Showing posts with label capitalismo. Show all posts
Showing posts with label capitalismo. Show all posts

Thursday, August 15, 2024

CAPITALISMO RELIGIOSO

Para entretenimento de duas das minhas netas, coloquei anteontem no leitor de DVD os "Gloriosos Malucos das Máquinas Voadoras", no título original "Those Magnificent Men in Their Flying Machines or How I Flew From London To Paris in 25 Hours 11 Minutes", de 1965, e recordei-me do Cinema Império. 
 
Foi lá que assisti, deliciado, à projecção dos Gloriosos Malucos. Foi lá, mas num espaço mais reduzido criado no andar superior, que assisti à apresentação em Portugal de alguns filmes, que passaram a designar-se por filmes de autor.
O Império e o São Jorge eram os maiores espaços/cinemas de Lisboa. 
Nesse tempo, ir ao cinema era uma oportunidade de festa, de convívio. 
Hoje os filmes são projectados em autênticos buracos em centros comerciais, com os sons do mastigar de pipocas e o gargarejar de Coca Cola, de grande parte dos espectadores, ou será de raatos?, a misturar-se com os sons dos filmes.

Outro espaço cinema/teatro era o "Monumental".
Hoje ocupado pelo BPI, após destruição, transformação como centro comercial, três ou quatro buracos para projecção de filmes até nova transformação, desta vez para banco. 
 
Foi no "Monumental" que vi "West Side Story", 1961. Um filme feito para uma tela gigante e características acústicas que criavam uma envolvência que nos fica para toda a vida. 
Há filmes, ou havia, filmes que não cabem nos buracos dos centros comerciais. 
Há excepções? Há. mas são poucas.

O Império encerrou as portas no fim de 1983.  
"Em 1992, lê-se na Wikipédia, o edifício foi convertido na Catedral portuguesa da Igreja Universal do Reino de Deus ", um negócio exponencial do capitalismo religioso. 
 
Escrevo "capitalismo religioso" sem receio de ofender ninguém porque, sobretudo entre os evangélicos, não só no Brasil e nos EUA, onde preponderam, o capitalismo é a alma da sua expansão sem paralelo, e assumido como tal pelos pastores e pelas suas ovelhas.
Conforme com a sua natureza, e não só dos evangélicos mas também de outras confissões religiosas, o capitalismo religioso não se contém dentro dos específicos limites dos seus negócios porque se projeta e promove nas arenas da política. 
 
A este propósito, e direccionado a quem tenha interesse nestas questões, pode ler "A pastor said his pro-Trump prophecies came from God. His brother called him a fake". a saga de uma família norte-americana de pastores evangélicos do Alabama, pai e dois irmãos. O irmão júnior afirmou-se profeta, teria recebido de Deus a indicação que Trump deveria ser eleito (em 2020), ripostando o mais velho que o júnior era um mentiroso. 
Interveio o pastor pai a favor do pretenso profeta lembrando ao outro que negar a palavra do profeta é negar a palavra de Deus.
O artigo é longo, mas merece ser lido.

E merece ser lido porque retrata bem por que razão crescem os evangélicos como cogumelos.
 
Os evengélicos não dependem de um poder central, são livres de se estabelecerem como pregadores onde e até quando a sua palavra é ouvida pelos seus clientes. Se a audiência aumenta, expandem o espaço, se audiência se contrai, vão procurar outros locais mais absorventes das suas palavras.
O sucesso do negócio de cada pastor depende da capacidade de convicção das suas palavras.
O seu instrumento básico de trabalho é a sua palavra, a Bíblia o apoio da sua arte.
 
Mas não se pense que o pastor tem formação estruturada por uma qualquer autoridade da qual depende. 
Mesmo a construção de templos e abertura de locais de culto pode depender ou não de autorização das autoridades administrativas locais. 

O pastor evangélico não tem de frequentar seminário, lê e prega conforme a pulsação que observa das suas audiências.
Pode e é geralmente casado. 
Pode e geralmente acumula o negócio religioso com rendimento assegurado pelos fiéis com o lucro de negócios de natureza não religiosa. E neste ponto se alargou o afastamento entre os dois irmãos: mesmo tendo o profeta falhado na eleição de Trump, já os seus devotos tinham esquecido a profecia porque o profeta se tinha tornado um super star, mais ouvido e admirado que antes. E o mais velho contorce-se com tanto proveito de tanta falsidade do outro.

Em alguns pontos falta originalidade aos evangélicos, mas não em todos, admita-se.

Friday, January 05, 2024

POSTAL DE UM PAÍS COMUNISTA

 

Um tribunal chinês aceitou esta sexta-feira o pedido de falência do Zhongzhi Enterprise Group, um dos maiores gestores de fortunas privadas do país. 

"Este tipo de entidades, que funcionam como bancos apesar de não o serem, são pouco reguladas: recorrem às poupanças das famílias para oferecerem empréstimos e investirem em imobiliário, entre outros ativos. De acordo com a Bloomberg, nos últimos anos, o Zhongzhi Enterprise Group aumentou o financiamento a promotores imobiliários em dificuldade, numa altura em que o setor na China enfrenta graves problemas de liquidez."

Friday, April 22, 2022

PARA QUE LADO FICA O PENSAMENTO DE SENTIDO ÚNICO?

A pouco e pouco, a mando de Putin, as tropas russas arrasam e avançam, alargando o seu império.

Segundo relatos da agência de notícias russa TASS. -, aqui,
"as forças armadas russas informaram nesta sexta-feira que a segunda parte da sua "operação especial na Ucrânia" visa obter "controlo total" do sul do país e da região de Donbass, bem como obter acesso à região da Moldova"
 "Aparentemente agora estamos em guerra com o mundo inteiro, como na Segunda Guerra Mundial. Toda a Europa está contra nós. Nunca gostaram da Rússia", disse Minnekaev, comandante do Distrito Central do Exército.
 
"Há 48 minutos, a Moldova entregou esta sexta-feira as respostas ao primeiro formulário sobre a possível adesão do país à União Europeia (UE), anunciou no Twitter a Presidente do país, Maia Sandu.   
Hoje a Moldova submeteu o primeiro questionário para a adesão à União Europeia, ao embaixador Janis Mazeiks, ficando mais próximos da nossa proposta de adesão à UE. Estamos prontos para fazer a nossa parte rápida e diligentemente para dar à Moldova a oportunidade de um futuro melhor, mais seguro e mais próspero", lê-se na publicação"
 
Entretanto, na União Europeia hesita-se e discute-se a oportunidade da entrada de novos membros.  
Em França, daqui a dois dias, os extremistas franceses (de esquerda e de direita, vá lá saber-se quais são as diferenças de opinião entre muitos deles) podem entregar as chaves do Palácio do Eliseu a Le Pen, para estilhaçarem a União Europeia  e depois aplaudirem o desfile do exército russo na Avenida dos Campos Elíseos.
 
A Finlândia e a Suécia já foram avisadas pelo czar de todos os russos que não estão autorizadas por ele a aderirem à NATO.
 
Segundo Dmitri Medvedev, que foi o seu segundo quando foi preciso, Putin ambiciona alargar o seu império fundando uma Eurásia, desde Lisboa a Vladivostok.
Por essa altura, estarão reunidas as condições para fazer renascer o comunismo, desta vez travestido de comunismo capitalista à imagem e semelhança da original criação do seu amigo Xi Jinping. 
 
 
 
O fim do homem soviético terá sido uma miragem acidental do Ocidente, transitoriamente convencido que o fim da história seria atingido com o capitalismo em democracia liberal.
 

 act. - 23/04/2022
 

Miguel Sousa Tavares desabafava aqui, no Semanário Expresso da semana passada, que se sentia sufocado com os comentários contraditórios suscitados pelas suas suas posições (foram várias, evoluindo semanalmente) relativamente ao arrasamento da Ucrânia e, pateticamente, repetiu cinco vezes, entre cada parágrafo do seu texto:

- A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

Sousa Tavares podia ter ficado por aqui mas (sempre o mesmo renitente mas) repetiu, evoluindo nos repetidos argumentos, razões que o levavam a considerar que, se a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação, havia razões ... e explanava razões que, queixava-se ele, eram alvo de contraditórios sufocantes que, do seu ponto de vista, não são admissíveis num país de liberdade de expressão.

Não foi o único, houve e ainda há muitos outros, a apontar o dedo acusador aos discordantes. Condenam, sim, mas ...

No Expresso Semanário deste fim-de-semana, Sousa Tavares não voltou ao assunto, mas Francisco Mendes da Silva, que escreve ao sábado no Público, - aqui - não deixou cair a acusação de falta de liberdade de opinião, nestes termos

Miguel Sousa Tavares sente-se sufocado por mim. Sim, parece caricato que o maior produtor de opinião livre da democracia portuguesa, talvez o jornalista mais icónico da nossa televisão e imprensa, um dos polemistas mais “lá de casa” da nossa vida colectiva em liberdade, se sinta sufocado pela opinião dos outros, mais ainda pela minha. Mas foi isso que Sousa Tavares disse na sua coluna do Expresso, onde há anos se espraia ao longo de vários milhares de caracteres semanais numa página de formato “berliner” reservada só para ele, presumivelmente sem freios editoriais, na boa velha tradição do jornal que o acolhe.

Num texto com um grito de revolta no título (“Para acabar de vez com este sufoco”), afirmou que é vítima de “uma campanha ostensiva de apelo ao silenciamento e ao linchamento moral”, e que “estamos a viver num clima de intimidação concertada sobre o pensamento como nunca vivi em 30 anos de escrita em jornais”. Palavras pesadas, essas, que Sousa Tavares dirige especialmente a dois culpados: a António Barreto e a mim.

Desconheço se António Barreto se tem reunido com outros conspiradores, em caves lúgubres e secretas, para “concertar” as estratégias de silenciamento de Miguel Sousa Tavares. Eu cá nunca fui convocado para tais urdiduras. Mas reparem: de nós, Sousa Tavares diz que recorremos à “absoluta falta de seriedade intelectual e a argumentos de puro terrorismo e delação pública”. É uma entrada a pés juntos? É. Passa-me pela cabeça que Sousa Tavares tenha escrito esta e outras coisas para me intimidar? Não. Por muito erradas que estejam, este tipo de tiradas hiperbólicas faz parte do debate normal em qualquer democracia adulta, civilizada e vibrante. A liberdade dos outros não me intimida.

Mas, afinal, pergunta o leitor desprevenido, acabado de chegar a esta minipolémica, o que é que eu fiz para que Sousa Tavares se sentisse atingido na sua liberdade de pensamento com tanta precisão e violência? Num artigo nesta coluna (com o título “Sejam adultos, assumam que querem a vitória da Rússia”), limitei-me a formular um raciocínio simples: se há pessoas que se manifestaram sempre a favor de todas as posições da Rússia sobre a Ucrânia, desde Maidan até à Crimeia; se, perante a revelação das atrocidades do seu exército, assobiam para o lado e pedem mais jornalismo do que propaganda; se defendem que se deixe de ajudar militarmente a Ucrânia para se chegar à paz; então o que essas pessoas querem é que a Rússia consiga a vitória. Não se trata de delatar ninguém. Trata-se de dizer que o debate só é útil se for totalmente claro quanto à ligação entre premissas e conclusões.

Quando compus na minha cabeça o ramalhete de autores em que baseei o artigo, não pensei propriamente em Sousa Tavares. Pensei nos subscritores dos manifestos sinuosos e sem nexo que por aí apareceram. Porém, fui agora ler ou reler o que tem escrito sobre o tema, para tentar perceber o que o terá levado a assentar a carapuça. Reparei que os factos se têm fartado de desmentir as suas opiniões e preconceitos. Até à eclosão da guerra, dizia que ela nunca aconteceria, porque a Rússia não a desejava. Agora, diz que a guerra aconteceu porque interessa aos EUA, à sua indústria militar e ao reforço da NATO.

O que tem vindo a sufocar Sousa Tavares, neste assunto, não é bem a opinião de quem quer que seja. É a própria realidade

Como se os EUA não andassem há anos a querer fugir da Europa para o Pacífico. Como se isto interessasse a um Presidente americano em ano de intercalares. Como se não estivesse profusamente documentada a ideologia imperialista que comanda o Kremlin (é preciso lembrar o ensaio de Putin em Julho último?). E como se os países da NATO não dessem provas quotidianas da sua compreensível relutância em serem arrastados para a guerra, perante a exasperação da Ucrânia.

Quando todo o mundo via já em Volodimir Zelenskii um exemplo inspirador de coragem moral, que todos os dias justificava o apoio à sua resistência, Miguel Sousa Tavares chegou ao ponto de insinuar que aquele só não se rendia porque é um vaidoso armado em Churchill. O que o tem vindo a sufocar, neste assunto, não é bem a opinião de quem quer que seja. É a própria realidade.


Sunday, January 09, 2022

O COMUNISMO CAPITALISTA POSTO À PROVA PELO ÓMICRON

 Ómicron deve deixar China mais isolada 

 

 

Se o regime comunista capitalista - um paraíso para o capitalismo sem freio democrático - falha na continuação da contenção do vírus e a pandemia se solta matando muitos milhões de chineses, o sistema que tem maravilhado internamente e causado o espanto no exterior, repetindo a admiração causada por outras ditaduras na fase de crescimento - nazismo, fascismo, comunismo, p.e. - implode.

A variante Ómicron, pela sua vertiginosa capacidade de transmissão, é contível por medidas de isolamento, testagem e vacinação num país com mais de 1,4 milhares de milhões de residentes, sem que a economia se desmorone e a fome arraste consigo o desmoronamento do regime?
 
Xi Jinping tem pela sua frente um jogo com a variante Ómicron que só pode ter um vencedor. 

                                                       O Sétimo Selo - Ingamr Bergman
 

Wednesday, May 12, 2021

DEMASIADA TRANSPARÊNCIA - 5

De barriga cheia - foram os CEOS que, pessoalmente, mais embolsaram em 2020, ano de pandemia - arrotam.

Cláudia Azevedo e Pedro Soares dos Santos atacam plano de recuperação. "Falta ambição para o país"  

Nem Cláudia Azevedo, presidente da Sonae, nem Pedro Soares dos Santos, presidente da Jerónimo Martins, pouparam nas críticas sobre o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

"Falta ambição para o país", atira Cláudia Azevedo, que falava numa conferência realizada esta quarta-feira, 12 de maio, pela APED (Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição), em formato digital. E continuou: "o PRR é uma lista de despesas, não é uma ambição para o país". Para a presidente do grupo Sonae a educação deve ser o ponto central no futuro de Portugal, já que é o maior elevador social e, continua, "só educação nos pode fazer crescer e trazer valor acrescentado". 

Pedro Soares dos Santos colocou a tónica também nos projetos incorporados no PRR. "Não estou a ver que seja preciso muitas mais autoestradas e aeroportos em Coimbra, com isso ganham-se eleições, mas isso é para quem tem um horizonte a 4 anos", assumindo que as empresas, em particular nas familiares, têm horizontes de 10, 20 anos. 

O presidente da Jerónimo Martins não baixa o tom das críticas. "Um país que tem tendência para empobrecer tem dificuldade em requalificação mão de obra e incorporar desafios no futuro. E Portugal está a empobrecer. Quem se reforma está condenado a ir para a pobreza".

Para Pedro Soares dos Santos Portugal não é um país competitivo para as empresas. "Desde 2001 que não cresço, se eu não cresço estou a perder competitividade". Fala nomeadamente na carga fiscal e recordou, também, os anos que demorou a ter uma licença para uma fábrica de leite: quatro anos.

"Eu continuo a investir muito em Portugal", mas "quem não tem o coração cá? Esse é o problema. Gostamos da terra e lutamos por ela". Mas sem essa ligação sentimental, o que prende uma empresa a Portugal, interroga-se. "Ninguém quer tirar-nos da pobreza", lamenta. Corroborado por Cláudia Azevedo: "temos de investir na educação dos portugueses", para "tirar de sermos cada vez mais pobres e um país que não cresce". A responsável da Sonae deu outro exemplo de falha no PRR: em Espanha há quatro mil milhões para as redes de nova geração; Portugal tem zero. "Não precisamos de mais betão, precisamos de mais cabeça".

 


DEMASIADA TRANSPARÊNCIA - 4

Os donos da Brisa recebem 102 milhões - aqui

Num ano de fortíssima redução da circulação rodoviária nas auto estradas

"Os novos donos da Brisa, o consórcio da holandesa APG, do National Pension Service da Coreia do Sul e da Swiss Life Asset Managers que em outubro do ano passado concluiu a adquisição de 81,1% do grupo por 2,4 mil milhões de euros, vão receber este ano em dividendos mais de 100 milhões de euros, de acordo com a proposta de aplicação dos resultados de 2020 que foi aprovada a 6 de maio em assembleia-geral....

Negócios Premium

 

Friday, October 30, 2020

AFIRMA PIKETTY

Aqui:   

" Qual é a mensagem deste novo livro, Capital e Ideologia?
Primeiro é a de que se queremos resolver os problemas actuais, temos de olhar para a história da desigualdade, para a história dos regimes desigualitários. E a segunda grande mensagem é de optimismo. Quando olho para a História, o que vejo é uma evolução rumo a mais igualdade e mais prosperidade e penso que é possível continuar nessa direcção. Se pegarmos nas lições da História, será possível continuar a avançar.

Correl . - Thomas Piketty vira Marx do avesso? 

Friday, October 04, 2019

OS INIMIGOS DO COMUNISMO CHINÊS

Estive na China, pela primeira vez por razões profissionais, há trinta anos.
A China já tinha nessa altura enveredado, sob o comando de Deng Xiaoping pelo caminho do comunismo capitalista.  Deng Xiaoping viria a renunciar do cargo no ano seguinte em consequência das repercussões internacionais pelo massacre de 9 de Junho de 1989 na Praça Tianamen, ou Praça da Paz Celestial.
Visitei fábricas de produção de papel (recorde-se que os chineses inventaram o papel 105 anos DC), que estavam tecnologicamente totalmente obsoletas, equipamentos degradados, trabalhadores subempregados espreguiçando-se ao sol. À entrada da Cidade Proibida, os soldados da guarda calçavam sapatilhas.
Do oitavo andar do hotel onde fiquei, nas proximidades de Tianamen, via cruzarem-se milhares de bicicletas raramente incomodadas por uma ou outra viatura oficial.
Voltei à China duas vezes depois, ainda por razões profissionais, e em 2007, uma quarta vez, como turista. A evolução saltava à vista e confirmava as estatísticas: o crescimento da China era, e continua a ser, impressionante.


No dia 1 deste mês, o poder em Beijing celebrou com a grandiosidade e exuberância de um espectáculo de luz, cor, música e coreografia, que embasbacou o mundo (que se deixa embasbacar com estas coisas) a fundação em Outubro de 1949 da República Popular da China.
A propósito, de entre a mais de centena e meia de apontamentos neste caderno sugeridos pelas visitas e notícias sobre a China, sugiro uma olhada em "SE É ARTE TEM DE SER VERMELHA". Se a curiosidade for tanta, pode ver mais clicando na etiqueta "China" no fim de cada apontamento.  
No mesmo dia, o Canal 3 da RTP, transmitiu um documentário, ainda disponível nas gravações automáticas da box, para quem tiver box, hoje quase toda a gente tem box ...,* que começava, mais ou menos, assim:
"No dia 15 de Janeiro de 2017, pela primeira vez na história do Forum Económico de Davos, a honra da abertura foi dada a um presidente da China, Xi Jinping, (Donald Trump, não compareceu) que deu uma lição sobre o mercado livre".
Irónico, sarcástico, desarmante, cada um escolha o adjectivo que julgar mais adequado, se o encontrar.

E vimos e ouvimos no referido documentário um relato impressionante sobre a caminhada da China, iniciada com Deng Xiaoping, desde que Xi Jinping se tornou presidente do Partido Comunista Chinês e, por inerência, com mandato vitalício aprovado pelo parlamento chinês em 2018, Presidente da China, o homem que o Economist já tinha considerado em 2017 ser o mais poderoso do mundo.
Seria fastidioso resumir aqui, mesmo que sucintamente, até onde já chegou a China e para onde quer Xi Jinping levá-la, e a todo o mundo, em 2049, ano do centésimo aniversário da fundação da RPC, os objectivos, os meios, os desígnios que o habilitam. 

Mas saliento dois pontos:
Macron em reunião da UE defendeu uma política de oposição à venda de activos estratégicos   a empresas do Estado Chinês. Alguns chefes de governo opuseram-se, entre eles, o primeiro-ministro português, António Costa. Mas porquê, estranhou Macron, que considerava estar com a sua proposta defender os interesses dos trabalhadores portugueses. Respondeu-lhe António Costa que não podia coarctar os interesses chineses porque Portugal tinha uma dívida muito elevada a pagar.

Segundo Xi Jinping, os inimigos do comunismo chinês, que ele pretende alargar a todo o planeta a bem da humanidade, são sete, destacando-se três:
a democracia,
os direitos do homem,
a liberdade de imprensa.

Como pensa o homem ocidental enfrentar um gigante que assenta a sua força na eliminação global dos princípios que os valores da cultura ocidental mais prezam?
Não pensa?
Em situações como estas ocorre-me sempre a resposta dum tipo imbecil que, perante o anúncio do fim do mundo, encolheu os ombros e disse: Escape eu!

-------
* O MUNDO SEGUNDO XI JINPING  encontra-se agora disponível aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=m9Uz-9wQsBE&feature=share&fbclid=IwAR3iMwfEmM-clCePUCM7gYB6hzstJhg06tsUx92YzZdVaILn3_kxfNUhJRA


Wednesday, December 20, 2017

QUANTOS HUMANOS VÊ NESTE VÍDEO?



Para melhor visualização clique aqui

J,

Para os que quiserem realmente trabalhar, dizes, ainda sobrarão alguns postos de trabalho.
Se para realizar esses trabalhos a oferta for superior à procura, esses trabalhadores serão bem pagos. Se acontecer o contrário, se houver procura de trabalho superior à oferta, os salários baixarão até ao nível de equilíbrio. E isto não acontecerá apenas na indústria mas também nos serviços. Tudo o que possa ser programado como rotina, os robôs tomarão conta do assunto. Para lá do rotina, entra de serviço a inteligência artificial.

Em situação de equilíbrio, para contenção das convulsões sociais que este trajecto projecta, caminha-se para pagar mais a quem aceitar não trabalhar do que a quem preferir trabalhar.
Isto decorre do b-a-ba da economia. Capitalista, até que seja reinventada outra concorrente.
No limite, como venho anotando há muitos anos, no futuro quem quiser trabalhar terá de pagar.

PS - Se, entretanto, Trump e Kim Jong-un, ou outros Trump e Kim Jong-un quaisquer, não estoirarem meia humanidade. Nesses caso, haverá muito trabalho para os que sobrarem. Se estoirarem todos, o planeta continuará azul, a rodar silencioso e só iluminado pelo sol.
---

Sunday, October 02, 2016

ALGUÉM TERÁ DE CEDER

Caro E.,


Aquele artigo* que nos enviaste há dias foi objecto de alguns comentários no almoço de sexta-feira passada. A parábola, que admitimos ser apócrifa, nenhum dos presentes se recorda de ter ouvido Pereira de Moura citá-la, é poliédrica, sugerindo leituras diferentes. 

Desde logo, conclui-se que, na escala de valores do amigo rico, a amizade está mal posicionada: a continuidade da sua presença no almoço vale menos que dez euros por semana. E o mesmo pode dizer-se da escala do medianamente abonado para quem a amizade vale menos que cinco euros semanais. Foram os operários, por outro lado, pouco avisados nas suas reclamações? Sendo, em princípio, menos habilitados merecem atenuantes. 

Numa abordagem menos restrita, na discussão sobre a equidade fiscal, por exemplo, consegue-se uma observação mais nítida da forma como pode atingir-se a sustentabilidade do equilíbrio nas relações sociais. 
Assuma-se que os impostos arrecadados medem 100 unidades, a despesa pública 120, e o défice uns insustentáveis 20. 
Um governo que herdou esta "pesada herança" propõe-se reequilibrar as contas.
Constata que as classes altas pagam, de impostos, 50, as classes médias, 25, e as classes baixas, 25.
O reequilíbrio exige redução na despesa pública mas não evita  um brutal aumento de 15% nos impostos. Como distribuir a carga adicional?

Não há critérios de equidade fiscal unanimemente aceites.
Mas há princípios geralmente tidos como razoáveis. Por exemplo, a isenção de impostos sobre rendimentos baixos até determinados limites; a progressividade das taxas, etc. 
Mas também há situações de cumprimento das obrigações fiscais geralmente conhecidas: aqueles que trabalham por conta de outrem são compulsivamente cumpridores por retenção dos impostos na fonte; os rendimentos mais elevados, sujeitos a taxas de tributação altas, são mais propensos à evasão fiscal.
Ora a evasão fiscal é homóloga do rico que abandona a mesa de convívio semanal por 10 euros. Ao abandonar a mesa, a carga fiscal fiscal evadida recairá sobre os outros contribuintes. E quanto maior o número dos que abandonam maior é a carga sobre os que ficam. 

Atravessamos um tempo de transição para uma sociedade de emprego escasso. Pela ordem natural da vida, já não iremos sentir as consequências sociológicas brutais do desenvolvimento tecnológico sobre a produtividade e a consequente redução massiva do emprego mas já observamos alguns traços desse caminho desconhecido. 

Há dias, Martin Wolf recordava - vd. aqui - o trilema que se coloca à convivência conjunta do capitalismo com a democracia e a globalização. Podem conviver, afirma Dani Rodrik, dois a dois mas não pacificamente os três em simultâneo. Alguém terá de ceder. 
A acumulação de capital no extremo do centil mais à direita da curva de distribuição de rendimentos é incompatível com uma sociedade pacífica. O estado social é uma imposição não já apenas de solidariedade social mas  da segurança interna das sociedades futuras. 

São os mais deserdados das sociedades ocidentais (EUA, França, UK, etc.) que ameaçam colocar no poder aqueles que lhes prometem encerrar as portas à imigração e garantir-lhes emprego, mas estão equivocados. A nossa aldeia é cada vez mais global, o reerguer das fronteiras alfandegárias e a construção de muros não augura senão a emergência do fantasma da guerra.


Isabel Vaz citou um cenário dos anos 60, há cinquenta anos, portanto. Daqui a 50 anos, provavelmente já não haverá operários, existirão legiões de pessoas que não sei o que farão mas dificilmente concebo que passem sem um almocinho pelo menos de vez em quando. 
---
*
"Doutores e Engenheiros", de Isabel Vaz, publicado na  revista Visão. 

Resumidamente, conta a parábola que sete amigos, antigos colegas na escola primária, se reuniam às quintas-feiras para almoçar. 
Dos sete, um tinha acumulado fortuna, outro era da classe média, os restantes cinco eram operários.
Metade da conta, sempre 100 euros, era paga pelo mais abonado, o quadro médio pagava um quarto, os operários pagavam o outro quarto. Assim, o rico pagava 50, o médio 25, e a cada um dos outros cinco, 5.
Pressionado pela concorrência, o restaurante reduziu os preços em 20%, e a factura dos sete amigos para 80 euros.
O rico pagou 40, o médio 20, e cada um dos cinco, 4 . 
Protestaram os operários que o rico tivesse beneficiado de uma redução de 10 euros, o médio de 5, e eles, operários, apenas 1 euro cada. 
Abespinhou-se o rico com esta contestação dos amigos operários, e não voltou mais aos almoços.
O médio fez o mesmo, no fim de contas os operários se quisessem continuar com os almoços teriam de pagar cerca de 11 euros cada um. 
Acabaram-se os almoços e o restaurante fechou. 

"E foi então que os proletários perceberam que aqueles que acumulam dinheiro, ou poupança, ou riqueza, também são úteis para ajudar a pagar as contas"

Friday, September 02, 2016

ÀS VOLTAS COM UM TRILEMA

Há cinco anos comentei aqui "The globalization Paradox", de Dani Rodrik, professor em Harvard, que concluía pela conflitualidade suscitada pela conjunção da democracia, capitalismo e globalização. É pacífica, concluía o autor, a compatibilização entre quaisquer dois destes três vectores, mas a simultaneidade dos três é conflituante. Esta hipótese já tinha sido, resumidamente, publicada aqui em Junho de 2007.

Há dias, Martin Wolf citava "The inescapable trilemma of the word economy" de Rodrik em apoio das suas conclusões em "Capitalism and democracy: the strain is showing" onde o principal colunista de economia do Financial Times observa a origem da emergência de propostas políticas populistas que estão a angariar crescente adesão de eleitores em países onde até há relativamente pouco tempo era suposto a democracia e o capitalismo estarem bem cimentados e à prova de toda e qualquer concorrência global. 

Não estão, conclui M Wolf, e a fractura já está à vista.
A globalização gerou multidões de descontentes (Stiglitz publicou "Globalization and its Discontents" em 2002) que, ameaçados pela perda de poder de compra, pela falta de oportunidades de emprego, alinham-se pelas propostas de demolição de um sistema democrático localmente igualitário num meio capitalista, agora global, por natureza não igualitário.

É deste trilema, já constatado e dissecado há algum tempo, que emergem os populismos que no passado ainda não longínquo alçaram os autoritarismos que esmagaram democracias.
Pode voltar a acontecer?
Quando as posições dos eleitores se extremam e o centro político se contrai, porque se contrai a classe média, o edifício democrático tende a desmoronar-se com a pressão dos extremos, que, como se sabe, se tocam.

Avisa Wolf: "Se pretendemos que se mantenha a legitimidade do nosso sistema político democrático, a política económica tem de ser orientada no sentido da promoção dos interesses da maioria e não de poucos. ... O casamento entre a democracia liberal e o capitalismo necessita de algum carinho. Porque não pode ter-se por definitivamente garantido"

Tuesday, September 01, 2015

AROUCA E TONDELA EM OFFSIDE

O Financial Times publica hoje, aqui, um artigo - League cries foul at US Soccer Federation’s new rules - muito ilustrativo da forma como nos EUA o futebol, enquanto negócio como qualquer outro, está subordinado às leis que regem as actividades económicas em geral.

A popularidade do futebol, que os norte-americanos chamam "soccer", (vd. uma explicação da origem da palavra, p.e., aqui) tem vindo a aumentar significativamente nos EUA, ocupando agora a quinta posição nas preferências do público. Segundo a Fifa, há nos EUA 24 milhões de praticantes (aprox. 8% da população),  um número apenas ultrapassado pela China*. 
Não sendo o "futebol americano" nem o "baseball" desportos razoavelmente adequados às condições físicas femininas, o "soccer" faz parte, com a natação e o lacrosse, do trio das preferências das jovens norte-americanas**. 
.

O objecto essencial do artigo do FT não é, contudo, a divulgação da crescente popularidade do futebol neste outro lado do Atlântico mas a reportagem de uma confrontação jurídica movida pela North American Soccer League contra a MLS - Major League Soccer - alegando que as recentes alterações violam as leis antitrust por impedirem a inclusão na primeira liga das associações de equipas integradas em campeonatos regionais,
- com menos de 16 equipas (12, anteriormente)
- com menos de 75%  de equipas com sedes em cidades com menos de dois milhões de habitantes (antes, 1 milhão). 
- com estádios com menos de15 mil lugares sentados. 

Uma lei de exlusão destas, em Portugal, incendiava o país.
Um dia, só não sabemos quando, impor-se-á naturalmente.
---
*A título comparativo, refira-se que em Portugal, vd. aqui, houve 162705 jogadores inscritos na FPF na época passada, cerca de 1,6% da população portuguesa. Mesmo considerando que haverá muitos praticantes não federados, teremos de concluir que em Portugal predominam sobretudo os jogadores de bancada.
** Este fim-de-semana assistimos na Virgínia a parte de um torneio de "soccer" (o torneio decorreu durante um dia inteiro) entre equipas femininas de jovens com idades entre os 10 e os 12 anos. Num espaço suficientemente largo foram definidos 12 campos que, avalio eu, teriam metade da dimensão dos campos de futebol profissional, e que permitiam a ocorrência de 12 jogos em simultâneo.  
Não por acaso, os EUA venceram este ano o campeonato mundial de futebol feminino (soccer), detendo o maior número de títulos: 3. Cf. aqui.

Tuesday, May 05, 2015

QUERIDO INIMIGO

 Gaining a foothold

Há duas semanas atrás anotei aqui, a propósito do 140º. aniversário da artista japonesa  Uemura Shōen "a arte asiática não participa ainda em medida muito evidente nos leilões dos nomes mais sonantes do negócio, apesar de alguns artistas plásticos, japoneses e chineses estarem a obter crescente reconhecimento dos coleccionadores ou investidores em obras de arte."

O Economist desta semana publica um artigo - The Gutai movement - The other modernism - The rise and rise of an imporant 20th - century modernist movement from Japan - que merece ser lido por quem se interesse minimamente pelos meandros dos mercados da arte e, muito sobretudo, pelas reacções que desencadeia a arte abstracta junto dos endinheirados coleccionadores de todo o mundo. Mesmo quando os artistas - como neste caso - intentaram plasmar nas suas obras manifestos de rebeldia contra o sistema que permite a acumulação imparável de riqueza que hiperinflaciona o mercado da arte.

Tuesday, February 10, 2015

O CAPITALISMO, HOJE

O Economist desta semana publica um artigo - Capitalism’s unlikely heroes - Why activist investors are good for the public company - que é uma apologia aos méritos das intervenções dos hedge funds, que o colunista qualifica como investidores activistas, nas empresas cotadas em bolsa. 
A abordagem é focalizada nas empresas norte-americanas mas não deixa de reflectir as manobras que na Europa e na Ásia transferem enormes volumes de riqueza para os CEO´s  que, frequentemente, não têm, bem pelo contrário, correspondência nos resultados atingidos pela sua gestão. E porquê? Porque os managers de topo são suportados por accionistas coniventes ou naturalmente complacentes. É da conjugação perversa entre a conivência e abstenção que germinaram nos  últimos 15 anos fiascos como a Enron e a Lehman Brothers. 

Analisadas as diferentes hipóteses de intervenção accionista que possam apear, com vantagem da empresa e dos accionistas, os gestores ineficientes e, ou, oportunistas, o articulista conclui que são os investidores activistas aqueles que obtêm melhores resultados com menos meios financeiros envolvidos.

Leio este artigo e é inevitável recordar o caso PT, tão recente e já tão esquecido. A PT é apenas um dos casos que nos últimos tempos mostraram ao mundo a bandalheira (não encontro adjectivo mais adequado, posto que convenientemente incisivo) em que mergulhou grande parte da nata do capitalismo português. E não aconteceu nada. 

Porquê?
Porque por cá as águas são turvas demais e a profundidade é baixa.
O único investidor (no caso, investidora) que se propôs entrar nas águas turvas em que se movia, e move, a administração da PT SGPS, foi rechaçado pelo argumento de que a sua oferta se encontrava
abaixo do previsto na lei. As cotações da PT SGPS encontram-se hoje a cerca de metade da tal oferta curta. E ninguém é obrigado a responder por isto. Entre a conivência e abstenção continuam a mover-se impunemente as sumidades galardoadas.



c/p de aqui