Saturday, December 03, 2016

O JOGO DOS MAÇONS PINGAS

Variante do JOGO DA CABRA CEGA

A história já tem barbas notáveis.
Apontei-a aqui. Hoje o DN publica mais um capítulo aqui juntamente com a notícia de estarem escamados os maçons - vd. aqui - com a ultrapassagem que lhes fizeram os da Opus Dei na curva do Montepio e que - vd. aqui - segundo Fernando Lima, Grão Mestre de Não Sei Quê, "muitos melhores no país foram ou são maçons". 

Toda esta lavagem de roupa, ou pouco limpa ou nada transparente, a propósito da eleição que deverá ocorrer a 10 de Junho do próximo ano do substituto do próximo, ou do mesmo, venerável Grão Mestre. Perfila-se como candidato, mas há mais, o sr. Adelino Maltez, "republicamente monárquico", segundo ele mesmo. 

O artigo do DN termina desta forma deliciosa:

"A maçonaria está sempre envolvida em polémicas mas as mais recentes não envolvem o Grande Oriente Lusitano mas sim uma outra obediência, a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP). Foi dentro desta obediência, na loja Mozart, que Nuno Vasconcelos, patrão do grupo de media Ongoing, conheceu Jorge Silva Carvalho, então chefe do SIED (a secreta externa). Silva Carvalho passou a Nuno Vasconcelos informação classificada e foi por isso condenado por violação de segredo de Estado."

Pena suspensa, evidentemente. É para isso que valem os "melhores irmãos", não?


A COMÉDIA DA CAIXA ROTA - ENÉSIMO ACTO

A Caixa continua a indignar-nos, os pategos que somos coagidos a  pagar bilhetes para ver uma comédia que não queríamos que acontecesse. 
Dizem-nos alguns que não podemos dispensar a Caixa, porque a Caixa é indispensável como serviço público - o critério de fixação do seus objectivos não pode ser a maximização dos resultados na conta habitual .
Dizem outros que a Caixa é fundamental para o equilíbrio do sistema financeiro, um argumento excessivamente subtil para quem lê os desvarios, os abusos, as incompetências, as conivências, os ludíbrios que se têm abrigado impunemente na Caixa. 
Acrescentam outros que a Caixa é necessária mas os seus objectivos não podem ser outros senão os que são prosseguidos por qualquer banco com que concorre - maximizar a remuneração dos capitais que gere. 
Para quê, então, a Caixa pública?

Paulo Macedo, o indigitado próximo presidente da Caixa vai defrontar-se à entrada com 3 mil milhões de prejuízos. De quem teve engenho e arte para carrilar a Direcção Geral de Contribuições e Impostos espera-se que faça na Caixa o que fez na DGCI: eficiência na cobrança dos calotes. Um banco, simplesmente, empresta o que lhe emprestaram. Emprestar não custa,  o que pode custar é recuperar o emprestado. As perdas da Caixa resultaram exclusivamente da incompetência, conivência ou incontinência dos que emprestaram em seu nome e estão a continuar a cantar para outros cantos. 

No mesmo dia em que mais um acto da "Comédia Caixa" parecia ter terminado com a nomeação de Paulo Macedo e uma equipa em construção, lê-se no Expresso Revista que  a "CGD pagou indemnização de 71 mil euros a Henrique Cabral Menezes - que tinha sido quadro do BPI durante mais de 10 anos - e era presidente do Banco Caixa Geral (BCG) - do grupo Caixa Geral de Depósitos - para este integrar a equipa presidida por António Domingues

Menezes, que não entregou a declaração de património e rendimentos, acompanhou Domingues na demissão, sucedeu em Abril de 2014 a Deborah Vieitas, uma brasileira que ganhava quatro vezes mais que o anterior presidente da Caixa, José de Matos, valor que incluía um prémio, algo que estava vedado aos gestores em Portugal.  Criado em 2009, o BCG nunca gerou uma rentabilidade satisfatória.

Aliás, em Espanha, a Caixa, onde pontificou o actual presidente da Associação Portuguesa de Bancos, e ex-presidente da Caixa,  o desastre não foi menor mas o participante foi alcandorado à presidência no edifício Ceauşescu de Lisboa.

Acabou a Comédia Caixa?
Na Caixa a comédia nunca acabará, a menos que acabem com ela.

Thursday, December 01, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS - E QUE VIVA ESPANHA!

Já em tempos anotei aqui que, por ter faltado o Frederico a uma aula, faltou-me o guache vermelho para pintar um burro castanho e Mestre Santa Maria riscou de uma ponta a outra a minha obra com um lápis encarnado. O Frederico, fiel depositário do vermelho, era meio endiabrado. A aula de desenho estava instalada no salão nobre da escola, as pequenas mesas de trabalho eram mais elevadas que as carteiras normais e os bancos móveis. Em dias comemorativos ou de recepção a alguma individualidade oficial, os contínuos retiravam as mesas e os bancos para um espaço de arrumações no rés-do-chão do edifício, e as aulas de desenho eram suspensas durante dois ou três dias, uma festa a triplicar para os artistas de palmo e meio.

Naquele ano, o primeiro de Dezembro entrou na quarta-feira, na segunda ainda houve desenho, na terça quem teria aula não teve porque a sala foi evacuada dos equipamentos habituais e colocada no extremo-direito da sala uma base elevada onde era instalada a mesa dos oradores que naquele dia incitavam o ardor nacionalista inspirado na "expulsão dos castelhanos", de um tal de Vasconcelos atirado janela fora por estar a tremer de medo, vejam lá se isto se percebe, dentro de um armário onde se tinha metido, pequeno demais para o tamanho dele, coisas que só costumam acontecer nas anedotas de amantes clandestinos surpreendidos em flagrante acontecimento. Era este Vasconcelos descendente, mas, provavelmente, no salão nobre onde se enaltecia a raça em doses brandas, ninguém sabia, talvez porque não houvesse ainda Internet, de D. Sancho I de Portugal, Henrique II de Inglaterra, Roberto II de França, Carlos Magno, entre outros das mais variadas nacionalidades. Com tão dispersa e dourada ascendência é admissível que o Vasconcelos não estivesse muito certo de que terra era. Além do mais, Vasconcelos foi defenestrado por ter aumentado os impostos, a mando de Filipe IV. Imagine-se quantas defenestrações haveria se hoje ainda o português valente mantivesse o sádico gosto de mandar os elevadores de impostos pela janela abaixo!

Na aula de desenho, mais ou menos a meio da sala, sentava-se, estrategicamente, na mesa à minha direita, o Frederico, o tal do guache vermelho, e os outros sócios da cooperativa das cores na mesma zona. Na mesa à frente do Frederico, a Amélia. 
Já não me recordo qual era a empreitada artística  de que estávamos incumbidos naquela segunda-feira. Do que me recordo, e seria preocupante se agora me tivesse esquecido, é da arte e enlevo com que Mestre Santa Maria, de pé, debruçando-se sobre a mesa de trabalho onde se sentava a Amélia, sustentava a posição com a mão esquerda e pincelava à direita umas andorinhas a esvoaçar sobre um castelo, seria um castelo?, que a nossa colega de turma tinha desenhado. 

A cada andorinha pincelada, Santa Maria endireitava o corpo, mirava o trabalho e voltava à posição anterior para outra andorinha. E é neste vai e volta às andorinhas que ao Frederico, que tinha mergulhado o pincel no guache vermelho, ocorre o incontido impulso de se debruçar para a frente sobre a sua mesa e passar o pincel pela parietal da calva de Santa Maria. Reage, instintivamente o Mestre, passando a mão direita por onde sentiu uma passagem fugaz, e fica apopléctico a olhar a mão manchada de sangue.
Santa Maria, já se disse, tinha atribulações mentais controladas, e essa vulnerabilidade era conhecida e respeitada pelos seus colegas mais novos, mas não comovia a garotada em transição para a juventude. E ficou possesso à procura da campainha que lhe trouxesse o contínuo de serviço e transporte para o hospital. 

Veio o contínuo, que convenceu Santa Maria que aquilo não era sangue mas tinta, e que, talvez ele mesmo, tivesse passado pela cabeça, distraidamente, o pincel com que pintara as andorinhas da Amélia. Não deveria o contínuo ter ido além das suas atribuições, não há andorinhas vermelhas e se aquilo era sangue ou tinta só o no hospital se averiguaria.
Ali mesmo ao lado, não contive o riso, e a risota espalhou-se.
Fomos imediatamente, eu e o Frederico, postos fora da sala. 

No dia 1 de Dezembro também fui dispensado das cerimónias. Eu, e a grande maioria, porque nas coreografias da Mocidade Portuguesa só entrava quem tivesse farda, e as fardas eram poucas  para o número total de alunos da escola, e no salão nobre, a nossa sala de desenho em dias úteis, não cabia mais ninguém além dos convidados, professores e alunos fardados.
Na segunda-feira seguinte soube-se que o Mestre já não voltaria até às férias do Natal.
Depois reformou-se.

Com o fim das aulas, princípios de Verão, a cidade começou a receber os habituais banhistas de Castilla y Leon: Salamanca, Zamora, Ciudad Rodrigo. Pelo fim da tarde, no jardim a animação  da pequenada espanhola, sob o olhar atento das mães, competia com a chilreada dos pardais. De olhos fechados poderíamos supor encontrarmos-nos em Burgos num fim de tarde.

E perguntava-me se ainda fazia algum sentido celebrar-se no inverno a expulsão de um povo que recebíamos de braços abertos no verão. Só faria porque o regime se sustentava, e continuou a sustentar-se  ainda durante vinte anos, numa excitação nacionalista que tinha, poucos anos antes, destroçado a Europa.


E que ameaça voltar a destroçar num cerco que se aperta desta vez de leste a oeste do mundo ocidental.
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Nos últimos três dias, as mais altas individualidades deste país receberam pomposamente os Reis de Espanha. No Porto e em Lisboa, os presidentes das duas principais autarquias entregaram-lhes as chaves de ouro das cidades. Filipe VI discursou ontem na Assembleia da República e, segundo me pareceu ouvir, só o BE não aplaudiu o monarca.
Esta manhã ouço na rádio que o trânsito está fechado na Avenida da Liberdade em Lisboa para desfile com filarmónicas celebrando a Restauração.
Restauração de quê?
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Correl . - The new nationalism

Tuesday, November 29, 2016

PINTO DA COSTA CEDE IKER CASILLHAS AO BENFICA

Imaginem que a notícia do dia era a decisão do presidente do FC Porto  de cedência gratuita de Iker Casillas ao SL Benfica. E que, para maior pasmo dos leitores, ouvintes ou telespectadores, o sr. Pinto da Costa tinha acrescentado à oferta mais quatro ou cinco jogadores do plantel principal da equipa portista. Ocorreu-me o nome do guarda-redes do FC Porto porque, valha a verdade, desconheço o nome de outros jogadores. Poderia ter imaginado a cedência de Rui Patrício e mais quatro ou cinco leões ao Benfica, ou ao FC Porto, porque, aonde quero chegar, qualquer exemplo, assim ou vice-versa, serve.

Mais irónicos, ou realistas, alguns diriam, se a notícia fosse verdadeira, que o sr. Pinto da Costa demonstraria, mais uma vez, com este inconcebível negócio, uma sagacidade que a idade não atrofia. Pois que se com o Casillas e os outros andam os dragões à deriva, oferecê-los à concorrência seria a melhor jogada de Pinto da Costa nesta temporada.

Imaginem agora que onde se lê (notícia falsa) presidente do FC Porto, ou do Benfica ou do Sporting, se lia presidente do BPI (ou presidente do La Caixa, que es quien tiene más poder). E que (notícia verídica) o BPI cedeu à Caixa Geral de Depósitos, por tempo indeterminado, o seu vice-presidente e mais quatro ou cinco altos quadros do banco. 

Ouço na rádio esta manhã que, mesmo depois de ter o sr. António Domingues e mais uns quantos terem apresentado demissão dos cargos de administradores da Caixa, o líder do partido mais votado, na oposição, insiste em reclamar ao primeiro-ministro explicações para o sucedido.
Não sei se vão deitar mais molho ou a caldeirada já está pronta. Mas a ninguém, minimamente atento, escapou o modo como foi cozinhada.

O que parece escapar a toda a gente, incluindo o líder do partido mais votado, na oposição, é a razão pela qual o sr. Fernando Ulrich, (ou o sr. Gonzalo Gortázar Rotaeche) se dispôs a oferecer à concorrência, aparentemente gratuitamente, quatro ou cinco titulares do seu plantel.
Que agora, sendo eles tão bons como os melhores, serão certamente recebidos de volta a casa de braços abertos.
E o que faria Pinto da Costa?

Sunday, November 27, 2016

ACERCA DA INVENÇÃO DE DEUSES

Morreu Fidel Castro, tinha noventa anos, uma longevidade conquistada à custa de muita sorte a escapar às balas dos que o queriam matar, aos prognósticos médicos e aos rumores que prematuramente o davam como morto. Mas é a natureza quem mais ordena, e ao guerrilheiro estava destinado  não morrer a combater na serra Maestra mas em casa, na cama, a mais provável casualidade que pode ocorrer no termo da vida de cada mortal. Que, até prova em contrário, somos todos, os seres vivos.  

Ontem à noite, não havendo mirabolantes notícias da bola para encantar os que veneram os deuses dos estádios - ainda assim, em rodapé, lia-se que o Ronaldo bisou contra o Gijón -, a morte de Fidel tomou conta de todos os noticiários e comentários televisivos, nos jornais e outros meios comunicacionais. 
Morto, Fidel foi o deus do dia. Do bem e do mal, como é próprio da natureza dos deuses que a condição humana inventa. 

De um lado e do outro do estreito da Flórida, apenas cerca 150 quilómetros a separar o território cubano do extremo sul do território norte-americano, o contraste das reacções ao acontecimento dia não podia ser maior. Enquanto uns, os que fugiram para norte por medo ou oportunidade de melhores condições de vida, rejubilavam estrondosamente, os outros, os que ficaram, por submissão, oportunismo ou convicção ideológica, choravam nas ruas o perecimento do seu bem amado líder.

Haverá luto em Cuba durante nove dias e durante quatro as cinzas do líder endeusado atravessarão a ilha de ponta a ponta para veneração do povo. É, no entanto, muito improvável que o futuro cubano o venha a canonizar apesar desta peregrinação de adoração quase religiosa. Os ventos da história que o absolveu já não sopram de feição as suas cinzas.


Friday, November 25, 2016

RIQUEZA ENVERGONHADA

Aqui próximo da área em que resido há uma propriedade ladeada por um muro alto, talvez quatro metros, laranja ocre, sempre bem cuidado. Visíveis da estrada, tem dois portões, mas só hoje, de relance, quando passei de carro defronte daquela que julgo ser a entrada lateral, percebi que por detrás dos muros da fortaleza se esconde uma majestosa mansão que deve ter sido construída no tempo da outra senhora. Nas proximidades há outros muros longos e altos que devem esconder outras propriedades da mesma geração onde só o google, suponho, é capaz de meter olho míope. 

Não são apenas as fortunas antigas que escondem as residências dos olhares de quem passa. Se há portugueses que exibem, sem complexos de qualquer dimensão, e, talvez, até com orgulho ou demonstração ou presunção de sucesso, as mansões em que habitam, há outros que rodeiam os edifícios de muros tamanhos ou paliçadas de vegetação cerrada. 

A pobreza envergonhada esconde a perda de bens ou rendimentos que a posicionavam em escalão alto ou remediado da sociedade e que se viu privada, por razões diversas, do suporte financeiro que lhe dava prestígio social, apartando-se discretamente da sociedade a que pertenceu. 
Da riqueza envergonhada não se ouve falar. E, no entanto, ela existe e esconde-se, sabe-se lá porquê, em mansões requintadas mas camufladas na paisagem. 

Nos EUA, e em geral nos países do norte da Europa, os proprietários de moradias, desde as mais grandiosas às mais discretas, não as escondem e percebe-se até a intenção de as fazer participar no prestígio dos locais em que se situam. Por cá, os muros escondem a beleza de muita riqueza estética que o conjunto poderia, sem perda de valor para os proprietários, dar ao meio em que se insere.
Há pudor neste recolhimento de alguns muito ricos, simétrico daquele que leva a marginalizar-se quem perdeu o que tinha?

Relembrei-me disto quando ouvi esta manhã na rádio que o sr. António Domingues continua sem apresentar as declarações que deve. Riqueza envergonhada de quê, neste caso? À custa de que pobreza envergonhada?


Wednesday, November 23, 2016

A GUERRA DOS GOVERNADORES

O Jornal de Negócios transcreve hoje aqui alguns excertos da intervenção do governador do Banco de Portugal feita hoje no "Fórum Banca" organizado pelo Jornal Económico e a PwC. 
O jornalista do JN resume no título do artigo o propósito mais polémico da intervenção do sr. Carlos Costa: denunciar que os "problemas na banca surgiram nos anos de Constâncio na supervisão".
C. Costa não menciona explicitamente o nome do actual vice-governador do Banco Central Europeu, e seu antecessor no cargo, mas a alusão é tão evidente como ser a galinha quem põe a coisa branca.

Que às distracções, contemporizações ou pusilanimidades do sr. Constâncio cabe uma grande parte das culpas nas operações que arrombaram a banca, só tem dúvidas quem é devoto ou conivente. Neste obscuro caderno de apontamentos apontei múltiplas vezes o sr. Constâncio como culpado, opondo-me a todos aqueles que invocavam a "impossibilidade do Banco de Portugal" poder ter evitado grande parte dos abusos e crimes praticados, para proveito próprio, pelos banqueiros, à custa dos contribuintes. Uma culpabilização que, obviamente, não retira um cêntimo à responsabilidade material dos autores das moscambilhas. Não fica menos culpado quem rouba se há coniventes que, por acção ou omissão, colocam o delinquente fora da alçada da justiça. 

Do discurso do sr. Carlos Costa pode, pois, legitimamente, inferir-se que o Banco de Portugal dispunha de meios para desempenhar com eficácia as responsabilidades de supervisão que lhe estavam cometidas. E que, estando na altura em que - segundo Carlos Costa - as moscambilhas foram gizadas, o sr. Vítor Constâncio na presidência do supervisor - o Banco de Portugal - o sr. Vítor Constâncio é desafiado pelo sr. Carlos Costa a defender a sua honra.

O sr. Vítor Constâncio, um homem honesto e letrado, um economista competente, um cidadão de primeira água, vai, certamente, ainda que contrariado pela sua natural discrição, defender a sua honra. Não em duelo, à moda romântica, em que o mais provável era desandar um dos contendores para o outro mundo, mas, cientificamente, demonstrar que os resultados das análises publicadas pelo sr. Carlos Costa são inconsistentes, não verdadeiros, provavelmente malévolos, e que a quota de responsabilidades do Carlos Costa na atribuição de culpas neste cartório supera, se é que não anula, a sua. 



A menos que, como é seu hábito, prefira encolher a cabeça entre os ombros levantados, aguardando no seu cantinho, morninho, abrigado e bem pago, que a ofensa passe.

Monday, November 21, 2016

À ESPERA DOS ROBÔS


Estimada Margarida C.A.,

A 27/11/2005 escrevi aqui um texto longo demais para poder caber nesta caixa de comentários.

Espero que, de tão longo, não desanime a sua paciência.

Depois, voltei ao tema várias vezes durante os últimos onze anos:

a globalização, inevitável porque o mundo é cada vez mais pequeno, incita a competitividade e, implicitamente, o crescimento da produtividade (os robôs são um instrumento ideal de aumento da produtividade), e, também inevitavelmente, a redução global de empregos.

E há muito que afirmo, para risada dos meus amigos, que um dia quem quiser trabalhar terá de pagar por isso. 

O que é chocante, verdadeiramente chocante, mais chocante que a ameaça robótica, são as imagens de miséria, fome, doença, guerra, que nos entram em casa se lhe abrimos a porta. 

Ontem estive a ver uma reportagem sobre Angola. 
Eu nunca visitei Angola, mas tenho amigos que nasceram lá ou que lá vão com frequência e já me tinham dado conta da coabitação entre a extrema opulência (Luanda é recordista no consumo de champanhe ...) e a miséria extrema. Ainda assim, não imaginava que o contraste fosse tão profundo, sobretudo considerando as riquezas naturais do país.

E interrogo-me (dúvida pela positiva): O que poderão fazer os robôs por isto?

ELA

ELA é Isabelle Huppert, agora com 63 anos, protagonista de um thriller psicologicamente perverso que a crítica considera excepcional sobretudo pelo desempenho da actriz principal. 
Tão estrelado, fomos ver o filme.
Que é o retrato de um sub mundo (se não estou a ser optimista) na sociedade parisiense da actualidade, povoado por indivíduos que, de um modo ou outro, gravitam à volta de Ela: uma empresária vocacionada para a criação vídeo-jogos explorando o filão da monstruosidade, subliminar ou ostensiva, filha de um condenado a prisão perpétua por crimes de infanticídio que ela presenciou em criança. O guião do thriller passa, no entanto, por outro lado: Ela é violada de forma sádica em sua casa por um mascarado, mas não recorre à polícia, preferindo urdir uma teia onde irá cair o violador sádico. 
Quando o descobre, não o denuncia, submetendo-se à mais que provável hipótese de repetição dos actos. Pelo meio intersectam-se outras relações sexuais entre membros do clã, em que Ela é também participante. Cândido, só o filho de Ela, que teima ser pai de quem, claramente, não foi progenitor. 

Relembre-se que Isabelle Huppert protagonizou em 2000 "A pianista", um enredo de jogos sadomasoquistas. 


Muito aplaudido em Cannes, ELA, de um espectador, que não deve ter lido os críticos, ouvimos, à saída da sala, um sardónico comentário apenas audível nas proximidades "É tudo um putedo, senhor Alfredo!"

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