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Monday, December 27, 2021

AUTO-RETRATO DO GATO


 


 
 
Serei um cão, um macaco ou um urso,
Tudo menos aquele animal vaidoso
Que se vangloria tanto de ser racional.

John Wilmot

Sunday, March 21, 2021

CRIPTOARTE

O kitsch vende na Internet

Como se numa realidade paralela, que é a do digital, fala-se de uma nova arte, a criptoarte, mas, a julgar pelas obras, o escândalo é mais económico do que estético.

Obra "#444 - The Fork" do artista português Rodolfo Oliveira
 
Uma nova arte ou (apenas) mais um modo de mostrar, circular e vender produtos? A pergunta é pertinente no lastro da notícia que chegou da Internet e da Christie's. A casa leiloeira britânica vendeu uma obra digital intitulada Everydays — The First 5000 Days, uma colagem de imagens que o artista americano Beeple (Mike Winkelmann) colocou online desde 2007. Um comprador conhecido como Metakovan, arrecadou o trabalho por 69,3 milhões de dólares, mas a compra não se realizou com a moeda oficial dos EUA. O que possibilitou a transacção foi uma criptomoeda conhecida como ether.
 
Em poucas horas, o acontecimento estava transformado em notícia: a venda ultrapassara os recordes anteriores da Christie’s (Jeff Koons e David Hockney), mas a obra em causa, Everydays — The First 5000 Days não era uma pintura ou uma escultura, antes um arquivo de imagem, um .jpg. Em termos visuais, nada tinha de singular ou disruptivo: tratava-se, simplesmente, de uma imagem digital composta de várias imagens digitais, passível de ser reproduzida e distribuída. Mas aquela venda foi descrita, pela leiloeira e pelo artista, como um objecto não fungível, no original, em inglês, um non-fungible token (NFT), isto é, uma coisa não trocável, único.
 
 (c/p aqui)

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Mas isto é arte?
Se dizem que é arte, é arte.

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 ...
Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

c/p aqui

Sunday, March 25, 2018

UM DIA UMA VIDA



Esteve até hoje em cena no Teatro Aberto.

"Um dia uma vida é um espectáculo nascido a partir de um poema (de Ruy Belo) em que o sujeito poético, que não dormiu, observa  o dia a amanhecer, a crescer, a passar, a fenecer, voltando a anoitecer. Essa voz dá-nos conta das transformações da natureza e da população, das mudanças do próprio sujeito que fala, à medida que o tempo passa, "irrefragável", incontido".
Um dia que pode bem ser uma vida inteira  - resumida, vista de longe por quem acabou de passar.

Marta Dias, Dramaturgia e encenação

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Sunday, May 29, 2016

MANUEL MADEIRA

Soube, esta manhã, por telefonema do Luciano M. que faleceu Manuel Madeira.
Ouvi, e rebobinou-se na minha mente a convivência, temporalmente curta mas suficientemente impressiva para perceber bem que, aquele técnico, de grande craveira que foi meu colega na direcção de uma empresa de um grupo multinacional, possuía uma estatura humanista e uma percepção filosófica de interpretação da vida que só os espíritos superiores conseguem alcançar.
Não voltámos a encontrar-nos durante quase quarenta anos até que, por uma destas coincidências que o tempo quando se alonga por vezes acaba por fazer surgir se a amizade perdura, me associei a homenagem que lhe foi  prestada na Biblioteca de Faro no lançamento de um dos seus últimos livros de poesia.

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Perplexidades

Encosto o meu ouvido rente ao chão que piso
e fecho os olhos.
Pouco me falta para beijar a terra
enquanto escuto o rumor mais fundo
que da fundura chaga até a perder o rumo,
disperso que me encontro na matéria escura
entre os grãos do silêncio confundido com eles.

Sou um naco de acaso envolto na teia
que ignota aranha teceu sem saber o que tecia
nas voltas que deu para me prender
como presa que sou de obscuro predador.

Permaneço atónito no seio da escuridão
onde se forja a luz que chegará ou não.

in Universo aberto com trancas à porta - Novembro 2012

Sunday, November 30, 2014

NEVOEIRO

OS AVISOS
Quinto
Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quer. 
Ninguem conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ancia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro ...

É a Hora!

Valete, Fratres.*

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Fernando Pessoa faleceu a 30 de Novembro de 1935, com 47 anos de idade.
A "Mensagem", única obra publicada em vida do poeta, comemora amanhã 80 anos.
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* "Valete, Fratres", significa "Sejam fortes, Irmãos" e é utilizada nos rituais roza-cruzes. "Valete", entre os romanos, foi uma expressão vulgar de despedida, equivalendo a "adeus" ou "até à vista" - Richard Zenith / Fernando Pessoa - Poesia do Eu.

Thursday, September 18, 2014

A VIDA É FEITA DE NADAS

Já aqui contei como, ainda adolescente, me tornei leitor de Torga e admirador precoce da sua personalidade. Muitos anos mais tarde, E., reparando na estante a minha afeição pelo poeta de São Martinho de Anta,  disse-nos que o médico escritor era seu primo, aliás primo de sua mãe, e um dia, inesperadamente, ofereceu-nos uma tijela antiga, da série Estátua, da Fábrica de Sacavém, garantindo-nos que era naquela peça de cerâmica que o primo Adolfo comia as sopas. Agradecemos a gentileza mas não considerei nunca muito estimável o valor da peça enquanto suposta relíquia. 


Ontem, pelo acaso de uma olhadela fortuita a um daqueles livros que comprámos a mais para o tempo que vamos dispor para os poder ler todos, regalei-me com este texto de Luís de Oliveira Guimarães retirado de "Aquilino Ribeiro através do seu ex-líbris":

 "Raul Brandão, tendo ido, uma vez, a São Miguel de Seide visitar a casa onde viveu e morreu o romancista do Eusébio Macário, contava depois, num grupo de amigos: - Vi, há dias, Camilo em Seide ... E, após um momento de silêncio, ante a expectativa dos que o rodevam, continuou: - Isto é, vi o seu boné de pala e a sua cadeira de braços!

Henrique de Campos Ferreira Lima, que era um garrettiano fervoroso, ofereceu, certa ocasião, ao museu da Academia das Ciências de Lisboa uma chávena que pertenceu a Garrett: uma chávena de porcelana inglesa, verde-malva, levemente doirada no bordo e na asa, marcada das iniciais do poeta e do timbre das suas armas. Lembro-me de Júlio Dantas escrever, por essa altura, que, ao examinar aquela chávena que as mãos de Garrett por certo tantas vezes haviam tocado, tivera a sensação radiosa, não só de que via Garrett, mas de que o ouvia".

A tijela de Torga não é de porcelana inglesa mas é verde-malva, não tem o bordo doirado mas ligeiramente estalado, e não há nela qualquer marca nem timbre de quem a usou. Contudo, nenhuma falta de sinais heráldicos na portuguesíssima peça, até porque sendo Torga um princípe não era visconde,  justifica a minha falta de ouvido. Vou passar a estar mais atento. A fé exige predisposição. 

Monday, June 09, 2014

POESIA ESGOTADA



Ouço na rádio que a edição única de "A Morte sem Mestre" colocada hoje à venda na Feira do Livro de Lisboa esgotou em hora e meia, que a editora deu instruções para não ser vendido mais que um exemplar a cada comprador, e que a edição, também única, de "Servidões", editado em 2013 já está a atingir no mercado secundário os 300 euros.

Há nesta opção do autor pelas edições únicas uma intenção que dificilmente poderá considerar-se poética. O valor  de uma coisa também depende da sua raridade. A procura de poesia é, geralmente, escassa, mesmo se o quilate é elevado. A edição única de uma obra de um poeta consagrado garante, pelo menos, que nenhum exemplar ficará por vender. E a internet mais tarde ou mais cedo fará chegar a obra, limitada impressa, toda ou partes dela, ilimitadamente e graciosa a todos quantos gostam de poesia e não foram a tempo para conseguir um exemplar de uma edição restrita.

É este o caso de "Minha Cabeça Estremece"
dito aqui pelo autor.

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Correl. - Novo livro de Herberto Helder surpreende, deslumbra e irrita
Irrita quem não o pode ler.

Thursday, March 06, 2014

DISCUSSÃO DO SEXO DOS SINAIS DE TRÂNSITO

O "Público", que ontem fez 24 anos, entregou por um dia a direcção da edição a Adriana Calcanhoto. Para além do suplemento dedicado ao Brasil, reteve a minha atenção um artigo - De onde veio o homem do chapéu que atravessa as passadeira?- que não passaria de uma mera curiosidade se a jornalista não tivesse ido buscar honorabilidade académica a uma tese de doutoramento defendida na Universidade de Aveiro em 2005 - Representações do masculino e do feminino na sinalética -. 

O tema suscitou, aliás, à directora do dia um artigo - O peão e o poeta - irónico, humorado, daquele humor colorido e quente, para  ser ouvido, quando lido, com a maviosidade da língua portuguesa falada no Brasil. A ironia de Adriana neste artigo - ao colocar Pessoa no sinal de trânsito - é mais perceptível se o correlacionarmos com o que ela escreve no Editorial - Para tudo se acabar na quarta-feira - um título irónico na oportunidade para quem é directora por um dia, terça-feira de Carnaval. Pergunta Adriana: "Seria mesmo o fato, reza a lenda, de que ele tinha um pênis exageradamente pequenino e era o seu facetador, que o empurrava para ser outro homem qualquer que não seja ele mesmo?"
.
Um achado, este de Adriana, e de chapéu, acessório que as damas ainda prezam depois dos cavalheiros o terem abandonado no bengaleiro, que involuntariamente reduz a tese do professor Bessa a uma discussão inútil apesar das suas longas trezentas e senta e duas páginas.



Monday, February 24, 2014

O BINÓMIO DE NEWTON

"O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó

(O vento lá fora)."
- Fernando Pessoa / Poesias de Álvaro Campos  (1928-1935)


Um estudo recente (divulgado há uma hora atrás no Economist) descobriu que a actividade cerebral dos matemáticos quando olham para equações é motivada na mesma área emocional do cérebro e tão intensa quanto a que estudos anteriores tinham reportado durante experiências de contemplação de beleza em outros domínios. Dito de outro modo, as fórmulas emocionam no mesmo sentido que as artes visuais e a música. - vd. aqui. Ainda segundo o mesmo estudo nem todas as fórmulas são susceptíveis de entusiasmar a mente com igual intensidade. Talvez porque o assunto ainda esteja mal aprofundado.

Pessoa, o assombroso Pessoa, já lá chegou há uns 84 anos atrás.

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Dedicado a Catarina F., que amanhã defende tese de doutoramento na área de neurologia pela Universidade de Lisboa. 

Friday, January 10, 2014

SOPHIA, A SUA POESIA,


Sophia,
merece  melhor companhia
e,
Sophia,
merecia
melhor família.




Sunday, August 07, 2011

CITAÇÃO


"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."

Carlos Drummond de Andrade
 
(Proposta por Humberto A.)

Tuesday, August 02, 2011

BASÍLICA DE SAN PEDRO

Basílica de san pedro

Di, Jesucristo, ¿por qué
me besan tanto los pies?

Soy San Pedro aquí sentado,
en bronce inmovilizado,
no puedo mirar de lado
ni pegar un puntapié,
pues tengo los pies gastados,
como ves.

Haz un milagro, Señor.
Déjame bajar al río,
volver a ser pescador,
que es lo mío.

Ricardo Alberti
....

(O Humberto enviou-me um e-mail com a tradução deste poema. Agradeço-lhe e peço-lhe que me releve a opção de o colocar aqui na versão original)

Thursday, December 11, 2008

OS AMIGOS DE CAMILO

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!
.
Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.
.
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quasi rotos.
.
Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!
.
Camilo Castelo Branco

Wednesday, July 16, 2008

PESSOA

Portugal Holds on to Words Few Can Grasp
By
MICHAEL KIMMELMAN Published: July 15, 2008
LISBON — The latest brouhaha involving cultural property is unfolding here — and not, for a change, over stolen vases or precious war booty, but a poet’s correspondence. As usual, it’s a window onto a nation’s character. The elderly heirs of Fernando Pessoa, the exalted Portuguese writer, plan this fall to auction Pessoa’s correspondence with Aleister Crowley, the early-20th-century British mystic, mountaineer, writer and practitioner of black magic.
Portugal’s culture minister is among those who have shown distress in recent days about the letters’ leaving the country.
.

Tuesday, December 25, 2007

SUAVE MILAGRE


"O Menino Jesus entre os Doutores", de Albrecht Duerer, 1506, Museu Thyssen, Madrid

Fritavam os filhós,
e os olhos do miúdo
olhavam espantados o fogo da lareira,
cansados de esparar
o Menino Jesus,
que havia de descer,
antes do amanhecer,
pela chaminé.

Ainda falta muito tempo, Mãe?

Já falta pouco.
Filho, não sejas patarouco
e vai dormir,
ele há-de vir, mas pode demorar.

A olhar a lenha a arder,
começou a sonhar,
e a ouvir aquilo que diziam:

A guerra, a doença, a tristeza,
enfim, tudo o que é mau vai acabar.
E, neste mundo,
só a flor da paz, do amor e da beleza
vai florir.
E aquele combóio,
não esqueça o combóio, Mãe!,
está para chegar,
antes do amanhecer.

Mãe, Ele já chegou?
Não amor, dorme,
dorme ,
Ele ainda não chegou,
mas vai chegar.

Monday, December 24, 2007

POEMA ECONÓMICO


Não casa
a Solidão
com o Olegário
por falta de numerário;
Espera,
e desespera,
pelo Solidário.


Edward Hopper (1882-1967)
Summertime
1943, 74Χ118cm, Oil on canvas
Delaware Art Museum

Sunday, August 12, 2007

BUCÓLICA


.
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga - S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1937

Miguel Torga nasceu há cem anos, na aldeia de S. Martinho da Anta

A intimidade de Torga no centenário do seu nascimento

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1302003


Era avesso a entrevistas, dispensava mundanidades, recusava autografar os seus livros e dizia que quem o queria conhecer tinha que ler a sua obra. Mas no centenário do nascimento de Miguel Torga, que se comemora hoje (1907-1995), a inauguração da casa que o escritor habitou em Coimbra, durante quarenta anos, desvenda ao público uma parte do espaço íntimo do Orfeu Rebelde.

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A abertura da casa-museu é uma das iniciativas que decorrem durante o dia de hoje, em Coimbra, onde será inaugurado também um memorial ao escritor da autoria do arquitecto José António Bandeirinha e do artista plástico António Olaio.O espólio da casa, doado pela filha do escritor, Clara Rocha, é constituído pelos móveis, objectos pessoais, quadros e livros de Torga e ainda por um espólio documental composto por verdadeiras raridades bibliográficas. "O espólio (...) foi seleccionado e guardado por minha Mãe e é constituído pelos raríssimos manuscritos guardados pelo Poeta, por alguns dactiloscritos emendados à mão de contos e prefácios e pelas primeiras edições dos livros que o autor assinou ainda com o nome Adolfo Rocha", descreve Clara Rocha, por e-mail ao PÚBLICO.

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É na Coimbra dos anos 40 que o escritor, já casado com a professora universitária belga Andrée Crabbé, se muda para casa dos Olivais, depois de ter vivido numa pequena casa na Estrada da Beira, à beira dos laranjais do Mondego, e de ter frequentado a República Estrela do Norte durante o tempo em que estudou Medicina.

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Nem todos os espaços que poderão ser agora visitados pelo público permanecem iguais em relação à casa que o poeta habitou, mas a intimidade de Torga é reconstruída de forma fiel: o mobiliário dos séculos XVII e XVIII que o poeta foi adquirindo, a biblioteca pessoal e ainda as várias peças de arte da casa, das quais Clara Rocha destaca a pintura Ceifeiro de Dordio Gomes. "Foi oferecida a Miguel Torga pelo próprio pintor depois de ter lido o capítulo sobre o Alentejo no livro Portugal", refere. O jardim, no entanto, apesar de ter sido arranjado, está ainda assim longe de ser o que era. Clara Rocha recorda as belas colecções de flores dos Países Baixos que eram cultivadas pela mãe na parte da frente, como tulipas, narcisos e anémonas, e que hoje não fazem parte do jardim. Há, no entanto, uma planta que permanece no local e que sobreviveu décadas e décadas: uma torga, a urze típica das serras de Trás-os-Montes que o poeta adoptou para pseudónimo, e da qual o médico Adolfo Rocha arrancava todos os dias um pedaço para levar para o consultório, no Largo da Portagem. Eram os fragmentos do "reino maravilhoso" de Trás-os-Montes que o poeta gostava de conservar na cidade onde viveu a maior parte da vida

Wednesday, August 08, 2007

TORGA

Costuma dizer-se que os Poetas não têm biogra­fia. No caso de Torga assim não acontece. A sua vida constitui o húmus de toda a sua escrita, tanto na poe­sia, como na prosa (o romance autobiográ­fico A Criação do Mundo, representa o percurso inteiro de uma vida e quem a lê fica ciente de tudo o que res­peita ao homem e ao escritor) ...

Cristóvão de Aguiar (A destreza das dúvidas)

Em Setembro de 79, a Arcádia publicou um livro “Miguel Torga - poeta ibérico”, de Jesús Herrero, um basco que estudou Psicologia em Lisboa, e se dedicou à psico-sociologia de Ortega y Gasset (que também tinha residido em Lisboa por um largo período da sua vida).
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O ensaio de Herrero recorre, ao longo de todo o texto, ao pensamento do filósofo espanhol para propor a sua compreensão da vida, da atitude, e da poesia de Torga.
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“Os críticos estruturalistas não tomam em conta, geralmente, a biografia dos poetas criticados…” “Em contraste com a tendência objectivante apresenta-se a tendência personalista. Todo o processo criador é sempre duplo, diz Jung: humano-pessoal e impessoal.” Para Ortega y Gasset “cada obra de arte é um troço de vida de um homem e da sua intimidade, que se exprime por meio da obra”
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“Canto e cuento es la poesía.
Se canta una viva historia
contando su melodía”
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(António Machado)
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“Se me perguntam o que é a minha poesia, terei que dizer-lhes: não sei. Mas se o perguntam à minha poesia, ela lhes dirá quem sou” - Pablo Neruda.
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Eu, que me confesso um impenitente admirador de Torga, não vejo que possa separar-se nele o homem, o poeta, e a sua circunstância. Tivesse Torga nascido em Lisboa, e não deixaria de o abanar a sua alma de poeta. Mas não seria Torga. Maior ou menor, é questão que não pode colocar-se. Provavelmente, seria o mesmo, mas outro.

Wednesday, February 28, 2007

Trazias de Lisboa

Trazias de Lisboa o que em Lisboa
é um apelo do mar: um mais além.
Trazias Índias e naufrágios. Fado e Madragoa.
E o cheiro a sul que só Lisboa tem.

Trazias de Lisboa a velha nau
que nos fez e desfez (em Lisboa por fazer)
Trazias a saudade e o escravo Jau
pedindo por Camões (em Lisboa a morrer)

Tazias de Lisboa a nossa vida
parada no Rossio: nau partida
em Lisboa a partir (Ó glória vã
não mais não mais que uma bandeira rota)

Trazias de Lisboa uma gaivota
E era manhã.

Manuel Alegre