Showing posts with label xenofobia. Show all posts
Showing posts with label xenofobia. Show all posts

Thursday, November 30, 2023

HÁ ÓDIO POR MUITO LADO

CONVIVÊNCIA SÓ AQUI, ALI E ACOLÁ
 
São frequentes as manifestações, geralmente com distúrbios pelo meio, reclamando medidas contra a entrada de emigrantes que lhes perturbem o sossego da vida, ou a favor da integração de refugiados à procura de um lugar no mundo onde possam viver. 
O ódio, o racismo, a xenofobia, os nacionalismos, incendeiam as sociedades e ameaçam incendiar o planeta antes que alterações climáticas o destruam ou a guerra nuclear, disparada  pelo ódio em crescimento acelerado, acabe por destruir todas as espécies vivas.
 
 
The Old Oak Pub é uma ingénua história sobre uma micro sociedade que descobre na convivência entre culturas distintas a solução para erradicar o instintivo impulso de confronto e destruição da espécie humana. 
É, certamente, essa ingenuidade da história contada neste filme, que cativa a apreciação de uns e move a crítica de outros.
À saída do cinema sentimos-mos animados com a mensagem, momentos depois somos atropelados pela realidade.
 
- E tu, que admiras e aplaudes as medidas de integração de estrangeiros na tua cidade,  acolherias em tua casa uma família de refugiados? 
- Eu não, não posso, casa pequena, percebes?
---

 “Se escolheres a história certa, alcanças uma visão profunda de como o mundo funciona” dizia o decano Ken Loach, que não desiste da prática de um cinema politicamente consciente e socialmente interventivo, focado na experiência fragilizada da classe trabalhadora. Escolheu a história de T.J. Ballantyne (Dave Turner), que luta para manter aberto o seu pub, o “Old Oak”, último local de convívio numa comunidade mineira desvalida do norte da Inglaterra. A chegada de um grupo de refugiados sírios acende tensões raciais, mas a inesperada amizade de T.J. com a jovem Yara (Ebla Mari) faz despontar a esperança num futuro mais unido e radioso." c/p - c/p aqui

Obs . - O castelo normando do filme é uma construção cinematográfica concebida para o efeito e não corresponde a nenhum dos castelos do condado de Durham.

Recomenda-se, a propósito:  The History of Durham Castle

Tuesday, November 08, 2022

OS DEPLORÁVEIS

"They're racist, sexist, homophobic, xenophobic, Islamophobic" - Hillary Clinton - 9 de Setembro de 2016 
"Make no mistake — democracy is on the ballot for us all. " - Biden - Remarks by President Biden on Standing up for Democracy - 2 de Novembro de 2022   
 
"Os 25 norte-americanos mais ricos quase não pagam impostos" - aqui
 ---

A.,

Perguntaste-me há dias se eu percebia porque é que metade dos brasileiros votaram em Bolsonaro e a outra metade, os mais pobres, em Lula, enquanto, grosso modo, nos EUA, os estados mais desenvolvidos, tanto económico como culturalmente, das orlas leste e oeste, votam nos "democratas", liberais, e os dos estados do interior, mais pobres  e menos instruídos, votam nos republicanos, conservadores e ultra-conservadores.

Do meu ponto de vista, tanto no Brasil como nos EUA, a divisão é fortemente determinada pelo nível geral de desenvolvimento económico e social e a geografia do voto reflete essa partilha. No Brasil votaram em Lula os estados onde, por múltiplas razões, são mais elevados os níveis de pobreza e o discurso (e a prática)  de Lula é mais direccionado para as necessidades de larga maioria das populações do norte e, principalmente, do nordeste do país. 
Bolsonaro, na recta final da campanha, ainda correu para o norte e nordeste a prometer políticas assistenciais, mas a promessa tardia já viu o pobre de costas.
No Brasil observou-se  voto útil em causa própria.
 
 
 

 
Nos EUA, pelo contrário, nos estados menos económico e culturalmente desenvolvidos, onde há ressentimento das comunidades rurais contra os privilégios, o cosmopolitismo,  dos grandes meios urbanos, a votação volta-se maioritariamente para os republicanos conservadores e ultra-conservadores que exaltam os valores antigos, contra a imigração, a homofobia, a prevalência do homem, a subalternização da mulher, a xenofobia, e, muito sobretudo, a fé num líder iluminado capaz de conduzir o rebanho segundo os desígnios prescritos nas escrituras sagradas. Não lhes importa a fuga dos multimilionários aos impostos, indignam-se com os impostos que pagam. Votam em promessas de retrocesso de um mundo que consideram a percorrer maus caminhos. E, consequentemente, apoiam Trump e os seus acólitos, que rejeita o estado de direito, as decisões dos tribunais, porque ninguém se pode posicionar acima dele, o deus dos deploráveis.  
 
Hillary Clinton considerou deploráveis estes que não votam em causa própria. Arrependeu-se no dia seguinte e Trump não largou o osso até ao fim da campanha. Hillary fez mal e, também por isso, perdeu a eleição em 2016. Deveria ter esclarecido os destinatários, devia-se ter batido pelas razões subjacentes à designação que usou. 
Biden, há dias, enfatizou o apelo à defesa da democracia, mas foi um apelo que serviu os interesses de Trump e seus correligionários que sabem que, deploravelmente, a democracia é precisamente aquilo que o deploráveis rejeitam.
Eles, Trump, Bolsonaro, Putin, Xi Jinping, ... e tantos outros porque a mancha do totalitarismo, da autocracia, está a alastrar como há noventa anos.

Friday, April 08, 2022

MACRON E O DESTINO DA EUROPA

 c/p The Economist

Why Macron matters

France’s president presents a cautionary tale for centrists everywhere


Britain had voted the previous year to leave the European Union. America had just elected Donald Trump. Across Europe populists were climbing in the polls, even in sober places like Sweden, Denmark and Germany. The far left were in power in Greece. Italy’s Northern League would soon enter government as half of an all-populist coalition that flirted with leaving the euro and rebuffed migrants rescued in the Mediterranean. All around the rich world politicians who promised to raise walls, ignore experts and turn back the clock to an imaginary golden age were in the ascendant. No wonder Mr Macron’s triumph in one of Europe’s most pivotal countries brought sighs of relief.

On April 10th Mr Macron will face voters once again. This time he is running not so much on his aspirations for the radical centre, but on his record as a nuts-and-bolts reformer, on his vision for world affairs, and as a leader who has reinvigorated French politics. In one sense, Mr Macron looks as if he will soon be able to say his record has been vindicated. Our election model gives him a 98% chance of making the second round on April 24th and a 78% chance of winning re-election (albeit a number that has recently been shrinking). Victory would be a remarkable achievement. Not since Charles de Gaulle in 1965 have the French re-elected a president who has a majority in the assembly. However, the closer you look, the more liberals around the world should see Mr Macron as a cautionary tale.

It is in economic policy that his centrism has been most successful. Before taking office in 2017, he argued that France should be open to globalisation, but try harder to equip its citizens with the skills they needed to adapt to change. His pro-market labour and regulatory reforms embodied this philosophy and they have led to an impressive rebound in employment and new-business creation. Rather than trying to preserve redundant jobs, he has boosted training and early education. At the European level, he was a driving force behind the establishment of the NGEU, a €750bn ($818bn) jointly guaranteed fund to help Europe’s weaker economies dig themselves out of the hole into which covid-19 had cast them.

He has, however, left plenty to do in a second term. Mr Macron has been too eager to reach for the levers of state control, whether capping electricity prices or meddling in the management of hypermarkets. For all his ENA-honed competence, he has failed to restore hope to France’s left-behind. Though his supporters would be quick to point out that covid got in the way, he has failed to overhaul the labyrinthine pensions system.

As an international statesman, Mr Macron correctly identified the threat to the Western order from a rising China and an irascible Russia. His solution was to attempt to boost the European Union—a forum where France’s voice counts—even if that undercut the institutions that bind the West together. Rather than confront Vladimir Putin, Russia’s president, he argued for building bridges. He wanted to downplay NATO, which he accused of suffering “brain death”, by building up a European counterpart. Yet, as the war in Ukraine has shown, America’s role in defending Europe is indispensable. Although his efforts to defeat jihadists in the Sahel were courageous and laudable, they have yielded few results and are now unravelling. His dealings with a puerile post-Brexit Britain were petulant—and just what Britain’s unserious prime minister wanted.

It is in reinvigorating French politics that Mr Macron has most fallen short. In the election in 2017 he trounced Marine Le Pen, a nostalgic nationalist, by 66% to 34%. If she makes it to the second round, which is likely, the polls today say Mr Macron would win only narrowly, by 53% to 47%. The proportion of French who tell pollsters that they will vote for a candidate of the nationalist right or the anti-capitalist left in the first round is 51%, slightly more than voted that way in 2017.

In other words, five years of government by the world’s centrist standard-bearer has eroded support for the centre. There are many reasons for this. War and the pandemic have polarised politics, and not only in France. Mr Macron also sometimes repels voters with his aloof Jupiterian manner. Critics dub him “le président des riches”. The label sticks, partly because he cut France’s unworkable wealth tax, but mostly because his manner is that of the high-flying banker he once was. Mr Macron also faces a problem that responsible politicians always face when running against populists. He offers policies boringly grounded in reality. They say whatever will stir up voters, whether or not it is true.

The last reason is that Mr Macron has shown an illiberal neglect of institutions. Although the old politics had too many time-serving deputies, the parties of the centre-left and centre-right have become sideshows in presidential politics. True, responsibility for renewal lay with them, but he made their job harder by poaching their best talent. What is left is a contest between Mr Macron and a cacophony of extremists on the left and the right. As a result, the nearest thing France has to an opposition leader is Ms Le Pen—a historic admirer of Mr Putin who would flout EU rules by favouring French citizens for everything from housing to jobs. Her 21% chance of becoming president is alarmingly high.

In 2016 Mr Macron wrote: “If we don’t pull ourselves together in five years or ten years, [Ms Le Pen] will be in power.” What should centrists make of the worrying fact that, despite all he has done, his words are as true today as they were then?

One lesson is that complex trade-offs struggle to defeat slogans. Politics is so much about tribes and identity that material gains in terms of jobs and economic growth are necessary but not sufficient for re-election. Another is that one person cannot sustain the radical centre. That is not only because too much is riding on each re-election and on a successor turning up, but also because, as centrists know, individuals are flawed. French centrism and its Anglo-American liberal cousins are systems. They require constant renewal, through argument and competition. Mr Macron still has our vote, but he needs company. ■

For subscribers only: to see how we design each week’s cover, sign up to our weekly Cover Story newsletter

For more coverage of the French election, visit our dedicated French election hub

Thursday, January 06, 2022

TODOS CONTRA UM

A,
 
Afinal estás em desacordo com quê?

É ou não é verdade que o Ventura joga para o ar um dos seus, mais que usados, clichês e põe em alvoroço o país político?
Reparaste que, imediatamente, António Costa e Catarina Martins, aproveitaram para desancar no Rio. Era esse o objectivo do Ventura.
Ainda ontem, Isabel Moreira, na RTP, aproveitou para enaltecer Costa e bater no Rio. Ganha o Ventura.
Aquilo que J M Tavares escreve no Público, que não está na órbita da Sic, é claro como água. O "artista" exibe os seus números e se for interpelado tem preparada a fuga para o lado. É imbatível? Não é. Rio poderia ter cortado a paródia pela base se tivesse dito que era o Ventura que tinha de escolher, após conhecidos os resultados das eleições, se apoiava Rio ou Costa, ou um alternativo de Costa, se a sua posição pesar na maioria parlamentar.
Disse-o depois mas já tinha dado muita corda ao papagaio num país onde meio mundo anda a olhar para o balão.
O problema, sim existe um problema, é que Ventura atira para o ar algumas afirmações que vão direitinhas ao que muitos portugueses pensam, e é desastroso para a democracia ignorar isto.

Desde logo a questão da prisão perpétua, que desencadeou uma reacção histérica da oposição a Rio.

Se houvesse um referendo (em países alguns democráticos este tipo de questões são decididos por referendo) quantos portugueses seriam favoráveis à aplicação desta pena em crimes que repugnam a qualquer cidadão? Apertado Ventura saiu-se com a prisão perpétua eventualmente reversível.
É um facto que na União Europeia
(transcrevo daqui : 
mas se é fonte suspeita, farás o favor de me indicar melhor)
em apenas dois países - Portugal e Croácia - não existe a pena de prisão perpétua.
Nos restantes 25 países existe, de facto, a figura de prisão perpétua ainda que com modalidades diferentes — desde logo, porque prevê a liberdade condicional depois de um período mínimo de pena.São eles: Alemanha (15 anos), Áustria (15 anos), Bélgica (15 anos), Chipre (12 anos), Dinamarca (12 anos), Eslovénia (25 anos), Espanha (25 anos), Estónia (30 anos), Finlândia (12 anos), França (18 anos), Grécia (19 anos), Irlanda (12 anos), Itália (26 anos), Letónia (25 anos), Luxemburgo (15 anos), Polónia (25 anos), República Checa (20 anos) e Suécia (18 anos)".
Vivem todos estes países em situação de barbárie civilizacional, segundo Isabel Moreira e Catarina Martins, entre outras e outros?
Sejamos lúcidos.
Ventura é, reconhecidamente, racista. Mas o seu ódio às pessoas de etnia cigana não encontra acolhimento junto de muitos portugueses? Encontra.
Ele, Ventura diz, a respeito dos ciganos, que não é racista. O que ele, diz ele, driblando,  condena é o facto de os ciganos não obedecerem às leis do país. Quem discorda? Todos, e não só os ciganos, os que habitam neste país devem obediência às suas leis. Mas se vamos por este caminho, o Ventura já está lá à frente a exibir-se noutro palco.
E é assim que  se abre caminho para a progressão do demagogo Ventura, discutindo demagogicamente Ventura.

Thursday, November 19, 2020

E VOCÊ, SE TIVESSE UMA FILHA E ELA CASASSE COM UM CIGANO, O QUE PENSAVA?

“Se tivesse uma filha e ela casasse com um cigano, o que pensava?”, questiona Miguel Sousa Tavares. “Não ia gostar”, responde de imediato o deputado (André Ventura). “Não vou ser politicamente correto. Não ia gostar!”

E você, Miguel Sousa Tavares, se tivesse uma filha e ela casasse com um cigano, o que pensava?

Gostei que ela tenha casado com um filho do Ricardo Salgado.

Correl . - Portugal instado a enfrentar racismo contra os ciganos  


Thursday, May 04, 2017

O FASCÍNIO DA MENTIRA

- Não voto na Le Pen porque não posso votar. Mas tenho dois filhos aqui em Saint-Gilles, que têm nacionalidade francesa, e que vão votar na Marine Le Pen. E se tivesse cá o terceiro, também ele votaria na Le Pen, garanto-lhe!
- E não o preocupa a possibilidade de ser expulso para Portugal por não ter nacionalidade francesa? Não o preocupa que ele tome medidas, relativamente aos emigrantes, idênticas às anunciadas pelo Trump nos Estados Unidos da América?
- Não me preocupa nada. O Trump disse que fazia muita coisa mas vai-se a ver e não faz nada do que disse que faria ...

No confronto de ontem à noite entre os dois candidatos à presidência de França, com reflexos tremendos no futuro da Europa se Le Pen vencer - e não está garantido que não possa vencer - ouviu-se, de um lado, uma argumentação consistente e elaborada, e, do outro, um corrupio de afirmações ou questões curtas para emprenhar pelos ouvidos.

Macron venceu o debate e consolidou a vantagem que as sondagens lhe atribuem? Talvez.
Mas não é descartável a hipótese de uma maioria de eleitores, como os dois portugueses de Saint-Gilles, votarem contra os seus próprios interesses iludidos pelo cântico da sereia nacionalista.

---
Correl. - Emmanuel Macron files complaint over Le Pen debate 'defamation' 

"Macron came to Greece’s aid during our crisis. The French left should back him" - Yanis Varoufakis




Monday, March 06, 2017

Friday, January 20, 2017

DESTA VEZ, DA AMÉRICA

A partir de hoje, não sabemos até quando, o amigo de Putin, Donald Trump será o 45º. Presidente dos Estados Unidos da América. Venceu o populismo (não venceu o voto popular) excitado pelas redes sociais, inundadas de forma provavelmente decisiva pelas interferências dos hackers russos. Trump já reconheceu publicamente essa interferência, (obviamente) negou que ela possa ter influenciado os resultados que lhe garantiram a presidência. 

Tenha sido ou não decisiva a interferência de Putin na eleição de Trump, é inquestionável que Putin reforça com a eleição do amigo norte-americano a aura atribuída pela Forbes de político mais poderoso do mundo. Se a Forbes o diz, Trump aproveita para engrossar nos EUA a onda de populismo ensaiada na Europa prometendo tornar a América grande outra vez - "Make America Great Again"-. Sub liminarmente, Trump intuiu nos norte-americanos, mas não na maioria, a ideia de que se Putin - líder de um país com uma economia que valerá quanto muito tanto quanto a economia espanhola - é o mais poderoso, é porque a América perdeu a liderança do poder mundial. E ele, Trump, vai reconquistar o poder perdido. Enfrentando Putin, o mais poderoso?

Não, de modo algum. Trump é um bilionário com muitos negócios e muitos amigos na Rússia, com Putin à cabeça da longa lista, e durante a campanha eleitoral, não se eximiram de trocar lisonjas entre eles. O populismo sustentado no exacerbamento  do nacionalismo, que garante a Putin o poder na Rússia e a ambição de a tornar outra vez grande tem a mesma índole daquele que tuíta Trump. 
Porém, o nacionalismo exacerbado em populismo necessita de se alimentar num inimigo externo. Trump escolheu a China, desfraldando a bandeira do proteccionismo para erguer barreiras ao comércio e à circulação de pessoas, e, por tabela, abanar a ainda inacabada estrutura europeia criticando-lhe a perda das identidades nacionais, a permissividade da circulação de pessoas e o disponibilidade no acolhimento de refugiados. 

Desta vez não virão da América os exércitos libertadores das amarras forjadas pelos nacionalismos endémicos no velho continente. A Srª. Theresa May já anunciou que vai forçar um "Brêxit" duro, ameaçando competir com as armas usadas pelos paraísos fiscais. Trump aplaude e augura um desmembramento da União Europeia, Le Pen rejubila, Putin conta com o apoio incondicional do homem soviético, que muitos distraidamente julgaram acabado, para recuperar a influência de Moscovo sobre o leste europeu sem rumo. 
Pela primeira vez na história, os Estados Unidos da América, por vontade de Trump, estarão do lado daqueles que pretendem a fragmentação do ocidente europeu. 
Cúmplices, admiradores ou simplesmente tácitos aliados, não faltam deste lado do Atlântico a Putin e a Trump.

---
Correl.- Trump apossa-se

Wednesday, January 18, 2017

FRANCISCO VS TRUMP

O canal National Geographic está a transmitir um docudrama (a próxima transmissão será na segunda-feira, 23, às 6,00h) sobre o papel desempenhado pelo Papa Pio XII durante a Segunda Grande Guerra. Foi Pio XII o "papa de Hitler" ou o anátema lançado é injusto?

"Nos dias mais negros da Segunda Grande Guerra, São Pedro estava encoberto pela sombra da suástica. Mas enquanto o Führer o rodeava, o Papa planeava uma contra ofensiva secreta. O Pontífice de Guerra Pio XII foi ridicularizado pelo seu silêncio sobre o Holocausto. Mas provas mostram que o seu silêncio poderá ter sido subterfúgio. E o homem marcado como "papa do Hitler" poderá ter querido eliminá-lo. Pio serviu de intermédio com os rebeldes alemães para montar uma revolta. Entretanto, uma rede de espiões da Igreja coloca os planos em marcha. Mensageiros católicos transportam mensagens entre Roma e Berlim, enquanto conspiradores se juntam na cripta de São Pedro. É um capítulo esquecido de uma guerra. Um confronto secreto entre o vigário de Cristo e o anti-Cristo. Papa Vs. Hitler é um docudrama entusiasmante de duas horas que explora uma das histórias menos conhecidas da Segunda Grande Guerra - o papel do Vaticano na conspiração para assassinar Adolf Hitler." - cf. aqui

Um docudrama, um neologismo que pretende significar uma versão entre a ficção e a realidade, e a ficção, neste caso, enrola-se sobretudo nas eventuais conexões entre o Pio XII e aqueles que na Alemanha arriscavam e pagavam com a vida a ousadia de parar as desmedidas atrocidades dos nazis. A realidade é um facto comprovado: Pio XII nunca fez ouvir publicamente a sua voz em protesto e condenação do holocausto em curso, que ele não ignorava porque viu, com os seus próprios olhos, uma amostra real do horror desencadeado pela fúria da besta. 

E hoje? 
O que diz o Papa Francisco perante a vaga de populismo carregado de ódios racistas, xenófobos, chauvinistas, que ameaçam desagregar a Europa e intensificar o incêndio ateado às suas portas? O que pensa, e se pensa deve dizer porque a força do Papa está na sua palavra, das declarações de Trump quando classificou de catastrófica a política de Merkel perante os refugiados?
Francisco esteve em Lesbos e até levou com ele 12 refugiados sírios para o Vaticano. É pouco, a bem dizer, é nada.
Fala Francisco!, "Estar atento não chega"* para que a história não venha a interpretar o teu silêncio como conivência.  
"Per ché non par li?".

foto c/p aqui
---
* Correl . - Papa Francisco: " O que pensa de Donald Trump?"

"A resposta de Francisco que rejeita julgar políticos e diz que está atento às consequências que os seus comportamentos causam aos pobres e aos excluídos"

Monday, January 16, 2017

PESADELO

Merkel para Trump: 

"Nós, europeus, temos o nosso destino nas nossas mãos"- vd. aqui 

Trump, em entrevista publicada hoje em todo o mundo, permitiu-se classificar de catastrófica a política de acolhimento a refugiados decidida por Angela Merkel, augurou o desmembramento da União Europeia, classificou a NATO como obsoleta, voltou a congratular-se com o Brêxit, além de outras afirmações que deveriam merecer uma reacção à medida deste lado do Atlântico mas foi a voz da chanceler alemã que se fez ouvir.

Nós, europeus, não temos o nosso destino nas nossas mãos mas nas mãos de Merkel. 
Se a sua determinação for submergida pela onda populista que Trump e seus apaniguados continuam a bolsar, o destino dos europeus cairá nas mãos de Putin e Trump. 
Até que um deles engula o outro. 

Sunday, December 11, 2016

EU CHOREI POR TI, DANIEL BLAKE



O nacionalismo alimenta-se da ausência, ou da fragilidade, das estruturas sociais que apoiem os marginalizados pelo crescimento da aldeia global. A humanidade ou será globalmente solidária ou explodirá numa guerra total. O Estado Social não é um instrumento obsoleto insustentável porque é a única via que pode garantir a sustentabilidade da espécie humana.  

*****

Sunday, November 20, 2016

DE LESTE E OESTE SOPRAM NUVENS NEGRAS SOBRE A EUROPA

Não compreendo, mas reconheço, que a tese do politicamente correcto, como justificação da vitória de Trump, esteja a prevalecer na identificação das causas de um sucesso que, não muitos dias antes de 8 de Novembro, era considerado pela generalidade das sondagens como altamente improvável. 

Coloquem-se de parte as causas dos erros das sondagens e foquemos-nos nos resultados. Quem venceu?
Claramente, aqueles que aderiram ao discurso de Trump.
Foi o discurso de Trump um discurso "politicamente incorrecto" e, por esse motivo, sobrepôs-se ao discurso "politicamente correcto" dos seus opositores nas primárias e de Hillary Clinton na corrida final?

Houve, obviamente, uma inversão do sentido das palavras que parece estar a ser geralmente despercebido. Uma mensagem "politicamente correcta" é (ou era) aquela com a qual o emissor procura ir de encontro aquilo que os receptores, na sua maioria, querem ouvir. 
Ou não?
Se assim é, foi Trump e não Clinton quem discursou de forma mais politicamente eficaz, i.e., da forma mais politicamente correcta.

Pelos vistos os norte-americanos que votaram em Trump (menos do que aqueles que votaram em Clinton, mas com melhores resultados pelas razões conhecidas) não votaram por melhor assistência na doença, por melhor segurança social, por mais e melhor emprego (a economia dos EUA está a crescer bem e em quase em situação de pleno emprego) nem por mais igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. As mulheres brancas, aliás, votaram maioritariamente (53%) em Trump. São masoquistas, estúpidas ou adoram ser pegadas pela vagina como disse Trump?

Para mim, a resposta é clara: Trump venceu porque apelou aos instintos nacionalistas, xenófobos, racistas de muitos norte-americanos. Se não porque outra razão? Neste sentido, fez um discurso "politicamente correcto". Ou não?
Não quero acreditar que, os que votaram em Trump, o tenham feito por birra a quem apetece mas não se pode dar uma palmada. Ou por estouvamento juvenil geralmente mal desculpado. 
Agora, não resta senão esperar que a dignidade democrática amadureça os "imaturos" sem palmadas. 

E que a Europa, onde as vagas de nacionalismo atingem alturas assustadoras, não caia nas mãos de trumpitos**.

---
*  Comentário colocado aqui a propósito desta e desta reflexões de J C Alexandre.
**Em França estão a decorrer as primárias para a nomeação do candidato da direita moderada que deverá enfrentar Marine Le Pen, já que a esquerda se encontra desbaratada à partida. Um dos candidatos, Sarkozy, ex-presidente da República, e também o mais mediático, segundo li algures, "mimetiza nos seus discursos os discursos de Marine Le Pen". 
Um trumpito.

Sunday, November 13, 2016

OUTRO OVO DE SERPENTE


Sinceramente, Estimada Suzana Toscano, não compreendo os seus argumentos e muito menos as suas conclusões.

Hillary Clinton reconheceu a derrota e telefonou a Trump. Este disse depois que ela tinha tido palavras amáveis para com ele.
Até aqui, ao comportamento dos Democratas não são atribuíveis reparos.
Concorda?

Depois refere o comportamento não democrático de milhares de cidadãos que se manifestaram nas ruas e uma petição que já terá três milhões de assinaturas.

Ora os "Democratas", eleitores ou não, contam-se em números muitíssimo mais elevados. Pode retirar-se, mesmo validando os seus argumentos, que os "Democratas" estão a ter um comportamento anti democrático porque alguns deles, na realidade uma pequena parte, se manifesta e protesta? Confundir uma parte com o todo não me parece uma aceitável indução estatística. Não concorda?

Por outro lado, uma manifestação de desagrado não é, não pode ser, em democracia considerado um comportamento antidemocrático porque a essência da democracia sustenta-se na liberdade de expressão. 

A mim, porque tenho família nos EUA, o comportamento de Trump preocupa-me não apenas pela soberba e falta de civismo que demonstrou ao longo da campanha mas pelos comportamentos que os seus dislates já estão a promover. 

Na imprensa norte-americana de referência li ontem que em várias escolas começaram a aparecer slogans racistas e inscrições de suásticas nas paredes. E que alguns jovens alarves terão acossado colegas pegando nelas pela vagina porque se Trump o fez por que razão não podem eles fazer o mesmo? São apenas casos isolados, facilmente controláveis pelas instituições?
Hitler, publicamente, não ordenava matar nem perseguir. Regozijava-se com as iniciativas dos que o idolatravam e actuavam de forma que eles acreditavam agradar ao führer.

Estimada Suzana Toscano,

A sociedade norte-americana está agora mais dividida que antes. 
Os sintomas são claros: o racismo, a xenofobia, a misoginia, a intolerância e o fanatismo religioso vão galopar com Trump. É preciso muita ingenuidade para supor que Trump não vai prosseguir pelo caminho que prometeu prosseguir. As primeiras indicações já chegaram. Os resultados prometem um desastre social, não só a nível norte-americano como mundial. 

Pela Europa são vários os trumpitos a esfregar as mãos de contentamento. Foi mais ou menos assim que foi chocado há cerca de oito décadas atrás o ovo da serpente.
---
Correl.


Cartaz convocando manifestação Klu Klux Klan para o dia 3 de Dezembro na Carolina do Norte
c/p aqui

Thursday, November 03, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS- O CROCODILO DA PRAIA DO TAMARIZ

Este ano, São Martinho deve ter decidido chegar com o verão dele mais cedo. Estiveram uns dias de brasa. Há quem diga que estas vagas de calor fora de tempo são agoiros de calamidades.

- E são. Veja o caso dos terramotos no centro de Itália, há mais de uma semana que a terra não pára de se revoltar.
- Tretas! A terra sempre tremeu, e treme sempre sem aviso prévio, esta vaga de calor não tem nada de anormal.
- Hum! Não se ficam pelos terramotos os indícios de que vêm aí outros terramotos ...
- ...
- Imagine que o Trump ganha as eleições na América!
- Ganha, nada!
- Ganha, ganha! Vai ver se não ganha!
- Será um terramoto político a atingir o topo da escala.
- E depois, que diferença é que isso lhe faz?
- Corre com os latinos que lá trabalham honestamente ... Parece-lhe bem?
- A mim, parece. E, digo-lhe mais: aqui faz-nos falta um Trump para correr com os chineses. Agora só vejo chineses à minha frente. Compram tudo. É a EDP, é a REN, é a Fidelidade, ... um dia destes isto é tudo dos chineses. Porquê?
- Porque, se calhar você, e todos nós, até as cuecas lhes compramos. Já viu, por caso, onde foram feitas as cuecas que trás vestidas?
- Talvez por causa disso ..
- Disso de quê?
- Desta vaga de calor.  Deu à costa ali, na praia do Tamariz, um crocodilo com uns quatro metros, bem medidos, de comprimento.
- Está gozar?
- Vá lá ver!

Por volta do meio dia havia uma multidão a contemplar o bicho.

- Talvez por causa disso, do calor, diz você, mas alguém tem alguma dúvida que, se estivesse a chover, o bicho não estava ali?
- Hum! Não sei porque é que diz isso. Crocodilo passa grande parte da vida na água, a chuva não é coisa que o incomode.
- Sim, a este não incomodava, dissolvia-o.
- Olha para ele! Olha para ele! Não parece que está vivo?
- Parece???  Parece, não. Está mesmo vivo!
- Está nada. É construção na areia...
- Como é que é construção na areia??? Olhe para os olhos dele!
- Bom, esses podem ser de plástico...
- De plástico??? Essa é boa ... não vê como eles brilham?
- É do sol. Podem ser de vidro. Vivo é que ele não está. Se estivesse vivo, mexia-se ... acho eu ...
- Crocodilo pode estar horas e horas sem mexer um pêlo ...
- Crocodilo não tem pêlo.
- Pois não. Mas isso aí não pode ser construção na areia. Tem recortes que não se conseguem com areia.
- Só com areia, não. Mas eles, às vezes, juntam-lhe cimento, sabia?
- Sabia, sabia, mas o que ali está não é construção de areia, é mesmo um crocodilo a sério. E se não acredita vá até lá abaixo fazer-lhe umas festas na cachola.
- Oh senhor aquilo é construção de areia! Bem feita, muito realista, sim senhor, mas é construção de areia.
- Então vá lá abaixo, vá! É capaz ou não é capaz?
- Não me apetece descer as escadas para fazer figura de tolo. Vá lá você!
- Gostava de saber o que vai acontecer quando aqui chegar a maré.
- Venha até cá por volta da meia noite...
- Se a maré cá chegar o croco vai nadar.
- Vai nada. Ele é da areia.
- Não é não. É tudo plástico, garanto eu.
- Mas como é que pode garantir isso? Já lá foi abaixo certificar-se?
- Nem preciso. Há coisas dessas no chinês às toneladas ...
- Bem dizia eu que esses gajos metem cá tudo. Até crocodilos gigantes de plástico em tamanho natural... Volte-se para um tipo para onde voltar é tudo chinês agora. Até as cuecas.



No dia seguinte, quando o repórter chegou ao local do estranho aparecimento, já o réptil gigante tinha ido nadar. Não havia vestígios de ter sido dissolvido pela maré.

Saturday, October 08, 2016

UM TIPO ESPERTO

Não passa um dia que Trump não seja primeira notícia dos media norte-americanos, e de todo o mundo. E, quase sem excepção, nenhuma em abono de qualidades que o recomendem para o lugar mais poderoso do planeta. Qualquer outro candidato que tivesse dito ou feito algumas das muitas brutalidades com que Trump tem guarnecido o seu curriculum, já teria sido trucidado pelos media e obrigado a desistir.  Trump, não.

A Trump continua a ser oferecido no palco o lugar de destaque onde ele excita a admiração dos seus seguidores. Mesmo aqueles media mais assumidamente anti Trump concedem-lhe o principal espaço para a ressonância das suas alarvidades. Presumindo, supõe-se, que tanta exposição dos tombos do artista acabará por induzir na assistência a convicção de que a sua queda será inevitável no fim da performance. Até agora, porém, se aqui e ali parece iminente a sua queda em palco, a probabilidade de Trump ganhar as eleições de hoje a um mês não é negligenciável. A exposição mediática pela negativa parece ter, até agora, favorecido Trump. "Não importa que digam mal de mim; o mais importante é que falem de mim" parece ser também o lema deste artista. 

O Washington Post de hoje divulga um vídeo de 2005 - vd. aqui -, e transcreve grande parte do seu conteúdo, uma conversa com um primo de George W. Bush, aparentemente off the record, pouco tempo depois de ter casado com a sua actual mulher, sobre os assaltos sexuais e uma tentativa gorada do empresário candidato, gabando-se do sucesso que a sua condição de star lhe permite junto das mulheres e das tácticas de sedução com que as submete aos seus instintos. Confrontado com esta divulgação respondeu com um expedito pedido de desculpas a quem se sinta ofendido por declarações que, segundo ele, são bem menos graves do que aquelas que foram ouvidas a Bill Clinton.

Há uns dias atrás, quando foi tornado público que não pagou impostos directos durante os últimos 18 anos, Giuliani, que foi mayor de Nova Iorque, e é um dos seus mais deslumbrados apoiantes, afirmou que ele é um  génio que soube aproveitar as malhas da lei para passar tanto tempo sem contribuir com um cêntimo para as despesas públicas. Trump considerou-se apenas esperto, e continua a negar-se a mostrar as suas declarações de rendimentos.

Por outro lado, num país que tem como ponto de referência do seu sucesso no contexto mundial a liberdade e a heterogeneidade das origens dos seus cidadãos, as suas declarações xenófobas e racistas não parecem estremecer  em metade da sua população o sentimento de civismo colectivo esperável numa democracia madura. Porquê?

À esquerda, as explicações sustentam-se principalmente nos efeitos perversos da globalização e da concentração da riqueza, que dizimaram empregos e reduziram as oportunidades e os rendimentos das classes médias. Para as classes atingidas pela crise - apesar dos últimos oito anos terem sido de recuperação económica, e do emprego para os níveis anteriores à crise -  os escândalos, sexuais ou outros, protagonizados pelo candidato populista não os demovem da aposta que já fizeram.
Para a direita, o populismo nos EUA, em França, no Reino Unido, na Holanda, na Alemanha, sustenta-se nas ameaças de terrorismo figuradas em cada vulto de contornos islâmicos que veja a seu lado. E, por instinto reactivo, a xenofobia e o racismo instalam-se e progridem.

Provavelmente, Trump não será eleito. Mas o vírus está instalado.
Aconteceu mais ou menos o mesmo há cerca de oito décadas atrás.

Tuesday, September 13, 2016

SIM, METADE DOS APOIANTES DE TRUMP É RACISTA*


Hillary Clinton considerou "racistas, sexistas,homofóbicos, xenofóbicos, islamofóbicos" os apoiantes de Trump durante uma reunião, no dia 9 com apoiantes seus. E que, metade dos que votarão em Trump,  coloquem-nos no que ela considera o cesto dos deploráveis - "You can put half of Trump supporters into what I call the basket of deplorables".
Perante a reacção dos trumpistas, H Clinton, para  desmotivar a questão pediu desculpa, mas apenas por ter referido um número, 50%. De qualquer modo, o acontecimento passou a fazer parte do já enorme  arsenal de armas de arremesso nesta guerra pela entrada na Casa Branca. 

Exagerou Clinton? 
Ou, dito de outro modo, quase metade dos eleitores norte-americanos é racista, sexista, homofóbica, xenofóbica, islamofóbica? e, metade destes, ou seja 1/4 dos apoiantes de Trump são deploráveis? O termo usado por Clinton não é corrente, sobretudo quando usado no plural, é ambíguo (vd. aqui) mas percebe-se o alcance.

Considerando os resultados de uma sondagem da YouGov, que incluía quatro questões acerca de "ressentimento racial"  comentados aqui, à primeira vista a estimativa de 50% de Mrs. Clinton parece impressivamente correcta: 58% dos inquiridos que afirmaram apoiar Trump situam-se no quartil dos mais elevados níveis de ressentimento racial. Por outro lado, 91% dos votantes em Trump situam-se acima da média nacional daqueles que, sem atingirem os níveis (deploráveis) de ressentimento, sentem desagrado.
Contudo, como qualquer sondagem no campo sociológico, os resultados compostos impõe algumas leituras mais analíticas.

* Sobre o mesmo tema:
Yes, half of Trump supporters are racist

Thursday, June 16, 2016

UM TRIO DOS DIABOS :TRUMP, BORIS JOHNSON E LE PEN

A democracia directa favorece a emergência de discursos populistas que excitam o povo à volta de uma ou pouco mais questões fracturantes, que encaminham os votantes para posições antagónicas. Se o ambiente em que se realizam as votações não é democrático, o populismo impõe-se pela ameaça de represálias sobre os recalcitrantes e os donos do terreno impõem a sua vontade reclamando vitórias esmagadoras; se as votações são democráticas, onde a liberdade de expressão não é de algum modo condicionada, os discursos populistas dirigem-se às motivações primárias, instintivas, menos raciocinadas, das populações, e os resultados são geralmente apertados.  

Na próxima quinta-feira, 23, os britânicos vão dizer se sim ou não pretendem sair da UE.
A 8 Novembro, os norte-americanos vão eleger entre Hillary Clinton e Donald Trump o próximo presidente dos EUA.
A 23 de Abril do próximo ano (a 7 de Maio, se houver, e provavelmente haverá, segunda volta) Marine Le Pen perfila-se em posição para disputar a presidência em França.

Que há de comum entre estes três personagens? Qualquer deles capta a adesão de seguidores culpando os imigrantes pelas dificuldades sentidas sobretudo nas camadas mais desfavorecidas da população.

É assim no Reino Unido, onde Boris Johnson, segundo as sondagens divulgadas hoje conseguirá o Brexit com uma vantagem de entre 4 a 5 pontos percentuais,  e entrar em Downing Street, 10th., impondo o discurso anti imigração - um discurso que inclui a ameaça de uma invasão de imigrantes turcos em número superior ao da população total da Turquia ...
Um discurso que, a confirmarem-se as previsões das sondagens, submergirá os avisos de jornalistas, economistas, empresários, financeiros, sobre as consequências negativas do Brexit, tanto para o Reino Unido como para a União Europeia.
Ironicamente, Boris Johnson tem ascendência turca.

Nos EUA, a onda que tem elevado Trump a níveis de popularidade ameaçadores da paz interna e mundial parece estar agora a começar a desvanecer-se, na sequência do retorno ao discurso extremista a propósito do tiroteio em Orlando. Segundo as sondagens, Hillary Clinton terá agora uma vantagem de 12 pp. mas nada garante que Trump, até Novembro, não volte a ser capaz de incendiar o eleitorado económico e socialmente menos elevado, e inverter a tendência das sondagens.
Curiosamente também, Trump, que ameaça a expulsão de milhões de mexicanos do país, além de vedar a entrada de muçulmanos, tem ascendência mexicana.

Em França, é ainda sobretudo a questão da imigração, a xenofobia, que favorece Marine Le Pen. Com um discurso aparentemente menos radical que o do pai, fundador do partido de extrema-direita, Marine não alterou o discurso xenófobo, adoçou-lhe o veneno.

Está a democracia condenada a submeter-se aos radicalismos de esquerda e direita, voltando os horizontes a cobrir-se  de nuvens carregadas de terror como as que desabaram sobre  a Europa no começo e em meados do século passado destruindo-a e, ao destruí-la, propagar a destruição pelo mundo inteiro?
A resposta tem de ser dada pela inteligência.
Mas na Europa preponderam os nacionalismos, ostensivos ou disfarçados, e os nacionalismos perturbam o discernimento dos homens.

---
Enquanto escrevia as duas últimas linhas saltou-me no ecrã esta notícia:



Deputada britânica alvejada na rua está em “estado crítico”


Testemunhas dizem que atacante gritou "Reino Unido primeiro" enquanto disparava sobre Jo Cox, que defende a permanência do país na União Europeia.

Sabemos como as guerras começam, nunca saberemos como acabam.

Friday, December 18, 2015

TRUMP E OS OUTROS

Trump vai de vento em popa.
Os resultados de uma sondagem publicados no Washington Post de há quatro dias atrás revelam que, vd. aqui, "uma clara maioria (60%) de norte-americanos opõe-se à proibição de entrada de muçulmanos no país proposta por Donald Trump, mas a maioria dos Republicanos (59%) aprova-a."
.
Por outro lado, a mesma sondagem atribui a Trump, vd. aqui, 38% das intenções de voto dos Republicanos, bem longe dos 15% do segundo melhor classificado. 
Aonde quer que se desloque, Trump arrasta os media e estes motivam multidões de seguidores que o aplaudem entusiasmados e se sobrepõem às vaias de alguns opositores temerários que apareçam para estragar a festa. Aconteceu ontem, vd. aqui. em Phoenix (Arizona), nada sugere que ao movimento Trump sustentado basicamente na mensagem xenófoba, contra os sul-americanos e os islâmicos, se venha a opor com sucesso alguma tentativa interna para o desalojar como candidato dos Republicanos nas eleições presidenciais de 8 de Novembro do próximo ano.

Pelo contrário, os outros candidatos estão a aceitar jogar no campo e segundo as regras que Trump escolheu, a questão da segregação na imigração está a sobrepor-se a qualquer outro tema. E quanto mais ele exacerba o discurso xenófobo mais aumenta a distância que o separa dos restantes. 

Na Europa, e não só em França, ainda que sejam mais perceptíveis os confrontos que ali se observam,
os dramas dos refugiados procedentes de países islâmicos sensibilizam uns mas aperreiam as animosidades de outros. E em França, Marine Le Pen progride nos resultados eleitorais, obrigando os outros a inclinarem-se para as suas propostas. Marine como Donald ou, porque foi ela quem deu o mote, Trump como Marine. 

A propósito da vaga populista anti-imigração, lia-se, aqui, no Economist desta semana (The march of Europe´s little Trumps) que os partidos xenófobos foram durante muito tempo ostracizados pelos partidos dominantes. E relembra que os grupos populistas anti-imigrantes começaram a formar-se na Europa na década de 60 quando começaram a aquecer os debates sobre o Islão e a integração de imigrantes islâmicos. Os choques provocados pela introdução do euro vieram impulsionar o euro cepticismo e a relançar o debate anti-imigração, colocando-o no centro das atenções e dos confrontos ideológicos com a entrada massiva de refugiados à procura de abrigos na Europa. 

Para onde caminhará o mundo comandado por Trump dum lado e Le Pen do outro, ninguém sabe. 
Esperemos que essa hipótese, possível, não se concretize. 
Os partidos populistas não podem ser ignorados, conclui em título o artigo cit. do Economist.
Falta saber como confrontá-los.

---

Ainda a propósito deste tema, dois artigos publicados em Maio de 2013 no Washington Post merecem uma leitura atenta: 


Mudaram-se as vontades assim tanto nos dois últimos anos?


(clicar nas imagens para aumentar)







Na foto - Menores sul-americanos são capturados pela polícia do Texas quando tentam atravessar a fronteira dos EUA com o México

Sunday, April 26, 2015

O ASSASSINATO DA FRANÇA

“As elites estão a assassinar a França”, afirma Michel Houellebecq  numa entrevista publicada hoje aqui. Dito por qualquer outro francês, e a maioria dos franceses dirá o mesmo, aliás como a maioria dos portugueses, dos espanhóis, etc., a respeito dos seus países, a afirmação seria anódina, de tão batida. 

Dita por Houellebecq, titula a entrevista a um escritor que, para além dos méritos que lhe possam ser reconhecidos, e serão muitos, merece agora  protecção policial permanente desde a publicação de "Submisão", ocorrida, vantajosamente para ele, quase em simultâneo com o massacre de Charlie Hebdo. Aliás, o livro e a entrevista recolhem, com humor perverso, o sentimento generalizado de uma larga maioria de franceses, e não só, que vêm na progressão islâmica motivo mais que suficiente para se barricarem em posições extremistas de direita. 

Michel Houellebecq satiriza o incómodo e a inabilidade ocidental perante um avanço que não sabe conter e muito menos combater. As elites, submergidas pela vaga invasora, limitam-se a esperar pela oportunidade de colaborar com o invasor e assassinar a França. 

Premonitório ou provocador, a Houellebecq qualquer dos atributos convém. "Soumission" não é um romance; é um manifesto político romanceado. A capa da edição portuguesa é muito elucidativa da intenção do texto.
Quem não gosta do estilo são os putativos intrusos.
 ---
correl. - Sobre Huellbecq