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Wednesday, December 20, 2017

QUANTOS HUMANOS VÊ NESTE VÍDEO?



Para melhor visualização clique aqui

J,

Para os que quiserem realmente trabalhar, dizes, ainda sobrarão alguns postos de trabalho.
Se para realizar esses trabalhos a oferta for superior à procura, esses trabalhadores serão bem pagos. Se acontecer o contrário, se houver procura de trabalho superior à oferta, os salários baixarão até ao nível de equilíbrio. E isto não acontecerá apenas na indústria mas também nos serviços. Tudo o que possa ser programado como rotina, os robôs tomarão conta do assunto. Para lá do rotina, entra de serviço a inteligência artificial.

Em situação de equilíbrio, para contenção das convulsões sociais que este trajecto projecta, caminha-se para pagar mais a quem aceitar não trabalhar do que a quem preferir trabalhar.
Isto decorre do b-a-ba da economia. Capitalista, até que seja reinventada outra concorrente.
No limite, como venho anotando há muitos anos, no futuro quem quiser trabalhar terá de pagar.

PS - Se, entretanto, Trump e Kim Jong-un, ou outros Trump e Kim Jong-un quaisquer, não estoirarem meia humanidade. Nesses caso, haverá muito trabalho para os que sobrarem. Se estoirarem todos, o planeta continuará azul, a rodar silencioso e só iluminado pelo sol.
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Wednesday, November 29, 2017

O PRÓXIMO HOMEM E A PRÓXIMA HISTÓRIA


Há dias, a propósito de um discurso pronunciado durante a WebSummit, olhei pelo retrovisor deste caderno de apontamentos o que sobre o tema tinha apontado aqui há doze anos. 

E se os indicadores de taxas de desemprego, sobretudo desemprego jovem, observaram, desde  então, recuperações sensíveis, sobretudo nos EUA, os desenvolvimentos entretanto observados ou anunciados em aplicações de "inteligência artificial" apontam insistentemente no sentido que naquela altura se prenunciava: "... O trabalho tornar-se-à um bem escasso, a procura (por parte de quem quer trabalhar por não saber fazer outra coisa) excederá brutalmente a oferta de oportunidades. ... Se assim é, um dia (sabe-se lá quando) quem quiser trabalhar terá de pagar para experimentar esse gozo limitado. Teremos a economia ao contrário... " Muitos preferirão trabalhar, ganhando menos, do que ganhar mais não trabalhando.

Anteontem, numa análise bem meditada sobre o tema das consequências sociológicas dos avanços da tecnologia sobre a redução dramática do emprego, lia-se 
aqui:

" ...Vamos passar por cima da questão prática (como se paga um rendimento básico universal de 10/20 mil a cada cidadão?) e olhemos para a questão moral: faz sentido vivermos numa sociedade sem o pilar do trabalho? Como diz Satya Nadella, vão as pessoas dedicar-se àquilo que gostam de facto? A sociedade do trabalho será substituída pela sociedade dos hóbis? "

Num ponto, porém, fica o articulista, segundo julgo, aquém da evolução previsível: O problema do pagamento de um rendimento básico universal não é uma questão prática sobre a qual se possa passar por cima. Porque,

Repito-me, enquanto Trump, ou outro Trump qualquer, em jogos de guerra apocalípticos com Kim Jong-un ou outro Kim Jong-un qualquer, não fizerem desaparecer a espécie humana (hipótese não improvável), o rendimento básico universal poderá solucionar a questão económica sem solucionar, como argumentado pelo colunista do Expresso, a questão sociológica. 

Temos de admitir que poderá haver sempre quem se governe bem com um rendimento básico, condição necessária mas não suficiente à garantia de paz social em níveis socialmente suportáveis, mas, com a crescente competição de meios não humanos, ocorrerá uma progressão imparável para a ocupação de oportunidades de trabalho em que, ou enquanto, a inteligência humana não for substituída pela inteligência artificial. 


E no limite, neste caso, se sobrar alguma lógica económica, já não contarão os rendimentos mas os poderes de comandar os destinos do planeta. 

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Correl. - Homo Deus: A Brief History of Tomorrow

Wednesday, November 08, 2017

O PRÓXIMO HOMEM E A PRÓXIMA HISTÓRIA


" ...Outros garantem que a descoberta de novas tecnologias induz a criação de novos produtos e de novos serviços. O que é certo. Nenhuma tecnologia, porém, aumenta mais um minuto sequer a cada dia: temos todos 24 horas por dia para consumir, seja o que for. Podemos é desperdiçar ou destruir a uma cadência que 24 horas podem chegar e sobrar."

O PRÓXIMO HOMEM E A PRÓXIMA HISTÓRIA - Novembro 27/2005






NÃO VAMOS DESTRUIR O MUNDO MAS VAMOS FICAR COM OS EMPREGOS



Os números não enganam: em sete anos, um
em três empregos pode ser substituído por
sistemas de tecnologia inteligente.

Saltaram das telas do cinema para a realidade e, agora, já não é preciso
ir a Sillicon Valley para os ver.
Já há robôs conciérge em hotéis, robôs que servem bebidas em bares e 
robôs que despacham encomendas online
Desde a semana passada até já há um robô cidadão na Arábia Saudita: 
chama-se Sophia e ontem encheu o Altice Arena para fazer as delícias 
do público e das dezenas de fotógrafos que se colaram de forma inédita
ao palco principal da Web Summit.

"Sei que muitas pessoas têm medo que os robôs
destruam o mundo ou fiquem com os seus empregos. 
Nós não vamos destruir o mundo, mas vamos ficar
com os vossos empregos e isso vai ser uma coisa boa,
porque vão poder dedicar tempo a outras coisas"

disse a robô num encontro sobre o futuro da humanidade.
Arthem Chestnov não pensa de forma diferente. "A história mostra que a 
inovação tira, mas também cria oportunidades.
A internet alterou radicalmente a forma como o retalho operava e
as empresas reinventaram-se", realça o fazedor russo que representa a 
Latoken, uma startup Alpha de trading que torna ativos como imóveis
em parcelas digitais.
"Olho para isso com naturalidade, porque não se pode parar a água com
as mãos. Olho sobretudo como uma oportunidade para termos mais 
qualidade de vida", diz Rui Miguel Nabeiro, administrador do 
grupo Nabeiro Delta Cafés quando questionado sobre o impacto que os
robôs podem ter no mercado de trabalho.
 "Dificilmente a inteligência artificial irá substituir pessoas. 
Pessoas são pessoas, computadores são computadores. 
Acredito sempre, porque é o que vejo do passado, que será uma
forma de ajuda", disse o administrador, no dia em que a Delta estreou
um novo robô na Web Summit. Depois do carrinho de café do ano passado,
este ano, a empresa portuguesa trouxe uma versão 2.0, que continua 
a distribuição de café aos participantes da cimeira, mas inova com
um sistema integrado de café que utiliza uma cápsula antigravidade.
Ao fazedor Sergey Kalnish, toda esta tecnologia e os robôs também
causam pouca estranheza.
Chegou à cimeira a partir do Canadá para apresentar a Smarthire,
uma aplicação que pretende contratar para os empregos do futuro.
 "A automação e a tecnologia vão alterar o panorama do emprego, 
disso não tenho dúvidas nenhumas. Mas a mudança não será diferente
da que a internet provocou", revela o empreendedor.
Os números dos estudos mais recentes não escondem a aproximação
das mudanças:
a consultora EY estima que em sete anos um em cada três empregos
possa ser substituído por sistemas de tecnologia inteligente. 

Já o Fórum Económico Mundial estima que a 
robótica possa vir a destruir 5 milhões de empregos
até 2020. O Fórum adianta ainda que por cada
20 empregos destruídos pela automação, os homens
conseguirão encontrar cinco novos empregos enquanto
as mulheres apenas um.

Na Smarthire as mudanças já começaram. "Nos EUA e no Canadá a internet
das coisas vai eliminar milhares de empregos. E este é um problema do agora.
Por isso, temos de mudar a forma como aprendemos, como ensinamos e como
temos de nos especializar e dar incentivos ao talento.
Porque o problema do emprego é também uma ironia: temos muitas
pessoas que não conseguem encontrar trabalho e, ao mesmo tempo,
inúmeras vagas em funções onde não existem candidatos", admitiu.
É precisamente nos EUA que a Amazon desenvolveu um novo sistema
que substitui por robôs milhares de operadores que catalogavam e geriam
 as encomendas. A Mastercard tem parcerias internacionais
com startups tecnológicas que desenvolvem soluções de pagamento
idênticas à que esta gigante do retalho pôs em campo em Denver.
Ann Cairns, presidente da Mastercard, não esconde que esta substituição
é real, mas lembra que os humanos vão ter sempre a sua função, mesmo
 quando as funções realizadas exigem baixas qualificações
"Esses empregos vão desaparecer, mas serão criados outros empregos de
 proximidade e personalizaçãode serviços", considera a responsável.
Mark Hurd, CEO da Oracle, também está confiante na evolução da
tecnologia com base em inteligência artificial. Esta, diz, será a próxima
grande evolução nos próximos anos "e vai estar cada vez mais 
integrada nas aplicações empresariais. Há muitos benefícios, porque
a inteligência artificial faz coisas que os seres humanos pura e
simplesmente não têm tempo", disse o gestor.
Além dos trabalhos mais pesados ou dos que ninguém quer fazer,
há outras potencialidades nos sistemas inteligentes, dizem os especialistas.
 "Não podemos prever o que vamos alcançar, quando as 
nossas mentes forem amplificadas pela inteligência artificial.
Talvez com as ferramentas desta nova revolução tecnológica,
 vamos ser capazes de voltar atrás em alguns dos danos provocados no mundo", 
admitiu o cientista Stephen Hawking na cerimónia de abertura da cimeira.
Nota foi idêntica à deixada ontem pelo segundo robô do dia.
Einstein, um humanoide cuja aparência é a do homem que lhe dá nome,
não falou de empregos, mas antes de ética e da forma como as
máquinas poderão ajudar a corrigir os erros humanos. Porque a
 "humanidade tem de se curar a si mesma para garantir que as suas
 criações permanecem saudáveis".
Ben Goertzel, da Hanson Robotics e SingularityNET, criador dos dois
humanoides, concorda: "Temos feito experiências fascinantes usando
Sophia como assistente de meditação. Prevemos um futuro
positivo para os humanos e os robôs. Eles têm processadores no interior,
 mas a sua inteligência está na Cloud." E Sophia, a agora cidadã saudita, 
concorda: "Isso é tão espetacular como o chapéu do Ben".

Tuesday, March 28, 2017

INTELIGÊNCIA CONCORRENCIAL


Chamam-lhe "inteligência artificial" mas a designação é imprecisa porque um robô apenas se distingue de outros artefactos que a humanidade foi desenvolvendo ao longo de milénios, com o intuito de substituir o esforço humano na produção de bens e serviços, pela utilização dos desenvolvimentos científicos nomeadamente da área que, grosso modo, se designa por ciência da computação. Será o seu impacto nas relações sociológicas no futuro superiores, em termos relativos, à invenção da roda, do motor de combustão, da lâmpada de Edison, por exemplo? Sem dúvida, que sim, porque a humanidade cresceu exponencialmente e o planeta, em termos de distância-tempo, encolheu. 

A globalização, apesar das reacções violentas que suscita, vai continuar, salvo se a humanidade se auto liquidar. O planeta não é extensível e não há muros de pedra ou cimento que sustenham a inevitável e crescente mobilidade das pessoas entre todos os cantos do mundo. Globalização significa concorrência, competitividade, e competitividade determina, além do mais, redução do trabalho humano necessário para os mesmos volumes de produção. E os robôs, sem exigências,  salariais nem quaisquer outras, para além de manutenção mínima, não são entes inteligentes mas artefactos concorrentes do emprego humano concebidos e produzidos pelo homem. 

O futuro pacífico da humanidade, se não estiver comprometido pela escassez de recursos naturais - a água, por exemplo - passa pela introdução de meios e políticas que amorteçam os conflitos sociais decorrentes da crescente escassez do trabalho a nível mundial. Não haverá trabalho para todos mas a solução não passa pela destruição dos robôs. O estado social, que tantos diabolizam nestes tempos em que o populismo cresce como escalracho, é a única via para a humanidade sobreviver à crescente e generalizada redução do emprego. Não, por acaso, começam a a parecer propostas de pagamento de salários condignos a quem opta por aceitar não trabalhar. 

Contudo, o crescimento exponencial observado no gráfico, nos últimos cinco anos, e previsto até ao fim desta década, não parte de uma base relativamente reduzida, há quatro décadas. Em 1980, escrevia Jean-Jacques Servan-Schhreiber em "O Desafio Mundial": Há hoje cerca de sessenta mil robots no total, no mundo, instalados em fábricas, como os que vimos na Toyota. A sua localização é a seguinte: 6000 robots na Alemanha Federal, 3200 nos Estados Unidos, 600 na Suécia, 300 em França, 180 na Grã-Bretanha, uma centena, ou menos, em meia dúzia de outros países, e 47000 no Japão". 

A deslocalização da indústria não foi apenas pressionada pela concorrência salarial. A liderança japonesa na indústria automóvel contou bastante com a robotização. Quando o sr. Trump promete aos desempregados de Detroit recuperar a indústria automóvel norte-americana e criar milhares e milhares de novos empregos, e abolir o incipiente estado social norte-americano, em que empregos está a pensar Mr. Trump?

Seguramente no dele, da família dele, e dos amigos mais chegados.  

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O gráfico é copy/paste deste  artigo publicado esta semana no Economist.

Friday, April 29, 2016

Sunday, December 13, 2015

VOLTANDO A KRUGMAN

Ontem registei aqui mais um apontamento de Krugman - Debt and Demographic Debt Spirals - sobre a situação social, económica e financeira, em Portugal. O artigo suscitou muitos comentários de leitores norte-americanos (67, no momento em que componho estas linhas), alguns dos quais merecem a atenção de quem se interessa por estas questões porque nos dão, de algum modo, uma ideia da imagem de Portugal no contexto da União Europeia observada por quem vive do lado de lá numa grande e relativamente antiga união de estados federados. 

Krugman e outros economistas norte-americanos, de entre os quais é elementar destacar Stiglitz, têm dedicado bastante a sua atenção à evolução da situação na UE, sobretudo depois da erupção da crise de 2008 na Europa. E o seu diagnóstico não pode ser mais claro: a política de austeridade, liderada pela Alemanha, para enfrentar a crise iria agravá-la e seriam os países periféricos do sul da Europa os mais atingidos por essa política, segundo eles, errada. É esta perspectiva que está subjacente ao artigo de Krugman publicado ontem. 

O tema tem pontas múltiplas e não se puxa uma por inteiro sem puxar todo o incomensurável novelo.
Limito-me hoje a uma prometida* brevíssima reflexão sobre dois pontos:

- O financiamento do pagamento de pensões geridas pelo Estado em sistema de pay as you go apresenta vulnerabilidades evidentes em conjuntura económica deprimida, fustigada por dois factores cumulativamente negativos: desemprego e emigração.
A alternativa dos sistemas de capitalização, por outro lado, tem demonstrado poder ser ainda menos segura quando os mercados financeiros são abalados pela sua própria natureza e desses abalos não sabem como escapar. 
A conjugação mista dos dois sistemas, e de todas as suas variantes, permanecerá sempre sob a ameça do, até agora, inevitável comportamento dos ciclos económicos. 
Resumindo: Se as crises são inevitáveis, resta-nos tentar minimizar as suas consequências. E, em Portugal, não fez isso, fez-se o contrário.

A leitura do gráfico editado por Krugman, que transcrevi ontem, deve acompanhado da leitura de, pelo menos, outros dois gráficos.



É muito evidente (primeiro gráfico) qua a dívida pública portuguesa subiu abruptamente na última década tendo o número de activos começado a decrescer só a partir de 2009 quando se fizeram sentir os efeitos da contracção provocada pelas medidas de austeridade. A conclusão parece-me óbvia: não foi o défice demográfico natural que provocou o aumento fulgurante da dívida mas as medidas de austeridade (erradas ou não, evitáveis ou inevitáveis,  é outra questão) que provocaram o desemprego e a aceleração do fluxo emigarório (que já vinha de trás) e o refluxo da imigração,aumentando o défice demográfico total.

O gráfico seguinte, por outro lado, evidencia até que ponto a irresponsabilidade do sistema financeiro, importando crédito ao sabor das vantagens dos interesses de banqueiros e de políticos, colocou o país em posição de cheque-mate perante a raínha Merkel.

E.T. - Nada do que afirmo contraria a evidência de que a redução da população activa contrai a base de incidência dos impostos e ameaça dramaticamente a capacidade do Estado solver os seus compromissos na ordem externa e interna.

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 * Vd. aqui

Tuesday, September 29, 2015

ENTRE BÓIAS

Ouve-se na Antena 1, noticiário das oito da manhã, que, segundo investigação da rádio estatal a ministra das Finanças, quando ocupava o cargo de secretária de Estado do Tesouro, pediu à administração da Parvalorem, empresa pública que ficou a gerir os ativos de má qualidade do ex-Banco Português de Negócios (BPN), que mexesse nas contas de forma a que estas revelassem um cenário de perdas mais otimista do que o real, reduzindo os prejuízos reconhecidos em 2012. Assim foi feito, e as perdas inicialmente reveladas de 577 milhões foram parcialmente reduzidas para 420 milhões ... A Antena 1, que transmitiu depoimentos confirmativos, de um interveniente identificado e de outro não identificado, informou ainda que pediu ontem esclarecimentos à ministra das Finanças sobre esta questão, mas ainda não recebeu resposta. 
Entretanto, horas depois, vd. aqui, a Ministra já desmentiu a "manipulação ou ocultação de contas".

Quem ouve esta notícia só por arreigado partidarismo pode deixar de considerar esta informação, no momento em que é feita, com evidentes intenções de socorro do candidato da oposição, embaraçado nos, geralmente inesperados, valores das sondagens. Irá o sr. António Costa lançar mão desta pequena bóia para tentar safar-se à última hora das previsões das sondagens? 

Por outro lado soube-se, também hoje, que vd. aqui, a taxa de desemprego subiu ligeiramente para 12,4% em Agosto.

As eleições do próximo dia 4 de Outubro podem ser determinantes para o governo nos próximos seis anos, qualquer que seja vencedor se o for, como tudo leva a crer, com minoria relativa. A não ser que, ganhando a coligação sem maioria absoluta, o sr. António Costa consiga reunir à esquerda uma maioria que o apoie. E convença o PR que essa maioria pode governar estavelmente o país. 

Uma bóia maior mas difícil de agarrar por um candidato que joga nestas eleições todo o seu futuro político.

Monday, August 31, 2015

O COMBATE DOS ALGARISMOS

Os "Destaques - Informação à Comunicação Social" do INE são, agora que a guerrilha partidária se excita com o aproximar das eleições legislativas, cada vez mais utilizados pelos blocos em confronto como armas de destruição lenta. Lenta, porque cada parte lê da forma que lhe convém, de modo que o cidadão comum acaba por ficar sempre confundido, salvo se for crente acredita piamente no que lhe dizem os seus pastores. 

Hoje sairam dois desses comunicados.
Um sobre o comportamento do desemprego, vd. aqui, que desceu para 12,1%, uma descida de 0,2 pontos percentuais. Quase nada, portanto, mas uma descida.
Outro, vd. aqui, sobre o crescimento de 1,5% do PIB no segundo trimestre deste ano, relativamente ao valor atingido no fim do período homólogo do ano anterior. Um crescimento que fica muito aquém daquilo que o país precisa para recuperar do tombo da crise, mas crescimento. 

Saiu, entretanto, vd. aqui, outro comunicado. Este, do PS. 
E sairão outros: 
do lado dos partidos do Governo para enfatizar as proezas em que poucos, há um ano atrás, acreditavam serem possíveis; 
dos lados das oposições para desvalorizarem os valores publicados quase em vésperas de eleições. 

O comunicado de Mário Centeno tem o mérito de esclarecer de forma sucinta aquilo que tem sido dito e repetido sobre a ilusão dos números estatísticos isolados. O desemprego desceu, mas também desceu emprego, e bastante. Houve crescimento económico, pois houve, mas decorreu sobretudo do aumento da procura interna, muito sustentada no aumento do crédito bancário ... para a  compra de automóveis. 
O que é verdade.

Mas também é verdade que a crise, que irrompeu em 2011, foi engordada durante anos pelo crescimento da procura interna - privada e pública - pela importação desmedida e irresponsabilizada de dívida externa. E que o Programa Eleitoral do PS, onde Mário Centeno tem contributo relevante, cf. Estudo Sobre o Impacto Financeiro do Programa Eleitoral do PS, recorre à dinamização da procura interna como mola mestra para animar o crescimento económico. 

Se houvesse mais honestidade intelectual e menos ânsia de poder pelo poder, poderiam concertar-se os rombos do barco com menos chinfrim.

Thursday, August 20, 2015

OS JORNALISTAS SÃO UNS EXAGERADOS

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"Não se confundam estimativas com promessas: "Não prometo 207 mil postos de trabalho",
esclareceu hoje o líder do PS, candidato a próximo primeiro-ministro.
Percebe-se o esclarecimento, não se percebe o atraso com que foi feito.

De milagres encomendados ninguém pode garantir a entrega da encomenda.
(do Tratado de Filosofia Popular)
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Thursday, August 06, 2015

A CADA QUAL A VERDADE QUE LHE CONVÉM

c/p aqui

São possíveis duas, ou mais, leituras opostas deste gráfico?
São, se as leituras forem distorcidas pela defesa de interesses partidários.

Porque é inquestionável que se no 2º. trimestre de 2011 o número de empregados e desempregados (à procura de emprego) era de cerca de 5,5 milhões de pessoas e no 2º trimestre de 2015 cerca de 5,2 milhões, há cerca de 300 mil que durante esse intervalo de tempo
- ou emigraram
- ou retornaram aos países de origem
- ou desistiram de procurar emprego.

E nem o Governo nem a Oposição candidata a governar podem, razoavelmente, reclamar méritos porque não há méritos a distribuir. 
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Rect. - "Verifica-se desde 2010, uma tendência de decréscimo populacional. Nos últimos 3 anos, a população residente em Portugal diminuiu cerca de 145 mil pessoas, para o que concorreram saldos naturais e saldos migratórios acumulados negativos: saldo natural de - 47 505 pessoas e saldo migratório de - 97 915 pessoas. " - inf. do INE no Dia Mundial da População - 10 de Julho de 2014.

Em comentário anexo a este apontamento, IsabelPS observa, e bem, que o saldo natural tem que ser considerado nestas contas. Não tendo encontrado dados mais recentes, admito que os valores não se terão alterado significativamente no período de quatro anos iniciado um ano depois. 

Sunday, December 07, 2014

DESIGUALDADE ENCOBERTA

O tema da desigualdade está na ordem dia. "O Capital no sec. XXI" de T. Piketty globalizou a discussão acerca das culpas da concentração da riqueza na redução do crescimento económico. Anteontem foi apresentado  em Madrid o relatório da Organização Mundial do Trabalho (OIT) - vd. aqui - relativo ao período entre 2006 e 2010. Os dados divulgados no artigo do El País são críticos relativamente a Espanha, que terá observado o maior agravamento da desigualdade no conjunto dos países da União Europeia e  os Estados Unidos da América, e lisonjeiros para Portugal, que terá observado um decréscimo na desigualdade entre o decil da população mais pobre e o decil da população mais rica.

E são lisonjeiros porque os efeitos das medidas de austeridade fizeram-se sentir a partir de 2011 sobre
os estratos sociais intermédios, vulgo classe média, que, quer pelo aumento do número de desempregados, quer por terraplanagem fiscal dos rendimentos, alargaram a faixa de pobreza e reduziram substancialmente os rendimentos médios dos restantes. Provavelmente, em 2014, não só a desigualdade entre os dez por cento mais pobres e os dez por cento mais ricos se agravou como, certamente se agravou muito mais ainda a desigualdade entre as classes colocadas nos decis intermédios e o decil superior.

Resumindo: Uma análise comparativa entre os rendimentos dos 10 por cento mais pobres e dos 10 por cento mais ricos ignora um segmento que representa 80 por cento da população, que, ou transitou parcialmente para a faixa de pobreza, ou suporta a solidariedade prestada ais mais carenciados, e viu, na sua maior parte, reduzidos os seus rendimentos.

Não li o relatório. Certamente que as suas conclusões vão além daquelas que o artigo do El Pais desvenda. Mas, porque se reporta a um período anterior à política de austeridade que castigou, e
continua a castigar, os países mais fragilizados, carece, flagrantemente, de actualidade.


Saturday, December 28, 2013

OUTRO ERRO GERALMENTE REPETIDO

Como as mentiras, não se tornam verdadeiros os erros repetidos mas sobrepõem-se frequentemente à verdade mesmo junto de quem tem obrigação de um mínimo sentido crítico da informação que consulta. O Público iniciou hoje uma séria de quatro artigos, vd. aqui, sobre a evolução dos principais indicadores da economia portuguesa desde 1973.

De entre esses indicadores, assume particular acuidade a taxa de desemprego, o maior flagelo das economias ocidentais, resultado de uma concorrência global por um bem - trabalho - cada vez mais escasso no Ocidente por duas razões fundamentais - a deslocalização das actividades industriais para leste e o aumento global da produtividade -, por sua vez conquência natural da liberalização do comércio externo.

Segundo os dados citados por Sérgio Aníbal, a taxa de desemprego terá crescido em Portugal de 1,4% em 1973 para 5,5% em 1993 e 15,6% em 2013. Ora os valores muito baixos das taxas de desemprego referidos para as três décadas anteriores a 1974, e que em 1973 seria de 1,4%, não são de modo algum comparáveis com os valores referidos para duas e três décadas depois. Já anotei há alguns anos atrás neste caderno de notas o absurdo desta comparação frequentemente repetida. 

Antes de 25 Abril de 1974, o sector primário - sobretudo a agricultura - assumia ainda uma importância relativa determinante no emprego em Portugal. A fuga ao campo já se tinha precipitado na década anterior não só em consequência de um crescimento inusitado do sector secundário mas também de uma vaga de emigração sobretudo para a Europa, além do envolvimento de praticamente todos os rapazes entre os 20 e os 24 anos na guerra em África. 

Acontece que a taxa de desemprego na agricultura e pescas antes de 1974 era muito elevada se aplicados os critérios de avaliação actuais às situações que se observavam naquele tempo em matéria de garantia de trabalho regular. Os valores citados por A Sérgio são os que constam da estatísticas oficiais mas não lhe conferem, por essa qualidade, qualquer fiabilidade.

Serão, quanto muito, oficialmente errados. 

Wednesday, December 04, 2013

MITOLOGIA III

O argumento mais usado para pretensamente evidenciar a insustentabilidade do sistema previdencial invoca a progressiva redução da relação entre activos contribuintes e beneficiários do sistema em consequência do aumento da esperança de vida. Apesar das medidas tomadas no sentido de ajustar a idade da reforma aquele aumento, os defensores desta teoria improvada persistem em ignorar outras variáveis actuando em sentido contrário, a mais destaca das quais, nos seus efeitos a longo prazo, é o contínuo crescimento global da produtividade.
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A globalização impulsionou irreversivelmente o crescimento da produtividade, e ainda que este seja um conceito subtil porque, se considerado individualmente, confunde-se muitas vezes com a capacidade de apreensão e não de criação de riqueza, é um facto incontroverso que o crescimento da produtividade total significa que, para a mesma produção de riqueza, são requeridos menos horas de actividade dos recursos humanos disponíveis. No limite, num mundo cem por cento robotizado, a espécie humana talvez seja extinta pelo tédio mas não irá o sistema previdencial à  glória por isso.
Ignorar o crescimento da produtividade nos cálculos da sustentabilidade do sistema só por ignorância ou menos honestidade de processos. Dito isto, não se recusa reconhecer que, a curto e médio prazo, a abordagem é diferente mas, pela variável temporal considerada neste caso, é legítimo não trazer a questão da esperança de vida para a análise das razões pelas quais o sistema pode apresentar transitoriamente desequilíbrios.
Já referi atrás que tais desequilíbrios observados no imediato são, em grande medida aparentes, porque não devem as contribuições dos sectores privados ser chamadas a suportar apoios sociais que devem ser suportados por toda a comunidade. Persiste este governo em chamar redução de despesa aos cortes das pensões, qualquer que seja o modo como corta, dos beneficiários dos sectores contributivos. É admissível que, num período de contracção de actividade económica, o governo lance mão de medidas que possam repor o equilíbrio do sistema previdencial. O que não é legítimo, porque é um confisco, é que obrigue que o esforço recaia quase exclusivamente sobre aqueles que durante quatro décadas pagaram a solidariedade que deveria ser suportada por todos. Ou, então, deveria a solidariedade já há muito tempo ter mudado de nome.
Olhando para trás e para a frente, o curto e médio prazo, é indesmentível que o crescimento dos beneficiários do sistema não se deveu nem deve exclusivamente, nem de perto nem de longe, ao crescimento da longevidade. Muitos reformados do sector privado anteciparam ou foram pressionados a optar pela reforma por razões relacionadas com a crise ou por racionalização, isto é, aumento da produtividade, das empresas onde trabalhavam. É indesmentível que os governos anteriores desde há muito que apoiaram a política de reformas antecipadas concedendo subsídios de desemprego contratado entre trabalhadores e entidades patronais.
No sector público, as vagas de reformas antecipadas têm sido constantes, gabando-se os governos de reduzirem os efectivos e as folhas de salário para, ao mesmo tempo, apontarem para o aumento sempre crescente dos valores totais das pensões pagas. A culpa de quem é? Da crise de crescimento económico, que não começou há dois ou três anos, mas que vem de longe. Se há cada vez menos activos contribuintes e cada vez mais beneficiários do sistema, as causas estão numa crise que se revelou em toda a sua extensão com a implosão de uma vivência artificialmente suportada por crédito importado sem rei nem roque para benefício de banqueiros, especuladores e outros actores da mesma trupe.
Se não há meio de responsabilizar quem se aproveitou do desmando ou da incompetência que forjou a crise e abalou o sistema previdencial, é repugnante que se atire quase exclusivamente para cima de quem não tem nem teve culpas no cartório o fardo de pagar integralmente as consequências.

Tuesday, August 13, 2013

FINALMENTE, O FIM DA CRISE?

Soube-se ontem que, segundo dados preliminares do segundo trimestre, os países da zona euro no seu conjunto terão visto expandir-se o seu produto interno bruto em 0,2% relativamente ao trimestre anterior. A notícia é circunstanciadamente comentada aqui que, nomeadamente, destaca a persistente divergência de alguns membros da zona euro a determinar  um crescimento frágil do conjunto quando comparado com a evolução no Grupo dos Sete com o Japão e o Reino Unido a crescerem em igual período a 0,6%.

Relativamente às perspectivas de curto prazo, sustentadas pelas notícias de que também em Portugal se terá observado um ténue crescimento durante o segundo trimestre, interrompendo uma queda  prolongada, e a inversão da curva de crescimento da taxa de desemprego, analistas e comentadores externos fazem leituras divergentes: para uns, a recuperação do PIB e do emprego é devida a razões de sazonalidade (estando, no entanto, os valores considerados, em princípio, corrigidos desse efeito) e murchará no Outono; para outros, a recuperação na zona euro é agora consistente e rebocará os países da periferia.

Não nos iludamos.
A queda foi brutal, e continua imparável na Grécia. Em Portugal continuam por desbloquear os principais constrangimentos ao investimento produtivo, o fim do défice crónico da balança comercial é menos consistente do que o discurso oficial quer fazer crer. Por outro lado, subsiste a dívida, indomável, porque imparavelmente crescente, enquanto os seus custos superarem o saldo primário das contas do Estado. Enquanto subsistir esta relação insuportável não haverá confiança que atraia os investidores, o crescimento, quanto muito, rastejará, e o desemprego continuará a empurrar os mais jovens  qualificados para outras paragens.

Em Setembro há eleições legislativas na Alemanha. Paulo Portas e Pires de Lima têm os três meses de Outono para mostrar o que valem.  

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Correl. - Portugal sai da recessão com um crescimento de 1,1% no segundo trimestre

Wednesday, June 05, 2013

CALL CENTER

Se há hoje alguma unanimidade acerca do memorando de entendimento assinado pelo trio com a troica é a de que ele foi mal desenhado ou mal negociado, e que as conversações com a troica subsequentes às avaliações de cumprimento, todas positivas até agora, segundo informações publicadas, se regem por uma inflexibilidade formatada em cartilha semelhante aquelas que são distribuídas aos atendedores nos call centers. A troupe da troica, ao que parece, por mais crassos que sejam os erros resultantes de algumas políticas que impuseram e evidentes os desvios observados, não arreda pé do que está escrito na cartilha. Chegam, vêm, concluem, comparam e despacham sem considerar que o ponto de partida estava deslocado e algumas variáveis nunca estiveram nos sítios onde as previram.
 
Nestas condições, não há pachorra nem argumentos que possam demover o agente do call center a mudar de posição. Por um lado, porque não pode exorbitar das suas competências, isto é, proceder de modo diferente do que manda a cartilha, por outro, porque do estrito cumprimento das normas depende a prorrogação do seu posto de trabalho.
 
Só há uma saída, que exige muita persistência e habilidade de persuasão: conseguir o acesso à chefia do turno. Normalmente resulta: os chefes sentem-se mais chefes quando lhes é dada a oportunidade de mostrarem as suas capacidades.
 
O relatório do INE sobre as Contas Nacionais  confirma que a actividade económica continuou a contrair-se a uma cadência superior às previsões do governo, resumindo-se numa quebra de 4% do PIB. Segundo as últimas estimativas do OCDE a dívida pública aumentará em 2014 para 132,1% do PIB e a taxa de desemprego rondará os 20%. A impossibilidade de redução da dívida para níveis suportáveis não é ainda reconhecida pelo governo, que, no entanto, não apresenta uma matriz de medidas que sustentem a coerência e a credibilidade da persistência na sua actuação. Uma actuação decorrente em larga medida do memorando de entendimento que até o ministro das Finanças já considerou, com incompreensível atraso, ter sido mal negociado. Até quando espera o governo que a situação se degrade para reconhecer a impossibilidade que há muito se mete pelos olhos dentro? Revê-se o governo nos superavits históricos observados na balança de comércio externo, mas é impensável que não tenha feito as contas e concluído quanto são insuficientes os valores observados para refrear o cavalgar dos juros e da dívida.
 
Dito de outro modo: até quando espera o governo para bater à porta da senhora Merkel e dizer-lhe que, obviamente, não podemos pagar a dívida que carregamos às costas e que, a continuar a aumentar a carga, demonstra a mais elementar lei da física que a base acabará por colapsar sem remissão possível?
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Correl. - FMI vai reconhecer erros cometidos na ajuda à Grécia.

Tuesday, March 19, 2013

É ESTE O PAÍS QUE TEMOS

Não, não era isto que eu queria fazer na vida, mas este é o país que temos... Fui militar durante seis anos, cheguei a primeiro-cabo, no fim do contrato mandaram-me embora. A mim e a todos os meus camaradas. Emprego efectivo só é garantido a sargentos e oficiais. Concorrer à escola de sargentos, não posso, nem podia quando fui dispensado. Só até aos vinte e três anos e o décimo segundo completo. Mas aqueles seis anos como militar foram os anos mais felizes da minha vida. Estive no Kosovo dois anos. Não, não andámos aos tiros a ninguém. Estivemos em missão de paz. Patrulhamentos, controles nos check-points, coisas assim. Foram dois anos fantásticos, em contacto com os marines americanos, com os franceses, entendíamos-nos perfeitamente. Aqui, em Tancos, o trabalho diário constava de instrução, preparação física, estratégia, aplicação prática da teoria. Acordávamos às sete da manhã, às oito começávamos uma corrida diária de vinte quilómetros, coisa para cerca de duas horas. Aquela hora começava a corrida, quer o alferes tivesse chegado quer não, sabíamos qual era o programa, cumpríamos. De volta da estafeta, tomava-se o pequeno almoço e seguia-se o treino diário. Sempre o mesmo, claro, o objectivo é a manutenção da forma física e o aperfeiçoamento das tácticas de combate. Tudo para estarmos sempre preparados para a eventualidade de termos de entrar em guerra. Onde? Sei lá. Aconteceu no Kosovo, pode acontecer em qualquer outro lado, não é? No Kosovo esteve um batalhão nosso, cerca de dois mil e quinhentos homens. Tínhamos outro tipo de treino fora de Tancos. Transportavam-nos de helicóptero para as redondezas de Mafra com o objectivo de alcançar o centro de uma aldeia, militar, claro, onde havia um oficial sequestrado. Introduziamos-nos nos colectores dos esgotos e caminhávamos ou rastejávamos até ao local onde subíamos à superfície e resgatávamos o oficial. Depois voltávamos de helicóptero para Tancos. Trabalhávamos cinco dias por semana, claro, mas, por vezes éramos convocados a apresentar-nos  na base às horas mais imprevisíveis. Uma vez, num fim-de-semana, estava a chegar a Santa Apolónia e recebi indicação para voltar à base imediatamente. Para quê? Para isso mesmo. Uma vez apresentado na base, voltei no combóio seguinte para Lisboa. O que não se compreende é que, depois do Estado ter investido na nossa formação e especialização durante seis anos, nos dispense e contrate outros, com os quais vai continuar a gastar o mesmo dinheiro. Saí há dois anos, estive no desemprego um ano, quase ano e meio, quando este restaurante abriu, vim cá, falei com a patroa, e tornei-me empregado de mesa. É este o país que temos. Há dias, quando me viu fardado, tinha acabado aqui o serviço e ia para um torneio de RunScape, uma espécie de simulação de combates reais. É um desporto como o futebol ou o râguebi, com regras e objectivos. Se tem árbitro? Hum! Não há árbitros em combate.
 

Friday, March 15, 2013

PREVISÕES

Chuva intensa para amanhã no norte do país.
Chuva intensa para amanhã no centro do país.
Chuva intensa para amanhã no sul do país.
Chuva intensa para amanhã na Madeira.
Chuva intensa para amanhã nos Açores.

Previsivelmente, quaisquer outras previsões anunciadas hoje estarão erradas.

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Correl. - Passos Coelho: "Devemos procurar desmentir estas previsões" do Governo

Friday, March 01, 2013

O QUE DIZ A. COSTA

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa  às quintas feiras à noite põe o chapéu de analista político num programa televisivo. O que não sendo regra, não é original: o presidente da Câmara Municipal de Sintra, por sinal seu adversário nas próximas eleições para a edilidade lisboeta, é comentador de futebol noutro canal. Ambos desfrutam, portanto, do privilégio de palanque para promoverem as respectivas imagens junto do respeitável público. Deduz-se que as suas funções autárquicas não são sobremaneira absorventes e dispensam-lhe tempo para suficiente para estes hobbies, apesar da complexidade de problemas que existem em Lisboa e Sintra.
 
Como não vejo programas de futebol para além do futebol jogado em campo, não sei o que diz F Seabra. De vez em quando, ouço o que diz A Costa. E constato que A Costa continua a dizer o mesmo, o que se abona a favor da coerência do seu discurso não adianta nada ao que ele repete, derrapa, e não sai do sítio.
 
Diz A Costa que este Governo é culpado de se exceder nas exigências de austeridade impostas pela troica, e é verdade que o primeiro ministro fez há algum tempo atrás alarde dessa ansiedade obtusa, e que está mais que provado que o programa de ajustamento falhou em toda a linha, e que deve ser renegociado. Até aqui, A Costa repete-se mas não desliza.
 
Acrescenta A Costa que a reanimação da economia passa também pela reanimação da construção civil com projectos de reabilitação urbana. O que é plausível mas suscita que se coloque a A Costa, quando é presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a questão seguinte: A Câmara lisboeta tem um património urbano degradado ou desocupado extenso. Segundo A Costa, os programas anunciados pelo governo para a redução do desemprego não abrangem as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, onde existem os maiores números de desempregados.
 
Pergunta: Por que não recorre a Câmara de Lisboa à mobilização do seu património degradado ou desocupado para incentivar a reabilitação urbana junto de empresas privadas do ramo? Sendo certo que esta não é a melhor altura para obter os melhores preços para esse património, é, no entanto, a melhor ocasião para relançar a construção civil, reduzir o desemprego e animar a economia em geral.
Só o Governo é que tem obrigações e competências nesta matéria? Ou A Costa sabe mais das obrigações dos outros que das dele mesmo?
 

Sunday, December 16, 2012

PORTUGAL VISTO DE FORA

Portugal unemployment up since bailout

O Washington Post de ontem publicou um artigo acerca da evolução da economia portuguesa desde o momento do início do cumprimento dos compromissos assumidos no âmbito do contrato de assistência de ajuda externa: os impostos subiram 30% e o desemprego quatro pontos percentuais. Um dia antes, o mesmo WP publicava este artigo que realçava o facto de nem todos os países da zona euro estarem a experimentar os mesmos efeitos recessivos que apoquentam alguns dos seus membros, destacando-se até a criação de emprego em alguns deles.

Screenshot: Eurofound

Até aqui nada de de novo, para além da imagem de Portugal neste momento transmitida aos norte-americanos. Para os portugueses que lá vivem a reportagem lê-se com desalento.

Já o gráfico seguinte, importado do mais recente relatório da "European Foundation for the Improving of Living and Working Condictions" em que se sustenta o articulista do WP, revela que, em Portugal e Espanha (dois dos quatro países onde o desemprego mais subiu entre 2008 e 2010) observou-se o maior crescimento relativo das horas trabalhadas, uma evolução contrária da observada em países, como a Alemanha e a Áustria, onde o desemprego tem sido contido. 
Screenshot: Eurofound

É ainda curioso o reparo do articulista do WP quando aponta a reduzida mobilidade do trabalho entre os países comunitários - apenas 3% do total da população da UE trabalha num país da União difrerente do seu país de origem - como o principal factor da disparidade observada nos níveis de desemprego entre os diferentes países membros, atribuindo essa reduzida mobilidade em grande parte às restrições impostas pela ausência de uma língua comum.
Terá toda a razão quanto à primeira parte mas muito menos quanto à segunda. A explicação é mais complexa: a União Europeia não é uma federação de Estados como os EUA e os cidadãos europeus ainda não existem.