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Wednesday, May 29, 2019

O PROFESSOR E O LOUCO


                                              ****

"Londres, século XIX. Há mais de duas décadas que vários estudiosos da Universidade de Oxford tentam criar um dicionário que, para além de definições rigorosas dos termos, englobe também a história e evolução da língua inglesa. Em 1879, James Murray, um escocês de cultura vasta e espírito inquiridor, torna-se responsável pela finalização do empreendimento. Para concretizar a tarefa, que a todos já parece impossível, Murray tem uma ideia: pedir a voluntários que compilem e lhes enviem palavras dos vários livros que leiam. É assim que William Chester Minor, um cirurgião norte-americano há anos hospitalizado numa instituição psiquiátrica para criminosos, se junta a Murray. Esta parceria durará anos e resultará numa profunda admiração e amizade entre dois homens muito diferentes mas igualmente geniais." 
c/p aqui

Saturday, May 26, 2018

ROTH


Philip Roth merecia o Nobel.

Este ano o Nobel da literatura não foi atribuído em consequência de um escândalo sexual, vd. aqui que envolve o marido de um dos membros da Academia Sueca. Para o ano haverá dois prémios Nobeis.

Nenhum deles será atribuído a Roth, falecido há quatro dias.
Pelas ridículas razões que estiveram na origem da não atribuição do Nobel este ano.
O mais provável, contudo, é que, se não tivessem existido essas ridículas razões, haveria ridículas explicações para a Academia Sueca,  na sequência do ocorrido nos últimos anos, atribuir o Nobel a autores sem reconhecido mérito para o merecer.
Terá a literatura mundial descido a um nível tão baixo ou o olhar dos académicos suecos, de tão frouxos, são incapazes de avaliar quem se situa bem acima dessa mediocridade?


Sunday, October 29, 2017

KAZUO ISHIGURO



"Este livro não sai da cabeça, recusa-se a ir embora, força o leitor a voltar a ele ... excepcional." - Neil Gaiman, The New York Times.

A publicidade na portada de um livro coloca-me sempre de pé atrás.

Há dias, soube-se que a Kazuo Ishiguro foi atribuído o Nobel de Literatura deste ano. Das suas obras editadas em português só se encontrava disponível nas livrarias, no dia do anúncio da Academia Sueca, a última, "O Gigante Enterrado", publicado em 2015, escrito dez anos após a publicação da anterior. 

O que levou a Academia Sueca a esperar doze anos para atribuir o Nobel a um autor que ganhara o Booker Prize em 1989 com "Remains of the Day", adaptado a cinema quatro anos depois?
Muitos outros autores vencedores do Booker nunca foram nem serão distinguidos com o Nobel, mas este prémio máximo da literatura foi atribuído dois anos depois da publicação do último romance de um conjunto de sete, além de quatro roteiros para cinema, televisão e teatro. 
Foi decisiva, para a distinção Nobel, a publicação de "O Gigante Enterrado"

Se foi, deve continuar o Comité Nobel para a atribuição do Prémio de Literatura confuso, ou a procurar confundir-nos, com os seus critérios de avaliação do mérito dos autores galardoados nos últimos anos. 
Li "O Gigante Enterrado", não porque o livro me tivesse forçado a voltar a ele, mas porque percorri com alguma persistência as 405 páginas da edição portuguesa simplesmente com o objectivo de tentar descortinar nele o mérito que é suposto possuir. E não cheguei lá. 
Com menos trezentas páginas, esta novela, que é um conto sobre a amnésia colectiva mergulhado nas lendas dos tempos do rei Artur, arrastaria durante menos tempo os protagonistas da história e a paciência do leitor. 
O mesmo poder-se-à  dizer do "Ensaio Sobre a  Cegueira", mas Saramago lembrou-se primeiro de ficcionar o comportamento social em situação de ausência de visão.  

Wednesday, December 28, 2016

HISTÓRIA FRICCIONADA

“Pode sempre detectar-se um tolo: é o homem que diz conhecer qual é o candidato que vai ganhar uma determinada eleição. Porém, uma eleição é algo de vivo, poderá até dizer-se que não existe seja o que for mais vigorosamente vivo, com milhares e milhares de cérebros, pernas, olhos, pensamentos e desejos, que podem ziguezaguear, voltar-se e tomar direcções que ninguém previra, muitas vezes só pelo gozo de provar que os sabichões estavam enganados. Foi uma das coisas que aprendi no dia passado no Campo de Marte”. - aqui

Interessante, sem dúvida. 

Não sei, no entanto, se consistente com as fontes em que o autor encheu o pote com que cozinhou a sua novela.
A ficção sustentada em personalidades e factos históricos é apelativa, alcança lugares cimeiros nos rankings dos best sellers. Resumindo, num chavão comum "é o que está a dar". O sr. José Rodrigues dos Santos é, por agora, entre nós, o exemplo mais bem-sucedido na capacidade de engrolar a história. Ainda não alcançou a projecção mundial e os proveitos de um Dan Brown mas continua afanosamente a trabalhar para isso.
Não me agrada a História ficcionada porque nem é ficção nem é História mas uma forma de fazer fortuna distorcendo, porque inventando, uma história onde o leitor desprevenido é levado a absorver como realidade aquilo que não passa de ficção. 


Perguntar-me-á: Mas, por exemplo, Shakespeare não recorreu à História para construir a mais grandiosa obra da literatura ocidental? Recorreu, e não tão raramente traiu, mas a sua genialidade é tanta que são quase irrelevantes para o leitor ou expectador os nomes dos personagens. Podiam ser outros e não se perturbava a essência da obra. Para além disso, a literatura como a arte, ou é original ou não é arte nem literatura. Um fulano que hoje pinte como Degas pintava pode ser bem-sucedido (e muitos são) se o fizer como falsário. Se for suficientemente habilidoso mas honesto, assumindo a sua autoria, não venderá as obras que produza pelo preço que lhe custam as telas e as tintas. 

O último período do seu texto é exemplar desta forma insinuante de revisitar o passado e moldá-lo às recentes falhas estrondosas das previsões sobre o Brexit ou a eleição de Trump. 
Tirão, se escreveu o que Harris cita, deve ter, momentaneamente, esquecido que as votações na Roma Antiga dependiam mais da força das armas e do poder do dinheiro que da vontade manipulada pelas redes sociais da actualidade. 

Monday, October 17, 2016

CLARIVIDENTE OU CABOTINO

A Academia Sueca desiste de contactar Bob Dylon, laureado este ano com o Nobel da Literatura, após várias tentativas a que o cantor autor respondeu com o silêncio.
Um comportamento que pode ser prenúncio da recusa do prémio.
Seria a terceira, depois de Boris Paternak, por imposição do regime soviético, e Jean-Paul Sartre por questões de princípio de não aceitar prémios.

Se Bob Dylon recusar, recusa porquê?
Por clarividência?
Por cabotinismo?

Thursday, October 29, 2015

UCRÂNIA, ANOS TRINTA DA COLECTIVIZAÇÃO


"Que recordação temos nós de Béria? Da Lubianka? A minha mãe ficou calada ... Uma vez recordou como num verão, depois das férias, ela e o meu pai regressavam da Crimeia. Atravessavam a Ucrânia. Isto foi nos anos trinta da colectivização ... Na Ucrânia havia uma grande fome, golodomor em ucraniano. Morreram milhões ...morriam aldeias inteiras ... Não havia quem enterrasse os mortos ... matavam os ucranianos porque eles não queriam entrar para os kolkhoses. Matavam-nos à fome. Agora sei isso. Em tempos tinha havido a fortaleza de Zaporojié, o povo lembrava-se da liberdade ... A terra ali é tal que espetamos uma estaca e cresce uma árvore. E morriam à fome ... como gado.Tiraram-lhe tudo, até à última migalha. Cercavam-nos de tropas, como num campo de concentração. Agora sei isso ...Tenho uma amiga ucraniana no trabalho que ouvia a avó contar ... Como na aldeia deles uma mãe matou o seu próprio filho com um machado para o cozer e dar de comer aos outros. O seu próprio filho ... Tudo isso aconteceu ...Receavam deixar as crianças saírem de casa. Apanhavam as crianças, como os gatos e os cães. Escavavam na horta, apanhavam minhocas e comiam-nas. Quem podia, arrastava-se até à cidade, até aos comboios. Esperavam que alguém lhes atirasse uma côdea de pão... Os soldados expulsavam-nos a pontapé, à coronhada ... os comboios passavam a toda a velocidade. Os condutores fechavam as janelas, cerravam as cortinas. E ninguém perguntava nada a ninguém. Chegavam a Moscovo: traziam vinho, fruta, orgulhavam-se do seu bronzeado e recordavam o mar. (Silêncio.) Eu gostava de Estaline ... Amei-o durante muito tempo. Amava-o mesmo quando começaram a escrever que ele era pequeno, ruivo, e tinha uma mão seca. Que havia morto a mulher. Mesmo quando o destronaram e retiraram do mausoléu. Eu amava-o na mesma."

Margarita Pogrebítskaia, médica, 57 anos
O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO / Svetlana Aleksievitch/ Nobel da Literatura 2015

Monday, October 19, 2015

RENASCIMENTO SOVIÉTICO



"Cresceu na sociedade o interesse pela União Soviética. Pelo culto de Estaline. Metade dos jovens dos dezanove aos trinta anos consideram Estaline  "o maior dirigente político". Num país em que Estaline liquidou tantas pessoas como Hitler, um novo culto de Estaline?! Tudo o que é sovético está outra vez na moda. Por exemplo, os cafés "soviéticos" - com nomes soviéticos e pratos soviéticos. Surgiram os bombons "soviéticos" e o salame "soviético" - com o cheiro e o sabor nossos conhecidos desde a infância. E, é claro, a vodka "soviética". Na televisão há dezenas de transmissões e na Internet dezenas de sites nostálgicos "soviéticos". Podem fazer-se visitas turísticas aos campos estalinistas - em Solovka, em Magadan. O anúncio promete que para mais completa sensação fornecem um fato de campo e uma picareta. Mostram os barracões restaurados. E no final organizam uma pescaria...
Renascem ideias antiquadas sobre o Grande Império, sobre a "mão de ferro", sobre "a via russa especial" ... Reapareceu o hino soviético, há o Konsomol, mas chama-se simplesmente "Nachi" (os "Nossos"), há o partido do poder, que copia o Partido Comunista. O Presidente tem um poder como o do secretário-geral. Absoluto. Em vez do marxismo-leninismo, a religião ortodoxa."

O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO - UM TEMPO DE DESENCANTO 
Stevlana Aleksievitch



                                  The Stalin Monument (The Hague)(2006)
                                                       Komar and Melamid

Friday, October 09, 2015

O SEM FIM DO HOMEM SOVIÉTICO

A Academia Sueca decidiu atribuir este ano o Nobel da Literatura a Svetlana Aleksievich, notabilizada  pela sua obra de investigação jornalística.

Dificilmente escapará esta atribuição a ser, como não raras vezes o foi no passado, conotada com  motivações  políticas. Desde logo por uma parte muito significativa da população russa, que, segundo Svetlana Aleksievich venera Putin como venerou Stalin. A Rússia não dispensa um czar.

Numa altura em que as relações entre o ocidente e a Rússia voltaram a confrontar-se em várias linhas vermelhas, o Nobel deste ano, independentemente do mérito literário da obra da escritora bielorrussa, recorda-nos as atribulações de escritores distinguidos com o Nobel durante o perído soviético. Boris Pasternak, Nobel da Literatura em 1958, não foi autorizado por razões políticas a receber o prémio; a Alexander Soljenítsin, Nobel em 1970, foi retirada a nacionalidade russa e expulso do país em 1974. 

Svetlana Aleksievich, nascida em 1948, entrevistou testemunhas dos mais dramáticos acontecimentos no seu país, a Segunda Grande Guerra, a guerra entre soviéticos e afegãos, a queda da União Soviética, o desastre de Chernobyl, e com esses testemunhos compôs a sua obra. Condenada pelo regime de Lukashenko, saiu da Bielorússia em 2000, passado a viver em Paris, Gotemburgo e Berlim. Voltou a Minsk, a sua cidade natal, em 2011.



"Há nesta obra de Svetlana Aleksievich, Prémio Nobel da Literatura deste ano, sobretudo uma análise sobre o perfil do homem russo". "Todos nos convencemos que, com a queda do império soviético, haveria da parte do povo um sentimento satisfação pela conquista da liberdade, pelo fim de um regime ditatorial, e o que ela reflete neste livro, através de centenas de testemunhos, é que não foi isso que aconteceu".
"Houve, antes, um grande desencanto no povo russo, e uma espécie de saudade dos tempos gloriosos em que a Rússia era de facto um grande império universal, e isso explica - como ela mostra perfeitamente -, o recrudescimento, entre os jovens, de um grande culto de Estaline, e de uma grande ambição de que a Rússia pudesse voltar a ser o espaço geográfico determinante no mundo" o que "explica muito o que está hoje a acontecer com [Vladimir] Putin".

 Manuel Alberto Valente, editor, Porto Editora

Thursday, September 17, 2015

POVO INDEPENDENTE

Os islandeses serão provavelmente, o povo mais cioso da sua independência. Poucos, cerca de 330 mil, mas orgulhosos da sua capacidade para ultrapassar as barreiras que a natureza ou os homens lhe colocaram pela frente. Deles se pode dizer que sempre se governaram porque nunca se deixaram governar. 

Na transição do primeiro para o segundo milénio já os godi, os representantes das comunidades, se reuniam em assembleia legislativa, anualmente no mesmo local, integrado hoje num parque nacional, para discutir e aprovar as leis que regiam as relações sociais em todo o território. 

Uma vez, a sua capacidade para consensualizar o modo de regular os seus interesses colectivos atingiu quase o ponto de ruptura quando o rei da vizinha Noruega, senhor de uma força naval considerável, entendeu que era tempo de os relapsos pagãos da Islândia abandonarem os seus ritos pagãos e as suas sagas e abraçarem a mensagem da Bíblia cristã.  

Por essa altura, já muitos habitantes da ilha, por uma razão ou outra, adoravam o crucificado. Reunidos os godi, o consenso tardou mas foi conseguido: Aceitaram o baptismo mas, quem quisesse, poderia continuar a adorar quem bem entendesse desde que o fizesse em privado; e, como prova irrefutável da sua conversão logo ali se fizeram baptizar e aclamaram o rei da Noruega como seu rei.
Este, no entanto, viria a morrer pouco depois numa batalha com outros vizinhos nórdicos sem nunca ter posto os pés na ilha ao lado. 

A mesma história repetir-se-ia ao longo dos séculos: sempre reinados por outros e sempre independentes. 

Halldór Laxness , Nobel da Literatura em 1955, é o gigante maior de um povo que se habitou a contar sagas nas longas noites árticas desde os começos da colonização do território no séc. IX.  Escreveu dezenas de obras, "Povo Independente" é uma novela épica deste povo geograficamente isolado mas culturalmente avançado. 
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"Povo Independente" encontra-se traduzido em dezenas de línguas.  Em Portugal foi editado pela "Cavalo de Ferro"com o título "Gente independente".

Saturday, August 15, 2015

LÁPIDES PARTIDAS

A "Livraria Bertrand" do Chiado é, mais do que uma livraria, uma instituição que já deveria ter sido reconhecida de interesse público, não vá um vendaval de interesses financeiros fechar aquele espaço durante o tempo suficiente para o reabrir como McDonald´s, loja de telemóveis ou outra actividade pop. Segundo o que pode ler-se aqui, "em Abril de 2010, a Bertrand ganha o Guinness World Records para «os mais antigos livreiros em actividade» e a livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, ganha o World Guinness Record para «a mais antiga livraria em actividade». 

Ainda que a motivação deste apontamento seja outra, anote-se que o charme de uma outra livraria, no Porto, - Livraria Lello - é tanto que os actuais proprietários se viram obrigados a moderar o número de visitantes estabelecendo que  "a partir de 23 julho de 2015 a entrada na livraria custa três euros, que são descontados na compra de livros". 

Passámos esta tarde pelo Chiado, e os nossos mais novos, habituados a alguns rituais adquiridos em anos anteriores, entraram na livraria, e nós fomos atrás deles. Fiquei-me pela primeira sala, aquela onde do lado direito foi em tempos criado o "Cantinho do Aquilino", uma singela homenagem registada em placa discreta afixada numa estante. 

- Diga-me sff., que foi feito daquela placa que sinalizava a ligação de décadas entre Aquilino Ribeiro e a Bertrand e se encontrava ali naquele canto?
- Foi retirada. Foram feitas algumas obras de recuperação e limpeza ... e limparam a placa ... Está guardada, algures.

Sinais dos tempos. 
No "Cantinho do Aquilino" já não existem sequer livros à venda do escritor.
No seu cantinho, mora agora ao seu lado Eusébio da Silva Ferreira. 


Sunday, April 26, 2015

O ASSASSINATO DA FRANÇA

“As elites estão a assassinar a França”, afirma Michel Houellebecq  numa entrevista publicada hoje aqui. Dito por qualquer outro francês, e a maioria dos franceses dirá o mesmo, aliás como a maioria dos portugueses, dos espanhóis, etc., a respeito dos seus países, a afirmação seria anódina, de tão batida. 

Dita por Houellebecq, titula a entrevista a um escritor que, para além dos méritos que lhe possam ser reconhecidos, e serão muitos, merece agora  protecção policial permanente desde a publicação de "Submisão", ocorrida, vantajosamente para ele, quase em simultâneo com o massacre de Charlie Hebdo. Aliás, o livro e a entrevista recolhem, com humor perverso, o sentimento generalizado de uma larga maioria de franceses, e não só, que vêm na progressão islâmica motivo mais que suficiente para se barricarem em posições extremistas de direita. 

Michel Houellebecq satiriza o incómodo e a inabilidade ocidental perante um avanço que não sabe conter e muito menos combater. As elites, submergidas pela vaga invasora, limitam-se a esperar pela oportunidade de colaborar com o invasor e assassinar a França. 

Premonitório ou provocador, a Houellebecq qualquer dos atributos convém. "Soumission" não é um romance; é um manifesto político romanceado. A capa da edição portuguesa é muito elucidativa da intenção do texto.
Quem não gosta do estilo são os putativos intrusos.
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correl. - Sobre Huellbecq

Saturday, January 10, 2015

MUDANDO DE ASSUNTO

Porque não se deve perder o que melhor se produz, e esteja ao nosso alcance, li um dos dois livros de Gonçalo M Tavares publicados no mesmo dia, em meados do mês passado: "Uma menina perdida no século à procura do pai". Este livro e o outro que não li ainda, "Os velhos também querem viver",  foram comentados aqui, no Público. A RTP entrevistou o autor - vd. aqui - na altura do lançamento simultâneo das duas obras, a primeira em Lisboa, a segunda em Coimbra. 

Gonçalo M Tavares é um escritor que, apesar de ter começado a publicar apenas há cerca de quinze anos, recebeu os aplausos generalizados, alguns vibrantemente entusiásticos, de escritores como José Saramago, Vasco Graça Moura, António Lobo Antunes, Eduardo Lourenço, entre outros, portugueses e estrangeiros. A sua obra está já traduzida em dezenas de países. 

«Há um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares.»José Saramago «Estou convencido de que dentro de cem anos ainda haverá teses de doutoramento sobre passagens e fragmentos de "Uma Viagem à Índia".»Vasco Graça Moura «De onde vem este talento tão só consigo mesmo, por mais referências que jogue? Esta frieza a quente,»Maria Velho da Costa «Eu acho que há um caso de genialidade, que é o Gonçalo M. Tavares.»Mário de Carvalho «Porque é que havemos de pôr as coisas em termos de Nobel?! Talvez fosse preferível pensar-se "Poderão ser grandes escritores ou não?" (...) o mais cotado parece-me, sem dúvida o Gonçalo M. Tavares. Sem dúvida.»António Lobo Antunes «Gonçalo M. Tavares é um escritor diferente de tudo o que lemos até hoje. Ele tem o dom — como Flann O’Brien, Kafka ou Beckett — de mostrar a forma como a lógica pode servir eficazmente tanto a loucura como a razão.» The New Yorker 

Apesar de tantos testemunhos pessoais e evidências editoriais à volta, depois de ter lido "Jerusalém", "Uma viagem à Índia", entre outras obras deste escritor,  não me apercebi em  "Uma menina está perdida no seu século à procura de pai" daquele golpe de asa que o elevaram já às alturas da genialidade.

Na entrevista da RTP, Gonçalo M Tavares começa por considerar que a extensão do título - "Uma menina está perdida no seu século à procura de pai" - é já um percurso. A menina, duplamente fragilizada por sofrer Trissomia 21 e não saber do pai,  não está perdida no espaço, está perdida no tempo. E, envolto nesse tempo em que a menina está perdida, Gonçalo M. Tavares imerge numa narrativa onírica, surrealista, que cada um entenda como quiser.

É pouco.

Wednesday, December 31, 2014

UM PAÍS COMO UMA CASA EM CHAMAS


Há neste 25º. romance de A Lobo Antunes uma casa habitada por personagens condenados à amargura das suas vidas desesperadas. Conversas dispersas, suspensas, cruzadas, no tempo e no espaço, interrompidas, inacabadas, compõem uma colagem que obriga o leitor a uma identificação, frequentemente labiríntica, dos fios com que o autor tece um texto amargo do princípio ao fim ainda que pontuado por notas de humor cáustico, por vezes divertido. 

É uma metáfora do país que habitamos neste final de 2014? 
Em certo sentido sim. Mas não me parece que essa identificação, que já vi referida numa ou outra apreciação crítica, possa ser transposta do tempo do romance (meados do século passado) para o Portugal de hoje sem alguma ressalva. Certamente que aqueles personagens enclausurados num espaço comum repartido caracterizam uma sociedade que subsiste ainda que os fantasmas que as habitam tenham mudado de pele e de nome. Mas não são estes os personagens que ocupam a cena deste país em chamas que habitamos hoje, não são estes zombies que atearam o fogo e colocaram uma parte da população em fuga. 

"Caminho como uma casa em chamas", repete obsessivamente o autor, num quadro onde as alusões, os traumas dos residentes da casa (Quem manda, quem manda, quem manda, Salazar, Salazar, Salazar, repetições que lhe retiram intemporalidade) não remetem para o Portugal actual, saqueado por políticos sem escrúpulos, banqueiros gananciosos, crápulas com máscaras que ninguém, por mais que o deteste, confundirá com o ditador de Santa Comba.

Portugal caminha como uma casa em chamas. É do título que destaco a maior actualidade desta obra de A Lobo Antunes.

Sunday, November 30, 2014

NEVOEIRO

OS AVISOS
Quinto
Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quer. 
Ninguem conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ancia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro ...

É a Hora!

Valete, Fratres.*

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Fernando Pessoa faleceu a 30 de Novembro de 1935, com 47 anos de idade.
A "Mensagem", única obra publicada em vida do poeta, comemora amanhã 80 anos.
---
* "Valete, Fratres", significa "Sejam fortes, Irmãos" e é utilizada nos rituais roza-cruzes. "Valete", entre os romanos, foi uma expressão vulgar de despedida, equivalendo a "adeus" ou "até à vista" - Richard Zenith / Fernando Pessoa - Poesia do Eu.

Thursday, September 18, 2014

A VIDA É FEITA DE NADAS

aqui contei como, ainda adolescente, me tornei leitor de Torga e admirador precoce da sua personalidade. Muitos anos mais tarde, E., reparando na estante a minha afeição pelo poeta de São Martinho de Anta,  disse-nos que o médico escritor era seu primo, aliás primo de sua mãe, e um dia, inesperadamente, ofereceu-nos uma tijela antiga, da série Estátua, da Fábrica de Sacavém, garantindo-nos que era naquela peça de cerâmica que o primo Adolfo comia as sopas. Agradecemos a gentileza mas não considerei nunca muito estimável o valor da peça enquanto suposta relíquia. 


Ontem, pelo acaso de uma olhadela fortuita a um daqueles livros que comprámos a mais para o tempo que vamos dispor para os poder ler todos, regalei-me com este texto de Luís de Oliveira Guimarães retirado de "Aquilino Ribeiro através do seu ex-líbris":

 "Raul Brandão, tendo ido, uma vez, a São Miguel de Seide visitar a casa onde viveu e morreu o romancista do Eusébio Macário, contava depois, num grupo de amigos: - Vi, há dias, Camilo em Seide ... E, após um momento de silêncio, ante a expectativa dos que o rodevam, continuou: - Isto é, vi o seu boné de pala e a sua cadeira de braços!

Henrique de Campos Ferreira Lima, que era um garrettiano fervoroso, ofereceu, certa ocasião, ao museu da Academia das Ciências de Lisboa uma chávena que pertenceu a Garrett: uma chávena de porcelana inglesa, verde-malva, levemente doirada no bordo e na asa, marcada das iniciais do poeta e do timbre das suas armas. Lembro-me de Júlio Dantas escrever, por essa altura, que, ao examinar aquela chávena que as mãos de Garrett por certo tantas vezes haviam tocado, tivera a sensação radiosa, não só de que via Garrett, mas de que o ouvia".

A tijela de Torga não é de porcelana inglesa mas é verde-malva, não tem o bordo doirado mas ligeiramente estalado, e não há nela qualquer marca nem timbre de quem a usou. Contudo, nenhuma falta de sinais heráldicos na portuguesíssima peça, até porque sendo Torga um princípe não era visconde,  justifica a minha falta de ouvido. Vou passar a estar mais atento. A fé exige predisposição. 

Sunday, September 14, 2014

OS MAIAS



Há muito tempo que não assistia à exibição de um filme com tanta gente na plateia. Se o público é parte do espectáculo teatral ou musical, no cinema ainda o ambiente de uma sala quase cheia favorece mais uma apreciação positiva do filme que a frieza de uma sala quase vazia.

Quanto aos "Maias" de João Botelho, considero-o um desafio enorme meio perdido. Numa escala de um a cinco, três, porque a sala, não sendo pequena, estava muito composta.

Friday, January 10, 2014

SOPHIA, A SUA POESIA,


Sophia,
merece  melhor companhia
e,
Sophia,
merecia
melhor família.




Monday, January 06, 2014

PEITO GRANDE, ANCAS LARGAS

A blogosfera dá várias voltas à terra. De vez em quando aterram na caixa de imeiles mensagens que já  teriam voado, se saíssem da órbita terrestre, porque andam à velocidade da luz, distâncias que chegariam aos confins do universo. Do Humberto, recebi hoje uma dessas mensagens capazes de ter percorrido o infinito . E quem sabe, se não? 


Considerando a antiguidade do apontamento do autor psiquiatra, o seu prazo de novidade já se esgotou há muito. E, no entanto, ela motivou-me para uma nota sobre um livro que acabei de ler recentemente: Peito Grande, Ancas Largas, de Mo Yan, o vencedor do prémio Nobel da literatura em 2012.

Atravessando a história da China desde a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial até, praticamente, aos dias de hoje (inicialmente publicado em fascículos em 1995), o romance é encenado na região onde Guan Moye (Mo Yan é pseudónimo, significativamente, "não fala")  nasceu e cresceu, em Gaomi, no nordeste chinês, e é um registo realista das vicissitudes a que o seu povo foi sujeito pela alternância dos déspotas que a evolução política geral gerava, envolto em narrativas mágicas retiradas da tradição lendária local. Se a influência, entre outros, de Gabriel Garcia Marquez, é muito perceptível no estilo, a mim, a tenacidade da principal personagem - a Mãe - recordou-me A Mãe Coragem de Brecht.

Voltando ao apontamento de Júlio Machado Vaz, Peito Grande, Ancas Largas, é, para além do drama, uma sátira, minada num filão de ironia. Jintong, narrador da maior parte da história, o filho insistentemente procurado pelos meios disponíveis, após um insucesso traduzido em seis irmãs, e ainda uma outra, sua gêmea, revela-se o menos capaz da prole. Jintong percorre toda a narrativa com uma incurável obesessão: pelas mamas das mulheres, de todas, a começar pelas da sua mãe.

"Então a Mãe abriu a blusa e pôs-me o mamilo na boca. Agarrei-me a ele como um afogado a uma palha e mamei desesperadamente. Na minha boca o leite tinha um sabor vegetal ...Com o mamilo na boca e a mão em concha no arredondado da sua mama, ia massando e defendendo (da irmã gêmea) a
outra com o meu pé... Para mim, o processo de amamentação, ao longo daqueles intermináveis meses de Inverno, esteve sempre rodeado de ansiedade, visto que, quando tinha a boca na mama esquerda, só conseguia pensar na direita..."


Mais, só lendo o livro.

Peito Grande, Ancas Largas - Loja on-line Imperdível da Ciranda

Saturday, August 31, 2013

TARAS MODERNAS

Mais de seis anos depois de ter colocado aqui um apontamento sobre o negócio das taras (pelo menos de uma espécie delas) defrontei-me hoje com mais uma prova de proliferação da praga. Não haveria muito mais a acrescentar ao que referi naquela altura se não se desse o lamentável caso de mais este espaço destinado à venda de embalagens de toda a forma e feitio para guardar tudo e mais alguma coisa, que a vaga de consumismo transborda, se instalar onde durante dezenas de anos foi uma livraria enorme, como são todas as "Barnes & Noble", com áreas de leitura, sempre uma delas dedicada aos mais jovens, café (Starbucks), secção de discos, vídeos, etc, proporcionando um ambiente agradável, reconfortante.Além do mais, o B&N é (era) uma alternativa de ocupação e iniciação à leitura dos mais pequenos. É nítida a inspiração da Fnac na concepção da B&N, salvo o negócio de electrónicos que, no caso da B&N se limita ao seu NOOK.

A Barnes & Noble (bendita wikipedia), fundada no último quartel do sec. XIX, é a maior cadeia de livreiros dos EUA  (675 em Abril deste ano) mas vem apresentando nos últimos tempos sintomas evidentes das consequências dos ataques da concorrência de vendas processadas através da internet (com particular destaque para a Amazon) e das plataformas electrónicas de que os iPad e quejandos são, por agora, a frente mais avançada. Tentou reagir oferecendo a leitura electrónica através de uma plataforma própria (NOOK) a um preço reduzido mas de utilização muito limitada. Falhou.

Na área de Washington DC, em pouco tempo a B&N encerrou dois espaços. Em Georgetown, foi tomado pela Nike; aqui perto, pela loja de embalagens e vazilhame em geral. A "grande abertura" está prometida para 21 e 22 de Setembro. Não me admirarei se houver filas intermináveis à procura de descontos de arromba. Mais do que nunca, as taras estão na moda. Num aspecto o cartaz de promoção que reveste a cerca das obras me intriga: "The Container Store - Contain Youself!" .

O que é que os tipos querem dizer com aquilo?

 

Friday, August 09, 2013

GERALDINAS

"A escritora Maria Teresa Horta considera que "este é um Portugal ingrato, é um Portugal que não gosta de si próprio, não gosta do melhor que tem ... Urbano Tavares Rodrigues não ganhou os prémios que merecia, porque não pertencia "a grupinhos e capelinhas e a catedrais, ..."- aqui
 
É inquestionável que Urbano Tavares Rodrigues foi maltratado. Porque, além do mais, foi preso e torturado, porque foi expulso do ensino, porque esteve exilado. Mas foi este Portugal, o de hoje ou o de ontem, que o maltratou? Não foi. Lamentavelmente, os portugueses são pouco dados a leituras. Bem sucedidos, se medirmos o sucesso número de exemplares vendidos, só aqueles que as televisões empregam como pivots ou comentadores de qualquer coisa, que aproveitam a projecção mediática para escrevinhar e retirar bons, ou mesmo excepcionais,  dividendos disso.
 
Maria Teresa Horta acusa um Portugal constituído por grupinhos, capelinhas e catedrais que, obviamente, são apenas isso mesmo, grupinhos, subentendendo-se, neste caso, grupinhos de indivíduos do meio literário ou relacionados com esse meio, ficando muito aquém de representar uma parte significativa ou com influência significativa na sociedade portuguesa. Alguma vez foi diferente?
 
Mas se a generalização de Maria Teresa Horta é excessiva e as conclusões pouco pertinentes - até porque, muito provavelmente, a Urbano Tavares Rodrigues nunca seduziram os prémios - já são pertinentes algumas das afirmações que faz quando projectadas sobre outras corporações, com particular destaque dos grupos políticos ou aparentados. É aí, sobretudo, que os compadrios se reproduzem e se alimentam os vícios morais que Maria Teresa Horta denuncia, sendo muito evidente que se relacionam e se retribuem entre si os grupos afins das diferentes corporações.
 
A esta conivência reciprocidades assiste absorto e alheado um Portugal que é quase  Portugal inteiro.
 
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Na morte de Urbano Tavares Rodrigues

No dia 9 de Agosto de 2013
houve uma vaga de calor. De certo modo
ele morreu dentro de um seu romance -
Não foi notícia de abertura. Os telejornais
mostraram mulheres gordas em Carcavelos
e um sujeito pequenino (parece que ministro)
a falar de "cultura política nova."
Mais tarde este dia será lembrado
como a data em que morreu
Urbano Tavares Rodrigues.

Manuel Alegre
Lisboa 9/8/2013
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