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Thursday, January 18, 2024

NEO-REALISMO DESLOCADO

 
também pode ser visto no Nimas, onde há bom cinema sem pipocas.
A generalidade da crítica atribui-lhe três ou quatro estrelas, um ou outro o máximo, cinco estrelas, mas com a bitola colocada tão alta, desilude.
 
"Duas pessoas solitárias encontram-se por acaso na noite de Helsínquia e tentam encontrar o primeiro, único e último amor das suas vidas. Mas o caminho para atingir esse objectivo é cheio de obstáculos: o alcoolismo, números de telefone perdidos, não saberem o nome um do outro. E a tendência geral da vida em criar obstáculos no caminho daqueles que buscam a felicidade ..."
 
O realizador finlandês reside no inverno em Portugal, gosta de ir almoçar peixe a Matosinhos, compara os portugueses aos finlandeses na moderação das conversas em locais públicos, e tem predileção por evidenciar no seu cinema as dificuldades das vidas dos perdedores. Mas a comparação é, neste caso, não conheço as suas outras obras, deslocada. 
 
A Finlândia ocupa no ranking do HDI (indicador do desenvolvimento humano) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, no relatório anual 2021/2022, o 11º. lugar, Portugal o 38º. A taxa de incidência de pobreza em Portugal em 2022 ascendeu a 25,6%; o risco de pobreza na Finlândia é de 12,7%, e, reportando-se este indicador ao nível médio dos salários, aqueles que se encontram em situação de pobreza na Finlândia são muito menos pobres que os muito pobres portugueses. 
 
Um dos focos determinantes nas dificuldades da vida dos perdedores (loosers, na terminologia do realizador finlandês) é o alcoolismo. Também neste caso o consumo per capita de alcool, em litros de alcool puro, é significativamente superior em Portugal (10,37 litros) ao que se observa na Finlândia (8,23)
Se a intenção do sr. Aki Kaurismäki é causar estremecimento evidenciando a desgraça dos perdedores, escolheu mal o local. 
Aqui, neste país que ele tanto gosta, come bem quem pode comer bem.
 
O filme tem uma magnífica fotografia, uma história simples, e é curta.
Recomendo-o. Concedo três estrelas.

(Retire-se desta foto o personagem masculino, situação que ocorre na cena seguinte do filme, e a pintura de Edward Hopper - pintor da solidão - é flagrante)

Público

Expresso

Wednesday, November 01, 2023

MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA - MAC/CCB

Estivemos lá ontem. 
 
Tínhamos visitado aquele espaço algumas vezes; agora, que tinham passado alguns anos e as notícias prometiam, voltámos.
Voltámos e saímos desiludidos, não porque tivéssemos colocado demasiado alto as expectativas mas porque, à parte as obras da colecção Berardo (em depósito no MAC/CCB, sem que, supomos, se saiba ainda em que condições), que já conhecíamos, e da Ellipse, de que já conhecíamos alguma parte, a colecção de Teixeira de Freitas não nos pareceu merecer tanto metro quadrado de exposição; 
As obras de Berlinde de Bruyckere, que ocupam muito mais metros quadrados, e merecem lugar de destaque à entrada, com um objecto que, a mim, me sugeriu o porco morto, desviscerado, pendurado de um gancho, a escorrer, a receber os visitantes.
Para quem, como eu, assistiu, enquanto jovem, a várias anuais matanças do porco, aquilo que Berlinde moldou, se não se inspirou num porco morto a escorrer, terá andado por perto.
"Se queres conhecer o teu corpo mata o teu porco"  

O que Berlinde de Bruyckere nos propõe é o confronto com a arte do horrendo, o que, considerando que ontem, dia da nossa visita, era "Dia das Bruxas", fomos no dia certo.
Mas, certamente, haverá quem goste. 

Merecem destaque neste caderno de apontamentos

Logo à entrada para o Museu, pela ironia que transbordam e os efeitos de multiplicação das imagens colocadas entre dois espelhos, mas também pela singeleza dos materiais utilizados (madeira, sobretudo), duas esculturas (do diabo e do anjo) de  Stephan Balkenhol. 
Ocasionalmente, tínhamos visto há dias, em Berlim, esculturas deste artista, em espaços públicos.

 

 Gerhard Richter - Abstraktes Bild , 1987

A foto não pode dar a ideia da  grande dimensão desta pintura de óleo sobre tela, de 1987. Que incluo apenas porque sobre o mesmo artista coloquei comentário aqui em outubro de 2012, e aqui em abril de 2015.


Thursday, September 28, 2023

UM NOVO PILAR PARA A SEGURANÇA SOCIAL

A Segurança Social, garantem os pessimistas, tem o futuro ameaçado. 
Tem carência de pilares, garantem os liberais. Falta-lhe a constituição do pilar por conta própria, retirando ao Estado o monopólio da segurança social colectiva. 
E todos parecem ignorar que, com muita evidência pública, milhões de portugueses há largos anos  se encostam ao pilar dos jogos de azar sem receio dos tombos que a sorte dá.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa anda há anos sem conta a fazer com que a sorte acerte em alguns multimilionários à custa de milhões que não sabem fazer contas, convencidos que a sorte um dia acerte neles. 
Segundo as notícias, que só ignora quem quer ignorar, os alvos e as vítimas da raspadinha e de outros jogos de azar são, na esmagadora maioria dos casos, pessoas idosas e fracos, se alguns, rendimentos. 
O vício do jogo que promete fazer de cada jogador um multimilionário, se a tômbola é larga, ou um felizardo por um dia, se for estreita, provoca rupturas sociais que, recentemente, foram abordadas nos meios formais de comunicação social.
Que fazer para que a raspadinha não seja, em muitos casos, um vírus multiplicador de miséria material ou mental?
 
Sabia-se há já muito tempo que o governador da Santa Casa se tinha metido em novas aventuras de azar e perdido, por conta da Casa, uns largos milhões. Saiu o desgovernador e entrou, na expectativa de endireitar o desgoverno, a ex-ministra da Saúde, médica, Ana Jorge.

Ontem soube-se,
A provedora da Santa Casa revelou que a autorização inicial para o investimento no projecto da internacionalização era de apenas cinco milhões de euros e foram gastos 27 milhões."
 
Hoje soube-se,
É mais um jogo a ser lançado, desta vez destinado a um público-alvo mais jovem. O prémio não é imediato e vai resultar em pagamentos mensais, de acordo com o conceito conhecido por Win for Life.

Haverá neste novo jogo o propósito de incentivar os mais novos a começarem desde cedo a construir o seu próprio pilar de segurança social, um maná sem riscos, inesperadamente, caído da Santa Casa?

Tuesday, October 24, 2017

AS LIGAS DO NORTE


Anteontem afirmava Matteo Renzi, secretário do Partido Democrático  e ex-primeiro ministro de Itália, em entrevista ao El País, que "a Itália é hoje um país mais anti europeu". 
Ontem os da Liga Norte, obtiveram, nas regiões mais ricas de Itália, Lombardia e Veneto, uma maioria muito expressiva - acima de 90% em qualquer dos casos -, entre os que votaram (menos que 50%) em referendos em que reclamam maior autonomia que, muito claramente, se traduz em menos transferência de fundos para as regiões mais pobres de Itália. - vd. aqui

Com alcance subtilmente menos ambicioso que os independentistas catalães, os da Liga do Norte ( Lega Nord per l´Indipendenza della Padania. A Padania é a designação comum para o vale do Pó, abrangendo a Lombardia e Veneto) não reclamam, para já, a independência mas a autonomia quase total de gestão das finanças publicas do norte de Itália, esperando que as eleições legislativas dentro de dois anos lhes garantam a possibilidade de cortarem todas as dependências de Roma. - vd. aqui

Assim vai a União Europeia: entre o populismo nacionalista, a leste, que se revê no comando musculado de Putin, e o populismo nacionalista a noroeste, que se revê na truculência errática nacional-populista de Trump, ameaça estilhaçar-se em estados nações, emergentes da dissolução do Império Romano, que durante séculos se combateram entre si.
A última vez, há cerca de 70 anos.



Padania

Monday, July 31, 2017

POBRES MAS BEM CALÇADOS

"A líder do Bloco de Esquerda afirmou esta segunda-feira, na sequência da polémica medida de Vieira da Silva, que o Rendimento Social de Inserção (RSI) é “de tal forma baixo” que não permite sequer adquirir gasolina para o carro. ..." - aqui

"Vieira da Silva decidiu que um cidadão com um carro de valor superior a 25 mil euros pode ter acesso ao Rendimento Social de Inserção (RSI), desde que cumpra os restantes requisitos. As alterações foram publicadas na sexta-feira em Diário da República e entram em vigor este sábado, aliviando as restrições nas condições de atribuição. A mudança é, na prática, mais uma reversão das alterações do Governo anterior ..." - aqui

Como é que alguém que cumpre os requisitos para beneficiar do RSI consegue juntar recursos para comprar carro de valor superior a 25 mil euros?

A srª. Catarina Martins sabe o que pretende.
Resta saber se, quando a corda partir - a corda um dia vai partir - a srª. Catarina Martins não cai de costas. - vd. comentário colocado aqui

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Friday, June 02, 2017

O PREÇO DA IMITAÇÃO DA POBREZA

A imitação da pobreza continua na moda, mas é cara, muito cara mesmo. 
A Levi´s, suponho que foi a Levi´s, lançou há três décadas a moda dos jeans rasgados, desbotados, quanto mais esfarrapados melhores, e, portanto, mais caros. Compreensível: a aparência de empobrecimento ou leva tempo, e quem não quer andar fora da moda não espera até que o material empobreça, ou exige tratamentos adicionais, que têm custos. 

Uma ou duas décadas antes, a arte povera tinha-se imposto a partir de Itália, e os criativos da moda pegaram na ideia. 



Hoje reparo aqui que uma casa de moda de luxo francesa está a lançar no mercado uma linha de ténis rasgados, a um preço - 1400 euros - que será uma pechincha para quem recebe mesada de vários múltiplos do salário mínimo.


A explicação mais comum para este prestígio da decadência aparente junto dos jovens, com recursos materiais, é a afirmação de rebeldia. Mas não será antes, como sugere uma das inscrições no modelo acima, um sintoma de tédio precoce de jovens enjoados com tanta fartura à volta, mais uma consequência dos efeitos perversos da desigualdade social?

Wednesday, December 14, 2016

OBRAR E ANDAR EM LISBOA

"Leilani Farha é Relatora Especial da Organização das Nações Unidas (ONU) e esteve em Portugal com a missão de avaliar o impacto das medidas de austeridade nas populações vulneráveis. Foi às “ilhas” do Porto, ao bairro 6 de Maio (Amadora) ou ao bairro da Torre (Loures) “onde não há luz há dois meses” e onde “a comunidade cigana também não tem água”, conta. “Vivem no escuro. E estava tão escuro. Vivem com lixo ao lado. São condições muito, muito duras”, confessa a também directora-executiva da ONG Canada without Poverty." - aqui

Não houve, seguramente, intenção irónica na quase coincidência da publicação, ontem, da entrevista do Público a Leilani Farha - "Relatora da ONU sobre habitação em Portugal: “Algumas das condições que vi são deploráveis” - e a notícia que correu mundo no mesmo dia do juramento de António Guterres como Secretário-Geral das Nações Unidas a partir de do próximo 1 de Janeiro. Nem a exposição de uma vergonha empalidece minimamente o esplendor da outra. Mas o contraste evidencia-se.

Lisboa está há largos meses enredada em obras que, pelos vistos, muitos aplaudem, a maioria resigna-se e outros, entre os quais me incluo, considera, na sua maior parte uma campanha para sustentar uma política de fachada. Reduziram faixas de rodagem no eixo central da cidade para encaixar canteiros de relva ou heras que a secura do verão e as limitações do orçamento acabarão por impor o que impõem a outros espaços mal mantidos e, não raramente, mal limpos. É a política nacional de obrar de andar. Mas obrar onde obrar enche o olho porque as mazelas nas zonas marginais varre-as a vereação, esta e as outras, para debaixo da câmara.

Estamos a cerca de um ano das próximas eleições municipais e a eleição do actual presidente parece tacitamente aceite pelos partidos da oposição, um porque ainda não tem candidato, outro porque, sem coligação a candidata concorre para o concurso dos outdoors. 

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Do Teatro Aberto, uma obra construída pela C M Lisboa, acabo de receber uma informação que revolta quem gosta das artes do teatro. Transcrevo:

"Informamos os nossos espectadores que a zona de estacionamento 023, onde está o edifício do Teatro Aberto, mudou de horário e tarifário passando a zona vermelha paga até às 01 h do dia seguinte. Estamos a trabalhar para reverter esta decisão que sabemos de grande transtorno para os nossos espectadores. Contudo, não podíamos deixar de chamar a atenção para esta alteração inesperada que esperamos ver anulada com a maior brevidade"

São poucos os portugueses que gostam de teatro. É lamentável, mas é verdade.
São poucos os votos.
Serão tão aliciantes as receitas que a Câmara espera cobrar naquela reduzida zona vermelha? 

Friday, November 25, 2016

RIQUEZA ENVERGONHADA

Aqui próximo da área em que resido há uma propriedade ladeada por um muro alto, talvez quatro metros, laranja ocre, sempre bem cuidado. Visíveis da estrada, tem dois portões, mas só hoje, de relance, quando passei de carro defronte daquela que julgo ser a entrada lateral, percebi que por detrás dos muros da fortaleza se esconde uma majestosa mansão que deve ter sido construída no tempo da outra senhora. Nas proximidades há outros muros longos e altos que devem esconder outras propriedades da mesma geração onde só o google, suponho, é capaz de meter olho míope. 

Não são apenas as fortunas antigas que escondem as residências dos olhares de quem passa. Se há portugueses que exibem, sem complexos de qualquer dimensão, e, talvez, até com orgulho ou demonstração ou presunção de sucesso, as mansões em que habitam, há outros que rodeiam os edifícios de muros tamanhos ou paliçadas de vegetação cerrada. 

A pobreza envergonhada esconde a perda de bens ou rendimentos que a posicionavam em escalão alto ou remediado da sociedade e que se viu privada, por razões diversas, do suporte financeiro que lhe dava prestígio social, apartando-se discretamente da sociedade a que pertenceu. 
Da riqueza envergonhada não se ouve falar. E, no entanto, ela existe e esconde-se, sabe-se lá porquê, em mansões requintadas mas camufladas na paisagem. 

Nos EUA, e em geral nos países do norte da Europa, os proprietários de moradias, desde as mais grandiosas às mais discretas, não as escondem e percebe-se até a intenção de as fazer participar no prestígio dos locais em que se situam. Por cá, os muros escondem a beleza de muita riqueza estética que o conjunto poderia, sem perda de valor para os proprietários, dar ao meio em que se insere.
Há pudor neste recolhimento de alguns muito ricos, simétrico daquele que leva a marginalizar-se quem perdeu o que tinha?

Relembrei-me disto quando ouvi esta manhã na rádio que o sr. António Domingues continua sem apresentar as declarações que deve. Riqueza envergonhada de quê, neste caso? À custa de que pobreza envergonhada?


Sunday, June 05, 2016

A SORTE NÃO PASSA POR AQUI

"As famílias com mais dinheiro hoje são as mesmas que existiam na Idade Média. Mas a culpa pela manutenção das mesmas elites no topo da cadeia social (ao longo dos séculos) não é do capitalismo". A conclusão, de dois economistas do Banco de Itália, vem resumida neste artigo publicado no DN e contraria pelo menos dois aforismos: i) a sorte dá muito trabalho ii) pai rico, filho pobre, neto pobre. 

Acontece o mesmo com as nações? Tendencialmente, sim.
Considerando os resultados apresentados por Angus Madisson - The World Economy - 1 - A Millennial Perspective - 2 - Historical Statistics - aos seis países que, há cinco séculos, eram potências coloniais, e, por essa razão, dos mais ricos (ou mais afortunados - na Roma Antiga a deusa Fortuna era a deusa da sorte, boa ou má, da esperança na prosperidade sujeita ao capricho dos deuses) se avaliada a riqueza, em termos rendimento, em PIB per capita, sorriu a sorte (ou fortuna) de modo diverso mas a tendência sustentou-se.

Na época em que Vasco da Gama  chegava à Índia e Pedro Álvares Cabral ao Brasil, o PIB per capita seria, medido em dólares internacionais de 1990 , 632 em Portugal, 698 em Espanha, 727 em França, 754 na Holanda, 762 na Grã Bretanha, 1100 em Ítália.
Do lado dos territórios ou países colonizados, a China teria um PIB per capita de 600, a Índia, 550, a Indonésia 565, o Brasil 425, o México, 400, os Estados Unidos 400, a Irlanda 526.

Quinhentos anos depois, no ranking do Human Development Index (HDI) 2015 das Nações Unidas, que integra indicadores de níveis de educação e de saúde além do indicador de PIB per capita em termos de paridade de poder de compra a preços em dólares de 2011, e abrange todos os estados membros da ONU, Portugal situa-se na 43ª. posição em termos de HDI e na 41ª. em termos de PIB per capita, correspondendo ao último lugar do conjunto de potências coloniais no começo do séc. XVI.

Em 2000, Portugal ocupava a 28ª. posição em HDI e a 30ª. em PIB per capita.
Significa esta queda no ranking que, em cerca de 15 anos, Portugal foi ultrapassado por 15 países em termos de HDI (em consequência de piores resultados na educação) e por 11 países em termos de PIB per capita.

Tivemos pouca sorte ou trabalhámos pouco (ou mal)  nos últimos 15 anos?
Geralmente os afortunados atribuem a fortuna ao trabalho, e os desafortunados à falta de sorte a falta de fortuna. 

Tuesday, May 31, 2016

A SORTE DO TRABALHO

Há cinquenta anos, José Augusto marca o primeiro golo no jogo inaugural do Campeonato do Mundo de Futebol, com a Hungria

De borla. Nos anos 60, os anúncios feitos por futebolistas eram pagos em géneros. José Augusto recebeu uma caixa de 12 latas de salsichas 




"A sorte dá muito trabalho", diz-se.

Tenho muitas dúvidas. Tenho mesmo um montão delas, que cresce de cada vez que topo com casos que demonstram o contrário.
Ao Zé Augusto pagava o anunciante de salsichas com uma caixa delas. E o Zé Augusto trabalhou que se fartou para a selecção.
O Renato Sanches, que ainda não marcou nenhum golo pela selecção, foi transferido para o Bayern por 35 milhões!
O Eder, que é ponta de lança e foi arvorado capitão da nossa equipa "por ser o mais internacionalizado", disse o "mister", marcou até agora dois golitos, por junto. Quanto ganha o Eder, não sei, mas muito mais que uma tonelada de salsichas, certamente. 



Monday, February 01, 2016

DIREITO À INVEJA

A desigualdade é um obstáculo ao crescimento económico e ao desenvolvimento humano. Em situações extremas conduz, mais tarde ou mais cedo, à revolta colectiva. 

E a nível individual?
A comparação que suscita estados de infelicidade naqueles que não podem atingir consumos que vêm promovidos e desfrutados por outros à sua volta pode conduzir a sentimentos perversos, de inveja e mesquinhez? Podem os menos favorecidos, quaisquer sejam as razões da desigualdade, os mais pobres, aqueles que a sorte não protegeu, as boas pessoas tornarem-se menos, ou até más, pessoas, por serem invadidos por sentimentos perversos, de inveja e mesquinhez?

Não é invulgar assacarem-se os portugueses sentimentos congénitos de inveja, - a última palavra dos Lusíadas, cita-se para reforçar o argumento, - mas será a inveja uma particularidade nossa ou propagou-se por todo o lado? As pessoas boas são levadas a comportamentos menos éticos em consequência das circunstâncias em que sobrevivem? A inveja é um direito que assiste aos desprotegidos da sorte?

Questões suscitadas pelo autor, norte-americano, em Boas Pessoas, em cena no Teatro Aberto.
Vale a pena ir até lá.

Friday, May 29, 2015

POR 620 MIL EUROS

 Schechina 
 Anselm Kiefer

Foi batido o recorde de venda de arte moderna e contemporânea em Portugal.
Vd. aqui, aqui.


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Anselm Kiefer em Outubro de 2008 anunciou que quer deslocalizar de França para Brejos, na Comporta, toda a sua produção cultural, que envolve dezenas de pessoas na construção de obras de arte de grande volumetria, exportadas para todo o mundo. A "Floresta Cultural" de Kiefer, que será instalada no vale Perdido, na Herdade da Comporta, do Grupo Espírito Santo, obrigou à execução especial de um Plano de Intervenção em Espaço Rural, que já se encontra em apreciação na CCDR do Alentejo. O espaço que actualmente ocupa em França será cedido à Fundação Guggenheim.
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Anselm_Kiefe

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Shekhina ou Shekiná (em hebraico: שכינה, Pronúncia: [ʃe̞χiˈnä]; "habitação", "assentamento") (outras transliterações possíveis: Shekinah, Shechinah, Shekina, Shechina, Schechinah) é a grafia em português de uma palavra gramaticalmente feminina em hebraico e é utilizada para designar a habitação ou presença de Deus (cf. divina presença), especialmente no Templo em Jerusalém.
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Shekhinah

Wednesday, March 11, 2015

PITÕES DE JÚNIAS

"Pitões de Júnias, Barroso, 8 de Setembro de 1983

Só vistas, a aspereza deste ermo e a pobreza do mosteiro desmantelado. Mas canta dia e noite, a correr encostado às fundações do velho cenóbio beneditino, um ribeiro lustral. E o asceta e o poeta que se degladiam em mim, de há muito peregrino desta solidão, mais uma vez se conciliam no mesmo impulso purificador, a invejar os monges felizes que aqui humildemente penitenciaram o corpo rebelde e pacificaram a alma atormentada. O corpo a magoar-se contrito no cilício quotidiano da realidade e a alma a ouvir de antemão, enlevada, a música da eternidade."

(Miguel Torga - "Diário XIV, pág. 62)

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- Quantas pessoas habitam hoje aqui?
- Umas cento e cinquenta, não mais.
- Quantas casas estarão habitadas?
- Umas cinquenta, menos de um terço das casas todas.
- Como era esta aldeia há trinta anos?
- Mais pobre ainda. Havia muita sugidade no chão, hoje há menos bostas do gado, construiram-se vacarias fora das casas.
- Há muita casa abandonada, muita ruína ...
- Pois há. Mas há alguma reconstrução de casas antigas e construção de casas novas. No Verão vem muita gente, a partir de Junho, também durante as festas, aos fins-de-semana, agora vem pouca durante os dias de semana.
- Quantos residentes teria há trinta anos?
- O dobro de agora, uns trezentos. Há sessenta anos, era o meu avô ainda um jovem, seriam oitocentos, dizia-me ele.
- Não tem escola?
- Não. Deixou de ter. Não temos escola, não temos médico, não temos farmácia. Para tudo, temos de ir a Montalegre, que fica a 20 quilómetros.
- Mas há transporte para a escola em Montalegre ...
- Há, mas para os mais pequenos é duro. Para os outros compreende-se, ainda que o ensino não tenha qualidade. Quem quiser que os filhos tenham melhor ensino tem de os ter em Braga. Mas quem
pode?
- Mas vive-se melhor agora aqui, não?
- Melhorou-se. Gostamos de viver aqui. Saiu muita gente, nos anos cinquenta para o Brasil, nos anos setenta para França. Um ou outro volta quando se reforma. Os emigrantes brasileiros vêm de dois em dois anos e ficam por cá dois meses, os franceses estão por cá todos os anos durante um mês, mais ou menos. Enfim,  não estamos bem mas já foi pior, muito pior. Há para aí aldeias, não longe daqui, muito bem mais pobres, acredite.

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Correl. -  Pitões de Júnias

Monday, January 26, 2015

A GRÉCIA NÃO É MAIS POBRE QUE PORTUGAL*

Quando se ouvem ou lêem notícias sobre a situação económica e social na Grécia as mensagens transmitidas são quase unânimes no realce dos níveis de pobreza, e de todas as causas e consequências dessa pobreza, que atingem uma parte enorme da sua população.

Contudo, apesar da brutal redução do produto nacional global e per capita observada desde a erupção da crise financeira na Europa, o PIB e o PIB per capita ainda se situam bem acima dos valores observados em Portugal. Por que razão, então, a imagem de pobreza na Grécia é mais ostensiva que em Portugal?

Só há uma explicação possível: os níveis de desigualdade social observados em Portugal são, apesar de muito elevados, menos elevados que na Grécia. Vale isto por dizer que se os gregos precisam de ajuda adicional dos restantes membros da União Europeia devem, no entanto, proceder a uma maior igualização dos níveis de rendimento per capita entre eles tributando os mais ricos e os que persistem em não pagar impostos, que são muitos: os ricos, os que se evadem e os impostos não pagos.

Há dias afirmava-se aqui que a dívida grega não é, inquestionavelmente, insustentável. Comentei aqui.  Segundo o autor daquele artigo publicado no Financial Times, as dificuldades com que se debate a Grécia não são menos pesadas do que aquelas que se perfilam perante Portugal.

Os gregos terão muitas e fortíssimas razões para protestarem. Mas, sob pena de continuarem a não ser externamente suficientemente credíveis os seus protestos, deverão firmemente exigir mais justiça interna e ética social.

Eles, e nós.
---
*Informação complementar : aqui, pag. 159, e aqui.

Saturday, January 17, 2015

POBREZA DE UM PAÍS RICO


Pela primeira vez nos últimos 50 anos, a maioria dos estudantes das escolas públicas, desde o pré-primário até ao 12º. ano, são de famílias de baixos rendimentos, segundo uma análise realizada a nível federal em 2013, pelo que 51% estão abrangidos pelos programas de distribuição de almoços gratuitos ou a preços reduzidos.

"Todos sabíamos, pela tendência que vinha sendo observada, que isto iria acontecer, mas não esperávamos que acontecesse tão cedo" "a pobreza tem vindo a aumentar mesmo em situação de crescimento económico" "muita gente rica continua enriquecer enquanto os pobres estão cada vez mais pobres", disse o director executivo da "Campaign for Educational Equity at Teachers College" da Universidade Columbia, Michael A. Rebell.

No Congresso, os líderes republicanos argumentam que o problema não se resolve com a atribuição de mais fundos mas com a distribuição de vouchers que permitam a frequência em escolas privadas, e opõem-se às propostas do Presidente Obama de acesso gratuito à pré-escolaridade, ainda que alguns governadores de estados, republicanos e democratas, tenham iniciado programas deste tipo já há alguns anos.  

O relatório agora publicado, aparece no momento em que no Congresso começa o debate sobre a revisão da legislação federal para a educação, inicialmente aprovada durante a presidência de Lyndon B. Johnson como parte da "Guerra à Pobreza" com o objectivo de promover a educação dos mais pobres. 

Michael A. Rebell concorda que é necessário aumentar a qualidade do ensino mas é primordial evitar as sequelas da pobreza, a fome, a saúde física e mental, sendo necessário garantir programas extra-escolares, programas de verão, envolvimento dos pais, e apoios desde a primeira infância. 

Argumentos que os republicanos refutam mas que, espantosa mas reconhecidamente, se suportam, geralmente, nos votos dos eleitores dos estados do sul onde os níveis de pobeza são mais elevados. (Vd. mapa interactivo no artigo citado).

Wednesday, December 31, 2014

UM PAÍS COMO UMA CASA EM CHAMAS


Há neste 25º. romance de A Lobo Antunes uma casa habitada por personagens condenados à amargura das suas vidas desesperadas. Conversas dispersas, suspensas, cruzadas, no tempo e no espaço, interrompidas, inacabadas, compõem uma colagem que obriga o leitor a uma identificação, frequentemente labiríntica, dos fios com que o autor tece um texto amargo do princípio ao fim ainda que pontuado por notas de humor cáustico, por vezes divertido. 

É uma metáfora do país que habitamos neste final de 2014? 
Em certo sentido sim. Mas não me parece que essa identificação, que já vi referida numa ou outra apreciação crítica, possa ser transposta do tempo do romance (meados do século passado) para o Portugal de hoje sem alguma ressalva. Certamente que aqueles personagens enclausurados num espaço comum repartido caracterizam uma sociedade que subsiste ainda que os fantasmas que as habitam tenham mudado de pele e de nome. Mas não são estes os personagens que ocupam a cena deste país em chamas que habitamos hoje, não são estes zombies que atearam o fogo e colocaram uma parte da população em fuga. 

"Caminho como uma casa em chamas", repete obsessivamente o autor, num quadro onde as alusões, os traumas dos residentes da casa (Quem manda, quem manda, quem manda, Salazar, Salazar, Salazar, repetições que lhe retiram intemporalidade) não remetem para o Portugal actual, saqueado por políticos sem escrúpulos, banqueiros gananciosos, crápulas com máscaras que ninguém, por mais que o deteste, confundirá com o ditador de Santa Comba.

Portugal caminha como uma casa em chamas. É do título que destaco a maior actualidade desta obra de A Lobo Antunes.

Monday, December 22, 2014

ESTA NÃO É A MINHA IGREJA

Diria Cristo se voltasse à Terra. Disse-o, hoje, por outras palavras o Papa Francisco, um Papa excepcional.

Durante o tradicional encontro na sala Clementina para as felicitações de Natal aos membros da Cúria romana, cf. aqui, apontou sem rodeios, perante os cardeais  responsáveis pelos dicastérios, as quinze doenças que ameaçam a Igreja e a sua Cúria.  A uma dessas doenças chamou "alzheimer espiritual". Não me parece que a designação seja a mais feliz mas percebe-se a intenção da carga emotiva da metáfora com que Francisco quis relembrar aos altos dignatários da Igreja o seu relapso esquecimento da mensagem primordial dos Evangelhos.

Lê-se o resumo desta mensagem do Papa e ocorre-nos, inevitavelmente, a vaga de esquecimento, que não é mais de que uma vaga de falta de vergonha descarada e em larga escala, que se faz sentir especialmente nos países predominantemente católicos do sul da Europa. Dos negócios obscuros, das moscambilhas, das conivências, dos roubos, que, sendo esta gente pretensamente de bem, se chamarão desvios, ninguém se lembra, ninguém colaborou, ninguém estava lá, se assinaram de cruz foi por confiança nos outros comparsas.

Francisco, alarga a tua mensagem urbi et orbi. Pode ser que alguns desavergonhados, se forem crentes como a generalidade dirá que é, sintam algum temor e recuperem a lembrança dos actos praticados.

Sunday, December 07, 2014

DESIGUALDADE ENCOBERTA

O tema da desigualdade está na ordem dia. "O Capital no sec. XXI" de T. Piketty globalizou a discussão acerca das culpas da concentração da riqueza na redução do crescimento económico. Anteontem foi apresentado  em Madrid o relatório da Organização Mundial do Trabalho (OIT) - vd. aqui - relativo ao período entre 2006 e 2010. Os dados divulgados no artigo do El País são críticos relativamente a Espanha, que terá observado o maior agravamento da desigualdade no conjunto dos países da União Europeia e  os Estados Unidos da América, e lisonjeiros para Portugal, que terá observado um decréscimo na desigualdade entre o decil da população mais pobre e o decil da população mais rica.

E são lisonjeiros porque os efeitos das medidas de austeridade fizeram-se sentir a partir de 2011 sobre
os estratos sociais intermédios, vulgo classe média, que, quer pelo aumento do número de desempregados, quer por terraplanagem fiscal dos rendimentos, alargaram a faixa de pobreza e reduziram substancialmente os rendimentos médios dos restantes. Provavelmente, em 2014, não só a desigualdade entre os dez por cento mais pobres e os dez por cento mais ricos se agravou como, certamente se agravou muito mais ainda a desigualdade entre as classes colocadas nos decis intermédios e o decil superior.

Resumindo: Uma análise comparativa entre os rendimentos dos 10 por cento mais pobres e dos 10 por cento mais ricos ignora um segmento que representa 80 por cento da população, que, ou transitou parcialmente para a faixa de pobreza, ou suporta a solidariedade prestada ais mais carenciados, e viu, na sua maior parte, reduzidos os seus rendimentos.

Não li o relatório. Certamente que as suas conclusões vão além daquelas que o artigo do El Pais desvenda. Mas, porque se reporta a um período anterior à política de austeridade que castigou, e
continua a castigar, os países mais fragilizados, carece, flagrantemente, de actualidade.


Wednesday, November 26, 2014

DE QUE TE RIS, MARIA LUÍS?





Angel Gurría e Maria Luís Albuquerque



O Economic Outlook da OCDE divulgado anteontem, e a que já me referi aqui, conclui, além do mais, que a Zona Euro tem vindo a evoluir desde 2008 de modo frouxo e que assim continuará pelo menos até 2016, admitindo que possa mesmo entrar num longo período de crescimento débil. Pior do que isso são os dados da evolução e as perspectivas da economia portuguesa: há retoma, em termos de PIB, mas é tão anémica que não altera a perspectiva de que se manterá o sentido de divergência da economia portuguesa relativamente à média da OCDE. No conjunto dos 34 países da OCDE, Portugal é agora considerado um dos mais pobres e desiguais. E, recomenda, 

"Para reduzir a pobreza e a desigualdade, o impacto redistributivo do sistema de prestações sociais deve ser fortalecido de uma forma neutral do ponto de vista orçamental"

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Correl.- Portugal diverge sete anos seguidos dos países mais desenvolvidos
OCDE vê Europa e Portugal em risco de estagnação prolongada
Bruxelas alerta: Portugal está em risco de incumprimento défice (28/11)