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Friday, April 22, 2022

PARA QUE LADO FICA O PENSAMENTO DE SENTIDO ÚNICO?

A pouco e pouco, a mando de Putin, as tropas russas arrasam e avançam, alargando o seu império.

Segundo relatos da agência de notícias russa TASS. -, aqui,
"as forças armadas russas informaram nesta sexta-feira que a segunda parte da sua "operação especial na Ucrânia" visa obter "controlo total" do sul do país e da região de Donbass, bem como obter acesso à região da Moldova"
 "Aparentemente agora estamos em guerra com o mundo inteiro, como na Segunda Guerra Mundial. Toda a Europa está contra nós. Nunca gostaram da Rússia", disse Minnekaev, comandante do Distrito Central do Exército.
 
"Há 48 minutos, a Moldova entregou esta sexta-feira as respostas ao primeiro formulário sobre a possível adesão do país à União Europeia (UE), anunciou no Twitter a Presidente do país, Maia Sandu.   
Hoje a Moldova submeteu o primeiro questionário para a adesão à União Europeia, ao embaixador Janis Mazeiks, ficando mais próximos da nossa proposta de adesão à UE. Estamos prontos para fazer a nossa parte rápida e diligentemente para dar à Moldova a oportunidade de um futuro melhor, mais seguro e mais próspero", lê-se na publicação"
 
Entretanto, na União Europeia hesita-se e discute-se a oportunidade da entrada de novos membros.  
Em França, daqui a dois dias, os extremistas franceses (de esquerda e de direita, vá lá saber-se quais são as diferenças de opinião entre muitos deles) podem entregar as chaves do Palácio do Eliseu a Le Pen, para estilhaçarem a União Europeia  e depois aplaudirem o desfile do exército russo na Avenida dos Campos Elíseos.
 
A Finlândia e a Suécia já foram avisadas pelo czar de todos os russos que não estão autorizadas por ele a aderirem à NATO.
 
Segundo Dmitri Medvedev, que foi o seu segundo quando foi preciso, Putin ambiciona alargar o seu império fundando uma Eurásia, desde Lisboa a Vladivostok.
Por essa altura, estarão reunidas as condições para fazer renascer o comunismo, desta vez travestido de comunismo capitalista à imagem e semelhança da original criação do seu amigo Xi Jinping. 
 
 
 
O fim do homem soviético terá sido uma miragem acidental do Ocidente, transitoriamente convencido que o fim da história seria atingido com o capitalismo em democracia liberal.
 

 act. - 23/04/2022
 

Miguel Sousa Tavares desabafava aqui, no Semanário Expresso da semana passada, que se sentia sufocado com os comentários contraditórios suscitados pelas suas suas posições (foram várias, evoluindo semanalmente) relativamente ao arrasamento da Ucrânia e, pateticamente, repetiu cinco vezes, entre cada parágrafo do seu texto:

- A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

Sousa Tavares podia ter ficado por aqui mas (sempre o mesmo renitente mas) repetiu, evoluindo nos repetidos argumentos, razões que o levavam a considerar que, se a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação, havia razões ... e explanava razões que, queixava-se ele, eram alvo de contraditórios sufocantes que, do seu ponto de vista, não são admissíveis num país de liberdade de expressão.

Não foi o único, houve e ainda há muitos outros, a apontar o dedo acusador aos discordantes. Condenam, sim, mas ...

No Expresso Semanário deste fim-de-semana, Sousa Tavares não voltou ao assunto, mas Francisco Mendes da Silva, que escreve ao sábado no Público, - aqui - não deixou cair a acusação de falta de liberdade de opinião, nestes termos

Miguel Sousa Tavares sente-se sufocado por mim. Sim, parece caricato que o maior produtor de opinião livre da democracia portuguesa, talvez o jornalista mais icónico da nossa televisão e imprensa, um dos polemistas mais “lá de casa” da nossa vida colectiva em liberdade, se sinta sufocado pela opinião dos outros, mais ainda pela minha. Mas foi isso que Sousa Tavares disse na sua coluna do Expresso, onde há anos se espraia ao longo de vários milhares de caracteres semanais numa página de formato “berliner” reservada só para ele, presumivelmente sem freios editoriais, na boa velha tradição do jornal que o acolhe.

Num texto com um grito de revolta no título (“Para acabar de vez com este sufoco”), afirmou que é vítima de “uma campanha ostensiva de apelo ao silenciamento e ao linchamento moral”, e que “estamos a viver num clima de intimidação concertada sobre o pensamento como nunca vivi em 30 anos de escrita em jornais”. Palavras pesadas, essas, que Sousa Tavares dirige especialmente a dois culpados: a António Barreto e a mim.

Desconheço se António Barreto se tem reunido com outros conspiradores, em caves lúgubres e secretas, para “concertar” as estratégias de silenciamento de Miguel Sousa Tavares. Eu cá nunca fui convocado para tais urdiduras. Mas reparem: de nós, Sousa Tavares diz que recorremos à “absoluta falta de seriedade intelectual e a argumentos de puro terrorismo e delação pública”. É uma entrada a pés juntos? É. Passa-me pela cabeça que Sousa Tavares tenha escrito esta e outras coisas para me intimidar? Não. Por muito erradas que estejam, este tipo de tiradas hiperbólicas faz parte do debate normal em qualquer democracia adulta, civilizada e vibrante. A liberdade dos outros não me intimida.

Mas, afinal, pergunta o leitor desprevenido, acabado de chegar a esta minipolémica, o que é que eu fiz para que Sousa Tavares se sentisse atingido na sua liberdade de pensamento com tanta precisão e violência? Num artigo nesta coluna (com o título “Sejam adultos, assumam que querem a vitória da Rússia”), limitei-me a formular um raciocínio simples: se há pessoas que se manifestaram sempre a favor de todas as posições da Rússia sobre a Ucrânia, desde Maidan até à Crimeia; se, perante a revelação das atrocidades do seu exército, assobiam para o lado e pedem mais jornalismo do que propaganda; se defendem que se deixe de ajudar militarmente a Ucrânia para se chegar à paz; então o que essas pessoas querem é que a Rússia consiga a vitória. Não se trata de delatar ninguém. Trata-se de dizer que o debate só é útil se for totalmente claro quanto à ligação entre premissas e conclusões.

Quando compus na minha cabeça o ramalhete de autores em que baseei o artigo, não pensei propriamente em Sousa Tavares. Pensei nos subscritores dos manifestos sinuosos e sem nexo que por aí apareceram. Porém, fui agora ler ou reler o que tem escrito sobre o tema, para tentar perceber o que o terá levado a assentar a carapuça. Reparei que os factos se têm fartado de desmentir as suas opiniões e preconceitos. Até à eclosão da guerra, dizia que ela nunca aconteceria, porque a Rússia não a desejava. Agora, diz que a guerra aconteceu porque interessa aos EUA, à sua indústria militar e ao reforço da NATO.

O que tem vindo a sufocar Sousa Tavares, neste assunto, não é bem a opinião de quem quer que seja. É a própria realidade

Como se os EUA não andassem há anos a querer fugir da Europa para o Pacífico. Como se isto interessasse a um Presidente americano em ano de intercalares. Como se não estivesse profusamente documentada a ideologia imperialista que comanda o Kremlin (é preciso lembrar o ensaio de Putin em Julho último?). E como se os países da NATO não dessem provas quotidianas da sua compreensível relutância em serem arrastados para a guerra, perante a exasperação da Ucrânia.

Quando todo o mundo via já em Volodimir Zelenskii um exemplo inspirador de coragem moral, que todos os dias justificava o apoio à sua resistência, Miguel Sousa Tavares chegou ao ponto de insinuar que aquele só não se rendia porque é um vaidoso armado em Churchill. O que o tem vindo a sufocar, neste assunto, não é bem a opinião de quem quer que seja. É a própria realidade.


Thursday, April 14, 2022

LE PEN E O GOLPE DE ESTADO EM FRANÇA

Marine Le Pen brinca ao “golpe de Estado”. 
 - AQUI

Notas de Jorge Almeida Fernandes sobre o mundo que não compreendemos.

Se fosse eleita no dia 24, Marine Le Pen inauguraria a sua presidência com uma “pequena” medida simbólica: retiraria a bandeira europeia da fachada de todos os edifícios públicos franceses. Mas não se ficaria pelos símbolos, nem pela Europa.

Marine prefere, como todos os populistas, o referendo à democracia representativa e, através de um referendo, faria incluir na Constituição a discriminação dos estrangeiros, como a “preferência nacional”: conceder aos nacionais a prioridade nos empregos, nas prestações sociais na habitação social ou a possibilidade de acesso a determinadas profissões. A xenofobia passaria a ser um princípio constitucional.

Há muito que Marine trocou o discurso agressivo pelas “falas mansas”. Desistiu de tirar a França do euro, chave da sua falida campanha nas presidenciais de 2017. E deixou também de falar em “Frexit”. Em vez da saída da União Europeia, proposta impopular, propõe coisas que a paralisariam ou tornariam impossível a manutenção da França na comunidade. Por isso submeterá a referendo a superioridade das leis francesas sobre as comunitárias.

Marine quer uma União à la carte de modo a rejeitar os pontos que lhe desagradam, como os tratados de livre-comércio, o alargamento, o Frontex ou a Europa da Defesa. A inscrição da própria prioridade nacional na Constituição violaria o direito europeu. Está próxima da Hungria de Viktor Orbán.

A mola central do seu modelo institucional é o recurso maciço ao referendo como meio de contornar o parlamento. Quer generalizar o “referendo de iniciativa cidadã” sobre todos os assuntos para, entre outras coisas, anular leis aprovadas no parlamento. Era uma das reivindicações dos “coletes amarelos”. Mas reserva-se o direito de bloquear uma proposta de referendo aprovada no parlamento se entender que é contrária aos “interesses vitais do país”.

O problema constitucional de Le Pen começa logo com o seu imaginário referendo inaugural, onde quer incluir a superioridade da lei francesa, a mudança da lei na nacionalidade e da política de imigração. A nacionalidade deixaria de reconhecer o histórico jus solis francês para adoptar o jus sanguinis: a nacionalidade deixaria de poder ser adquirida pelo nascimento em França e apenas pela filiação.

Há duas vias para o referendo. A sua convocação deve ser aprovada pelos deputados e pelos senadores. Mas, em matéria de leis ordinárias, o Presidente pode recorrer ao artigo 11 e convocar um referendo sem visto prévio do parlamento. Excepto sobre revisão constitucional, que, com base no artigo 89, exige a aprovação prévia das duas câmaras do parlamento. Marine sabe que o parlamento rejeitaria o seu projecto e, por isso, à revelia do Direito Constitucional, quer usar o artigo 11. Ela nega também legitimidade ao Conselho Constitucional para se pronunciar tanto sobre a constitucionalidade tanto do referendo com base no artigo 11, como sobre a “preferência nacional”

Ela invoca um precedente. Em 1962, o general De Gaulle impôs uma alteração constitucional — a eleição directa do PR — com base no artigo 11, o que provocou uma tempestade jurídica. Mas o Conselho Constitucional da época recusou pronunciar-se sobre o assunto. Daí em diante, nunca tal se repetiu.

A iniciativa de Marine Le Pen é, assim, “uma espécie de golpe de Estado contra o estado de Direito”, sintetiza o constitucionalista Dominique Rousseau. O seu programa é incompatível com a União e com os tratados europeus.

“A estratégia de doçura [de Marine Le Pen] mascara um projecto brutal de destruição das instituições da República e de divórcio com a União Europeia”, escreve Phillippe Bernard, editorialista do Monde. Põe em causa a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1789, o preâmbulo da Constituição de 1946 marcada pelo fim do nazismo e, enfim, da Constituição gaullista de 1958, que os preserva.

Se Marine fosse eleita no dia 24 de Abril, a crise europeia seria imediata e a França a primeira vítima. Haveria um alto risco de “guerra” nas instituições e na rua. Em Moscovo, Vladimir Putin rói as unhas: depois de dois meses de desaires, teria o seu primeiro sucesso.

Sunday, April 10, 2022

A ÉGUA DE TRÓIA

Putin nunca escondeu que o seu objectivo maior é recriar o Império Russo.
Arrasar a Ucrânia é apenas um primeiro movimento para estender as fronteiras da Federação Russa até onde a pusilanimidade dos vizinhos o consentir. Para conseguir esse intento exibe, sem qualquer disfarce, o arsenal atómico ao seu dispor, e garante que não hesitará usá-lo se tal for necessário para o atingir.
 
Talvez esse extremo seja evitável, pensará ele, tem outros meios para subjugar a União Europeia se os depravados europeus (por serem depravados, o Patriarca de Moscovo, o seu amigo e aliado Cirilo I, abençoa os propósitos do seu amigo Putin com o objectivo de salvar a humanidade) não forem, entretanto submergidos pela vaga extremista (fascista, nazi, seja o que forem porque o extremos tocam-se) que alastra na União Europeia, financiada por Putin. 

É neste contexto que hoje se realizam em França eleições presidenciais e é muito provável  que Marine Le Pen seja a próxima presidente da França.
A França governada por Le Pen, para além de chauvinista e racista, é declaradamente anti europeísta, abrirá a maior fractura numa União Europeia que tem sido estruturada com avanços e recuos, compromissos e conivências para agradar a gregos e troianos, será o cavalo (ou a égua?) de Tróia que os democráticos europeus distraidamente, ou coniventemente, deixaram entrar.
 
É inadiável saber quem, neste momento, se declara, sem mas nem meios mas, neste ou no outro lado da amovível cortina de ferro que Putin está a erguer. Se essa separação de águas não for feita e tudo continuará a tentar sobreviver no pântano, Putin será não apenas Imperador de Rússia recriada mas de uma Eurásia engolindo todo o espaço de Lisboa a Vladivostok. : O aliado de Vladimir Putin e antigo presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, sugeriu que o objetivo de Moscovo é "a paz das futuras gerações de ucranianos" e construir finalmente "uma Eurásia aberta entre Lisboa e Vladivostok".
 
Impossível?
Muito possível se, distraidamente, as democracias continuarem inebriadas com a música enquanto o cultura ocidental se afunda.

Thursday, April 07, 2022

AS RAZÕES DE PUTIN PARA ARRASAR A UCRÂNIA

O objectivo último de Putin não é arrasar a Ucrânia mas subjugar a democracia liberal na Europa e, segundo Cirilo, Patriarca de Moscovo, unha com carne com Putin, salvar a humanidade.
 

Segundo Putin, secundado por diversos comentadores políticos, em diferentes momentos no passado, é a presença da NATO nas suas fronteiras uma ameaça que Putin não pode tolerar. Um argumento ridículo que, como a foto acima mostra, são relativamente mínimas as fronteiras de países que confrontam com o extenso território russo, de longe o maior do planeta. 
O poder de atingir com elevada precisão objectivos a longas distâncias, mesmo intercontinentais, das armas de destruição, concebidas pela estupidez do génio humano, nas últimas décadas, ultrapassa a dimensão do continente europeu não russo.
Lançado de território russo ou de um submarino atómico, até o território português, o mais afastado das fronteiras russas, pode ser atingido por mísseis de capacidade altamente arrasadora.

A voracidade dominadora de Putin, que pretende recriar o Império Russo, - cf. aqui - não será satisfeita com  com a subjugação do povo ucraniano mas a de todo o ocidente europeu.
Para atingir esse objectivo conta com vários trunfos, alguns dos quais conhecidos e outros muito suspeitos.
Este ano realizam-se nos EUA as midterm elections que podem retirar aos democratas a maioria nas duas câmaras do Congresso: dos Representantes e o Senado. Se isso ocorrer, os EUA infletirão, seguramente, a ajuda que neste momento estão a prestar à Ucrânia, e, em 2024, Trump ou um herdeiro dele voltarão à Casa Branca e a posição norte-americana nesta guerra de destruição completa da Ucrânia voltará a apoiar Putin na fragmentação da mal consolidada unidade europeia.

O que está em causa, já foi dito, não é um confronto entre ideologias mas entre o poder discricionário dos ditadores e a liberdade de pensamento e decisão no ocidente democrático. Onde nem todos afinam pelo mesmo instrumento: Órban, de há muito tempo admirador de Putin, viu o seu mandato renovado e reforçado. Até em França a disputa pela presidência está mais cerrada que nunca. Provavelmente, se Macron for reeleito, Le Pen, declarada admiradora de Putin, admiração recíproca, ficará a poucos pontos percentuais de Macron na segunda volta.
Significa isto que quase metade dos franceses são putinistas?
Não sei, mas todos sabemos que o exército de Hitler desfilou em 1940 na Avenida dos Campos Elíseos aplaudido por milhares de parisienses entusiasmados com o sucesso nazi.

Hoje não há na Europa outro Winston Churchill capaz de enfrentar a barbárie.
Mas se houvesse, o que faria Churchill perante um ditador sentado no maior arsenal nuclear do mundo, capaz de, ele disse-o, de usar o poder mais destruidor de que dispõe se for necessário.
Hitler, quando se encontrava entrincheirado no bunker teria hesitado em usar a bomba atómica se os alemães a tivessem antes dos norte-americanos?


Saturday, September 25, 2021

A BESTA E O BURRO

 


London (CNN)In the week that world leaders gathered in New York City for the UN General Assembly, one person's absence cast a long shadow over what was already set to be a tense few days.

French President Emmanuel Macron was never going to be at UNGA in person. It was, however, impossible to detach his non-attendance -- even in virtual form -- from the spat that broke out following the submarine deal between Australia, the UK and US (AUKUS), which subsequently saw the Australian government ditch a multi-billion-dollar agreement with France.
French officials have been, justifiably, furious. Three of its supposed allies struck a deal behind its back with one reneging on a contract agreed years ago. For a man who has spent his presidency presenting himself as Europe's most serious leader both internally and on the world stage, it was a major embarrassment .- aqui

 

Monday, May 25, 2020

VACINA EM SETEMBRO


Britânicos podem ter acesso a vacina a partir de Setembro.


Quem o garante, em declarações à BBC,  é Pascal Soriot, um francês, director de uma farmacêutica com sede em Cambridge, no Reino Unido, que também afirma que os cidadãos daquele país estarão entre os primeiros a receber as doses, a partir do outono.

Pode ser que seja verdade.
Por enquanto assiste-se à corrida mundial de declarações e promessas.
Também neste caso, não faz nenhum mal acreditar. Afinal, setembro é já ali!, talvez modere a ânsia de transigir e arriscar que ameaça uma recidiva da pandemia a forçar um esforço impossível de médicos, enfermeiros e todos quantos já estarão exaustos nas várias frentes desta guerrilha descontrolada.

Monday, June 12, 2017

DESAFIOS DE UMA MAIORIA (MUITO) ABSOLUTA

Depois dos resultados de ontem a França, que confirmaram as sondagens, os partidos tradicionais e os seus rebentos depararam-se com a perspectiva deste cenário após a segunda volta no próximo domingo:


A culpa, dizem eles, é da abstenção.
A culpa, acrescentam, é do sistema: se a eleição fosse proporcional, o partido do presidente não iria além dos 186 lugares na AN. 
E todos procuram mobilizar o eleitorado na segunda volta. 
Provavelmente, sem grande sucesso porque os abstencionistas na primeira volta não estão contra Macron mas, muito principalmente, contra os partidos tradicionais e seus filhotes. 

A abstenção, já o anotei aqui neste caderno de apontamentos, não é uma obrigação, salvo nos casos em que é uma obrigação compulsiva, mas um direito: o direito de não votar.
Em França, tudo aponta no sentido de que o centro político vai ganhar. Afinal, o centro político não está em coma mas bem desperto.
E a abstenção, contrariamente ao que dizem os mais ou menos extremos, não ganhou. Não votar não é votar. Quem se abstém, não vota, e, não votando, é absurdo atribuir uma vitória à abstenção por mais expressivo que seja o número daqueles que se abstiveram. 
E, porque há uma segunda oportunidade, a democracia não sai ferida mas robustecida qualquer que seja o nível de abstenção no próximo domingo. 

Mas o que me levou a abordar hoje o resultados das legislativas em França, mas também no Reino Unido, é o mérito relativo das eleições por círculos uninominais. Não sendo isento de eventuais efeitos negativos, é aquele que mais aproxima os cidadãos dos seus representantes na casa da democracia e que, contrariamente ao sistema proporcional, garante maior coesão dos valores que estruturam a sociedade. 

Há muito tempo que a discussão sobre a alteração do sistema vem enchendo a boca dos principais partidos em tempos de vazio eleitoral, mas ninguém avança porque ninguém cede nas prerrogativas de fazer eleger amigos e conhecidos invocando o fantasma do caciquismo. 
O caciquismo para se perpetuar precisa de suporte que lhe permita obrar sem cobrar impostos. É essa a causa da tendência para a dinossaurização dos autarcas. No caso dos deputados o efeito perverso do caciquismo é (seria) bem menor.

Saturday, May 06, 2017

PAÍSES DIVIDIDOS

O Financial Times de hoje publica, com destaque na primeira página, mais uma reportagem sobre as eleições de amanhã em França - France: A divided nation decides.

O título parece sugerir que a divisão é uma particularidade francesa na véspera de eleições, quando as sondagens apontam para Monsieur Président Macron no Palácio do Eliseu  por uma margem folgada de cerca de 20 pp.
Se as sondagens se confirmarem, a França não poderá considerar-se um país mais dividido do que muitos outros onde a prevalecem sistemas democráticos, bem pelo contrário. 
Mr.Trump ganhou as eleições norte-americanas de Novembro e o apoio maioritário no Senado e na Câmara dos Representantes mas perdeu o voto popular por quase 3 milhões de votos. 
O Brêxit venceu por margem mínima num referendo absurdo que vai influenciar sobretudo o futuro dos mais jovens, aqueles que ainda não tinham idade de votar ou, tendo-a, não se mobilizaram para expressar a sua vontade. 
Em qualquer dos casos, presidenciais nos EUA e em França, referendo no Reino Unido, os eleitores tinham duas hipóteses, e não mais que duas, para optar. 

A partição do eleitorado em dois blocos antagónicos de peso sensivelmente igual é a regra geral em democracia. Por que é que essa partição acontece com tanta frequência, não sei.
Há bastante tempo anotei neste caderno de apontamentos a mesma dúvida, sem resposta.

Se amanhã o sr. Macron superar os 60% e a srª. Le Pen não atingir os 40% poderá considerar-se que, ainda neste caso, a França é um país dividido?
Pode. Por uma razão decisiva: Entre o sr. Macron e a srª. Le Pen há um abismo que separa a democracia da protoditadura. 
Mas não se observa o mesmo nos EUA presididos por Mr. Trump, assumido suporte de Mme Le Pen?
Talvez não. Mr. Trump pode ser substituído ao fim de quatro dos de mandato, se não for antes. 
A eventual eleição de Mme Le Pen, ou a ultrapassagem da fasquia crítica dos 40%, animará os seus adoradores para uma continuada progressão das suas falácias e crescimento das suas hostes.

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Correl. - Qui est le militant pro-Trump qui a realayé les "Macronleaks"?



Entretanto, Putin continua a pescar enquanto a União Europeia continua à pesca.

Thursday, May 04, 2017

O FASCÍNIO DA MENTIRA

- Não voto na Le Pen porque não posso votar. Mas tenho dois filhos aqui em Saint-Gilles, que têm nacionalidade francesa, e que vão votar na Marine Le Pen. E se tivesse cá o terceiro, também ele votaria na Le Pen, garanto-lhe!
- E não o preocupa a possibilidade de ser expulso para Portugal por não ter nacionalidade francesa? Não o preocupa que ele tome medidas, relativamente aos emigrantes, idênticas às anunciadas pelo Trump nos Estados Unidos da América?
- Não me preocupa nada. O Trump disse que fazia muita coisa mas vai-se a ver e não faz nada do que disse que faria ...

No confronto de ontem à noite entre os dois candidatos à presidência de França, com reflexos tremendos no futuro da Europa se Le Pen vencer - e não está garantido que não possa vencer - ouviu-se, de um lado, uma argumentação consistente e elaborada, e, do outro, um corrupio de afirmações ou questões curtas para emprenhar pelos ouvidos.

Macron venceu o debate e consolidou a vantagem que as sondagens lhe atribuem? Talvez.
Mas não é descartável a hipótese de uma maioria de eleitores, como os dois portugueses de Saint-Gilles, votarem contra os seus próprios interesses iludidos pelo cântico da sereia nacionalista.

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Correl. - Emmanuel Macron files complaint over Le Pen debate 'defamation' 

"Macron came to Greece’s aid during our crisis. The French left should back him" - Yanis Varoufakis




Thursday, February 09, 2017

OS MAIS, OS MENOS E OS NADA DEMOCRÁTICOS

O Economist publica aqui o ranking anual dos índices de democraticidade observados em 2016, segundo os critérios do seu "Intelligence Unit", desta vez subtitulado com referência à declaração, que depois corrigiu, de Hillary Clinton durante a campanha eleitoral considerando "deploráveis"(mal informados) os que votavam em Trump :  Democracy Index 2016 - Revenge of the "deplorables"

O futuro se encarregará de demonstrar até que ponto aquela declaração de Hillary Clinton foi politicamente incorrecta mas premonitoriamente acertada. Para já, "a vingança dos mal informados" colocou Trump na Casa Branca, não sabemos por enquanto quantos mais "litle trumps" aproveitarão para surfar com sucesso a onda populista  que se agiganta na Europa.

A próxima ronda joga-se em França, Marine Le Pen vai à frente de vento em popa, a esquerda está desunida, a direita baralhada com o pedido de desculpas de Fillon aos franceses por pagamentos à mulher e aos filhos, mantendo, no entanto, a alegação de que tais pagamentos foram legais, continuando em campanha. 
Emerge, entretanto, com força bastante, segundo as sondagens, para disputar a segunda volta com a representante da extrema-direita, Emmanuel Macron, 39 anos, ex-ministro da Economia e ex-banqueiro de investimentos, casado com uma antiga professora, 24 anos mais velha, politicamente posicionado no quadrante moderado da direita. Enfrenta, contudo, rumores sobre alegada homosexualidade ventilados por media russos, que prometem mais novidades: cf. Macron, o alegado amante e o pael dos media russos.

Prevêm as sondagens que tanto Fillon como Macron ganharão folgadamente na segunda volta, mas as sondagens diziam o mesmo sobre o sucesso de Hillary Clinton. Com uma diferença significativa que torna menos imprecisos os números das sondagens: o candidato que recolhe mais votos a nível nacional é eleito PR. Nos EUA, Clinton ganhou o voto popular mas não foi eleita pelo colégio eleitoral. 

A democracia formal estará nos próximos anos, e desde já em 2017, submetida a uma prova de fogo dos "deplorables", aliciados pelos ventos maviosos que sopram dos extremos, à esquerda e à direita. Que subtítulo terá o "Democracy Index 2017"?

Segundo o "Democracy Index 2016", a Holanda, a Áustria, o Reino Unido, integram o grupo dos vinte países onde a avaliação democrática não oferece reservas. Manter-se-ão neste grupo no ranking de 2017?
Curiosamente, e digo curiosamente porque penso que será surpreendente para muita gente, o Uruguai faz parte deste grupo e é um dos cinco que obtem a cotação máxima no factor "Processo eleitoral e pluralismo".
Portugal posiciona-se no grupo das democracias imperfeitas, em 28º. lugar. Também, surpreendentemente, Cabo Verde ocupa o 23º.
Timor Leste em 43º., o Brasil em 51º., Moçambique em 115º., Angola em 130º., que corresponde a ausência democrática, Guiné-Bissau em 157º.

À Rússia é atribuida a 134ª. posição. Não, por acaso, sopram de lá os ventos da perturbação democrática a ocidente. 


Tuesday, August 30, 2016

PARA LÁ DO MARÃO*

É público que os principais candidatos, da esquerda à extrema direita, já assumidos como tal, à presidência da República Francesa, em Abril do próximo ano, declararam apoiar a "revolta popular" contra o burquini.

Independentemente do julgamento que possa fazer-se sobre a racionalidade da rejeição popular, pode ou não pode a suspensão decidida pelo Conselho de Estado ser revertida por uma votação maioritária na Assembleia Nacional?

Parece que sim, se a suspensão decidida pelo Conselho de Estado se configura, segundo afirma o André Lamas, como a aceitação de uma providência cautelar, sujeita a decisão definitiva, suponho eu, em sede mais competente.

Se for o caso, e ainda que a rejeição da polémica peça nos possa parecer obtusa, é caso para dizer que "para lá do Marão mandam os que lá estão".

Ou não?

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Comentário colocado aqui

Friday, December 18, 2015

TRUMP E OS OUTROS

Trump vai de vento em popa.
Os resultados de uma sondagem publicados no Washington Post de há quatro dias atrás revelam que, vd. aqui, "uma clara maioria (60%) de norte-americanos opõe-se à proibição de entrada de muçulmanos no país proposta por Donald Trump, mas a maioria dos Republicanos (59%) aprova-a."
.
Por outro lado, a mesma sondagem atribui a Trump, vd. aqui, 38% das intenções de voto dos Republicanos, bem longe dos 15% do segundo melhor classificado. 
Aonde quer que se desloque, Trump arrasta os media e estes motivam multidões de seguidores que o aplaudem entusiasmados e se sobrepõem às vaias de alguns opositores temerários que apareçam para estragar a festa. Aconteceu ontem, vd. aqui. em Phoenix (Arizona), nada sugere que ao movimento Trump sustentado basicamente na mensagem xenófoba, contra os sul-americanos e os islâmicos, se venha a opor com sucesso alguma tentativa interna para o desalojar como candidato dos Republicanos nas eleições presidenciais de 8 de Novembro do próximo ano.

Pelo contrário, os outros candidatos estão a aceitar jogar no campo e segundo as regras que Trump escolheu, a questão da segregação na imigração está a sobrepor-se a qualquer outro tema. E quanto mais ele exacerba o discurso xenófobo mais aumenta a distância que o separa dos restantes. 

Na Europa, e não só em França, ainda que sejam mais perceptíveis os confrontos que ali se observam,
os dramas dos refugiados procedentes de países islâmicos sensibilizam uns mas aperreiam as animosidades de outros. E em França, Marine Le Pen progride nos resultados eleitorais, obrigando os outros a inclinarem-se para as suas propostas. Marine como Donald ou, porque foi ela quem deu o mote, Trump como Marine. 

A propósito da vaga populista anti-imigração, lia-se, aqui, no Economist desta semana (The march of Europe´s little Trumps) que os partidos xenófobos foram durante muito tempo ostracizados pelos partidos dominantes. E relembra que os grupos populistas anti-imigrantes começaram a formar-se na Europa na década de 60 quando começaram a aquecer os debates sobre o Islão e a integração de imigrantes islâmicos. Os choques provocados pela introdução do euro vieram impulsionar o euro cepticismo e a relançar o debate anti-imigração, colocando-o no centro das atenções e dos confrontos ideológicos com a entrada massiva de refugiados à procura de abrigos na Europa. 

Para onde caminhará o mundo comandado por Trump dum lado e Le Pen do outro, ninguém sabe. 
Esperemos que essa hipótese, possível, não se concretize. 
Os partidos populistas não podem ser ignorados, conclui em título o artigo cit. do Economist.
Falta saber como confrontá-los.

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Ainda a propósito deste tema, dois artigos publicados em Maio de 2013 no Washington Post merecem uma leitura atenta: 


Mudaram-se as vontades assim tanto nos dois últimos anos?


(clicar nas imagens para aumentar)







Na foto - Menores sul-americanos são capturados pela polícia do Texas quando tentam atravessar a fronteira dos EUA com o México