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Saturday, August 20, 2022

É MERDINA A MAIS

Ingenuidade a mais ou falta de vergonha?

"Empresa de filho de Sérgio Figueiredo recebeu 350 mil euros de Câmara liderada por Medina

Autarquia lisboeta concedeu o apoio a empresa de Sérgio Jacob Ribeiro para a realização do Planetiers World Gathering 2020, numa altura em que o atual ministro das Finanças era comentador na TVI24 a convite de Figueiredo."  ....  Continua aqui

Pergunto-me: Como é que um político, que sonha voar mais alto, se deixa estatelar por actos, que até podem ser legais, mas são moralmente destruidores da sua reputação?

Como ministro não sabe nem encontra na função pública pessoa ou grupos de pessoas competentes para desempenharem as atribuições que quis entregar a quem não apresenta curriculum que, inquestionavelmente, o recomende para o objectivo definido?

Como presidente da Câmara de Lisboa, não sabia que um apoio atribuído ao filho do director de televisão, que o convidou como comentador político sem contraditório, era promiscuidade ou ingenuidade a mais que, mais tarde ou mais cedo, seria conhecida?

Wednesday, December 06, 2017

TOUT VA TRÈS BIEN, MADAME LA MARQUISE


"Primero fue la Eurocopa, en enero llegó la ONU, en mayo la Eurovisión y este diciembre el Eurogrupo. Portugal copa los titulares de los medios para incredulidad de los expertos en la materia. Al margen de los éxitos por las habilidades con el balón y con la canción, las direcciones en la secretaría general de la ONU y en el Eurogrupo revelan unos triunfos de la diplomacia lusa que van mucho más allá de su peso económico. En enero António Guterres tomó posesión de la secretaría general de la ONU y este diciembre Mário Centeno presidirá el Eurogrupo, el sanedrín de los ministros de Finanzas de la zona euro..." aqui


"... A líder parlamentar interina do BE duvidou que a eleição do ministro das Finanças português altere a natureza da instituição e o poderio alemão. "A pergunta que os portugueses fazem é se será Mário Centeno, por ser português e pertencer ao PS, pode fazer a diferença nesta instituição que só tem representado ataques à democracia e mais austeridade. Entendemos que prevalece a natureza da instituição", disse Mariana Mortágua, que falava aos jornalistas no parlamento.    O PCP considerou que a eleição nada traz de positivo para Portugal e advertiu que combaterá eventuais tentativas do Governo de acentuar restrições ao investimento público. "O PCP alerta para o uso que o Governo do PS, no quadro das suas opções e em sintonia com as do PSD e do CDS, venha a fazer desta decisão para acentuar a recusa ou limitações às medidas necessárias ao desenvolvimento do país", afirmou o eurodeputado comunista João Ferreira. O Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) reagiu "sem surpresa", alertando que Portugal não deve sujeitar-se a uma "submissão maior" à União Europeia. "Os Verdes reiteram a sua preocupação, no sentido de que esta eleição não venha a representar, em qualquer circunstância, uma submissão maior à União Europeia e aos condicionamentos da Zona Euro, o que, a acontecer, seria profundamente negativo para Portugal", lê-se num comunicado do PEV."aqui


Friday, September 01, 2017

O CALCANHAR DE CENTENO 2


O Banco de Portugal divulgou hoje aqui a evolução recente da Dívida Pública até ao fim de Julho.
Voltou a aumentar, rondando agora os 250 mil milhões.
Líquida de depósitos, a DP era de 230,3 mil milhões, 
Nuno Carregueiro do JN online volta a expressar aqui, em gráficos muito elucidativos, a evolução desse crescimento, que parece imparável. Parece ou é?
Enquanto a taxa de crescimento económico nominal for inferior à taxa média de remuneração da dívida, e é essa a situação previsível até ao fim do ano, cifrando-se a diferença em mais de um ponto percentual, a dívida em relação ao PIB continuará a subir, salvo se o saldo primário fosse suficientemente positivo para pagar a factura dos juros e amortizar dívida. Mas não vai ser.

Mas o ministro M Centeno afirmou, cf. aqui, que a dívida pública irá baixar até ao fim do ano dos actuais 132 vírgula umas décimas para os 127,9% estimados pelo Governo. 
A evolução da DP relativamente ao PIB é a prova ácida da gestão das finanças públicas, sobretudo quando, como é o caso, os níveis atingidos tornam a sua contenção muito dependente de factores externos.
Para que a relação entre a Dívida Pública e o PIB seja reduzida em cerca de 4,5 pp até ao fim deste ano (de eleições autárquicas) forçoso se torna que o ministro tire da cartola um extraordinário par de coelhos. Aliás, nada que não tenha sido recurso recorrentemente usado pelos vários governos, umas vezes por indisciplina grossa na gestão das finanças públicas outras, sobretudo desde 2008, porque as colisões bancárias têm provocado, e continuam a provocar, grossos rombos nos cofres públicos.

" ... a pressionar em alta (o endividamento público em Julho) também esteve o "acréscimo de empréstimos no montante 0,1 mil milhões de euros, resultante do aumento de empréstimos junto de bancos residentes, com destaque para o acordo assinado entre o Estado e o Banco Santander Totta respeitante aos contratos de derivados com empresas públicas de transportes (2,3 mil milhões de euros)" - cf. aqui.


Como é que M Centeno vai descalçar esta bota?

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Correl . Hoje às 21,40 - Depois da Fitch, ontem foi a Moody’s a pôr a dívida em outlook positivo”. Agência só quer menos défice e dívida, e retoma ampla. - cf . aqui

Saturday, February 18, 2017

SOBRE O QUE NÃO DISSE CENTENO


As notícias domésticas continuam centradas no que disse o ministro Centeno, que se sobrepõem ao apuramento de outras responsabilidades incomensuravelmente muito mais graves e, deste modo, adiam para as calendas o conhecimento público de quem afundou a Caixa Geral de Depósitos.
No centro da guerrilha partidária, o senhor António Domingues, um banqueiro, e as suas não declarações de rendimentos e patrimónios.
   
Já toda a gente percebeu o que disse Centeno, porque é que Centeno não disse o que não disse, quem sabia o que ele iria dizer, quem preparou a informação que habilitou, mal, Centeno a dizer o que disse por ter assumido compromissos que, legalmente, não poderia ter assumido. O que é que falta saber? Nada.

Falta demitir o ministro, exclama mas não reclama a oposição, com medo de deitar abaixo o governo, e este cair-lhe em cima. 

"Ainda não percebi bem, Caríssimo António, por que é que o Centeno deveria demitir-se, ou ser demitido, e o chefe não. 

A partir do momento em que foi descoberto que uma lei pouco recente, para não lhe chamar antiga, tinha sido ignorada, todo o governo se tornou cúmplice da ausência de verdade. E, mais razoável seria, do meu ponto de vista que o PR tivesse decidido manter o governo em funções "em nome do interesse nacional"



De qualquer modo subscrevo o que sobre o assunto disse M Ferreira Leite: São tricas ...



Com tanta insistência neste assunto até parece que, quanto ao resto, vai tudo bem cá pelo síto." - aqui

"O Centeno varreu muito melhor do que muitos, entre os quais me conto, esperavam. 
Mas a limpeza continua ameçada pelos porcalhões dos banqueiros...
Agora, e há mais tempo do que a nossa paciência deveria ser obrigada a suportar e os nossos bolsos a pagar. 
São raros os dias em que não aparecem mais porcarias banqueiras.

Que este e outros governos tiveram que limpar, e nós que pagar.

Pode, admirável Rita, explicar-me porquê? Por que não foram nem são os banqueiros obrigados a limpar as porcarias que fizeram e continuam a fazer?

A pergunta é ingénua mas a resposta é complicada, não é?" - aqui

Thursday, September 29, 2016

A CEREJA EM CIMA DE UMA CONTROVÉRSIA

"... arrancaram as obras para o novo campus da Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE), junto à praia de Carcavelos e ao forte de S. Julião da Barra. O objectivo é que o projecto esteja concluído em Março de 2018 ... 
... a cerimónia foi marcada por alguma polémica, uma vez que os antigos proprietários do terreno discordam e reclamam sobre o valor pago pela Câmara Municipal de Cascais, que dizem ser demasiado baixo para o tamanho e localização do espaço. Carlos Carreiras, presidente da autarquia de Cascais, defendeu que “o terreno tinha um valor patrimonial fiscal muitíssimo baixo” e que a autarquia “não podia dar outro valor que não esse” -  aqui




- V. leu a notícia que vem hoje no Público ...
- Qual delas?
- A expropriação de um terreno em Carcavelos, com uma área equivalente a dez campos de futebol, junto ao mar, ... sabe por quanto?
- Não faço a mínima ideia.
- 132 mil euros! É a golpada do costume.
- O terreno é seu?
- Não, claro que não, mas acho que é escandaloso ... ali anda negócio ...
- Se foi expropriado por preço baixo ...
- Baixo, não, baixíssimo ... 
- Se foi expropriado por preço baixíssimo só é negócio suspeito se vier a ser vendido, mais tarde, a particular para urbanização ... É esse o caso?
- Não, não é. Vão instalar lá a escola de gestão da Nova.
- Então não vejo que possa haver, neste caso, a golpada  do costume.
- Por 132 mil euros? Menos que o valor de um pequeno apartamento naquela zona? 
- Admitamos que sejam mesmo 132 mil euros, embora eu presuma que deve haver aí falta de algum ou alguns algarismos, como é que foi feita a avaliação, sabe?
- Aplicaram o valor das finanças...
- Do meu ponto de vista, se consideraram esse valor, consideraram bem.
- É um valor baixíssimo. Toda a gente sabe que os valores das finanças estão desactualizados e os dos terrenos não têm nada a ver com os valores de mercado. 
- E qual é o valor do mercado? Houve transacções de terrenos naquela área há quanto tempo?
- Não sei. Mas muito mais que 132 mil euros valem com certeza. Que culpa têm os proprietários que as finanças não tenham os valores actualizados?
- Não sei imputar culpas mas quero acreditar que se a Câmara ... Qual foi a câmara que expropriou?
- A de Cascais.
- Hum! Não é do lado da esquerda ...não é medida anti capitalista, ... 
- É golpada!
- Como é que pode ser golpada se os terrenos são para utilização de uma instituição pública?
Se a Câmara de Cascais invocou o valor matricial para fixação do valor da indemnização aos proprietários certamente que se escorou na lei. Ou não?
- Não, porque os valores das finanças estão desactualizados ... 
- O critério parece-me justo. Os proprietários, que beneficiaram de uma tributação baixa ao longo de muito anos, devem conformar-se com o preço dos terrenos por expropriação por utilidade pública com base no valor base de incidência dos impostos. 
- Não sei se é o que está estabelecido na lei ...
- Nem eu, mas espero que a Câmara de Cascais saiba. 

Sunday, November 29, 2015

O ELO MAIS FRACO

Costuma ser o ministro da Educação.
Desta vez, o titular da pasta  já encontra o terreno semi-terraplanado com os compromissos assumidos pelo PS com o BE e o PCP e as votações na AR no dia em que ele tomava posse. Basta-lhe que não se mexa enquanto o sr. Mário Nogueira não precisar de fazer prova de vida. 

O elo mais fraco deste governo é o ministro das Finanças.
Não porque lhe falte ciência e competência mas porque o lugar vai ser abanado por todos os lados.
Desde logo, pelo lado de dentro.
Ocupando o quarto lugar na hierarquia do governo, sem filiação partidária, só pode agarrar-se ao primeiro-ministro quando os restantes dezasseis membros do executivo reclamarem que os seus orçamentos sejam revistos e melhorados. O primeiro-ministro, hábil negociador, fará como Salomão: meia dose de razão para cada lado. E assim escorregarão os fundamentos dos pilares macroeconómicos do prof. Centeno. 

Depois, do lado de fora, mas ainda cá dentro, nas reuniões com os parceiros da maioria parlamentar. Se a maioria implodir,  perdem todos mas o PS perde mais. Quando a maioria se esboroar, e isso acontecerá, não se sabe é quando, o PCP já terá convencido as bases, fiéis, da bondade das suas razões e argumentos. E, do lado do BE, o ajustamento saltará fácil e sorridente qualquer objecção que lhe apontem. Já do lado do PS, o tecido fia mais fino e pela ruptura pode enfiar-se o primeiro-ministro. O mesmo é dizer que entre os modelos e as contas do prof. Centeno e os cadernos de encargos do BE e, sobretudo, do PCP, o primeiro-ministro perceberá melhor estes últimos. 

Mas é em Bruxelas que o prof. Centeno vai ver-se do avesso. A Bruxelas terá de levar as contas feitas
pelos parceiros da maioria, de Bruxelas trará as contas feitas pelos incumbidos delas.
E, das duas uma, ou se demite (o ministro Gaspar demitiu-se por muito menos razões) ou é mesmo um génio capaz de conciliar o inconciliável.


"Governo vai continuar trajectória de consolidação do défice orçamental" aqui


"O secretário-geral da CGTP garante que não vai deixar de lutar por haver um Governo de Esquerda ... é fundamental a participação cívica dos trabalhadores e dos cidadãos na rua para exprimirem a sua vontade de mudança e, simultaneamente, para influenciarem essa mudança", explicou Arménio Carlos, como justificação de, mesmo após ser empossado o Governo de Costa, a entidade ainda manter a manifestação agendada  - aqui
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Correl. - (30/11) Programa do PS viola recomendações europeias

Tuesday, September 29, 2015

ENTRE BÓIAS

Ouve-se na Antena 1, noticiário das oito da manhã, que, segundo investigação da rádio estatal a ministra das Finanças, quando ocupava o cargo de secretária de Estado do Tesouro, pediu à administração da Parvalorem, empresa pública que ficou a gerir os ativos de má qualidade do ex-Banco Português de Negócios (BPN), que mexesse nas contas de forma a que estas revelassem um cenário de perdas mais otimista do que o real, reduzindo os prejuízos reconhecidos em 2012. Assim foi feito, e as perdas inicialmente reveladas de 577 milhões foram parcialmente reduzidas para 420 milhões ... A Antena 1, que transmitiu depoimentos confirmativos, de um interveniente identificado e de outro não identificado, informou ainda que pediu ontem esclarecimentos à ministra das Finanças sobre esta questão, mas ainda não recebeu resposta. 
Entretanto, horas depois, vd. aqui, a Ministra já desmentiu a "manipulação ou ocultação de contas".

Quem ouve esta notícia só por arreigado partidarismo pode deixar de considerar esta informação, no momento em que é feita, com evidentes intenções de socorro do candidato da oposição, embaraçado nos, geralmente inesperados, valores das sondagens. Irá o sr. António Costa lançar mão desta pequena bóia para tentar safar-se à última hora das previsões das sondagens? 

Por outro lado soube-se, também hoje, que vd. aqui, a taxa de desemprego subiu ligeiramente para 12,4% em Agosto.

As eleições do próximo dia 4 de Outubro podem ser determinantes para o governo nos próximos seis anos, qualquer que seja vencedor se o for, como tudo leva a crer, com minoria relativa. A não ser que, ganhando a coligação sem maioria absoluta, o sr. António Costa consiga reunir à esquerda uma maioria que o apoie. E convença o PR que essa maioria pode governar estavelmente o país. 

Uma bóia maior mas difícil de agarrar por um candidato que joga nestas eleições todo o seu futuro político.

Thursday, March 26, 2015

COM QUANTOS ADVOGADOS DE DEFESA CONTA RICARDO SALGADO?

"A supervisão, se calhar, também devia ter visto mais cedo ... ", disse ontem, vd. aqui, a ministra na última sessão da CPI ao caso BES.

Há desde já, em resultado do que se ouviu durante as sessões púbicas da comissão parlamentar de inquérito ao caso BES, várias conclusões que legitimamente se podem retirar. Uma delas foi a evidente, e já implícita ou explicitamente admitida pelas partes,  descoordenação entre os supervisores envolvidos na resolução das questões colocadas pela erupção da falência do GES, uma vez falhada, pelos mesmos,  a sua prevenção: o Banco de Portugal,  a Comissão de Mercado de Valores e, em certa medida, a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões. 
E a ministra?

A ministra, se calhar, não fez o que devia. Um se calhar que só pode significar certamente, porque não é admissível que a ministra tenha dúvidas acerca dos flancos abertos pela descoordenação observada entre os supervisores ao longo do processo. Viu o que toda a gente viu e, no mínimo, deveria ter oportunamente intervindo no sentido de concertar a coordenação que a complexidade exigia. Com a preocupação de sacudir a água do capote, a ministra acaba por dizer o que deveria calar. A quem aproveita esta escaramuça mesquinha entre forças (incompetentes) que deveriam estar alinhadas do mesmo lado?

A Ricardo Salgado, obviamente. 
Se as inabilidades dos polícias não justificam os actos dos criminosos, a estes aproveita sempre a oportunidade de esgrimirem em juízo, se lá chegarem, com as contradições nos depoimentos dos guardas de serviço.

Tuesday, June 03, 2014

CRIMINOSOS POR POUCO DEMAIS

O texto transcrito a seguir é de autor que desconheço. Circula na Internet e foi-me remetido por um amigo. Arquivo-o aqui no caderno porque regista situações tipo que são exemplares do grau de insanidade moral atingido pela justiça, neste caso fiscal, em Portugal, que persegue os minúsculos e prescreve os grandessíssimos.
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"Ti-Maria (Maria Isabel) tem 83 anos e é uma criminosa.
O local do crime é o fogão, e assim foi durante muitos anos: vende bolo de laranja no café da zona. Sem recibo. E ainda consegue ir mais longe: usa os ovos das suas próprias galinhas. Juntamente com a filha, formam uma organização criminal. Eusébia, com 58 anos, produz uma pequena quantidade de queijo de cabra na sua própria cozinha que vende aos vizinhos a 1 euro a unidade. Um dos vizinhos, José Manuel, utiliza o antigo forno de barro que tem no quintal para cozer pão, faz uma quantidade a mais do que a que ele e a sua mulher necessitam para vender aos amigos, tentando assim complementar a pensão da reforma que recebe.
Alguns dos habitantes mais idosos da aldeia apanham cogumelos e vendem-nos ao comprador intermediário. Novamente, sem passar recibo. Por sua vez, este intermediário distribui-os em restaurantes, passa recibo mas fá-lo pelo dobro do preço que pagou por eles. Marta, proprietária do café da zona, encomendou alface ao fornecedor mas acrescentou umas ervas e folhas de alface do seu próprio quintal. E se pedíssemos uma aguardente de medronho, típica da zona, quando a garrafa oficial, selada com o imposto fiscal, estiver vazia, o seu marido iria calmamente até à garagem e voltava a encher a garrafa com o medronho caseiro do velho Tomás. Podemos chamar a isto tradição, qualidade de vida ou colorido local – o certo é que em tempos de crise, a auto-suficiência entre vizinhos, simplesmente ajuda a sobreviver.
O Alentejo é das regiões mais afectadas pela crise que de qualquer forma afectou todo o país. A agricultura tradicional está em baixo, a indústria é quase inexistente e os turistas raramente se deixam levar pela espectacular paisagem costeira da província. Os montes alentejanos perdem-se em ruínas. Quem pode vai embora, ficando apenas a população idosa a viver nas aldeias, e para a maior parte, o baixo valor que recebem de reforma é gasto em medicamentos, logo na primeira semana do mês. Inicialmente, as pessoas fazem o que sempre fizeram para tentar sobreviver de algum modo. Vendem, a pessoas que conhecem, o que eles próprios conseguem produzir. Não conseguem suportar os custos de recibos ou facturas. Para conseguir iniciar um negócio com licença, teriam de cumprir os requisitos e fazer grandes investimentos que só compensariam num negócio de maior produção.
Ao contrário de Espanha, Portugal não negociou acordos especiais para quem tem pequenos negócios. As consequências: toda a produção em pequena escala - cafés, restaurantes , lojas e padarias que tornam este país atractivo - é de facto ilegal.
Só lhes restam duas hipóteses:
- ou legalizam o seu comércio tornando-se grandes produtores
- ou continuam como fugitivos ao fisco.
Até agora e de certa forma, isto era aceitável em Portugal mas neste momento, parece que o governo descobriu os verdadeiros culpados da crise: o homem modesto e a mulher modesta como pecadores em matéria de impostos. Como resultado, as autoridades fecharam uma série de casas comerciais e mercados onde dantes eram escoadas os excedentes das parcas produções dos pequenos produtores e transformadores, que ganhavam algum dinheiro com isso, equilibrando a economia local.
Há uns meses atrás, a administração fiscal decidiu finalmente fazer algo em relação ao nível de desemprego: empregou 1.000 novos fiscais.
Como um duro golpe para a fraude fiscal organizada, a autoridade autuou recentemente uma prática comum na pequena Aldeia das Amoreiras: alguns homens tinham - como o fizeram durante décadas - produzido e vendido carvão. Os criminosos têm em média 70 anos, e os modestos rendimentos do carvão mal lhes permitia ir mais do que poucas vezes beber um medronho ou pedir uma bica. Não é benéfico acabar com os produtos locais e substituí-los por produtos industriais.
Não para o Estado que, com uma população empobrecida, não tem capacidade para pagar impostos. E não é para a saúde: não são os produtos caseiros que levam a escândalos alimentares nestes últimos anos, mas a contaminação química e microbiana da produção industrial. Apenas grandes indústrias beneficiam desta política, uma política que chega mesmo a apoiar a crise. Sendo este um país que se submete cada vez mais a depender de importações, um dia não terá como se aguentar economicamente. É a realidade, até parece que a globalização venceu: os terrenos abandonados do Alentejo foram maioritariamente arrendados a indústrias agrícolas internacionais, que usam estes terrenos para o cultivo de olival intensivo, para a produção de hortícolas em estufas e também de OGM’s (Organismos Genéticamente Modificados – Transgénicos produzidos pela multinacional americana ‘MONSANTO’ que foi autorizada pelo governo português a cultivar esses produtos internacionalmente proibidos).
Após alguns anos, os solos ficam demasiado contaminados. Em geral, os novos trabalhadores rurais temporários vêm da Tailândia, Bulgária ou Ucrânia, trabalham por pouco tempo e voltam para as suas casas antes das doenças se tornarem visíveis.
Com a pressão da Troika, o governo está a actuar contra os interesses do próprio povo. Apenas há umas semanas atrás, o Município de Lisboa mandou destruir mais uma horta comunitária num bairro carismático da cidade, a "Horta do Monte" no Bairro da Graça, onde residentes produziam legumes com sucesso, contando com a ajuda da vizinhança. Enquanto os moradores do bairro protestavam, funcionários municipais arrancaram árvores pela raiz e canteiros de flores, simplesmente para que os terrenos possam ser alugados em vez de cedidos. Mais uma vez, uma parte da auto-organização foi destruída pela crise. A maioria dos portugueses não aceita isto. No último ano e por várias vezes, cerca de 1 milhão de pessoas - o equivalente a 10% da população - protestou contra a Troika.
Muitos demonstram a sua criatividade e determinação durante a desobediência civil: quando saiu a lei que os clientes eram obrigados a solicitar factura nos restaurantes e cafés, em vez de darem o seu número de contribuinte, 10 mil pessoas deram o número do Primeiro-ministro. Rapidamente isto deixou de ser obrigatório.
Também há alguns presidentes de freguesias que não aceitam o que foi feito aos seus mercados. E assim os pequenos mercados locais de aldeia continuam mas com um nome diferente “Mostra de produtos locais”, “Mercado de Trocas”. Se alguém quer dar alguma coisa e de seguida alguém põe dinheiro na caixa dos donativos, bem... quem irá impedi-lo?!
Existe um ditado fascinante: “quando a lei é injusta, a resistência é um dever”. É este o caso. Não são os pequenos produtores que estão errados mas sim as autoridades e quem toma as decisões - tanto moral como estrategicamente, porque:
- é moralmente injustificável negar a sobrevivência diária dos idosos nas aldeias.
- é estrategicamente estúpido…porque leva ao extermínio destes velhos, de forma encapotada.
Um tesouro raro está a ser destruído: uma região que ainda tem conhecimentos e métodos tradicionais, e comunidades com coesão social suficiente para partilhar e para se ajudarem entre si, estão a ser destruídas.
Uma economia difundida globalmente e à prova da crise é o que aqui acaba por ser criminalizado, ou seja, a subsistência rural e regional, o poder de auto-organização de pessoas que se ajudam mutuamente, que tentam sustentar-se com o que cresce à sua volta.
Ao enfrentar a crise, não existem razões para não avançarmos juntos e nos reunirmos novamente. Existem sim, todos os motivos para nos ajudarmos mutuamente, para escolhermos a auto-suficiência e o espírito comunitário rural. Podemos ajudar a suavizar a crise, pelo menos por agora – se não, no mínimo oferecemos um elemento chave para a resolver.
Quanto mais incertos são os sistemas de abastecimento da economia global, mais necessária é a subsistência regional.
Assim sendo, pedimos a todos os viajantes e conhecedores: peçam pratos caseiros e regionais nos restaurantes. Deixem que as omeletes sejam feitas por ovos que não foram carimbados nem selados. Peçam saladas das suas hortas. Mesmo em festas ou cerimónias, escolham os produtos de fabrico próprio, caseiros. Ao entrar numa loja ou café, anunciem de imediato que não vão pedir recibos ou facturas.
Talvez em breve, os proprietários dos restaurantes se juntem a uma mudança local. Talvez em breve, um funcionário de uma loja será o primeiro a aperceber-se que a caixa de donativos na entrada traz mais lucro do que o registo obrigatório das vendas recentemente imposto. Talvez em breve, apareçam as primeiras moedas regionais como um método de contornar as leis fiscais." 
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Comentários anexos ao e-mail transcrito colocados na caixa de comentários

Sunday, December 29, 2013

A VERTIGEM DO ABISMO

O Washington Post de hoje publica aqui uma fotogaleria das 86 imagens mais divulgadas em todo o mundo em 2013. A colecção não se destingue, quanto aos temas predominantes, daquelas que nos habituámos a ver desde há muito tempo em edições ou exposições realizadas com os mesmos critérios de selecção.

E a conclusão é sempre a mesma: são sobretudo as cenas de devastações provocadas por catástrofes naturais ou confrontos bélicos, os excessos, o burlesco, as desgraças alheias, enfim tudo aquilo que retrata o desequilíbrio do mundo ou da humanidade que mais cativa o interesse generalizado dos consumidores de imagens. Aliás, a atracção pelo desequilíbrio registado fotograficamente expressa-se também geralmente em todas as formas contemporâneas de expressão plástica, literária ou musical.

Anda a arte, como expressão avançada da trajectória da humanidade, por caminhos transviados para a depressão porque antecipa uma visão apocalíptica do futuro ou, pelo contrário, regista o sentimento sempre latente de atracção da humanidade pelo abismo?

A desregulação dos mercados financeiros (a finança é uma arte, os financeiros uns artistas embora não pareça aos olhos mais desapegados do lado material da vida) parece, se vista desta perspectiva, uma inevitabilidade rebocada pela vertigem do abismo que nos toca a todos. Talvez por isso mesmo, cinco anos depois do sismo financeiro de 2008, o sistema continua imperturbavelmente desregulado.