Sunday, December 10, 2017

NO PAÍS DOS BOYS

"Câmara de Lisboa vai ter 124 assessores e secretárias para apoiar 17 vereadores e já começou a assinar contratos. Alguns eram candidatos autárquicos que não foram eleitos." 

Vi esta notícia referida aqui.
O abuso que governantes centrais e locais fazem de dinheiros públicos para emprego de correlegionários, amigos, familiares e coniventes vem de longe. Como em outros aspectos da vida pública, a imoralidade anda de mãos dadas com a conivência das conveniências e a par da falta de exigência de civismo colectivo. Que vingam com um generalizado encolher de ombros e a conclusão adquirida como inamovível de que "todos fazem o mesmo".

Se a notícia tem fundamento, que posição tomaram ou vão tomar os vereadores da oposição na Câmara de Lisboa? Calam-se todos? 
É o mais provável: O PSD/PPD e o CDS porque, também eles, têm clientelas partidárias e interesses particulares envolventes à espera de oportunidades futuras , o PCP porque, para os comunistas, quanto mais gente mamar  do Orçamento mais se engrandece o Estado.
E o BE é outra vez parte do governo camarário em Lisboa.

Valha-nos Centeno, presidente do Eurogrupo, agora atado de pés e mãos aos limites impostos de fora. 
A nossa independência, e o que é isso?, é um perigo. 

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Correl. -
A redução da dívida é absolutamente fundamental (Público - 10/12/2017)
O calcanhar de Centeno  (26/8/2017)
O calcanhar de Centeno - 2 (1/9/2017)

Saturday, December 09, 2017

ASSIM VAI O BRÊXIT


Segundo os britânicos.

"As expectativas estão em baixa. Até os que votaram pela saída da UE, receiam agora um mau negócio. Mas, em vez de alterar as suas opiniões acerca do Brêxit, culpam o governo."



c/p Economist

"Se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo"
 - Bento Jesus Caraça

Mas, geralmente, a espécie humana não muda de credo, nem de clube, nem de partido. E, pelos desaires, acusa os árbitros.

Wednesday, December 06, 2017

TOUT VA TRÈS BIEN, MADAME LA MARQUISE


"Primero fue la Eurocopa, en enero llegó la ONU, en mayo la Eurovisión y este diciembre el Eurogrupo. Portugal copa los titulares de los medios para incredulidad de los expertos en la materia. Al margen de los éxitos por las habilidades con el balón y con la canción, las direcciones en la secretaría general de la ONU y en el Eurogrupo revelan unos triunfos de la diplomacia lusa que van mucho más allá de su peso económico. En enero António Guterres tomó posesión de la secretaría general de la ONU y este diciembre Mário Centeno presidirá el Eurogrupo, el sanedrín de los ministros de Finanzas de la zona euro..." aqui


"... A líder parlamentar interina do BE duvidou que a eleição do ministro das Finanças português altere a natureza da instituição e o poderio alemão. "A pergunta que os portugueses fazem é se será Mário Centeno, por ser português e pertencer ao PS, pode fazer a diferença nesta instituição que só tem representado ataques à democracia e mais austeridade. Entendemos que prevalece a natureza da instituição", disse Mariana Mortágua, que falava aos jornalistas no parlamento.    O PCP considerou que a eleição nada traz de positivo para Portugal e advertiu que combaterá eventuais tentativas do Governo de acentuar restrições ao investimento público. "O PCP alerta para o uso que o Governo do PS, no quadro das suas opções e em sintonia com as do PSD e do CDS, venha a fazer desta decisão para acentuar a recusa ou limitações às medidas necessárias ao desenvolvimento do país", afirmou o eurodeputado comunista João Ferreira. O Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) reagiu "sem surpresa", alertando que Portugal não deve sujeitar-se a uma "submissão maior" à União Europeia. "Os Verdes reiteram a sua preocupação, no sentido de que esta eleição não venha a representar, em qualquer circunstância, uma submissão maior à União Europeia e aos condicionamentos da Zona Euro, o que, a acontecer, seria profundamente negativo para Portugal", lê-se num comunicado do PEV."aqui


Tuesday, December 05, 2017

OS BOMBEIROS E OS ABUTRES


Há anos que são reportados factos que não só indiciam como confirmam negócios e burlas  com os incêndios florestais com manifesto envolvimento ou conivência de algumas corporações de bombeiros. Relatos sobre o "Cartel do Fogo" são recorrentes (vd., p.e, aqui) durante a época dos incêndios. Quando começa a época, para além da devastação de bens e vidas humanas, que este ano atingiu níveis de calamidade pública, produzem os oportunistas do costume negócios que um mínimo de exigência cívica colectiva há muito teria extinto. Gente execrável que, pior que os abutres, que limpam o ambiente quando se alimentam, há traficantes semeiam fogo, outros traficam nas compras de equipamentos e materiais, outros assaltam as caixas das esmolas. 

Hoje, foi notícia de abertura na Antena 1, vd. aqui, a suspensão pelo Governo, durante 20 dias, dos reembolsos pelas refeições servidas aos bombeiros no combate aos fogos florestais deste ano arrasador. Foram os bombeiros mal alimentados, e disso se queixaram na altura, com ofertas das populações e, sabe-se agora, o dinheiro destinado ao pagamento de refeições servidas por fornecimentos contratados embolsados por quem participou na tramóia.
Ouvidos alguns representantes das corporações e associações, lançam água em cima do fogo das suspeitas. E no fim, ninguém será culpado nem condenado. 

Onde todos os professores são bons, e as avaliações repudiadas pela corporação, onde quase todos os juízes, por auto julgamento, são bons ou muito bons, ainda que a opinião pública os julgue frequentemente culpados, onde há armamentos roubados e cantinas militares objecto de saque por soldados, sargentos e oficiais, mas a corporação não os denuncia, os bombeiros são muito estimáveis mas não se coíbem, de um modo ou outro de reunirem, a bem das corporações, o espírito de corpo que alberga gente séria e gente sem seriedade alguma. 

Quase cinquenta anos depois, o Estado Corporativo sobrevive ao seu criador.

Saturday, December 02, 2017

VERTICALIDADE E RESSABIAMENTO


Num país onde a generalidade dos empresários se abriga, ou faz por isso, debaixo do chapéu do Estado, mal seguro pelos procuradores alternantes, Belmiro de Azevedo foi, de longe, a mais evidente excepção. Recusando a participação em jogadas de compadrios partidários, perdeu as propostas que apresentou em cursos de privatização de algumas empresas nacionalizadas em sequência do golpe 11 de Março de 1975.

Se as contas referidas num artigo do Expresso publicado ontem aqui* estão certas, e não tenho nenhum indicação em contrário, os comissários políticos a quem foram dados poderes para defender os interesses do Estado, cometeram erros, e, provavelmente crimes, que prejudicaram os interesses públicos em valores incalculáveis, mas, em qualquer caso, enormíssimos.
Belmiro de Azevedo, ainda assim, por inabilidade ou conivência de quem decidiu ou mandou decidir, ganhou, em três tentativas perdidas, muito dinheiro: cerca de 123 milhões de euros.

Provavelmente, ressabiado, o PCP votou contra o voto de pesar pelo falecimento de Belmiro de Azevedo aprovado na Assembleia da República. Não conseguem os comunistas admitir que o Estado é um ente sem capacidade volitiva e os procuradores mais propensos a defender os seus próprios interesses que o bem comum. E que, lamentavelmente para o país onde nascemos e vivemos, empresários com a dimensão e verticalidade que caracterizaram Belmiro de Azevedo, não se vislumbram, por agora.

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"... Houve um tempo em que na Sonae se gracejava sobre a semelhança entre o jornal “Público” e as privatizações. Com o “Público”, Belmiro perdia dinheiro e ganhava inimigos, com as privatizações ganhava dinheiro e inimigos. Belmiro defendia que um grupo industrial poderoso como a Sonae teria vantagens em controlar um banco. E logo na abertura das privatizações tentou o Totta & Açores mas depressa sentiu que o jogo estava viciado. Recusara uma aliança com o espanhol Banesto que se aproximaria depois de José Roquette. A aliança levou Belmiro a abdicar da luta pelo controlo, vendendo a sua posição a Roquette. Em cinco meses, ganhou 3,4 milhões de contos (€17 milhões) e teve a virtude de arrastar no negócio outros 200 acionistas que lhe permitiram representar 12% do capital. No Totta, não quis “prolongar guerras difíceis” e o banco para ele foi “just another business”.
Desafiado por Elias da Costa, secretário de Estado das Finanças à época (1991), Belmiro entusiasmou-se com o BPA, um dos bancos com que a Sonae lidava. Mas acabaria derrotado, indignado com o árbitro (Eduardo Catroga). No BPA, a batalha foi árdua, Belmiro lutou mesmo pelo seu controlo, beneficiando do apoio de um núcleo duro e da gestão do banco.
Quando, em 1994, o BCP lança uma inesperada OPA parcial sobre o BPA, o Estado tinha 24,5% e o núcleo duro de Belmiro dava sinais de incoerência e vulnerabilidade. Num primeiro momento, Catroga alinha com o núcleo de Belmiro e recusa a OPA. O BCP reincide, com uma segunda oferta sobre a totalidade do capital. Catroga está em últimas exibições, quer resolver o dossiê BPA e maximizar receitas. Aceita a operação, desprezando o compromisso que celebrara com o núcleo do norte para a venda das ações do Estado. Catroga desafia Belmiro a lançar uma OPA concorrente. Belmiro desdobra-se em reuniões em Lisboa, desde o primeiro ministro, Cavaco Silva, ao líder da oposição, António Guterres. A OPA avança e Belmiro perde a batalha. No fim, recebeu €60 milhões pelo lote de 7% com o investimento de perto de €40 milhões. Ainda recorreu a tribunal, exigindo uma indemnização ao Estado (€37,5 milhões) por quebra de compromisso. O juiz reconheceu que o Estado criara legítimas expectativas e violara o compromisso com o núcleo duro, mas que a indemnização não se justificava.


Portucel: a hostilidade de Carlos Tavares

Na Portucel, Belmiro registou o desaire mais doloroso por ter comprometido de vez o seu projeto coerente na fileira florestal. O caso Portucel dava uma novela, com namoros desfeitos, traições e um final inesperado. Belmiro reforçara em bolsa até 30%, aprovou a fusão com a Soporcel de que era acionista e desistira no fim por se sentir hostilizado pelo ministro Carlos Tavares. Por sinal, o mesmo Carlos Tavares que Belmiro defendera para ver a dirigir o BPA, quando alimentava o sonho de comandar o banco.
Também neste caso, a visão do Executivo não se encaixou no plano da Sonae. Belmiro contestou desde o primeiro momento o modelo da operação e rejeitaria um aumento de capital que viabilizaria, em 2003, a entrada, como acionista de referência, do consórcio Cofina/Lecta, selecionado após um concurso lançado pelo Governo. Desautorizado, Belmiro estraga o plano de Tavares por achar que a solução “diluía o valor das participações” dos acionistas. Belmiro pressionou o Governo até ao último momento para rever a estratégia, acreditando numa negociação direta com quem já era acionista relevante. Mas não. Tavares avisa que a solução “não privilegiaria um acionista”. Belmiro declara “não estou vendedor, mas não sou um empata”. Tavares desafiara Belmiro a lançar uma oferta geral sobre a empresa, recusando uma negociação particular da posição do Estado. A Sonae queria um controlo sem grandes despesas e afastou-se do processo. A Portucel seria disputada por dois grupos (Cofina e Semapa) e ganho por quem não tinha currículo no sector — a Semapa, de Pedro Queiroz Pereira.
A Sonae deixaria o negócio do papel com muita pasta (€297 milhões) e um ganho de €86 milhões, o mais suculento das privatizações em que esteve enredado. O desfecho levaria a Sonae a vender no ano seguinte a Gescartão. Sempre que se meteu com o Estado, Belmiro perdeu os negócios mas ganhou na tesouraria. E fez a promessa de nunca mais falar com Carlos Tavares...  aqui

Friday, December 01, 2017

DURÃO E CENTENO



Para mim é óbvio que ... "Durão Barroso aceitou o cargo (presidente a Comissão Europeia) porque este é mais aliciante e menos problemático do que o que aqui detinha; o interesse de Portugal é, obviamente, secundário. Santer foi uma grande honra para o Luxemburgo? Prodi foi uma grande honra para a Itália? Não foram." - Jul 2004 / aqui

Mais tarde, ficámos a saber que Durão Barroso, se superou os seus antecessores foi em proveito próprio, e, por esse motivo, foi altamente criticado.


Centeno é candidato e, muito provavelmente, será nomeado presidente do Eurogrupo. 
É bom ou não?
As respostas divergem mas, geralmente, suscitam outra pergunta: bom ou mau, para quem?
Para Centeno será, certamente, bom, na medida e que lhe dará projecção internacional e pode garantir-lhe um eldorado que, em Portugal, muito dificilmente atingiria.
E, para Portugal?

Para Portugal alinho com aqueles que consideram que, enquanto coordenador das actividades de um grupo, e Centeno, a confirmar-se a sua nomeação, não terá competências determinantes nas decisões do colectivo de ministros das finanças da zona euro terá, pelo contrário, mais dificuldades em defender os interesses portugueses naquele forum.
Por outro lado, as obrigações decorrentes do cargo no Eurogrupo diminuirão, necessariamente, as suas disponibilidades de tempo e atenção para as suas responsabilidades enquanto ministro.

Resumindo: Haverá diferenças salientes entre a deserção, por ambição, de Durão e a dispersão, por ambição, de Centeno. Mas, no essencial, repesco o meu comentário de 6 Julho de 2004 à desastrada  passagem de Durão Barroso para Santana Lopes treze dias depois. 

O governo de Santana Lopes cairia daí a cinco meses. Espera-se que os portugueses não esqueçam isto. 

Wednesday, November 29, 2017

O PRÓXIMO HOMEM E A PRÓXIMA HISTÓRIA


Há dias, a propósito de um discurso pronunciado durante a WebSummit, olhei pelo retrovisor deste caderno de apontamentos o que sobre o tema tinha apontado aqui há doze anos. 

E se os indicadores de taxas de desemprego, sobretudo desemprego jovem, observaram, desde  então, recuperações sensíveis, sobretudo nos EUA, os desenvolvimentos entretanto observados ou anunciados em aplicações de "inteligência artificial" apontam insistentemente no sentido que naquela altura se prenunciava: "... O trabalho tornar-se-à um bem escasso, a procura (por parte de quem quer trabalhar por não saber fazer outra coisa) excederá brutalmente a oferta de oportunidades. ... Se assim é, um dia (sabe-se lá quando) quem quiser trabalhar terá de pagar para experimentar esse gozo limitado. Teremos a economia ao contrário... " Muitos preferirão trabalhar, ganhando menos, do que ganhar mais não trabalhando.

Anteontem, numa análise bem meditada sobre o tema das consequências sociológicas dos avanços da tecnologia sobre a redução dramática do emprego, lia-se 
aqui:

" ...Vamos passar por cima da questão prática (como se paga um rendimento básico universal de 10/20 mil a cada cidadão?) e olhemos para a questão moral: faz sentido vivermos numa sociedade sem o pilar do trabalho? Como diz Satya Nadella, vão as pessoas dedicar-se àquilo que gostam de facto? A sociedade do trabalho será substituída pela sociedade dos hóbis? "

Num ponto, porém, fica o articulista, segundo julgo, aquém da evolução previsível: O problema do pagamento de um rendimento básico universal não é uma questão prática sobre a qual se possa passar por cima. Porque,

Repito-me, enquanto Trump, ou outro Trump qualquer, em jogos de guerra apocalípticos com Kim Jong-un ou outro Kim Jong-un qualquer, não fizerem desaparecer a espécie humana (hipótese não improvável), o rendimento básico universal poderá solucionar a questão económica sem solucionar, como argumentado pelo colunista do Expresso, a questão sociológica. 

Temos de admitir que poderá haver sempre quem se governe bem com um rendimento básico, condição necessária mas não suficiente à garantia de paz social em níveis socialmente suportáveis, mas, com a crescente competição de meios não humanos, ocorrerá uma progressão imparável para a ocupação de oportunidades de trabalho em que, ou enquanto, a inteligência humana não for substituída pela inteligência artificial. 


E no limite, neste caso, se sobrar alguma lógica económica, já não contarão os rendimentos mas os poderes de comandar os destinos do planeta. 

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Correl. - Homo Deus: A Brief History of Tomorrow