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Sunday, January 12, 2025

O QUE FALTA NA EUROPA?


O que falta na Europa?
Europeus. 
Na Europa, e nomeadamente na União Europeia, há alemães, italianos, suecos, austríacos, espanhóis, franceses, portugueses ... mas europeus, não há. 

O sentimento de pertença a um grupo com interesses comuns de defesa e representação externa não existe entre os europeus.
Nem nunca os caminhos prosseguidos apontaram para a evolução da União Europeia para uma federação dos estados membros e a constituição dos  Estados Unidos da Europa. Os nacionalismos nunca abdicaram dos vínculos mais representativos das soberanias de cada estado membro: a defesa e a representação externa.
 
Em Julho de 2011, anotei aqui,

"Nunca tanto se falou de federação europeia, nunca tantos comentadores políticos se afirmaram federalistas como nos dias de hoje, perante o aperto da dívida a que estão sujeitos os europeus dos geralmente designados países periféricos. É, natural, portanto, que o federalismo seja muito mais invocado a Sul que a Norte.
Os federalistas assumem que só uma integração política europeia mais profunda poderá solucionar radicalmente os problemas que a adopção de uma moeda única veio colocar num contexto caracterizado por uma diversidade muito significativa dos níveis de desenvolvimento económico entre os seus membros ..." 
 
A crise das dívidas soberanas foi solucionada por outros meios, e o federalismo foi esquecido.
Há dias, o almirante Gouveia e Melo, ouvido num podcast transmitido na Sic sobre a questão da segurança foi muito claro, reafirmando, sobre a mesma questão, a mesma posição assumida numa entrevista de Vítor Gonçalves em setembro do ano passado, que comentei aqui.

Hoje, perante as mais recentes declarações de Trump, a Europa pode estilhaçar-se para gáudio dos inimigos da democracia liberal e o triunfalismo em expansão do totalitarismo num remake da situação observada há oito décadas com a enorme diferença de naquela altura os Estados Unidos da América se terem colocado ao lado dos europeus. 
 
Haverá, agora, quando os europeus estão perante a ameaça da sua soberania global, entre os diversos prováveis (ou putativos) candidatos à presidência, um, só um que seja, capaz de afirmar uma posição clara perante os portugueses qual a sua política de defesa implicando o reforço da despesa com a defesa e, inevitavelmente, a redução da despesa que sustenta o estado social?  
E a integração, temporária, de milhares de jovens portuguesas e portugueses nas fileiras?

Em setembro de 2011, anotei isto: SAIA UMA FEDERAÇÃO À PRESSÃO.
 
Nunca mais ouvi falar no assunto.
Alguém ouviu?
Há alternativa?
Há. A abdicação.
Ou não?
 
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Thursday, April 23, 2020

GRAÇAS A ZEUS?


Obrigado pelo seu comentário.

Num ponto estamos de acordo: "vamos ser um dos países do mundo com mais dificuldade para retomar a nossa vida anterior. Aqui também manda quem é mais rico e pode suportar melhor casos destes."

Mas não me parece que a relação entre número de infectados e PIB/capita seja a relação mais determinante para enfrentar as consequências da pandemia sobre a economia quando ocorrerem condições para a retoma da utilização da capacidade instalada. O que é mais preocupante para os países é o endividamento que têm de enfrentar e a capacidade para o pagar. Também é muito relevante a estrutura da actividade económica: o peso do turismo na economia portuguesa é um significativo handicap para a recuperação.
A dívida portuguesa já era enorme antes da pandemia, a que níveis irá subir, ninguém sabe, mas serão certamente elevadíssimos. 

Este o nó górdio que ou as instituições europeias, neste momento em negociações complicadíssimas conseguem desatar, avançando para uma cooperação só possível naquilo a que há muito tempo chamei neste caderno de apontamentos uma federação mínima, ou a União Europeia desintegra-se.

Portugal, mas não apenas Portugal, também a Itália, a Espanha, até a França, entre outros (e a Grécia?, é muito estranho que ninguém fale da Grécia, tem um número relativamente reduzido de infectados, para já, mas a dívida grega não deixou de ser enorme, ou deixou?) *

Resumindo: Sendo a pandemia uma ameaça global, as suas consequências na esfera económica serão também globais. Piores para uns, os mais pobres, que para outros, os mais ricos, certamente. Mas, relativamente, muito piores para os mais endividados no fim da pandemia, se não houver cooperação entre países. 

Há muita gente a dizer o mesmo, mas nem todos o que dizem o mesmo estão a pensar o mesmo.

 ---
* No dia 11 deste mês, podia lar-se num artigo do Público, vid. aqui,
que
       "... Por trás do sucesso está a entrada do país em regime de quarentena muito antes de a epidemia ganhar dimensão. Ao contrário de Itália ou de Espanha, as autoridades gregas esperaram menos de duas semanas desde o primeiro caso de confirmado encerrar as escolas e cancelar grandes eventos - nos dois países mais afectados, por outro lado, passou mais de um mês até que essas decisões fossem tomadas"...

"O analista da Fundação Helénica para a Política Externa e Europeia, George Pagoulatos, disse à Al-Jazeera que “talvez tenha ajudado o facto de a Grécia estar num estado quase constante de gestão de crise desde 2010”.

“Não sofremos do tipo de complacência que as  economias que estão em bom estado podem dar-se ao luxo de ter” .... "O Governo conservador liderado por Kyriakos Mitsotakis não esconde que uma boa gestão da pandemia se tornou numa forma de o país recuperar credibilidade junto dos parceiros europeus. “A Grécia emergiu de uma crise económica de dez anos com a sua credibilidade atingida e queríamos ultrapassar o rótulo de ovelha negra da Europa”, disse à Al-Jazeera o conselheiro económico de Mitsotakis, Alex Patelis"...

A propósito das consequências económicas e financeiras destas políticas de contenção da pandemia, que, segundo os últimos dados, continuam a ser bem sucedidas, não vi, desde então, nenhuma informação, nenhuma referência nos noticiários na rádio ou na televisão. 
No news, good news?




 

Monday, July 06, 2015

PERDIDOS POR DEZ, PERDIDOS POR MIL

"Em três ou quatro apressados dias, transferiu para o povo a responsabilidade da decisão. Mas não contou aos gregos como lhes vai pagar os ordenados, aprovisionar as farmácias e as mercearias." - cf.  aqui.

A previsão de que a Grécia vai atravessar dias de grande calamidade, a juntar aqueles que já experimentou, tem alta probabilidade de acontecer. 

Tsipras chegou ao poder prometendo muito que não poderia vir a cumprir. Nisso não se distingue da generalidade dos políticos, exemplos desses abundam também por cá, e por toda a parte . E, é sabido, as promessas são tanto mais atraentes quanto mais os crentes estão aflitos. Ora os gregos tinham sido apanhados na ratoeira de uma dívida externa que os esmagava e continua a esmagar, uma situação que o último relatório do FMI atesta.

A história já foi contada vezes incontáveis: os bancos, ou investidores através deles, emprestaram aos bancos fundos em volumes completamente desproporcionados com as capacidades de pagamento da economia grega. São os gregos vítimas inocentes desta armadilha sinistra? Não todos: há muitos coniventes, activos ou passivos, geralmente gente bem instalada na vida.

Apesar da ténue recuperação da economia observada em 2014, os gregos rejeitaram nas eleições de alguns meses atrás a continuidade da liderança política daqueles que os tinham metido num beco sem saída. E, em desespero de causa, atiraram-se para os braços do vendedor de promessas. Acontece fequentemente, é assim que as democracias sossobram e os demagogos são idolatrados.

Tendo Tsipras prometido o que não pôde conseguir nas negociações em Bruxelas e etc., não tinha mais alternativas senão voltar a Atenas e perguntar ao povo que o tinha elegido o que queria o povo, ou demitir-se. Escolheu a primeira e o povo disse que não, que não aceita as condições impostas pelas instituições europeias e pelo FMI.

Votaram os gregos na ignorância do que vai acontecer a partir de hoje? De modo algum. Se há conhecimento adquirido pelos gregos, por todos, ao longo destes últimos anos, o mais intenso será certamente o das consequências da ruptura social, económica e financeira. Eles votaram à vista de filas de gente em frente às máquinas ATM e os bancos encerrados há dias.

E, agora?
Agora não sei, quem sabe?, o que irá acontecer.
Mas suponho que a União Europeia irá mudar radicalmente a partir de hoje.
Repito-me: A União Europeia é insustentável sem uma moeda comum. E uma moeda comum é insustentável sem uma federação política dos seus membros. Soberania e democracia (numa zona económica e monetária) são destrutivamente conflituantes se não se reunirem no mesmo espaço político.

Se a Europa apreender e aproveitar de vez o resultado de ontem em Atenas, o contributo de Tsipras não deve ser vilipendiado.

Varoufakis demitiu-se, ou foi aconselhado a isso, para faclitar o diálogo em mais uma maratona de negociações. É esse o geral entendimento de analistas dos mais insuspeitos quadrantes de serem alinhados com a esquerda: Financial Times, Economist, entre outros.
Parece-me pouco pertinente ( ) considerá-lo cobarde e incompetente.

( ) Colocar Tsipras e Varoufakis como principais responsáveis da tragédia grega, quando é claríssimo que a tragédia já tinha atingido o clímax quando eles entraram em cena por repúdio da plateia dos actores que lá tinham estado antes,  é muito excessivo. Os grandes responsáveis pelas diversas tragédias que se desenrolam de tempos a tempos em vários pontos deste mundo são os banqueiros.

Sim, os banqueiros.
Foram eles que, movidos pela ganância, emprestaram muito para além das possibilidades de reembolso aos credores.
E os gregos?

Os gregos são inacreditáveis?
Os gregos são impostores?
Os gregos são intratáveis?
Os gregos são chantagistas?
Os gregos são tudo isso e muito pior?

Admitamos que sim.
Então por que lhe emprestaram os banqueiros tanto dinheiro conhecendo-lhes a falta de carácter?

Sabe-se bem porquê:
Se uma empresa vende mercadoria a um cliente sem analisar o risco que corre, isto é, a capacidade do devedor pagar o que deve, o que acontece se o cliente não paga? O fornecedor incauto tem de registar na sua contabilidade um "incobrável", uma perda, portanto.

O que é aconteceu aos bancos que emprestaram aos gregos (e aos portugueses ... e a tantos outros, agora e no passado), as dívidas a esses bancos foram assumidas pelo FMI e pelo BCE na sua quase totalidade, isto é, foram colocados às costas dos contribuintes.

Não é isto verdade?

( ) Acusar Tsipras de companhia de terem prometido o impossível para se alcandorarem ao poder, é pertinente.
E os nossos governantes, o que fizeram para alcançar o poder?
Falaram verdade?
As desonestidades de uns não justificam as de outros mas é sempre mais higiénico não acusarmos alguém de pouca limpeza com os nossos dedos sujos.

(colocado aqui)

Thursday, April 24, 2014

VOTAR, PARA QUÊ?

Ouço esta manhã na rádio uma parte do discurso - vd. aqui -  proferido ontem por Jorge Sampaio na  Gulbenkian:  "Este presente não pode ser o nosso futuro. Quarenta anos depois do 25 de Abril de 1974, a melhor maneira de o celebrarmos é usarmos as eleições europeias para fazer renascer a esperança e acreditar no futuro de Portugal e da Europa".

Sampaio mantem o registo que sempre caracterizou os seus discursos políticos: elegantes e redondos."Este presente não pode ser o nosso futuro" é uma senhora afirmação, esbelta, tautológica em todos os sentidos, que dá entrada a um apelo recorrente em vésperas de todas as eleições: votem!, porque é com o voto que renasce a esperança de um futuro diferente! Ou, trocado por miúdos, "votem no PS porque o neoliberalismo deste governo levou-nos a este presente desgraçado!".

Há, ou poderá haver, no Parlamento Europeu, uma bancada socialista, qualquer que seja a ideia política nuclear que lhe dê uma coesão mínima, que possa apontar, e em que sentido, para uma União Europeia significativamente distinta daquela que conhecemos hoje? Certamente que não. Os destinos da União Europeia têm sido guiados fundamentalmente pelos interesses individuais de cada um dos seus membros, e a tão proclamada unidade na diversidade é uma panaceia, porque só uma união política apropriada poderia dar consistência à União, e esse passo não está nos programas de nenhum dos principais vectores políticos representados em Estrasburgo. Mas há, por outro lado, propostas de desagregação defendidas pelos partidos radicais, em crescendo de representatividade no PE. 

Em França, por exemplo, e a França é um exemplo crítico, diz-se socialista o partido que suporta o governo de Monsieur Hollande. Muito provavelmente, o PS francês registará mais uma derrota record e Marine Le Pen poderá ver o seu nacionalismo, o seu racismo, a sua xenofobia, embaladas em propostas de retirada do euro, e da UE, representados de forma muito convincente daquilo que pretendem. Quem é que, sentado nas bancadas socialistas (ou liberais, ou o quer que seja), sobrepõe no hemiciclo europeu os interesses ideológicos do seu sector político aos interesses particulares dos países que representam? Que propostas defenderão os socialistas franceses, que não se acomodem às políticas do seu governo, recentemente remodelado?

Votar nestas eleições europeias sem rumos definidos, exceptuando os daqueles que se propõem fazer voltar ao passado, significa dar crédito a um presente que não augura nenhum futuro diferente para a Europa. A abstenção tem pelo menos o mérito de afirmar quantos, por indiferença (que também existe nos votantes) ou decisão pensada, dizem não a um presente e a um futuro que não será diferente.

Friday, August 16, 2013

SALDOS DA CRISE



O Economist dedica hoje o seu daily chart - Mixed fortunes à comparação da variação do PIB observada num conjunto de 13 países da União Europeia, 12 dos quais são membros da zona euro, e ainda nos EUA e Japão, desde o início da crise até ao fim do segundo trimestre deste ano. Do conjunto, apenas os EUA, a Alemanha e, tangencialmente, a Bélgica, conseguiram recuperar o terreno perdido. A França e o Japão aproximam-se dos níveis em que se encontravam antes da crise, o Reino Unido não conseguiu melhor que a zona euro no seu conjunto.
 
Explicações para estes resultados, haverá muitas. Nenhuma, porém, pode negar que a política de ataque à crise adoptada nos EUA  não foi prosseguida na União Europeia, e, particularmente, na zona euro, pela elementar razão de não ser a União Europeia uma união política. Não foi nem será enquanto essa diferença enorme se mantiver. Ainda que os resultados do segundo trimestre de 2013 tenham acalentado a ideia que a UE está agora carrilada e Portugal se tenha, aparentemente, portado acima das expectativas.
 
Digo aparentemente porque se desconhecem ainda os detalhes e são prematuras algumas conclusões consistentes baseadas na estimativa rápida do INE.

Tuesday, July 09, 2013

A BANCA : O PROBLEMA DA EUROPA

Talvez a afirmação seja chocante para muitos mas foi dita pela directora-geral do FMI, a francesa
Christine Lagarde, transmitindo a exigência do FMI: a Europa tem de limpar de vez o seu sistema financeiro. E a senhora Lagarde deve saber do que fala porque era membro do G8 como Ministra dos Negócios Económicos, das Finanças e da Indústria quando foi nomeada para o FMI. Aliás, a opinião de Lagarde não é original porque é comungada por outros, tidos por credenciados na matéria. 

Escreve o correspondente do El País em Bruxelas que "Lagarde se atreveu a mandar a ferroada na presença do presidente do Eurogrupo, Jeoren Dijsselbloem e do comissário Olli Rehn: o problema é a banca." Mas Lagarde não se ficou por aí e  reclamou ao BCE que active medidas não convencionais, que vá além das meras palavras porque, "o crescimento (na União Europeia) brilha pela sua ausência, o desemprego cresce e a incerteza é elevada, a zona euro continua vulnerável e pode vir a ser atingida por mais perturbações". "A banca europeia tem de corrigir os seus balanços, avaliar a magnitude dos problemas com um exame credível dos activos e ter preparado um plano de necessidades de recapitalização" 

Segundo o El País "ninguém sabe quanto dinheiro falta: os grandes bancos alemães, franceses e holandeses empanturraram-se de activos tóxicos antes da crise, que ainda não foram declarados nas contas". "A situação exige uma resposta política integrada: limpeza do sistema bancário mas também a completa realização da união bancária de forma rápida, o incentivo fiscal da procura, a concretização das reformas estruturais necessárias"  "Pede ainda o FMI ao BCE que reduza os juros e injecte mais liquidez"

Ironicamente, acrescenta o articulista que "a União Europeia já fez aquilo tudo (já decidiu fazer) mas ainda não fez (não concretizou) nada". E porquê?

Porque a União Europeia continua enredada em contradições congénitas, e não serão as eleições alemãs de 22 de Setembro que vão permitir ultrapassá-las. A senhora Lagarde sabe que os valores em jogo, que não são apenas nem sobretudo os valores pecuniários, não são domináveis pelo senhor Draghi e companhia; que a Europa é um puzzle cultural de peças de difícil ajustamento; que os franceses são tanto ou mais nacionalistas que os outros povos europeus e mais do que nenhuns outros olham com desconfiança sistémica para a eventual preponderância política alemã numa Europa mais politicamente integrada. Integração política sem a qual, por mínima que seja, a União Europeia continuará a fazer que anda mas não anda.

A Banca é o problema da Europa? É um problema urgente à espera da solução do problema mais decisivo. Poderá a urgência do primeiro provocar a solução urgente do segundo? Se isso acontecer será péssima a solução encontrada.

Saturday, June 01, 2013

O JOGO DO FAZ-DE-CONTA

Anteontem,

a Comissão Europeia recomendou o prolongamento do prazo para o correcção do défice português, para 2015. Para isso serão no entanto necessárias duas condições: que circunstâncias económicas imprevistas tenham um impacto significativo nas finanças públicas e que Portugal tenha entretanto tomado medidas consideradas eficazes para combater o défice. Estas propostas da Comissão Europeia têm agora de ser aprovadas pelo Ecofin".
...
Segundo o mesmo documento, a Comissão lembra que "as autoridades portuguesas  devem realizar os objetivos de défice orçamental global de 5,5% do PIB em 2013, de 4,0% do PIB em 2014 e de 2,5% do PIB em 2015,  o que é coerente com uma redução do saldo estrutural de 0,6% do PIB em 2013,  1,4% do PIB em 2014 e 0,5% do PIB em 2015, com base na atualização de maio  de 2013 dos serviços da Comissão das perspetivas económicas de Portugal".

"Portugal não está sozinho na decisão tomada hoje em Bruxelas, já que  "a Comissão adotou recomendações dirigidas ao Conselho com vista a prorrogar  os prazos para a correção das situações de défice excessivo em seis países:  Espanha, França, Países Baixos, Polónia, e Eslovénia" e ainda Portugal."

"As recomendações serão aprovadas pelo Conselho Europeu de junho e formalmente  adotadas na cimeira de líderes europeus que decorrerá em julho."
 
Hoje,
 
"Portugal regressa o clube da bancarrota. A probabilidade de incumprimento da dívida soberana portuguesa num horizonte de cinco anos subiu de 23,56% para 24,79% entre 24 e 31 de maio, uma subida de mais de um ponto percentual em uma semana, segundo dados da CMA S&P Capital IQ."
 
Até quando é que pode sustentar-se este jogo de faz-de-conta-que-não-sabem que Portugal não tem nenhuma hipótese de cumprir os objectivos que lhe impuseram, e que têm vindo a ser revistos sem que seja a removida a impossibilidade congénita?  
 
Repito-me: ou há redução do custo da dívida para níveis suportáveis pela situação cada vez mais debilitada da economia portuguesa, por redução adequada dos juros, uma adequação que terá de ser tanto mais drástica quando o prazo em que se mantiver o jogo do faz-de-conta, ou Portugal não se libertará da ameaça da espada da bancarrota.
 
Quem é que pode demonstrar o contrário? 
 
Ajuda Portugal o facto de a situação económica estar ainda a evoluir no sentido recessivo e, deste modo, a caírem na rede do endividamento excessivo mais parceiros? Não parece. As situações dos que compõem o lote são tão díspares que não há outra garantia que a companhia possa assegurar senão a pressão para a mudança do rumo da União Europeia no sentido de uma federação política mínima, a união bancária, a supervisão e a garantia global dos depósitos, toda uma panóplia de instrumentos de que eles falam mas não os adoptam. Esperar por essa evolução em tempo oportuno é esperar por Godot.
 
O ministro das Finanças, este ou outro que venha, tem que mostrar aos troicos o óbvio: que os impossíveis são isso mesmo. Ou não?

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Correl . - Miguel Cadilhe propõe a renegociação honrada da dívida.

Sunday, April 21, 2013

POR QUE DEVEMOS SAIR DO EURO

É o título do mais recente livro de João Ferreira do Amaral.
Acrescenta alguma coisa ao que há muito tempo JFA vem dizendo sobre o assunto? Não vem.
E, no entanto, o livro merece uma leitura. São cerca de cento e vinte páginas que entroncam numa dúzia de linhas, a pgs 71:
 
"Uma moeda única só poderá funcionar num espaço em que as vicissitudes individuais das componentes desse espaço tenham muito menos importância para os cidadãos do que para o todo. Ora, isso não se verifica quando as componentes do espaço são países que têm a sua identidade própria, organizados em estados com muitos séculos de História e quando todo o espaço comunitário é uma organização meramente artificial, quase sem identidade. Numa situação destas, os interesses das entidades-estados não podem ser preteridos faces aos intereses do todo, porque os cidadãos nacionais não aceitam a subalternidade do seu estado em relação aos interesses restantes - logo, nunca o espaço europeu pode constituir uma área monetária óptima".
 
Dito isto, o que está em causa não é a zona euro, os benefícios e os malefícios do euro, as vantagens e as desvantagens de sair do euro, mas a própria União Europeia, afinal de contas a própria Europa.
Se, como afirma Amaral, a História da Europa a impede de ir além de uma organização meramente artificial, a desconstrução europeia é uma questão de tempo. E se assim é, teremos alguma vantagem em sair da sala antes do espectáculo acabar? JFA antecipa o fim da UE mas não equaciona a vantagem da saída de Portugal em sair antes que esse fim aconteça.
 
A proposta de JFA de saída do euro, e, eventualmente da UE, sustenta-se fundamentalmente, no handicap da falta de moeda própria que inibe as economias mais frágeis, entre as quais a portuguesa, de se adaptarem às circunstâncias externas envolventes. Os argumentos são sobejamente conhecidos mas em grande medida também bastante controversos. Altamente controversas são também as vias que JFA sugere para a saída de Portugal do euro. Já é muito menos controversa a previsão de um fim conturbado para a União Europeia se não houver mudança radical da rota actual, dando razão ao diagnóstico de impotência que JFA refere a pgs 71 do seu livro.

Sunday, January 27, 2013

EUROPA OU O CAOS

Um grupo de filósofos, escritores e jornalistas alerta para os riscos de desaparecimento da Europa sonhada a seguir à Segunda Guerra Mundial, que lançam uma clara advertência: união política ou morte. Lê-se no El País de ontem, um dos quatro diários que publicou o manifesto subscrito por António Lobo Antunes (português), Bernard-Henry Lévy (francês), Vassilis Alexakis (grego), Juan Luís Cebrián (espanhol), Fernando Saveter (espanhol) Umberto Eco (italiano), Claudio Magris (italiano) Salman Rushdie (indiano), Hans Christoph Bush (alemão), Peter Schneider (alemão), Julia Christeva (búlgara-francesa), e Gÿorgy Konrád (húngaro).
 
Note-se a preponderância dos naturais do sul.
 
Terá este manifesto alguma influência decisiva sobre a rota errática por onde anda a União Europeia?
Provavelmente, não. Por maior que seja o acerto do seu diagnóstico e a pertinência da sua proposta,os
destinos da Europa dependem sobretudo da força das circunstâncias que em cada momento condicionam as decisões dos líderes europeus, mais envolvidos em desconfianças recíprocas que apostados na prossecução de um objectivo comum democraticamente sufragado. Apesar da recente celebração do 50º aniversário da reconcialiação franco-alemã, os franceses persistem em olhar para as propostas alemãs de avanço para uma união política com todas as reservas. Preferem uma posição subalterna num directório de facto, antidemocrático, à ousadia de uma união política que pode ser, democraticamente, dominada pelos alemães. Entretanto, o Reino Unido continua a encaminhar-se para a saída pela direita baixa, ainda que Merkel tenha ouvido de David Cameron que a Grã Bretanha quer continuar a fazer parte da União Europeia.
 
Entre a alternativa duma federação mínima e uma dissolução da União Europeia, a maioria dos europeus ainda continuará a preferir a primeira, mas nem o directório avança nesse sentido nem os outros membros reclamam a clarificação necessária. Acomodados na inércia de evitar posições fracturantes, persistem na intenção primordial de que  o caminho continue a ser feito a caminhar.
O que continuaria a ser a melhor opção, sobretudo porque a comitiva se caracteriza por grande heterogeneidade, se não tivesse chegado a uma encruzilhada onde, mais tarde ou mais cedo, é incontornável tomar uma opção sobre a direcção do caminho a pisar.  
 
Repito-me: é nessa encruzilhada dramática que a União Europeia se encontra, e da qual só pode sair avançando para uma união política mínima, porque a heterogeneidade do grupo não suportará uma integração superior, ou está condenada a dissolver-se com todas as consequências incalculáveis que essa dissolução envolverá, a menos provável das quais não é outro conflito bélico entre europeus.

Sunday, December 30, 2012

A EUROPA E OS VALORES MORAIS

A sua relexão remete-me para uma opinião da historiadora F. Bonifácio, anteontem, num programa da Sic notícias. Afirmou a historiadora que uma federação europeia é uma ideia impossível porque os europeus são radicalmente diferentes uns dos outros e, por essa razão, combateram-se ao longo dos séculos. A excepção são estes últimos sessenta anos, depois da Segunda Guerra Mundial. Que, talvez não por acaso, coincidem com criação e construção da União Europeia.

Acrescentou FB que, confessando-se liberal, nunca aceitaria um padrão de comportamento ditado pelos europeus do norte. E, a título de exemplo do que afirmava, disse que nunca deixaria de usar o seu automóvel para passar a usar os transportes colectivos ... ou a bicicleta, penso eu.

Tal afirmação é susceptível de múltiplas apreciações de índole moral. Refiro-me apenas a duas: a primeira, não sendo, em princípio, o comportamento da historiadora susceptível de esbarrar com os meus valores morais, pode a senhora andar de automóvel à vontade que nem eu, e presumo que ninguém, do norte ao sul se oporá, nem isso pode colocar em risco a convivência numa sociedade mais ou menos complexa. O que pode colocar em risco a convivência numa sociedade, qualquer que ela seja, a começar pela família, é a não comunhão de valores morais que dão coesão às sociedades.

O prevalecente hedonismo católico no sul não impedirá uma maior integração política com o norte maioritariamente calvinista, o que poderá opor-se a uma união perdurável entre o norte e o sul é a ausência de comunhão de valores morais que cimentem essa união. Honrar os compromissos, proceder com honestidade de processos, respeitar  os outros, que é apanágio do norte da Europa, é desvalorizado a sul. Honra, honestidade, cumprimento, são palavras que tendem a desaparecer das línguas meridionais. Mas  esses, sim, são valores morais que, ou toda a sociedade comunga ou não há sociedade possível.

Em Portugal, por uma questão de ilusão sociológica decorrente de uma exposição prolongada à banalização da mentira e da falta de vergonha confundem-se frequentemente os diferentes níveis de valores morais.

E enquanto essa confusão persistir a convivência entre norte e sul será realmente um ideia peregrina.

Friday, September 07, 2012

OS EUROPEUS NÃO EXISTEM

Passou cá, de regresso a casa e à Universidade onde é investigador. Cientista de mérito largamente reconhecido, na casa dos quarenta.

- Como vão as coisas por lá?
- Podiam ir melhor, esperemos que melhorem.
- E quando é que saímos do euro? Os gregos estão prestes a sair, não?
- Não creio. Seria um desastre para eles, e para nós.
- Mas porquê? Desastre é não disporem de moeda própria que lhes permita decidir a política cambial que mais lhe convenha. Fui sempre contra a entrada de Portugal no euro, aliás penso que não deveríamos sequer ter entrado na União Europeia. A União Europeia é uma ficção, os europeus não existem. 
- Albanizávamos-nos, então?
- De modo algum. Portugal é um país rico. Eu nasci em Angola, agora estou aqui, estou a fazer uma boa carreira, tenho família em quase todos os continentes. Veja o que aconteceu em 75. Chegou aquela gente toda e Portugal ganhou outro dinamismo. Hoje há quase cem mil portugueses em Angola. Há mais de duzentos milhões de pessoas que falam português. É com eles que Portugal tem de contar.
- Não penso que possamos deixar de nos integrar na Europa. Aliás, sou favorável a uma federação europeia. E a culpa da situação em que estamos não é do euro, não é da União Europeia. As desvalorizações competitivas nunca originaram um crescimento económico e social sustentado. Veja o caso do Brasil. Só saiu do subdesenvolvimento larvar quando abandonou a política da desvalorização crónica do cruzeiro. 
- Mas são os países que ficaram fora do euro que estão em melhor situação agora: veja o caso do Reino Unido, da Suécia, da Dinamarca, ...
- São em maior número os que estão em boa situação dentro da zona euro. O Reino Unido não está assim tão bem, e as coroas sueca e dinamarquesa flutuam à volta do euro. A Hungria não está no euro e está com problemas sérios, os checos não estão, e estão equilibrados. No nosso caso, a origem do desastre não está no euro mas no endividamento importado (e algum reexportado para a Grécia) pelos bancos que atingiu níveis que nunca deveria ter sido consentido terem sido atingidos. E os bancos sabiam disso, o Banco de Portugal sabia disso, os governos sabiam disso mas convinha-lhes o crédito para comprar os votos com as obras com que enchiam o olho dos eleitores. São eles, os bancos, e muito especialmente o Banco de Portugal, e os governantes, os culpados.
- A União Europeia pagou para se arrancaremas vinhas, para se destruir a frota de pesca e a marinha mercante.
- Não é verdade. Portugal recebeu da UE muitos fundos estruturais. Se houve uma má utilização desses fundos devemos culpar aqueles que em Portugal consentiram os desmandos e as falcatruas na sua utilização. Eu herdei umas vinhas que não tinham dimensão económica competitiva. Abandonei-as sem esperar quaisquer fundos europeus, que, aliás, nem solicitei sequer. Foram abatidos muitos barcos de pesca sem dimensão competitiva. O que fizeram com o dinheiro que a a UE pagou? Investiram em barcos bem apetrechados? Houve apoios a culturas específicas, de girassol, por exemplo. Os institutos responsáveis pelas atribuições dos fundos e controlo das produções viram o que toda a gente viu: Lançadas as sementes à terra, ninguém mais se importava com a seara que morria ressequida. De quem foi a culpa? da UE ou dos serviços incompetentes do ministério da agricultura?
- Mas acha de os de leste ou os do norte da Europa nos ligam alguma, que querem saber de nós. Não. Deveríamos sair do Euro, sair da União Europeia,  e contar com nós mesmos.
- E as dívidas?
- Acabavam-se as dívidas. A Argentina falhou, e veio ao de cima. Os cubanos há muitos anos que contam apenas com eles e têm conseguido. Os portugueses têm de fazer o mesmo. O futuro dos portugueses está nos portugueses, onde quer que eles estejam.
- Discordo. Foi o isolamento, o acantonamento a que a geografia e a história nos remeteram, que nos marginalizou, nos dispensou dos conflitos, dos desafios, dos confrontos, e  nos amoleceu a garra. Não devemos agora esquecer por onde andámos, o nosso passado, a nossa vocação atlântica, mas não podemos deixar de nos integrar na Europa.
- Os portugueses não têm hoje direito a voto em matérias vitais. Segundo um relatório da ONU, recente, Portugal é uma democracia deficiente porque o voto dos portugueses pouco decide. A Grécia vai sair da Europa. E penso que os gregos ganharão com isso. Desde logo porque ficarão novamente senhores dos seus destinos. Hoje não têm capacidade de decidir por eles.
- Se a Grécia sair do euro ...
- e  da União Europeia ...
- Acaba a União Europeia. 
- E, depois? 
- Hum! Os gregos cairão nos braços de Putin?
- Ficam pior?
- Muito pior. E,  se isso suceder assistiremos ao desmantelamento da Europa, à recomposição do bloco russo. À guerra, muito provavelmente.
- Mas a guerra já começou.
- Em certa medida sim.

Mas ainda há tempo para evitar que se precepite num conflito bélico que destruiria mais uma vez a Europa. Foi essa a razão primordial que há cinquenta e quatro anos esteve na origem dos alicerces da União Europeia, um edifício ainda em vias de construção, à espera que pacificamente o terminem, e que não o abanem tanto os projectistas que acabem por o deitar ao chão. Porque, se houver desmoronamento, muitos europeus poderão ficar debaixo dos escombros.

Monday, August 27, 2012

A CULPA DAS CALÇAS

Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do FMI, co-autor de "This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly", professor em Harvard, afirmou numa entrevista à rádio BBC, na quinta -feira, citada aqui,  que a "Europa tem de decidir se quer romper com o euro", resumindo, deste modo tão simples de enunciar quanto complexo de atingir, o resultado da sua análise das diferentes posições que agora se confrontam na União Europeia e, mais prementemente, na zona euro.
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Segundo Rogoff,  muito poucos acreditam que a Grécia ainda estará no euro daqui a uma década, uma vez que a probabilidade de abandonar a moeda única é muito elevada, mas não é certo que o país abandone o euro se o financiamento for cortado porque a Grécia poderá dizer que “não pagamos, mas vamos ficar no euro”.  

Os responsáveis políticos devem decidir se querem seguir adiante ou romper com o projecto da moeda única, o que implica, por sua vez, decidir se querem ou não “seguir adiante e ser um país”.
A “grande tensão” nesta decisão localiza-se entre a Alemanha e França, já que os franceses acreditam que o euro pode existir sem “um centro forte”, enquanto os alemães discordam dessa visão, mas  “à maneira francesa não vai funcionar".

A Alemanha tomou uma posição coerente, dizendo que está disposta a pagar, desde que haja um sistema, e não transferências abertas sem “governação”.

Na edição de sábado, a Der Spiegel noticiava  (cit aqui) que  Angela Merkel quer que os líderes da União Europeia (UE) cheguem a acordo ainda este ano sobre um grupo de trabalho para um novo tratado que reforce a integração dos 27 países-membros, e que o assessor de Merkel para a política europeia, já comunicou a intenção da chanceler em conversações em Bruxelas. Merkel pretende que na cimeira da UE que se realiza em Dezembro se estabeleça uma data concreta para a convocatória do grupo de trabalho que irá redigir o novo tratado da UE. Merkel tem pressionado desde há algum tempo os seus parceiros europeus para completar o pacto fiscal acordado pelos países do Eurogrupo com uma união política.

Mas a iniciativa alemã não foi bem recebida por parte dos parceiros europeus, e num encontro do chamado 'grupo do futuro', uma reunião informal de trabalho de dez ministros dos Negócios Estrangeiros, a maioria opôs-se à proposta alemã. Países como a Irlanda querem evitar o risco de convocar um novo referendo, uma obrigação imposta em caso de um novo tratado, e outros países, como a Polónia, são contrários à iniciativa de Merkel por considerarem que são escassas as possibilidades de um compromisso entre os 27 países da UE.

Hoje (cit aqui), o ministro alemão das Finanças anunciou que Alemanha e França estão de acordo sobre a criação de um grupo de trabalho para preparar soluções para concretizar os avanços prometidos para a Zona Euro, que deverá caminhar para uma união bancária e no caminho de maior integração orçamental e monetária.

Obviamente, como afirmou Rogoff, "a Europa tem de decidir se quer romper com o euro", os europeus têm de decidir se "se querem ou não seguir adiante e ser um país”. Como referiu Rogoff, não pode assacar-se à Alemanha a culpa de não apresentar uma solução. No entanto, trata-se de uma solução exequível, na melhor das hipóteses, a médio prazo, enquanto no imediato a Alemanha e a França continuam a colocar dívida a taxas de juro negativas e, por exemplo, a Espanha continua a ver o seu prémio de risco situar-se acima dos 500 pontos (cit aqui).  
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É neste caldo de cultura do salve-se quem puder enquanto há tempo  que continua a afogar-se a Europa.

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Cor.- Depósitos em bancos espanhóis registam maior queda mensal desde 1997
- A ministra das Finanças da Áustria diz que é preciso pesar as consequências da saída de um país da zona euro.
- La banca espanõla sufre en julio una fuga récord de depósitos - Los depósitos del sector privado en los bancos españoles sumaron el pasado mes de julio un total de 1,508 billones de euros, lo que representa una caída mensual del 4,6%, equivalente a la retirada de 74.228 millones de euros, la mayor salida de depósitos privados de las entidades españolas desde septiembre de 1997, según los datos del Banco Central Europeo (BCE). De este modo, el importe de los depósitos del sector privado en bancos comerciales españoles registrado en julio representa el cuarto descenso mensual consecutivo del dato, que se sitúa en su nivel más bajo desde mayo de 2008, cuando los depósitos sumaban 1,507 billones.

Wednesday, August 22, 2012

SE CÁ NEVASSE

Nicholas Kaldor, nascido na Hungria, mas um dos mais proeminentes economistas de Cambridge do pós-guerra, citado aqui, daqui, considerava em 1971 que pensar que “a união económica e monetária pode preceder a união política” é um “erro perigoso”. Talvez Kaldor tenha acertado. E daí, poderemos concluir que seria possível construir uma união europeia começando pela edificação de uma união política? Os teóricos das ciências sociais são frequentemente propensos a enlearem-se nestas experiências irrealizadas de resultados irrebativelmente magníficos.

Que os problemas que abalam hoje a União Europeia, e, muito particularmente, a Zona Euro, só podem ter solução política, só não vê quem não quer ver. Mas olhar quarenta anos para trás, e tirar do armário uma afirmação, talvez acertada mas inconcretizada, só lembra a coleccionadores de barcarolas com rendimento de investigação social garantido.  

Porque a história política da Europa é uma narrativa de conflitos alargados quase permanentes, intercalados por raros e curtos períodos de paz, onde nos períodos mais sangrentos alguns tentaram colocar o continente inteiro sob a sua alçada. Falharam todos, sempre derrotados por um se qualquer.

Se a união económica tivesse sido precedida da união política europeia outro galo nos cantaria agora. Quem tem dúvidas? Mais: quem é que alguma vez as teve? Obviamente, a questão é outra: Como é que se poderia conseguir uma união política, unindo aquilo que séculos e séculos de história tinham mostrado não ser  unificável nem às leis da espada ou da bala? Batendo as palmas e convencendo com um discurso e peras os irredutíveis renitentes? Alguém, com um mínimo sentido político, acredita nisso?

A União Europeia ou se une por linhas já tortas ou não se une. Os europeus deparam-se hoje com um risco enorme: o de aceitarem pela força de circunstâncias o que noutras circunstâncias nunca aceitaram pela força das armas.

Dirão alguns: E por que não voltarem os europeus a desunidos como sempre?
Os fundadores dos alicerces da União quiseram com a obra evitar mais guerras em solo europeu.
Um erro perigoso, o deles?
A única resposta válida só poderá ser dada agora pelos europeus em referendo à volta de um projecto de constituição federativo mínimo.

Tuesday, July 24, 2012

A ZONA EURO E O DILEMA DO PRISIONEIRO


David Woo e Anastasios Vamvakidis, estrategas do Bank of America, aplicaram  o Dilema do Prisioneiro à perspectivação do futuro da Zona Euro*.

John Nash, Nobel da Economia em 1994, é conhecido sobretudo pelo "Nash equilibrium" no campo da Teoria dos Jogos. Inspirado na sua vida, Russell Crowe filmou "A Beautiful Mind". O intrincado "Nash equilibrium" é geralmente explicado através do "Dilema do Prisioneiro": Dois indivíduos são presos acusados de um crime grave, de que se desconhece o autor. O investigador da polícia coloca-os em dois quartos separados e oferece a cada um deles as seguintes alternativas: se um testemunhar contra o outro, o denunciante é libertado e o outro apanha cinco anos de prisão; se ambos se calam, cada qual é preso durante um ano; se ambos confessarem, ficarão cada um deles três anos na cadeia.

O "Nash equilibrium" consiste na dedução de que, num conjunto de estratégias possíveis, nenhum jogador ganha alguma coisa alterando a sua estratégia unilateralmente. No exemplo dos prisioneiros, a melhor estratégia é, obviamente, aquela em que ambos não falam. Substituindo os prisioneiros pela Alemanha e Grécia, as opções serão "eurobonds" ou "no eurobonds" e, seguidamente, "austeridade" e "não austeridade".  Se Alemanha e Grécia não cooperarem em equilíbrio, a Grécia não aceita mais austeridade, a Alemanha não permite os "eurobonds". Sendo uma imagem simplificada de uma realidade muito complexa, reflecte a essência do problema: nenhuma das partes pode, unilateralmente, decidir qual a solução mais vantajosa para o conjunto. A união fiscal seria, neste caso, a melhor opção.
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Os investigadores do Bank of America calcularam os custos e benefícios de uma saída voluntária da zona euro para os países mais fortes e os mais fragilizados. Depois estimaram as hipóteses de saída organizada e o impacto no crescimento, taxas de juro dos empréstimos e o défice das contas públicas após a saída.

As conclusões são inesperadas: A Itália e a Irlanda têm mais vantagens em sair que a Grécia; A Itália apresenta boas possibilidade de sair organizadamente, e aumentará a sua competitividade, de crescimento e redução do défice. Por outro lado, a Alemanha, sendo aquela que te maiores possibilidades de sair organizadamente é aquela que tem menores vantagens em sair porque verá o crescimento cair, os custos dos empréstimos subirem, e o défice agravar-se.

Partindo destes resultados, Woo e Wamvakidis prevêem que o jogo europeu se desenrolará em três períodos: primeiro, a Itália decide se sai ou fica. Se decidir não pagar, a Alemanha paga para a Itália ficar, e a Itália perguntar-se-á novamente: "Devo sair ou ficar?". O "Nash Equilibrium" vai no sentido de Itália sair no primeiro período, comprometendo o futuro da zona euro.
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* cit. em Euromonitor 
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Correl. - Cataluña acudirá al fondo de rescate La Generalitat es el tercer Gobierno autónomo que decide acogerse al Fondo de Liquidez La deuda catalana asciende a 42.000 millones de euros, la más alta de España (El País)

El consejero catalán de Economía, Andreu Mas-Colell, en el Parlament.

Wednesday, June 27, 2012

VÉSPERAS EUROPEIAS

A generalidade dos analistas e colunistas geralmente mais citados mostra cepticismo quanto aos resultados da cimeira europeia que tem início amanhã e se prolonga no dia seguinte. Martin Wolf e Wolfgang Münchau, do FT, entre outros, têm-se desdobrado em múltiplas análises e propostas para a solução da crise, algumas das quais vêm sendo agarradas por alguns líderes europeus sem, contudo, terem conseguido o consenso suficiente para serem adoptadas.

Na edição de hoje do FT, MW afirma logo a abrir o seu artigo - Look Beyond summits for euro salvation -, "Mais uma vez, a UE reune-se para resolver a crise da zona euro. Mais uma vez, é provável que a UE fique longe de uma solução convincente". Por seu lado, o Economist considera o documento de Van Rompuy, divulgado ontem, a que me referi aqui, "uma proposta delicada, e conclui que é muito provável que a cimeira europeia desta semana seja decepcionante, concorrendo para mais uma ronda de pânico nos mercados."
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 US and Eurozone fiscal performance. Eurozone debt
Estes quadros, publicados no artigo de MF que comecei por referir, são bastante elucidativos que não é, antes pelo contrário, o maior endividamento global da UE que coloca o seu sistema financeiro em posição mais fragilizada que o dos EUA. O que é significativamente diferente é a união política norte-americana que garante a união monetária, que não existe na UE, que Angela Merkel diz querer prosseguir, só não diz quando. 

Obviamente, já toda a gente percebeu que não é Angela Merkel que decididamente impede o avanço para uma maior coesão europeia mas os eleitores alemães. Mas, por outro lado, não é adquirido que esse avanço para uma maior integração política seja aplaudido pelos eleitores dos restantes membros da UE de forma maioritária. O referendo para a Constituição Europeia chumbou em França e na Holanda, o Tratado de Lisboa contornou as dificuldades de um consenso unânime mas encravou o processo de integração e, ainda assim, a Irlanda reclamou excepções.

Esse processo está agora a ser prementemente empurrado pelas piores razões: pela crise que se alastra e ameça desmoronar a UE. Sendo uma crise económica e financeira as sucessivas tentativas para a ultrapassar têm sido, até agora, unicamente da mesma natureza. Daí os repetidos fracassos.

A solução ou também é política ou não há solução. E muito menos com um superministro das finanças às ordens de Berlim.

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Act.
Angela Merkel irá a la cumbre europea de Bruselas preparada para pelear por el aumento de los controles fiscales y, según ha insistido este miércoles, contra la colectivización de las deudas de los socios de la Unión. En una declaración gubernamental ante el pleno de la Cámara baja parlamentaria (Bundestag), la canciller federal criticó las recientes propuestas de los líderes de la UE para salir de la crisis asegurando que adolecen de “un claro desequilibrio entre responsabilidad y control”. Merkel ha dicho compartir “la noción de que la unión monetaria necesita cuatro elementos para ser estable: la colaboración integrada de los institutos financieros relevantes; una política fiscal integrada; un marco para armonizar las políticas económicas y de competitividad; la legitimación democrática de esa colaboración reforzada de los Estados de la eurozona”. (El País)

Wednesday, June 20, 2012

A COR DO ÓDIO

Se o ódio tivesse cor, de que cor seria o ódio? Todas, mas a cada qual a sua.

Estivemos a rever Zorba, um retrato de Creta e das suas gentes em meados do século passado, filmado a partir da obra homónima de Nikos Kazantzákis, geralmente considerado o maior escritor e filósofo grego do séc. XX.

Há neste retrato filmado de forma excelente, que é uma ode ao hedonismo helénico, uma cena que brutalmente nos desvia para o pólo oposto, aquele em que a condição humana, subordinada, cultural ou circunstancialmente, à irracionalidade do animal que somos, é capaz de praticar os actos mais abomináveis: a da tentativa de lapidação da viúva seguida do seu assassínio por apunhalamento aplaudido por todos os residentes da aldeia, à excepção do deficiente mental. O contraste entre a dificiência mental, que chora sobre o cadáver da viúva caído no chão, e a irracionalidade extrema de uma sociedade humanamente subdesenvolvida, é inesquecível.

Passaram-se sessenta, setenta anos, quanto muito, mas a humanidade não está hoje menos potencialmente embrutecida que antes, apesar do desenvolvimento económico e social observado, em geral, em todos os cantos do planeta. Há sinais de erupções constantes desse vulcão de ódio semi adormecido que está no lastro de todas as civilizações, mesmo daquelas que se têm por mais desenvolvidas. Se a pressão das circunstâncias é suficiente para detonar a explosão, a corrente de lava de ódio cuspida não se desvia do caminho em que melhor avança.
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Na segunda volta das eleições na Grécia, os partidos dos extremos (nazis de um lado, extrema esquerda do outro) conseguiram 41% dos votos. Nos locais de voto destinados aos agentes da polícia venceu o Aurora, o partido da extrema-direita.

Aristides Hatzis, professor de economia e leis na Universidade de Atenas, descreve no seu blog, aqui, num artigo também publicado no Financial Times de ontem, o clima de terror e ódio que hoje campeia na capital grega, sobretudo contra imigrantes.

Se os líderes europeus não forem capazes de perceber que este tenebroso vulcão entrou em actividade debaixo dos nossos pés, e que não se extingue com mais 750 mil milhões de euros para resgate da Espanha e da Itália, "Paracetamol" segundo Olli Rehn através do seu porta voz, mas por decisões políticas, de elevado risco, tenhamos consciência disso, a corrente cega e brutal de lava de ódio destruirá outra vez a Europa.

Friday, June 15, 2012

QUE UNIÃO POLÍTICA, FRAU MERKEL?

Merkel tem vindo a repetir nas últimas semanas a sua proposta de união política da Europa, como se refere neste  resumo da sua intervenção de ontem no Bundestag.

Com Sarkozy, propõs um governo económico. Nunca lhe conhecemos os contornos. Agora, com Hollande na presidência francesa, e a união à beira de estilhaçar-se, parece sondar a sensibilidade alemã e a dos outros europeus a uma ideia que tanto pode ser ambiciosa, talvez até ambiciosa demais se a tomarmos nos seus precisos termos, como não passar de um balão de ensaio. 

Porque, ao mesmo tempo que propõe essa ideia vaga de uma união política, Merkel finca-pé na prioridade à austeridade imposta aos países económica e financeiramente fragilizados, o objectivo de unir politicamente os europeus sem enunciar como nem quando presta-se às mais variadas leituras possíveis.

O que parece estranho, contudo, é que uma ideia destas não mereça uma discussão generalizada e uma pergunta óbvia que ainda não foi feita: Que união política, Angela Merkel? Em vez dessa pergunta óbvia, ouve-se uma conversa de surdos. Merkel apoia a proposta de supervisão dos bancos pelo BCE mas rejeita a globalização das garantias dos depósitos.

Ora sem globalização das garantias bancárias pode ser evitada a corrida generalizada com massivas injecções de liquidez no sistema (previstas se os resultados das eleições gregas do próximo domingo derem a vitória ao Syriza e Tsipras fizer o que prometeu: renunciar unilateralmente os compromissos assumidos como contrapartida da ajuda externa) mas não se evita a continuação da drenagem de depósitos para bancos mais seguros, alemães, sobretudo. Nem se inverte essa situação insustentável que permite à Alemanha financiar-se a taxas de juro negativas enquanto os países fragilizados persistentemente ameaçados também em consequência dessa drenagem os pagam com língua de palmo.

Se Alexis Tsipras promete aos gregos o melhor dos mundos (manter-se no euro e renunciar a dívida externa) todos os outros, por razões diversas ouvem Merkel e assobiam para  o ar, e ninguém pergunta a  Merkel  em que união política, e para quando, está ela a pensar.   

UNIÃO POLÍTICA, DEFENDE MERKEL


Na expectativa dos resultados do próximo domingo na Grécia e diante do alarme da situação em Espanha, Merkel foi ontem ao Bundestag afirmar que*:
- A Alemanha não é uma fortaleza sem fim nem a sua capacidade ilimitada para salvar sozinha a Europa;
- A crise não se soluciona com mais milhares e milhares de milhões, e todas as medidas adopatadas até agora e os fundos de resgate já utilizados se dissolveriam se a locomotiva económica da Europa explodisse;
- Houve decisões irresponsáveis durante estes dez últimos anos, que provocaram a actual situação, como aquelas que permitiram a enorme bolha imobiliária em Espanha. 
- O  pedido de ajuda de Espanha para resgatar a sua economia pressupõe condições para o seu sistema financeiro. (As obrigações da dívida soberana espenhola a 10 anos subiram a níveis nunca antes atingidos depois da introdução do euro);
- As recentes provas de resistência ao sector financeiro pela Autoridade Bancária Europeia não serviram para nada porque os supervisores nacionais tiveram influência excessiva nos resultados. Um exemplo disso é o facto de não ter sido revelado o nível de imparidades dos bancos espanhóis que agora se avalia em cem mil milhões de euros;
- Tudo isto prova que devemos avançar para a união política da Europa para que haja comunhão das responsabilidades e um controle comum; 
- É favorável à atribuição ao BCE  de competências para controlar os sectores bancários da zona euro, de modo a evitar que os interesses nacionais não perturbem a visão das situações.
- Assegurou que a Alemanha colocará todos os seus esforços ao serviço da integração europeia e da economia mundial.
- Atacou aqueles (David Cameron) propõem soluções instantâneas para a crise;
- Repetiu a sua oposição à emissão de dívida europeia conjunta e a criação de um fundo comum de garantias bancárias para toda a zona euro;   
- Insistiu na consolidação orçamental como arma contra os problemas actuais da União Europeia e do euro;
- Congratulou-se com a boa situação da economia alemã mas voltou a referir as limitações objectivas para escorar as economias mais afectadas pela crise;
- Colocou em causa a constitucionalidade de algumas propostas de solução freitas por outros membros da UE. A Europa deve obedecer às suas próprias regras;
- A Europa é o nosso destino e o nosso futuro. Se o euro fracassar, fracassará a Europa;
- O Pacto Fiscal é importante como primeiro passo para a harmonização europeia;

Segundo um estudo recente do Crédit Suisse, a Alemanha arriscará mais de 400 mil milhões de euros nos diversos fundos de estabilidade europeus, dos quais mais de 100 mil milhões já estão comprometidos.
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O líder da oposição, o social democrata Frank-Walter Syeinmeier (SPD), por seu lado, advertiu os alemães que a crise já chegou ao seu país, e acusou Merkel de passividade perante os problemas europeus e não prestar atenção ao segundo pilar da recuperação que é o crescimento e a luta contra o desemprego, esclarecendo, no entanto, que nada têm contra a consolidação orçamental.      
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* Resumo de artigo publicado ontem no El País.

Tuesday, June 12, 2012

A ROLETA EUROPEIA

"Almunia dice que España cobrará un 8,5% a la banca por la ayuda" (El País)


Em que situação se encontra um banco quando aceita pagar juros de 8,5%?, perguntará mesmo quem não seja desconfiado.

Quando se esperava que os mercados financeiros, os investidores (os especuladores, para quem preferir) acalmassem, os juros baixassem, e a Espanha saísse da zona vermelha, o prémio de risco, medido em pontos base acima dos juros pagos pela Alemanha, atingiu hoje valores máximos no mercado secundário. 

O fenómeno inesperado só pode ter uma razão óbvia : os investidores perderam a confiança na capacidade dos políticos europeus evitarem que a crise se agudize. Pode Rajoy arrotar as basófias que entender, mas basta uma palavra pronunciada dos lados do Bundesbank para destroçar a euforia  do chefe do governo espanhol perante o golo de Espanha à Itália, depois de ter considerado o problema financeiro espanhol um caso arrumado com a linha de crédito que ele, Rajoy conseguira no sábado, mas incumbira Guindos anunciar.

O Bundesbank reprova a ideia de união bancária, que alguns, entre eles Durão Barroso, já tinham agarrado com ambas as mãos, argumentando que essa união desactivaria a disciplina dos governos pelo cumprimento dos programas de ajustamento. Resultado: volta tudo à estaca zero em vésperas de andar a roleta grega. Os indícios de prosseguimento de uma maior integração política, condição sine qua non da sobrevivência da zona euro e, por tabela, da União Europeia, dados a semana passada em Berlim, esbarram esta semana em Frankfurt. 

E os investidores reagem racionalmente: A banca espanhola (como a banca portuguesa), como algumas outras bancas por aí fora, fica encostada ao estado, que não tem músculo para se aguentar com o encosto. A crise das dívidas soberanas disparou por aí e por aí se manterá enquanto não houver encosto global.

E se não houver? Não sei.
Duvido mesmo que o  Bundeskank já tenha avaliado os estragos globais que poderão resultar dos disparos desta perversa roleta municiada em vários e cruzados sentidos.

Thursday, June 07, 2012

PARA INGLÊS OUVIR


Merkel insiste numa Europa a várias velocidades, é o titulo de um artigo do FT de hoje, a propósito da ida do PM britânico a  Berlim.

Antecipando uma resposta a Cameron, que insiste na adopção de medidas de curto prazo para combater a crise, a chanceler alemã afirmou ontem que "as nações membros de uma união monetária têm de avançar em conjunto" reforçando, deste modo, a tendência para uma "Europa a várias velocidades" iniciada com a introdução da moeda única.

Acrescentou Merkel: "Nós não podemos parar este (processo de integração) apenas por que um ou outro membro não quer juntar-se a ele", para realçar a contradição, do ponto de vista de Berlim, entre a recusa do Reino Unido assinar as regras de controlo orçamental da UE e as pretensões de Cameron para solucionar a crise, uma posição que irritou muita gente na capital alemã, segundo o jornalista do FT.  

Com a Espanha a esforçar-se por recapitalizar os seus bancos e as dúvidas das reformas gregas, Cameron fez saber ontem que iria pressionar Merkel a retirar a zona euro da beira do desastre adoptando medidas de emergência, incluindo a emissão conjunta de eurobonds, que os alemães repetidamente têm considerado desnecessárias porque adiariam a integração fiscal. O ministro das finanças britânico, por outro lado, tinha no dia anterior afirmado que os bancos espanhóis deveriam ter acesso directo ao fundo de resgate da zona euro. De momento, a recapitalização dos bancos com fundos de resgate passa obrigatoriamente pelos estados.
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Em resposta à pressão de Obama em idêntico sentido, Merkel apareceu pela primeira vez na televisão depois de uma ausência de algumas semanas para reafirmar o seu compromisso de convencer os outros membros da zona euro de ceder alguns poderes orçamentais a Bruxelas. "Necessitamos de mais Europa. Nós não necessitamos apenas de uma  união monetária, necessitamos também de uma união fiscal ... e, sobretudo, precisamos de uma união política, que significa que gradualmente se transfiram poderes para a Europa e dar à Europa poder de control"
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O governo alemão acredita que somente um mapa definindo claramente um caminho para uma integração da zona euro poderá definitivamente restabelecer a confiança dos investidores. Para isso espera que Rompuy, presidente do Conselho Europeu, apresente sugestões para a união bancária na próxima cimeira no fim deste mês de Junho e outras propostas em Dezembro. 

As reacções a estas propostas de Merkel começaram já, e a Holanda, geralmente um incondicional aliado da Alemanha, questionou Merkel  pela sua proposta integração de uns membros mais rapidamente que outros. No próximo Outono há eleições na Holanda, e os partidos dos extremos, à direita e à esquerda, rejeitam maior integração política na UE, colocando o governo na defensiva relativamente à transferência de poderes para Bruxelas.
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Merkel, entretanto, conseguiu que uma maioria formada pelo seu partido e os sociais democratas aprovassem no Parlamento o novo Mecanismo Europeu de Estabilidade e o pacto orçamental, assim como uma taxa sobre as operações financeiras (FTT) que  esperam venham a ser adoptadas por outros membros da zona euro.  Esta medida poderá abrir caminho para a ratificação do pacto fiscal e do ESM no fim de Junho.

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Em resumo: depois do lance de Draghi, que reclamou a  centralização da supervisão bancária e das garantias dos depósitos (vid aqui), Merkel faz o seu: diz a Cameron que o Reino Unido saiu, por sua vontade, do caminho comum, e, portanto, deixou há muito de ter voto na matéria, e é ela que lidera o projecto e define os passos a dar.

Quem a vai seguir, não sabemos, mas podemos prever com grande probabilidade de acertar que, desta vez, uma evolução significativa na Europa tem de acontecer.