Sunday, February 10, 2019

TUNISINOS ANOS 90






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TIREM-ME DAQUI, POR FAVOR


Escondidos os comprimidos, deu-me uma vontade estranha de voltar a dormir. Nunca tal me tinha acontecido, quando o sol nasce desperta-me deste nem durmo nem estou acordado, o corpo pede-me a higiene matinal, e enquanto a louva-a-deus não baixa do piso de cima com as crianças, contorço-me no capacho, depois que chegam levanto-me a apertar, a apertar, até que sua excelência se digne colocar-me a coleira e me leve ao sítio do costume. Já tinha contado isto, não tinha? Pois tinha, o que não tinha contado foi o que me aconteceu depois.
Dizia eu que os comprimidos me deram uma sorna que nem abrir olho me apetecia, se os abri foi para que não ficassem os comprimidos à vista das crianças e fossem estas contar à velha onde ela os tinha metido. Eu não sabia o que me ia acontecer quando fosse apanhado naquela modorra em capacho encharcado, mas, pelo sim pelo não, talvez tivesse outra oportunidade de me entregar a novas delícias de um sono profundo e sonhos de chorar por mais, não sei porque os toma a velha, a mim tornaram menos insuportável o mundo cão - curiosa expressão, estaria o seu autor a pensar em mim? - para onde, não sei quem nem porquê, me atirou, de modo que, escondidos os comprimidos, ao meu alcance, dei meia volta no capacho e deixei-me embalar sem travões outra vez pela soneira. Tanto que nem dei pela descida da louva-a-deus e das crianças, só abri um olho, que logo se fechou sem eu mandar, quando pressenti um espanto de boca aberta a espetar-me um olhar esgazeado. A partir daqui não vi nem ouvi mais nada, já disse que se me abriu um olho por conta própria, que assim como se abriu se fechou, depois entrei em modo telepático, ou talvez tenha voltado a sonhar, o certo é que só dei conta que estava acordado no consultório do médico onde levo as vacinas, vim a saber depois que a louva-a-deus, quando me viu ainda a dormir aquelas horas, o capacho encharcado, e não acordar com sacudidelas que me deu no corpo, não sabia se eu estava morto se vivo, telefonara ao doutor a pedir instruções, o clínico não acertou diagnóstico à distância com informações vagas, disse que só vendo podia pronunciar-se, e aí fomos nós a caminho do consultório, mãe e filhas à frente, eu na gaiola, atrás, aproveitei para dar o salto e voltar para a minha terra quente e cheirosa todo o ano, cheia de sol, de cor, de maresia. Dose dupla. Quando me viram de novo junto deles, perguntaram-me os meus irmãos, os meus primos, os meus sobrinhos, já sou tio, não sabia mas já sou, os meus pais, claro, os meus pais não podiam faltar, nem os meus tios, nem os amigos, toda a vagabundagem do porto queria saber se, desta vez, tinha vindo para ficar. Voltaram a perguntar-me se lá no sítio para onde me tinham levado as coisas eram tão boas como se contava ali, paparoca fina e a horas, assistência médica garantida, ambiente aquecido no inverno e refrigerado no verão, e eu ouvia-os e sorria, não queria que lamentassem a minha sorte de emigrante forçado e angustiado, tudo o que eles ouviam dizer era verdade mas não trocava nada daquilo por aquele sítio, o nosso sítio, e sem mas nem mas não lhes dizia porquê.
Estava eu excitadíssimo com a perspectiva do retorno a casa quando, vá lá saber-se porquê, ouço o médico perguntar à louva-a-deus, enquanto tentava arreganhar-me um olho, se a urina no capacho tinha coloração normal ou apresentava vestígios de sangue.
Ela não sabia, a urina tinha-se ensopado no capacho, se havia vestígios de sangue não eram evidentes, até porque estando eu deitado em cima da sopa, se houvesse pinta de sangue teria certamente secado no corpo. Mirou-me o médico o pêlo enquanto me apalpava a barriga, e mais abaixo, e depois disse que, pela apalpação externa e pelas aparências, não me encontrava nenhuma anormalidade, teria que recorrer a outros procedimentos, apalpação interna, para isso precisava bloquear-me os movimentos,  ela devia manter-se junto para me sossegar mas não era recomendável que as crianças presenciassem o acto.
- Por quê?, admirou-se a louva-a-deus enquanto dizia de si para si, mas que ideia mais estúpida!
- O que tenho a fazer provoca algum sofrimento no paciente, que vai estrebuchar, e isso  ferirá, creio eu, a sensibilidade das suas meninas ...
- Hum! Não pode ser. Nem elas nem eu aceitamos, seja em que circunstância for, separar-nos!
- Nunca?
- Nunca.
- Mas ... as meninas não frequentam a escola?
- Frequentam em "home schooling"
- Em casa...
- Em casa. Nunca me separarei das minhas filhas ...
- Já percebi. Mas eu não falei em separação. Há aqui ao lado uma pequena sala onde as crianças podem entreter-se com jogos ou com leitura enquanto os adultos acompanham a observação clínica dos pacientes.
- Impossível. Não me separo delas nem por um instante que seja. Elas podem assistir!
- Poder, podem, mas eu não gostaria de violentar com a minha actuação a sensibilidade das crianças.
(Nem a privacidade dos pacientes ..., disse eu mas nem o vet nem a louva-a-deus ouviram. Eles nem a eles se sabem ouvir)
Desistimos, por agora, de procedimentos complementares, vamos fazer umas análises ao sangue, às fezes e às urinas, e depois veremos como devemos proceder. Aliás suspeito que o paciente sofre de melancolia.
- Melancolia?
- Sim, melancolia, apatia, tristeza profunda. Talvez devesse consultar um psiquiatra ou um psicólogo.
- Psiquiatra ou psicólogo?
- Talvez melhor começar por um psicólogo.
- Mas há psiquiatria e psicologia veterinárias?
- Há, há. Acha estranho?
- Um pouco, e tenho uma péssima impressão deles. 
- Dos psiquiatras?
- Para mim psicólogos e psiquiatras são classes de incompetentes.
- Mas não ignora, certamente, que há casos de animais que chegam a desistir de viver se desaparece o seu tutor. Há milhares de casos impressionantes de dedicação dos animais ou gratidão pelas pessoas que os acarinham. Eles têm sentimentos, e os sentimentos podem sofrer perturbações. Vejo aqui na ficha clínica que o paciente tem dez anos... Já não é novo.
- Mas antes nunca ele demonstrou qualquer sinal de apatia, pelo contrário sempre demonstrou grande vivacidade e motivação para sair a passear. Hoje, pela primeira vez, estava a dormir quando descemos do primeiro andar para o rés-do-chão. E, mais preocupante que isso, só acordou aqui. ... 
... O doutor acredita na reencarnação?
- Se eu acredito em quê?
- Na reencarnação, ... em vidas sucessivas?
- Francamente, não sei do que fala. Disse-me que nunca se separa das suas filhas ...
- Nunca.
- Disse-me também que quando desce sempre encontrou o paciente muito vivaz...
- Sim. Com grande vivacidade, foi o que eu disse.
- Dá no mesmo. Mas será vivacidade ou ansiedade que caracteriza o comportamento dele? A que horas sai com ele para o passeio da noite?
- Deitamos-nos cedo, nunca depois das nove horas da noite.
- E de manhã a que horas o levam para o passeio matinal?
- Cerca das nove da manhã.
(É arguto este vet, daria um bom detective)
- Podemos, então, concluir que o paciente, que já não é jovem, tem de suportar um período de doze horas sem urinar ...
- Foi sempre assim, desde que está connosco, está habituado.
(É mentira! Quando a família estava unida, o homem da casa levava-me a fazer o xixi da manhã antes de ir trabalhar, cerca das seis e meia, e cerca das onze da noite para o passeio nocturno com mijinha a essa hora. Contas feitas, tinha um intervalo de sete horas e meia. Depois deu-se algum transtorno na cabeça da louva-a-deus e o homem, um benza-o-deus, saiu de casa saturado de tanta impertinência da mulher, entregando-lhe tudo por amor às filhas, eu incluído.)
- Até esta manhã, pelo que me disse.
- Sim, até esta manhã.
- Penso que o paciente, por razões de idade e prolongado período de acumulação de fezes e urinas, senão também por outras que averiguaremos mais tarde quando conhecermos os resultados, observou pontual incontinência urinária que pode, a partir de agora, passar a ser regra se não lhe reduzir o período de contenção. Vive em apartamento, suponho?
- Habito uma vivenda.
- Tem jardim?
- Sim temos um pequeno espaço.
- Cem metros quadrados...
- Um pouco mais.
- Cercado?
- Sim, cercado.
- Por que não deixa o paciente no exterior, instalado numa cabine confortável, de modo que possa sair e recolher quando ele quiser?
(Ora aqui temos um vet à maneira. Se me vejo nas traseiras dou o salto sem olhar para trás. Se o chip bufar logo se verá)
- Hum! É difícil, as crianças estão muito habituadas a vê-lo na sala.
(É mentira, passo os dias no capacho, há muito tempo que ninguém repara em mim. Se, por acaso raro, entra alguém e eu me preparo para os ir receber, como manda a boa educação, logo os visitantes recebem aviso para nada de festas no bicho porque não o queremos excitado. Um dia, há mais de um ano, estiveram cá em casa dois jovens, dei conta disso no meu primeiro relatório, e até esses foram instruídos a não me tocar. Foi preciso um deles apanhar  a louva-a-deus de costas para eu receber uns miminhos.
Nunca mais os vi. Por onde andarão eles a estas horas? Por que se evaporam tão rapidamente, como sonhos bons, os raros momentos de felicidade à minha volta?)
- Quer dizer, se bem percebo, que o paciente passa os dias a bocejar de tédio num canto da sala em cima de um capacho ...
(Bruxo!)
- Saímos de manhã para uma volta nas proximidades...
- Uma hora?
- Depende do estado do tempo. Podem ser duas, pode ser meia hora.
- Compreendo, o paciente dissolve-se em tédio.
- Dissolve-se?
- Metaforicamente, claro. Concretamente, esgota-se pelo esforço de uma imobilização forçada.
(Subscrevo)
Disse que saem os quatro ...
- Os quatro? Quatro, como?
- A senhora, as duas crianças e o paciente. O paciente sai convosco para esse passeio breve?
- Sai, sai. Claro que sai.
- Encontra-se nesse passeio com quantos indivíduos da espécie dele?
- Não percebo.
- Presumo que durante o passeio a senhora se cruze com outros passeantes e, nessas oportunidades, o paciente confraternize com outros indivíduos da sua espécie.
- Sim, sim, acontece.
- Com que frequência?
- Posso saber onde quer chegar?
- Avaliar o isolamento forçado do bicho. É por essa razão que lhe pergunto quantas vezes por dia, em média, tem o paciente oportunidade de confraternizar, conviver, com outros, amigos antigos ou recentes.
- Duas, três, por aí.
(Mentira. Agora só fala com uma amiga quando a amiga aparece, o que é raro, com um cachorro, um lulu de trazer ao colo)
- Durante quanto tempo?
- É assim tão importante entrar nesses detalhes?
- É importante perceber em que medida o isolamento em casa é, de algum modo, compensado ou não pela convivência no exterior. O paciente pode, para além do sofrimento de contenção urinária forçada estar em situação de prolongada carência de afectos.
- Não, não pode ser.
(Pode, pode!)
- Se bem percebi o seu universo de relacionamento é muito limitado e essa limitação atinge o paciente.  
- Limitado? Porquê limitado?
- Disse-me que sai de casa uma vez por dia, durante uma, duas horas, meia hora se o tempo não está convidativo, presumo que também sairá para fazer compras, mas a quase totalidade do seu tempo vive-o no espaço da sua casa  com as suas filhas, e o paciente dorme e boceja. É isso?
- ...
- Bom, temos de avançar na preparação das análises. Do sangue, vou de imediato fazer uma colheita. Preciso que agarre, bem agarrado, o paciente, é só uma pequena picada mas ele pode assustar-se e tentar libertar-se impedindo-me de fazer a colheita.
(Vá lá vet, prometo portar-me bem, o efeito dos comprimidos é prolongado... Portei-me bem, hem?)
A recolha das fezes não coloca problemas e para as de urinas tem aqui um folheto explicativo de como deve proceder.
(Fico curioso)
Traga-me as análises e eu mesmo me encarregarei de as fazer chegar ao laboratório, a menos que a senhora possa passar por lá. A morada está no fim do folheto explicativo. Voltamos a ver o paciente de hoje a uma semana. Convém-lhe?
- Não me convém nada, vou ver o que posso fazer. Depois aviso.
- Devo avançar com as análises ao sangue? Não posso reter aqui a recolha feita mais do que durante umas escassas duas, três horas.
- Não sei.
- Não sabe? Quem sabe?
- Não sei. Quanto devo?
- Pague por favor na recepção.

Na recepção pagou a consulta e, manifestamente contrariada, as análises ao sangue.
E aqui vamos nós de volta ao presídio. Continuo com uma soneira ... Talvez venha novamente ao meu encontro a liberdade de sonhar.

Não sei se a sonhar se por telepatia ouço o que pensa a louva-a-deus a caminho de casa, as observações  do vet deixaram-na de rastos. Ou o homem é doido ou quer dar com ela em doida. Período muito prolongado de  contenção urinária ...
(sim, sim, e não sabe ele do sofrimento de imposição de espera pelo almoço colocado à minha frente, a pouco mais de um metro de distância do meu nariz, enquanto não recebo ordens para avançar),
... falta de convivência, o que é isto? quem se julga ele para definir o que é melhor para o equilíbrio psíquico, a confusão dos encontros ou a serenidade da contemplação em sossego dentro de portas? Melancolia ... Psicólogos ... Psiquiatras, aposto que este indivíduo, apesar de veterinário, nunca teve animais de companhia. Devia ter-lhe perguntado, mas não perde pela demora, pergunto na próxima. Na próxima? Mas por que há-de haver próxima, o paciente está velho, ameaça-me passar a molhar a partir de agora, o capacho todos os dias, em consultas, análises e o mais que se verá, ... não tenho dinheiro para tanto... Tudo contado, parece-me que a melhor saída é mesmo comprar uma cabine e deixá-lo à solta no jardim.
(Bravo!)
E talvez ele decida dar o salto e ir por aí fora por conta própria.
(Hum!Hum! Não sei se isto é sonho, telepatia ou desejo enorme)

Chegados a casa, o capacho foi metido no contentor do lixo, agora deito-me numa manta velha, muito usada em tempos por cima da relva quando havia idas até ao lago, mas aceitável. Já eram horas de almoço e, surpresa das surpresas, recebi ordens para avançar logo que a tigela foi colocada à minha frente. Mas não me apetece comer.
Vieram, mãe e filhas, tentar dar-me comida na boca! Mas não comi. Não por birra, que é mais fraca que a fome, mas porque me sentia enjoado, todas drogas têm efeitos colaterais, ouvi um dia o Urs dizer isso a um amigo, na altura não percebi, agora creio que sei o que é.
- O que tem ele, mãe?, perguntou a filha mais nova
- Tem melancolia, respondeu a filha mais velha.
- O que é melancolia?, insistiu a mais nova.
- Não sei, precisa de ir ao psiquiatra.
- E depois?
- Depois fica bom.
Não fui ao psiquiatra mas voltei ao veterinário. Devo ter lambido mais comprimidos que a conta porque no outro dia de manhã só não acordei molhado na manta porque a louva-a-deus desceu muito mais cedo que o costume, abriu-me a porta, deixou-me cá fora, e voltou para cima.
Com o ar fresco da manhã e o cheiro da terra, da erva, de tudo à volta, fiquei mais inebriado do que com a toma dos comprimidos na noite anterior e que, entretanto, já deviam esgotado o efeito. Alcei a perna em sítio que não era o meu, necessidades satisfeitas por agora, dei uma volta à vedação a ver se havia saída. Não havia, a única possibilidade de sair dali era saltar por cima da rede. Três tentativas, três insucessos e três esfoladelas no lombo.
O preço da liberdade é sempre elevado, ouvi o Urs dizer um dia a outro amigo, tenho de contar com isso para não desistir agora que lhe senti os custos mas também as vantagens de me soltar da coleira. Sentei-me junto à porta a aguardar que me mandassem entrar, o frio começou a arrefecer-me o corpo habituado ao ambiente aquecido no interior da casa, ainda apanho uma pneumonia, as feridas começavam a pedir tratamento, receava que a louva-a-deus reagisse mal, e  das duas, uma, ou me abria a porta das traseiras e me libertava pela porta da frente ou recolhia as amostras para análises e voltava ao vet. Não me libertou, fez uns curativos nas feridas. Almocei mais cedo que o costume, e, de barriga confortada, dormi toda a tarde.
Não voltei aos comprimidos, com a saída matinal a horas convenientes, a paparoca sem sofrimento de espera com ela à vista, uma semana depois voltei à consulta do vet. A recolha das urinas, segundo o folheto explicativo, redundou quase em desespero da louva-a-deus depois de lhe ter caído quase toda a micção fora do recipiente, demasiado estreito para quem não guia com a mão a direcção.
As análises não indiciavam qualquer maleita, como se tem portado o paciente, assim-assim, respondeu a louva-a-deus, que deu conta da ocorrência de feridas no lombo logo no primeiro dia em que, seguindo as sugestões do doutor, me tinha posto no jardim cerca das seis e meia da manhã durante meia hora, se tanto, a temperatura baixou bastante e ela ainda não tinha comprado a cabine.
- Não repetiu nos dias seguintes?
- O quê?
- A observação de mais feridas.
- Não.
- E quanto a comportamento, nota-lhe algumas alterações?
- Dorme todo o dia, penso que passa as noites acordado.
- Hum! Deve passar as noites a pensar ...
- A pensar o quê?
- Ah, isso não sei, nem tenho meio de saber. Mas que é estranho, que é interessante, lá isso é. As feridas parecem-me curadas. Se ele não voltou a tentar saltar a vedação ... Sim porque as feridas resultaram de tentativas desesperadas de fuga.
- Acha?
- Não vejo outra razão. Continuo a pensar que o paciente sofre de melancolia
(E ele a dar-lhe com a melancolia ..., pensou louva-a-deus) Falta-lhe convivência durante o dia e, por isso, dorme. Disse-me que ele não dorme de noite. Que indícios tem disso?
- Se dorme de dia ...
- Talvez não durma, talvez apenas esteja de olhos fechados pela tristeza de estar preso quase todo o dia. Ponha-se no lugar dele ...
- Quem, eu?
- É uma forma de dizer. Que faria se fosse obrigada a passar os seus dias num ambiente fechado sem possibilidade de conviver? A reacção dele não será significativamente diferente da de um preso numa cela onde mal se pode mexer. Não tendo mais que fazer, fecha os olhos e pensa. E parece que dorme, mas não dorme, regra geral congemina uma estratégia de fuga como qualquer preso que prese a liberdade.
- Acha isso?
- Se não achasse não dizia. Por que é que ele se arranhou na vedação? Pense nisso. O paciente sofre da ausência de convívio. Pelo que me disse concluo que também o seu relacionamento social, e o das suas meninas, é muito exíguo, o vosso mundo é muito pequenino. É feliz assim?
- Sou, sem dúvida.
- E as suas meninas?
- Felicíssimas!
- Óptimo. Toda a regra tem excepções. O nosso paciente é mais normal.
- !!!
- Não me interprete mal, por favor. Quando digo mais normal quero dizer mais em linha com o comportamento da generalidade dos indivíduos da sua espécie, que segue o comportamento padrão.
- Muito bem. Quanto lhe devo?
- Pela consulta de hoje não deve nada.

De volta a casa, dentro da gaiola, não sei porque me engaiola ela sempre que vamos de carro, o que pensará quem me vê? Que sou um supeito criminoso a caminho de julgamento ou um criminoso julgado culpado de volta ao presídio? É deprimente. Desta vez mantive os olhos bem abertos para reter imagens do trajecto. 
Está mais que decidido, tenho de sair desta clausura onde há mais de três ou quatro anos, já lhe perdi a conta, perde-se sempre a noção do tempo quando a vida é uma seca, estou condenado a envelhecer neste canto da casa, em paralisação forçada, uma condenação por crime nenhum. Tenho que sair daqui, de há uns tempos a esta parte, não me larga esta ideia, mas todas as hipóteses congeminadas em dias e noites a fazer contas e esquemas me embrenham num labirinto que, quase sempre, me conduzem a um recâmbio ao ponto de partida porque, lá está, o chip anda comigo e não é por muito me coçar que o estupor se avaria e a polícia fica sem saber quem sou. 
Mas tenho que sair daqui!
Quando der o salto, não sei quando nem como, mas acredito que um dia essa oportunidade passará por mim, tenho de conhecer as ruas das proximidades para escapar à perseguição da polícia quando eles forem informados da minha fuga ou,  mesmo sem essa informação, me encontrarem sozinho fora de casa. 
Vinha eu a matutar nisto na gaiola quando vejo, a uma distância de trinta metros, se tanto, no outro lado da rua onde a louva-a-deus costuma fazer as compras para a casa, aquele benza-o-deus que louva-a-deus quer destruir. A ele, a mim, às filhas, ... enfim, até o vet já percebeu o que se passa.
Durante o passeio antes do almoço, fujo. Só tenho que perceber melhor as ruas por onde praticamente não passa gente aquela hora. A  partir de agora, toda a atenção é pouca, logo que a oportunidade surja dou o salto.

Excitado com a ideia da fuga, esta noite passada não preguei olho e durante o dia senti-me molengão, se quero pôr-me ao fresco não posso ir para a voltinha antes de almoço sem os olhos bem abertos, portanto a fuga tem de esperar por melhor oportunidade. 
E se volto a não dormir esta noite? E na outra? E na outra? Se os comprimidos me meteram o vício no corpo, deverei lamber mais um ou dois para acalmar, dormir todo o sono em falta e ficar bem preparado para fugir quando for preciso? Hum! Lambo um ou dois? Ou três? É melhor experimentar dois, se um não resulta e tenho de tomar dois depois, gasto três, um rombo no stock da velha, que não sei quando volta, ... E se a fuga não resulta e fico sem droga?, .... é melhor lamber dois... 

... Está uma manhã linda, de sol por todo o lado, viemos dar a volta da manhã, o tempo está quente mas não muito, está um dia daqueles em que as meninas experimentam correr pelo caminho fora, e eu, ocasionalmente sem coleira, acelero a corrida, mas sou logo repreendido e intimado a voltar para trás, e volto, passo pelas meninas vezes que não conto, que também voltam a correr atrás de mim, e vou e volto, e vou e volto de cada vez mais longe, até ao limite do bosque, até que volto para embrenhar-me no bosque, de onde não volto. 
Vou aguardar por aqui o dia inteiro, os sentidos em alerta máxima, até que a noite chegue e esconda os meus passos no caminho até à casa onde reside nos últimos dois, três anos, o meu amigo. Sim, sei onde ele mora, estive lá um dia, um dia de Natal, o dia de Natal mais sombrio da minha vida.
Vou chegar lá, e bater à porta para lhe dizer, - suave milagre-, aqui estou!

- Milá! Milá! Milá! ...
- Milá! Milá! Milá! ...
- Milá! Milá! Milá! ...
... .... ... ... .... ... .... .
Chamam-me, mas o grupo não se separa, e eu corro no sentido contrário de onde ouço chamarem-me. Volto quando sinto que voltam para trás a caminho de casa. As meninas, agora, chamam por mim a chorar....

E eu a chorar acordo quando ouço a louva-a-deus a descer para o breve momento da minha higiene matinal.

Friday, February 01, 2019

Wednesday, January 23, 2019

ACERCA DO LIVRE-ARBÍTRIO


Porque tomamos certas decisões e não outras? O próprio termo ‘decidir’ é ambíguo, implicando que as ações resultantes são produto de uma faculdade chamada livre-arbítrio, ela própria mal definida. Filósofos e moralistas asseguram que a temos, e a nossa experiência pessoal parece confirmá-lo. No entanto, segundo alguns neurocientistas, entre os quais o autor do presente livro, isso poderá ser uma ilusão. Tantos fatores concorrem para tornar possível uma ação consciente que é legítimo especular se ela não é forçosamente determinada pela biologia, ainda que de momento não conheçamos todo o mecanismo por via do qual isso acontece. - Expresso de 19/1,  aqui 
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A propósito deste tema apontei algumas notas neste caderno de apontamentos. Por exemplo, aqui:
...
Só compreendo a idolatria por figuras públicas, frequentemente transitórias, como uma necessidade instintiva, talvez decorrente de  outra imposição dos  genes da espécie, nunca satisfeito com os deuses que fez crescer e multiplicar. 
E, afinal, somos cada um de nós, senhores dos nossos destinos? 
Ortega y Gasset afirmava que, cito de cor, o homem é ele e as suas circunstâncias.
Penso que  o homem é tão só a resultante que enfrenta no mar das circunstâncias em que é lançado no exacto momento em que, de entre muitos milhões de espermatozóides ejaculados, um atinge um óvulo que no período se soltou e ficou por pouco tempo à espera.
Einstein, provavelmente o expoente máximo dos limites atingidos pela inteligência humana nos tempos modernos, fez-se a ele mesmo ou foi apenas a resultante de um acaso primordial que lhe traçou o percurso durante toda a sua vida? O génio fez-se ou aconteceu por mero acaso? 
E o filho dele, o Eduardo, com esquizofrenia revelada aos vinte anos? Fez-se  ou resultou do momento primordial do acaso incontornável de um encontro entre muitos milhões possíveis?
Não, não há génios, há acasos incontornáveis. Escolher no mar das circunstâncias implica optar sendo que a resultado, sempre incerto da opção, é sempre condicionado pela resultante do acaso primordial... - ACERCA DE DEUSES E GÉNIOS

aqui:
...
O livre arbítrio é uma armadilha em que cada um pode cair consoante a fórmula dinâmica gerada no instante da concepção e das circunstâncias que defronta uma vez lançado no lago amniótico e depois no mar exterior. O homem, só em parte é um ser racional porque nunca se livra de alguns instintos primitivos comuns a todos os bichos. A alienação parental, por exemplo ... - NA CASA DO LOUVA-A-DEUS

Casualmente, tinha lido há dias em "Uma História de Amor e Trevas" de Amos Oz,: ... 

"Ela (a mãe de Amos Oz) escreveu-me (à sua irmã) aproximadamente o seguinte: que a hereditariedade, tal como o meio ambiente onde crescemos e a classe social, são cartas que nos distribuem às cegas antes do início do jogo. Aí não há liberdade nenhuma: limitamo-nos a receber  o que o mundo nos dá arbitrariamente. Mas, ...., a questão é o que cada um de nós faz das cartas que recebeu? Pois há quem jogue de forma excepcional com cartas não muito boas, e há quem faça precisamente o contrário - esbanjando e perdendo mesmo com cartas maravilhosas! Eis ao que se resume a nossa liberdade: Jogar com as cartas que recebeu. Mas, ..., a forma como jogamos depende, ironicamente, da sorte de cada um, da paciência, da inteligência, da intuição e da audácia, virtudes essas que também dependem das cartas que nos distribuem, sem que nos perguntem nada. E sendo assim, o que é que nos resta da tal liberdade de escolha?
Não muito, ... , talvez apenas a liberdade de rir ou de chorar da nossa situação, de jogar ou não, de tentar compreender as implicações ou de desistir de o fazer, em resumo - temos a possibilidade de escolher entre passar a vida despertos ou apáticos. "

Ou nem isso, penso eu. Quem nasceu para apático pode não chegar a despertar.
Mas que ninguém confunda esta afirmação com determinismo ou fatalidade. A sorte não se deita sempre para o mesmo lado.
Cada sujeito navega do lago amniótico, onde começa por defrontar circunstâncias que não domina,  para o mar das circunstâncias exteriores onde o seu percurso é influenciado por circunstâncias fortuitas e pelas capacidades (pelas cartas) que recebeu, não escolheu, à partida. 

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“Comportamento” vem ocupar um lugar nessa intersecção de ciência e filosofia. O autor,  Robert Sapolsky, é um cientista importante e divulgador de ciência, com uma combinação de especialidades no mínimo original. Além de neurobiólogo, dedica-se ao estudo de babuínos no Quénia. Em particular, interessam-lhe os efeitos do stresse nos babuínos, o que parece ser um tema com grande potencial de extrapolação para os humanos. Sapolsky explica que os babuínos só precisam de trabalhar três horas diárias para ganhar o seu sustento, ficando com grande parte do dia livre para chatear — “conspirar, lutar e difamar” — os outros babuínos.

Os paralelos vão mais longe. “A agressividade deslocada induzida pelo stresse (ou pela frustração) é generalizada em várias espécies”, escreve Sapolsky. “Entre os babuínos, quase metade das agressões é desse tipo: um macho de alto nível hierárquico perde uma briga e persegue um macho subadulto, que prontamente morde uma fêmea, que então investe contra um filhote (...) Quanto mais um babuíno tende a descontar a sua agressividade depois de perder uma briga, menores são os seus níveis de glicocorticoides”.

Ele tem o cuidado de notar que os humanos são especialmente dados a esse tipo de reação, como se vê pelos aumentos de violência familiar em recessões económicas ou após uma derrota desportiva. A tendência humana para agredir os outros como reação à frustração é facilitada pela enorme quantidade de objetos de desejo e de ódio que a nossa sociedade gera. O papel das ideias na criação de miséria humana é explorado em vários capítulos, incluindo um intitulado “Nós Contra Eles”. “Metáforas pelas Quais Matamos” é igualmente sugestivo.

Interessantes como essas partes são, elas constituem apenas uma fração da história. “Comportamento” tem como objetivo pôr em relevo as causas diretas e remotas de uma ação humana, desde aquilo que se passa há um segundo no cérebro — e há segundos ou minutos no ambiente à nossa volta — até evoluções que aconteceram ao longo de séculos, quando a sociedade em que vivemos foi adquirindo as características distintivas. Ou há milénios, quando se produziram mudanças irreversíveis na paisagem da Terra. Ou antes do nascimento.

Cada uma dessas coisas teve efeitos sobre o cérebro. É lá que todos os elementos e momentos da história confluem, e é ele o verdadeiro centro do livro. As revelações são tais que nos levam a questionar que margem de escolha pessoal resta numa ação humana — uma dúvida com implicações, por exemplo, na justiça criminal. Se concluirmos que o livre-arbítrio de facto não existe, como justificar uma pena de prisão? Ignorar o papel da biologia num crime pode ser arbitrário, mas ainda o é mais afirmar que ela elimina a culpa — a razão do castigo enquanto tal, para além do seu efeito dissuasor. A compreensão atual das decisões humanas não atingiu um estado de perfeição que nos consinta dar esse passo.

Para quem tiver nem que seja uma curiosidade residual sobre os assuntos deste livro, um aviso: se começar a ler, arrisca-se a ter de adiar os seus planos para o serão. “Comportamento” explica matérias complexas de uma forma tão clara, segura e sensata, e ao mesmo tempo tão naturalmente coloquial, que consegue tornar agradável aquilo que noutros autores poderia soar obscuro.

No capítulo “De Volta ao Berço, de Volta ao Útero”, bastam duas meias páginas para descrever uma versão do Inferno quando se fala dos orfanatos romenos em 1989. “O que acontece quando tudo dá errado — nenhuma mãe ou família, interação mínima com os pares, negligência emocional e cognitiva e mais um pouco de subnutrição? (...) Como adultos, esses órfãos são em grande parte aquilo que se esperaria: têm baixo Q.I. e habilidades cognitivas deficientes; dificuldades para estabelecer relações, muitas vezes beirando o autismo; ansiedade e depressão em abundância.”

“Há redução do tamanho cerebral total”, continua o texto, “nas substâncias cinzenta e branca, no metabolismo cortical frontal, na conectividade entre as regiões e no tamanho das áreas individuais do cérebro. Exceto pela amígdala, que é aumentada. Isso basicamente diz tudo”. A amígdala é a parte do cérebro mais envolvida no medo e na ansiedade. E também na agressão.

AS VÍTIMAS DA CAIXARROTA


No Público de hoje, em artigo que transcrevo aqui, o articulista, considera que a "auditoria da CGD já fez vítimas entre gestores da banca."

Se eles são vítimas, os bandidos, os malfeitores, os criminosos, os culposos, os delituosos, somos nós?
Aparte a paralaxe do articulista no título, vale a pena a transcrição para uma antologia da pulhice banqueira em Portugal.

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Auditoria da CGD já fez vítimas entre gestores da banca
As decisões de gestão que estiveram na origem de perdas significativas no banco público, e que foram identificadas na auditoria da EY, já tiveram consequências para alguns dos banqueiros visados. Ministério Público investiga mas ainda sem arguidos.

Pedro Ferreira Esteves 

23 de Janeiro de 2019, 6:00  

Os gestores do banco público aprovaram, entre 2000 e 2015, financiamentos de centenas de milhões de euros apesar dos riscos identificados pelos directores as operações. E fizeram-no dezenas de vezes, ao longo de várias lideranças. Esse diagnóstico foi feito pela consultora EY na auditoria independente à gestão do banco público, que identificou perdas de mais de mil milhões de euros para as contas da Caixa Geral de Depósitos, só até 2015. O documento já chegou às autoridades, quer de supervisão (Banco de Portugal), quer judiciais (Ministério Público). E já teve consequências, nomeadamente o afastamento de dois nomes das listas de cargos na banca para os quais tinham sido escolhidos.
Fonte oficial do supervisor da banca, questionada sobre os efeitos que a auditoria da EY já teria tido, sintetizou ao PÚBLICO que “o Banco de Portugal tem em atenção toda a informação relevante para efeitos de supervisão prudencial”. No âmbito da supervisão prudencial, o Banco de Portugal (BdP) e o Banco Central Europeu (BCE) avaliam, entre outras questões, a idoneidade dos gestores nomeados para cargos de topo nos bancos, através de um mecanismo designado de fit and proper (Avaliação e Adequação). E foi nesse âmbito que a auditora da EY já teve consequências.



O antigo administrador da CGD, Pedro Cardoso, que fez parte da administração da Caixa no período em que a auditoria identificou mais problemas, entre 2007 e 2012, estava na calha para ser o novo presidente-executivo do Bison Bank, a instituição que sucedeu ao Banif Investimento. Segundo noticiou o Jornal Económico, há poucos dias, o seu nome caiu por não ter passado no crivo de idoneidade aplicado pelas autoridades de supervisão, nomeadamente o BdP e o BCE (através do Mecanismo Único de Supervisão).

Outro nome envolvido em decisões de idoneidade por parte destas entidades é o do Norberto Rosa, que estava na lista da equipa de Miguel Maya para liderar o BCP e que ficou meio ano à espera da luz verde dos reguladores, acabando por cair no final do ano passado, sem qualquer chumbo explícito, mas também sem autorização, segundo noticiou o Jornal de Negócios. Rosa foi, antes, integrar a equipa directiva da Associação Portuguesa de Bancos, presidida há vários anos por Faria de Oliveira, que liderou a equipa da Caixa que integrava Norberto Rosa.

Risco ignorado
Em causa estão decisões tomadas contra o parecer técnico da Direcção Global de Risco (DGR) do banco, reveladas pela auditoria da EY, cuja versão preliminar foi divulgada pela ex-deputada do Bloco de Esquerda, Joana Amaral Dias, na CMTV, e citada esta terça-feira por vários órgãos de comunicação social.

Segundo o documento – não oficial e que teve outras versões, nomeadamente uma versão final que já foi enviada para diversas autoridades em meados do ano passado -, foram identificadas operações de crédito cuja aprovação foi tomada exclusivamente pela administração, sendo que essa situação aconteceu em 7% dos casos relativos a grandes devedores, ignorando a avaliação de risco obrigatória nestas operações. Adicionalmente, 21% dos empréstimos aprovados foram-no sem recurso a qualquer apoio técnico. Há casos ainda de créditos sem garantias ou com falta de informação ou de dados técnicos. Na auditoria pode ler-se que várias operações problemáticas foram “aprovadas com parecer de análise de risco desfavorável, não se encontrando documentadas as justificações para a tomada de risco contrária ao parecer” da DGR.
O antigo presidente da Caixa, Fernando Faria de Oliveira, explicou, à RTP3 que “o conselho de crédito dá pareceres que não são vinculativos. Os conselhos de crédito abrangem um número muito grande de pessoas. Os assuntos são discutidos, toma-se uma decisão final e que eu me lembre nunca houve uma declaração de voto mesmo da área de risco em relação às decisões tomadas”.
Faria de Oliveira liderou a Caixa no período em que a auditoria da EY é mais negativa no cumprimento das regras de avaliação de créditos, em especial entre 2007 e 2012. Até 2008, o presidente do banco foi Carlos Santos Ferreira, antecedido por António Sousa, cuja gestão também é visada pelos consultores. José Matos fecha o período de análise da auditoria. Todos revelaram, segundo a EY, problemas relacionados com o cumprimento das regras de concessão de crédito.
Os casos de maior dimensão identificados pela auditoria dizem respeito a sete financiamentos de elevados montantes, entre os quais se destacam as perdas relacionadas com a Artlant (fábrica da antiga La Seda em Sines), Quinta do Lago e Birchview. Mas também são identificados problemas com a concessão de empréstimos à Investifino, de Manuel Fino, Finpro, sociedade de investimento de Américo Amorim e Banif, bem como às sociedades de Joe Berardo, entre a Fundação Berardo e a Metalgest. Neste grupo de grandes devedores, os financiamentos ascenderam a mil milhões de euros, com perdas reconhecidas, em 2015, de 580 milhões de euros.


Ao todo foram descobertas 64 operações que não cumpriram as regras de concessão de crédito, num universo total de 200 empréstimos avaliados em quase três mil milhões de euros. As perdas sofridas pela Caixa na sequência do reconhecimento das imparidades registadas nestes créditos ultrapassaram os 1,2 mil milhões de euros, mas só até 2015, o último exercício analisado pela EY. No entanto, o impacto negativo no banco público foi superior, dado que a grande parte das perdas só foram reconhecidas nas contas a partir de 2016, no âmbito da recapitalização com dinheiros públicos que ascendeu a 4,9 mil milhões de euros.
Refira-se ainda que a versão preliminar da EY divulgada só se debruça sobre uma das partes da auditoria, a da concessão problemática de créditos. Isto porque a consultora também avaliou outras práticas da gestão, nomeadamente a evolução dos investimentos financeiros – onde se encontra a desvalorização da participação no BCP, por exemplo, que gerou perdas de 559 milhões de euros devido à queda das acções -, mas também as apostas estratégicas do banco, onde se destaca o negócio em Espanha, que foi acumulando prejuízos ao longo dos anos até ser vendida, no final de 2018, por 364 milhões.
O documento aborda ainda a questão dos prémios e salários dos gestores, em especial no período 2000-2008, durante o qual “não foi obtida evidência dos princípios orientadores para a remuneração variável aplicada, concluindo-se que as decisões foram tomadas de forma avulsa”. “Mesmo perante resultados negativos foi decidido atribuir remuneração variável e emitido voto de confiança”, lê-se no relatório da auditoria.
A consultora revelou também que “o volume de imparidades [quando a quantia recuperável é inferior à quantia escriturada] da CGD evoluiu de 46,9% em 2013 para 58,1% em 2015” no sector da construção e imobiliário. Os restantes bancos todos apresentaram a situação inversa, reduzindo as imparidades na concessão de crédito às empresas deste segmento, concluiu a auditoria. Uma circunstância que decorre do facto de a Caixa só ter recebido o apoio público em 2016 que lhe permitiu começar a reconhecer e a limpar as perdas, ao passo que o resto da banca iniciou mais cedo esse processo na sequência do apoio dado com a chegada da troika. 


Investigação sem arguidos

A auditoria da EY chegou à Procuradoria-Geral da República (PGR) em Julho do ano passado e, segundo explicou esta terça-feira fonte oficial da entidade ao PÚBLICO, o caso ainda não tem arguidos constituídos, tendo sido "junto a um inquérito já existente a correr termos no DCIAP". O Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) tem em curso, desde Setembro de 2016, uma investigação à concessão de créditos sem garantias a 100 dos maiores credores do banco, que podem constituir práticas criminosas de "administração danosa", entre outros crimes.
Segundo noticiou o Negócios em Julho do ano passado, o Ministério Público suspeita de uma "intencional prática de favorecimento de determinados agentes económicos em detrimento de outros" e de uma omissão "deliberada" sobre o incumprimento em determinados créditos. Esta investigação arrancou durante a breve passagem de António Domingues pela presidência CGD. 

A PGR explicou ainda, através de fonte oficial, que "muito recentemente foi recebido na Procuradoria-Geral da República, um pedido, proveniente da Assembleia da República (Comissão de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa), de acesso ao referido relatório [da EY]. A solicitação foi encaminhada para análise no âmbito do processo respectivo". Isto na sequência da repetida recusa dos responsáveis da Caixa de fornecer a lista dos maiores devedores do banco durante a comissão parlamentar à gestão do banco público, alegando sigilo bancário e segredo de justiça.

O Ministério das Finanças, entretanto, referiu, esta terça-feira, ter pedido à administração da Caixa Geral de Depósitos, quando a auditoria foi entregue à equipa de Paulo Macedo, em meados do ano passado, que tome "todas as diligências necessárias para apurar quaisquer responsabilidades" nos actos detectados pela auditoria e adopte as "medidas adequadas" para defender o património do banco. Segundo explicou fonte oficial da Finanças ao PÚBLICO, o executivo deu instruções à CGD para que o relatório “fosse remetido ao Banco de Portugal e ao Mecanismo Único de Supervisão do Banco Central Europeu, bem como a outras autoridades judiciais, de inspecção, de supervisão ou em matéria tributária, caso os elementos do relatório se afigurassem relevantes para o exercício das suas atribuições”.
O Ministério das Finanças garante, em conclusão, que "continuará a acompanhar este tema, tendo transmitido ao Conselho de Administração da CGD a necessidade de tomar as medidas adequadas para a defesa da situação patrimonial" do banco.

 *com Liliana Borges e Lusa

Thursday, January 17, 2019

HORS D´OEUVRE PARA UM CONSELHO


Servidos, como é habitual, pelo MP. 

revista Sábado escreve que Luís Montenegro é suspeito de ter falsificado documentos que serviam de prova à forma como pagou — e quando pagou — as viagens que fez a França para assistir a jogos do Europeu de Futebol de 2016, que Portugal venceu. Além do ex-líder parlamentar do PSD, que agora protagoniza um desafio à liderança do partido, também Hugo Soares e Luís Campos Ferreira são suspeitos do crime de falsificação.   As informações avançadas esta quarta-feira pela revista (que só estará nas bancas esta quinta-feira) dão conta de alegadas irregularidades no pagamento das viagens, no verão de 2016. A suspeita do crime de falsificação consta de um despacho da juíza Cláudia Pina, que chegou à Assembleia da República em junho do ano passado, numa altura em que Montenegro já tinha abdicado do seu lugar no Parlamento. (cf. aqui)

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- O Rui Rio se não cair hoje cai amanhã, depois das eleições europeias. 
- E se perder hoje, o Montenegro ganha-as?
- Não sei. Espero que sim. Pelo menos promete fazer uma oposição mais combativa. O Rio não tem feito oposição que se veja.
- Mas seria mais eficiente gastar desde já os cartuchos ou aguardar a proximidade da campanha eleitoral?
- Tem de gastar já algumas munições, depois será tarde demais. Tem de fazer-se ouvir.
- No Reino Unido, Jeremy Corbyn fala que se farta e, perante um governo ameaçado pelo partido que o sustenta, que tem conseguido?
- Os trabalhistas britânicos estão muito divididos ...  
- Tal e qual o PSD, não?


PARA UMA ANTOLOGIA DA PULHICE POLÍTICA À PORTUGUESA



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Recorde-se que a primeira grande polémica em que Armando Vara esteve envolvido ocorreu há quase 20 anos, com a famosa Fundação para a Prevenção e Segurança (FPS). Nos saudosos tempos de Guterres, em que se abriam fundações a pontapé para esturrar dinheiro fora do perímetro do Estado e alargar os jobs for the boys, a FPS tinha a grande missão de pôr de pé cartazes de prevenção rodoviária. Para isso, abocanhou logo dois milhões, uma quinta (de Santo António, na Pontinha) e um forte (de São João da Cadaveira, no Estoril). Autores da façanha: o ministro Armando Vara e o secretário de Estado Luís Patrão, que de caminho encheram a FPS com assessores seus. Com as notícias da fundação a enxamearem os jornais, Vara e Patrão foram obrigados a sair do governo, com um empurrão de Jorge Sampaio. Sobre eles, disse o então Presidente da República: “Há comportamentos que são politicamente inaceitáveis num Estado de Direito.”
Mas são mesmo? Em 2005, Sócrates borrifou-se para o passado de Vara e ofereceu-lhe um lugar na administração da CGD. E o mesmo Sampaio que impôs a sua saída em 2000 condecorou-o, em Abril de 2005, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, pelos serviços prestados à pátria – condecoração essa que é agora retirada com a sua condenação. Portugal é um país giro. Armando Vara está preso. Falta apenas tudo o resto.

Sunday, January 13, 2019

DIFÍCIL É MANTÊ-LOS


Sobreiros que Costa plantou no Pinhal de Leiria secaram.
Saiba porquê aqui.

Mas não é difícil adivinhar. Sobreiro não é espécie que aprecie os solos e o clima onde há séculos foi semeado o pinhal de Leiria. Pode vingar debilmente um ou outro exemplar fora do seu ambiente natural mas plantar sobreiros naquele local só por cega teimosia de alguns que julgam que a sustentabilidade da floresta em Portugal e a redução do risco de incêndio se conseguem com a plantação de árvores de crescimento lento. 
Não sabiam aqueles que sugeriram ao primeiro-ministro que plantasse uns poucos sobreiros ali que, muito provavelmente, as plantas não iriam vingar? Ou a ideologia superou, também desta vez, a razão?

Plantar é fácil, difícil é garantir a sustentabilidade do que é plantado.
Este caso dos sobreiros não é raro mas, pelo contrário, muito paradigmático da demagogia que os governos usam para caçar votos e regalar os empreiteiros. Feito o investimento, o pagode arregala o olho, e se, como geralmente acontece, por falta de manutenção a obra se deteriora ou apodrece, quem é que é responsável por isso? Os exemplos multiplicam-se sem conta na generalidade dos investimentos públicos. 

Tuesday, January 08, 2019

EMEL



- ...
- Ligou para a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária...
- Bom dia! Ligo porque apresentei reclamação há quase 2 anos e continuo sem resposta.
- Qual é o número do processo?
- 119 ... ...
- ... Pois, o processo ainda não teve qualquer seguimento. Por lei, os serviços têm 2 anos para responder.
- Mas para 2 anos faltam 2 meses, e o processo, segundo me informa, não teve, até agora, qualquer seguimento. Se, passados 2 anos, nenhuma resposta me for dada, que devo fazer?
- Deve reclamar...
- E aguardar mais 2 anos?
- ... Pois ... não consigo informar mais nada.    


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ANSR – AUTORIDADE NACIONAL DE SEGURANÇA RODOVIÁRIA
Parque de Ciências e Tecnologia
Avenida de Casal de Cabanas, Urbanização de Cabanas Golf, 1, TagusPark
2734 – 505 Barcarena
                                                                     Assunto: Auto .....
                                                                                       EA .....
..., 29 de Maio de 2017

Relativamente ao assunto em referência, solicito a vossa atenção para o seguinte:
- No dia 10 de Março de 2017 estacionei a viatura ..., de que sou proprietário, na Alameda Cardeal Cerejeira
- Paguei o estacionamento e coloquei o comprovativo no tablier da viatura em local visível. O comprovativo refere que o pagamento, 3 euros, foi efectuado às 15:51 h e que o estacionamento ficou pago até às 18:21. (cópia do documento em anexo)
- Quando voltei, observei que tinha um envelope vermelho no para-brisas e dentro do envelope uma notificação de que tinha sido multado às 16:42 h, quase duas horas antes do termo da duração do estacionamento pago. (cópia do documento em anexo)
- No dia seguinte, 11 de Março, dirigi-me à Loja do Cidadão nas Laranjeiras, onde me identifiquei com o cartão de cidadão e a carta de condução, e mostrei à funcionária o comprovativo do pagamento e a notificação da multa. Foi-me sugerido que preenchesse formulário de reclamação, e juntasse cópia dos comprovativos. Recebi cópia do formulário entregue, com carimbo de recepção da Emel e rubrica da funcionária. (cópia do documento em anexo)
- No dia 23 de Maio, recebi, datada de 24 de Abril, da Emel carta registada com aviso de recepção notificando-me que “ Pela presente notificação fica a saber que – É acusado da prática de factos que constam da descrição sumária (Estacionou em zona de estacionamento de duração limitada sem efectuar o respectivo pagamento) …” (cópia do documento em anexo)
- Nesse mesmo dia telefonei para a ANSR, depois de ter tentado, sem resultado, falar com a Emel pelo telefone. Expus a minha estranheza a quem, na ANSR, me atendeu. Disse-me que o processo ainda não tinha chegado à ANSR e recomendava-me que enviasse exposição para a ANSR.
-  No dia seguinte, 24 de Maio, recebi carta datada de 14 de Maio, (cópia em anexo) da Direcção de Institucionais e Cidadania, informando que “analisada a situação exposta, informamos que o veículo ( ) foi autuado em virtude de não se verificar o pagamento da tarifa de estacionamento …” … e que para seguimento do processo queira ( ) fornecer os elementos necessários ao levantamento do Auto de Contra Ordenação (nome, morada, cartão de cidadão e carta de condução)”. Todos estes elementos estavam na posse da Emel desde 11 de Março, conforme prova atrás referida.
- Confundido sobre a quem me deveria dirigir para expor a minha contestação, se à Emel se à ANSR, telefonei para a ANSR porque, também desta vez, não consegui contactar a Emel pelo telefone. Respondeu-me quem me atendeu na ANSR que, como o processo ainda não tinha chegado à  ANSR, deveria expor o assunto à Emel.  Foi o que fiz no dia 24 de por carta registada com aviso de recepção. (cópia do documento em anexo )
- Hoje, 29 de Maio, consegui, após longo tempo de espera, falar pelo telefone com Ana Pires, da Emel, tentando confirmar se a exposição por mim enviada tinha sido dirigida a quem devia (Emel ou ANSR). Depois de algum tempo de espera, respondeu-me a funcionária que “deveria expor o assunto à ANSR”. Esta informação deve estar gravada porque, logo no início, me foi perguntado se autorizava a gravação. Esta a razão pela qual me dirijo agora à ANSR.
- Mas como não devo nada a ninguém, nunca devi nada a ninguém, para além da amizade dos meus amigos, sinto-me desconfortável com uma situação que, provavelmente é vulgar, mas para mim é original. De modo que esta manhã paguei na Caixa Multibanco os 30 euros a que se refere a notificação do autuante usando as indicações constantes da carta registada com aviso de recepção que recebi a 23 de Maio. (cópia de documento em anexo)
- Quero que fique muito claro que este pagamento não reconhece qualquer dívida à Emel pelo que fico a aguardar o reembolso da importância que paguei.

Atentamente
...