento público dos milhares de utentes do SNS aguardam vez em longas listas de espera para cirurgias e actos médicos em geral; a longa lista de espera de quem aguarda a indicação do (a) seu (sua) médico (a) de família.
Por que é que só os associados da ADSE podem escolher o seu médico de família e os restantes utentes do SNS não? O aumento do número de associados da ADSE parece beneficiar as contas deste sistema particular de saúde e a redução da contingência sobre o OE. Ou não?
Por que razão, 

Em conclusão: por que razão não se alarga a associação à ADSE de todos os utentes do SNS?
 
47 anos depois de 25 de Abril de 1974
42 anos depois de instituído o SNS, uma das mais aclamadas "conquistas do 25 de Abril", continua, provadamente, a existir desigualdade entre portugueses no acesso aos cuidados de saúde.

Wednesday, August 04, 2021

71 CHINESES COM O 19!

A China terá agora cerca de mil e quatrocentos milhões de habitantes.  
Observando um surto da variante Delta (71 infectados), um valor máximo desde Janeiro - cf. aqui - decide testar 11 milhões de habitantes em Wuhan, a cidade onde, presumivelmente, a pandemia começou. 
O que, como em outras situações, obriga a reflectir acerca da fragilidade da complacência da democracia.
O politburo chinês sabe que se o pagode pega fogo o partido ficará calcinado.

"Desde Janeiro que a China não registava tantos casos de transmissão local do vírus. Desde o final de Julho que a mais transmissível variante Delta foi detectada em, pelo menos, 12 cidades chinesas, incluindo a capital Pequim e a cidade de Wuhan, onde o vírus apareceu no final de 2019.

Esta terça-feira, o país registou 71 casos de transmissão local, o número mais alto desde o dia 30 de Janeiro. Há cinco dias consecutivos que este indicador sobe.

Em Wuhan, as autoridades já anunciaram que os 11 milhões de habitantes vão ser testados à covid-19 nas próximas semanas. Várias outras cidades afectadas pelo surto da variante Delta encerraram o turismo e restringiram actividades. "

 ---  Em Portugal, 

Mais 15 mortes e 3203 novos casos

Portugal registou esta terça-feira 15 mortes devido à covid-19 e 3203 novas infecções pelo novo coronavírus, de acordo com o boletim da Direcção-Geral da Saúde (DGS) divulgado esta quarta-feira. A incidência e o R(t) voltaram a baixar.

Há 919 doentes hospitalizados em Portugal, menos 26 do que no balanço anterior. Destes, 204 estão em unidades de cuidados intensivos (UCI).

 

Tuesday, August 03, 2021

O JOGO DA CABRA CEGA

Sete anos depois, a Justiça continua a dormir o sono solto dos coniventes. 

Sobre este e todos os outros peixes graúdos apanhados nas redes a aguardar que as malhas se alarguem ou se rompam com o tempo e as habilidades dos esforçados agentes da justiça envolvidos nesses objectivos. Convenientemente pagos.

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"O que sobra depois de 03/08/2014: 9 trabalhadores, gastos de €3 milhões/ano em advogados, um buraco de €7 mil milhões - o BES - aqui
00h00 

Domingo, 3 de agosto de 2014: o país sentiu um abalo - o BES ia ser alvo de uma intervenção. Foi dividido em dois. Passados sete anos, um deles, o Novo Banco, vive com ajuda dos contribuintes. O outro, o BES - que manteve o nome -, sobrevive mas sabe-se que é morto que vai acabar. Tem chegado a acordo com devedores mas as recuperações são limitadas - muito limitadas. E os pequenos investidores continuam a ter as ações das quais não se podem desfazer no mercado - mas continuam a pagar comissões. Sete anos depois de o BES cair, a história ainda está a ser escrita. Porque falta saber qual o rasto de perdas que vai mesmo deixar."

Monday, August 02, 2021

ORA VIVA O AMIGO 19!

“La Vida Loca” regressou a Lisboa: dançou-se e bebeu-se numa noite para celebrar e fintar regras - aqui

Cristina Margato e Nuno Fox 

Não se pode consumir bebidas alcoólicas na rua, põe-se uma mesa na rua. Não se pode dançar na pista, dança-se à volta da mesa. Não se tem certificado, serve uma fotografia do cartão de vacinas. Não se pode beber um café na mesa da pastelaria, bebe-se ao balcão. A criatividade voltou no primeiro dia do mais recente desconfinamento, na noite de Lisboa, e alguns agentes da Polícia Municipal assobiaram para o lado.

 

 

 

O Covid 19 tem, pelo menos cinco vantagens, para quem é novo e saudável.

Morrendo os velhos:

- a idade média da população decresce; o país rejuvenesce-se.

- a Segurança Social paga menos pensões; o défice das contas agradece.

- reduzem-se as despesas com assistência médica e hospitalar; o défice agradece.

- os herdeiros recebem mais cedo as heranças; deixam de pagar as despesas em lares ou, simplesmente, deixam de aturar os velhos.

- a imunidade de grupo atinge-se a níveis de imunização (natural ou por vacinação) mais cedo;

- cresce o PIB/capita: para o mesmo PIB (os reformados não produzem) há menos "capitas"; O decréscimo de consumo privado induzido pela redução dos consumos dos pensionistas será sempre inferior à redução do PIB, isto é, às pensões pagas; ganha a imagem do Governo.


Sunday, August 01, 2021

HÁ RACISMO NA JUSTIÇA?

Há. 
A lentidão da justiça é racista quando, como neste caso relatado hoje no Público, demora tempo imenso para se pronunciar.
Se o médico insultado fosse um branco demoraria a justiça tanto tempo a condenar o insulto?

"Pedro Gomes da Costa ganhou o caso depois de ter processado a mãe de uma criança que o insultou com “preto de merda, seu macaco”. Médico critica: “Esta senhora tem mãos livres” para ser racista “porque a sociedade é permissiva”. Lei deveria ser mais dura, defende. - aqui

Pedro Gomes da Costa será dos poucos, senão o primeiro médico em Portugal, a denunciar uma situação de racismo numa consulta, a ir a tribunal e a ganhar o processo contra a mãe de uma criança que o ofendeu em plena consulta.

Na noite de 29 de Julho de 2018 o médico de 53 anos estava a fazer o serviço de urgência no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, onde trabalha no serviço de pediatria, quando entrou uma criança de 20 meses com febre e aftas na boca, acompanhada pela mãe, Daniela Domingos. Como habitual para aquelas situações, usou uma espátula para a observar, baixou a língua da criança. Ela deu um grito. “A mãe pega-me no braço, puxa com uma violência e a partir daí começaram as ofensas: ‘preto de merda, seu macaco, você pensa que está a observar um animal? Animal é você! Isso é que era bom, a minha filha ser observada por um preto, exijo que seja observada por um médico branco!”, disse-lhe a mulher aos gritos continuando-os pelo corredor e depois na sala de espera ..."