Showing posts with label Grécia. Show all posts
Showing posts with label Grécia. Show all posts

Saturday, November 07, 2020

APRENDER COM OS GREGOS

Segunda-feira entra em vigor o estado de emergência. Light, para usar um eufemismo que permite interpretações à la carte. Esperemos que funcione e os serviços de saúde, público e privado,   não venham a ser submergidos por um número de casos  que o colapsem.

Sempre que vejo os números referentes aos níveis de covid atingidos exibidos nas televisões, ou os comentários da evolução da situação, em quadros que fazem lembrar os dos mostrados em noites de resultados eleitorais, estranho que nunca sejam referidos os resultados obtidos na Grécia, - a Grécia tão badalada após a crise financeira, intervencionada pela troica, - na contenção da pandemia. Sobre o assunto coloquei neste caderno de apontamentos comentários em 4 de Junho e, cerca de um mês antes, 23 de Abril.

APRENDER COM OS GREGOS

GRAÇAS A ZEUS 

Ontem li no Expresso: Covid-19. Gregos só podem sair de casa a partir de sábado (hoje) se fizerem o pedido por telemóvel e obtiverem autorização.

Por cá anda-se muito preocupado com as restrições do estado de emergência, a partir de segunda-feira.

Veja-se as diferenças.  

Thursday, June 04, 2020

APRENDER COM OS GREGOS


Hoje, no Jornal de Negócios

 EPIDEMIOLOGISTA SUECO ADMITE QUE ERROU

Há três semanas, 20/4, no Jornal de Negócios

GREGOS MOSTRAM AO MUNDO COMO COMBATER O SURTO DO CORONAVÍRUS

Sexta-feira, passada, 31/5, no Observador

GRÉCIA ABRE PORTAS E DEIXA PORTUGAL DE FORA. GOVERNO QUER ESCLARECIMENTOS


O Governo português quer esclarecimentos.
Pois aí estão eles.

Basta ler a notícia até ao fim, e tirar as devidas ilacções enquanto há tempo, se ainda houver, para não deixar alastrar a pandemia para níveis incontroláveis.
A questão maior que se coloca é esta: controlo apertado nas entradas para garantir confiança aos turistas ou facilitismo para satisfazer inquietações dos operadores turísticos que podem obrigar a um confinamento que deitará tudo a perder este ano, no próximo, e quem sabe, até quando?

... "Como já se previa desde o momento em que o primeiro-ministro grego anunciou o regresso do turismo, da lista de 29 países autorizados fazem parte os vizinhos da região dos Balcãs, os países bálticos e os países nórdicos (com excepção da Finlândia). China e Alemanha, dois dos mais afectados pela pandemia, também voltar a enviar turistas.

Na lista de países com permissão para a viajar para a Grécia estão: Albânia, Austrália, Áustria, Macedónia do Norte, Bulgária, Alemanha, Dinamarca, Suíça, Estónia, Japão, Israel, China, Croácia, Chipre, Letónia, Líbano, Nova Zelândia, Lituânia, Malta, Montenegro, Noruega, Coreia do Sul, Hungria, Roménia, Sérvia, Eslováquia, Eslovénia, República Checa e Finlândia.
Os números do surto na Grécia são muito mais baixos do que os registados por Itália, França ou mesmo por Portugal. Até agora, confirmou pouco mais de 2.900 casos de infectados pelo vírus da Covid-19 e 175 vítimas mortais."

Sunday, May 31, 2020

NÃO SOMOS O BRASIL, POIS NÃO; TAMBÉM NÃO FOMOS A GRÉCIA


As televisões continuam a dar do Brasil imagens confrangedoras.
O Brasil terá uma população que é cerca de 21 vezes a portuguesa.
Portugal registava até ontem, 1410 mortes por COVID-19; o Brasil 28872, isto é cerca de 20 vezes mais.
Dir-se-á que a onda pandémica começou muito mais tarde no Brasil, estará em crescimento enquanto em Portugal agora decresce.
Decresce? Estás confiante nisso?
O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o Primeiro-Ministro António Costa disseram aos portugueses, há duas semanas, que sim, que estava na hora de sair e veranear. Oxalá não tenham de vir dar o dito por não dito.

Por outro lado, as comparações ignoram sistematicamente a Grécia onde o número de mortos registado ontem foi 175. A população da Grécia é pouco mais elevada que a portuguesa, 10,8 milhões versus 10,3 milhões.
E ninguém fala da Grécia, porquê?
Na Grécia, na tão falada Grécia durante a crise espoletada em 2008, ninguém agora repara.
As estatísticas gregas não são fiáveis? E ninguém dá por isso?

vd. GRAÇAS A ZEUS

Thursday, April 23, 2020

GRAÇAS A ZEUS?


Obrigado pelo seu comentário.

Num ponto estamos de acordo: "vamos ser um dos países do mundo com mais dificuldade para retomar a nossa vida anterior. Aqui também manda quem é mais rico e pode suportar melhor casos destes."

Mas não me parece que a relação entre número de infectados e PIB/capita seja a relação mais determinante para enfrentar as consequências da pandemia sobre a economia quando ocorrerem condições para a retoma da utilização da capacidade instalada. O que é mais preocupante para os países é o endividamento que têm de enfrentar e a capacidade para o pagar. Também é muito relevante a estrutura da actividade económica: o peso do turismo na economia portuguesa é um significativo handicap para a recuperação.
A dívida portuguesa já era enorme antes da pandemia, a que níveis irá subir, ninguém sabe, mas serão certamente elevadíssimos. 

Este o nó górdio que ou as instituições europeias, neste momento em negociações complicadíssimas conseguem desatar, avançando para uma cooperação só possível naquilo a que há muito tempo chamei neste caderno de apontamentos uma federação mínima, ou a União Europeia desintegra-se.

Portugal, mas não apenas Portugal, também a Itália, a Espanha, até a França, entre outros (e a Grécia?, é muito estranho que ninguém fale da Grécia, tem um número relativamente reduzido de infectados, para já, mas a dívida grega não deixou de ser enorme, ou deixou?) *

Resumindo: Sendo a pandemia uma ameaça global, as suas consequências na esfera económica serão também globais. Piores para uns, os mais pobres, que para outros, os mais ricos, certamente. Mas, relativamente, muito piores para os mais endividados no fim da pandemia, se não houver cooperação entre países. 

Há muita gente a dizer o mesmo, mas nem todos o que dizem o mesmo estão a pensar o mesmo.

 ---
* No dia 11 deste mês, podia lar-se num artigo do Público, vid. aqui,
que
       "... Por trás do sucesso está a entrada do país em regime de quarentena muito antes de a epidemia ganhar dimensão. Ao contrário de Itália ou de Espanha, as autoridades gregas esperaram menos de duas semanas desde o primeiro caso de confirmado encerrar as escolas e cancelar grandes eventos - nos dois países mais afectados, por outro lado, passou mais de um mês até que essas decisões fossem tomadas"...

"O analista da Fundação Helénica para a Política Externa e Europeia, George Pagoulatos, disse à Al-Jazeera que “talvez tenha ajudado o facto de a Grécia estar num estado quase constante de gestão de crise desde 2010”.

“Não sofremos do tipo de complacência que as  economias que estão em bom estado podem dar-se ao luxo de ter” .... "O Governo conservador liderado por Kyriakos Mitsotakis não esconde que uma boa gestão da pandemia se tornou numa forma de o país recuperar credibilidade junto dos parceiros europeus. “A Grécia emergiu de uma crise económica de dez anos com a sua credibilidade atingida e queríamos ultrapassar o rótulo de ovelha negra da Europa”, disse à Al-Jazeera o conselheiro económico de Mitsotakis, Alex Patelis"...

A propósito das consequências económicas e financeiras destas políticas de contenção da pandemia, que, segundo os últimos dados, continuam a ser bem sucedidas, não vi, desde então, nenhuma informação, nenhuma referência nos noticiários na rádio ou na televisão. 
No news, good news?




 

Monday, December 21, 2015

PODER E EMOÇÃO








"Esta escultura de entre 200-150 AC,  foi recuperada em 1992 de uma carga de um barco afundado que continha cerca de 200 fragmentos de bronze, a maior parte deles cindida para sucata destinada a reciclagem. A cabeça e o tronco foram encontrados próximos um do outro mas em evidente diferente condição. Enquanto o corpo está recoberto de uma pátina verde amarelecida, e retém detalhes anatómicos subtis  como as veias ao longo do braço direito, a cabeça está bastante corroída, mas a sua acentuada rotação para um lado, as sobrancelhas contraídas, a boca a desenhar respiração imprimem no retrato um momento de inspiração e presença de poder. 

























---
A fotografia a seguir foi copiada de aqui.
É de uma obra de Rui Chafes, vencedor do Prémio Pessoa 2015.
Entre a escultura de cima e esta do artista português decorreram cerca de 2200 anos na história da arte.



Tuesday, July 28, 2015

ESQUIZOFRENIA EUROPEIA

Há um mês atrás (27/06) comentei aqui:

"Tsípras talvez tenha anunciado a noite passada o Plano B com que partiu para as negociações com os parceiros europeus na UE logo que ganhou as eleições e assumiu o governo em Atenas. Por onde passa esse plano B, uma vez desencadeado o processo de anúncio da consulta popular, não sabemos, mas espera-se que Tsípras saiba. Ou, pelo menos, saiba por onde quer que ele passe. 
Tsípras, contrariamente ao que o termo que usou significa, e os media estão a replicar, não convocou um referendo, convocou pelo menos três. Que, implicitamente, implicam o plebiscito do regime que defende."
.
E do meu ponto de  vista, ou vencia o Não, e Tsipras tinha suporte popular suficiente para rejeitar as exigências do trio UE-BCE-FMI, e avançar (com um Plano B) para a saída da Grécia da zona euro se o trio não cedesse; ou vencia o Sim, e Tsipras, logicamente, deveria demitir-se.
.
Mas a lógica em política é uma batata, venceu o Não, e Tsipras acabou por aceitar, discordando, um conjunto de medidas mais gravoso que aquele que tinha rejeitado e motivado a convocação do plebiscito. Demitiu Varoufakis e, sabe-se agora, Varoufakis congeminara um plano B para voltar ao dracma, e Tsipras sabia disso.
.
Ontem, o Financial Times transcrevia parte de uma entrevista a Varoufakis, reproduzida aqui em registo audio, que está a desencadear nos meios políticos polémica q.b. (considerando um escândalo ter Varoufakis ter tornado público a intenção e os meios para sair do euro) e para "a Procuradoria-geral grega ter recebido duas queixas contra o ex-ministro das Finanças por gestão danosa e traição, e o Supremo ter pedido o levantamento da imunidade parlamentar do deputado Varoufakis."
.
Hoje, o Financial Times publica um esclarecimento de Varoufakis sobre o assunto que, no entanto, não contraria o essencial da entrevista.

Entretanto, as negociações complementares para o acordo, que Tsipras aceitou, discordando, prosseguem e a notícias de hoje dão conta que o conjunto de exigências do trio continua a ser carregado com mais medidas. A hipótese do Grexit não foi descartada e Schäuble continua a defender a saída da Grécia da zona euro, com todas as consequências daí decorrentes. 

Resumindo: Varoufakis tinha desenhado um Plano B. Louco, megalómano, radical e revolucionário, como aqui se sugere, talvez.
Por outro lado, sabe-se que as instituições europeias têm preparado um plano que suporte uma eventual saída Grécia da zona euro. Se um escandaliza e o outro não, é porque, provavelmente, não sabemos que plano é este outro.
O erro de Varoufakis foi ter mostrado o jogo depois de o ter perdido. Para um especialista da Teoria de Jogos é imperdoável que desconheça o que nenhum jogador principiante de pocker ignora.

---
Correl . - "People are apparently shocked, shocked to learn that Greece did indeed have plans to introduce a parallel currency if necessary. I mean, really: it would have been shocking if there weren’t contingency plans. Preparing for something you know might happen doesn’t show that you want it to happen." - Paul Krugman / Contingency Plans

Thursday, July 23, 2015

UMA IDEIA AFOGADA

Há uma sentença ditada pela filosofia popular que garante que as boas contas fazem os bons amigos.
A União Europeia corre o risco de desmantelamento, com todas as consequências que as contas por pagar implicam, porque os banqueiros, fiados que podem sempre contar com os contribuintes quando os seus devedores não aguentam com a carga e dão de lado, importaram volumes de crédito que eles sabiam muito bem serem excessivos, para gananciosamente arrecadarem comissões que os tornaram soberanos e inimputáveis.

É esta inimputabilidade que gera um equívoco que lança os do norte contra os do sul: contrariamente à mensagem que corre os contribuintes finlandeses (p.e.) não emprestaram aos gregos (p.e.). Quem emprestou foram os banqueiros alemães, holandeses, franceses, e, possívelmente, também algum ou  alguns finlandeses. Depois os gregos foram intimados a pagar o que deviam, a regurgitar o que tinham engolido, da noite para o dia. Não podiam. E para resgate daqueles que engendraram o risco sistémico o governo finlandês e os outros meteram no cepo a cabeça dos contribuintes.

Fossem outras as regras, fossem os banqueiros, os accionistas e os clientes dos bancos que foram para além de onde deveriam ir, obrigados, sem a intervenção dos políticos, a negociar os seus créditos bilateralmente com os seus devedores, as relações entre os estados membros da UE não teriam caído na armadilha externa, uma armadilha que os banqueiros colocam desde há muito tempo em muitos outros locais do mundo.

Nem a Grécia (p.e) seria sujeita a obdecer a um diktat que, inevitavelmente, só pode criar animosidades insaráveis durante muitos anos. 

Enquanto existir a rede (moral hazard) que apara os banqueiros em caso de queda dos trapézios em que exibem as suas habilidades, continuarão a acontecer crises e culpados que não serão culpabilizados. Neste caso, da crise profunda que abala a UE, as consequências são dramáticas porque lançam sementes de guerra entre  povos que se queriam unir para evitar a guerra. 

---
*Comentário colocado aqui

Saturday, July 18, 2015

OS BONS, OS MAUS, E OS QUE PAGAM AS FAVAS

Obrigado E., pela mensagem.

Que subscrevo, sem objecções de monta, salvo dois pontos:

1º. O autor reprova o maniqueísmo mas cai no mesmo pecadilho, se não li mal.
2º. Considera (inevitável) a intervenção do Estado (alemão, ou outro qualquer) no resgate dos bancos porque se não ... lá se ia o nosso dinheirinho.

Ora estas coisas não são assim tão lineares, ainda que sejam comuns.
Os bancos dispõem de uma rede que os apara quando no trapézio fazem números mirabolantes ... e cobram comissões de arregalar o olho dos espectadores. No jargão anglo saxónico, como é sabido, esta rede é o "moral hazard", que significa que, façam os bancos o que fizerem, em última instância para não pagarem os depositantes as favas são chamados os contribuintes a pagá-las.

Meu Caro E.,

Durante dezenas de anos negociei contratos com gente de muita parte do mundo.
E não foi difícil perceber que negócios com gregos exigem muitas cautelas. Ninguém, que não ande neste mundo a dormir, ignora isso.
Os bancos também não. Mais: sobretudo os bancos.
Então porque emprestaram os bancos tanto dinheiro aos gregos? E aos portugueses, se virmos bem, sem qualquer faúlha maniqueísta nos olhos a perturbar-nos a visão?
Porque, lá está!, eles sabiam que se houvesse azar nos números arriscados, os que dão mais proveitos, alguém seria compelido a assumir o preço dos seus erros.

Não é isto escandalosamente imoral? Não acredito que digas que não.
Não há nada a fazer?
Ben Bernanke quando foi figura do ano da "Time", em entrevista concedida a esta revista, dizia que o problema (financeiro, entenda-se)  mais bicudo dos EUA era o "too big to fail". 
Continua (quase) tudo na mesma por este mundo do diabo. Lá e cá.

Até que o vulcão vomite novamente escândalos financeiros e queime os que estiverem ao seu alcance. Costuma acontecer periodicamente. As pessoas têm memória curta, os banqueiros perna longa.

Abç



Friday, July 17, 2015

O "LÍO" DOS SOBERANISTAS EUROPEUS

O El País de hoje noticia aqui que o rei de Espanha recebe hoje o presidente da Generalitat da Catalunha, que lhe leva a intenção de prosseguir um "caminho jurídico" para a independência após a obtenção, vd. como aqui, de uma maioria clara dos catalães nesse sentido. Esta entrevista realiza-se apenas três dias depois de o mandatário catalão ter acordado com o líder da ERC, Esquerda Republicana da Catalunha, um plano para a soberania e um dia depois do presidente do governo de Espanha ter assegurado sem titubear que "não vai haver independência na Catalunha".

O que pode fazer Filipe VI enredado neste "lío" a enrolar-se há três séculos? Presume-se que, quanto muito, poderia tentar, à semelhança da Raínha de Inglaterra, manter-se como mestre-mor de cerimónias de um futuro Reino Unido das Espanhas. Não podendo as forças reais ir mais além é previsível que o catalão-mor lhe peça apenas o que o monarca lhe pode dar: equidistância na contenda entre Barcelona e Madrid. Mas aceitará Filipe VI a oferta do mandatário com o republicano de esquerda na antecâmara e as outras regiões autonómicas a observar-lhe as tendências? Não é provável, apesar das aparentemente boas relações entre Mas e Filipe. A independência da Catalunha precipitaria a desagregação de Espanha e abalaria ainda mais a estabilidade de uma União Europeia em desequilíbrio.


A crise grega tornou mais evidente a fragilidade de uma construção europeia sobre alicerces instabilizados pela ânsia de soberanismos, existentes e pretendentes. 
Os soberanismos europeus, radicados em percursos históricos antigos e confrontos seculares, reflectem hoje, em regimes democráticos, sobretudo sentimentos chauvinistas, de convicta superioridade intelectual, ou egoístas, de domínio de recursos que a natureza lhes concedeu, ou simplesmente basófias por imaginários de independência de que dificilmente lhe descortinam os horizontes e os suportes.

A solidariedade que a Grécia (ou Portugal, ou a Itália, ou a Espanha ) espera da Finlândia numa união de povos europeus é a mesma que a Andaluzia ou a Galiza esperam da Catalunha. As fracturas que poderão estilhaçar a Espanha têm as mesmas origens que podem desmontar a União Europeia.



Thursday, July 16, 2015

OS ARMADORES DE ATENAS

Não é apenas a obtusidade da arquitectura do euro que ameaça derrubar o edifício da União Europeia e propiciar a animosidade, o chauvinismo, depois a xenofobia, o racismo, a guerra entre os povos europeus. 
É também a falta de sustentáculos políticos que suportem a diversidade cultural, ao mesmo tempo a maior riqueza, mas também a maior ameaça se não for mutuamente respeitada, de povos que durante séculos se combateram entre si. 

Mas é também a ausência de institutos que previnam que alguns sejam beneficiados à custa de outros sem justa causa. A fuga de capitais gregos que permite, p.e., aos alemães financiarem-se tanto na esfera pública como na privada a taxas de juros próximas, ou mesmo abaixo de zero, é insustentável porque acabará por corroer até à sua destruição uma união monetária incompleta. 

A ausência de condições de harmonização financeira e fiscal desencadeia um ciclo perverso que impossibilita a convergência económica e social sem a qual não há unidade, económica, monetária ou outra, que subsista. Na sequência dos compromissos ontem aprovados em Atenas, além do mais que não entra directamente nas contas, a despesa pública será reduzida e os impostos aumentados. 

Quem pagará mais impostos?
Não a Igreja Ortodoxa Grega, que é a maior proprietária do país.
Não os armadores gregos, que ameaçam deslocalizar as suas operações para outros destinos se o governo decidir acabar com os benefícios fiscais que constitucionalmente lhe estão outorgados.  As suas actividades representam 7% do PIB e empregam cerca de 250 mil pessoas. 

Em Atenas, no século V a.C, se um cidadão ameaçasse a democracia, era votado ao ostracismo*: i.e., a expulsão por um período de dez anos.
Hábitos que, lamentavelmente, se perdem.



* O termo deriva do método de votar que consistia na escrita do eleito em um pedaço de cerâmica, o óstraco.

---

Armadores gregos ameaçam mudar-se se perderem privilégios fiscais -  5 Março, 2015 at 14:59


Em causa pode estar o desejo de reformular o artigo 107.º da Constituição da Grécia, que concede aos armadores isenções de impostos sobre os lucros e lhes permite pagar apenas uma taxa pela arqueação dos navios.

Aquele artigo foi publicado em 1953, na altura para permitir a reconstrução da frota mercante grega, aniquilada durante a Segunda Guerra Mundial, mas manteve-se até hoje. A própria União Europeia já questionou, há dois anos, Atenas sobre o tema, com dúvidas se é compatível com a legislação comunitária.

A cada vez que surge no ar a ameaça de retirada dos privilégios fiscais, os armadores helénicos abanam a “bandeira” da deslocalização. Mónaco, Dubai, Singapura ou até a Alemanha são destinos possíveis.

“Todos temos um plano B que podemos colocar em prática no espaço de 24 horas. Mas queremos ficar na Grécia e contribuir para o esforço comum. Com a condição, claro está, que ninguém toque nos direitos que nos são concedidos pela Constituição”, afirmou, há pouco tempo, ao italiano “La Repubblica”, Theodore Ventiamidis, líder do movimento de empresários do mar na Grécia.

A posição de força dos armadores gregos explica-se pela importância que têm para a economia do país. Representam 7% do PIB, empregam cerca de 250 mil pessoas e investiram 13 mil milhões de dólares (11,67 mil milhões de euros) na construção de novos navios em 2014, apesar da crise que afecta a Grécia.

Não por acaso, a Grécia é uma potência mundial em termos de frota controlada pelos seus empresários nacionais.
---
 18/07 -
Greek maritime industry fears being punished by its sucesses

Wednesday, July 15, 2015

ENROLANDO

 c/p de aqui

De onde virá o dinheiro para o 3º. resgate à Grécia?

- 16,4 mM de milhões de euros do FMI
- 65,5 mM do Mecanismo de Estabilidade Europeu
-   2,0 mM de privatizações
-  4,5  mM de saldos primários positivos


Totalizando  cerca de 88,5 mM de euros

Para onde irá até Dezembro de 2018?

-  7,7 mM  para almofada de liquidez dos bancos
-  7,0 mM para regularização de empréstimos vencidos
- 17,2 mM para juros
- 25,0 mM para recapitalização dos bancos gregos
- 14,3 mM para reembolsos ao Sistema Europeu
-  9,9  mM para reembolsos ao FMI
-  5,5 mM para reembolsos a credores privados

Totalizando cerca de 86,6 mM de euros

ENTRE O SONHO E A REALIDADE

Arrebatado pela gravata, vd. como aqui,  Tsipras passou a linha vermelha que ele próprio tinha traçado, caindo nos braços da volúvel Christine. Imagine quem quiser o que terá passado pela mente da directora-geral naquela noite de pesadelo. 

Nos dias seguintes, Tsipras torceu-se e distorceu-se em argumentos que esbarraram contra a intransigência dos outros 1+17 e a rispidez altiva da srª. Lagarde. Irado, chamou-lhes criminosos, foi plebiscitado pelo seu povo, e acabou por aceitar a pior de todas as propostas, perdendo, naturalmente, por 18 a 1. Que, também naturalmente, não vai ser cumprida.

Hoje, com os bancos gregos fechados talvez por mais um mês, soube-se que, vd. aqui, o FMI da previsível na imprevisibilidade Christine Lagarde critica e ameaça não participar no terceito resgate da Grécia nos termos em que foram impostos pela arrasante maioria dos membros da zona euro, e nomeadamente por tal acordo não incluir uma substancial redução da dívida grega.  Precisamente o ponto mais relevante porque se bateu Tsipras e que foi liminarente refutado pela srª. Merkel, ouvido o sr. Schäuble, e que mereceu a aprovação adormecida a altas horas da noite de todos os outros 17. 

Como Tsipras tentou que o FMI não fizesse parte deste terceiro resgate, Christine promete fazer-lhe a vontade e deixá-lo agora com água a crescer-lhe na boca.

Sunday, July 12, 2015

O SR. SCHÄUBLE E O MEU AMIGO FRANCISCO

O meu Amigo Francisco é sócio de uma PME que monta portas e janelas. 
Deve dizer-se, desde já, a quem ler estes apontamentos que o Francisco existe, chama-se Francisco, a PME ainda existe, e continua a montar algumas portas e janelas.
A PME do Francisco tinha, entre outros clientes, uma Construtora com notável nome na praça, querendo com isto dizer-se que este cliente do Francisco era uma empresa muito grande e respeitável.
Veio a crise, e a Construtora na data do vencimento de uma factura da PME não mandou cheque para pagamento mas uma letra aceite. O Francisco, necessitando, além do mais, de pagar ao pessoal, descontou a letra no banco, igualmente respeitável.
Na data do vencimento da letra, a Construtora não pagou, a letra foi devolvida pelo banco, e a conta do sacador da letra, i.e., a PME, debitada.

Mais ou menos pela mesma altura, soube-se que a Grécia, e não só, estava ameaçada de bancarrota porque fornecedores alemães, franceses, holandeses e mais uns quantos, tinham vendido fragatas, um aeroporto novinho em folha, e mais um sem número de outras coisas, com contratos descontados pelos fornecedores junto de bancos locais, e não só. Além disso, os tais bancos (entre os quais alguns portugueses) tinham investido em compra de dívida soberana grega, cobrando juros, aliciantes, que o mercado ditava. 

No momento em que escrevo este apontamento ainda ninguém sabe o que vai o sr. Schäuble (ou a srª. Merkel, para o caso tanto faz) diktar hoje sobre o futuro da Grécia e, muito provavelmente, da Europa.
Por quê?
O sr. Schäuble, que se saiba, não foi ouvido nem achado nas vendas feitas por fornecedores alemães, franceses, holandeses, e etc., aos gregos. Nem que tenha sido chamado a pronunciar-se sobre as compras que banqueiros alemães, portugueses, e etc., fizeram de dívida soberana grega. A que propósito, então, está o sr. Schäuble, e os seus acólitos, metido nesta embrulhada que ameaça destruir a União Europeia e colocar os europeus à beira de mais uma guerra após um invulgar período de setenta anos de quase paz no Velho Continente?
Foi fornecedor dos gregos? Que se saiba, não foi.
Comissionista?Não consta.
Foi banqueiro? Não foi.
O que foi, então, o sr. Schäuble para nos meter a todos nesta encrenca?
Inscreveu, sem consulta prévia, os contribuintes alemães, franceses, e etc., como avalistas dos empréstimos concedidos pelos bancos do seu país, e etc. à Grécia, a Portugal, e etc.

Uma inscrição que omite, além de milhões de outras omissões, a dívida da falida Construtora portuguesa à PME do meu Amigo Francisco. Que não é grega, mas poderia ser.

Thursday, July 09, 2015

LA DONNA È MOBILE

Dona Christine Lagarde tem dias. 
As notícias desta manhã dão conta que a directora-geral do FMI declarou ontem que a dívida da Grécia tem de ser reestrurada e que os gregos precisam de mais 50 biliões de euros para se desatascarem e levantarem a cabeça. 
Espantoso?

Um pouco, mas não tanto assim.
Sua Excelência tem vindo ao longo do seu mandato a dar provas de ter a cabeça mal arrumada: umas vezes bate-se por medidas de políticas austeridade, depois afirma que essas medidas foram longe de mais e não resultaram, depois volta a insistir que sem mais medidas de austeridade não há mais apoio do FMI, recentemente avisou a Grécia de que ou pagava no dia 30 de Junho os 1,5 milhões devidos nesse dia ou cortava-lhe a coleta. 
Nunca se tinha visto nada assim: um país, dito desenvolvido, não pagou mesmo. 

Dias depois, foi publicado um relatório do FMI, - vd. aqui -, que os países da Zona Euro quiseram bloquear- vd. aqui -, que reconhecia, além do mais, que a dívida grega requer uma reestruturação e o sistema financeiro grego uma injecção de 50 milhões de euros. Tal e qual o que a srª. Lagarde disse ontem, sendo certo que quando ainda dizia o contrário o relatório já lhe tinha sido distribuido. 

É a senhora Lagarde volátil por conta própria? Duvida-se. Desde logo porque as contradições entre relatórios do FMI e as declarações e imposições dos seus técnicos integrados na troica são frequentes. Depois porque Madame Lagarde deve ter recebido indicações para olhar para o mapa e perceber onde se situa a Grécia.

A rematar as suas declarações, Christine Lagarde fez questão de esclarecer que as medidas de excepção aplicáveis à Grécia não podem ser estendidas aos outros países intervencionados, i.e., Portugal e a Irlanda.

O que dirá o primeiro-ministro de Portugal a isto?
E o candidato ao lugar?



Monday, July 06, 2015

PERDIDOS POR DEZ, PERDIDOS POR MIL

"Em três ou quatro apressados dias, transferiu para o povo a responsabilidade da decisão. Mas não contou aos gregos como lhes vai pagar os ordenados, aprovisionar as farmácias e as mercearias." - cf.  aqui.

A previsão de que a Grécia vai atravessar dias de grande calamidade, a juntar aqueles que já experimentou, tem alta probabilidade de acontecer. 

Tsipras chegou ao poder prometendo muito que não poderia vir a cumprir. Nisso não se distingue da generalidade dos políticos, exemplos desses abundam também por cá, e por toda a parte . E, é sabido, as promessas são tanto mais atraentes quanto mais os crentes estão aflitos. Ora os gregos tinham sido apanhados na ratoeira de uma dívida externa que os esmagava e continua a esmagar, uma situação que o último relatório do FMI atesta.

A história já foi contada vezes incontáveis: os bancos, ou investidores através deles, emprestaram aos bancos fundos em volumes completamente desproporcionados com as capacidades de pagamento da economia grega. São os gregos vítimas inocentes desta armadilha sinistra? Não todos: há muitos coniventes, activos ou passivos, geralmente gente bem instalada na vida.

Apesar da ténue recuperação da economia observada em 2014, os gregos rejeitaram nas eleições de alguns meses atrás a continuidade da liderança política daqueles que os tinham metido num beco sem saída. E, em desespero de causa, atiraram-se para os braços do vendedor de promessas. Acontece fequentemente, é assim que as democracias sossobram e os demagogos são idolatrados.

Tendo Tsipras prometido o que não pôde conseguir nas negociações em Bruxelas e etc., não tinha mais alternativas senão voltar a Atenas e perguntar ao povo que o tinha elegido o que queria o povo, ou demitir-se. Escolheu a primeira e o povo disse que não, que não aceita as condições impostas pelas instituições europeias e pelo FMI.

Votaram os gregos na ignorância do que vai acontecer a partir de hoje? De modo algum. Se há conhecimento adquirido pelos gregos, por todos, ao longo destes últimos anos, o mais intenso será certamente o das consequências da ruptura social, económica e financeira. Eles votaram à vista de filas de gente em frente às máquinas ATM e os bancos encerrados há dias.

E, agora?
Agora não sei, quem sabe?, o que irá acontecer.
Mas suponho que a União Europeia irá mudar radicalmente a partir de hoje.
Repito-me: A União Europeia é insustentável sem uma moeda comum. E uma moeda comum é insustentável sem uma federação política dos seus membros. Soberania e democracia (numa zona económica e monetária) são destrutivamente conflituantes se não se reunirem no mesmo espaço político.

Se a Europa apreender e aproveitar de vez o resultado de ontem em Atenas, o contributo de Tsipras não deve ser vilipendiado.

Varoufakis demitiu-se, ou foi aconselhado a isso, para faclitar o diálogo em mais uma maratona de negociações. É esse o geral entendimento de analistas dos mais insuspeitos quadrantes de serem alinhados com a esquerda: Financial Times, Economist, entre outros.
Parece-me pouco pertinente ( ) considerá-lo cobarde e incompetente.

( ) Colocar Tsipras e Varoufakis como principais responsáveis da tragédia grega, quando é claríssimo que a tragédia já tinha atingido o clímax quando eles entraram em cena por repúdio da plateia dos actores que lá tinham estado antes,  é muito excessivo. Os grandes responsáveis pelas diversas tragédias que se desenrolam de tempos a tempos em vários pontos deste mundo são os banqueiros.

Sim, os banqueiros.
Foram eles que, movidos pela ganância, emprestaram muito para além das possibilidades de reembolso aos credores.
E os gregos?

Os gregos são inacreditáveis?
Os gregos são impostores?
Os gregos são intratáveis?
Os gregos são chantagistas?
Os gregos são tudo isso e muito pior?

Admitamos que sim.
Então por que lhe emprestaram os banqueiros tanto dinheiro conhecendo-lhes a falta de carácter?

Sabe-se bem porquê:
Se uma empresa vende mercadoria a um cliente sem analisar o risco que corre, isto é, a capacidade do devedor pagar o que deve, o que acontece se o cliente não paga? O fornecedor incauto tem de registar na sua contabilidade um "incobrável", uma perda, portanto.

O que é aconteceu aos bancos que emprestaram aos gregos (e aos portugueses ... e a tantos outros, agora e no passado), as dívidas a esses bancos foram assumidas pelo FMI e pelo BCE na sua quase totalidade, isto é, foram colocados às costas dos contribuintes.

Não é isto verdade?

( ) Acusar Tsipras de companhia de terem prometido o impossível para se alcandorarem ao poder, é pertinente.
E os nossos governantes, o que fizeram para alcançar o poder?
Falaram verdade?
As desonestidades de uns não justificam as de outros mas é sempre mais higiénico não acusarmos alguém de pouca limpeza com os nossos dedos sujos.

(colocado aqui)

Monday, June 29, 2015

ESTÃO A CHEGAR OS AMERICANOS!

Escrevi algumas vezes neste bloco de notas que se os europeus deixassem cair a Grécia, apareceriam os norte-americanos  a segurar os gregos do lado de cá antes que eles tombassem para o lado de lá.
As notícias de hoje dão mais relevo ao encerramento dos bancos gregos e da bolsa de Atenas, às restrições de levantamentos de dinheiro e ao controlo de saída de capitais, às filas de pensionistas à espera das pensões,  mas continuo a supor que o factor mais decisivo para o futuro da Grécia e da União Europeia são as conversações entre Obama e Merkel.

Como sempre tem acontecido nos últimos cem anos, quando os europeus não se entendem, e até se matam uns aos outros, vêm os norte-americanos pôr ordem no desconchavo do Velho Continente.
---



Briefing Room

The White House

Office of the Press Secretary


Readout of the President’s Call with Chancellor Angela Merkel of Germany

The President spoke today with Chancellor Merkel of Germany regarding developments in Greece.  The two leaders agreed that it was critically important to make every effort to return to a path that will allow Greece to resume reforms and growth within the Eurozone. The leaders affirmed that their respective economic teams are carefully monitoring the situation and will remain in close touch.  The President also offered his condolences for the loss of German citizens in Friday’s tragic attack in Tunisia.- cf. aqui
---
Correl .
Merkel disposta a negociar com a Grécia "depois do referendo" 

Juncker pede aos gregos que votem a favor da proposta de Bruxelas 
Mas Christine Lagarde ainda ontem afirmava que a proposta tinha deixado de existir e o referendo, por essa razão, não fazia sentido porque os gregos iriam ser chamados a votar a aceitação de uma proposta  que tinha sido retirada. 
Cavaco Silva: Saindo a Grécia ainda ficam 18 países na zona euro 
Obviamente,  19-1=18! 
Fonte do governo grego confirma que Atenas não vai pagar ao FMI 

Sunday, June 28, 2015

QUAIS CREDORES?


Estimado António,

Subscrevo.
Mas depois de subscrever, interrogo-me:
Quem são os credores dos gregos? Quem lhes emprestou a pipa de massa com que eles se embebedaram?
Foi o BCE? Foi o FMI?

Quando o BCE e o FMI entraram em cena, se não estou enganado, eles já estavam afundados em crédito até ao cocuruto, ou não?
E depois foram resgatados pelo BCE e pelo FMI. Se não teriam ficado afogados e, com eles, aqueles que lhes concederam o crédito. Ou estou a ver mal?

Por onde andam esses credores que, em primeira mão, lhe colocaram os fundos nas unhas, quiçá lhes enfiaram até o crédito pelas goelas abaixo?

Quando o FMI entrou em cena, projectou uma evolução do PIB que Krugman publicou aqui


Sei que desconfias do Krugman, por isso não te peço que leias o texto mas que olhes para o gráfico, que não deve estar falseado.
Parece que depois da embriaguez de crédito as medidas do FMI não ajudaram na ressaca. Ou ajudaram e o gráfico está borracho?
Quanto ao resto, tudo bem. Ou tudo mal, se assim o entenderes.

Saturday, June 27, 2015

TSÍPRAS, OS GREGOS, E O PLEBISCITO*


Tsípras talvez tenha anunciado a noite passada o Plano B com que partiu para as negociações com os parceiros europeus na UE logo que ganhou as eleições e assumiu o governo em Atenas. Por onde passa esse plano B, uma vez desencadeado o processo de anúncio da consulta popular, não sabemos, mas espera-se que Tsípras saiba. Ou, pelo menos, saiba por onde quer que ele passe. 

Tsípras, contrariamente ao que o termo que usou significa, e os media estão a replicar, não convocou um referendo, convocou pelo menos três. Que, implicitamente, implicam o plebiscito do regime que defende.

Sabe-se que a opinião pública grega é, por um lado, muito maioritariamente favorável à permanência no euro mas, por outro, a maioria apoia a actução de Tsípras no modo como tem conduzido as alegações de defesa dos interesses e da dignidade dos gregos  em Bruxelas. Acontece, contudo, que a permanência no euro não é compatível com a recusa das propostas dos credores, que o governo de Atenas considera um ultimatum. E Tsípras, ao mesmo tempo que anunciava a consulta popular para 5 de Julho, fez saber que irá fazer campanha pelo Não à aceitação do ultimatum. O mesmo é dizer, pela saída do euro.

Se vencer o Não, abre-se a Caixa de Pandora, e ninguém pode calcular como se propagam os efeitos dos diabos à solta. Saindo do euro, sairá da UE? Sairá da Nato? Ainda é possível algum recuo? Quando Samaras, o anterior primeiro-ministro grego, aventou a hipótese de um referendum na Grécia foi rapidamente dissuadido por Berlim e Bruxelas. Mas nessa altura ainda estavam por parquear no BCE muitos empréstimos de bancos alemães, franceses, holandeses, ... e Samaras não é Tsípras.
Se vencer o Sim, Tsípras não tem alternativa senão demitir-se, provocando eleições legislativas antecipadas.


Segunda-feira começa o teste. Tsípras disse que não imporá controlo de capitais e os bancos abrirão como de costume. Sendo improvável que os gregos, na dúvida de qual será o resultado daí a uma semana,  não corram para lá a sacar os seus depósitos em euros, os bancos abrirão para fecharem pouco depois. A menos que o Plano B de Tsípras, se existe, continue a surpreender-nos.

---
 *  vd. aqui,
( ), podemos dizer que plebiscito é uma consulta ao povo antes de uma lei ser constituída, de modo a aprovar ou rejeitar as opções que lhe são propostas; o referendo é uma consulta ao povo após a lei ser constituída, em que o povo ratifica ("sanciona") a lei já aprovada pelo Estado ou a rejeita. Maurice Battelli, de fato, define plebiscito como a manifestação direta da vontade do povo que delibera sobre um determinado assunto, enquanto que o referendo seria um ato mais complexo, em que o povo delibera sobre outra deliberação (já tomada pelo órgão de Estado respectivo).
 -
Marcello Caetano (  ) definia o referendo como um processo próprio de uma conjuntura governativa instituída, enquanto que o plebiscito seria próprio de tomadas de decisão que visassem alterações profundas na estrutura do regime político governante (em geral, da própria Constituição).
---
Pensionista grego e fila de gente junto a ATM

---
 (05/07)

Grecia decide hoy el destino del euro y de la Unión Europea 

El resultado del referéndum no garantiza en ningún caso la salida de la crisis. La votación es un plebiscito sobre el primer ministro - cf. aqui

Friday, June 26, 2015

ESTA NOITE DORMIMOS JUNTOS

- Tsípras ??? ... Aléxis Tsípras !!!??? ... Como? ... e a que propósito ... entraste no meu quarto ... ? ... às ... às .... às quatro da manhã? ... rua! ... rua! ... rua!... rua, ou ligo imediatamente à recepção do hotel!
.
(Christine Lagarde teve um dia arrasador mesmo para uma mulher de aço. As reuniões com os gregos são esgotantes, as intervenções de Varoufakis sufocantes. Nos últimos dias, Christine cede às recomendações da sua amiga Brigitte e toma o xanax que ela lhe dá. Varoufakis não sabe mas ele é o único tipo que até agora teve o condão de a levar a um nível de tensão que lhe retira o sono. Se pudesse esbofeteava-o em público. É insinuante e insolente, arrogantemente melífluo, um convencido imaturo. Resumidamente, um cretino.
São duas da manhã, o xanax demora a produzir efeito, enquanto a droga não lhe entorpece a mente, Christine rememora o que disse, o que não disse, mas sobretudo o que não devia ter dito durante as infindáveis reuniões daquele dia e o que irá dizer na reunião marcada para dentro de seis horas. E, outra vez, sempre, o avantesma, Varoufakis. Boceja, Oh! Yanis, Yanis, volta-se pela enésima vez na cama, alonga-se entre os lençois, e abraça a cabeceira.
Acorda duas horas depois, sobressaltada pelo restolhar dos cortinados, acende a luz, e o seu espanto não tem medida. Alguém entrou no quarto, um homem entrou pela janela que ela deixara aberta para se libertar do sufoco carregado durante as reuniões do dia. É Tsipras, o estupor do Aléxis Tsípras, armado em valet: calça e sapatos pretos, colete preto sobre camisa branca, uma gravata vermelha, vermelho vivo, ao pescoço. Na mão direita um spray de tinta, destes que os árbitros de futebol usam para marcar distâncias no futebol, uma toalha branca no braço esquerdo. Indiferente ao espanto de Christine, Tsípras marca uma linha vermelha ao longo da cama, a meio metro de distância, e perfila-se, mudo e quedo,  atrás dessa linha)

- Que é isto? A que propósito? O que é que pretendes Aléxis??? ... Ouves-me? ... Aléxis, o que é que pretendes de mim?

(A exaltação inicial de Christine esbate-se na mudez e na imobilidade do intruso)

- Ah! Ah! Ah! Pretendes, por acaso, acusar-me de violação a um criado de hotel? Sabes bem que esse é um argumento que raramente funciona ao contrário. E os franceses não sairam todos do mesmo molde. O Dominique será um libertino impenitente com um nome andrógeno, eu não sou, nem nunca fui, mulher de fúrias libidinosas  ocasionais. Sou pérfida, dizem vocês, mas enganam-se. Sou sensível. A Ângela, essa sim, é pérfida. E aquela outra garota, como é que ela se chama?, a portuguesa? Pérfidas e libidinosas, não se nota porque vocês não lhe ouvem as conversas. Se os homens ouvissem o que dizem as  mulheres entre si ... nem todas, bem entendido. Em França temos mais fama mas menos proveito, garanto-te. 
O turbilhão grego atormenta-me profundamente porque não sei como possa amainá-lo. Acusam-me de contradições nos meus discursos, e não posso deixar de reconhecer que entre aquilo que penso e aquilo que as minhas funções me obrigam a fazer vai a distância que me dilacera. Bom, reconheço que gostaria muito de ver renovado o meu mandato e essa renovação só é possível com os votos de muitos, de quase todos, os membros do FMI. Lamento recordar-te, Aléxis, mas a Grécia está quase só. Contas, do teu lado, com quem? Com Putin? Ah! Ah! Ah! Putin prefere, por agora, que os problemas gregos contribuam para a destruição das  instituições europeias. Dar-te-á um caramelo, só te dará um caramelo, e a tua sede aumenta ....
 .
(Christine faz uma pausa, e olha fixamente para Aléxis, imóvel, mudo, os olhos imóveis nos olhos dela)
 .
... - Agora que olho mais detidamente para ti, Aléxis, reparo que não és desengraçado de todo, sabes? Não, não vou dizer que és um tipo sexy. O Yanis é sexy, reconheço. É um estupor mas é um homem interessante. Melhor dizendo, é um estupor com certo interesse, de homem terá o que uma mulher vulgar precisa, não mais que isso. Tu tens cabeça, e essa trunfa rebelde atiça, estou certa disso, o interesse feminino mais exigente, aquele que vai além das bolsas de testosterona. Chega-te cá! Vá lá, chega-te aqui mais perto. Passa essa linha vermelha que traçaste e eu juro-te que não chamo a polícia. 

(Aléxis, não mexe, sequer, um músculo da cara)

Dizem-me que já te decidiste a roer a corda e mandar os credores às urtigas. Tens ideia, Aléxis, uma pequena ideia que seja, do sarilho em que te metes se saltas do euro sem para-quedas? És doido?
Amanhã é sábado, terça-feira o dead line. Se não há acordo amanhã, o mais tardar domingo, como é que governas sem euros nem dracmas? Ou já tens rotativas clandestinas a trabalhar ou a Grécia é uma bagunça sem rei nem roque à espera que os militares ponham tudo em sentido. Estás acordado ou a dormir em pé?

(Tsipras lembra uma estátua grega antiga, o movimento suspenso, vestida a preto e branco e um toque encarnado. Christine faz nova pausa no discurso, e para o olhar no olhar dele)

- Afinal, o que vieste cá fazer, monstro? Chegas de lata na mão e toalha no braço, traças uma linha  a vermelho, e não soltas sequer um grunhido por quê? Chega cá, dá-me a tua mão, só a mão, ou nem a mão pode passar essa estúpida linha vermelha? Bom, se a montanha não vai a Maomé ... vai Maomé à montanha. Se não te mexes, levanto-me eu. Upa!

(Christine tenta levantar-se e agarrar Tsipras mas só consegue chegar-lhe à gravata)

- A gravata já cá canta. Esta noite dormimos juntos.


Sunday, June 21, 2015

DITIRAMBO

A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
 A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
 A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
 A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
 A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
 A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
 A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Gécia sai
A Grécia não sai
A Grécia sai 

A Grécia sai
A Grécia  sai!
A Grécia sai!!
A Grécia sai!!!

A Grécia sai para onde?

Para aí?????   JAMAIS!!!!!!