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Tuesday, August 29, 2023

SOMOS UM PAÍS DE BÊBADOS

Às seis e vinte da manhã de hoje, no IC19, pouco depois da saída de Sintra, via-se no lado contrário, sentido Lisboa-Sintra, um carro de pneus para o ar. Aquela hora o trânsito ainda era escasso, não provocava congestionamento de trânsito nem de um lado nem do outro da via rápida. A polícia já estava junto da viatura capotada. No IC19, o anormal é não haver frequentes acidentes de trânsito.
Três horas depois, o carro capotado estava na mesma, o congestionamento de trânsito provocava a perda de milhares de horas de trabalho. 
Porquê? Haverá várias razões, algumas das quais só não vê quem não quer ver. 

A intensidade do tráfego, porque o comboio não é alternativa para muita gente que se faz transportar de pópó com uma média de ocupação de menos de 1,2 passageiros por automóvel circulante naquela via rodoviária. Aliás, o comboio, que deveria ligar em triângulo circulante, Lisboa - Sintra - Cascais, ou no sentido inverso, é impossível porque não há ligação ferroviária entre Sintra e Cascais. Porquê? Nunca vi esta pergunta em nenhum lado e, não havendo pergunta, não há resposta. A qualidade do transporte ferroviário em Portugal coloca o nosso país abaixo do nível dos mais atrasados na União Europeia. O transporte ferroviário suburbano não escapa à situação geral.

Tanto tráfego automóvel não impede, provavelmente até incentiva, muita rapaziada a ziguezaguear, talvez para lhes manter em níveis elevados os depósitos de adrenalina. 
O respeito pela sinalética de velocidade máxima só é, em geral, respeitada, se o volume de tráfego não permitir gincanas.
 
O que terá provocado uma capotagem, aquela hora, quando o trânsito era mínimo, num troço recto da via?  Excesso de velocidade animado por excesso de alcool emborcado durante uma noite de pândega? É uma hipótese possível mas não passa de hipótese. A qualquer um que ande na estrada, pode acontecer um acidente. Mas que a incidência de acidentes na estrada provocados por elevados níveis de alcool no sangue de condutores de veículos em Portugal é elevada parece indesmentível.
 
Mas os portugueses não se embriagam apenas com vinho. Pelo contrário, os mais jovens, os que mais gostam de ziguezaguear, emborracham-se com cerveja e, pior que isso, com bebidas de elevado teor alcoólico, whisky sobretudo. É difícil desanimar o consumo de vinho porque isso desafiaria a fúria de produtores e distribuidores portugueses. Mas o whisky, porque não se limitam as vendas em espaços concessionados para o efeito e se enchem prateleiras de whisky nos supermercados? Pelo Natal, então, é um festival!
Sobre o assunto, anotei neste caderno de apontamentos, além de mais, em fevereiro de 2011: Continuamos a beber demais, em agosto de 2013: Quanto mais bêbado melhor. Valeu alguma coisa? Não valeu nada. Faço o que posso.
 
(Declaração de interesses - Não sou, nunca fui abstémio, filho de um pequeno vitivinicultor, se tivesse tido oportunidade e meios teria gostado de prosseguir e alargar o mais possível o nosso interesse familiar pela vinha. Encanta-me, sempre me encantou e continua a encantar ver uma vinha bem tratada) 
 
--- Correlacionado 
 
Do Semanário Expresso desta semana, retiro daqui, de uma prosa espirituosa e bem esgalhada,
 
" Nos últimos cinco anos, o consumo de álcool e tabaco aumentou em Portugal. Em contraciclo. É o país do mundo que mais consome vinho per capita e tem vindo a aumentar. Bem sei que somos um país produtor de vinho, mas não pode ser bom. Os mais velhos consomem vinho e os mais novos, cerveja. Ao falar dos dados da década 2012–2022, há dois meses, João Goulão, subdiretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, disse que “quando falamos de embriaguez, as coisas pioram em todos os grupos etários”. E nos grupos etários mais baixos, dos 13/14 anos, “os consumos das raparigas ultrapassam os dos rapazes e são muito altos”. E ainda: “Nestes dez anos, em vez de ganharmos, perdemos para as questões de saúde relacionadas com álcool.” Mas nem tudo são más notícias. Portugal é, segundo o Eurostat, o país da UE onde se bebe mais álcool, mas não é dos países onde há mais episódios de binge drinking, de beber à bruta num dia. Era suposto isto alegrar-nos.

O álcool é um problema grave neste país. Fingimos que não. Cada português consome mais de 12 litros de álcool puro por ano. E já se sabe como são as médias. Se eu não bebo, alguém está a beber 24 litros. Mas, acima de tudo, está inculcado no inconsciente nacional. Ao longo destes anos que não bebo (às tantas tornou-se uma teimosia engraçada), não consigo contar quantas pessoas ficaram verdadeiramente chateadas, aborrecidas, indignadas, desapontadas e muito desconfiadas por eu ter recusado simpaticamente o copo de vinho, licor, aguardente — ou por eles feitos, ou para acompanhar a refeição, ou o champanhe para celebrar o momento —, apenas e só pela justificação que me parece justa: não bebo. Ali, a indignação do momento foi sempre o meu desrespeito pelo anfitrião. E não o facto de ele estar a exigir que quebrasse um princípio de vida. Sei que nem se apercebia. Mas, sim, quem era o merdoso da situação? “Custava alguma coisa fingir que bebias?” É apenas #anossaCultura.

 

Friday, November 15, 2019

IN VINO DA VINCI

Old wine in new bottles Leonardo da Vinci’s personal vineyard has been re-created

And the wine is ready to drink

Nov 14th 2019

LEONARDO DA VINCI is remembered as many things—artist, inventor, scientist. “Boozer”, however, is rarely included on the archetypal polymath’s astonishing CV. That might change now that scientists have resurrected da Vinci’s own vineyard.
Da Vinci was a great lover of wine, “the divine liquor of the grape”, as he called it. So much so that Ludivoco Sforza, the Duke of Milan, offered him a vineyard as payment for “The Last Supper”, which he painted for the refectory of the Convent of Santa Maria delle Grazie in Milan in 1498. It survived for centuries after his death, until it was destroyed by a fire started by Allied bombs in 1943. With it was lost any hope of seeking inspiration from the same liquid source that once fuelled the painter of “Mona Lisa” and the inventor of the helicopter.

That is, until 2007, when Luca Maroni, an oenologist, decided to excavate the site in the hope that some vine-roots had survived the fire. He recruited Attilio Scienza, an expert on viniculture, and Serena Imazio, a geneticist, and they began to dig. Finding some roots intact, the team subjected them to extensive genetic testing at the Università degli Studi in Milan. In 2009 they identified da Vinci’s grapes as Malvasia di Candia Aromatica, a variety that is still grown in Italy today.
That discovery set off a painstaking recreation of da Vinci’s vineyard. Dr Imazio scoured Italy to find grapes similar to the DNA profile of the roots, bringing them back to Milan and copying the original layout of the vineyard as exactly as possible. Located in the gardens of the Casa degli Atellani, just two minutes’ walk from “The Last Supper”, it has been open to visitors since 2015.
The vineyard produced its first harvest in September 2018. Now, after a long wait, da Vinci’s wine is ready to drink. A first 330 bottles, based on a design found in da Vinci’s Codex Windsor, will be auctioned later this year. For those not lucky enough to grab a bottle, the vineyards of the nearby Castello di Luzzano, also thought to have been the property of the Duke of Milan, produce a wine made from the same type of grape and inspired by da Vinci. You can enjoy a glass after a pleasant stroll through his vineyard. Light and floral, you can almost taste in it a hint of Leonardo’s renaissance.

This article appeared in the Europe section of the print edition under the headline "Old wine in new bottles"

c/p Economist

Thursday, June 06, 2019

JERUSALÉM DO ROMEU






"...

Tenho oitenta, o meu homem tem oitenta e dois, mas tem um problema de reumático e quase já não sai de casa. Eu ando por aqui. Passo o tempo, não é? Sim, o que vale é o restaurante, vem muita gente, é muito antigo, quando eu nasci já havia o Maria Rita. Houve tempos que esta aldeia tinha muita gente, agora somos só quinze, tudo velhos. Novos, só os que vêm ao restaurante. Produzíamos tudo, azeite, vinho, trigo, batatas, tínhamos porco, tínhamos vacas, tínhamos galinhas, patos, tudo, está a ver aquela encosta, era tudo searas de trigo, agora é o que vê, só pinheiros e silvas. Temos dois filhos, um homem, que está em França, a minha filha mora em Mirandela, vejo-a mais vezes. Agora só colhemos alguma azeitona, pouca coisa, só para a gente, o resto fica para a passarada. A mó que vê ali no centro do jardim, veio do lagar de azeite, havia um lagar de azeite do povo, que acabou.
Há quantos anos é que deixámos de cultivar as terras? Ui! Há muitos. Há mais de trinta. Filhos fora, não podíamos continuar a fazer o que fazíamos antes. Quem poderia?
Sim, isto aqui no largo é muito bonito, muitas rosas, há rosas por todo o lado, pois há, também temos uma igreja muito linda, e muito antiga, vão vê-la. E o museu, já foram ao museu? 
Se não saio daqui, saio, saio. Já fui ao Porto, a Lisboa, a Fátima, já fui a Lurdes, quem organiza tudo é o senhor padre. É muito boa pessoa, se não fosse ele nunca saíamos daqui. "

Wednesday, June 05, 2019

CEREJAS


- Essas cerejas são desenxabidas. São importadas. Agora já não há cerejas nossas. Importamos tudo, até cerejas.
- Nem tudo, mas concordo que importamos demais, mais do que devíamos.
- Acabaram com a agricultura e as pescas.
- Quem é que acabou?
- A União Europeia. Pagaram para arrancar as vinhas e abater os barcos. Agora temos de importar quase tudo.
- Quem é que disse isso?
- Toda a gente sabe disso. Ouvi ontem na televisão que com a entrada na União Europeia destruíram 440 mil explorações agrícolas e 450 mil postos de trabalho na agricultura.
- Isso dá pouco mais de um emprego por exploração agrícola. Deviam estar muito automatizadas, não?
- Isso não sei.
- Eu tenho umas quantas pequenas parcelas de terreno onde se produzia de tudo, desde batata, milho, vinho, arroz, e várias outras coisas. Estão abandonadas, não recebi um cêntimo por isso. Aliás, já estavam, como muitas outras, abandonadas antes de entrarmos na União Europeia. A senhora ainda é jovem. Quer tomar conta delas, e plantar cerejeiras, por exemplo?
- Eu?
- Sim, porque não? Vendo-as todas por dez cêntimos. Mas tem que as cultivar. Aceita?
- Sei lá eu plantar cerejeiras ...





Sunday, March 20, 2016

DEPOIS DOS JACARÉS

7/01/1986

Jacques Cousteau e os seus companheiros continuavam há dias na Amazónia, desta vez com os caçadores de jacarés.

Enquanto esfolava a barriga dos repteis, um entrevistado elucidava que só a pele de baixo lhe interessava por ser  mais macia e boa para cintos. Os restos dos cadáveres jogava-os ao rio para almoço das piranhas. 

- Mas, por este andar, amigo, vocês ainda acabam com os jacarés...  
- Nesse dia vou deixar de caçar, disse o homem com a maior naturalidade deste mundo.

Quem ouviu deve ter chorado lágrimas de crocodilo. 
A perspectiva imediatista comanda as sociedades modernas. A era da incerteza é a era do esgotamento. Morra Marta, morra farta. 
Vão longe os tempos das catedrais. 

Lembrei-me, a propósito, do sr. Perez, um galego que, não sei porque caminhos, caíra um dia nos meus sítios. 
Plantava obsessivamente oliveiras, e, sendo tão velho e sem filhos, ninguém entendia a persistência do caturra.
Morreu o velho Perez há muito tempo já. As oliveiras passaram para a companheira, velha como ele, e dela para os sobrinhos do seu primeiro parceiro, que emigraram, e nunca mais as oliveiras viram donos.  Abraçaram-se a elas os silvados e neste arraial bailavam a pardalada, as rolas e outros solistas, regalando a alma do Perez que por ali pairava nas noites de calmaria. 
Até ao dia em que o fogo a cremou.  

Passaram os anos, em todas as redondezas morreram os olivais. E só ressuscitaram os silvados e as pedras. 

Monday, February 08, 2016

PEQUENAS HISTÓRIAS CONFISCAIS

Liguei para o F., estava ele a apanhar laranjas.
- Este ano é o ano dos citrinos. As laranjas, então, são muitas e boas, disse-me ele, contente com a prodigalidade de meia dúzia de árvores que plantou no quintal, ali para os lados de Sesimbra.
Quando se consegue evitar que a mosca do mediterrâneo, a cochonilha, e outros assaltantes, não nos derrubem os frutos, a laranjeira é a mais fiel e formosa das árvores fruteiras, e o limoeiro a mais pródiga.
Há quem não lhe apanhe os frutos, ou porque não goste de fruta ou porque prefere o gosto de as ver sempre de verde e dourado.

Já o A., apanha apenas algumas laranjas de muitos milhares que crescem numas largas centenas de árvores na sua propriedade no Baixo Alentejo. E quase nenhuma azeitona de algumas toneladas que crescem para lá do laranjal.
- Não apanhas as laranjas A.?
- Nem as laranjas nem a azeitona? E sabes porquê? Para não perder mais dinheiro. Se arranjo pessoal para a apanha tenho de lhes pagar sem recibo porque é malta que não tem emprego certo, vive do subsídio de desemprego, se passa recibo perde o subsídio. Depois, o que as fábricas pagam por quilo é pouco mais que o custo da mão-de-obra. Sem recibos não poderia contabilizar custos e pagaria impostos sobre lucros iguais às vendas. 

O A.J., por outro lado, hesita em vender uns eucaliptos que plantou há quinze anos porque o fisco não quer saber de custos e tributa como matéria colectável 15% do valor das vendas, talvez presumindo que se trata de um negócio chorudo. Se vende passa de escalão de IRS, e lá se vai o débil rendimento de um investimento a quinze anos.

O R. tem um terreno que não cultiva há largos anos, mas o imposto fundiário é reduzido. Apareceu um comprador e o preço era razoável mas o imposto do rendimento englobado leva-lhe mais de metade do valor acordado. Não vende.

O fisco premeia a inactividade.


Meio quilo de laranja

Saturday, December 28, 2013

OUTRO ERRO GERALMENTE REPETIDO

Como as mentiras, não se tornam verdadeiros os erros repetidos mas sobrepõem-se frequentemente à verdade mesmo junto de quem tem obrigação de um mínimo sentido crítico da informação que consulta. O Público iniciou hoje uma séria de quatro artigos, vd. aqui, sobre a evolução dos principais indicadores da economia portuguesa desde 1973.

De entre esses indicadores, assume particular acuidade a taxa de desemprego, o maior flagelo das economias ocidentais, resultado de uma concorrência global por um bem - trabalho - cada vez mais escasso no Ocidente por duas razões fundamentais - a deslocalização das actividades industriais para leste e o aumento global da produtividade -, por sua vez conquência natural da liberalização do comércio externo.

Segundo os dados citados por Sérgio Aníbal, a taxa de desemprego terá crescido em Portugal de 1,4% em 1973 para 5,5% em 1993 e 15,6% em 2013. Ora os valores muito baixos das taxas de desemprego referidos para as três décadas anteriores a 1974, e que em 1973 seria de 1,4%, não são de modo algum comparáveis com os valores referidos para duas e três décadas depois. Já anotei há alguns anos atrás neste caderno de notas o absurdo desta comparação frequentemente repetida. 

Antes de 25 Abril de 1974, o sector primário - sobretudo a agricultura - assumia ainda uma importância relativa determinante no emprego em Portugal. A fuga ao campo já se tinha precipitado na década anterior não só em consequência de um crescimento inusitado do sector secundário mas também de uma vaga de emigração sobretudo para a Europa, além do envolvimento de praticamente todos os rapazes entre os 20 e os 24 anos na guerra em África. 

Acontece que a taxa de desemprego na agricultura e pescas antes de 1974 era muito elevada se aplicados os critérios de avaliação actuais às situações que se observavam naquele tempo em matéria de garantia de trabalho regular. Os valores citados por A Sérgio são os que constam da estatísticas oficiais mas não lhe conferem, por essa qualidade, qualquer fiabilidade.

Serão, quanto muito, oficialmente errados. 

Friday, November 22, 2013

EXUBERÂNCIA















Mais belo que o hat-trick de Cristiano Ronaldo contra a Suécia. "O que há é pouca gente para dar por isso. óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó. (O vento lá fora.)".

Sunday, October 06, 2013

Sunday, August 18, 2013

PALMAS PARA ELES

Estão contadas no Correio da Manhã mas são histórias de sucesso que vale a pena ler.

Em 1974 o sector primário empregava cerca de 35% da população activa; o ano passado, cerca de 10,5%. Entretanto a população activa aumentou durante os 38 anos do intervalo cerca de 15%, quase 1 milhão de pessoas; no sector primário observou-se uma redução de 63%, cerca de 800 mil pessoas.
- vd. aqui.

A evolução no subsector agrícola, considerando o seu peso relativo, não se afastou sensivelmente do observado no sector primário. Mas foi na década anterior, caracterizada por um crescimento económico acentuado, que se observou a maior redução relativa de empregos na agricultura, quer por transferência para os sectores secundário e terciário internos, quer por emigração, principalmente para a Europa.
 
A transição observada foi dramática e, contudo, não correspondeu a uma alteração radical da estrutura dos principais factores produtivos: a terra e o trabalho. Apesar da concentração entretanto observada, da redução de unidades produtivas e do aumento da área média das explorações agrícolas, há ainda uma pulverização excessiva, tanto no sector agrícola como silvícola, de pequenas familiares unidades onde se concentram grande parte dos 486 mil empregos registados em 2012, em unidades familiares de economia de subsistência.

A agricultura, caracterizada desde sempre como uma actividade de mão de obra intensiva, é hoje uma actividade de capital intensivo e de reduzida empregabilidade onde a produtividade é elevada e os rendimentos compensadores dos investimentos realizados. Aqueles que na recente vaga de retorno à terra em consequência da crise ignorarem esta realidade regressarão ao ponto de partida desiludidos e mais pobres.

Os casos contados no Correio da Manhã merecem aplausos. Mas, assim como uma andorinha não faz a Primavera, assim nada de verdadeiramente importante acontecerá na agricultura portuguesa enquanto não for reestruturada a propriedade agrícola e silvícola de modo a garantir-lhe a dimensão mínima de competitividade. Mais uma tarefa a exigir um consenso alargado que não existe.

 

Thursday, June 27, 2013

PEANUTS PÚBLICOS

Quaisquer  pequenas lesões nas contas do Estado são trocos quando comparadas com os grandes atentados, como, por exemplo, o BPN, os swaps, os submarinos. Em todo o caso, muitas parcelas pequenas totalizam valores consideráveis. Por outro lado, são indicadores da ausência de critérios mínimos de racionalidade na utilização dos dinheiros públicos.

Quem chega á entrada da Reserva Natural da Portela do Homem entre as onze da manhã e as seis da tarde encontra três cobradores envergando coletes reflectores e placas identificadoras penduradas ao pescoço. O trânsito é tão escasso que nos permite uma conversa ocasional com os três funcionários sem atrasar o atendimento de alguém.

- Bom dia! Quanto custa entrada?
- Só euro e meio, se tivesse entrado antes das onze entrava de borla, disse o primeiro cobrador enquanto me entregava o recibo e recebia o euro e meio.
- Hoje é dia de greve geral, não é? Vocês não aderiram à greve?
- Não podemos, esclareceu o segundo cobrador. Ganhamos tão pouco que um dia a menos faz-nos falta. Não podemos perder um dia que seja.
- Percebo que trabalham para o Intituto de Conservação da Natureza ...
- É como diz.
- E residem aqui no Gerês ...
- Não senhor. Somos de Vila Real.
- De Vila Real?
- Sim senhor de Vila Real, confirmou o terceiro cobrador.
- E vão e vêm todos dias?
- Tem de ser, fomos desterrados... Não temos outro remédio.
- E quanto tempo gastam na viagem?
- Hora e meia para cada lado, mais ou menos.
- É duro.
- Se é.

Atravessámos a Reserva Natural até à fronteira sem nos determos na barragem de outra equipa de três cobradores  a receber um euro e meio e a conversar com um espanhol com dúvidas.

Se a intenção do ministério da agricultura e etc., é contribuir com estas cobranças para a redução défice, alguém se deve ter enganado redondamente nas contas.

Wednesday, June 26, 2013

UM PAÍS A DORMIR NA FORMA

O título da notícia é equívoco porque as diligências feitas pelos jornalistas do i  limitaram-se aos órgãos directamente dependentes do governo central  da República e não abrangem, portanto, os órgãos do poder regional e local nem outras entidades públicas ou maioritariamente públicas. Se na investigação do i tivessem sido incluídas as câmaras municipais e as juntas de freguesia os resultados seriam arrasadores.

Já várias vezes apontei neste bloco notas que a falta de transparência das contas da administração pública, a sistemática desobediência à legislação em vigor na matéria em questão, a sobranceira indiferença com que as auditorias do  Tribunal de Contas são tidas pelos responsáveis por irregularidades ou ilegalidades por eles cometidas, a inimputabilidade geral que campeia por todo o lado, constituem um dos principais factores de menorização da democracia em Portugal.  
Agora, quando país se enche de outdoors com figurões colocados em cada esquina para caçar o voto que lhes garante a glória doméstica, quantos deles se recandidatam sem ter apresentado contas? Haverá algum que o tenha feito? A recandidatura a novos mandatos deveria ser impossibilitada aos faltosos.

Percebe-se que o governo (este ou outro qualquer) defronte enormes dificuldades para reestruturar o Estado quando tem pela frente interesses corporativos monopolistas mas já não se percebe, por exemplo, por que razão dos 27 órgãos directamente dependentes do ministério da agricultura, nem um sequer apresentou relatório de actividades relativamente a 2012 e só 9 apresentaram plano de atividades para 2013; ou por que é que nenhum dos 5 órgãos do ministério da defesa apresentou o relatório de actividades de 2012 nem o plano de actividades para 2013. Por que é que os responsáveis, que não podem ignorar isto, consentem tanta indisciplina e se tornam,  implicitamente, coniventes destas ilegalidades?
Por incompetência ou por falta de capacidade de comando.

Monday, June 10, 2013

PONTOS NOS IS

Já aqui tenho anotado neste caderno que se ouvem vezes sem conta acusações infundadas de ter a adesão de Portugal à União Europeia implicado o desmantelamento da agricultura e pescas do nosso país. E que, acrescentam essas vozes repetidamente retransmitidas, Portugal é hoje um país mais dependente de importações de bens alimentares em consequência da política agrícola perversa da União Europeia.

O que não é verdade.
Só quem desconhece em absoluto em que situação se encontravam a agricultura e as pescas em Portugal há 40 anos pode inconscientemente afirmar que os fundos comunitários destruíram a  nossa auto suficiência alimentar. Tal não significa que os fundos recebidos tenham sido geralmente bem aplicados na reestruturação daqueles sectores, que não tenha havido práticas condenáveis na atribuição e utilização dos fundos, que Portugal tenha obtido as melhores condições possíveis nas negociações conduzidas pelos sucessivos ministros, que os ministérios da agricultura e pescas se tenham reestruturado de modo a fazer aquilo que deviam. Mas se culpas houve, e ainda há, elas terão de ser procuradas nos nossos cartórios.

Na edição da sexta-feira passada, o semanário "Sol" publicava um protesto do engenheiro agrónomo Sevinate Pinto pelas afirmações completamente descabidas feitas pelo senhor Miguel Sousa Tavares sobre o nível de auto suficiência alimentar de Portugal antes e depois das entradas de fundos comunitários direcionados à reestruturação, redimensionamento e equipamento do sector primário em Portugal. Por ignorância, já que não é suposto haver má fé, Miguel Sousa Tavares escreveu alguns dislates que, se podem relevar-se ao cidadão comum que, inconscientemente retransmite muito do que ouve desde que lhe anime o ego insofrido, são imperdoáveis a um jornalista com um currículo notável.

Hoje, o Presidente da República elegeu como tema central do seu discurso em Elvas o sector agrícola, uma escolha que parece pertinente no Alentejo, comparando com algum detalhe a evolução da agricultura em Portugal  nos seus mais relevantes indicadores económicos e sociais, refutando fundamentadamente a ideia completamente errada que a adesão à União Europeia determinou um retrocesso dramático nos sectores da agricultura, silvicultura e pescas. Bem pelo contrário, apesar de estarmos ainda aquém do que devíamos e podemos produzir, a evolução foi claramente muito positiva.

Espera-se que o senhor Miguel Sousa Tavares tenha lido o que escreveu o senhor Sevinate Pinto se lhe é alérgica a leitura do que disse o senhor Cavaco Silva.

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Correl. - Contributo do PR

Monday, June 03, 2013

HOLD THE LINE

Uma das actividades que neste país não se deixa amolar pela crise é a produção e colocação de outdoors. Com as autárquicas a aproximarem-se, a indústria da outdoorização resplandece por todos os cantos exibindo as fronhas dos candidatos acompanhadas de mensagens curtas e incipientes como mandam os manuais. Fora dos ciclos eleitorais, a actividade experimenta algum abrandamento mas a propaganda das iniciativas  dos que ocupam os poleiros e a fogosidade antissistema  dos partidos que nunca serão governo garantem-lhe um lastro de rendimento permanente.
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O poder autárquico, já o tenho referido neste caderno de apontamentos, goza do privilégio de poder gastar dinheiros públicos sem ter o ónus político às costas de cobrar impostos. Esta regalia determina nos munícipes uma insensibilidade fiscal que os leva a bater palmas a tudo quanto é obra feita e a votar repetidamente nos mesmos de sempre. A lei de limitação dos mandatos autárquicos não reduzirá um milímetro desta situação de anestesia crítica. Se, de outro modo, fossem os munícipes confrontados, através de impostos cobrados localmente, com parte dos custos de algumas dessas obras, os resultados seriam diferentes e mais consentâneos com os interesses locas.
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Os exemplos de dispêndios sem justificação social suficiente estão espalhados de norte a sul. Alguns deles poderão ter mérito suficiente mas é muito inadequada o tipo de  intervenção das autarquias, que, deste modo vão secando a capacidade de iniciativa dos cidadãos residentes.
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Em Cascais, a Câmara coloca nesta altura do ano outdoors de promoção de duas actividades de intenção cultural: A Artemar, no passeio marítimo do Estoril e a Land Art, na Quinta do Pisão.
A Quinta do Pisão, lê-se no site, é propriedade do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social e sob gestão da Santa Casa da Misericórdia, é administrado pela Empresa Municipal de Ambiente de Cascais. São 380 hectares, segundo o site, 450, segundo o folheto entregue aos visitantes, onde pastam, segundo informações recolhidas no local, cerca de 10 burros lanudos, meia dúzia de cavalos, cerca de 50 ovelhas. E tem uma horta. Os vestígios, escassos, da presença humana permanente no local, incluindo uma capela, esperam que os recuperem.  A horta, onde devem ter plantado alfaces, tomateiros e quejandos, está morta e assaltada pelas ervas.
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Quem ali vai com olhos habituados a ver, começa por perguntar-se porque bulas é o Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social proprietário daquela extensão de 450 hectares, a maior parte descampada; que gestão está a ser assegurada pela Santa Casa da Misericórdia se é a Empresa Municipal do Ambiente de Cascais que administra as actividades que ali são realizadas. Por que é que um espaço daqueles está em grande parte desflorestado numa zona rodeada de floresta e a parte florestada está inundada de mato seco à espera de um fósforo; por que é que a horta foi instalada e a deixaram morrer; por que é que o rebanho de ovelhas cresce sem outra utilidade para além de um show de tosquia promovido anualmente. Em resumo: Por que é que a exploração daquela quinta, se a venda não é exequível, não é entregue a uma família, sujeita a um caderno de encargos que incluíssem a disponibilidade de visitas do público para fins pedagógicos ou simplesmente de recreio?   
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É neste espaço enorme, quase completamente desaproveitado, que a EMAC instala de forma dispersa meia dúzia de obras de arte contemporânea que serão visitados por um número reduzíssimo de curiosos com pachorra e resistência física para ir a todos os locais a pé. É nela também que promove a realização de espectáculos de tentativas de jazz, entre outros, em instalações terceiro-mundistas, com uma assistência média entre 10 a 15 resistentes com entrada livre, segundo nos foi dito no local.
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Antes da visita, tínhamos ligado para o 21 460 4230, e após o inevitável "Hold the line, your call is very important to us " e muita persistência com  transferências de chamada para "o colega que sabia do assunto"  indagámos se havia mesmo uma actividade agrícola que pudesse ser mostrada à pequenada. Há sim, responderam-nos. Temos uma horta com alfaces, tomateiros, pimentos, coisas desse género.   
Não têm.
Como é habitual em Portugal, depois do investimento feito falta o dinheiro para a manutenção. Neste caso foi gasto com outdoors.

Monday, May 13, 2013

OS NOVOS AGRICULTORES

Com a crise a apertar há muita gente a voltar ao campo. Muita gente voltou a ter a sua hortinha para equilibrar as contas. Essa gente aguenta-se melhor do que aqueles que moram nas grandes cidades. Lá para os meus sítios vê-se muito disso. A agricultura é agora a saída para muita gente. 
 
Puro engano.
Se no espaço de poucas décadas os campos foram abandonados, se o sector primário deixou de empregar a maior parte da população activa em todo o mundo desenvolvido, que inversão de circunstâncias pode determinar um súbito interesse das pessoas por uma actividade que deixou há muito de ser de mão-de-obra intensiva? Só por desespero, último recurso ou evasão à turbulência da vida urbana depois de ter amealhado o suficiente para um resto de vida confortável.

Qualquer exploração agrícola, como qualquer outra actividade económica, só pode ser competitiva se tiver  dimensão adequada. De outro modo, ou é economia de subsistência ou um prazer mais ou menos dispendioso. Não tem meio termo. Resulta daqui que, ou há reestruturação fundiária que permita aproveitar mais solos aráveis de forma competitiva ou a oportunidade agrícola, que muitos vêm como alternativa à crise e ao crescimento do desemprego, é uma miragem.

De qualquer modo, a agricultura não é, nem será mais, uma actividade que possa criar muitos postos de trabalho. Não é e não será mais uma actividade económica que possa estancar o crescimento do desemprego. Mas poderia, e deveria, aumentar o crescimento do rendimento nacional e reduzir a dependência alimentar externa.

Wednesday, January 30, 2013

POR QUE HÁ TANTOS IMBECIS NESTE PAÍS?

 A maioria parlamentar vai sugerir ao Governo a recuperação do histórico programa televisivo da RTP "TV-Rural" como forma de cumprir o serviço público.

Toda a Oposição está contra. Está contra porque considera uma ingerência da maioria na programação da televisão do Estado. Poderia ter estado contra todas as ingerências de todos os governos, sem excepção, na estação pública de televisão mas só está contra esta porquê? E logo a propósito de um tema que, não sendo garantidamente ideologicamente neutro, será dos menos vocacionados para propósitos de proselitismo ideológico.

Está contra, desde logo, porque em Portugal ser oposição é cumprir exactamente o sentido etimológico do termo. Se a maioria propõe, a oposição opõe-se. Quando mudam (os que mudam) de posição, o exacto cumprimento mantêm-se. Depois, porque a própria maioria, ou por encadeamento instantâneo do brilho que viram na ideia ou porque quiseram mostrar serviço aos olhos dos seus fiéis, entendeu fazer o que não devia: levar o assunto à apreciação da AR.

A maioria poderia ter feito chegar à RTP da forma mais inocente possível, e não lhe faltavam canais, o senhor Miguel Relvas é simultâneamente ministro para os assuntos parlamentares e televisivos, uma sugestão que, do meu ponto de vista, merece todo o acolhimento. O senhor Miguel Relvas falava com o senhor Alberto da Ponte, o senhor Alberto da Ponte com quem deve, e o programa estaria no ar um dia destes, geralmente aplaudido, até pela oposição.

Assim, foi um ar que lhe deu, que o terá matado antes dele ter nascido.
 
 
 
 

Monday, January 14, 2013

VINHOS E AIPEDES


Dois litros de cerveja produzida em "micro cervejaria" custam entre 9 e 11 dólares, consoante as diferentes qualidades à escolha do freguês, oito, na micro referida na foto.

À volta de Washington DC, na Virgínia e Maryland há várias. Mas a Virgínia orgulha-se, sobretudo, dos seus vinhos. Ainda que as Colas e outras beberagens afins continuem a ser preferidas pelos norte-americanos, os vinhos ocupam um lugar destacado em todos os supermercados, sinal de que são procurados sobretudo pelas classes mais altas. Vêm sobretudo da Califórnia, do Chile, da Argentina, da Austrália, África do Sul e, evidentemente, também de França, Itália, Alemanha e Áustria (brancos) e de Espanha. Da Suíça (caríssimos), até. 

A presença de vinhos portugueses, salvo os Portos, ou é nula ou insignificante. Pior do que isso: quando existe é representada geralmente por vinhos de qualidade inferior incutindo nos norte-americanos uma ideia errada sobre a qualidade dos vinhos produzidos em Portugal. Não me admiraria que os bons vinhos portugueses possam ter dificuldades de penetração nos EUA em consequência da avançada pelintra deste pelotão rasca.


Não é a primeira vez que anoto esta questão neste caderno de apontamentos. Repito-me porque hoje deparei com a colocação em lugar de destaque de uma dúzia de caixas de vinho verde de uma marca que nunca vi em Portugal. Preço : 4,99 dólares/garrafa. Não pode ser um bom vinho verde. Há muitos anos que os vinhos portugueses são referenciados no estrangeiro, e nomeadamente nos EUA, por produções que não prestigiam a actual qualidade dos nossos vinhos. Pelos vistos, a estratégia mantem-se. Admito que alguem ganhe com isso,  a vitivinicultura portuguesa certamente não. Se nem vendermos vinhos a estes tipos como é que arranjamos dólares para lhes pagar aipedes?

Monday, January 07, 2013

UM PAÍS A BRINCAR

O caso não é único nem sequer, se considerado individualmente, materialmente muito relevante. Sabe-se que o Estado é grande e os governos, onde quer que se encontrem, os seus tutores. E os tutores, já se sabe, cuidam mais da sua vidinha que dos interesses do Estado ainda que jurem fazer o contrário. Daí que se passeiem pelos corredores da função pública muitos que ninguém sabe por que por lá andam. No mi(ni)stério da Agricultura havia, ainda há poucos anos, mais de doze mil funcionários. Contas feitas, quatro funcionários por cada agricultor, contando nestes os graúdos e miúdos, os activos e os desmobilizados. Hoje serão cerca de metade, e ainda sobrará muita gente.Tanto assim é que, segundo notícia do Expresso de anteontem, um fulano recebeu ordenado durante vinte anos sem nunca ter posto os pés no serviço nem ninguém ter dado pela falta dele. E na Defesa, por exemplo, quantos não andarão a marcar passo no mesmo sítio toda a vida?

E quantos, comparecendo ao serviço, nos custarão mais impostos, pelos gastos que a sua presença implica ou proporciona, do que este espertalhão que se limitava a receber e não mexer uma palha? Ninguém sabe. Recorrentemente, os candidatos ao governo prometem reformar o Estado, o actual primeiro-ministro lembrou-se de o refundar. Mas não disse quando, nem como, nem o que entende por isso. Até agora, a redução mais substancial dos custos dos serviços prestados pela função pública (é essa a razão de existência do Estado) realizada pelo actual governo tem incidido sobre a redução indiscriminada dos salários dos funcionários, atingindo de igual modo os úteis e os excessivos, os competentes e os relapsos. Mas como, mesmo assim, os custos subsistem elevados, o Governo, ao mesmo tempo que reduz os custos reduzindo os salários aumenta os preços, aumentando impostos. Aqueles que no passado ousaram mexer no monstro acabaram por ser sacudidos borda fora pela sua cauda escamada, com os aplausos incontidos da oposição na altura.

Há dias, o primeiro-ministro desafiava publicamente o líder da oposição a encontrar alternativas para a redução da despesa pública na eventualidade de o Tribunal Constitucional dar provimento às dúvidas de inconstitucionalidades do OE levantadas pelo PR e por toda a oposição. Um desafio que, para ser sério, deveria ter sido feito antes e em privado. Assim, assistiremos à brincadeira do costume.

Monday, November 26, 2012

DÁ DEUS DENTES A QUEM NÃO TEM NOZES

Isabel Jonet escandalizou mais de meio Portugal quando há dias disse algumas verdades. De entre elas, a mais badalada foi o consumo excessivo de bife. A essa questão já me referi aqui. E, até prova em contrário, a verdade é que as estatísticas colocam os portugueses como razoáveis consumidores de um produto para o qual não dispõem de condições favoráveis de produções locais. Mas há mais.
 
Quem olha para a origem dos produtos à venda nos supermercados pode constatar que, ainda hoje, quando a crise apoquenta quase toda a gente, os portugueses não dispensam o consumo de alguns produtos que noutros países com a balança comercial mais equilibrada têm a sua venda restringida  a espaços comerciais autorizados exclusivamente à sua comercialização. Por esta altura do ano, multiplica-se nos supermercados portugueses o stock de bebidas importadas de alto teor alcoólico, geralmente elevado tendo em conta o espaço dedicado a outras bebidas de custo incomparavelmente inferior.
 
Não por acaso, as estatísticas anualmente publicadas  pela Organização Mundial de Saúde, que de vez em quando aponto neste caderno, colocam Portugal - vd aqui - entre os maiores bebedores de alcool do mundo. Trata-se, obviamente, de uma questão que, mais do que as incidências na balança comercial, contam os efeitos negativos de um hábito que não é suficientemente denunciado nem combatido. Entre as consequências dramáticas do abuso do alcool está a elevada mortalidade juvenil observada em Portugal.  
 
No supermercado onde hoje fizemos compras, havia, apesar do anunciado apoio no local à produção nacional, entre muitos outros items, só na área de alimentação,   batatas de Espanha e França, cebolas de Espanha, chuchus da Costa Rica (por que é que se importam chuchus quando a sua produção é tão pouco exigente e viável em Portugal, é um dos mistérios comezinhos para o qual não encontro resposta), feijão verde de Marrocos, ... nozes dos Estados Unidos da América!
 
 
Tal como os bancos, os supermercados parecem desconhecer que a economia é uma activiade de trocas e que só pode trocar quem produz valor equivalente. Inevitavelmente, um dia, se não mudarem de atitude, estabelecendo parcerias win-win com os vizinhos, terão cada vez menos consumidores, incluindo os bebedores de spirits. 

Friday, November 23, 2012

QUARENTA

Leio de relelance numa banca de jornais que o grupo liderado por Alexandre Soares dos Santos vai abrir  quarenta clínicas em centros comerciais. Já em casa, confirmo que  não li mal  por ter lido enquanto pagava a conta do combustível: Como projecto-piloto, em Julho foram abertas pelo grupo de Soares dos Santos quatro clínicas de saúde oral, nutricionismo e tratamento dos pés, abertas todos os dias da semana das dez da manhã às dez da noite. O objectivo é atingir quarenta unidades semelhantes. Investimento previsto: quatro milhões de euros.   
 
À procura da notícia na net encontrei outros quarenta objectivos para o mesmo grupo: quarenta lojas na Colômbia. Por momentos supus estar perante uma qualquer confusão mediática entre 40 lojas na Colômbia e 40 clínicas em centros comerciais. Mas não há qualquer equívoco: São mesmo quarenta de um lado e quarenta do outro. A Colômbia passará, deste modo, a ser o terceiro mercado de implantação, depois de Portugal e Polónia, do grupo Jerónimo Martins. 
 
A notícia vale um comentário, não tanto pela coincidência numérica dos objectivos, mas pela persistência dos empresários na aposta em serviços mesmo em tempos de uma gravíssma crise que germinou, precisamente, pela prevalência excessiva do sector terciário relativamente aos sectores primário e secundário. Se não produzimos para a troca não poderemos trocar e a crise aparece.
 
Há algum tempo, recordo-me de ter ouvido Soares dos Santos afirmar a intenção do grupo Jerónimo Martins investir em produção agrícola que possa abastecer os seus supermercados de produtos cuja oferta interna é manifestamente insuficiente. Já em Março de 2009, em entrevista ao Expresso que referi aqui, Soares dos Santos dava a produção nacional de morangos como exemplo dessa insuficiência. E a prova de que a sua afirmação era, e continua a ser, consistente está no facto de este ano a Câmara ter patrocinado - vd aqui a colocação de postos de venda no Rossio de morangos ... espanhóis!

Ultimamente, têm vindo a publico notícias que dão conta do interesse de muitos jovens pela agricultura. Muitos, certamente, por falta de alternativas, com todas as probabilidades de falhanço que acompanham a perseguição de objectivos de último recurso. A probabilidade de insucesso aumenta se o ministério da Agricultura não corresponder em tempo útil com medidas que possam disponibilizar terras para os interessados em trabalhar nelas. Mas, para além disso, é tempo das cadeias de distribuição patrocinarem e integrarem parcerias com esses jovens agricultores de modo a garantirem a sua própria sobrevivência em Portugal. A menos que a sua estratégia seja a de abandonar este barco e contar apenas com a frota lá fora.