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Friday, November 08, 2024

O DIA DA FALTA DE VERGONHA

A continuidade do Aliás depende do seu merecimento, avaliado por comentários, críticas, sugestões, correcções, de quem o lê.
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Anteontem, 6 de novembro, quando foram conhecidos e reconhecidos os resultados das eleições do dia anterior, 5 de novembro, um manto de vergonha cobriu quem foi surpreendido pelos resultados conseguidos por um arruaceiro infame num país onde a expressão livre do pensamento perdura há duzentos anos.
Ontem, 7 de novembro, choveram trovoadas de explicações para o fenómeno político que, afinal, era, mais que esperado, era inevitável. Tão inevitável como as alterações climáticas sem culpa humana.

E o arruaceiro transfigurou-se em salvador de um mundo vicioso, depravado, que perdeu a alma.
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Obs. As fotos colocadas anteontem e hoje são, para mim, de autor desconhecido, razão porque não consigo identificar a sua origem.
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Correlacionado - Em 19 de agosto, cerca de três meses antes do dia das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América, J M Tavares escreveu no Público: Entre Trump e o Rato Mickey eu votaria no Rato Mickey.
Em 6 de novembro, dia seguinte aos das eleições, conhecidos os resultados, escreveu isto: Desta vez Trump tem uma equipa. E isso fez toda a diferença.
 
A ameaça medonha que esta contradição anuncia não é o facto de ter sido escrita por J M Tavares. Não. A contradição espraiou-se globalmente revelando um mundo futuro povoado por cobardes subservientes dos autocratas em crescimento imparável. 
Condição a que o Rato Mickey nunca se sujeitará.

Friday, April 08, 2016

JOÃOZINHO E AS MOSCAS

Afinal o último dos românticos não compareceu.
Esteve o primeiro-ministro, que, à saída, interpelado pela avidez dos media, esclareceu de modo escorreito que já tinha feito observar ao seu ministro da Cultura que a ameaça de um par de bofetadas
não são maneiras que se tenham em público numa sociedade onde presidem os afectos.
E, aproveitando a oportunidade mediática, acrescentou que tinha relembrado a todo o seu Governo a regra básica de nem sequer mal tratarem as moscas ainda que aconteça o acaso de um casal delas venha rodopiando no ar e acabar por fazer amor nos seus pratos de sopa.

Invocando o direito à liberdade de expressão (à bofetada, supõe-se) o sr. João Soares demitiu-se hoje.
Se ele passar da ameaça aos factos, teremos notícia, um dia destes, de um hilariante espectáculo de bofetada entre sexagenários.

Monday, December 15, 2014

GENTE FINA É OUTRA COISA

J M Ricciardi, vd. aqui, compreende a “muita mágoa em não poder continuar a passar as suas habituais e luxuosas férias de fim de ano na mansão” de Ricardo Salgado” à beira-mar no Brasil”, e acusa o comentador Marcelo Rebelo de Sousa de ter mentido ontem duas vezes:

"O BESI, ao contrário do que disse [Rebelo de Sousa], nunca avalizou a emissão e colocação do papel comercial do GES”, "nomeadamente as que geraram perdas de 800 milhões de euros para o BES" e,
"Não só manifestei formalmente em Fevereiro de 2014 ao Banco de Portugal a minha indisponibilidade para continuar no BES, se não fosse alterado o modelo de governação, como ainda suspendi o meu mandato de administrador da ESI em Fevereiro de 2014 e apresentei a minha demissão no mês seguinte.”

A conta de credores do sr. Ricardo Salgado é pesadíssima mas a de devedores nunca mais acaba.

Monday, July 15, 2013

SALOMÃO E O PROFESSOR MARCELO

Alguém,  um dia,  disse que o professor Marcelo sabia de tudo mas não sabia mais nada. E a laracha tem vindo ao longo dos anos a mostrar-se uma pérola de vaticínio certeiro. Com efeito, Marcelo é um campeão holístico, capaz de reunir e relacionar todo o saber deste mundo e do outro. Mas não passa disso. As suas intervenções televisivas são, geralmente, lições aos políticos que ele, Marcelo, desistiu de ser depois de alguns revezes mal encaixados, cumprindo a sentença de quem sabe fazer, faz, quem não sabe, ensina.
 
Mas tem muitos fiéis e atentos espectadores e, faltaria à verdade se dissesse que não o ouço sempre que esteja em casa ao domingo à noite. Hoje Marcelo falou da comunicação do PR, que considerou uma boa ideia em teoria mas estragada na prática. A ouvi-lo perorar esta contradição nos termos - qualquer teoria só é válida se vingar no confronto com a prática -, percebi-lhe alguma instabilidade no discurso, pouco habitual nele. 
 
Polémico quanto baste, Marcelo é normalmente muito seguro nas afirmações que faz. Foi, portanto, com muita estranheza que o ouvi ontem citar o rei Salomão para contar, erradamente, a história das duas mulheres que se reclamavam mãe de uma criança. Segundo Marcelo, Salomão teria decidido cortar a criança ao meio dando metade a cada uma. A versão é outra e exemplar da lendária sabedoria do rei Salomão que entregou a criança à mulher que disse preferir ver o seu filho entregue à outra mulher a vê-lo cortado ao meio.  
 
A história vinha a propósito da decisão do PR que, com a intenção de ser equidistante nas condições postas para a negociação do acordo de salvação nacional, terá matado qualquer possibilidade de acordo ao fixar uma data para eleições antecipadas. Ora é muito óbvio que se CS não tivesse fixado esse assunto na discussão do compromisso que pediu ao trio, o PS, que vem reclamando há já algum tempo eleições antecipadas, a curto prazo, ter-se-ia, liminarmente, oposto a negociar sem que sobre esse ponto houvesse um acordo prévio. CS amarrou o PSD a um dos pilares do acordo entregando aos partidos as condições de negociação do que é essencial e urgente: uma política conjunta de relacionamento com a troica extensível ao período subsequente no relacionamento com a UE e o BCE. O PS já aceitou esse pilar; PSD e CDS não têm nenhuma vantagem em recusá-lo a não ser para uso como moeda de troca durante as negociações.

Percebe-se mal que, sendo Marcelo o génio que dizem ser, tenha contado da história que tornou a sabedoria justiceira de Salomão lendária uma versão absurda. Tão absurda quanto os fundamentos da  sua opinião quanto à realização de eleições antecipadas no próximo ano.

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Correl. - Marcelo nas última semanas só vê porcos a andarem de bicicleta em Portugal

Monday, June 10, 2013

PONTOS NOS IS

Já aqui tenho anotado neste caderno que se ouvem vezes sem conta acusações infundadas de ter a adesão de Portugal à União Europeia implicado o desmantelamento da agricultura e pescas do nosso país. E que, acrescentam essas vozes repetidamente retransmitidas, Portugal é hoje um país mais dependente de importações de bens alimentares em consequência da política agrícola perversa da União Europeia.

O que não é verdade.
Só quem desconhece em absoluto em que situação se encontravam a agricultura e as pescas em Portugal há 40 anos pode inconscientemente afirmar que os fundos comunitários destruíram a  nossa auto suficiência alimentar. Tal não significa que os fundos recebidos tenham sido geralmente bem aplicados na reestruturação daqueles sectores, que não tenha havido práticas condenáveis na atribuição e utilização dos fundos, que Portugal tenha obtido as melhores condições possíveis nas negociações conduzidas pelos sucessivos ministros, que os ministérios da agricultura e pescas se tenham reestruturado de modo a fazer aquilo que deviam. Mas se culpas houve, e ainda há, elas terão de ser procuradas nos nossos cartórios.

Na edição da sexta-feira passada, o semanário "Sol" publicava um protesto do engenheiro agrónomo Sevinate Pinto pelas afirmações completamente descabidas feitas pelo senhor Miguel Sousa Tavares sobre o nível de auto suficiência alimentar de Portugal antes e depois das entradas de fundos comunitários direcionados à reestruturação, redimensionamento e equipamento do sector primário em Portugal. Por ignorância, já que não é suposto haver má fé, Miguel Sousa Tavares escreveu alguns dislates que, se podem relevar-se ao cidadão comum que, inconscientemente retransmite muito do que ouve desde que lhe anime o ego insofrido, são imperdoáveis a um jornalista com um currículo notável.

Hoje, o Presidente da República elegeu como tema central do seu discurso em Elvas o sector agrícola, uma escolha que parece pertinente no Alentejo, comparando com algum detalhe a evolução da agricultura em Portugal  nos seus mais relevantes indicadores económicos e sociais, refutando fundamentadamente a ideia completamente errada que a adesão à União Europeia determinou um retrocesso dramático nos sectores da agricultura, silvicultura e pescas. Bem pelo contrário, apesar de estarmos ainda aquém do que devíamos e podemos produzir, a evolução foi claramente muito positiva.

Espera-se que o senhor Miguel Sousa Tavares tenha lido o que escreveu o senhor Sevinate Pinto se lhe é alérgica a leitura do que disse o senhor Cavaco Silva.

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Correl. - Contributo do PR

Tuesday, December 11, 2012

OLHOS NOS OLHOS

Havia alguma curiosidade à volta do programa de ontem de Judite de Sousa, de olhos nos olhos com Medina Carreira, se JS abordaria o facto das buscas da Judiciária feitas à casa e ao escritório do fiscalista/comentador televisivo no âmbito dop processo "Monte Branco". Abordou, já a terminar o programa, mas a resposta de Medina Carreira: "é assunto sobre o qual não falarei; não gosto que os investigadores falem, eu também não falarei" foi surpreendente.
 
E foi surpreendente porque, estando em causa o seu bom nome (apesar de, ao que se sabe, não ter sido constituido arguido, e de ter sido noticiado que o nome Medina Carreira teria sido utilizado  como código na lista dos envolvidos no caso em questão) ele  não tenha aproveitado a oportunidade para cascar ao seu estilo em quem, sem razão aparente, lhe invade a casa e avisa antecipadamente a impensa da diligência.
 
 Sendo tão cáustico na apreciação que faz das instituições do Estado e, nomeadamente dos agentes da justiça, desde as polícias aos tribunais, seria esperável que desancasse em quem tinha obrigação de saber que: 1º. Não esperam os potencialmente, directa ou indirectamente, envolvidos num processo que já deu mil voltas, que a polícia lhes bata a porta e lhes vasculhe os arquivos para, antecipadamente, limpar tudo quanto possa confirmar quaisquer indícios de suposto envolvimento ; 2º. Tendo a Judiciária interrogado já alguns dos cabecilhas do processo é inconcebível que não tenha averiguado se o Medina Carreira indicado nas listas é a mesma pessoa que toda a gente conhece; 3º. Compete aos agentes da justiça conduzirem-se segundo as normas em vigor e, nomeadamente, não violar nem consentir que, nos termos da lei, seja violado o segredo de justiça. 4º. É por demais evidente que a presença da imprensa no momento da chegada da polícia só pode decorrer de informação ilegal fornecida aos jornalistas a partir de dentro da entidade que procede às buscas.
 
Tendo sido nomeada, recentemente, a senhor Procuradora Geral da República, foi já publicamente confrontada com duas situações em que foi público e notório subsistirem alguns dos graves entorses observados durante o reinado isabeliano do seu antecessor: fugas ao segedo de justiça, saídas em falso, esclarecimentos discriminatórios, mas nenhuma contrição, nem nenhum processo mediático ganho pelo Ministério Público.
 
Preferindo o silêncio, o menos que se pode dizer é que Medina Carreira não esteve, desta vez, igual a ele próprio. Porque se cala a vítima? Ficámos sem saber.

Saturday, July 02, 2011

PORTUGAL DOS ASSESSORES

clicar para aumentar
Leio no Expresso* de hoje que "assessor de Relvas chamou "alforreca" a Passos". A bronca vem relatada na página 11 do primeiro caderno do semanário, com destaque na capa, como pode ver-se na imagem ao lado. Para além de outros mimos, o actual primeiro-ministro é classificado como "vulgar cacique", "abrótea", "vacuidade absoluta". O próprio assessorado, ministro Miguel Relvas, é considerado pelo seu, agora, adjunto político, como "pequeno Torquemada de Tomar". O assessor é João Gonçalves, autor do blogue "Portugal dos Pequeninos", e a sua depreciação vem do tempo em que Passos Coelho ainda não era líder do PSD.
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Não é crível que Passos Coelho seja leitor atento e antigo  do "Portugal dos Pequeninos" . E não é crível porque, tendo vetado Bairrão, que entretanto se havia despedido das funções de director-geral da TVI, por ele se ter declarado, em tempos, contrário à privatização da RTP, mais determinadamente se oporia à nomeação de um assessor se soubesse que este disse pior dele do que Maomé disse do toucinho.

Também é pouco crível que Relvas soubesse ou tenha sido avisado. Estaremos, portanto, perante uma nomeação feita às escuras encaminhada por alguma personagem travêssa ou por algum descuidado  que conhece o Gonçalves político mas não lê o que ele escreve.

E o Gonçalves, por que aceitou a incumbência de comer a sopa depois de ter cuspido nela?
Tinha fome?

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act - aqui

Friday, February 19, 2010

OS RATOS REUNIDOS EM CONSELHO

Já uma vez coloquei aqui no Aliás uma fábula contada por João de Deus Ramos no Livro da Capa Verde mas, se outras razões não existissem, a minha gratidão pela sua obra justifica, só por si, que o recorde de vez em quando. Tinha sete anos quando a li.
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E ocorre-me sempre que leio um manifesto.

Sunday, June 14, 2009

OBSERVAR

Observar, um artigo interessante de António Barreto, a propósito da proposta do Tribunal de Contas para a criação do Observatório das Obras Públicas.

Tanto observador, para não verem o que tantos vêm:

Observatório das Obras Públicas/Observatório do QREN /Observatório das Políticas Locais de Educação/Observatório da Emigração/Observatório da Imigração/Observatório Permanente da Justiça Portuguesa/Observatório Português dos Sistemas de Saúde/Observatório do Turismo/Observatório dos Mercados Agrícolas e Importações Agro-Alimentares/Observatório de Segurança de Estradas/Observatório do Endividamento dos Consumidores/Observatório das Desigualdades/Observatório de Prospectiva na Engenharia e Tecnologia/Observatório da Publicidade/Observatório do Comércio/Observatório da Ciência e do Ensino Superior/Observatório das Actividades Culturais/Observatório do Emprego e Formação Profissional.


"Sem falar nos observatórios municipais, que os há, nos regionais, que também existem e nos privados, que não faltam. Para quê criar observatórios dependentes do governo? Para que servem as Inspecções e as direcções gerais? Por que não contratar entidades independentes, exteriores à Administração Pública, privadas ou estrangeiras? Já agora, comparem-se os prazos e os custos de obras públicas com grandes empreendimentos privados, a ponte do Carregado, por exemplo, ou os grandes centros comerciais. O resultado é uma vergonha para a Administração Pública."

Sunday, April 19, 2009

SOMOS ASSIM

Somos assim, e não há nada a fazer.
M Sousa Tavares, no Expresso de ontem, diz o que dizem os mais consagrados críticos portugueses: sofremos de um mal profundo, nenhuma lei, por melhor que seja, pode resolver este mal profundo.
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O conhecidíssimo colunista, e escritor consagrado pelo respeitável público (católicos sem serem cristãos, ricos sem vergonha dos meios usados para tal, famosos porque se vendem às revistas sociais, corajosos porque podem espalhar boatos e difamações nos blogues, a coberto do anonimato e sem ter de prestar contas, ou invejosos e revoltados contra a "corrupção dos políticos todos" na mesa do café) escreve isto a propósito do projecto legislativo do Bloco de Esquerda, abolindo o sigilo bancário para efeitos fiscais, que ele, MSTavares considera um bom princípio no combate à corrupção e à evasão fiscal, e da criminalização do enriquecimento ilícito, de que discorda porque envolve a derrogação de um princípio essencial da justiça e um direito fundamental dos indivíduos: "o de que, quando alguém é acusado de um crime, cabe à acusação fazer a prova de que o crime existiu mesmo, e não ao acusado fazer a prova que está inocente."
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Tudo resumido: MSTavares considera que há mérito parcial na iniciativa legislativa mas ela de nada servirá porque não há leis que contenham a nossa atávica colectiva capacidade para lhes desobedecer.
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Assim sendo, porque gasta MSTavares a sua cera com sapatos de tão ruim defunto?
Para cobrar a enceradela.

Saturday, April 11, 2009

GENÉRICOS E CORRUPTOS

Uma das regras do mais elementar bom senso recomenda que não se invente a roda. Custa a perceber que razões subsistem para que esta regra não seja adoptada na feitura de grande parte das leis em Portugal. A menos que se congeminem razões de motivações suspeitas. Se há regras que provadamente são as mais convenientes ao interesse público, por terem sido testadas há muito tempo em países onde o desenvolvimento económico e social é bem superior ao nosso (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, entre outros) porque razões estranhas há tanta relutância em adoptá-las em Portugal?
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Que interesses impedem que os medicamentos sejam receitados segundo a sua substância activa, por que razões se opõe o PS a tipificar na lei o crime de enriquecimento ilícito, por quê tanta relutância no levantamento do segredo bancário?
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Em qualquer destes casos, como em muitos outros, estão em causa não só valores pecuniários mas também valores morais que uma sociedade que se pretende civilizada, solidária e solvente deveria prezar. Quando o défice orçamental ameaça atingir de novo níveis indomáveis sem renovados sacrifícios dos mesmos de sempre, a crise poderia ser, se houvesse honestidade de intenções, uma oportunidade para mudarmos de vida, desta de que a grande maioria se queixa, mas não passa disso.

Monday, March 23, 2009

A IMPOTÊNCIA DAS CASSANDRAS

O DD teve a amabilidade de me enviar por e-mail um extracto da entrevista dada por Medina Carreira a Mário Crespo, há uns dias atrás, na Sic Notícias.
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Quem ouve Medina Carreira, não pode deixar de pensar "Ora aqui está um tipo que tem a coragem de dizer a verdade!". Cada afirmação sua é uma fotografia rigorosa da realidade portuguesa. Medina Carreira não é o único fotógrafo das nossas mazelas colectivas (temos também o António Barreto, o Vasco Valente, o Pacheco Pereira, além de outros, e de todos os políticos quando estão na oposição). É citado e recitado. Diz alguma coisa de novo? Lamentavelmente, não diz.
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E digo lamentavelmente, por duas razões: - primeira, porque por mais que se bata com a cabeça na parede, a parede não arreda pé e a cabeça fica traumatizada; a forma mais conveniente de ultrapassar a parede é pensar nas alternativas com que podemos ultrapassá-la, e a este respeito, Medina Carreira, como todos os outros, diz e faz muito pouco, quase nada. - segunda, porque a projecção repetida da mesma fotografia (resultante da impotência de mudar a realidade) leva à banalização e ao entorpecimento.
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Do que, realmente, precisamos não é de quem nos diga que a coisa está preta. Só não vê isso quem não quer ou vê mal.
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De qualquer modo, aqui fica registado no Aliás o extrato da fotografia que Medina Carreira mais uma vez tirou. Divertido foi o final da entrevista, que este extracto não refere: Medina Carreira terminou por lamentar que o tempo concedido à entrevista foi curto; precisava segundo ele, de pelo menos do dobro do tempo. Para uma amplicópia, suponho.
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"Vocês, comunicação social o que dão é esta conversa de «inflação menos 1 ponto», o «crescimento 0,1 em vez de 0,6»....Se as pessoas soubessem o que é 0,1 de crescimento, que é um café por português de 3 em 3 dias... Portanto andamos a discutir um café de 3 em 3 dias...mas é sem açucar..."
"Eu não sou candidato a nada, e por conseguinte não quero ser popular. Eu não quero é enganar os portugueses. Nem digo mal por prazer, nem quero ser «popularuxo» porque não dependo do aparelho político!"
"Ainda há dias eu estava num supermercado, numa bicha para pagar, e estava uma rapariga de umbigo de fora com umas garrafas, e em vez de multiplicar «6x3=18», contava com os dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9... Isto é ensino...é falta de ensino, é uma treta! É o futuro que está em causa!"
"Os números são fatais. Dos números ninguém se livra, mesmo que não goste. Uma economia que em cada 3 anos dos últimos 27, cresceu 1% em 2...esta economia não resiste num país europeu."
"Quem anda a viver da política para tratar da sua vida, não se pode esperar coisa nenhuma. A causa pública exige entrega e desinteresse."
"Se nós já estamos ultra-endividados, faz algum sentido ir gastar este dinheiro todo em coisas que não são estritamente indispensáveis? P'ra gente ir para o Porto ou para Badajoz mais depressa 20 minutos? Acha que sim? A aviação está a sofrer uma reconversão, vamos agora fazer um aeroporto, se calhar não era melhor aproveitar a Portela? Quer dizer, isto está tudo louco!"
"Eu por mim estou convencido que não se faz nada para pôr a Justiça a funcionar porque a classe política tem medo de ser apanhada na rede da Justiça. É uma desconfiança que eu tenho. E então, quanto mais complicado aquilo fôr..."
"Nós tivemos nos últimos 10-12 anos 4 Primeiros-Ministros: -Um desapareceu; -O outro arranjou um melhor emprego em Bruxelas, foi-se embora; -O outro foi mandado embora pelo Presidente da República; -E este coitado, anda a ver se consegue chegar ao fim e fazer alguma coisa..."
"O João Cravinho tentou resolver o problema da corrupção em Portugal. Tentou. Foi "exilado" para Londres. O Carrilho também falava um bocado, foi para Paris. O Alegre depois não sei para onde ele irá... Em Portugal quem fala contra a corrupção ou é mandado para um "exílio dourado", ou então é entupido e cercado."
"Mas você acredita nesse «considerado bem»? Então, o meu amigo encomenda aí uma ponte que é orçamentada para 100 e depois custa 400? Não há uma obra que não custe 3 ou 4 vezes mais? Não acha que isto é um saque dos dinheiros públicos? E não vejo intervenção da policía... Há-de acreditar que há muita gente que fica com a grande parte da diferença!"
"De acordo com as circunstâncias previstas, nós por volta de 2020 somos o país mais pobre da União Europeia. É claro que vamos ter o nome de Lisboa na estratégia, e vamos ter, eventualmente, o nome de Lisboa no tratado. É, mas não passa disso. É só para entreter a gente..."
"Isto é um circo. É uma palhaçada. Nas eleiçoes, uns não sabem o que estão a prometer, e outros são declaradamente uns mentirosos: -Prometem aquilo que sabem que não podem."
"A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva.... O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?"
"Os exames são uma vergonha. Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada! "
"A minha opinião desde há muito tempo é TGV- Não! Para um país com este tamanho é uma tontice. O aeroporto depende. Eu acho que é de pensar duas vezes esse problema. Ainda mais agora com o problema do petróleo. "Bragança não pode ficar fora da rede de auto-estradas? Não? Quer dizer, Bragança fica dentro da rede de auto-estradas e nós ficamos encalacrados no estrangeiro? Eu nem comento essa afirmação que é para não ir mais longe... Bragança com uma boa estrada fica muito bem ligada. Quem tem interesse que se façam estas obras é o Governo Português, são os partidos do poder, são os bancos, são os construtores, são os vendedores de maquinaria... Esses é que têm interesse, não é o Português!"
"Nós em Portugal sabemos é resolver o problema dos outros: A guerra do Iraque, do Afeganistão, se o Presidente havia de ter sido o Bush, mas não sabemos resolver os nossos. As nossas grandes personalidades em Portugal falam de tudo no estrangeiro: criticam, promovem, conferenciam, discutem, mas se lhes perguntar o que é que se devia fazer em Portugal nenhum sabe. Somos um país de papagaios... Receber os prisioneiros de Guantanamo? «Isso fica bem e a alimentação não deve ser cara...» Saibamos olhar para os nossos problemas e resolvê-los e deixemos lá os outros... Isso é um sintoma de inferioridade que a gente tem, estar sempre a olhar para os outros. Olhemos para nós!"
"A crise internacional é realmente um problema grave, para 1-2 anos. Quando passar lá fora, a crise passará cá. Mas quando essa crise passar cá, nós ficamos outra vez com os nossos problemas, com a nossa crise. Portanto é importante não embebedar o pessoal com a ideia de que isto é a maldita crise. Não é!"
"Nós estamos com um endividamento diário nos últimos 3 anos correspondente a 48 milhões de euros por dia: Por hora são 2 milhões! Portanto, quando acabarmos este programa Portugal deve mais 2 milhões! Quem é que vai pagar?"
"Isso era o que deveríamos ter em grande quantidade. Era vender sapatos. Mas nós não estamos a falar de vender sapatos. Nós estamos a falar de pedir dinheiro emprestado lá fora, pô-lo a circular, o pessoal come e bebe, e depois ele sai logo a seguir..."
"Ouça, eu não ligo importância a esses documentos aprovados na Assembleia...Não me fale da Assembleia, isso é uma provocação... Poupe-me a esse espectáculo...."
"Isto da avaliação dos professores não é começar por lado nenhum. Eu já disse à Ministra uma vez «A senhora tem uma agenda errada"» Porque sem pôr disciplina na escola, não lhe interessa os professores. Quer grandes professores? Eu também, agora, para quê? Chegam lá os meninos fazem o que lhes dá na cabeça, insultam, batem, partem a carteira e não acontece coisa nenhuma. Vale a pena ter lá o grande professor? Ele não está para aturar aquilo... Portanto tem que haver uma agenda para a Educação. Eu sou contra a autonomia das escolas. Isso é descentralizar a «bandalheira»."
"Há dias circulava na Internet uma noticía sobre um atleta olímpico que andou numa "nova oportunidade" uns meses, fez o 12ºano e agora vai seguir Medicina... Quer dizer, o homem andava aí distraído, disseram «meta-se nas novas oportunidades» e agora entra em Medicina... Bem, quando ele acabar o curso já eu não devo cá andar felizmente, mas quem vai apanhar esse atleta olímpico com este tipo de preparação... Quer dizer, isto é tudo uma trafulhice..."
"É preciso que alguém diga aos portugueses o caminho que este país está a levar. Um país que empobrece, que se torna cada vez mais desigual, em que as desigualdades não têm fundamento, a maior parte delas são desigualdades ilegítimas para não dizer mais, numa sociedade onde uns empobrecem sem justificação e outros se tornam multi-milionários sem justificação, é um caldo de cultura que pode acabar muito mal. Eu receio mesmo que acabe."
"Até há cerca de um ano eu pensava que íamos ficar irremediavelmente mais pobres, mas aqui quentinhos, pacifícos, amiguinhos, a passar a mão uns pelos outros... Começo a pensar que vamos empobrecer, mas com barulho... Hoje, acrescento-lhe só o «muito». Digo-lhe que a gente vai empobrecer, provavelmente com muito barulho... Eu achava que não havia «barulho», depois achava que ia haver «barulho», e agora acho que vai haver «muito barulho». Os portugueses que interpretem o que quiserem..."
"Quando sobe a linha de desenvolvimento da União Europeia sobe a linha de Portugal. Por conseguinte quando os Governos dizem que estão a fazer coisas e que a economia está a responder, é mentira! Portanto, nós na conjuntura de médio prazo e curto prazo não fazemos coisa nenhuma. Os governos não fazem nada que seja útil ou que seja excessivamente útil. É só conversa e portanto, não acreditem... No longo prazo, também não fizemos nada para o resolver e esta é que é a angústia da economia portuguesa."
"Tudo se resume a sacar dinheiro de qualquer sitío. Esta inter-penetração do político com o económico, das empresas que vão buscar os políticos, dos políticos que vão buscar as empresas... Isto não é um problema de regras, é um problema das pessoas em si... Porque é que se vai buscar políticos para as empresas? É o sistema, é a (des)educação que a gente tem para a vida política... Um político é um político. E um empresário é um empresário. E não deve haver confusões entre uma coisa e outra. Cada um no seu sítio. Esta coisa de ser político, depois ministro, depois sai, vai para ali, tira-se de acolá, volta-se para ministro...é tudo uma sujeira que não dá saúde nenhuma à sociedade."
"Este país não vai de habilidades nem de espectáculos. Este país vai de seriedade. Enquanto tivermos ministros a verificar preços e a distribuir computadores, eles não são ministros! Eles não são pagos nem escolhidos para isso! Eles têm outras competências e têm que perceber quais os grandes problemas do país!"
"Se aparece aqui uma pessoa para falar verdade, os vossos comentadores dizem «este tipo é chato, é pessimista».... Se vem aqui outro trafulha a dizer umas aldrabices fica tudo satisfeito... Vocês têm que arranjar um programa onde as pessoas venham à vontade, sem estarem a ser pressionadas, sossegadamente dizer aquilo que pensam. E os portugueses se quiserem ouvir, ouvem. E eles vão ouvir, porque no dia em que começarem a ouvir gente séria e que não diz aldrabices, param para ouvir. O Português está farto de ser enganado! Todos os dias tem a sensação que é enganado!"

Tuesday, February 17, 2009

CRÂNIOS

Leio no Público de hoje que o socialista António Vitorino pede reformas ao Governo. "Na Justiça, temos um problema de ineficácia e de inadequação do sistema perante as necessidades da vida actual, social e económica, mais sujeita uma necessidade de uma revisão e alteração profunda", afirmou Vitorino durante uma conferência (Estado, Desenvolvimento e Sociedade) realizada no Instituto de Defesa Nacional. Vitorino notou ainda que no futuro será necessário proceder a uma "revisitação à democracia representativa uma vez que é evidente a incapacidade actul do sistema de partidos".
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Pacheco Pereira, que também participou na conferência, afirmou que "Há um problema gravíssimo porque na Justiça há talvez, para a maioria das pessoas, o espelho da disfunção do Estado. Não se recorre à Justiça porque se considera que ela não é eficaz e não é capaz, por incompetência, porque não tem meios, porque está politizada".
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Anda toda a gente a dizer o mesmo que ontem disseram Vitorino e Pacheco Pereira: A Justiça não funciona, impõem-se reformas profundas. O que nenhum deles disse, nem nenhum dos vários comentadores políticos que brilham nos espaços televisivos ou em colunas garantidas nos jornais, foi quais as reformas, ou em que sentido, devem ser realizadas.
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Dizer que são precisas reformas é dizer o óbvio, e toda a gente concorda. Dizer quais reformas, poderia iniciar o debate urgente sem o qual nenhuma reforma relevante avança. Mas, como sempre, Vitorino insinua o movimento em frente, ri-se satisfeito com o consenso à volta do inconsequente, dá meia volta, e vai facturar para outro lado.

Friday, February 13, 2009

ACERCA DA DEMOCRACIA

"As pessoas devem sair do conforto dos seus sofás e dedicar-se mais à causa pública, com partido ou sem ele. Caso contrário, serão sempre os mesmos a ditar o país que somos e não queremos ser." Comentário de João Vaz ao artigo do Prof. Jacinto Gonçalves "A Doença da Nação" que transcrevi aqui.
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À afirmação, ou ao desafio, colocado por João Vaz e que, subscreve uma parte importante dos pontos de vista do Prof. Jacinto Gonçalves no artigo que transcrevi, pode responder-se com um inequívoco "concordo" e continuar-se comodamente no sofá. O incómodo vem depois.
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Porque este assunto é um daqueles com que me confronto há muito sem nunca ter encontrado uma resposta capaz para as minhas interrogações. Há lugar à participação política em democracia para lá dos partidos políticos? A esmagadora maioria responderá que sim. E, no entanto, os partidos, aqui e em todo o lado onde a democracia vigora, detêm a quase exclusividade da prossecução dos actos que realizam a causa pública. É inevitável que assim seja? Talvez não. Mas a tendência tem-se desenvolvido no sentido de uma cada vez maior monopolização dos partidos no governo da res pública em todos os patamares da administração. E eu não vejo com que meios pode essa tendência ser contrariada.
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A administração local poderia dispensar a luta partidária e resultar da eleição democrática dos vereadores que, entre eles, elegeriam o presidente. À vereação, constituida pelos representantes das diferentes tendências de opinião acerca do governo dos municípios, competiria definir os objectivos mas não a sua realização. Esta deveria competir ao presidente e à direcção do município. Acontece que se a administração local pode dispensar o concurso partidário, os partidos não dispensam participar na administração local por nele colocarem as suas bases de angariação dos votos em eleições nacionais, para além dos interesses inconfessáveis que, através dos autarcas, os partidos traficam com aqueles que lhes engordam os orçamentos.
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A representação nominal e não partidária dos membros do parlamento garantiria maior representatividade dos eleitos relativamente aos interesses dos eleitores mas colocaria aqueles numa situação de maior dependência dos interesses locais secundarizando os interesses golobais. Num país com fortes tradições de caciquismo, a alteração do sistema, que pode ocorrer na próxima revisão constitucional de 2010, contém alguns perigos de subversão democrática mesmo que o modelo seja um compromisso entre a eleição por círculos nominais e um círculo nacional.
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Um outro meio em que a participação dos cidadãos poderia escapar-se à ditadura partidária seria o recurso mais frequente ao referendo. Tenho reflectido acerca da participação dos cidadãos em referendo e, até hoje, não encontrei argumentos que me convençam que se trata de um meio de representação da vontade popular mais genuíno do que aquele que decorre da democracia representativa. Pode ser mais democrático na Suíça, onde existe uma tradição referendária muito antiga, mas a tradição helvética não se tem alargado para além das fronteiras dos cantões suiços. Sem tradição que determine o amadurecimento longo na utilização do referendo este pode inverter a sua vocação de instrumento da democracia directa para se tornar instrumento de confrontos demagógicos.
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Há ainda a sociedade civil, um conceito difuso desde logo pela alcunha que lhe atribuiram. O que é a sociedade civil e como se mobilizam os seus membros para a participação na causa pública sem envolvimento partidário? Geralmente, sentados no sofá, lamentam-se mas nunca constroem. São os opinion makers, geralmente a trabalhar à peça.
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Apesar dos seus enormes defeitos, a democracia representativa tem, historicamente, suplantado todos os outros sistemas de governo no alcance de melhores níveis de desenvolvimento humano. Dos seus pilares, legislativo, executivo e judicial, é este último que apresenta maior corrosão e aquele que ameça comprometer o edifício democrático. A evolução tecnológica que o mundo observou nas últimas décadas passou até agora praticamente ao lado do aparelho judicial.
É a inépcia da justiça que está na origem de muitos dos desaforos que comprometem a confiança dos povos nas instituições democráticas e os leva a alhearem-se cada vez mais da causa pública.
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Podemos, aqueles que não são partidários, fazer alguma coisa contra essa corrosão que ameaça seriamente a democracia? Talvez. Levanto-me do sofá e não sei para onde ir.

Tuesday, October 14, 2008

FATALMENTE POBRES? - 2

Caro FA,
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Volto para reafirmar que concordo inteiramente com a sua proposta.
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O que eu comentei foi o seu realismo, que resume em: “A economia portuguesa está estagnada desde 2001… isto não muda de um dia para o outro”.
Todos sabemos que não muda de um dia para o outro. Sabemos que a crise talvez venha aí desalvorada. Mas se o realismo nos faz comparar a passada relativamente à largura da vala, dessa comparação não deve resultar a desistência da ultrapassagem do obstáculo mas a descoberta da forma de o ultrapassar.
E é essa tentativa de descoberta que não descortino à volta.
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A intelectualidade portuguesa faz coro à volta de Vasco Pulido Valente na conclusão de que não temos alternativa: continuaremos pobres e ignorantes por decisão dos deuses.
O neo-realismo e o corporativismo vêm de longe e abatem-se sobre nós de forma implacável. Devemos denunciá-los e resistir-lhes.
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Há muito a fazer, sobretudo em tempos de crise. É quando a maré baixa e mais cheira a lodo que convém retirar o que conspurca o leito do rio.
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Eu que nasci nas redondezas de onde v. viveu a partir de 76, mas muitos anos antes, lembro-me dos tempos em que os milheirais perfumavam o ar no Verão e os motores a dois tempos faziam pan-pan-pan toda a noite, depois de se terem reformado as picotas e as noras. Era um jardim sem fim.
Passei por lá este Agosto e só vi silvas onde dantes havia searas. Portugal é um país dependente de produtos agrícolas. Não há nada a fazer? São este e outros temas assim que eu gostaria de ver comentados. E não vejo.

Thursday, September 18, 2008

A CRÍTICA E O MISTÉRIO DA AGRICULTURA

tocar para ampliar

Caro J.,
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Teve o meu Amigo a gentileza de responder com algum detalhe ao comentário que coloquei ontem. Para não transcrever aqui o que está no seu post anterior, resumo que o Caro J. acha que ao cidadão comum não compete apresentar sugestões, assiste-lhe o direito de criticar.
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Não concordo.
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O direito à crítica é um direito de cidadania e um dos referenciais de uma sociedade democrática. Acontece que não há direitos sem obrigações. Pelo menos ao nível da responsabilidade que impende sobre a consciência cívica. Repare Caro J., que V. só pode criticar aquilo relativamente ao qual tem, ou estabelece, uma referência. Dito de outro modo, só é possível, honestamente, dizer que uma coisa está mal se quem diz souber, ou pensar que sabe, como a mesma coisa estaria bem, ou, pelo menos, melhor. E também deve quem critica ter uma ideia, pelo menos aproximada, da forma como pensa que possa ser percorrida a distância que vai da situação má para a situação boa.
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A vivência democrática é isso mesmo: a discussão pública dos problemas e das soluções. Claro que não temos todos os dados que os governantes dispõem, ou é suposto disporem, mas a discussão para além da crítica irresponsável, porque daí não passa, obrigará a uma cada vez maior transparência entre a sociedade e os governantes. Podemos errar? Erraremos certamente muitas vezes nos nossos pressupostos. Mas se ao errar provocarmos o esclarecimento, ficaremos mais habilitados para a próxima.
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Aliás, V. hoje até arrisca na parte final uma sugestão:"Se os industriais têm que pagar para produzir CO2 porque razão os que asseguram a continuação da floresta que elimina esse CO2 nada recebem?"É uma sugestão pertinente, do meu ponto de vista. Será exequível?

A agricultura na Suíça faz daquele país um jardim por toda a parte. Mas custa cerca de 90% dos custos totais de produção ao Estado. Que é rico. Neste, como em muitos casos, o problema são as opções, ou as prioridades, conforme lhes queira chamar.
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Por mim voto na protecção a uma agricultura moderna, ecológica quanto possível, dimensionada de forma a garantir níveis de produtividade e qualidade minimamente competitivas.Mas (há sempre um mas) para que esse objectivo fosse alcançado o ministério da agricultura deveria sofrer uma remodelação completa.
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V. é filho de pescador. Eu sou filho de agricultor. Alguma vez alguém do ministério apareceu por lá a promover a habilitação dos pescadores? Nos meus sítios nunca os vi, e continuo a não ver nenhum. Ora isto precisa de ser dito: Ponha lá V. o ministro que puser, se ele não varrer o ministério de alto a baixo nunca mais terá a casa limpa.E nós continuaremos a não perceber para que serve o ministério da agricultura.
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Além de negociar com Bruxelas, claro.

Monday, September 01, 2008

A ENERGIA DE OBAMA

Pasmo com a convencida capacidade que têm alguns críticos, comentadores, analistas ou com outras correlativas ocupações, portugueses, para se abalançarem a avaliar a exequibilidade ou a demagogia das propostas de um candidato à presidência dos EUA, numa matéria, como energia, que pressuporia um conhecimento que evidentemente não têm.

Aliás, se a proposta fosse tão irrealista e tão pouco razoável, o candidato opositor, e o seu staff, certamente lhe chamariam um figo e lhe torceriam o pescoço com o maior gosto. Sem ajuda destas competências lusas, que eles, muito provavelmente, nunca imaginariam que pudessem existir.

O que eu sei é que os EUA (e todo o mundo dependente do petróleo) têm urgentemente de soltarem-se das amarras que os ligam a países e personagens pouco dignos. E 10 anos não é pouco, é muito. O problema é que, provavelmente, não pode ser menos.

Na proposta daqueles que se propõem substituir a administração incumbente (Obama não está obviamente só) está um pressuposto que é uma clivagem com o passado: Vamos libertar-nos da dependência do petróleo alheio para podermos deixar de ter de impor a nossa presença nos locais onde nos abastecemos.

A proposta transcende em muito o objectivo energético porque é sobretudo o enunciado de uma medida de segurança diferente.

Nunca as administrações anteriores a Bush formularam explicitamente qualquer objectivo que pudesse vir a tornar obsoleta a Doutrina Carter* enunciada em 1980, e que relembrava toda a política dos EUA para a área do golfo desde o início do século passado. A intervenção de Bush no Iraque tem de ser vista como uma continuação, exacerbada se se quiser, de uma estratégia antiga e nunca abandonada, e sempre reactualizada.

De modo que onde alguns vêm uma proposta para americano ver (quando é que os europeus deixam de pensar que os americanos são uns ingénuos?), sem pernas para andar, está um objectivo de uma Nação que quer pensar a sua política de defesa de uma forma totalmente diferente.

E nós, quando é que nos vamos tornarnos independentes do petróleo? Valia a pena trocar umas impressões sobre o assunto. Perante objectivos que lhe mudem o cenário, o português geralmente diz logo: É impossível. E cuida que assim deverão pensar os outros.
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* "Let our position be absolutely clear. An attempt by an outside force to gain control of the Persian Golf region will be regarded as an assault on the vital interests of the United States of America, and such an assault will be repelled by any means necessary, including military force" (1980)

Wednesday, August 27, 2008

CHORÕES

"remember, we’re just a nation of whiners"


A última frase do post de Paul Krugman que transcrevi anteriormente é para mim surpreendente. E é surpreendente porque, tanto quanto até hoje me apercebi da idiossincrasia colectiva dos povos (ou o seu perfil psicológico dominante), são os norte-americanos dos mais combativos e empreendedores, onde o "american dream" acontece onde menos se espera. Leiam-se os jornais, os blogues, americanos e onde não há simplesmente reportagem, notícia, há crítica e há propostas.
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Contrariamente, em Portugal, onde o choro é a arma mais comum para atingir a mama, os jornais, os blogues, as televisões, as rádios, a reportagem atinge o clímax com as grandes desgraças, que serve em doses maciças, a crítica sabe sempre o que está mal, muito raramente se aventura em pistas para arrepiarmos caminho.
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Este é, provavelmente, um dos aspectos que melhor referencia a resultante do comportamento colectivo dos portugueses: Sabem o que está mal sem saber como estaria bem, e muito menos o caminho para ir de um lado a outro. Sentem um desconforto congénito que os leva a chorar muitas vezes sem saber porquê. E quando sabem, porque os media lhe acenam com paraísos ao alcance de um empréstimo bancário, embarcam para depois se queixarem que estão arruinados.
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Que fazem os críticos: Choram também. As soluções que as arranje o governo, que é para isso que lhes pagamos. A ninguém mais, nem à oposição sequer, compete discutir alternativas. A vida democrática resume-se à crítica dos actos do governo. Deste, e de qualquer outro, evidentemente.
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Falta, claramente, a Paul Krugman a vivência entre uma verdadeira sociedade de chorões.

Monday, August 11, 2008

O MURO DAS ANGÚSTIAS

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Como?
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As correntes de opinião que atravessam a sociedade portuguesa são, de forma endémica, manifestamente influenciadas pelo optimismo frequentemente postiço dos empoleirados no poder e pela amargura ansiosa dos que esperam a sua vez na roda da alternância.

Para além daqueles, há sociedade civil, um designativo abstruso porque suporia que é militar a outra, a dos políticos. Já foi, espera-se que não volte.
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De qualquer modo, a sociedade, dita civil, bebe muito daqueles que, por razões diversas, fazem uma coisa que a maior parte das pessoas julga ter: opinião.

Os líderes de opinião não comprometidos partidariamente encontram-se geralmente nas ondas pessimistas mesmo quando os ventos são de feição, a satisfação não é um estado próprio de um espírito clarividente e inquieto. Se há borrasca, as angústias bloqueiam as saídas.

É o que se passa neste momento. Só um completo destituído mental ou a viver em redoma, se não for partidário do incumbente, pode continuar a afirmar que a maré não está negra. Está negríssima.

Toda a gente o diz, e os líderes de opinião também.

O que ninguém diz é como nos safamos desta.

Não é com lamentações que se ultrapassa ou contorna o muro das angústias.

Ideias, precisam-se. E gente que seja capaz de as fazer funcionar, sobretudo.

Tuesday, August 05, 2008

RACISTAS - 2

De Rui Tavares transcreve no 5 dias o artigo por ele publicado ontem no Público "Um país quase imaculado". A posição de Rui Tavares quanto à polémica levantada a propósito do caso da Quinta da Fonte e de outros semelhantes é esta:
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Para combater o racismo é necessário ser anti-racista, que é uma condição de opção pessoal. Em Portugal, a comunidade que é vista com mais preconceito, há mais tempo e de forma consistente, é a dos ciganos. Miguel Sousa Tavares prega um sermão aos líderes da comunidade para que abandonem uma vida de crime e tráfico de droga. E claro: Paulo Portas logo veio sugerir que há um Portugal que trabalha para que os ciganos vivam do rendimento mínimo. Neste país, onde os bancos metem abusivamente dinheiro ao bolso, onde existe uma Operação Furacão por faude empresarial em larga escala, onde Paulo Portas nunca explicou a origem de financiamentos suspeitos ao seu partido nem explicou o caso dos sobreiros, nem o caso dos submarinos, os ciganos é que são os malandros..."
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Percebe-se a intenção: A propósito da questão do racismo, e em particular da forma como a sociedade em geral vê a etnia cigana, RT recorda as incongruências entre o discurso de Portas e a prática de Portas, os dois pesos e as duas medidas da justiça em Portugal, tudo questões que o cidadão comum gostaria ver esclarecidas e modificadas.
Contudo, e RT sabe isso muito bem, não pode uma safadeza justificar outra, caso contrário não restaria pedra sobre pedra do edifício da justiça já meio desmoronado.
Os ciganos, segundo as estatísticas, que não explicam tudo mas evidenciam muita coisa, têm maioritariamente comportamentos censuráveis. Não há nenhuma outra minoria que se lhes assemelhe em dependência do RSI e tanta aversão à inserção social.
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O racismo é a maior ameaça à sobrevivência das sociedades. Mas a complacência com o crime generalizado é igualmente uma forma de fomento de atitudes racistas.