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Friday, September 01, 2017

O CALCANHAR DE CENTENO 2


O Banco de Portugal divulgou hoje aqui a evolução recente da Dívida Pública até ao fim de Julho.
Voltou a aumentar, rondando agora os 250 mil milhões.
Líquida de depósitos, a DP era de 230,3 mil milhões, 
Nuno Carregueiro do JN online volta a expressar aqui, em gráficos muito elucidativos, a evolução desse crescimento, que parece imparável. Parece ou é?
Enquanto a taxa de crescimento económico nominal for inferior à taxa média de remuneração da dívida, e é essa a situação previsível até ao fim do ano, cifrando-se a diferença em mais de um ponto percentual, a dívida em relação ao PIB continuará a subir, salvo se o saldo primário fosse suficientemente positivo para pagar a factura dos juros e amortizar dívida. Mas não vai ser.

Mas o ministro M Centeno afirmou, cf. aqui, que a dívida pública irá baixar até ao fim do ano dos actuais 132 vírgula umas décimas para os 127,9% estimados pelo Governo. 
A evolução da DP relativamente ao PIB é a prova ácida da gestão das finanças públicas, sobretudo quando, como é o caso, os níveis atingidos tornam a sua contenção muito dependente de factores externos.
Para que a relação entre a Dívida Pública e o PIB seja reduzida em cerca de 4,5 pp até ao fim deste ano (de eleições autárquicas) forçoso se torna que o ministro tire da cartola um extraordinário par de coelhos. Aliás, nada que não tenha sido recurso recorrentemente usado pelos vários governos, umas vezes por indisciplina grossa na gestão das finanças públicas outras, sobretudo desde 2008, porque as colisões bancárias têm provocado, e continuam a provocar, grossos rombos nos cofres públicos.

" ... a pressionar em alta (o endividamento público em Julho) também esteve o "acréscimo de empréstimos no montante 0,1 mil milhões de euros, resultante do aumento de empréstimos junto de bancos residentes, com destaque para o acordo assinado entre o Estado e o Banco Santander Totta respeitante aos contratos de derivados com empresas públicas de transportes (2,3 mil milhões de euros)" - cf. aqui.


Como é que M Centeno vai descalçar esta bota?

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Correl . Hoje às 21,40 - Depois da Fitch, ontem foi a Moody’s a pôr a dívida em outlook positivo”. Agência só quer menos défice e dívida, e retoma ampla. - cf . aqui

Wednesday, August 09, 2017

O CUSTO DO ISCO

Há cerca de quinze anos, o BES remunerava os depósitos a prazo com taxas rondando os 5% quando a generalidade do sistema financeiro - o BPN foi excepção crónica - não ia além dos 2, pouco por cento. 

Era um sinal de alarme. (Muitos, entre os quais me encontro, desconfiaram da fartura e não filaram o engodo. Outros aproveitaram, "os bancos não vão à falência", e disseram-se lesados quando o isco lhes estourou na boca exigindo aos contribuintes o pagamento do preço do estoiro). 

Dez anos mais tarde, e depois de muito foguetório de resultados, o segundo maior banco privado português claudicou. O sr. Ricardo Salgado estampou-se, embalado pelas suas ambições pessoais e pelas exigências da família que é numerosa e mal habituada, fugiu em frente protegido por vários comparsas coniventes, atropelando as mais elementares regras do negócio. Foi, muito tardiamente, surpreendido pelo supervisor em flagrante delito, mas este, em vez de lhe bloquear imediatamente as golpadas ainda lhe permitiu à última hora alargar os rombos no casco apodrecido.
Depois a prodigiosa imaginação dos banqueiros, em modo delirante, inventou uma criatura espúria a que deram o nome de Fundo de Resolução com o qual supuseram ter parido um novo banco sem mácula do pecado original para ser vendido e, com o produto da venda ou parte dela, pagar aos contribuintes, financiadores do Fundo de Resolução. O ministro das finanças replicou, na altura, qual papagaio louro a balançar-se no poleiro, o que tinham dito os seus antecessores a propósito de incidentes semelhantes: os contribuintes não serão chamados a pagar os custos da resolução do BES. Mentiram.
Após várias tentativas, disseram que o Lone Star comprou  o Novo Banco por tuta-e-meia. Mas o novo proprietário ainda não tomou conta do negócio e as perdas, gordas, do NB continuam a escorrer por conta dos contribuintes, digam o que disserem os políticos envolvidos.

"A concretização da venda do NB ao Lone Star depende da troca de obrigações de 36 emissões, num valor global de 8300 milhões de euros por depósitos, uma operação feita a preços de mercado que nalguns casos representam perdas imediatas de 90%."


Agora sabe-se que,
"O Novo Banco já está a desafiar os clientes de retalho para a oferta de compra de obrigações. A possibilidade de fazerem um depósito que paga até 6,5% para minimizar perdas é um dos argumentos usados." - aqui
"Justiça: Uma espada pronta a cair sobre o Novo Banco.
Os processos colocados contra o Novo Banco e o BdP são por causa da resolução do BES ou a pedir indemnizações. O banco antecipa mais acções para combater a oferta de compra de dívida." - aqui
"Novo Banco conta com Lone Star para repor falta temporária de liquidez. O Novo Banco admite que a oferta de compra de dívida dite o "incumprimento temporário" das exigências de liquidez. Situação será reposta com reforço de capital da Lone Star." - aqui 
Todos quantos foram atraídos pelo isco do BES confiando-lhe as suas economias fizeram-no convictos de que, em caso de azar, seriam os lesados dos lesados a pagar a factura. Se não, quem?
Perguntem, em caso de dúvida, aos outros bancos.

Sunday, July 23, 2017

A DÍVIDA


(Clicar para aumentar a imagem)

Em Novembro de 2012, a Troica realizou o sexto exame regular às contas públicas de Portugal e estimou uma descida da dívida pública em percentagem do PIB para 117,5% no fim de 2016.  
Enganou-se demais.
No fim de 2016 a dívida pública portuguesa atingiu os 130,4% do PIB, depois de uma evolução quase sempre crescente, contrariando as projecções da Troica apesar das medidas de austeridade geralmente cumpridas e num ou noutro caso superadas.
Apesar da continuidade na redução do défice, que atingiu em 2016 valores mínimos recorde em democracia, no fim do primeiro trimestre de 2017, e de alguma animação do crescimento económico, a dívida continuou a subir: 130,5% segundo nota recente do Eurostat*.



(gráfico c/p de aqui)

Porquê?



A divergência entre as projecções da Troica em Novembro de 2012 e a realidade observada quatro anos depois (cerca de 13%) é equivalente ao peso das ajudas ao sistema de financeiro reflectido na dívida.
Em nota divulgada no princípio de Abril do ano corrente e citada aqui, o Banco de Portugal Portugal  informava que "as medidas de apoio ao sistema financeiro representam “aproximadamente 11,3% do PIB na dívida pública de 2016”, que era de 130,4% do PIB."
Naquelas contas do Banco de Portugal não estão, além do mais, ainda incluídos os 2,5 mil milhões engolidos pela segunda recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, realizada durante o primeiro trimestre de 2017  - a decisão da inclusão ou não daquele montante no défice só será conhecida em Setembro - nem as perdas efectivas resultantes da nacionalização do BES e da privatização do Novo Banco, processos que levarão vários anos a concluir considerando a litigância a eles associada.

Mas, reconheça-se, seria uma explicação muito redutora atribuir ao estilhaçar da banca a culpa maior da resiliência do crescimento da dívida pública. Mesmo a níveis dos 117,5% do PIB projectados pela Troica para 2016, a persistência do crescimento da dívida relativamente ao PIB seria menos evidente mas não deixaria de ser menos potencialmente perigosa. 


As taxas de juro, graças a Draghi, são baixas e em alguns empréstimos a curto prazo Portugal até tem conseguido ultimamente financiar-se a taxas negativas mas a taxa média continua a ser, considerando a dimensão da dívida, impeditiva da inflexão do crescimento desta. 

Quando os juros subirem, porque um dia destes os juros subirão (parafraseando um conhecido cirurgião, as taxas de juro baixas não auguram nada de bom), se a dívida não tiver sido, entretanto, suficientemente reduzida, o fantasma da intervenção externa continua ao virar da esquina. 

É, deveria ser, nestas condições, preocupante ouvir à esquerda radical reclamar ao Governo mais despesa pública*** - nem toda a despesa pública é má mas é péssima quando se torna incontrolável -  e à oposição barafustar contra as cativações com que o ministro das Finanças procura segurar as rédeas da dívida**. 


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* O Eurostat emitiu anteontem um newsrelease - vd. aqui - First quarter of 2017 compared with fourth quarter of 2016 Government debt up to 89.5% of GDP in euro area Up to 84.1% of GDP in EU28 -
onde a evolução da dívida pública portuguesa durante os primeiros três meses deste ano se destaca pela negativa no contexto dos 28 membros da União Europeia:

Entre o primeiro trimestre de 2016 e o primeiro trimestre de 2017 a dívida pública portuguesa subiu 1,6 pontos percentuais, de 128,9% para 130,5% do PIB.

Dos oito países membros da UE onde se observou crescimento da dívida pública no período em análise - Letónia, Polónia, Eslováquia, Portugal, França, Luxemburgo, Croácia e Reino Unido - Portugal tem a maior dívida pública em percentagem do PIB. Na Grécia e na Itália, com níveis de dívida pública relativa superiores, observou-se redução.
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** A prova de que nenhuma afeição partidária da minha parte suporta  as medidas de M Centeno pode ser confirmada no facto de ter considerado neste bloco de notas, na altura da sua nomeação, o ministro das Finanças um dos elos mais fracos do executivo que acabara de entrar em funções.

*** Não está sozinhos.
"I love debt" - Donald Trump

Monday, June 26, 2017

RATOEIRA NO SIMPLEX

Lê-se aqui:

"É lançado hoje o Simplex +2017. São 173 medidas para facilitar a gestão do Estado e a relação dos cidadãos com ele. Passará a haver impostos pagos com cartão de crédito, matrículas na hora online, harmonização das autarquias, registo de fornecedores do Estado e um centro de atendimento consular."

Ouvi, esta manhã,  a mesma notícia na Antena 1.

Outras notícias referem o pagamento do IMI em prestações, sem qualquer referência à utilização do cartão de crédito. 
Se a informação relativamente à utilização de cartão de crédito no pagamento de impostos se confirmar, o Governo coloca uma ratoeira no caminho de muitos contribuintes.

De quais contribuintes?

Pois daqueles que utilizam o cartão de crédito como forma de obtenção de empréstimos de curto prazo, e que, por essa razão o mais provável é que não paguem a totalidade em débito no fim do mês, sobrecarregando-se com juros que, p.e., neste caso, atingem 16,7%! e nos outros não deverão andar muito afastados deste. 
Quem entra no caminho da aceitação do pagamento de juros desta ordem de grandeza é porque, muito provavelmente, está a caminho da insolvência.

Que os bancos e para bancos estendam estas ratoeiras a consumidores incautos, percebe-se ainda que seja condenável e, não raramente, o crédito mal parado seja depois pago pelos contribuintes. 

Que o Governo faça exactamente o contrário do que deveria fazer - instalar meios legais de precaução do endividamento excessivo - é incompreensível.

Será compreensível, se admitirmos que alguém, além dos emissores de cartões, vai ganhar com o crescimento inusitado do negócio ...

Thursday, February 23, 2017

DÉFICE MAIS BAIXO, DÍVIDA MAIS ALTA, EM DEMOCRACIA


c/p Jornal de Negócios

(clicar no gráfico para o ver completo)

O anúncio, à espera de confirmação pelo Eurostat, que, à última hora, geralmente acaba sempre por desacertar-nos as contas, de que o défice do ano passado teria ficado em 2,1%, não mereceu reparo da oposição à direita, que prefere continuar a assobiar para o ar o tiroliroliro dos sms trocados com o sr. Domingues. enquanto, não surpreendentemente, o BE critica o governo por não ter gasto tanto quanto poderia ter gasto se não tivesse exagerado nos cortes para situar o défice abaixo das exigências de Bruxelas. 

Por outro lado, o assunto do recorde do défice mais baixo em democracia, foi contestado - cf. aqui, p.e, - com o argumento de que esse recorde ainda estaria no valor atingido em 1989, era ministro das Finanças o sr. Miguel Cadilhe. O gráfico publicado no JNegócios atribui o recorde a Mário Centeno. Por uma ou duas décimas, ainda sujeitas a confirmação do árbitro. 

De qualquer modo, esta é mais uma das recorrentes guerras do alecrim e da manjerona, porque nem as circunstâncias permitem comparações razoáveis nem o problema deste país é o défice mas a dívida incontrolada e os juros que ela continua a parir. Juros que, em termos históricos, nem resultam de taxas elevadas mas do elevadíssimo volume da dívida. 
Quando as taxas subirem, porque um dia destes subirão, o anunciado défice de 2,1% em 2016 será uma recordação do tempo em que, à falta de outros problemas, os sms trocados com o sr. Domingues eram o problema mais intrincado da política à portuguesa.  

Sunday, December 11, 2016

ESTÁ OUTRA VEZ O BURRO NAS COUVES

"Economistas do FMI realçam que ainda não é hora de pânico, mas de reforçar vigilância sobre preços. Portugal registou a 15.ª maior subida anual entre mais de 60 países analisados" - aqui

Os economistas do FMI não são muito fiáveis: uns dias dizem que sim para no dia seguinte garantirem que não.  Neste caso, o aviso não é falso. Que os preços do imobiliário têm subido para níveis entusiasmantes, ninguém, que esteja minimamente atento, deve duvidar. Que essa subida seja generalizada, não deve ser verdade. Se fosse, não estaria a banca portuguesa em geral tão aflita com o peso de tantos calotes, imparidades é mais fino mas o google não reconhece e ... sugere-me impuridades.  

O que é que sobe? Sobretudo o que é mais caro. 
Quem compra? Quem tem dinheiro ou consegue crédito.
Como as taxas de juro subsistem, em termos reais, a níveis negativos, e a bolsa é um porta-moedas a cabriolar em quedas medonhas para o tamanho que tem, o imobiliário é a saída natural para quem, além do mais, é assustado com a instabilidade política na Europa a ameaçar o euro, a anemia da economia, a reestruturação da dívida (se acontecer alguém acredita que só atinge os outros?). Tudo isto e mais alguma coisa a acrescentar ao impulso, de consequências futuras imprevisíveis, que a entrada de investidores financeiros estrangeiros, fiscalmente beneficiados, provoca nas zonas turisticamente mais atractivas.

Correl . - vd. aqui

Tuesday, September 08, 2015

A DOG´S LIFE

Não sei por que carga de água de vez em quando entram-me no correio ofertas de taxas mirabolantes para resolver os meus apertos financeiros ou lançar-me num negócio prometedor. 
Onde vão estes anjos da guarda buscar o meu endereço de correio não sei, mas não é difícil imaginá-lo tantas são as ocasiões em que somos solicitados ou obrigados a revelar o sítio do nosso e-mail. Sem o endereço de e-mail não é hoje possível realizar um conjunto de operações ou formalidades, oficiais ou privadas, e alguns daqueles que nas empresas ou nas instituições ficam com estas informações à mão não se coibem nem são coibidos de fazerem negócios com elas.

Preocupa-se a entidade incumbida de garantir a confidencialidade dos dados com estas situações? Pelos vistos, não. Porquê? Gostava saber, mas devo ser caso único.



Ontem chegou-me mais uma oferta de dinheiro. A reembolsar em 24 meses a uma estupenda TAEG de 11,9%! E, no mesmo embrulho, uma sugestão de negócio: uma carrinha para venda de hot dogs.


Friday, August 28, 2015

FOI VOCÊ QUE PEDIU 2% DE INFLAÇÃO?

Os banqueiros centrais de meio mundo não sabem por onde ela se meteu.
É o que se depreende da notícia publicada hoje, aqui, no WSJ : Central Bankers Rethink Views on Inflation.

"Os banqueiros centrais já não estão seguros da forma como evolui a inflação. Não caiu tanto quanto era esperado durante a crise financeira, quando a economia vacilou e o desemprego subiu; não subiu tanto quanto eles previram quando a economia  recuperou e o desemprego baixou.  
O enigma é um grande desafio ao modo como os banqueiros centrais pensam que conhecem o mundo e a sua capacidade para realizarem o seu trabalho. Como podem eles saber quando devem subir ou descer as taxas de juro se o seu objectivo é provocar o aumento ou a descida dos preços?

Janet Yellen, Presidente da FED, tinha, não sei se continua a ter, a intenção de propor a subida a taxa de juro. Uns aplaudem, outros, entre os quais Krugman,  consideram que seria um erro enorme.  
De Draghi, não reza a notícia o que pensa.



Todos os anos, no mês de Agosto, os banqueiros centrais voam para Jackson Hole, um nome apropriado para um vale estreito entre montanhas a varar os céus, à procura de inspiração.

Monday, June 01, 2015

O INVESTIMENTO DILETO DOS PORTUGUESES

"Portugueses compram 21 mil carros em Maio. Nos primeiros cinco meses de 2015, o mercado matriculou 92.605 veículos automóveis." - cf. aqui

O crescimento das vendas de automóveis em Portugal já não pode atribuir-se apenas à recuperação da queda durante os primeiros anos da crise porque, por um lado, a tendência excepcionalmente crescente já perdura há mais tempo do que o período de contracção sem que tal evolução tenha qualquer correspondência com o aumento de poder de compra dos portugueses em geral, e por outro porque são sobretudo notáveis os crescimentos das vendas de viaturas de gama alta.

Explicação para este entusiasmo automóvel em tempo de crise só pode encontrar-se, parece-me, em dois factores: 

- A redução das taxas de juro que, por um lado, incentiva a expansão de crédito para este tipo de investimentos, que irão contribuir para a retoma do desequilíbrio da balança comercial, e, por outro, desincentiva a poupança, desencaminhando-a para o consumo e equipamentos domésticos, em grande parte importados, reforçando a tendência referida para o desequilíbrio das contas com o exterior provocado pelo aumento do crédito.

- O aumento em tempos de crise dos rendimentos das classes sociais mais abonadas, para o crescimento espantoso das vendas de automóveis de gama alta.
Se as operações de "Quantitative Easing" do BCE vieram aliviar significativamente o custo da dívida das economias mais fragilizadas, ainda que muito tardiamente, os efeitos económicos poderão estar a desviar-se bastante dos objectivos supostamente pretendidos: a liquidez injectada nos mercados não está a dirigir-se ao investimento produtivo mas sobretudo para o consumo e operações financeiras especulativas. 

Os taxas dos depósitos a prazo são agora, salvo um ou outro caso para captura de clientes novos, quase nulas; nestas condições, os depositantes preferem a liquidez dos depósitos à ordem ao rendimento exíguo dos depósitos a prazo. Os certificados de aforro e os certificados do tesouro, apesar de tudo mais compensadores que os depósitos a prazo, também não são competitivos com a tentação do consumo.

E, assim, os automóveis vendem-se como pãezinhos quentes.
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Correl. - (16/06) - "Portugal continua a liderar o crescimento das vendas de carros na Europa" - cf. aqui - " Em Portugal, a venda de carros novos totalizou 18.343 unidades em Maio - um crescimento de 33,1% face ao mesmo mês do ano anterior. Este aumento, que é o mais expressivo de toda a Europa, compara com um crescimento médio de 1,3% na União Europeia."
 

Friday, March 27, 2015

CADA VEZ PERCEBO MENOS

Há nove dias atrás anotei aqui que não percebia a intenção dos discursos dos responsáveis da União Europeia, e nomeadamente do presidente do Eurogrupo, que publicamente confirmavam o que o Spiegel tinha divulgado: os alemães (leia-se o grupo liderado por Schäuble) estavam a preparar medidas que bloqueassem as fugas de capitais da Grécia, encerrando os bancos gregos por uns dias, aplicando a receita adoptada em Chipre.  Cf. aqui: "Cyprus Scenario possible for Greece, says Dijsselbloem".

Estranhei que medidas destas fossem divulgadas e confirmadas, uma vez que, segundo a lógica comum, elas iriam provocar novas ondas de fuga antes que fossem adoptadas. Meu dito, meu feito, lia-se menos de uma semana depois no Financial Times, aqui, que o governo grego estava a mobilizar os fundos do sistema de saúde e do metropolitano de Atenas para poder pagar as responsabilidades mais imediatas. Cf. aqui: "Athens raids public health coffers in hunt for cash". E isto porque a fuga de capitais observada nos últimos dias está a deixar os bancos gregos à beira do colapso. 

Hoje, pode ler-se no mesmo FT um artigo, vd. aqui, do correspondente do jornal em Bruxelas, que os dados conhecidos evidenciam uma corrida aos bancos perante a perspectiva de um segundo resgate. Normal, não? O que não se percebe, e não se percebe desde o início do processo de ataque à crise espoletada em 2008, é o conjunto de medidas que suscitaram a fuga de capitais dos países mais fragililizados do sul para refúgios a norte, e principalmente para a Alemanha, aumentando insuportavelmente a carga dos juros aos primeiros (fragilizados) e permitindo aos segundos (confortáveis) financiarem-se a taxa negativas. E muito menos se entende que, num momento em que decorrem conversações entre gregos e alemães, i.e., entre Tsipras e Merkel (os outros assistem), o discurso da eurogrupo empurre os gregos para o suicídio do seu sistema financeiro.

A menos que o objectivo seja mesmo esse: Correr com eles da zona euro, e depois se verá...
O desastre.
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Correl. - Greece to pay pensions ... for this month
ou
os apertos do tesouro e a indisciplina fiscal grega.

Wednesday, March 18, 2015

NÃO PERCEBO

Ontem, o sr. Jeroen Dijsselbloem, ministro holandês das Finanças e presidente do Eurogrupo admitiu publicamente que, estando a Grécia à beira de ficar sem dinheiro e ter de pagar 350 milhões de euros ao FMI até depois de amanhã, os alemães estarão a pretender que aos gregos seja administrada a receita imposta a Chipre: fecho dos bancos e controlos de capital, com o suspeito objectivo de um corte nos depósitos a favor das finanças públicas gregas, ainda que as razões avançadas sejam relacionadas com um terceiro resgate. A notícia tinha sido avançada pelo Spiegel e as declarações de Dijsselbloem  instantâneamente publicadas em todo o mundo. Vd., p.e., aqui e aqui ou aqui.

O que é que faz um grego ao ouvir estas declarações, se tiver dinheiro que valha um salto? Salta.
Só não saltarão os que já saltaram ou não saltam porque têm a perna demasiado curta. Ainda há dias, e na sequência da expectativa da vitória do Syriza noticiaram os media uma fuga maciça de capitais, depois reforçada com a confirmação da vitória e a constituição de um governo heterodoxo, segundo os padrões ocidentais. 

Não percebo como se admite publicamente uma acção destas que, obviamente, terá imediatamente espoletado um movimento que pretende vir a evitar. Se a intenção é proceder a um haircut dos depósitos e fundos guardados pelos bancos, o governo grego tem sempre a possibilidade de, se for compelido a exercê-la, a impor essa decisão sobre os fundos a atingir registados nos bancos, p.e, no   início deste ano. Afinal o confisco não é uma forma de prepotência menor que a retroactividade das leis. Anunciando esta hipótese, muito grego estará a esta a hora a coçar a cabeça lamentando-se de não se ter  decidido há mais tempo. Claro que terá de pagar por isso: as taxas pagas por bancos em países de baixo risco (a Alemanha é já há muito tempo a ganhadora destas encrencas em que ela mesma lidera)  são, toda a gente sabe isso, negativas. Cerca de 2,2 biliões de euros de dívida pública já pagam, vd. aqui, taxa de juro negativa. Portugal emitiu hoje 1250 milhões a uma taxa, vd. aqui, abaixo de 0,1%.

Por outro lado, ou do mesmo lado?, o FMI diz, vd. aqui,  que "a Grécia é o país mais incapaz de se ajudar em 70 anos de história". Com ajudas destas como pode a Grécia pagar até depois de amanhã 350 milhões do que deve ao FMI.

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Correl. - Casal alemão pagou a sua "parte da dívida" à Grécia por danos da II Guerra

Tuesday, January 27, 2015

O QUE A GRÉCIA NÃO PAGAR


Se a Grécia não pagar, segundo o que se diz aqui, "um economista da Bloomberg fez as contas ao cenário mais extremo e concluiu que, mais do que os contribuintes alemães, serão os portugueses os mais prejudicados em caso de um incumprimento total grego: 550 euros por habitante." 

Hoje, Alexis Tsipras cumpriu já uma das suas promessas: repôs o salário minimo em 750 euros. 

Em Janeiro de 2013 o sr. Jean-Claude Junker, na altura presidente do Eurogrupo e actualmente presidente da Comissão Europeia afirmou perante a Comissão de Assuntos Económicos do Parlamento Europeu : "É imprescindível estarmos de acordo com um salário mínimo europeu", que "é uma medida essencial, porque se assim não acontecer, "perder-se-á o apoio da classe trabalhadora na Europa".

O salário mínimo é apenas um dos factores da tremenda congestão de "comuns"com que a União Europeia, e em particular a zona euro, se vai debater a partir da vitória de Alexis.


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Correl. - aqui :  Varoufakis quer acordo para "reduzir os custos da crise grega para todos os cidadãos da Europa (28/1)

Friday, January 23, 2015

O QUE É QUE OS BANCOS VÃO FAZER COM O QE

Falou-se dos possíveis benefícios para a economia portuguesa resultantes da política anunciada ontem por Draghi de compra de dívida pública pelo BCE (até 20% do total adquirido em cada estado membro da zona euro) e pelos bancos centrais (até 80%). E também naquele reduzido grupo de gente minimamente informada sobre estes assuntos foram evidentes diferentes pontos de vista que, no entanto, conduzem no essencial a  duas hipóteses:

Ou os bancos encontram colocação para a liquidez libertada com a venda de parte ou da totalidade da dívida pública que detêm, ou não. Se a anemia económica é de tal modo elevada que não suscita vantagens na troca de activos (dívida pública por dívida privada) considerando os níveis de risco, as taxas de juro e as maturidades das obrigações de dívida pública vis-a-vis os riscos, as taxas e os vencimentos dos empréstimos às empresas e às famílias, a bomba ficou ferrada mas o fluxo não se inicia. 

Evidentemente, a equação é  muito mais complexa porque, por exemplo, os bancos, incluindo a Caixa Geral de Depósitos que tem por instinto seguir o rebanho, poderão continuar a preferir financiar, como sempre têm feito, as grandes empresas, sobretudo os monopólios de facto, em áreas de negócios de bens ou serviços não transaccionáveis, preterindo os sectores transaccionáveis onde o risco é geralmente mais elevado. Neste caso, vendem dívida pública e reforçam as suas posições nos sectores privados de baixo risco ou, mais grave ainda, no financiamento de aplicações especulativas.

Em conclusão : O QE ajuda?
Ajuda, mas só QE não chega.


Monday, June 23, 2014

VIRA O DISCO

Num comunicado divulgado hoje, disponível aqui*, "os CTT – Correios de Portugal, S.A. (“CTT”) informam sobre a intenção de formalizar o acordo de parceria com o BNP Paribas Personal Finance (Grupo BNP Paribas) para distribuição de produtos de crédito ao consumo, no âmbito do Memorando de Entendimento (MOU) assinado em 8 de maio de 2014." A avaliar pelo comportamento ascendente das acções em bolsa, num dia de queda generalizada, os accionistas parecem apreciar o acordo anunciado.

Tanto a Cetelem como a Cofidis, ambas filhas do mesmo progenitor, o BNP, já estão há vários anos muito activas no mercado português no negócio da concessão de crédito pessoal a quem terá dificuldade em pagá-lo. São estúpidos? Não devem ser, mas é difícil compreender que alguém que saiba fazer contas e conte pagar o que deve contraia empréstimos junto da Cofidis a taxas de juro de TAEG 10,5%, após "análise da capacidade financeira"ou da Cetelem, a uma "ótima (!) taxa para os seus projetos: TAN desde 8,90% e TAEG desde 10,7%. Crédito remodelações, crédito electrodomésticos, crédito mobiliário"
Nos EUA esta prática ficou conhecida por "subprime" e os "produtos" a que deu origem causadores da crise iniciada em 2008, depois de descoberta a marosca, foram considerados tóxicos e a factura da mixórdia apresentada para pagamento, de um modo ou de outro, aqueles que não foram vistos nem achados no enredo da moscambilha.

Já está toda a gente esquecida disto?
Nos EUA, ninguém o ignora, os contratos "subprime" foram embrulhados (securitizados, dizem os especialistas no bródio) em papel baço e atados com fitas actrativas, e vendidos  através de  "fundos de investimento" por todo o mundo. Estarão os CTT a preparar-se para participar num esquema idêntico? E quantos estarão neste mundo  a virar o disco e a tocar o mesmo, já que não é crível que sejam os CTT pioneiros na matéria? 

O que disse o Banco de Portugal, por onde certamente passou o licenciamento do negócio?
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* Nova comunicação aqui

Saturday, January 18, 2014

ARMADILHA USUROBANCÁRIA

Os grandes bancos norte-americanos estão a abandonar a prática de concessão automática de crédito  não solicitado (deposits advance) aos clientes com contas ordenado - vd. aqui - na sequência de regulamentação que, se não proíbe tal prática, a torna desinteressante para os bancos, que cobravam até agora taxas de juro muito acima dos valores correntes para empréstimos negociados.

Em Portugal, a generalidade dos extratos bancários de clientes com "domiciliação da conta ordenado", "pensão", "reforma" ou outro rendimento regular, apresentam ao lado do "saldo contabilístico", isto é, o saldo credor da conta do cliente, o "saldo disponível" que inclui a facilidade de crédito automática calculada em função da transferência mensal domiciliada. Esta prática bancária, como várias outras, foi, e continua a ser,  responsável pelo endividamento excessivo de muitas famílias sem que o Governo ou o Banco de Portugal tenham até agora desarmadilhado ou, pelo menos, desencentivado tais práticas. 

Talvez porque, se o fizessem, se revelaria imediatamente toda a dimensão dos créditos incobráveis com todas as consequências daí resultantes.

Tuesday, July 30, 2013

OS SWAP E A LEI DE MURPHY

"Se alguma coisa pode dar errado, ela dará".
Se alguém sai da fila e passa para a fila ao lado que naquele momento está a fluir melhor geralmente depressa verá a fila de onde saiu a avançar mais rapidamente.
 
"Entende, ( ), como este festival pode apenas ser uma questiúncula de contabilidade?" - aqui
Não, não entendo. A contabilidade pode ser manipulada mas não altera a realidade, quanto muito pode disfarçá-la. Temporariamente. Foi por não ter em atenção a temporalidade do disfarce das desorçamentações que o governo anterior mandou realizar estes contratos de swap a quem não deveria ter sido dada capacidade para os fazer.
 
Por outro lado, e é essa a questão que verdadeiramente interessa, um swap de preço, no caso de combustíveis, é, como qualquer swap uma opção, o que implica uma aposta. E uma aposta envolve sempre um risco, ainda que haja umas apostas mais arriscadas que outras.
 
No caso que citou, do aprovisionamento de combustíveis por uma empresa transportadora, uma opção de preço ou de câmbio, não deixa de ser um risco. Pode ganhar ou pode perder. Se ganhar, parabéns. Se perder fica fora do mercado na parte respeitante a este factor de custo, independentemente da evolução dos preços dos transportes.
 
Então uma operação de swap de taxa de juro, por exemplo, nunca se justifica?
Justifica, sim senhor. Em duas situções: 1 - Se as actividades core business do tomador do swap permitem fazer o hedging do swap. 2- Se o financiamento sobre o qual se realiza um swap se destina a um investimento de recuperação a longo prazo. Neste caso, a taxa de juro fixo "contratada" não deve exceder aquela que torna viável o projecto a que o financiamento se destina.
 
Já agora repito aqui uma história verídica que há algum tempo contei aqui no 4R ao APC. Um dia propuz a um cliente japonês a facturação em yenes. Por razões que não vêm ao caso, aquele cliente era o único que reunia as condições para podermos efectuar um contrato anual, muito vantajoso para nós, de vários milhões de dólares. No sector, a moeda de facturação era, e ainda é, o dólar, e são poucas as transacções internacionais feitas noutra moeda.
 
O sr. Kochiyama, assim se chamava o comprador da segunda maior empresa japonesa do sector, que dirigia, e ainda dirige, a maior parte da sua produção para o mercado interno, pensou não mais que dois minutos sobre o assunto, depois sorriu e disse-me: Rui, agradeço-te a tua sugestão mas não posso aceitá-la. E não possa aceitá-la porque, como sabes, toda a gente neste mercado compra a matéria prima em dólares. Imagina qu eu te compro em yenes. Se o yen se desvaloriza relativamente ao dólar, faço um bom negócio, dar-me-ão os parabens e talvez um bónus no fim do ano. Mas se o yen se valoriza? Fico fora do mercado. O preço do produto final fica mais caro, toda a gente me acusará e posso até ser despedido.*/**
 
Percebeu? Eu percebi. Percebi que só um patrão pode livremente jogar com o dinheiro dele. E ninguém deve ter capacidade para poder jogar com o  dinheiro dos contribuintes. E muito menos os gestores de empresas públicas, geralmente comissários políticos sem  competência mínima para gerir as actividades específicas das empresas quanto mais para lidarem com banqueiros matreiros.

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* Esta é uma das razões, se não a mais determinante, que justificam a persistente predominância do dólar como a principal moeda das transacções internacionais de commodities, de que o crude é o exemplo mais notável.
** Evidentemente, o vendedor tem, nestes casos, a possibilidade de anular o seu risco de câmbio vendendo imediatamente o contrato ao câmbio do dia da moeda em que contabiliza os seus débitos.