Wednesday, December 11, 2019

EVOLUÇÃO


"... Uma pintura rupestre com pelo menos 44 mil anos encontrada numa gruta na ilha de Celebes, na Indonésia, é a pintura figurativa mais antiga que se conhece. E não só: é também a representação mais antiga de uma cena de caça e a primeira em que se mistura o corpo de humanos com o de animais. Estas são as conclusões de uma equipa de cientistas da Austrália e da Indonésia num artigo científico publicado esta quinta-feira na revista Nature. Há pouco mais de um ano a mesma equipa tinha anunciado que a pintura figurativa tinha à volta de 40 mil anos e era da ilha de Bornéu ..." - cf. aqui


Compare-se este encontro com o entusiasmo despertado pela colagem com fita gomada de uma banana esta semana numa exposição em Miami.

Tanto que se tornou viral.



Tuesday, December 10, 2019

BANANA POR 120 MIL DÓLARES


Nunca tinha ouvido o nome dele, até ontem: Maurizio Catellan.
Deste artista lia-se no Público "Artista "com fome" comeu banana de 120 mil dólares de Marizio Catellan. Mais uma breve exploração na internet e constatei que a notícia já tinha dado a volta ao mundo vezes que ninguém será capaz de contar.
Afinal o Maurizio Catellan, que eu não conhecia, já anda a expor as suas criações em reputados museus desde, pelo menos, meados da década de 90.

Entre outras: 

e, agora, Comedian com banana.


Mais surpreendente do que a comédia da banana que vale 120 mil dólares, que o Maurizio colou com fita gomada numa parede de uma exposição em Miami e outro artista, norte-americano papou, para excitação de multidões de admiradores destas coisas, é a história de América, contada aqui.
 
Resumidamente,

Catellan criou a sanita de ouro em 2016 para o Guggenheim Museum de Nova Iorque e foi instalada
numa das casas de banho do museu. Segundo informações dos serviços de guarda colocados para segurança da peça, (feita com 103 quilos de ouro, que em Setembro deste ano valia 4 milhões de dólares, como obra de arte poderá valer seis milhões), mais de 100 000 visitantes esperaram na fila para ver América.
Em Setembro de 2017, da Casa Branca solicitaram ao museu que emprestasse Landscape With Snow de Van Gogh para um dos quartos privados de Donald Trump. O curador do museu declinou o pedido mas ofereceu o empréstimo da sanita de ouro, América.
Da Casa Branca não veio resposta à proposta do museu.

Mas há mais sobre a América para quem quiser continuar a ler.

Assim vai o mundo. O espectáculo da  arte é um espelho dele.

Sunday, December 08, 2019

BEM AVENTURADOS SÃO OS PARDAIS



Hum!!!!!, .... comprimidos??? Senti pairar no ar um som qualquer, ... comprimidos ..., será comprimidos? E, se for ou se não for, que me importam os sons, que me importa a luz, que me importa seja que diabo for? Não sei se durmo se estou acordado, agarrou-se-me esta dúvida ao pêlo desde que ensaiei fugir e borreguei no momento decisivo. A partir daquela tarde, apoderou-se de mim esta indolência que me adormece o corpo todo, já não distingo, não me interessa distinguir, o dia da noite, o calor do frio, enfio o focinho entre as mãos, enrolo-me na manta, e atravesso o tempo à espera de nada. Estou velho, velho e doente. Que idade tem ele? Quinze, disse ela há dias, mas faz mal as contas para disfarçar o meu envelhecimento acelerado nos últimos tempos. Sei que sou velho mas não tanto quanto pareço. Talvez tenha dez, quanto muito onze. Nos últimos três anos envelheci uns seis, há muito que não vejo, não quero ver, o reflexo  da minha imagem, se acaso passo por onde me podia ver. Que é feito do meu pêlo preto,  laranja e branco, sedoso, orelhas com madeixas fartas, mescladas de laranja e branco, pendentes, que se arrebitavam ao menor sinal de sentido? A última vez que me vi na água do lago não me reconheci. Aquele não era eu, e agora, certamente, ainda menos que nunca. Sonho repetidamente os mesmos sonhos, sonhando que são sonhos os azares em que me envolveram. Os comprimidos, os comprimidos, ... sonho ou pressinto que a velha os perdeu outra vez? Uma vez, quando contei à Cherry que ... não sei se foi à Cherry se foi à Gipsy, deve ter sido à Gipsy, nunca tive grandes conversas com a Cherry, a Cherry era pouco dada a conversas e, por outro lado, há muito tempo que não vejo a Cherry ... quando contei à Gipsy que andava meio zonzo, mas feliz, porque engolira uns comprimidos da velha, ela, que ouve e regista todas as conversas que capta por onde passa, avisou-me que os comprimidos podem dar-nos uma fólega aos desesperos mas, a pouco e pouco, vão arruinando a nossa memória. Tanto melhor, pensei eu, pior que as situações desesperadas são as recordações que não se apagam. Que me vale agora recordar os tempos em que fui feliz, porque era novo e livre, farejava para comer e namorar, e me trouxeram para aqui onde não tenho préstimo nem amigos? Há uns dois meses que não vejo a Gipsy, a Gipsy é quem me ia dando algumas dicas do que ouvia em casa ou no caminho por onde a levavam a passear, além de que há televisão lá em casa, a primeira vez que ela me falou em televisão e explicou do que se tratava andei uns tempos desconfiado que a Gipsy ou acreditava em bruxas ou no céu dos gambozinos. Mas pus-me atento, e confirmei que sim, que era verdade, aqui e ali, nos caminhos por onde passava vi de relance umas caixas e dessas caixas saía gente a dizer coisas. A Gipsy é, quero dizer era, a minha informadora, sem ela, o mundo que eu imaginava pelo que via e ouvia não tinha sentido, era um caminho repetido de banalidades e pequenas intrigas de amigas e amigos; com as informações da Gipsy, e aqui tenho de esclarecer que Gipsy é codinome, eu nunca denunciaria as minhas fontes de informação, consegui perceber o que se passara no interior desta casa há três meses onde passei a vegetar há uns dez anos. Foi a Gipsy quem me explicou o estranho caso que eu desconhecia, que tinha saltado para os jornais e televisões, e tudo se tinha passado a alguns metros dos meus bigodes sem que os meus sensores olfactivos e auditivos se tivessem activado. Culpas ou vantagens da sobredose de comprimidos da velha, que engoli há tempos, da última vez que ela passou por cá, o certo é que, nos momentos de lucidez que perpassam por mim para me afligir de vez em quando, consegui reunir as peças de um puzzle, que é o mundo em que vivo, se ainda vivo e não sonho que sonho uma realidade surreal num outro mundo a girar em ondas ultramagnéticas de quinta dimensão. 
Contou-me a Gipsy, não querendo ela acreditar que, estando eu dentro da casa quase o dia inteiro, não tivesse percebido que polícias tinham vindo cá a casa e levado as gémeas com eles. É estranho, Gipsy, é muito estranho, mas pode ter uma explicação plausível. Estou velho, como sabes, e vivo sem saber se vivo, os meus sentidos estão frouxos, provavelmente estão tão quase mortos que já não funcionam como deviam, não ouvi, não vi, nenhum odor estranho entrou no raio de acção do meu faro debilitado. Mas posso imaginar que as gémeas não tenham sido arrastadas, à noite, de casa, que a mãe tenha sido surpreendida, durante um passeio de rotina com as filhas, e convidada a acompanhar os polícias destacados para conduzir as crianças para local fora da presença obecessivamente absorvente da mãe. Se assim foi, não ouvi, não vi, não me apercebi de nenhum modo o que se passou, até porque tudo se terá desenrolado longe da minha, agora débil, capacidade de alcance, mas parece-me bem. Parece-me bem que as tenham retirado de um ambiente de subjugação a excentricidades que, só não via quem não queria ver, estavam a transtornar a personalidade daquelas crianças, tornando-as criaturas de um mundo absurdo e, portanto, mentalmente suicida. Mas é revoltante que, só passados três anos,  tenham decidido libertar as crianças. Não sabiam os médicos pediatras, os psicólogos, os   psiquiatras, os juízes, até os vizinhos, que a mãe sofre de uma maluqueira qualquer?  Sabiam. Sabiam e sabiam isso há muito tempo. Eu, que nessa altura ainda tinha o ouvido afinado, escutava a toda a hora, desde o princípio do isolamento das crianças, os impropérios da mãe sanguessuga contra tudo e contra todos porque ela e só ela sabia o que era o melhor para as suas filhas, e, em circuito fechado, quem melhor sabia o que convinha às crianças eram elas mesmas. Apoiava-a insistentemente na obstinação patológica de isolamento a velha dos comprimidos através de conversas telefónicas que quando pareciam que iam terminar continuavam até parecerem que iam terminar outra vez, mas não.
É ela culpada pelos rombos psicológicos que infligiu nas crianças durante um período tão longo? Como estou aqui amarrado a este capacho por incapacidade de deslocação interna e não tenho saído diariamente mais do que o mínimo tempo necessário para levantar a perna ou encolher a coluna nos sítios, muito próximos, do costume, como e durmo e, quando não durmo nem sonho, penso. O pensamento não pára, pensamento parado só a dormir de olhos abertos, e isso não consigo. De modo que desde há uns tempos a esta parte, penso que as culpas, sejam elas de quem forem, andam geralmente mal atribuídas. O doido tem culpa de ser doido? E, sendo doido, é culpado dos actos criminosos que possa cometer? Disse-me a Gipsy que ouviu lá em casa que para emendar os distúrbios ou mal formações do criador do universo e viver em sociedade a espécie humana inventou regras e a polícia, mas pelo que se vê a cada passo, falha mais vezes que acerta. Já agora, a propósito de culpas e culpados, diz-me Gipsy se o feio tem culpa de ser feio? E se o bonito, tem culpa de ser bonito? Pois não. Eu nasci bonito, agora estou velho já não sou bonito, e ninguém, com justiça justa, me pode culpar de ter nascido bonito e de, com a idade e a prisão a que fui condenado por nenhuma lei justa, ter ficado feio. Por que nasci bonito? Por um acaso para o qual não mexi uma palha. Por que me tornei feio? Porque não há modo de travar a nossa viagem pelo tempo nem evitar as consequências, boas ou ruins, que encontramos na rota. 
Por ser bonito, toda a gente admirava o meu porte, o meu pelo, o brilho das minhas cores, a vivacidade inteligente dos meus olhos, encantava-se, e eu e meus irmãos, que também não eram feios, fomos vendidos e trazidos do calor e da maresia, onde brincávamos, corríamos, lutávamos, roubava-mos até, porque era preciso, para estas paragens brancas e tanto tempo frias, compulsivamente parados como esfinges à espera de raros momentos de desentorpecimento das coxas. O Pimpas, da nossa idade, de bonito só tinha o nome, de resto era feio, tão feio que ninguém o quis, lá ficou, a divertir-se na praia, a espantar as gaivotas com corridas de alta velocidade, a dormir à sombra se o calor aperta, a espojar-se na areia da praia a regalar-se com o calor quando o sol anda mais baixo, a fugir quando rouba para comer e a namorar a sério. Nunca mais vi o Pimpas, não sei sequer se ainda é vivo. De qualquer modo, o Pimpas, pelas minhas contas deve ter, até agora, feito pelo menos uns duzentos filhos que lhe deram não menos que quatro mil netos, e perco-me nas contas se quero contar-lhe os bisnetos, trinetos, tetranetos, e por aí fora, com o sangue e as fuças do Pimpas, que ninguém compra, e assim detêm o privilégio monopolista da reprodução exponencial da sua linhagem. Feia? É o que dizem os da espécie humana, da mesma espécie dos que me compraram para me enclausurarem e condenarem a morrer neste capacho, por ter sido por eles considerado lindo. E, com essa irrazoabilidade, cortaram-me cerce a possibilidade de povoar as redondezas de filhos, netos, trinetos, tetranetos, bonitos como eu. E, como eu, desaparecem os pintassilgos e todas as aves canoras e vistosas condenadas a cantar engaioladas, os animais da selva abatidos pelo imbecil mas irreprimivel vício de posse congénito na espécie humana. Às vezes penso que sinto uma enorme inveja do Pimpas mas logo me pergunto se é inveja este querer ter nascido feio como ele. Quando há já algum tempo disse isto à Gipsy ela deu uma gargalhada, e, disse, sempre que nos encontramos vens com a mesma ladainha. 
É verdade que me repito mais do que devia se não me atormentassem as recordações daquilo que vi e que não posso testemunhar senão à Gipsy. Inutilmente, bem sei, porque vivemos em mundos separados dos humanos que nos acorrentam sem outra razão para além do instinto de posse da sua espécie. Eu não me sinto acorrentada, respondeu-me a Gipsy. Livre? Como podes ser livre se tens dono? Aliás, dois, ou quatro se contarmos com os dois filhos do casal. Não tenho dono nem donos, tenho acompanhantes! Desta vez, a gargalhada foi minha. E a trela? Decoração, respondeu-me ela secamente perante a evidência da sua real condição, a conversa ficou por ali, e eu passei a ruminar as minhas conjecturas intermináveis, que abandonado aqui no capacho sem ouvinte nem acompanhante, subjugado a uma tirania de isolamento infame que ninguém quer ver. E desconfortável por ter confrontado a Gipsy com a resposta do cão vadio ao cão com trela na fábula antiga que ela há algum tempo me contou.
Hum! ... afinal para onde levaram as gémeas? Não sei. E como há uns dois meses que não vejo a Gipsy porque nem eu saio daqui porque estou preso e a Gipsy não vem até cá porque tem trela, a minha ignorância é total e, como precisa de alimento, alimenta-se de hipóteses e suposições. O telefone toca todo o dia, é, suponho, a velha dos comprimidos, do que falam não sei porque, já disse, agora ouço muito mal, e porque a doida suspeita de tudo e todos, desconfia talvez que sou espião infiltrado e refugia-se no andar de cima quando o telefone toca. 
Houve tempo em que as ideias se me atropelavam para a saída, agora, talvez porque se tenha partido a mola do tambor das recordações, não vislumbro hipótese de voltar a ver as gémeas, e a minha vida ficou sem qualquer sentido. Por que me pôs o criador no mundo e, ainda por cima, bonito para ser comprado e agora preso, prematuramente cego, surdo e mudo por falta de exercício e atormentado pela maluqueira de uma carcereira perversa, talvez  sem culpa? Recuo na memória e recordo-me em imagens que vêm à superfície continuamente dos tempos do país do sol e do mar, das tropelias de putos a aprender a safarem-se para sobreviverem, quantos andarão ainda por lá? Talvez o Pimpas, se não o Pimpas certamente vários descendentes dele. Mas é  pelas gémeas que o meu coração suporta as minhas angústias. Por que me abandonaram aqui? Porque já não presto, porque já não corro? Porque já não vou e volto vezes sem fim quando saíamos a passear e éramos cinco numa família feliz? Ou já terei morrido e o que de mim sobra a desfazer-se é uma nuvem onde o criador guarda os registos das suas criaturas?



  

Monday, December 02, 2019

MISSA


MISSA, de Leonard Bernstein,
Ontem e anteontem na FUNDAÇÃO GULBENKIAN


Leonard Bernstein

Admirável.
A música, e os poemas.
Para quem possa estar interessado em compreender a complexa mensagem que Bernstein procurou transmitir com esta obra, numa época em que a guerra no Vietname era um problema central da política norte-americana, pode ler, por exemplo, aqui essa intenção que o compositor exaltou com a sua música, heterodoxa para a época.

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PURGATÓRIO

Esteve no D. Maria II.
Mais uma excelente encenação de "O Bando".

Com um pequeno senão: O facto de não serem projectadas na tela lateral as palavras do coro para melhor entendimento dos ouvidos menos afinados. Na mesma tela onde projectavam imagens da actualidade, dispensáveis porque a obra de Dante é sempre actual.


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Friday, November 15, 2019

IN VINO DA VINCI

Old wine in new bottles Leonardo da Vinci’s personal vineyard has been re-created

And the wine is ready to drink

Nov 14th 2019

LEONARDO DA VINCI is remembered as many things—artist, inventor, scientist. “Boozer”, however, is rarely included on the archetypal polymath’s astonishing CV. That might change now that scientists have resurrected da Vinci’s own vineyard.
Da Vinci was a great lover of wine, “the divine liquor of the grape”, as he called it. So much so that Ludivoco Sforza, the Duke of Milan, offered him a vineyard as payment for “The Last Supper”, which he painted for the refectory of the Convent of Santa Maria delle Grazie in Milan in 1498. It survived for centuries after his death, until it was destroyed by a fire started by Allied bombs in 1943. With it was lost any hope of seeking inspiration from the same liquid source that once fuelled the painter of “Mona Lisa” and the inventor of the helicopter.

That is, until 2007, when Luca Maroni, an oenologist, decided to excavate the site in the hope that some vine-roots had survived the fire. He recruited Attilio Scienza, an expert on viniculture, and Serena Imazio, a geneticist, and they began to dig. Finding some roots intact, the team subjected them to extensive genetic testing at the Università degli Studi in Milan. In 2009 they identified da Vinci’s grapes as Malvasia di Candia Aromatica, a variety that is still grown in Italy today.
That discovery set off a painstaking recreation of da Vinci’s vineyard. Dr Imazio scoured Italy to find grapes similar to the DNA profile of the roots, bringing them back to Milan and copying the original layout of the vineyard as exactly as possible. Located in the gardens of the Casa degli Atellani, just two minutes’ walk from “The Last Supper”, it has been open to visitors since 2015.
The vineyard produced its first harvest in September 2018. Now, after a long wait, da Vinci’s wine is ready to drink. A first 330 bottles, based on a design found in da Vinci’s Codex Windsor, will be auctioned later this year. For those not lucky enough to grab a bottle, the vineyards of the nearby Castello di Luzzano, also thought to have been the property of the Duke of Milan, produce a wine made from the same type of grape and inspired by da Vinci. You can enjoy a glass after a pleasant stroll through his vineyard. Light and floral, you can almost taste in it a hint of Leonardo’s renaissance.

This article appeared in the Europe section of the print edition under the headline "Old wine in new bottles"

c/p Economist

Wednesday, November 06, 2019

O JOGO DA CABRA CEGA


Leio no Público de 30/10, aqui.
"...
...  ... Na semana passada, o SMMP (Sindicato dos Magistrados do Ministério Público) divulgou um comunicado com seis páginas, intitulado “Restabelecer a legalidade no Ministério Público”, onde se insurge contra práticas “ilegais” que se instituíram nesta magistratura, por vezes de forma informal, à margem do Código Processo Penal. E pede a Lucília Gago e ao Conselho Superior do Ministério Público para proibirem e punirem o que chama de “práticas ilegais”. “O superior hierárquico não pode dar ordens ao magistrado do Ministério Público titular de um inquérito para este acusar ou arquivar um processo contra determinada pessoa”, lê-se no comunicado. E acrescenta-se: “O superior hierárquico não pode igualmente ter interferência nas diligências de produção de prova, isto é, não pode determinar ou impedir a realização de buscas ou intercepções telefónicas, a constituição de arguidos ou inquirição de testemunhas, tal como também não pode determinar o teor de perguntas, sugerir que se façam outras ou se suprimam algumas que entenda não serem adequadas.”
Mas o que aconteceu em Tancos não é a única situação a alarmar o sindicato, que condena outro tipo de “instruções” para que os procuradores não deduzam acusações sem antes as submeterem à apreciação do seu superior hierárquico. “Esta prática ilegal liquida por completo a autonomia interna dos magistrados, transformando-os em ‘meninos de escola’ que mostram os seus trabalhos de casa ao ‘professor’ para que este os aprecie e lhe anote os erros”, afirma o SMMP, que condena igualmente orientações para que os procuradores não peçam absolvições no final dos julgamentos, mesmo que considerem que não foi feita prova dos crimes.
.
Percebo a posição defendida pelo Sindicato: aos magistrados do MP assiste a obrigação de investigarem com independência de qualquer nível hierárquico. De outro modo seriam transformados em "meninos de escola" que mostram os seus trabalhos de casa ao professor.
.
Não entendo, no entanto, que o SMMP não conteste que as investigações e conclusões muito complexas e muito demoradas, que conduziram à dedução de acusação, no caso da "Operação Marquês", por exemplo, sejam submetidas à apreciação de um Juiz de Instrução a quem é dado o poder de recusar provas e conclusões tornando em "meninos de escola" os muitos magistrados envolvidos no mega-processo que ameaça abalar de vez o prestígio do MP.
.
Poderá argumentar-se que das decisões do Juiz de Instrução pode o MP recorrer para a Relação. Mas
esta faculdade não retira ao magistrados do MP a contingência de serem tratados como "meninos de escola".
Neste caso, na primeira fila da fotografia do grupo.

Tuesday, November 05, 2019

JUVENTUDE NEURÓTICA





O autor, austríaco, desta peça de teatro em cena no Teatro AbertoFerdinand Bruckner ( Sófia 1891 - Berlim 1958 ) situou este seu trabalho sugerido pela instabilidade psicológica da juventude vienense percepcionada pelo autor nos anos 20 do século passado. A peça foi publicada em 1929, a acção decorre em 1923, e encena uma epidemia moral que atingia a juventude burguesa daquele tempo em Viena e se alastrava pela Europa no pós-primeira guerra mundial.
Resumidamente, há um grupo de estudantes de medicina, três rapazes, três raparigas e uma jovem e inocente empregada do grupo. Um dos estudantes é dominador e regozija-se a destruir as relações entre eles: corrompe a inocente empregada, anima as tendências suicidas da bissexual aristocrática, e acaba por  voltar-se para quem antes repudiou ostensivamente.
É nesta amostra de neurose colectiva da juventude que Bruckner sugere a emergência do fascismo, e nova guerra, duas décadas depois.

Sugere a reposição desta peça publicada há noventa anos a recidiva de uma situação patológica moral com sintomas semelhantes nos dias de hoje, augurando idênticas consequências? É essa a implícita  explicação desta e de outras reposições recentes da peça.

Relativamente ao trabalho em cena no Teatro Aberto, considero, mais uma vez a propósito das mais recentes representações do TA, que a projecção de vídeos desvaloriza a arte do teatro, o cenário, de tão exagerado em dimensões e iluminações, desvia a atenção dos espectadores da expressividade dos actores. E o guarda roupa é um excesso: em gosto, porque Tenente é um bom estilista, em quantidade porque uma peça de teatro não é um desfile de moda. Ainda que um desfile de moda tenha o seu lado teatral.

Thursday, October 31, 2019

Monday, October 28, 2019

O TRIUNFO DA ECONOMIA DA CUECA


- Tem tenazes para apanha de nozes no chão?
- De nozes? 
- Sim, de nozes, de castanhas, que caem das árvores de quem as tem, mas já não tem idade para andar de cócoras a apanhá-las nem lombares para se debruçar.
- Hum! Hum! Já sei do que fala. Já tive, já ... mas esgotaram-se. Posso mandar vir, se quiser, mas só cá chegam daqui a uma semana, pelo menos. 
- Uma semana?
- Uma semana, pelo menos. Vêm da Holanda.
- Da Holanda? As tenazes são feitas na Holanda? 
- Não sei se são lá feitas, só sei que as mandam vir de lá. Custam cinco euros e meio, salvo erro. 
- Uma semana é muito. Entretanto, estragam-se-me as nozes no chão.
- Talvez encontre no chinês, aí em cima, nesta mesma rua.

- Tem tenazes para apanhar coisas do chão?
- Tem, tem. No andar debaixo, no segundo coledor ...ao meio.
Tinha.
- Quanto custa?
- Um euro e meio.

Como é possível produzir na China uma tenaz, transportá-la e vendê-la em Cascais ou em Castelo Branco por um euro e meio?
É fácil entender como.
O arranque da economia chinesa iniciado com a teoria do gato de Deng Xiaoping - não importa se o gato é branco ou preto, desde que cace ratos-, o comunismo chinês adoptou o gato capitalista na casa comunista, montando este sistema híbrido sobre os três pilares negativos (não há democracia, não aos direitos humanos, não há liberdade de expressão) com os quais o actual presidente vitalício Xi Jinping se propõe dominar o mundo até 2049, ano do centésimo aniversário da fundação da República Popular da China. vd. aqui.
 
Há anos, começaram a chegar ao ocidente confecções, inicialmente de contrafacção, a preços que encerraram ou deslocalizaram, o efeito é o mesmo, fábricas como no Vale do Ave. Depois o made in China, mais recentemente crismado made in RPC,  tornou-se corrente no mundo ocidental, agora já prestigiado pelas marcas de renome internacional, e alargou-se, e continua a alargar-se às mais diversas produções, tanto de mão de obra intensiva como de tecnologia altamente sofisticada. 
Para pagar as cuecas e quejandos, os brinquedos. até os pinhões no bolo-rei, vendemos ao estado chinês ou aos bilionários chineses de fresca data o domínio ou quase domínio da EDP, da REN, da Fidelidade, do Hospital da Luz, o BCP, da TAP, entre outros. 
Fomos só nós? De modo algum. O comunismo capitalista chinês está a alargar-se por todo o lado. É inevitável? É recomendável? É bom que assim seja? Há quem diga que sim.
Aceitaria quem diz que sim viver num sistema que repudia a democracia, os direitos do homem, a liberdade de expressão?

O certo é que, para já, a economia chinesa alavancada pela economia da cueca, triunfou.
Poderíamos comprar aos chineses além de cuecas e tantos outros artefactos afins, equipamentos que dinamizassem o crescimento da nossa economia, em estado letárgico?
Comboios de alta, ou mesmo média, velocidade, por exemplo.
Poderíamos mas não temos (não temos mesmo?) recursos para ir além das cuecas.

No Programa do Governo (transcrevo do Publico de 27/10) "são prioridades para a presidência portuguesa (da União Europeia) o Pacto para a Europa Verde, a Europa social, a transição digital e a relação entre a Europa e a África."
Subscrevo.
E quem vai continuar a confeccionar as cuecas? 

Sunday, October 27, 2019

UM BRÊXIT SEM SAÍDA


Do Economist desta semana, transcrevo a parte publicada on line de um artigo sobre o fervor europeísta que assaltou parte significativa dos britânicos após o confronto com a iminência da saída do UK da UE.
Sempre se soube que, sobretudo os ingleses, ainda de ego cheio no tempo em que eram imperiais, se sentiam desconfortáveis como membros de um clube onde entrava gente de gostos duvidosos, avaliados pela bitola britânica, e, pior que tudo isso, não tinham a exclusividade do comando a bordo. 
Um dia ofereceram-lhe num referendo a decidir por maioria simplicíssima, a hipótese de sair, e, entre verdades e mentiras, o sim à saída ganhou por uma unha negra. 
Quem fazia contas, sobretudo em Londres, e principalmente na City, recomendava a permanência do reino britânico na UE, os outros marimbaram-se para as contas e votaram consoante lhes tocou mais ou menos o ardor nacionalista, que, entretanto, tinha crescido como cogumelos por todo o lado europeu e fora dele, esquecidos da guerra global, ateada na Europa, oitenta anos antes.
Agora o reino vai sair mas não atina com a porta de saída.

No dia em que der com ela, a saída pode funcionar como uma bomba de fragmentação: do Reino Unido e da União Europeia, onde sopram os ventos nacionalistas, a arrastar fuligem populista, racista, xenófoba, chauvinista, para gáudio do imperador Xi Jinping, do czar Putin, do inqualificável Trump.
A Catalunha, rica, não suporta pertencer ao mesmo clube frequentado pela Andaluzia pobre ou pela Galiza remediada. A Itália do Norte despreza a Itália do Sul, o Leste estende a mão ao ocidente e pisca o olho ao outro lado.
Em Portugal, os extremos políticos batem palmas, ao lado de Putin e Trump, talvez sem se dar conta, pela fragmentação da Europa.
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BEFORE THE referendum in 2016 European Union flags were as rare as golden eagles in Britain. Today they are as common as sparrows. Parliament Square is permanently festooned with them. Activist Remainers flaunt flag-themed berets and T-shirts. On October 19th a million-strong army of People’s Vote supporters marched on Westminster beneath a sea of gold and blue standards.
This points to one of the oddest paradoxes in this odd period in British politics. It took a vote to leave the EU to shock millions of Britons into realising how much they liked it. Britain had always been an outlier in believing that the EU ought to be little more than a convenient trading arrangement. A couple of Eurobarometer polls in 2015 found that the country came 28th out of 28 in terms of people’s sense of European identity and 26th in terms of trust in European institutions. Yet today a significant section of the population thinks that being European is essential to its identity.

c/p aqui 

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Act. 28/10/2019


 
 
Cerca de um milhão de 'remainers' manifestaram-se esta tarde em Londres, junto ao Parlamento, enquanto Boris Johnson tentava convencer os deputados a aceitarem o acordo com a União Euriopeia  - c/p aqui

Thursday, October 10, 2019

1969 - ODISSEIA NO QUELHAS


Em 18 de Março de 1969, à noite, houve récita dos finalistas de Económicas (ISCEF - Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) no Teatro da Trindade.

A 20 de Julho desse mesmo ano, um homem, o norte-americano Neil Armstrong pisou pela primeira vez a lua. Em 1968, Stanley Kubrick tinha produzido e realizado 2001- A Space Odyssey.
Neste contexto de ficção tornado realidade, que melhor título se poderia dar a um divertimento académico daqueles que se preparavam para sair da cápsula onde, pelo menos, tinham estagiado durante cinco anos, mais adequado e ambicioso que  "1969 - ODISSEIA NO QUELHAS"?

Fui cúmplice de um atrevimento reprovado pelo então director do ISCEF, Professor Jacinto Nunes.  Salazar tinha ficado física e mentalmente inválido em Agosto do ano anterior mas a polícia política continuava feroz e só 5 anos depois o país viria a experimentar o sabor agridoce da democracia.
Disseram-me que o Prof. Jacinto Nunes veementemente desaconselhara a integração dos "Jograis do Quelhas" no programa das festas para me perguntarem de seguida: E agora? Respondi: agora façam como entenderem, eu não escrevo outros. 
E foi, sentado na plateia, com um olho no palco e outro em individualidades desconhecidas, que assisti aos Jograis, a finalizar o primeiro acto da récita. Ninguém foi preso.

Hesitei muito na transcrição neste caderno de apontamentos, da jogralada em versão de mal-dizer, não só por pudor e respeito que o tempo impôs sobretudo relativamente aqueles que já faleceram, mas também pelo excesso de verrina, resultado de uma consulta onde se uns diziam mata outros diziam esfola. 
Mas se os "Jograis do Quelhas", cinquenta anos depois, inspirarem aos de 69 que os lerem hoje alguma nostalgia e gratidão por aqueles com quem aprendemos a mostrar que no velho Quelhas se forjaram armas de razoável toque, então transcrevam-se os Jograis para penitência da consciência dos nossos excessos.




JOGRAIS DO QUELHAS


(Senhoras)
(Senhores)
(Doutoras)
(Doutores)
(E Professores)

Somos jograis
(Excepcionais)
(Insofismavelmente)
(Paradoxalmente)
(E irremediavelmente)
Bestiais
Com outras profissões.
Andámos pelo Quelhas
a aprender
a fazer
cadeirões
(Não, não fizemos esse ...)
Mas fizemos muitos mais
(Mais duros)
mas menos nacionais
Que irão também (um dia)
pr´a Torre do Tombo
("Monumento Nacional")
só, em verdade,
terá então um nome com flagrante
e impressionante
propriedade.

(Eis aqui alguns daqueles
que tais coisas engendraram)
Doutros nem sequer falamos
nem sabemos se por cá veranearam ...

1ª. cadeira - 1º.pincel
(O Jesus fez-nos tratos de polé)
É um sujeito indesejável
(É ou não é?)
                          (todos) É!!!

(Música: a caminho de Viseu)

Ai Jesus, truz-truz
Chumba que trás-trás
Se não fosse tanto chumbo
Tu serias bom rapaz.

Pezinhos de lã, mansinhos,
vem do Porto o Madureira
e as MGs, nm instantinho
parecem uma brincadeira.

Mas Madureira só quer
impressionar a geral
(Afinal é fura-greves
por um tacho trivial.)

(Música : A mim não me enganas tu)

A mim não me enganas tu,
a mim não me enganas tu,
a mim não me enganas tu,
já as tinha tirado quando vieste tu.

O Alves da Geografia
(Tem cuidado, olha que o mano ...)
Pregou-se-lhe agora a mania
Chumbar mais de ano para ano
         (todos)  Fora o Caetano!!!

O Lopes, seu sacristão,
segue as pisadas do dono.
Tem uma voz, que piadão,
Faz-nos tanto, tanto sono
          (todos) (óóóó ....)

(O Chico no PTC)
(tinha fama de ser bera)
(depois na Contabilidade)
era porreiro, ou não era?
               Não, era !!!!

O sábio e a sua súcia
(coitado do Ramalheira)
(Agora é Comendador
da grande Ordem da Asneira)

O sr. Carvalho trazia
a ciência num cartão.
Acabava-se a ciência
(tornicotim, tornicotão)
E se não topa um sujeito,
Tornicotim ombro encolhe,
e afinfa-lhe logo a eito
"o argumento não colhe"
(Pequenino, mas não dança)
Tornicotim saltitão
(Deu-lhe um tacho o Mestre, e pensa,
está servida a Fundação)

(Música: "Você pensa que a cachaça é água" )

Você pensa que que tal súcia é boa
primeiro p´lo Tornicotão,
chumbam muita gente à toa,
tal súcia não é boa não.
Nosso sábio não dá o cavaco,
a ninguém dá o cavaco, não.
O Sábio quere-os  todos
a lixar a Fundação.

Vista esta causa com senso,
estes são "não gratos"?
(todos) São !!!
(O Rómulo e o seu apenso)
(todos) Não ...

(Música: Sim Carolina Ó i Ó Ai)

A saia da Clementina
Não é uma saia qualquer,
sim Clementina ó i, ó ai,
Sim Clementina, ó ai, meu bem.
Terá toga, Clementina
É o Rómulo que assim quer.
Sim Clementina, ó i, ó ai,
sim Clementina, ó ai, meu bem.

(O Albuquerque é liru)
Dizem uns. (Ele é honesto)
dizem outros.
(Sabes tu?)
O que é preciso é ser lesto.

(O ajudante, coitado ...)
(Coitado, mas como assim???)
Há lá tipo mais errado
que este sr. Amorim?! ...

(Eu gosto do Amorim, gosto do Amorim aos molhos)

(Música : "Alecrim aos Molhos")

Amorim, Amorim aos molhos,
por causa de ti matou-se o Frechet

(P´ró Moura, a electricidade
é feita pelo electricista)
Já que a economia, tá visto,
(é obra do economista)

(E eu já não sei do que sou contra,
parece que agora mudou)
talvez com grandes remorsos
de chumbar o que chumbou.

(Música: "Ai Mouraria") 

Ai, Mouraria
da velha Rua do Quelhas,
anda tanta gente à nora
com economias velhas.

(O Didi vendia as folhas)
(punha o Lino a receber)
Não vinha o resto das folhas
e a malta sem perceber.

O Pelé chumbava à toa
(pulava)
(espumava)
(ralhava)
Punham-se-lhe os cabelos em pé (o resto)
Toda a gente concordava!!!
Era tonto e desonesto!!!

Menino Jardim, (que graça)
veio para o Comercial,
acompanhava as bronquites
e até era bestial.

Foi-se o Pelé, e o Jardim,
mudou-se pr´obrigações.
(Oxalá não seja Bera)
quem para Vera tem razões,

(Britinho Corporativo)
É mais uma jóia alheia,
Direito é asfixiativo.
E se os levasse uma cheia?!!!

E vejam só meus senhores,
como isto anda tão mal.
(Escreve Bruto com i)
Mas dá Internacional

Pinto Barriga, coitado,
já andava um tanto cheché
(Mas se não fora o nosso capitão de cavalaria)
(Imprescindível num Quelhas inconcebível)
Mais chumbaria o Pelé.

(Récita sem Pinto Barriga)
(É uma praça sem ninguém)
(Deus lhe dê boa saúde)
(E à sua tese)
                           (todos)  Amen!


Mestre Gonçalves da Silva
tem uma quinta em Tomar.
Se a manada dá estrume,
há estrume a contabilizar.

(As oliveiras do Mocho
vão-lhe dar umas patacas)
Quando lhe nasce uma cria
Faz logo : crias / a vacas

Doce país de poetas,
onde qualquer deputássio,
lendo Da Silva, as sebentas,
rima rácio com Inácio.

Da Silva deu uma festa,
e convidou para a farra
o seu Mestre Fábio Besta
e o bestial Mestre Escarra

(O Rui Nunes nos martelos)
da orquestra parte fazia.
Nem para fazer a chamada
a sua boca se abria.

(Mestre Gonçalves da Silva tem um afilhado ...)
(o rapaz tem uma cabeça tão bela ...
pena foi que a ciência
tenha descido à barbela.

Tem uma cabeça o rapaz,
o mestre revê-se nela.
(Menino, para seres um ás
tens de puxar pela barbela)

Entra na sala o Manel
e mai-lo seu garrafão,
rapa logo do papel,
e puxa pelo barbelão.
E lê por ali abaixo
(o Manel, que sabichão)
Da barbela, não sai nada,
mas Manel faz figurão.

Estudou com o Schneider,
agora ensina o Cachudo,
e este pimpolho há-de vir
a saber aquilo tudo.

Não puxa pela barbela,
que ainda não a tem (bem precisa),
mas para treinar na barbela,
vai puxando pela camisa.
Ainda não usa papel
para ler à rapaziada.
Não admira que ele,
na aula não diga nada.

(Toma nota rapazinho)
(Já é idade de aprenderes)
(Faz como fez teu amo)
(Serás doutor sem saberes)
                                              (Mas cautela!)
Traduz um autor qualquer
(aconselho-te o chinês)
Acautela-te, no entanto,
se há tradução em francês.

É que o teu dono, coitado,
teve enorme trabalhão.
(Traduziu)
                (Logo era dele)
Só ele sabia alemão ...

Eis senão que um francês,
que de alemão bem percebe,
traduziu e fez asneira.
(Pôs lá: autor Gutemberg,
em vez de autor: Manuel Pereira)

Sr. Magro, é bom de ver
o curso não está na mão,
e se há coisas a dizer,
não fariam com ... Gestão?

Visto o curriculum, senhores,
destes três, verdade nua,
qual a sentença a ditar?
                           (todos) Rua!!!

(Música: Arrebita, arrebita, arrebita)

Da Silva que és o maestro,
desta charanga que é tua,
tem ao menos um bom gesto,
e põe-os todos na rua.

Com Laranjinha e Bochechas
Mr. Murteira esta ...estica.
Ora bolas para quem sai
Ora bolas para quem fica.

(Se quem passa pelo Rossio)
(olha o placard mesmo em frente)
(qual e a probabilidade
de lhe cair um presente?)

Ora bolas para as urnas
(uma castanha)
(uma roxa)
(uma preta)
(uma amarela)
(de um amarelo mais quente)
Qual é a probabilidade
de sair um Presidente?


(Música: "Ó Oliveira da Serra")


Mister Murteira calcula,
mas calcula muito bem,
ó i, ó ai, Murteirinha diz-me lá
ó i, ó ai, quando vai pr´ó pé da mãe.

(Na Terceira Economia)
pontifica o director.
(Começou na Quarta, um dia,)
desistiu ... o Professor

Acompanham-no à guitarra
o Hernâni, calmeirão,
o Arouca que é sabido,
o outro que sabichão...

(Música: Tia Anica de Loulé)

Ó Hernâni, Ó Hernâni,
não sejas tão presunçoso,
o Arouca copiava,
é assistente, que gozo!
Olé, olá,
tal parelha tá tão má
Olá, olé,
dá-lhes Jacinto c´o pé.

(Ó Santos Fernandes, actualiza-te)
Se pões chinó, dás um salto.
Não ponhas papel no giz,
e vê se falas mais alto.

(Sidreira Lopes) - Sarilhos!
ficou-lhe o queixo na rua
(Ele é da pauta um dos filhos)
A alfândega fica em Lisboa

(La La Labisa disse um dia)
ninguém mais será formado
se na velha Quelharia
alguém disser um bocado.

(O patrão Borges, da Câmara)
Já viu que nunca diz nada
(E é melhor)
(que o Labisa só diria labisada)

(Música :"Lá, Lá, Lá, Lá ..."

Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
Lá Lá Lá     
                      (todos) Bisa!

Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
                      (todos) Bisa!

(tanto há-de labisar que há-de aprender!)

O Vidal, especulador,
no bacalhau triunfou.
Mandaram-no dar Gestão
mas nada modificou.

(Música : "Malhão")

Ó Vidal, Vidal,
(palmas, palmas,palmas)
que vida é a tua
(palmas, palmas,palmas)
andas a dar aulas, andas a dar aulas,
e a malta na rua!

(Sô Taxeira, essa Doutrina)
é coisa que há-de rever.
Você acha que o Carlinhos
era assim tão tanso a valer?
(Você, que já foi da Corte,)
é capaz de nos dizer
(Por que é que cá no cantinho
é tão difícil viver)?

Para ensinar aos rapazes,
não sabe o Taxeira mais,
mas para brilhar como os ases,
já ensina generais.

(grito da geral)
                           (Ó Taxeira, Taxeira!
                            Onde é que está o Taxeira?)

(resposta com ar circunspecto)  
                           O Taxeira  foi para os Altos Estudos Militares.

(Mestrrre Barrrbosa, a política)
A política não é prrrá gente.
Ás vezes é como castanha
que se põe na boca ... muito quente!
E então Barrbosa, política,
é prrós outros, quem dirrria,
que no velho e rrrelho Quelhas
se crrria a apolitiquia

(Música : "La Mamam") 

Já estão aqui, chegaram já, 
os dois meninos do papá,
já são doutores, de altos valores,
mas com favores ....
Um ... Um ... Um ...

(Foi-se embora Mestre Broncas)
(Bronca o Da Silva, interino.)
(Ainda este broncava)
(entra outro a broncar fino)

(Era o Jacinto e trazia)
Notas, notas, a saltar.
Não deu nenhumas à malta,
eram para ele assinar.
A malta foi ter com ele
(Havia broncas em curso)
Mestre Jacinto sorriu
(aquele sorriso de ... amigo)

A malta diz que a cantina
até tem panelas rotas.
(Jacintinho ri, de cima),
e vaia assinando notas.

E a malta põe-se a pensar
se o Jacinto tem ou não
tempo p´ra tanta assinar
p´ra acudir à inflação.

Jacinto, Jacintozinho,
Pára lá, escuta agora,
olha bem como está isto,
põe-me a vista cá de fora.

(Música"Quando sair de Cuba) 

Quando sair do Quelhas,
recordações levo comigo,
daquelas salas velhas,
daquele Convento
soturno e antigo.

Quando sair do Quelhas,
vou lamentar tempo perdido,
com matérias velhas,
mal ensinadas, e sem sentido.

Quando sair do Quelhas
levo comigo esta amargura,
não ser a Escola livre,
actualizada,
não estar segura.

Com autonomia
com ousadia,
robusta, sã,
formando em cada dia
a galhardia
do amanhã.