Sunday, January 15, 2012

ERA DE REVOLUÇÃO?*

ou de transição?

A actual situação de crise caracteriza-se nos EUA por uma apatia que a distingue de fases da história económica anteriores, no meadamente da destruição criativa que caracterizou a transição do século XIX para o século XX.

Com duas excepções: o Tea Party e Occupy Wall Street.

Aparentemente, o Tea Party representa a revolta contra as conivências entre os banqueiros e o poder em Washington. Começou pela oposição ao resgate de  Wall Street  de700 biliões (700 mil milhões) de dólares em Outubro de 2008, que só foi aprovado pelo Congresso em segunda votação. No entanto, o Tea Party é
dominado por uma base fundamentalmente constituida por brancos de meia idade e idosos, tradicionalmente conservadores. Os seus maiores protestos fizeram-se sentir em Agosto de 2009 contra a reforma do sistema de saúde acusando Obama de roubar fundos do "Medicare" (que assegura os serviços de saúde gratuitos a partir dos 65 anos) para assegurar o serviço de saúde a todos (portanto, também aqueles que estão em idade activa) que não possam pagar um seguro.

No entanto, um inquérito recente concluiu que mais de três quartos dos apoiantes do Tea Party declaram-se favoráveis à manutenção do actual sistema - Medicare, Segurança Social e  sistema público de pensões - que absorve a maior fatia do orçamento federal. Quando o ano passado a administração federal pretendeu reduzir os benefícios Medicare, os republicanos enjeitaram a proposta e Newt Gingrich, anterior líder da maioria republicana no Congresso, atacou o plano do governo considerando-o "uma engenharia social de direita". 

"Os norte-americanos detestam o governo em abstracto mas adoram os programas de governo que os beneficiam em particular".


A base demográfica do Tea Party, por outro lado, explica porque razão os cortes na despesa promovidos pelos republicanos, que agora controlam o Congresso, tenham atingido os programas da educação, infraestruturas, investigação e desenvolvimento, e outros items que envolvem as gerações mais jovens.

Para Ronald Brownstein, editor do National Journal, um semanário de Washington, os EUA entraram numa nova era política de "cinzentos contra castanhos" - um partido "Anglo" Republicano em crescendo contra uma coligação não homogéna dos mais novos e de outras raças que apoiam os Democratas. Esta oposição beneficiou Obama em 2008 na Virgínia e Carolina do Norte, tradicionalmente republicanos.

Obama tem o apoio de largas maiorias de americanos de origem africana, hispânica e asiática, mas de menos de 40% dos brancos "blue-collar, uma separação que se tem acentuado desde 2008. Obama já escolheu Charlotte, Carolina do Norte, com uma população prevalecentemente jovem, multi-étnica e bem preparada, para a convenção da sua nomeação; os republicanos escolheram Tampa, Flórida, uma zona preferida pelos reformados brancos. Se há uma guerra política essa guerra é mais entre gerações e grupos étnicos do que entre classes. 

Segundo o recenseamento de 2010, a população branca estará em minoria nos EUA em 2040. O mesmo censo revelou que 46,5% dos norte-americanos com menos de 18 anos são não-brancos, em 2000 eram 39%. Nos últimos dez anos o número de crianças brancas reduziu-se em 4 milhões enquanto o número total cresceu 6 milhões, em consequência do aumento da população hispânica. À medida que a austeridade fiscal reduz os rendimentos líquidos cada grupo tende a defender a sua fatia no orçamento federal. Apesar dos confrontos observados no ano passado acerca do teto da dívida o diferendo continua adormecido.

O relançamento do confronto entre o 1% dos ricos e o resto, um tema do discurso de Obama, está a ser realizado pelo "Occupy". Contudo, contrariamente ao "Tea Party", o "Occupy" não dispõe de qualquer organização formal. Enquanto o "Tea Party" é republicano e urbano, o "Occupy" forma-se com activistas da esquerda radical, estudantes e anarquistas. Mas nem o "Tea Party" se revê em Romney nem o "Occupy" é entusiasta de Obama, restringindo-se o populismo ao discurso dos candidatos. O contraste entre o populismo das mensagens e as origens dos fundos para as campanhas (Wall Street) não podia ser mais flagrante.

Frente a um eleitorado desiludido, Obama tenta agora entusiasmar a sua base de apoio, nomedamente hispânica, prometendo reformas nas leis de imigração, um assunto praticamente ignorado durante os seus dois primeiros anos de mandato. Romney dirigir-se-á sobretudo aos eleitores mais velhos e prometerá mais cortes na despesa. Com Obama-Romney, avizinha-se um confronto arredado da paixão política.

Avançará o libertário Ron Paul para uma terceira candidatura? Beneficiaria, obviamente, Obama e, por isso não é previsível que ocorra. O mais provável, segundo alguns, é que em Novembro se assista a uma luta suportada por financiamentos record com a mesma origem.

A esta distância temporal, quando o grau de insatisfação é grande, as intenções do   eleitorado tornam-se mais voláteis. Vivemos um tempo de desencanto com a democracia, a confiança no sistema está a desaparecer.
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* Este apontamento é continuação do anterior.

Saturday, January 14, 2012

ERA DE TRANSIÇÃO?

ou de revolução?

O insuspeito, a este respeito,  Financial Times tem vindo a publicar uma série de artigos de reflexão sobre a saliente crise do sistema capitalista - capitalism in crisis. Na edição de hoje, Edward Luce, representante do jornal britânico em Washington, escreve sobre as perspectivas possíveis para o sistema nos EUA sugeridas pela provável nomeação de Mitt Romney como candidato republicano à presidência em Novembro e a sua eventual vitória.

Mitt Romney tem vindo a ser acusado, para já sobretudo dentro do seu próprio partido, de insensibilidade moral (abutre, saqueador, ganancioso) enquanto CEO da Bain Capital, um grupo de especulação financeira, e Edward Luce adverte que se esta reacção contra o capitalismo se mantiver os democratas não terão mais nada a acrescentar até às eleições presidenciais.

E refere um aspecto indiciador da insegurança crescente: Há hoje cerca  de 50 mil armazens de móveis e utensílios diversos que, por um motivo ou outro,  foram retirados de casa. Nas últimas três décadas o número destes armazens decuplicou essencialmente em consequência do aumento de leilões por dívidas não pagas,  divórcio, deslocação/migração, desinteresse. Mas não há nada, no atomizado desconforto da classe média que faça prever uma revolução.  Em períodos de crise económicas, nomeadamente durante as décadas dos "ladrões barões" do fim do sec. XIX começos do século XX, fomentaram o populismo. Mas, então como agora, ambos os partidos recorreram às mesmas fontes de financiamento: há um século, os capitalistas dos caminhos de ferro, nos dias de hoje, Wall Street. Então, como agora, a volatilidade eleitoral aumentou, alterando-se com maior frequência a  maioria no Congresso.  


Observaram-se em ambas as eras alterações tecnológicas que alteraram os padrões de trabalho e enriqueceram estratosfericamente os vencedores ( A este propósito, Mitt Romney tem vindo a arvorar durante a campanha das primárias a bandeira schumpeteriana da destruição criativa). O enriquecimento da superclasse norte-americana decorrente da internet e da globalização financeira desde a década de 90 do século passado encontra paralelo nos que enriqueceram com os caminhos de ferro, a electricidade, o motor de combustão, há 100 anos. Com efeitos idênticos sobre a concentração da riqueza e a concentração das desigualdades, a influenciar a discussão política. 

Mark Hanna, um  director eleitoral do fim do século, afirmou um dia: As três coisas mais importantes na política americana são:  dinheiro, dinheiro, e esqueci-me da terceira. Outros, depois dele, têm dito mais ou menos o mesmo. 

Mas se há paralelismos também há divergências: Há um século, prevalecia o populismo rural e o crescimento das organizações operárias. Hoje a classe média, mergulhada na apatia ou no medo, tem interesses económicos difusos e geograficamente dispersos. O grupo mais atingido pela crise é constituido por pessoas com habilitações médias que trabalha nos serviços, muitos dos quais vive nos subúrbios, vê televisão e muda de canal quando aparecem politicos no écran. 

Há duas excepções a esta apatia colectiva: o Tea Party e Occupy Wall Street.

(continua)

DA MANGA DO CHINÊS

"Não sei como é que Celeste Cardona apareceu na lista"
Oh! Eduardo!
Então isso são maneiras?
Isso é coisa que se diga,
de uma senhora,
antiga
ministra,
administradora,
banqueira,
advogada?

Oh! Eduardo,
pois tu não vês,
que o Chinês
também a tirou da manga? 

Os porquês,
Eduardo,
são assuntos velhos,
mas não são pormenores.

Friday, January 13, 2012

RIMA PARA UMA MENINA FINA


"Papo de Anjo, uma marca portuguesa, chegou aos Emmy mas agora fecha as portas e deixa quatro milhões por pagar."

Filósofo Francisco
estava atento,
e reparou que na lista das minas que temos por explorar,
alíás, quase infinita,
faltava o jesuita.

E, no entanto,
Francisco,
nem tu nem eu notámos que,
entretanto,
contra a nossa vontade,
já tinhamos sido espetados por uma de "Papo de Anjo",
geralmente coisa açucarina,
dizem.
Mais uma mina.

E por quem?
Vê bem, Francisco:
por uma menina fina.

UM TABU INTOLERÁVEL

"Ou Lisboa toma juízo ou temos de ir para a independência".

Se perguntassem aos portugueses se, ouvidos em referendo, votariam favoravelmente pela independência da Madeira, seguramente que a grande maioria responderia que sim. Se houvesse referendo com o mesmo propósito, provavelmente, a maioria responderia que não. A diferença entre a intenção e o voto avaliaria o grau de repúdio dos portugueses da insolência  de Alberto João e da sua clique. Para os portugueses a Madeira é indiscutivelmente parte de Portugal, Alberto João é um figurão que usa e abusa da chantagem sacando da cartola o espantalho da independência.

Dito isto, não se ignora a popularidade comprada durante mais de três décadas com a benevolência pusilânime dos governos centrais traduzida em reeleições sucessivas, como é praxe em territórios onde por ínvios caminhos se presta culto a um "querido líder". Não me admiraria, portanto, que, envolto há tantos anos na veneração ao "querido líder", os madeirenses aclamassem a independência se ela fosse proclamada uma manhã destas na Assembleia Legislativa da Região Autónoma.

Mas também não pode ignorar-se que a imposição de condições inexequíveis, se o argumento tiver fundamento, a assinatura de um acordo não torna exequível o que, à partida, não é. O governo da República assinou com a troica  um memorando que, na parte financeira, é incumprível e terá de ser, mais tarde ou mais cedo, renegociado.

Que Alberto João Jardim se recuse a assinar um acordo inviável, não me repugna.
Repugnante é a chantagem subjacente a essa recusa e o tabu com que, a respeito dela, o governo da República se continua a embrulhar.

Insisto nisto, que anotei há mais de três meses, aqui:

E agora, Pedro Passos Coelho?

Agora, que a insolência do AJ recrudesce mas não há dinheiro para mais demagogia (nem na Madeira nem no Continente) o que farás se o dono da Ilha se recusar a acatar as determinações do Governo da República e a berrar contra o neocolonialismo? Cortas-lhe a mesada ou recuas como todos recuaram até hoje? Esperamos que lhe cortes o gás e o deixes espernear. Se ele convocar a revolta, manda restabelecer a ordem com os meios necessários. Há momentos na História em que o precipício fica na retaguarda.

Thursday, January 12, 2012

VALHA-NOS O PASTEL DE NATA!


Por que é que não conseguimos exportar o pastel de nata?
Por quê, senhores?,
Como é que nunca ocorreu a ninguém
que o pastel de nata,
nascido em Belém,
notem bem!,
pode ser a nossa salvação?
Estranho,
não?
Temos uma mina aqui ao pé da mão,
e não temos ido além da bicha pró pastel ao fim-de-semana !!!!

Aliás,
o que não nos falta são minas de pastéis para exportar:
pastel de Tentúgal,
pastel de bacalhau,
não confundir com as pataniscas, outra delícia,
(mas patanisca não é pastel, não),
pastel de feijão,
pastel de cerveja,
é inesgotável a mina da pastelaria portuguesa
senhores!
A barriga de freira, uma tentação, não?
Abade de Priscos, outra,
O bolo-rei!
As escarpiadas,
Os coscurões,
As filhoses,
Senhores, fogo à peça!
Há alguma coisa que impeça exportar,
por exemplo,
o pão-de-ló?
E os Dom Rodrigos?
E a palha de Abrantes
mas, antes,
que não se esqueça a reexportação
do Álvaro.

Wednesday, January 11, 2012

UMA TRAJECTÓRIA INFERNAL



c/p aqui

As coisas não se passam de forma assim tão simples quanto este esquema da banheira pretende.
Que há conclusões irrebatíveis, há. Outras, nem tanto.
.
Que crescimento da dívida pública francesa ao longo de 40 anos tenha sido idêntico aos juros pagos durante esse período, pode significar apenas que, efectivamente, a dívida não foi paga mas apenas sucessivamente diferidos os seus vencimentos com recurso a crédito (mais dívida) para pagamento dos juros. E esta trajectória é, se tudo o resto se mantiver constante, independente da taxa de juro. Se a taxa de inflação no período for idêntica ou superior ao crescimento nominal da dívida, em termos reais, a dívida não aumenta. 

Mas se a dívida galga o valor da riqueza produzida e a taxa de juro da dívida supera a taxa de crescimento do produto, de modo consistente, a dívida crescerá imparavelmente em termos reais para a bancarrota.

É o nosso caso.

CROWDING OUT

Atenção!
Quem sabe o que é  que
significa
crowding out?
Quem souber ponha o dedo no ar!

Pois é.
Ninguém sabe.
E crawling peg?
Também não.
.
Nada disso. Profiteroles, é outra coisa.

Assim, senhores Irmãos,
não podemos continuar.
Tanta ignorância,
sujeita qualquer um desta assembleia,
à insolência bruta
de um Costa qualquer:

insultou ele.

"Crowding out", senhores Irmãos,
é isto,
que não interessava a Cristo.
Tem a ver com bago, massa, carcanhol,
caroço,

Tuesday, January 10, 2012

DE MAO A PIAO


Hummm!
expirou Costa, e disse,
pedagogicamente:
Irmão,
isto precisa de mais aperto.
Porque, vendo bem,
vendo bem, de perto,
isto vai estatelar-se ainda mais que o orçamentado

Aliás,
o professor Gaspar já se desdisse,
porque já disse,

Mas Costa,
(contesta o Irmão)
nada disto faz sentido.

Faz, faz, rapaz!
Não disseste
e repetiste, que havia folgas?

Disse, disse,
e há.

Pois se há
folgas,
meu nabo,
como é que reparam as folgas
se não com um aperto?
.
(Baaa! É preciso muita pachorra para ouvir estes ignorantes!)
inspirou Costa.

ASSALTO À DEMOCRACIA

O Washington Post de hoje publica um editorial - Assault on Democracy - acerca das ameaças que impendem sobre a Hungria, membro da União Europeia e da NATO. Um tema que já abordei neste caderno de apontamentos, a última vez aqui - O abraço de Putin -.

Aparentemente os líderes europeus ou não valorizam suficientemente este aspecto da crise ou, embrulhados com o outro lado - o financeiro, consideram prudente manterem-se reservados acerca da ameaça à democracia já muito evidente na Hungria.

A Hungria, que não aderiu ao euro e continua com moeda própria - o forint -, está à beira da bancarrota. As obrigações a 10 anos pagam agora uma taxa de juro insustentável: quase 10%. Mas a Hungria  "tem outro problema: O governo, nacionalista de direita, que detem uma maioria de 2/3 no parlamento, lançou um ataque ao sistema democrático do país através de alterações constitucionais e legislação decorrente que lhe permitem dominar o sistema judicial, os media, as igrejas e o banco central. Com este conjunto legislativo, que entrou em vigor no primeiro dia do ano, o governo do primeiro ministro Viktor Orban está muito mais próximo dos regimes autocráticos da Rússia e da Bielorrússia que das democracias da União Europeia" .

O editorial do Washington Post descreve a seguir um conjunto de diatribes já tomadas com a cobertura da nova legislação e remata: "As novas leis que governam o sistema judicial, as entidades religiosas e os media são incompatíveis com os direitos fundamentais, e a democracia fica em situação instável, a caminho da queda. Para a União Europeia tolerar esta situção num país membro equivale a deixar abrir uma brecha no carácter essencial da comunidade."

Se essa brecha for tolerada quantas brechas mais serão necessárias para estilhaçar a Europa? pergunto eu.

CAMPEÕES! CAMPEÕES!

Já somos campeões!

A equipa nacional de futebol é campeã nos custos diários de estadia previstos dos seus membros na Polónia.
Esta informação, que recolhi aqui, é muito significativa do grau de insconsciência colectiva que obnubila o sentido cívico de um povo que se habituou a compensar as suas frustrações com hossanas a ídolos que  religiosamente dourou.

SELECÇÃO - Local de estágio - CUSTO DIÁRIO (€)

Portugal -  Opalenica  - 33.174
Rússia - Varsóvia - 30.400
Polónia-  “  - 24.000
Irlanda -  Sopot - 23.000
Alemanha -  Gdansk - 22.500
Rep. Checa - Wrodaw - 22.200
Inglaterra - Cracóvia - 19.000
Holanda - “ - 16.200
Itália -  Wieliczka - 10.500
Croácia - Warka - 8.300
Dinamarca - Kolobrezeg - 7.700
Espanha - Griewino - 4.700

---
Comentário, esclarecedor, de A. Pinho Cardão no Quarta República:

1.Independentemente da harmonização da natureza dos gastos, o que não sofre dúvida é que se trata de um comportamento indecente e inqualificável da Federação.

2. A FPF dá-se ao desplante de exigir e receber do Estado, no último exercício, subsídios de 2,5 milhões de euros, quando teve um lucro de 3,4 milhões de euros. Não se trata de um ano isolado, pois as disponibilidades de caixa da Federação são de 22 milhões de euros, cerca de metade do activo total. E apresenta um capital próprio de 25 milhões de euros.

Fica-se estupefacto também com a atitude dos sucessivos governos em darem subsídios avultados para a Federação, numa escandaloda má utilização do dinheiro público.

Perante isto, não admira esse esbanjar de recursos.

Não acabe o governo com os subsídios `desta natureza e verá o tombo que leva.

 

Monday, January 09, 2012

PETRÓLEO E MISÉRIA



clicar nos gráficos para aumentar


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.

Dinheiro não é sinónimo de felicidade e petróleo
muito menos.

O índice de miséria (desemprego+inflação) publicado esta semana pelo Economist e o gráfico da localização geográfica das reservas conhecidas de crude publicado hoje no Washington Post confirmam em grande medida isso mesmo: A Venezuela é o segundo país com mais elevado índice de miséria, sendo o segundo com as mais elevadas reservas de petróelo; o Irão, em terceiro lugar em reservas petrolíferas é também terceiro na escala da miséria.

Em geral, o índice de desenvolvimento humano (PNUD/ONU) nos países árabes, onde se encontram as maiores reservas mundiais de crude, não corresponde ao seu posicionamento no ranking da riqueza, quase exclusivamente proporcionada pelo petróleo. Já a Noruega, que ocupa o primeiro lugar no ranking do PNUD, não deve o lugar ao petróleo do Mar do Norte mas a dádiva natural ajudou muito.

Em Portugal o índice de miséria será hoje de 16% (13+3 ?), sensivelmente ao nível da Rússia (33º. lugar num conjunto de 92 países), pior que o Brasil. Aproximadamente,ao mesmo nível do Brasil, segundo este indicador,  estarão o Reino Unido, os EUA e a China.

Comparações que têm de ser temperadas com outros indicadores: p.e. o apoio social no desemprego nas sociedades ocidentais e o nível de subemprego (estatísticamente, emprego) que prevalece ainda na maior parte da China rural.

AMOR OCUPAS


Os Ocupas estão instalados em duas praças de Washington.
Ao fim de quase quatro meses de acampamento, o frio e a contiguidade dos corpos começam a fazer frutificar. No próximo Outono é provável que aconteça uma vaga de Ocupababies, segundo os observadores mais próximos e intervenientes nos acontecimentos.
Por agora ninguém conta arredar pé, apesar das intervenções da polícia, e continua a interminável discussão acerca do direito de liberdade de expressão em espaços públicos da capital federal.

A liberdade de acasalamento, ainda, não foi posta em causa.

Sunday, January 08, 2012

ON GOING

Irmão Miguel,
aposta no exterior, e
elogiou em Penela,
a juventude bem preparada,
que emigrou.
E incentivou,
os bens preparados
que andam por aí
a seguirem o mesmo caminho:
atirem-se ao mar,
mas com destino ao Sul.

Álvaro,
por seu lado,
ouvindo cantar as Janeiras,
aposta no interior,
e pergunta a Irmão Miguel
com que pessoal desenvolveria ele,
o interior até Serpins.

Responde-lhe Miguel, em tom docente:
Inocente Álvaro, não se apoquente,
porque há
em Portugal
um excessívo
excesso
de gente competente.

Cientistas defendem que o declinio do cérebro afinal começa aos 45 anos

ESTA FOI DEVOLVIDA


"Olympia", (1948), de René Magritte, avaliada entre 3 a 4 milhões de euros, retrata a mulher de Magritte, Georgette, nua, com um búzio sobre a barriga, com o mar como paisagem de fundo, foi  roubada em Junho de 2009 do museu de Jette, Bélgica, por uma quadrilha armada, 

Agora, os larápios decidiram devolvê-la talvez  por, segundo os especialistas nestas coisas de arte,  não encontrarem comprador no mercado negro: "Olympia" é demasiado conhecida e tornara-se um estorvo para os gatunos.
 
Uma opção estranha, penso eu, que não sou especialista. No mercado, branco ou negro, tudo tem um preço. Provavelmente, a quadrilha não conseguiu vender a "Olympia" por um preço que desse para cada um dos assaltantes beber um copo. E preferiram devolvê-la à procedência.
 
Se assim não fosse, não haveria obras de arte, conhecidíssimas, roubadas.

Saturday, January 07, 2012

O ABRAÇO DE PUTIN

Há três meses anotei aqui que para lá da crise financeira que nos fustiga e ameaça desmoronar a Zona Euro e a União Europeia, com consequências imprevisíveis para a Europa, para a economia e o sistema financeiro mundiais, há uma ameaça à democracia que, mansamente por agora, se agiganta.

Ontem falámos desta ameaça ao jantar, em casa do Rado (Radoslav) e da Lenka,  um casal checo, estava também Vahan, um arménio, com um doutoramento pela Universidade de Moscovo, onde residiu durante oito anos, e uma pós-doc em Hannover, na Alemanha, antes ter vindo para o EUA.

De manhã, tinha lido aqui uma referência a um trabalho publicado aqui sobre Milada Horácová a heroína da resistência checa aos totalitarismos nazi e comunista, e enforcada por este, e às cartas por ela enviadas à sogra, à filha e ao marido, documentos angustiantes para quem os lê, passado mais de meio século. Lenka conheceu Jana, a filha de Milada Horácová, na Universidade de Pittsburg, e o marido, actualmente a residirem em Bethesda, NM, e contou-nos algumas das quase insuperáveis dificuldades e os engenhos utilizados naqueles  tempos de terror para saltarem clandestinamente a fronteira.

Correlacionei esta leitura com três artigos publicados no Financial Times nos últimos dias acerca da ameaça que paira sobre a democracia na Hungria, um membro da União Europeia, a braços com uma crise financeira. Os actuais dirigentes políticos, eleitos segundo regras que eles consideraram legítimas mas que querem subverter para garantirem o domínio que, as mesmas regras, lhe podem negar, afastam-se do processo democrático legítimo para imporem aos húngaros  o arremedo democrático confeccionado por Putin.  

Tal como outros países da ex-órbitra soviética que transitaram de uma ditadura comunista para pseudo-democracias de quase partido único (Vahan, o convidado arménio, relatou-nos que o seu país é agora  dominado por sete famílias e totalmente dependente da Rússia) a Hungria perfila-se para se juntar a uma federação de oligarquias sustentadas por processos mafiosos. A Grécia, sim a Grécia, pode ser o próximo convidado a aceitar o convite.

Ingram Pinn illlustration
c/p Financial Times

Friday, January 06, 2012

CONTAS AMERICANAS

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só aumentando se percebe

Desde os anos quarenta do século passado, marcados pelas despesas da segunda guerra mundial, que a dívida pública federal dos EUA não atingia o nível da produção interna anual do país. Atingiu no fim deste ano, ultrapassando os 15,26 triliões de dólares (na terminologia norte-americana, milhares de biliões).

Os EUA não pagam as taxas de juro que Portugal paga, a economia norte-americana não está em recessão e essa probabilidade parece agora afastada nos tempos mais próximos. Em Dezembro foram criados 200 mil novos empregos, a taxa de desemprego caiu para 8,5%, ainda assim muito elevada para os níveis habituais nos EUA.

Apesar da evolução do crescimento consistente da economia não depender em grande medida das políticas adoptadas pelo governo federal, Obama não vai ter uma etapa de consagração até Novembro porque as perspectivas actuais da evolução económica são neutras e a generalidade dos eleitores decide-se em função da sua situação económica no momento do voto.

A menos que, como referia o Washington Post há dias, oTea Party imponha ao candidato do partido as suas bandeiras e a radicalização republicana leve muitos eleitores a olharem mais à frente.

MUCH ADO ABOUT NOTHING

Há dias, comentei aqui a risível aceitação do público pelo cinema que se realiza em Portugal. Apesar da indiferença observada há muitos anos, os realizadores insistem na produção de filmes sem audiências que paguem sequer os custos de ocupação das salas de exibição. E porquê? Porque a parte de leão dos encargos estão encostados ao Estado, isto é, aos impostos dos contribuintes. Tanto que, um dia, João César Monteiro sacou 156 mil contos para "filmar" "Banca de Neve", um filme sem imagens, com a participação da voz de Luis Miguel Cintra.

Do lado do teatro, a situação é sensivelmente diferente mas, mesmo assim, há situações aparentemente estranhas.

A Câmara de Lisboa investiu largos milhares na edificação do "Teatro Aberto". O grupo que há muitos anos se encontra reunido à volta de João Lourenço tem produzido espectáculos de grande qualidade mas a assistência escasseia porque, suponho eu, aquele espaço (um anfitatro e um estúdio) não se abre a outras companhias ( à vizinha Comuna, por exemplo). João Mota foi, recentemente, nomeado director do D. Dona Maria (uma sala e um estúdio). Porque não se abre o  Dona Maria ao grupo do Teatro Aberto? Porque se entincheirou  Maria do Céu Guerra na Barraca do apodrecido Cinearte? E Luis Miguel Cintra numa cave? Por falta de espaços menos decadentes?

Lisboa, e Portugal em geral, não tem falta de espaços para espectáculos de teatro. O que falta no teatro são espectadores. Uma lacuna que os grupos de teatro não deveriam querer ser em grande parte colmatada com os subsídios do Estado.

Teatro mais acessível ao apetite comum não é necessariamente uma vacuidade.
É possível montar um bom espectáculo com custos reduzidos. A espectacularidade (se é esse o objectivo) não é, necessariamente, dispendiosa, e, no entanto, alguns grupos de teatro vão por aí, usando e abusando dos palcos rotativos e dos alçapões mecânicos.

É possível encenar Shakespeare e conseguir os aplausos dos públicos mais e menos iniciados.


Thursday, January 05, 2012

IRMANDADE DA REPÚBLICA


Se houvesse lei
que determinasse
chamar pelos nomes os secretos boys,
quem bem contasse,
e se nenhum faltasse,
contaria para aí
nada menos que
uns cento e oitenta e dois
irmãos.

Coisa mais linda, oh Deolinda!

Assim,
sem lei nem roque,
discretos, sem avental visível,
os cento oitenta e dois
esquadrinham a compasso,
e secretam as leis
que não sustentem os seus negócios,
mas os teus interesses,
caro profano.

Hem!!? Que bacano!

Relatora do PSD diz que titulares de cargos públicos não têm de revelar pertença a sociedades secretas

DAI-NOS TRABALHO, SENHOR!

People pray on the first day of business in 2012 at the Kanda Myojin shrine in Tokyo

People pray on the first day of business in 2012 at the Kanda Myojin shrine in Tokyo

O Financial Times de ontem publicava esta fotografia a ilustrar um artigo - Japanese manufacturing in search of salvation - Concern grows as sector behind postwar miracle shifts overseas - revelador das preocupações dos trabalhadores japoneses com a deslocalização da indústria japonesa para outras paragens, onde a moeda não é forte, os salários são baixos, os custos de energia são menos elevados, a tributação fiscal é baixa.

Num país que sustentou o seu florescimento no pós-guerra na sua capacidade de produção industrial, o encerramento das fábricas apavora um povo que, até há pouco tempo, dedicava toda a sua vida profissional à empresa onde começara.

A desindustrialização, que se acentuou aceleradamente nas últimas décadas, das economias ocidentais (vd.
gráficos abaixo) em consequência da globalização, está a atingir também acentuadamente a economia japonesa, implicando o diagnóstico de mais um longo período de estagnação do crescimento nipónico.

Uma das causas mais citadas pelos empresários japoneses para o movimento de deslocalização da indústria é a sobrevalorização do yen, referindo, a propósito, a política recentemente adoptada pela Suíça de defesa da sua competitividade cambial, enveredando, aliás pela estratégia dos políticos chineses ao atrelarem o yuan renminbi ao dólar norte-americano.

Se a moda pega, a guerra cambial não será uma pescadinha de rabo-na-boca.
A guerra generalizar-se-á aos outros factores de competitividade e a globalização das retaliações pode redundar num conflito bélico.

Em resumo (insisto nisto): O comércio livre ou é menos livre, através de uma regulação da globalização que previna a perversidade de alguns dos seus efeitos, ou redundará numa guerra interminável de competitividade salarial global com consequências dramáticas para a convivência pacífica no planeta
.

Wednesday, January 04, 2012

AQUI HÁ GATO

clicar para aumentar
R -  Ana C.

Tuesday, January 03, 2012

INCONSOLATA

Supremo Tribunal condena Estado a pagar mais de três milhões a instituição religiosa de Fátima
.

Tinha o missionário financeiro três milhões entre mãos,
e fez o que era sua missão fazer:
pôr o dinheiro a render.

O missionário financeiro da Consolata,
consultou as tabelas, e fixou
que as mais deliciosas taxas de juro, eram aquelas,
que Leonel,
o Gordo,
lhe oferecia.
E, como no Instituto, a sua missão era fazer florescer dinheiro,
o missionário financeiro, se não é usurário, percebe de juros,
não hesitou, depositou,  regou, e esperou.   

O bancário,
que via passar as cotações
fez, do dinheiro das missões,
o que fazem os banqueiros: investiu por conta dele e risco dos outros. 
E perdeu. 
Perdeu ele? Nãooooo!
Só perde quem tem e, a esta hora, o bancário já não tem nada que lhe vejam.

Queixou-se o missionário financeiro aos tribunais,
e os tribunais,
fizeram como costumam fazer:
julgaram ao retardador.

Mais de cinco anos depois que o missionário entregou os três milhões e meio ao bancário,
mais de quatro anos depois do bancário ter jogado,
mais de três anos depois do bancário ter sido nacionalizado,
poucos dias depois do bancário ter sido privatizado,
sentencia o Supremo,
metaforicamente,
que o Estado é condenado a pagar o valor do principal e os juros.
(Não esqueçam os juros!)
( por favor)

Mas desde quando é que uma metáfora paga do principal e juros, o valor?
Que inocência,
leitor!

Se o padre engordou,
se o Gordo jogou,
e a massa sumiu.
Se o banco faliu,
e o juiz concluiu
que o Estado papou
todo este menu
quem paga a conta és tu!

O VÔO DO PINGO DOCE

O professor Gaspar entrou na sala, e so-le-trou,
pa-ra to-da a gen-te per-ce-ber
beemmm:
A par-tir de a-go-ra,

A-ca-bou-se a ma-ma-zi-nha.
A par-tir de a-go-ra,
Nin-guém es-ca-pa ao im-pos-to-zi-nho,
Re-pa-rem que eu di-sse im-pos-to ... zinho.

Sorriu, e saiu.

Quando isto ouviu,
acomodou-se Dona Anafada do Pingo Doce.
Se é zinho, isto não é contigo, matulão, pois não?
E virou-se para melhor se acomodar:
Ora, ora, 
quem não mama, chora.
Está na hora.
Pegou no matulão e foi-se embora.


Coitadas portuguesas de malas feitas para emigrar para a Holanda

Monday, January 02, 2012

SILVICULTURA

O Presidente diz que quer
uma agenda.
Mas, querer, Presidente,
Tá claro, não é poder. Se fosse,
tá claro,
teríamos todos a nossa agendazinha a tiracolo.

Tá claro,
dizia o engenheiro Ernesto,
a tamborilar na agenda,
se as árvores não cresciam.
Que é que se passa, engenheiro? Elas não crescem?
Tá claro, respondia o engenheiro Ernesto, eu já lhes disse ...
Tá claro, que elas não crescem mas,
Tá claro, não é por falta de aviso.

Sunday, January 01, 2012

A MEIO DO ANO

Bom Ano!


Leio-o e, inevitavelmente, recordo-me daquela ida com mais seis compinchas, no pino do Verão, acampar na Praia de Dona Ana.

Era a primeira vez que estava no Algarve e, acampados na praia, a mim, que nasci junto a um mar mais bravo, pareceu-me ter entrado no Jardim das Delícias.
Voltei lá muito mais tarde e apeteceu-me chorar ao ver a Dona Ana tão mal tratada pela ganância da especulação e a estupidez de um povo que, frequentemente, não sabe preservar as riquezas naturais que lhe calharam em sorte.
.
Chegámos ao cair da tarde e fomos ao mercado comprar peixe para grelhar. Comprámos seis fabulosos linguados, arroz, sal, manteiga, uma panela, meia dúzia de pratos, meia dúzia de garfos, meia dúzia de colheres, o jantar seria um regalo de linguados na grelha com arroz de manteiga.
.
Fui destacado para fazer a fogueira. Com gravetos apanhados na falésia, aquilo prometia mas o vento que às tantas se levantou não me deixou brilhar como cozinheiro. Resultado: O arroz de manteiga virou canja sem frango, os linguados sushi aquecido.
Enfiaram-se os outros na tenda por não apreciarem peixe quase cru, fiquei eu até tarde a fazer as honras ao pescado e matar a larica que era muita. Comi os seis linguados.

Ainda hoje nem eu quero crer que não minto.
 
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Aqui, Dona Ana desfigurada

Saturday, December 31, 2011

OLHÓ JANEIRO!*

Filipe Neri de OLiveira, Oliveira da parte da mãe, Filipe Neri da parte do santo da devoção materna, tornou-se ardina ao domingo quando o titular abandonou o cargo. Ia buscar os atados do Primeiro de Janeiro e do Diário Popular à estação de caminho de ferro e distribuía os jornais montado numa pasteleira. Durante a semana ocupava-se com um ou outro trabalho leve que a fragilidade física lhe consentia.

Era um homem cordato, sóbrio, despercebido, que se entretinha à noite a assistir aos jogos de cartas no clube, calado e atento. Aos domingos era tão esperado como o Chora, um tipo que motorizou a distribuição de pescado numa Zundapp em segunda mão e fez desaparecer as peixeiras que corriam duas léguas com as canastas na cabeça. Anunciava-se retinindo a campaínha do velocípede, o Chora apertava a pêra da buzina do cucciolo.

No primeiro dia de Janeiro, já o anotei aqui, o Primeiro de Janeiro esmerava-se com uma edição disputadíssima pelos seus habituais leitores. Mas, como era de prever, o número de habituais leitores era superior aos habituais leitores nos outros domingos, de modo que, naquele ano, o primeiro em que o Filipe se aventurara no negócio, os fregueses de A. de Baixo viram o Felipe passar de saco vazio de Janeiros por excesso de procura em A. de Cima, por onde o jornalista começava a volta. No domingo seguinte os de A. de Baixo  mandaram vender o Janeiro aos habituais leitores de A. de Cima, o Filipe desistiu da actividade, e acabou a distribuição ao domicílio, e eu deixei de ler o Janeiro.

Tempos depois espantava-me com a pontaria dos ardinas em Lisboa que faziam voar os diários para as varandas dos seus habituais leitores, como space shuttle em origami feitos em três tempos, e deliciavam-me os pregões à tardinha: Olhó Popular!, Olhó Notícias!Olhó Século!Olhá Bola! É a Bola! A Bola! Olhá Bola! Olhó Record! O Janeiro não chegava cá abaixo.
Mais tarde a distribuição dos jornais sedentarizou-se em quiosques pela cidade e acabou a distribuição ao domicílio.

Continua aqui, na Virgínia, a vinte milhas de Washington DC.
Todos os dias, uma mão invisível deixa à porta cerca das seis da manhã o Washington Post numa saqueta de plástico.
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* Editado às 19,30 horas locais, já chegara 2012 a Portugal, aparece datado com a data de ontem, por culpa dos fusos horários.  

BOM ANO!

Anteontem, à vista do Capitólio, passámos por um pelúcio embrulhado numas mantas roçadas, deitado num banco, um gorro enfiado numa cabeça roxa de frio, os olhos nem abertos nem fechados, trinta? quarenta anos?, latas vazias de sprite e coca-cola no chão sujo.

Não sei que idade tinha o Pelúcio. Talvez quarenta, quanto muito cinquenta, porque, se a aparência lhe dava muitos mais, um cálculo ajustado teria que levar em conta a desafinação da caixa de velocidades dos sentidos provocada pelo excesso de um gosto, ou de um desgosto?, antigo. Se bebia desalmadamente aguardente, mas aquele andar cambado e olhar turvo, aquela língua enrolada, também pagavam por um desarranjo que nunca levara conserto, não sei. Aparentemente, andava sempre bêbado.

Aparecia na Junta ao lusco-fusco, entrava como se empurrasse com o ombro a porta aberta, dava três passos em frente, e aguardava ordens no meio da sala. Se havia fregueses esperava pela sua vez, que era a última. Era o coveiro e o canteiro, consoante as marcações da ceifeira. Antes de receber instruções para o dia seguinte, recebia a jornada e assinava o recibo com um P desmesurado porque via mal.

- Amanhã, vais para o Casal dos Cágados limpar valetas. 
- Han?!
Reagia sempre com um han?! a ganhar tempo para registar as ordens, dava meia volta e saía sem dizer boa noite.

No fim do ano, pelas cinco da tarde, como sempre empurrou a porta aberta e ocupou o centro da sala.
- Que fizeste hoje?
Não respondia. Mas não havia notícia que alguma vez não tivesse cumprido.
Feitas as contas, e rabiscado o P, ficou à espera de instruções.
- Amanhã não trabalhas.
- Porquê? perguntou ao retardador.
Se não trabalhava não ganhava, se o Senhor mandava chuva ou proclamava dia santo ou feriado, fazia cruzes na boca.
-  Depois de amanhã vais para Santo Amaro reparar a estrada. Amanhã é feriado, dia de Ano Novo. Bom Ano!
Ouviu, rodou e ia a sair. Subitamente, contorceu-se em jeito de meia volta, e perguntou:
- Para quê?  

Friday, December 30, 2011

QUO VADIS, 2012?

A Comissão Europeia divulgou um relatório sobre o impacto das medidas de austeridade nos países sujeitos a programas de redução do défice orçamental e da despesa pública, condicionantes da ajuda externa a que esses países foram recorreram, e naqueles que de motu proprio se sujeitaram a medidas com os mesmos propósitos.

The distribunional effects of austerity measures: a comparison of six EU countries, sucintamente analisado aqui, conclui que em Portugal a agressividade de tais medidas até Junho de 2011 foi a mais profunda no conjunto dos países comparados. Se considerarmos que, naquela altura, ainda não se faziam sentir os efeitos das medidas previstas no memorando de entendimento assinado em Maio, se considerarmos que esses efeitos se sentirão estrondosamente no ano que começa depois de amanhã, onde estará a economia portuguesa daqui a um ano?

Durante a campanha eleitoral, a redução da TSU foi arvorada como o santo e a senha de uma entrada num ciclo de reanimação da economia portuguesa. Antes disso, e durante alguns meses, parecia haver quase unanimidade que se tinham percorrido caminho errados durante uma década, os sectores protegidos tinham prosperado, os transacionáveis definhado, as exportações estagnado, as importações explodido, a dívida, pública e privada, tinham atingido níveis sufocantes, não havia dúvidas, tínhamos de arrepiar caminho.

O que foi feito até agora? Dizem os relatórios que o calendário dos compromissos com a troica está a ser (quase) cumprido, caiu a TSU mas haverá mais dias de trabalho. Chegará?

Os sindicatos (leia-se CGTP, leia-se PCP) revoltam-se em manifestações cordatas contra as medidas anunciadas e reclamam medidas  que atinjam outros e não os mesmos de sempre, a austeridade é percebida como uma consequência de uma amarra, que é preciso cortar, chamada euro. Chegará?

No dia, se esse dia acontecer, em que voltarmos ao escudo o que acontecerá aos salários das classes trabalhadoras que os sindicatos devem defender? Só podem baixar em termos reais. Se, por um fenómeno estranho que não vislumbro, se mantivessem ou subissem não haveria recuperação da competitividade monetária que o retorno a uma moeda própria (leia-se com possibilidade de emissão ilimitada) permite.

Mas é inquestinável, por outro lado, que Portugal não tem hipóteses de reduzir a dívida pública (quem é que falou em pagar?) nem os cidadãos endividados capacidade para honrar os seus compromissos se a economia não cresce e os juros não baixam para níveis suportáveis.

De modo que: Ou o professor Gaspar tem jeito e engenho para negociar a redução da carga com que nos carregámos e os credores sobrecarregam e o professor Álvaro melhores ideias para reenquadrar o tecido económico, ou daqui a um ano a austeridade colocou este governo fora de jogo e Portugal de patas para o ar.

E em 2013 sairemos do euro, sem saber para quê, mas porque não saberemos fazer outra coisa.

Thursday, December 29, 2011

TAPEÇARIAS PASTRANA

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Não há reprodução possível que transmita algo aproximado da sensação de grandiosidade e beleza do conjunto reunido neste espaço em Washington
Um momento de sentimento de um irrecusável orgulho de ser português, hoje.

Merry Christmas, Hungarian Democracy!



 c/p Economist 

TUDO ÀS ESCURAS

Hungria falha leilão de dívida pública. A agência que gere o crédito público da Hungria rejeitou todas as ofertas num leilão de dívida a três anos e vendeu baixos montantes em outras duas linhas que foram a leilão. Financiamento da economia em 2012 está em risco, depois de terem sido interrompidas as negociações com o FMI para a concessão de um empréstimo.
.
Por alguns indicadores, a Hungria tem semelhanças com Portugal: pela dimensão do território, pela população, pelo produto per capita, pelo nível de desenvolvimento humano (segundo o PNUD), ainda que tenham chegado à União Europeia depois de atravessarem caminhos políticos opostos. Mas enquanto a Hungria não quis nem quer entrar na Zona Euro, Portugal é membro desde a primeira hora. A moeda húngara, forint, desvalorizou este ano cerca de 10% contra o euro, uma desvalorização observada sobretudo a partir de meados do ano.

Portugal recorreu em Maio à ajuda externa para evitar a bancarrota, a Hungria recorreu em Novembro ao FMI mas as negociações encontram-se interrompidas e o financiamento da economia no próximo ano está em risco. Pode o euro ser culpado da falência da Hungria? Não parece. Mesmo com moeda própria os húngaros terão replicado erros que são atribuídos em Portugal pelo uso da moeda única.

Conseguirão eles safar-se melhor da enrascada em que se meteram porque têm o forint do que nós se continuarmos no euro?  Esta  a questão acerca da qual o professor Ferreira do Amaral não convence o professor Oliveira Martins, e vice versa, nem o professor X o professor Y. Porque nem o professor Amaral sabe o que faria com uma moeda fraca nem o professor Martins como se desatasca com uma moeda forte.

O melhor que têm para nos oferecer são palpites.
É razoável pensar que ...., diz o professor Amaral,
Julgo que não há dúvidas que ..., diz o professor Martins, dizendo o contrário.

O culpado é o euro ou euro é um perseguido errado?
Insisto: É um perseguido errado.  

IN NOMINE DEI


É costume, disse a Polícia.
Ninguém foi preso porque "são homens de Deus"

O QUE É ISTO?

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Conjunction at Sunset

Wednesday, December 28, 2011

BRANCA DE NEVE


a) Dez tiveram menos de 500 espectadores!...
b) Seis tiveram entre 2.000 e 3.000 espectadores!...
c) Cinco tiveram entre 3.000 e 7.000 espectadores
d) Os dois mais vistos tiveram 20.194 espectadores e 17.102 espectadores.
 ...
Mas não há ninguém que veja isto? (pergunta aqui A. Pinho Cardão)
 
Temos de ver estas coisas sob uma perspectiva benevolente, António.
Viste "Branca de Neve"? Não viste, vê-se logo que não viste.
Custou a bagatela de 130 mil contos de subsídio do Estado Português, por via do Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia, juntamente a 26 mil contos por parte da RTP.
Esta obra estreou no cinema King, em Lisboa, a 10 de Novembro de 2000.



Não há palavras! É um monumento do cinema português.

NAPOLEÃO E JOSEFINA

Guilherme d'Oliveira Martins: Sair do euro condenaria Portugal "à mediocridade" (aqui)
Michael Spence, Nobel da Economia em 2001 afirma que Portugal ou a Grécia poderão querer sair do euro e a UE deve estar preparada (aqui)
Vítor Bento : Sou contra a saída do euro,  mas devemos discutir esse cenário (aqui)

Amaral é a favor (aqui), Martins é contra, Bento também é contra, Michael Spence pensa (ou calcula?) que a saída é provável e que é preciso prepará-la. Uma pequena amostra dos pró e contra a saída de Portugal da Zona Euro.

São muitos os que alinham de um lado ou do outro mas, até hoje, não é conhecido um trabalho que possa orientar uma discussão pública com alguns fundamentos sólidos. Quando Vítor Bento afirma que "devemos discutir esse cenário" não está, certamente, a pensar na generalidade dos cidadãos deste país cujo futuro estará sempre muito condicionado pela unidade de conta do que recebe e do que paga. A generalidade dos cidadãos, perante as posições públicas de pessoas que, em princípio, são melhor informadas, só pode estar confundida. Quem não estaria?

"Precisamos do projecto do euro, não por razões meramente económicas mas por razões políticas. Caso contrário, estaremos condenados à periferia, à mediocridade e à irrelevância", afirmou Oliveira Martins, ministro das Finanças na altura da introdução das notas e moedas do euro (2002) e actual presidente do Tribunal de Contas.

Em entrevista à agência Lusa, Guilherme d'Oliveira Martins diz que, mesmo tendo em conta a crise financeira que agora afecta o país, valeu a pena para Portugal integrar a Zona Euro. "Julgo que não há dúvidas relativamente a isso. Basta ver os números, a evolução no que se refere a grandes tendências de convergência", diz o antigo ministro das Finanças. "Creio que estes dez anos são para celebrar."  Oliveira Martins prevê que o euro será "duradouro", apesar das dificuldades conjunturais e de uma "tendência que pode ocorrer" no sentido da "progressiva irrelevância" das economias europeias. "O projecto do euro não é irreversível, não há nenhum projecto humano que o seja, mas está para durar", afirma o presidente do Tribunal de Contas. "Costumo perguntar aos meus alunos se o euro é uma moeda forte ou fraca; todos me dizem que é forte. É uma moeda respeitada internacionalmente. Esperemos que seja a base para uma economia mais segura."  Oliveira Martins rejeita igualmente a ideia de que voltar a ter moeda própria poderia ajudar Portugal a superar a crise económica. Os efeitos positivos da desvalorização cambial, argumenta, são muito exagerados pelos seus defensores. "Essa política das desvalorizações, que muitas vezes se invoca como espécie de [saída para a crise], não corresponde de modo algum a uma salvação", afirma. Optar por essa via "seria apenas aceitar a periferia e a irrelevância".

Destaco: Segundo o professor Martins, o euro é uma moeda forte porque os seus alunos assim o dizem; Os efeitos da desvalorização cambial são muito exagerados pelos seus defensores; Julga que não há dúvidas que estes dez anos são para celebrar, concluindo-se daqui que o professor Martins não ouve ou não lê o professor Amaral.

Por que não se convoca um conclave de gente competente mas de opinião diferente, sustentados a pão e laranjas até sair fumo branco? Assim, enquanto baralham o cidadão comum, sangram o País. Não percebem isto?

Tuesday, December 27, 2011

INSISTE AMARAL

Anda a dizer o mesmo há anos.
Já durante a 2ª. Conferência dos Economistas, realizada em Novembro de 2006, de que tomei nota aqui e aqui, Amaral persistia na proposta de saída de Portugal do euro como forma de evitar a continuação dos malefícios do euro que, segundo ele, eram a causa dos problemas enfrentados pela economia portuguesa.

Ferreira do Amaral tem, evidentemente, toda a liberdade de dar as opiniões que entender, acerca do euro ou da melhor forma de confeccionar bacalhau. Mas o professor Ferreira do Amaral tem obrigação de saber que as suas opiniões num caso e noutro têm diferentes impactos na sociedade quando é convidado a opinar perante grandes audiências. A um professor de economia exige-se que, mais do que opiniões, realize estudos e dê conhecimento das suas conclusões.

Na recente entrevista que concedeu à Lusa, Amaral opina*  “é razoável” pensar que a Europa “estaria melhor” sem a moeda única.

Porquê? Responde Amaral:“A zona euro cresceu pouco, muito menos que na década e meia anterior. Acumularam-se desequilíbrios gigantescos nas balanças de pagamentos, nomeadamente em Portugal, na Grécia e também, em parte, em Espanha.”  (  ) Portugal (  ) nunca teve alguma “década tão má” como a começada com a introdução das notas e moedas de euro em 2002, “pelo menos desde a II Guerra Mundial”. “já está” numa situação “pior do que há dez anos”: “Não só pior em termos de rendimento per capita, como pior nas desigualdades, pior em termos de estrutura produtiva.”  (  )  sugere assim que Portugal deveria abandonar a moeda única. (  )“A manutenção na zona euro vai implicar estarmos décadas a viver à custa de empréstimos fornecidos pela União. Décadas. Porque não temos condições de crescimento nenhumas, e o nosso aparelho produtivo continuará talvez anda mais ineficiente que agora” (  ) “Portanto, de uma ou duas décadas de ajuda ninguém nos tira, numa situação dessas. Penso que isso é insustentável, mesmo do ponto de vista político.” (   )  não considera que os actuais problemas se devam a erros políticos tanto como ao “fracasso” do projecto europeu: “Um bom projecto é o que resiste a erros de política económica. Não me parece, com toda a franqueza, que tenha havido erros monstruosos de política económica” na zona euro. (  )“A nossa questão orçamental é apontada como um grande desregramento, mas não é verdade, tivemos maior desregramento antes de entrar na zona euro”, (  )  considera que, se o problema fosse o despesismo dos governos, “teríamos um défice muito maior, porque as receitas cresceram pouco, e a actividade [económica] cresceu pouco”. (  ) a “transferência de recursos de sectores de bens transaccionáveis para bens não transaccionáveis” é resultado de Portugal fazer parte de um espaço com uma “moeda forte”. (  ) “O aparelho produtivo reorientou-se para sectores protegidos da concorrência externa, porque a moeda é forte e não fazia sentido concorrer com produtos importados”, (  ) “Isso não foi um erro de política económica, o erro foi aderir a essa zona [de moeda forte].” (  ) critica a União Europeia por se ter “aberto sem condições” ao comércio mundial: “A liberdade do comércio é boa em termos gerais”, mas teria sido preferível “uma gradual liberalização”.


Algumas afirmações de Amaral são consensuais, são factos, outras são conjecturas balizadas: a transferência de recursos de sectores transaccionáveis para bens não transaccionáveis tinha sido prevista nas actas fundadoras do euro. Competia aos governos adoptarem políticas que contrariassem essa tendência. Não o tendo feito foram cometidos erros de política económica que ainda subsistem. A perversidade da trajectória foi denunciada há muito tempo. Olivier Blanchard, por exemplo, demonstrou-o num documento distribuido durante a 3ª. Conferência do Banco de Portugal, referido aqui, em Fevereiro de 2006.

Se Ferreira do Amaral começasse por onde terminou a entrevista quando critica a União Europeia por se ter “aberto sem condições” ao comércio mundial: “A liberdade do comércio é boa em termos gerais”, mas teria sido preferível “uma gradual liberalização”, retiraria conclusões diferentes, porque, mais do que o euro forte, foi a liberalização incondicional do comércio e a entrada da China à Organização Mundial de Comércio (WTO) que marcou a década da estagnação das economias ocidentais.

E agora, João?
Agora o melhor é sairmos, diz ele. Como saimos, para que saímos, João não sabe, ou se sabe não diz.
O euro está neste momento  ao mesmo nível cambial nominal que estava há cinco anos: 1 euro = 1,308 dólares dos EUA. Entretanto, a moeda chinesa valorizou-se contra o dólar e o euro sensivelmente o mesmo, cerca de 20%, uma desvalorização pressionada sobretudo pelos norte-americanos nos últimos tempos.

O que ganhamos se sairmos do euro? Maior competitividade cambial para os sectores de média e baixa tecnologia que se confrontam com os países com custos (isto é, com salários) muito mais baixos? O que João Ferreira do Amaral propõe, inegavelmente, mas ele não explicita, é um recuo ao modelo de desenvolvimento sustentado por mão-obra barata, um refrão que os sindicatos, contraditoriamente repudiam e apoiam quando se revêm nas propostas de Ferreira do Amaral.

E, mesmo assim, resultaria?
Não se conhecem as contas de Ferreira do Amaral nem, diga-se em abono da verdade, daqueles que geralmente defendem a presença na eurozona sem que se conheçam se são fundamentadas as suas conclusões, se são mais do que convicções apenas.  Acerca de uma questão de transcendente importância para o futuro do país esgrimem-se as posições contrárias com palpites!

Uma moeda fraca é, já o anotei neste bloco de notas, um viagra de efeitos transitórios. Se esses efeitos têm relevância, depende da resultante da matriz de fluxos com o exterior. Se uma indústria transformadora necessita de uma desvalorização cambial para ser competitiva, o efeito cambial apenas se repercute sobre o valor acrescentado nacional. Dito de outro modo, o efeito (negativo) da desvalorização da moeda forte na importação de equipamento, matérias primas, energia, poderá anular o efeito (positivo) da redução real dos salários.

A competitividade cambial (leia-se a competitividade salarial) é a saída das economias do mundo em vias de desenvolvimento. Há dias entrei num estabelecimento, enorme, de venda de vestuário de uma marca em ascenção recente. Espreitei as etiquetas: made in Bangladesh, Filipinas, China, Peru, Siri Lanka, Índia, ... etc. Ferreira do Amaral não desconhece isto. Que economia projecta ele para Portugal com uma moeda fraca?

Como é que os jornalistas interrogam o professor Amaral vezes sem conta e nenhum o confronta com isto?

Monday, December 26, 2011

SEM DEUS, OS BANCOS

portam-se mal?

O Economist desta semana publica, a propósito de duas exposições em Florença (vd aqui), um artigo que, sucintamente, descreve o nascimento da banca e dos banqueiros, no sec XIV, da ascenção dos Médici aos cumes da riqueza e da glória, mas também do seu patrocínio a artes supostamente redentoras.


A complementar a exposição centrada em quadros de Botticelli, existem outros documentos, entre os quais um livro de contabilidade que aponta os perigos de incumprimento das dívidas soberanas a propósito da bancarrota de três bancos quando Eduardo III de Inglaterra renegou o pagamento de dívidas avultadas.

Os banqueiros de hoje já não são acusados de usura mas de outros pecados. O Papa Bento XVI apela à renovação moral na Itália, a Igreja de Inglaterra agoniza sob a impiedade da City, mas a maioria  dos banqueiros não teme Deus nem a censura dos homens. O que é péssimo. Sem temor a Deus é improvável que aconteça outro renascimento.

PRESO POR TER CÃO


Republicanos irritados com o cartão oficial de boas festas deste ano (aqui).

Num país que é uma diversidade em tudo, mas sobretudo uma diversidade sociológica ímpar no mundo, são mais prudentes, nesta época do ano, os votos de boas festas (Happy Holidays!) do que os votos de Feliz Natal (Merry Christmas!). Obama não fugiu à regra seguida pelos seus antecessores mais recentes mas colocou Bo, o cão de água, à lareira para a fotografia.

Os republicanos prefeririam o elefante.

Sunday, December 25, 2011

ANACLETO

Já alguma vez te mostraram o Palácio Sotto Mayor? Pois não. Temos de ir lá vê-lo um dia destes. É uma obra linda, digo-te eu, bem, o Mosteiro da Batalha é outra coisa, não se compara, até na idade. A Batalha tem para aí mais de cinco séculos, o palácio é mais novo que eu, mais novo vinte e tal anos. Trabalhei lá, sabes? Tinha dezasseis anos quando comecei o ofício de canteiro, aos dezanove já era mestre cinzelador. A partir dos desenhos transformava uma pedra bruta numa obra de arte. À entrada do palácio, abaixo do balcão maior, há um friso ornamentado coroado ao centro. É, por assim dizer, o emblema do palácio. Pois fica sabendo que fui eu que o fiz. Passados dois anos, casei e deixei o cinzel, mas é na pedra esculpida que ainda hoje revejo o que fiz na vida com mais paixão. A pedra sobrevive a tudo porque tudo o mais é tão passageiro... Chegava sempre cedo, depois de mais de hora e meio de caminho a pé, precisava de algum tempo para me descontrair e concentrar.  Ah! Tu ainda és novo demais para perceber esta conversa. Vamos falar doutras coisas, vamos?

O avô ficou viúvo, tinha eu oito anos, e, por ser o neto que vivia mais próximo, fui destacado para lhe fazer companhia à noite. No Inverno, quando lhe batia à porta, já ia a noite adiantada, estava a lareira a arder em labaredas fascinantes, o avô encostava-se à parede que ficava à esquerda, eu sentava-me num banquito junto do perro, e jogávamos o burro ao mesmo tempo que ele desbobinava a vida: Conheci muita gente, sabes, mas nunca conheci ninguém que fosse mais esperto que o Anacleto. Esperto, esperto, não sei, não sei bem se ele era esperto, o que ele era, era de outro mundo. Trabalhou no palácio como apontador. Um apontador é um tipo que nas obras é encarregado de tomar conta da ferramenta, dos dias de trabalho de cada um, dos materiais, das peças concluídas ou em vias disso. O curioso é que o Anacleto era analfabeto e não sabia contar. Incrível, não é?

Anacleto, quntos homens faltaram hoje? Faltou o Ruben e o Eugénio só veio da parte da tarde. Anacleto, quantos cinzeis?, quantos ponteiros?, quantas macetas?, quantos escopros?, quantas bujardas?  Temos um cinzel, outro cinzel, outro cinzel, outro cinzel, outro cinzel, .... mais um ponteiro, outro ponteiro, outro ponteiro, outro ponteiro, outro ponteiro ... mais uma maceta, outra maceta, outra maceta, outra maceta, outra maceta, ... mais um escopro, mais um escopro, mais um escopro, mais um escopro, mais um escopro, ... mais uma bujarda, outra bujarda, outra bujarda, outra bujarda, outra bujarda .... O Anacleto dava conta de tudo o que havia como se estivesse a olhar para o que relatava. Aliás, o encarregado só de quando em vez testava a fiabilidade da capacidade de memorização do Anacleto. Geralmente ficava-se pela pergunta: Tudo em ordem? Qualquer que fosse o grupo que tinha debaixo de olho, pessoas, ferramentas ou materiais, bastava-lhe olhar por um par de minutos para reter na cachimónia a imagem do conjunto como se tirasse uma fotografia.

Outra faceta do Anacleto era uma surdez completa, mas ouvia como ninguém. Antes de ser colocado na obra como apontador, o Anacleto trabalhava nas pedreiras, onde já dava nas vistas os seus dotes de fotografar sem máquina. Um dia, atraiçoado pela aselhice do tipo que colocara a carga para rebentar um bloco, foi apanhado por uma explosão antes de tempo que liquidou três companheiros e pôs o Anacleto entre cá e lá. Safou-se, mas ficou surdo como uma pedra. Mas em pouco tempo aprendeu a perceber pelo movimento dos lábios, ouvindo a distâncias que ninguém conseguia ouvir.

Um dia, era domingo de manhã, cruzou-se o Anacleto com o padre  ali no largo da Igreja, meteu-se com ele o prior: Oh Anacleto, consta-me que tens uma memória infinita. Sabes quantas estrelas há no céu, Anacleto?
Depende, senhor prior, ontem à noite não se via nenhuma porque estava o céu todo nublado. Esta noite, posso contá-las se estiver descoberto. Pois conta-as e vem-me dizer. Foi o prior dar a missa e o Anacleto atrás dele.

No domingo seguinte, volta o Anacleto a encontrar o padre a caminho da missa:  Então Anacleto, quantas estrelas temos? O Anacleto fechou os olhos, trabalhava em câmara escura, está visto, e começou a lenga lenga: Uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela, mais uma estrela ... Está  a contar senhor prior? Riu-se o padre, ou porque já tinha perdido a conta ou porque não estava a contar, e perguntou-lhe? E que mais viste no cèu, Anacleto?
A lua, senhor prior, estava lua cheia, é uma pena que o tipo que mora lá mexa a boca.

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Anteontem assistimos a uma comunhão de coros de Natal na Catedral de Washington. O templo foi vítima do tremor de terra que abalou a área em Agosto deste ano e espera pelo restauro. No espaço fronteiro colocaram dois pináculos derrubados para motivação de doações para as obras.
À espera dos canteiros e dos mestres cinzeladores.

OLLYPURR - DANDELION


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