Saturday, February 18, 2017

SOBRE O QUE NÃO DISSE CENTENO


As notícias domésticas continuam centradas no que disse o ministro Centeno, que se sobrepõem ao apuramento de outras responsabilidades incomensuravelmente muito mais graves e, deste modo, adiam para as calendas o conhecimento público de quem afundou a Caixa Geral de Depósitos.
No centro da guerrilha partidária, o senhor António Domingues, um banqueiro, e as suas não declarações de rendimentos e patrimónios.
   
Já toda a gente percebeu o que disse Centeno, porque é que Centeno não disse o que não disse, quem sabia o que ele iria dizer, quem preparou a informação que habilitou, mal, Centeno a dizer o que disse por ter assumido compromissos que, legalmente, não poderia ter assumido. O que é que falta saber? Nada.

Falta demitir o ministro, exclama mas não reclama a oposição, com medo de deitar abaixo o governo, e este cair-lhe em cima. 

"Ainda não percebi bem, Caríssimo António, por que é que o Centeno deveria demitir-se, ou ser demitido, e o chefe não. 

A partir do momento em que foi descoberto que uma lei pouco recente, para não lhe chamar antiga, tinha sido ignorada, todo o governo se tornou cúmplice da ausência de verdade. E, mais razoável seria, do meu ponto de vista que o PR tivesse decidido manter o governo em funções "em nome do interesse nacional"



De qualquer modo subscrevo o que sobre o assunto disse M Ferreira Leite: São tricas ...



Com tanta insistência neste assunto até parece que, quanto ao resto, vai tudo bem cá pelo síto." - aqui

"O Centeno varreu muito melhor do que muitos, entre os quais me conto, esperavam. 
Mas a limpeza continua ameçada pelos porcalhões dos banqueiros...
Agora, e há mais tempo do que a nossa paciência deveria ser obrigada a suportar e os nossos bolsos a pagar. 
São raros os dias em que não aparecem mais porcarias banqueiras.

Que este e outros governos tiveram que limpar, e nós que pagar.

Pode, admirável Rita, explicar-me porquê? Por que não foram nem são os banqueiros obrigados a limpar as porcarias que fizeram e continuam a fazer?

A pergunta é ingénua mas a resposta é complicada, não é?" - aqui

Thursday, February 16, 2017

SURREALISMO NORTE- AMERICANO


Chaos
Nothing to See Here

Tim O’Brien 
Time - Feb. 17 cover

Tuesday, February 14, 2017

FROM MOSCOW WITH LOVE


Há algum tempo que os media vinham insistindo na existência de provas que Michael Flynn, "National security adviser" da administração Trump, tinha estabelecido, por conta própria ou a mando de Mr. President Trump, contactos com os serviços homónimos russos antes do presidente ter sido empossado no cargo. Com a troca de informações, que só hoje foi confirmada em Washington DC, Flynn colocou-se em posição vulnerável a chantagem de Moscovo.
Que informações foram trocadas, não se sabe. O que se sabe é que Michael Flynn, cf. aqui,  demitiu-se ontem, por vontade própria ou empurrado pela força de algumas circunstâncias, que ainda subsistem nas instituições democráticas norte-americanas.

Interessante, contudo,  é a notícia publicada hoje aqui dando conta da defesa feroz de Flynn por deputados russos. Um membro da câmara alta da Duma escreveu no facebook:  "Forçar a demissão do conselheiro para a segurança nacional em consequência de contactos com o embaixador da Rússia (uma prática diplomática normal) não é sequer paranóia, mas qualquer coisa imensamente pior. Trump perdeu a oportunidade de afirmar o seu desejo de acabar com a russofobia entre os norte-americanos"

Acontece que Flynn negou durante semanas a existência desses contactos prematuros, que Mr. President não desconhecia. 
Ao fim da tarde de hoje, Trump mostrou-se preocupado por os jornais terem tido conhecimento de que as conversas entre Flynn e os russos tenham existido.

Com quem é que eles teriam ido à pesca?

---
Act.- Russia Deploys Missile, Violating Treaty and Challenging Trump
E agora, Donald?



Monday, February 13, 2017

O ERRO SISTEMÁTICO DOS ANALISTAS FINANCEIROS


Pedro Romano comentava, aqui, há dias um artigo do Economist, vd. aqui, revelando o erro sistemático dos analistas nas projecções da evolução dos mercados accionistas e obrigacionistas.  A explicação de PR para uma tendência para errar, que já dura há três décadas, parece-me excessivamente rebuscada e coloquei um comentário que não mereceu acordo nem contestação do autor.

Comentário que, resumidamente, afirma a minha convicção de que as previsões dos analistas financeiros são geralmente optimistas porque esse é o cenário que interessa aos agentes financeiros. 
Hoje, em contraditório com um comentador que afirma "Se o Pedro Romano estiver certo, as instituições vão aperceber-se deste erro sistemático em particular, e alterar as suas previsões em conformidade" acrescentei:

"... nunca vi um vendedor reconhecer que o mercado (de comodities) vai cair, ou continuar a cair, nem nenhum comprador reconhecer que o mercado vai subir, ou continuar a subir. Simplemente reagem de acordo com aquilo que sabem ou pressentem. Salvo se, inside trading, tiram partido de posições privilegiadas...

Pergunte -se a um agente de imobiliário se o mercado está a subir ou a descer,  como comprador. Ou como vendedor, tanto faz. No primeiro caso, o prognóstico é que está a subir. No segundo caso, mais complicado porque mercado em queda não interessa ao negócio do agente, dir-lhe-á reticentemente que está a cair.

Os mercados financeiros não se distinguem muito, neste aspecto, dos mercados de comodities. Os agentes financeiros ganham nas compras e nas vendas mas, obviamente, interessa-lhes mais um mercado vendedor (bull market) que um mercado comprador (bearing market) porque o volume de transacções é, neste último caso, muito menos compensador."

Curiosamente, ou talvez não, porque o que não falta é gente a opinar sobre os mercados financeiros, um opinador no JNegócios - vd. aqui - depois de um circunlóquio disperso, tendo começado por afirmar que é "falta de senso absolouto" investir em dívida pública portuguesa acaba por informar que o que valeu a pena foi investir na bolsa de Paris em 2016. Saberia ele que essa era a melhor e mais segura aposta no começo do ano passado? 
Por que não nos deu uma dica?
Curiosamente no mesmo JNegócios de hoje pode ler-se que "os investidores receiam o efeito Le Pen", e, ainda no mesmo jornal, que "O Frexit poderá custar 80 mil milhões aos franceses"

Quem dá mais?








Sunday, February 12, 2017

A DEMOCRACIA NO FIO DA NAVALHA



O Financial Times publica hoje um artigo de Edward Luce - America´s monetiser-in-chief - que cruamente conclui que a democracia norte-americana está refém dos poderes que as eleições de Novembro colocaram nas mãos de Donald Trump e do Partido Republicano. E que são optimistas aqueles que julgam que as instituições democráticas poderão funcionar de modo a que a presidência dos Estados Unidos da América não seja um fabuloso negócio para o actual ocupante da Casa Branca. 


"Whoever said the personal is political did not have Donald Trump in mind. In the last week alone, the US president berated a chain store for dropping his daughter’s branded product line; the White House counsellor, Kellyanne Conway, then urged television viewers to go out and buy Ivanka Trump’s products. Meanwhile the first lady, Melania Trump, is suing a newspaper on the grounds its defamation ruined a “once in lifetime” chance for her to make money. No US president in history has triggered anything close to this many conflicts of interest — and this is just his family. Trump Inc is turning into America’s newest fourth estate... "

Saturday, February 11, 2017

PAGA E NÃO BUFA?

Apesar das resistências da Caixa  e a escrever isto pergunto-me quem é responsável na Caixa, conhecem-se já vários nós com que foi atado o imbróglio da nomeação e renúncia do sr. António Domingues e seus convidados. As tricas, como alguém, que talvez saiba do que fala, já lhe chamou, vão continuar, e as questões relevantes temporariamente esquecidas. Até saltar outra polémica partidariamente mais rentável que esta. 

Que poderia ser a discussão acerca dos estatutos de governo da Caixa propostos pelo sr. Domingues e aceites pelo sr. Centeno resumidos no Expresso de hoje sob o título "Estado paga mas não manda nada na Caixa":

"... No essencial, "as bases" necessárias para que a CGD continue a desempenhar o seu relevante papel  no sistema financeiro português - que se mantêm na administração agora liderada por Paulo Macedo -, passam por uma obrigação essencial para o Estado - garantir o "capital adequado às exigências regulamentares e de crescimento" - e poucos direitos. Basicamente, é uma lista do que o Estado não poderá fazer: não decide objectivos nem estratégias, não limita a  autonomia da CGD e dos seus administradores no exercício das suas funções, não faz exigências de transparência ou escrutínio como no restante sector empresarial do Estado, não coloca constrangimentos a folhas salariais, prémios de desempenho, recrutamento de trabalhadores ou dos encargos com pessoal ou ao crescimento do endividamento.
Não, não, não ... A lógica de Domingues, subscrita por Centeno, é que é "imprescindível que a CGD opere, interna e externamente, em termos competitivos sem limitações que afectem a sua capacidade concorrencial ou que a coloquem em desvantagem face aos seus concorrentes directos". Ou seja, o preço para que Bruxelas aceitasse a recapitalização pública da Caixa sem considerar com ajuda do Estado foi tirar ao Estado o banco do Estado ..."

É admissível que estas e outras condições, que afinal impõem aos contribuintes a obrigação de recapitalizar a Caixa sempre que imposições internas ou externas o exigirem e nenhuma capacidade é concedida aos orgãos de poder eleitos para intervir, não sejam submetidas à aprovação da Assembleia da República? 

Pelos vistos, foi.  
A menos que comece agora o debate que já deveria ter  tido lugar há largos anos mas não teve: Para quê e como, queremos um banco público? Ou mais, porque à administração da Caixa, segundo o que lê no artigo do Expresso, é dada carta branca para ir até onde lhe der na realíssima gana. 

Até agora alternavam, inimputavelmente, no comando da Caixa os interesses partidários; a partir de agora, mudam-se os estatutos para continuar tudo mais ou menos na mesma.