Monday, June 19, 2017

À ESPERA DE UM ACIDENTE AINDA MAIS GRAVE?

Quando lamentamos a perda de vidas, carbonizadas, apanhadas numa emboscada de fogo incontrolado, lê-se hoje no Público que 
Trata-se do quarto incidente com este tipo de aparelho em Junho.

Até quando vão as autoridades responsáveis consentir que estas transgressões à lei continuem impunes? 
Até quando esperam que a sorte nos proteja de uma pavorosa tragédia sobre Lisboa ou Porto?

FOGO!, GRITARIA O CERCOPITECO

O que tem a linguagem humana de tão especial relativamente às formas de comunicação dos outros animais? Há 70 mil anos "um cercopiteco podia gritar aos seus camaradas "Cuidado! Um leão", mas um ser humano ( ) podia, (na mesma altura)  dizer aos seus amigos que, naquela manhã, perto da curva do rio, viu um leão a seguir uma manada de bisontes. Podia descrever a localização exacta, incluindo os diferentes caminhos que conduzem a essa área. Com tal informação, os restantes membros do bando podiam reunir-se e debater se deviam aproximar-se do rio para afugentar o leão e caçar os bisontes" - História Breve da Humanidade - Árvore do Conhecimento / Yuval Noah Harari

Leio aqui (notícia de 10/11/2016)  que "vão ser instalados sistemas de videovigilância de prevenção de incêndios a partir de 2017 e que esta instalação estará concluída em 2019" mas que "até à instalação, entrada em funcionamento e teste real dos primeiros sistemas (de vídeo vigilância), a rede nacional dos postos de vigia não será alterada. Os postos de vigia são da responsabilidade da GNR e durante a fase crítica em incêndios florestais estão a funcionar 236."

A GNR, entidade coordenadora das acções de vigilância, detecção e fiscalização no âmbito do sistema nacional de defesa da floresta contra incêndios, conhecedora do elevado grau de risco de incêndio da mancha florestal na área em que perderam a vida 62 pessoas e quase centena e meia ficaram feridas, tinha certamente instalados postos de vigia naquela zona.

Se assim for, e não vejo razão nenhuma para que não seja, volto à pergunta que ontem me assaltou quando ouvi a notícia na Antena 1 e que anotei aqui: "se havia gente nos postos de observação de fogos, activos e atentos, quando o fogo deflagrou, se observaram o início e a progressão do fogo foram avisadas imediatamente, entre outros, as entidades que poderiam ter encerrado as entradas nos fornos crematórios em que, provavelmente, se iriam transformar as principais comunicações rodoviárias naquela área?" 

Esta a questão chave que não pode deixar de ter uma resposta. 
Porque até um cercopiteco sabe, por uma questão de sobrevivência, avisar o grupo "Cuidado! Fogo!". 
Porque hoje a tecnologia de comunicações disponível, desde os satélites até aos telemóveis, passando pelos media capazes de comunicar em tempo real, rádio e televisão, constituem uma parafernália de alcance quase inesgotável.  
E, no entanto, quando as estações de rádio e televisão iniciaram a transmissão de notícias já o fogo estava incontrolado, tinha assaltado as comunicações rodoviárias, as vítimas já tinham caído na emboscada do crematório. 


David Dinis, director do Público brinda-nos em cada manhã com a oferta de um resumo das ocorrências, aqui e no mundo, "enquanto dormimos". Esta manhã, a propósito das 62 vidas caídas anteontem perguntava Porquê? a iniciar o que, para memória futura, transcrevo a seguir. 
Interrogo-me porquê entre um número muito significativo de jornalistas ou colunistas parece escapar a pergunta que considero mais pertinente: A informação que podia ter poupado tantas vidas e permitido uma estratégia de ataque ao fogo, falhou. Porquê?
Por que é que os media, tão disponíveis para transmitir horas e horas e horas seguidas as mesmas imagens de horror não anteciparam o que era altamente provável - não há verão sem incêndios, sabia-se que as temperaturas iam atingir níveis elevados e aquela mancha florestal é das mais sensíveis - não se colocaram alerta e a postos para saberem notícias junto de quem tem responsabilidades pelos postos de vigilância, detecção e fiscalização no âmbito do sistema nacional de defesa da floresta contra incêndios. 

Há responsáveis. Não nos façam crer do contrário.





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Porquê? 

 Porquê? Pelo menos 62 vezes "porquê?". Andamos há anos e anos — 50 anos pelo menos — a ouvir os especialistas dizer a mesma coisa. Todos os anos perguntamos, todos os anos nos respondem que agora vai ser diferente. Nunca é. Porquê? 


Como escreve a Ana Fernandes, no texto que lança o nosso trabalho sobre Pedrógão, que é também sobre a maior das nossas tragédias, os incêndios: “Não há rigorosamente nada de novo a dizer. Já tudo foi estudado, explicado e escrito na última década e meia. Houve comissões para todos os gostos e feitios. E foi feito muito trabalho sério. Faltou tudo o resto.” E de novo perguntamos: porquê?
Na procura das respostas a esse porquê, é preciso começar por este texto: "O que é que falhou neste sábado? Tudo, tal como falha há décadas". E é preciso seguir caminho pelo Pinhal Interior (colonizado pelo eucalipto), para perceber melhor o que escreve o Manuel Carvalho ("Um desastre a interpelar o nosso futuro"), a pergunta de Henrique Pereira dos Santos ("Imprevisível?"), a de Fernando Santos Pessoa (“Estás a ver no que dá terem acabado com os Serviços Florestais?”) ou estas respostas de Paulo Fernandes às nossas primeiras dúvidas ("O mínimo era que encerrassem estradas a tempo e horas"). As nossas dúvidas não acabam: como lidar com os campos ao abandono? E teria sido possível evitar esta tragédia? 
E vamos ter que voltar atrás, às horas mais terríveis, para respondermos ao porquê: hora a hora, em Pedrógão, como foi? E ler também o que é a trovoada seca, que se diz ter sido o causador do incêndio. Mas o nosso "porquê" continua aceso. Porque não chega um raio seco para explicar como aquela imensidão de território passa do paraíso para este inferno, visto pelas lentes do Paulo Pimenta. Para explicar o que viu e ouviu a Patrícia Carvalho ("Começou a chover lume e Dora pediu a Dulce que lhe levasse os filhos para os salvar"), a Sandra Rodrigues e o Adriano Miranda (“Num segundo as chamas estavam a quilómetros, noutro já estavam em cima de nós”), ou a Liliana Valente ("não têm casa por uma noite ou não têm casa de todo?").
Na sua hora mais triste, o país juntou-se para ajudar os sobreviventes. A entreajuda, de que fala o Rui Tavares, aconteceu em tal dimensão que a ministra já veio pedir para que não se mande mais comida. Mas não é só de alimentos, que as famílias e bombeiros precisam: ainda há muito que podemos fazer , antes mesmo de nos dedicarmos a "devolver ao mundo a sua normalização", como explica o Márcio Berenguer, com a ajuda dos que ajudaram a recuperar dos incêndios na Madeira, no Verão passado.
Com o país de luto face à tragédia, com o Presidente a pedir que se adiem as "interrogações", nós continuaremos por aqui. A registar as primeiras páginas (nossas e as de lá de fora), a anotar textos na concorrência que vale a pena ler, a acompanhar tudo ao minuto. A fazer a pergunta que tem muitas perguntas dentro: "porquê?". Porque já são anos demais a fazer o luto. Porque não podemos repetir a mesma pergunta outra vez. Porque só assim Portugal poderá, sem medo nem vergonha, voltar a olhar-se ao espelho. Porque é esta a nossa missão: fazer perguntas, até que alguém nos responda.

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Dúvidas, muitas dúvidas sobre Pedrógão (e o que vem de trás)

Voltando à pergunta de ontem, já com as primeiras respostas:
Porquê?
Por que é que estivemos tanto tempo parados? Conta-nos a Maria Lopes hoje que o Plano contra incêndios não é avaliado há quatro anos - e que o último andou perdido até ela fazer perguntas ao Governo. Acrescenta ela que hoje será publicado o último desses relatórios, relativo ao ano de... 2012 (e que todos os outros terão sido pedidos por estes dias). Mas há mais: as novas leis para proteger a floresta (e afastar o eucalipto) estão presas na Assembleia desde Abril - e já não vão ser aprovadas antes de os deputados irem de férias (essa história também está aqui).
Entretanto, a 
área ardida deste ano já é 12 vezes superior ao mesmo período de 2016. E o incêndio de Pedrógão já é o maior de sempre em Portugal. E o ministro da Agricultura, o que fez ontem foi isto: anunciou 20 novas equipas de sapadores florestais, que já tinha prometido em 2016.
Por que é que isto aconteceu em Pedrógão? O Governo reconheceu ontem à noite que pediu uma investigação sobre algumas falhas prováveis no terreno, no último sábado: a falha no sistema de comunicações, que ainda nem está a funcionar; e a falha no fecho de estradas, que chegou tarde demais.
Mas há outras questões que precisam de respostas claras. Dois exemplos: será verdade, como dizia o Expresso de ontem, que Marcelo foi para o centro de operações e 
o encontrou num caos? Como é que se explica que o IPMA não tivesse registo de trovoadas no sábado? Politicamente, disse ontem o líder do PSD, chegará o momento em que as perguntas também vão ser feitas. A nós, jornalistas, cabe a tarefa de as fazer desde já.
64 vezes porquê. Tantas vezes quanto o número das vítimas que Pedrógão fez. Mais do que essas, porque há histórias de sobreviventes que serão sempre vítimas, como Mário - o homem que mandou a mulher e as filhas fugir do fogo e as viu morrer (“Por que é que eu me fui salvar?”, conta ele à Natália Faria, no início de uma reportagem que nos deixa a chorar por dentro). E porque há nomes e histórias por trás dos números das vítimas de Pedrógão Grande, que começamos agora a conhecer. 
É por isso que, no Editorial de hoje, deixamos sete perguntas que vamos repetir até termos as devidas respostas. Porque não é por memória às vítimas que o jornalismo deve fazer silêncio - é por honrar a sua memória que não se pode calar.
Sobre esta tragédia que vai demorar a sair das nossas vidas, vale a pena ler também a Opinião que aqui temos: o "Basta!" de Bagão Félix, as "Notas dos e nos dias da devastação" de Paulo Rangel; o "Começar do zero" do Miguel Esteves Cardoso; o pedido de João Camargo para "Tirar a floresta das mãos do eucalipto"; e o do João Miguel Tavares: "Deixem-se de lágrimas de crocodilo". E também a nota do António Guerreiro sobre "As vítimas dos incêndios e da televisão".
A informação continua a ser actualizada, minuto a minuto, neste texto - acreditando a Protecção Civil que o incêndio será dominado em 24 horas. O registo das últimas 36 horas ficará aqui, para memória futura.


Sunday, June 18, 2017

TERIA SIDO POSSÍVEL EVITAR UMA TRAGÉDIA TÃO GRANDE?

Quando, esta manhã, ouvi a notícia da tragédia perguntei-me se não havia gente nos postos de observação de fogos, activos e atentos, quando o fogo deflagrou a meio da noite. E se, tendo observado fogo, foram avisadas imediatamente, entre outros, as entidades que poderiam ter encerrado as entradas nos fornos crematórios em que, provavelmente, se iriam transformar as principais comunicações rodoviárias naquela área.  

Algumas horas depois ouvi uma entrevista, depois publicada aqui, e que transcrevo a seguir.
Como o engenheiro Paulo Fernandes, também considero irresponsável o coro que se apressou a desresponsabilizar tudo e todos porque as causas foram naturais e, segundo o coro, foi feito tudo o que poderia ter sido feito.
Não foi, senhor Presidente da República, não foi, senhor Primeiro-Ministro. 
Mandem averiguar. 
Aqueles que foram sacrificados pela eventual incúria de alguém impõem-nos que o assunto não seja sumariamente encerrado com o convencimento de que vivemos no melhor dos mundos quando a dimensão desta tragédia nos avisa do contrário.  

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Teria sido possível evitar uma tragédia tão grande? Especialista acredita que sim
“No mínimo, pedia-se que se tivessem encerrado as estradas a tempo e horas”, defende o engenheiro florestal e especialista Paulo Fernandes.

A pergunta que todos fazem agora é: teria sido possível evitar esta tragédia? Paulo Fernandes, engenheiro florestal e professor no Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, acredita que pelo menos teria sido possível minimizar a sua dimensão. Desde logo porque era possível antecipar que existia um potencial de factores combinados, como a temperatura elevada, ventos muito fortes e, sobretudo, a instabilidade atmosférica (trovoadas e raios), que já estava prevista há dias, explica. “Uma mistura fatal”, sintetiza.
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“Estas coisas nunca são totalmente previsíveis, mas o sistema tem de estar preparado. No mínimo, pedia-se que se tivessem encerrado as estradas a tempo e horas”, defende o especialista, que se espanta com a surpesa manifestada por vários responsáveis no terreno. “Estou é surpreendido por isto não ter acontecido antes e mais vezes”, enfatiza.
Paulo Fernandes faz um paralelo com o que aconteceu em 2003 [ano em que arderam 152 mil hectares de floresta e morreram 21 pessoas], “com incêndios enormes causados por raios” e lamenta que os fogos naturais sejam em Portugal sistematicamente desvalorizados por representarem apenas 2% do total.
“Temos de estar preparados. Em Portugal, não há pessoas especializadas em meteorologia de incêndios, há académicos, mas não há operacionais”, diz, notando que qualquer país com este potencial adverso tem de ter pessoas a trabalhar nestas áreas “a tempo inteiro”.
Todo o sistema de prevenção e combate a incêndios precisa, aliás, de ser reformado, defende. “Esta originalidade portuguesa de ter fases alfa charlie não faz sentido hoje. Um sistema moderno não pode estar dependente do calendário, tem de ter flexibilidade para responder sempre que necessário, até por causa das alterações climáticas.”

A própria concepção do sistema, “pulverizado por várias forças com pouca massa crítica, torna tudo mais difícil”, acrescenta, lembrando que temos “um sistema muito focado no combate”, em que 90% do investimento é para esta área.
Mas Paulo Fernandes também acentua que se lembrou dos incêndios ocorridos em 2009 na Austrália, “um dos países mais avançados na prevenção e combate e até na preparação das pessoas” para lidarem com este tipo de situações. Nesse ano, morreram na Austrália cerca de 170 pessoas, “quase todas quando tentavam fugir”. Mas a frente das chamas chegou a ser de 200 quilómetros e as projecções (de materiais, como cascas) chegaram a 30 quilómetros, nota.

Agora, o que pede é que se retirem ilações desta tragédia. “Acho inconcebível que responsáveis do Governo e até o Presidente da República comecem logo a declarar à queima-roupa que tudo correu muito bem”, porque isto, acredita, contribui para “a desresponsabilização”. 

Friday, June 16, 2017

HELMUT KOHL


Morreu hoje o maior líder mundial da segunda metade do século passado.
Pela unificação da Alemanha, pelo decisivo impulso que deu à unidade europeia.
Um impulso que, lamentavelmente, os seus sucessores não quiseram ou não souberam aproveitar.
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Correl. -Morreu Helmut Kohl, um europeísta em estado puro

Thursday, June 15, 2017

NÃO HÁ AUTARCAS MAUS

É um dado adquirido pela generalidade dos media que as eleições autárquicas em Lisboa e Porto estão decididas: ganham os incumbentes. E esta quase certeza de que quem hoje se senta nas cadeiras do poder local tem, na generalidade dos casos, garantida a sua reeleição, não é de agora porque se vem repetindo desde a instauração da democracia em Portugal. Enquanto a instabilidade na rotatividade dos governos centrais tem sido a regra e o ajustamento dos períodos de governo aos prazos de legislatura a excepção, no poder local a renovação dos mandatos é regra e a alternância a excepção. A perenidade no cargo dos titulares autárquicos é tão evidente que há muito tempo lhes granjeou o apodo de dinossauros e suscitou a emergência legislativa de limitação do numero de mandatos sucessivos. 

Aliás, os exemplares mais desenvolvidos de dinossauros autárquicos não se têm observado em Lisboa e Porto. Cito Lisboa e Porto porque sendo os dois municípios politicamente mais relevantes do país é mais evidente o contraste entre as dificuldades que se colocam aos titulares de cargos no poder central e a garantida popularidade dos autarcas. Regra geral: os ministros claudicam, os autarcas cimentam-se. Por que é que instabilidade é norma a nível central e a continuidade no poder local tão excessiva que foi necessário por-lhe cobro?

Aos autarcas não se colocam opções de decisões politicamente fracturantes, a opinião pública aplaude-lhes a obra que, geralmente, é obra de cimento, ainda que, não raramente, seja de gosto e interesse colectivo duvidosos. Como as obras autárquicas são pagas pelos impostos cobrados pelo poder central, que dificuldades se colocam à gestão autárquica para além da concorrência dos interesses dos empresários que lhes batem à porta? 

No Porto, Fernando Gomes (PS) foi presidente da Câmara entre 1990 e 1999, completando dois mandatos de 4 anos.  A meio do terceiro mandato foi tentado pelo cargo de Ministro Adjunto e da Administração Interna, mas sucumbiu menos de um ano depois de tomar posse ferido pela polémica morte de touros em Barrancos. Ainda tentou voltar à presidência da Câmara do Porto mas, nessa altura, o incumbente Rui Rio cumpriu a regra.

Rui Rio (PSD), eleito pela primeira vez em 2002, sucedeu a Nuno Cardoso, que terminou o terceiro mandato de Fernando Gomes envolvendo-se em várias polémicas, completou o limite, já em vigência, de três mandatos.  Sucedeu-lhe o independente Rui Moreira que agora parece ter a reeleição garantida apesar de não contar com apoios partidários e estar envolvido numa polémica em que se confrontam interesses familiares e do município a que preside. 

Em Lisboa, Nuno Krus Abecassis (AD) completou três mandatos, sucedendo-lhe Jorge Sampaio, então líder do PS, que arriscou a candidatura quando nenhum dos outros principais dirigentes do partido se dispuseram a concorrer. Sampaio completou um mandato, sucedendo-lhe no início de um segundo mandato João Soares, que perdeu a eleição para novo mandato. Nomeado Ministro da Cultura do actual governo presidido por António Costa, João Soares claudicou após envolvimento polémico com dois colunistas do Público.

Sucedeu-lhe Santana Lopes que intercalou o mandato com o curto cargo de PM. Substituiu-o Carmona Rodrigues que, por envolvimento em polémicas com contornos de prevaricação de titular de cargo político, abriu caminho a António Costa que não completou o segundo mandato por ter assumido o cargo de PM, sendo substituído na presidência da Câmara por Fernando Medina.

O desempenho de Fernando Medina tem sido geralmente aplaudido pelas obras (sempre as obras) de reabilitação que a câmara tem vindo a realizar. Algumas delas, já o tenho apontado neste caderno de apontamentos, só fariam sentido se os investimentos feitos tivessem a garantia de suporte financeiro para a sua manutenção. Lamentavelmente, não é essa a tradição em Portugal. Pelo contrário, feitos os investimentos, falham normalmente os serviços de manutenção, e as obras desfazem-se com o tempo. 

Por outro lado, há obras que podem embasbacar muita gente mas são, do meu ponto de vista, despropositadas em número ou em dimensão.


Tradicionalmente, os quiosques de Lisboa têm um carácter distintivo que os torna parte do imaginário identificador da cidade. De tal modo que os CTT os celebraram emitindo há uns anos uma série de pinturas de Maluda.


Por razões económicas que desconheço e de estética duvidosa, instalou a câmara de Lisboa, pelo menos, dois quiosques que são duas enormidades, um dos quais junto ao Monumental - um centro comercial sem grande afluência-, e outro em Campolide, e, próximo deste, uma parede vegetal. Para quê? Havia falta de espaço comercial no Saldanha? E em Campolide? E aquela parede vegetal por quantos meses vai perdurar?
Recordo-me, a propósito, que quando João Soares era presidente, a Câmara colocou mais de uma dúzia de quiosques quadrangulares, modelo caixote, feitos em aço inox, no Martin Moniz. Passado algum tempo, e porque a ideia era bizarra e ninguém pegava nos caixotes, andou a Câmara a oferecê-los a diversas entidades para dispersar a bizarria.
Casos destes há, de Norte a Sul, às centenas.
Foi por estas e por outras do estilo que o sr. João Soares foi batido (à justa) pelo sr. Santana Lopes?
Não foi. Falta-lhe vocação para ganhar eleições.


Monday, June 12, 2017

DESAFIOS DE UMA MAIORIA (MUITO) ABSOLUTA

Depois dos resultados de ontem a França, que confirmaram as sondagens, os partidos tradicionais e os seus rebentos depararam-se com a perspectiva deste cenário após a segunda volta no próximo domingo:


A culpa, dizem eles, é da abstenção.
A culpa, acrescentam, é do sistema: se a eleição fosse proporcional, o partido do presidente não iria além dos 186 lugares na AN. 
E todos procuram mobilizar o eleitorado na segunda volta. 
Provavelmente, sem grande sucesso porque os abstencionistas na primeira volta não estão contra Macron mas, muito principalmente, contra os partidos tradicionais e seus filhotes. 

A abstenção, já o anotei aqui neste caderno de apontamentos, não é uma obrigação, salvo nos casos em que é uma obrigação compulsiva, mas um direito: o direito de não votar.
Em França, tudo aponta no sentido de que o centro político vai ganhar. Afinal, o centro político não está em coma mas bem desperto.
E a abstenção, contrariamente ao que dizem os mais ou menos extremos, não ganhou. Não votar não é votar. Quem se abstém, não vota, e, não votando, é absurdo atribuir uma vitória à abstenção por mais expressivo que seja o número daqueles que se abstiveram. 
E, porque há uma segunda oportunidade, a democracia não sai ferida mas robustecida qualquer que seja o nível de abstenção no próximo domingo. 

Mas o que me levou a abordar hoje o resultados das legislativas em França, mas também no Reino Unido, é o mérito relativo das eleições por círculos uninominais. Não sendo isento de eventuais efeitos negativos, é aquele que mais aproxima os cidadãos dos seus representantes na casa da democracia e que, contrariamente ao sistema proporcional, garante maior coesão dos valores que estruturam a sociedade. 

Há muito tempo que a discussão sobre a alteração do sistema vem enchendo a boca dos principais partidos em tempos de vazio eleitoral, mas ninguém avança porque ninguém cede nas prerrogativas de fazer eleger amigos e conhecidos invocando o fantasma do caciquismo. 
O caciquismo para se perpetuar precisa de suporte que lhe permita obrar sem cobrar impostos. É essa a causa da tendência para a dinossaurização dos autarcas. No caso dos deputados o efeito perverso do caciquismo é (seria) bem menor.

Sunday, June 11, 2017

REFUGIADOS

O drama dos refugiados voltou a ser um dos temas recorrentes nos mais de 250 trabalhos da edição deste ano. No cartoon de Pakdel há um bote carregado que se afunda num oceanário, enquanto os visitantes se limitam a fotografar e a comentar, como se aquele fosse um acontecimento banal.

Primeiro prémio do World Press Cartoon para o iraniano Alireza Pakdel - c/p PÚBLICO

Thursday, June 08, 2017

CHEIRA A TRUMP POR TODOS OS LADOS

"Cheira a Trump por todos os lados"
Ouvi há dias este trocadilho certeiro na lama que se alastra à volta do personagem que os norte-americanos colocaram na presidência do país ainda mais rico e poderoso do planeta. Não há dia, não há hora, que Mr. Trump, não dê corda à ventoinha a espalhar sujeira à sua volta.

Hoje soube-se que o Irão rejeita as condolências "repugnantes" de Trump. Quem tem acompanhado o desenvolvimento dos confrontos observados nos últimos dias a partir do momento em que Trump visitou a Casa Saud, vendeu quase cem mil milhões de armas, e disse que a Arábia Saudita iria liderar o combate ao terrorismo dos extremistas islâmicos (de gestação sunita, apoiados pela Arábia Saudita!) sugerindo que o Irão é o inimigo a abater, percebe que os pêsames apresentados por Trump após os ataques do Daesh, ontem, ao parlamento iraniano e ao mausoléu de Khomeiny, de que resultaram pelo menos doze mortos, são mais que hipócritas. Entretanto, o isolamento do Qatar, sunita, acusado anteontem de ter financiado grupos terroristas, pode estar relacionado com o pagamento de um resgate de membros da família real do Qatar, mas será sobretudo a proximidade do Qatar ao Irão e a Al Jazira que os sauditas não toleram.
Resumindo: Trump no meio dos árabes é o elefante no paiol de explosivos.

Neste momento está a ser transmitida em directo - cf. aqui - a audiência no Senado do ex-Director do FBI, demitido pelo presidente. James B. Comey acusa o presidente de mentir e de o ter demitido em consequência das investigações à Rússia.
Recorde-se, no entanto, que James B. Comey não mostrou atitude insuspeita de isenção e firmeza de carácter com as suas declarações contraditórias no caso dos e-mails de H Clinton.