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Saturday, January 20, 2024

A MELHOR DEFESA É O ATAQUE

A melhor defesa contra Donald Trump é o ataque, afirmou anteontem Lagarde em Davos.
 
"Perante a possibilidade de Donald Trump vir a ser novamente eleito Presidente dos Estados Unidos, Lagarde defende que a União Europeia deve garantir a nível interno, "um mercado forte e profundo, com um verdadeiro mercado único". ...
 
Sound bites, bem enquadrados no seleccionado ambiente económico e financeiro de Davos, que esquecem ou querem fazer esquecer que a União Europeia ou se defende com armas, que, por enquanto não tem, ou é abatida impiedosamente, independentemente da unidade do mercado na sua área.
Se Trump é eleito, situação muito provável, a Ucrânia - ele já, indirectamente o garantiu - será oferecida a Putin e a NATO, sem os EUA, não terá capacidade de defesa e muito menos de ataque.  
Os regimes autocráticos submergirão em todo o espaço europeu os direitos a que nos habituámos, de liberdade de expressão e pensamento.
Exagero meu?
Supor que a liberdade se defende com armas económicas e ignorar a ameaça das armas atómicas de longo alcance denota visão muito limitada de todo o campo da UE a defender.
Ingenuidade de Christine Lagarde? Não penso que Lagarde seja tão ingénua, mas é difícil entender que ela observe a iminente ameaça de Trump, após as eleições em 8 de novembro, e, com esse alerta, queira convocar a resistência da União Europeia usando o reforço dos meios financeiros para enfrentar essa ameaça. 

A União Europeia consolidou de algum modo a sua identidade adoptando a moeda única, a que nem todos os países membros aderiram, não tem uma política de defesa comum suportada em forças armadas sujeitas a um comando-geral, não tem política comum de representação externa, sem a qual ameaça estilhaçar-se mesmo antes de Trump aparecer no palco da Casa Branca. 
Órban (mas não só) é amigo de Putin, Putin é inimigo da União Europeia, Trump é amigo de Putin, como é que a senhora Lagarde quer afastar a ameaça com políticas que ignoram as maiores fragilidades da União Europeia, e que ela se propõe agora instalar quando durante os últimos quatro anos (é presidente do BCE desde novembro de 2019) não o fez ou não conseguiu que fosse feito?

Percebe-se que Lagarde falou em Davos porque foi convidada a intervir. O que não se percebe é a razão porque levou o fantasma de Trump para a sala sem, realmente, saber como se pode enfrentá-lo.

Wednesday, January 12, 2022

CASALINHO RAMALHO E VIEIRA

Porquê, dos bancos sediados em Portugal, só o NovoBanco faz parte do sindicato bancário para a venda das OT iniciada hoje?

Portugal está no mercado para uma venda sindicada de obrigações do Tesouro (OT) a 20 anos.  O IGCP mandatou o BNP Paribas, o Credit Agricole CIB, o Morgan Stanley, o J.P. Morgan, o Nomura e o NovoBanco enquanto "joint lead managers" para a emissão de OT com maturidade em abril de 2042. - aqui
 
BCE está a investigar relação entre Ramalho e Vieira no NovoBanco. 
Banco de Portugal passa responsabilidade sobre avaliação da idoneidade de António Ramalho para Banco Central Europeu, que admite está a analisar os desenvolvimentos recentes sobre a relação entre Luís Filipe Vieira e António Ramalho. - aqui

 

Wednesday, November 15, 2017

AS LEIS E OS BANCOS


Há dias indignava-se um administrador de um dos principais bancos sediados em Portugal com a diarreia regulamentadora dos burocratas do Banco Central Europeu.
Dos burocratas?, estranhei eu. Mas não é o Draghi que dá a táctica e a estratégia?
O Draghi, explicou ele, paira acima desta produção massiva de regulamentos. Os burocratas tendem a acautelar a sua falta de conhecimentos resguardando-se com a multiplicação de regras.
Mas os burocratas não são contidos nessa tendência, que lhes é congénita, pelos quadros superiores da cadeia de decisão?, admirei-me eu.
Não, os quadros intermédios limitam-se a concordar com as propostas das bases e a submetê-las a decisão superior. E assim sucessivamente pela escada acima. Nenhum dos tecnocratas posicionados na pirâmide  se atreve a discordar das bases, que reflectem os equilíbrios de poderes negociados em abstracto nos conselhos de ministros da União Europeia. Deste modo se aprovam regras que distorcem a racionalidade de decisão dos bancos para pagamento da incompetência dos burocratas.

Ou do porteiro do BCE?
Os banqueiros, com raras excepções, confirmaram nos últimos dez anos que, quando deixados à rédea solta, decidem sem avaliação prudente das suas decisões, porque o seu objectivo é a ganância ilimitada do crescimento das suas fortunas e o risco, quando se lhes parte a corda da sorte, é sustentado pela rede de impostos aos contribuintes. Se os burocratas são diarreicos é porque a ingestão desmedida de moscambilhas provocou, e continua a provocar, perturbações gástricas ao sistema e os custos da limpeza continua a cargo daqueles que, na sua esmagadora maioria, em nada contribuíram para a emergência do síndrome.
Elimina-se ou reduz-se a dimensão dos estragos soterrando o sistema com regras?
De modo algum. Para cada regra parida descortinam os advogados entre as malhas de regras tecidas pelos burocratas buracos suficientes para elidir os propósitos dos regulamentos e, quanto mais densa é a malha mais se adensa com o decorrer do tempo a sua vulnerabilidade.
Muitas das irregularidades ou oportunismos eticamente reprováveis cometidas pelos banqueiros ou com a sua cooperação passam pelos paraísos fiscais, que são também os paraísos dos traficantes de drogas, de armas, de terrorismo, de seres humanos, porque os canais de passagem são de natureza idêntica.
São precisas mais leis?
Os burocratas não têm ao seu alcance outras medidas, e produzem leis.
Resolvem o problema? Não resolvem. Os "Panamá Papers", os "Paradise Papers" e outros papers que irão continuar a aparecer demonstram que as leis são, em larga medida, inconsequentes porque os interesses envolvidos são gigantescos e a falta de ética se tornou banal.
Que fazer?
Acabar com os offshores!
Seria a medida mais eficaz para reduzir significativamente as ameaças que passam pelos bancos a caminho das costas dos contribuintes. Seria, mas não serão os burocratas que a podem determinar. Que, entretanto, para fazerem alguma coisa, fazem leis.

Monday, February 06, 2017

ONDE ESTÃO OS CINTOS DE SEGURANÇA?


"BCE trava a fundo compras de dívida portuguesa. Janeiro foi o mês menos activo do programa" - 
cf. aqui


Friday, August 19, 2016

A ANEDOTA DESTES DIAS

A Caixa continua na ordem do dia. 

Dos 19 nomes propostos pelo Governo ao BCE para a administração, o BCE vetou 8, todos indigitados como administradores não executivos, incluindo a única mulher que constava da longa lista, e recomenda que o total não ultrapasse os 15, dos quais, 3 a 6 devem ser mulheres. 
Dos 7 administradores executivos aceites pelo BCE, seis são provenientes ou passaram pelo universo BPI; a excepção, Pedro Leitão, que foi administrador da PT, que viria a cair no buracão brasileiro da Oi, está envolvido no processo judicial do caso BES-PT.
O presidente da comissão executiva poderá acumular funções de presidente do conselho de administração durante seis meses, período após o qual deverá tomar posse um presidente do CA distinto do presidente da comissão executiva. 
Três dos sete administradores executivos, devem frequentar curso de gestão bancária estratégica no INSEAD.

Porque o veto dos 8 decorre uma lei bancária que não consente a excessiva acumulação de cargos dos propostos, supondo que tanta carga horária não lhes permitiria mais que assinar as actas, ao secretário de estado do pelouro ocorreu a luminosa ideia de alterar a lei. BE e PCP já disseram que não, que a haver alteração da lei ela deve ir no sentido de uma restrição ainda maior.

Entretanto, a Comissão de Trabalhadores da Caixa deu publicamente conta da sua estranheza pelo facto de nenhum director da instituição ter sido convidado para o quadro de administradores.
É, realmente, espantoso que o BPI possa dispensar vários colaboradores para a administração da Caixa, ainda que três deles tenham de ir para a escola aprender gestão bancária estratégica, e, desses, um tenha que prestar contas à Justiça, e a Caixa, que dispõe de um efectivo de pessoal bem mais numeroso, não tenha conseguido que pelo menos um dos seus quadros superiores tenha adquirido as competências necessárias para ascender à administração. Talvez por falta de frequência do INSEAD.
Ou terão nascido todos apenas para servir.


Tuesday, August 16, 2016

E AGORA, ANTÓNIO?

"A DBRS - única agência de rating entre as quatro a que o BCE recorre para avaliar a dívida pública dos países que atribui grau de investimento à dívida portuguesa – mostra-se preocupada com o fraco crescimento (+0,2%) registado pela economia portuguesa no segundo trimestre deste ano" - aqui


"As taxas de juro implícitas na dívida portuguesa voltaram a negociar acima dos 2,8%, depois de a DBRS ter deixado alguns alertas sobre a evolução da economia e o seu impacto no "rating" do país. A taxa de juro implícita na dívida de Portugal a 10 anos está a subir 12,7 pontos base para 2,819%, depois de esta manhã ter chegado a renovar o mínimo de Janeiro, ao negociar nos 2,673%." - aqui

Há uma saída que não conduz a lado algum: culpar as agências rating.
Quanto às outras, seria bom que os principais partidos se entendessem. Lamentavelmente, parece que não pode esperar-se que isso aconteça mesmo que aconteçam eleições antecipadas mais cedo do que muita gente a partir de certa altura passou a supor.

Sunday, June 28, 2015

QUAIS CREDORES?


Estimado António,

Subscrevo.
Mas depois de subscrever, interrogo-me:
Quem são os credores dos gregos? Quem lhes emprestou a pipa de massa com que eles se embebedaram?
Foi o BCE? Foi o FMI?

Quando o BCE e o FMI entraram em cena, se não estou enganado, eles já estavam afundados em crédito até ao cocuruto, ou não?
E depois foram resgatados pelo BCE e pelo FMI. Se não teriam ficado afogados e, com eles, aqueles que lhes concederam o crédito. Ou estou a ver mal?

Por onde andam esses credores que, em primeira mão, lhe colocaram os fundos nas unhas, quiçá lhes enfiaram até o crédito pelas goelas abaixo?

Quando o FMI entrou em cena, projectou uma evolução do PIB que Krugman publicou aqui


Sei que desconfias do Krugman, por isso não te peço que leias o texto mas que olhes para o gráfico, que não deve estar falseado.
Parece que depois da embriaguez de crédito as medidas do FMI não ajudaram na ressaca. Ou ajudaram e o gráfico está borracho?
Quanto ao resto, tudo bem. Ou tudo mal, se assim o entenderes.

Monday, June 01, 2015

O INVESTIMENTO DILETO DOS PORTUGUESES

"Portugueses compram 21 mil carros em Maio. Nos primeiros cinco meses de 2015, o mercado matriculou 92.605 veículos automóveis." - cf. aqui

O crescimento das vendas de automóveis em Portugal já não pode atribuir-se apenas à recuperação da queda durante os primeiros anos da crise porque, por um lado, a tendência excepcionalmente crescente já perdura há mais tempo do que o período de contracção sem que tal evolução tenha qualquer correspondência com o aumento de poder de compra dos portugueses em geral, e por outro porque são sobretudo notáveis os crescimentos das vendas de viaturas de gama alta.

Explicação para este entusiasmo automóvel em tempo de crise só pode encontrar-se, parece-me, em dois factores: 

- A redução das taxas de juro que, por um lado, incentiva a expansão de crédito para este tipo de investimentos, que irão contribuir para a retoma do desequilíbrio da balança comercial, e, por outro, desincentiva a poupança, desencaminhando-a para o consumo e equipamentos domésticos, em grande parte importados, reforçando a tendência referida para o desequilíbrio das contas com o exterior provocado pelo aumento do crédito.

- O aumento em tempos de crise dos rendimentos das classes sociais mais abonadas, para o crescimento espantoso das vendas de automóveis de gama alta.
Se as operações de "Quantitative Easing" do BCE vieram aliviar significativamente o custo da dívida das economias mais fragilizadas, ainda que muito tardiamente, os efeitos económicos poderão estar a desviar-se bastante dos objectivos supostamente pretendidos: a liquidez injectada nos mercados não está a dirigir-se ao investimento produtivo mas sobretudo para o consumo e operações financeiras especulativas. 

Os taxas dos depósitos a prazo são agora, salvo um ou outro caso para captura de clientes novos, quase nulas; nestas condições, os depositantes preferem a liquidez dos depósitos à ordem ao rendimento exíguo dos depósitos a prazo. Os certificados de aforro e os certificados do tesouro, apesar de tudo mais compensadores que os depósitos a prazo, também não são competitivos com a tentação do consumo.

E, assim, os automóveis vendem-se como pãezinhos quentes.
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Correl. - (16/06) - "Portugal continua a liderar o crescimento das vendas de carros na Europa" - cf. aqui - " Em Portugal, a venda de carros novos totalizou 18.343 unidades em Maio - um crescimento de 33,1% face ao mesmo mês do ano anterior. Este aumento, que é o mais expressivo de toda a Europa, compara com um crescimento médio de 1,3% na União Europeia."
 

Thursday, February 05, 2015

DANÇA COM DRAGHI

Venho a chegar a casa e ouço na Antena 1 que milhares de gregos se manifestaram esta tarde em Atenas contra a decisão do BCE de hoje, que muitos consideram uma chantagem, de recusar aos bancos gregos a aceitação como colaterais de empréstimos os títulos da dívida pública grega e, deste modo, provocar o asfixiamento do sistema financeiro grego. No Parlamento, Tsipras afirmava que  "a Grécia não pode ser chantageada".
Mas não é, ou ainda não é, este o caso. 

Porque os bancos gregos podem continuar a financiar-se junto do banco central grego e, hoje mesmo, o BCE deu luz verde a financiamento de 60 mil milhões aos bancos gregos. A curto prazo, observou o sr. Schäuble para que toda a gente perceba que ele também tem voto na matéria. Ora, das duas decisões do BCE, só a segunda é substantiva porque a primeira não ditou nada de novo e não se aplica apenas à Grécia. Só atinge a Grécia porque só a Grécia, neste momento, é atingida pelas regras do BCE em consequência do rating da sua dívida pública.   Funcionou com recordatória para quem, eventualmente, estivesse esquecido.  

A missão de Draghi é extremamente difícil porque não lhe basta ser um técnico de craveira excepcional, tem de ser também um político suficientemente hábil para demarcar o terreno em  que governa e antecipar-se às tentativas de intromissão nas suas competências e nos seus objectivos num tempo de enorme perturbação da UE, e, em particular, da Zona Euro.  

Aqui pergunta-se, e recomenda-se: Draghi está seguro dos resultados da sua intervenção? De modo algum - ninguém nesta confusão sabe o que vai acontecer. Mas não entrem em pânico - para já.

Friday, January 23, 2015

O QUE É QUE OS BANCOS VÃO FAZER COM O QE

Falou-se dos possíveis benefícios para a economia portuguesa resultantes da política anunciada ontem por Draghi de compra de dívida pública pelo BCE (até 20% do total adquirido em cada estado membro da zona euro) e pelos bancos centrais (até 80%). E também naquele reduzido grupo de gente minimamente informada sobre estes assuntos foram evidentes diferentes pontos de vista que, no entanto, conduzem no essencial a  duas hipóteses:

Ou os bancos encontram colocação para a liquidez libertada com a venda de parte ou da totalidade da dívida pública que detêm, ou não. Se a anemia económica é de tal modo elevada que não suscita vantagens na troca de activos (dívida pública por dívida privada) considerando os níveis de risco, as taxas de juro e as maturidades das obrigações de dívida pública vis-a-vis os riscos, as taxas e os vencimentos dos empréstimos às empresas e às famílias, a bomba ficou ferrada mas o fluxo não se inicia. 

Evidentemente, a equação é  muito mais complexa porque, por exemplo, os bancos, incluindo a Caixa Geral de Depósitos que tem por instinto seguir o rebanho, poderão continuar a preferir financiar, como sempre têm feito, as grandes empresas, sobretudo os monopólios de facto, em áreas de negócios de bens ou serviços não transaccionáveis, preterindo os sectores transaccionáveis onde o risco é geralmente mais elevado. Neste caso, vendem dívida pública e reforçam as suas posições nos sectores privados de baixo risco ou, mais grave ainda, no financiamento de aplicações especulativas.

Em conclusão : O QE ajuda?
Ajuda, mas só QE não chega.


Sunday, January 18, 2015

PODE SALVAR-SE A EUROPA COM A DESVALORIZAÇÃO DO EURO?



O euro celebra este mês o 16º aniversário e a  pergunta é colocada aqui, numa altura em que a cotação da moeda única europeia contra o dólar atingiu o valor mais baixo ($ 1,15512) nos últimos dez anos. A inesperada decisão do Banco Nacional da Suiça tomada na passada quinta-feira de abandonar a intervenção no mercado de divisas iniciada em meados de 2011, veio confirmar a antecipação de uma desvalorização inevitável com o anunciado programa do BCE de aquisição de dívida pública de menor risco. 

Pode esta desvalorização ajudar à reanimação das economias europeias, e não apenas as da zona euro considerando a colagem da generalidade das outras moedas ao euro, e, mais alargadamente, à economia global? Não é garantido. E não é garantido porque, apesar da desvalorização da moeda única ser, praticamente, agora a único mola capaz de funcionar no ambiente estagnado em que se deixou cair a Europa, as probabilidades de sucesso, segundo os analistas citados no artigo que refiro, são indecisas.

Em todo o caso, a desvalorização do euro vai, certamente, proporcionar às exportações portuguesas ganhos, transitórios como todos os ganhos de competitividade monetária. Tendo, por outro lado, caído as cotações do crude para níveis não previsíveis há alguns meses atrás, o efeito da desvalorização sobre as exportações e importações portugesas será significativamente positivo. Será? Ou seria? As últimas notícias sobre as restrições de Angola às importações de Portugal é um dos vários factores que podem afectar negativamente algum optimismo das expectativas.

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Correl . - The eurozone : a strained bond


Tuesday, September 16, 2014

ALGUÉM TERÁ DE MUDAR

Paul Krugman tem sido muito persistente na crítica às opções de política orçamental adoptadas na Europa, e sobretudo na Zona Euro, para enfrentar a crise que irrompeu há seis anos atrás. É incontável o número das suas intervenções públicas no sentido de demonstrar que a Europa se atola cada vez mais  no caminho que escolheu. À medida que o tempo passa, as suas críticas, os seus alertas, (e os de outros que têm assestado as suas posições em sentidos idênticos) têm-se provado certeiras. Hoje, publica aqui "Replaying the 30s in Slow Motion"

concluindo que, se na década de 30 a Europa emergiu da crise politicamente fragilizada (a segunda grande guerra começaria poucos anos depois) a recuperação económica tinha ultrapassado o ponto de partida cinco anos após o início da recessão. Desta vez, as medidas adoptadas para o controlo da crise financeira impediram que a recessão fosse menos cavada e os conflitos sociais melhor dominados mas a evolução da produção agregada está estagnada abaixo dos valores observados antes do período homólogo. 

Quem terá de mudar? 
Obviamente, o governo de Berlim. Mas não só. A União Europeia, e em particular a Zona Euro, é um clube que, como qualquer clube, só pode perdurar (e ganhar) se houver um conjunto fundamental de princípios respeitados pelos seus membros. Ouve-se com alguma frequência afirmar que "não pode a Alemanha pretender germanizar a Europa" porque os povos europeus têm culturas diferenciadas e não podem pretender impor uns os seus valores culturais a outros. O que sendo do mais elementar bom senso não pode alijar outro bom senso igualmente elementar: o de que a perdurabilidade da permanência de um sócio num clube, qualquer que ele seja, depende da sua aceitação das regras fundamentais comumente aceites. 

Espera-se que da situação ilustrada no gráfico hoje publicado por Krugman o governo de Berlim retire a conclusão que os alicerces da União estão a ser minados pela estagnação e a sua inflexibilidade terá de ceder se a Alemanha pretender participar na unidade europeia.
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Correl.- (18/9) Yellen considera que baixo crescimento da Europa ameaça a economia global

Monday, July 21, 2014

EXPLICA-ME COMO SE EU FOSSE MUITO BURRO*



QUE É O BCE?
- O BCE é o banco central dos Estados da UE que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.

E DONDE VEIO O DINHEIRO DO BCE?
- O dinheiro do BCE, ou seja o capital social, é dinheiro de nós todos, cidadãos da UE, na proporção da riqueza de cada país. Assim, à Alemanha correspondeu 20% do total. Os 17 países da UE que aderiram ao euro entraram no conjunto com 70% do capital social e os restantes 10 dos 27 Estados da UE contribuíram com 30%.

E É MUITO, ESSE DINHEIRO?
- O capital social era 5,8 mil milhões de euros, mas no fim do ano passado foi decidido fazer o 1º aumento de capital desde que há cerca de 12 anos o BCE foi criado, em três fases. No fim de 2010, no fim de 2011 e no fim de 2012 até elevar a 10,6 mil milhões o capital do banco.

ENTÃO, SE O BCE É O BANCO DESTES ESTADOS PODE EMPRESTAR DINHEIRO A PORTUGAL, OU NÃO? COMO QUALQUER BANCO PODE EMPRESTAR DINHEIRO A UM OU OUTRO DOS SEUS ACCIONISTAS ?
- Não, não pode.

PORQUÊ?!
- Porquê? Porque... porque, bem... são as regras.

ENTÃO, A QUEM PODE O BCE EMPRESTAR DINHEIRO?
- A outros bancos, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses.

AH PERCEBO, ENTÂO PORTUGAL, OU A ALEMANHA, QUANDO PRECISA DE DINHEIRO EMPRESTADO NÃO VAI AO BCE, VAI AOS OUTROS BANCOS QUE POR SUA VEZ VÃO AO BCE.
- Pois.

MAS PARA QUÊ COMPLICAR? NÂO ERA MELHOR PORTUGAL OU A GRÉCIA OU A ALEMANHA IREM DIRECTAMENTE AO BCE?
- Bom... sim... quer dizer... em certo sentido... mas assim os banqueiros não ganhavam nada nesse negócio!

AGORA NÃO PERCEBI!!..
- Sim, os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE de Maio a Dezembro de 2010 emprestou cerca de 72 mil milhões de euros a países do euro, a chamada dívida soberana, através de um conjunto de bancos, a 1%, e esse conjunto de bancos emprestaram ao Estado português e a outros Estados a 6 ou 7%.

MAS ISSO ASSIM É UM "NEGÓCIO DA CHINA"! SÓ PARA IREM A BRUXELAS BUSCAR O DINHEIRO!
- Não têm sequer de se deslocar a Bruxelas. A sede do BCE é na Alemanha, em Frankfurt. Neste exemplo, ganharam com o empréstimo a Portugal uns 3 ou 4 mil milhões de euros.

ISSO É UM VERDADEIRO ROUBO... COM ESSE DINHEIRO ESCUSAVA-SE ATÉ DE CORTAR NAS PENSÕES, NO SUBSÍDIO DE DESEMPREGO OU DE NOS TIRAREM PARTE DO 13º MÊS.
As pessoas têm de perceber que os bancos têm de ganhar bem, senão como é que podiam pagar os dividendos aos accionistas e aqueles ordenados aos administradores que são gente muito especializada.

MAS QUEM É QUE MANDA NO BCE E PERMITE UM ESCÂNDALO DESTES?
- Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países.

ENTÃO, OS GOVERNOS DÃO O NOSSO DINHEIRO AO BCE PARA ELES EMPRESTAREM AOS BANCOS A 1%, PARA DEPOIS ESTES EMPRESTAREM A 5 E A 7% AOS GOVERNOS QUE SÃO DONOS DO BCE?
- Bom, não é bem assim. Como a Alemanha é rica e pode pagar bem as dívidas, os bancos levam só uns 3%. A nós ou à Grécia ou à Irlanda que estamos de corda na garganta e a quem é mais arriscado emprestar, é que levam juros a 6, a 7% ou mais.

ENTÃO NÓS SOMOS OS DONOS DO DINHEIRO E NÃO PODEMOS PEDIR AO NOSSO PRÓPRIO BANCO!...
- Nós, qual nós?! O país, Portugal ou a Alemanha, não é só composto por gente vulgar como nós. Não se queira comparar um borra-botas qualquer que ganha 400 ou 600 euros por mês ou um calaceiro que anda para aí desempregado, com um grande accionista que recebe 5 ou 10 milhões de dividendos por ano, ou com um administrador duma grande empresa ou de um banco que ganha, com os prémios a que tem direito, uns 50, 100, ou 200 mil euros por mês. Não se pode comparar.

MAS, E OS NOSSOS GOVERNOS ACEITAM UMA COISA DESSAS?
- Os nossos Governos... Por um lado, são, na maior parte, amigos dos banqueiros ou estão à espera dos seus favores, de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos.

MAS ENTÃO ELES NÃO ESTÃO LÁ ELEITOS POR NÓS?
- Em certo sentido, sim, é claro, mas depois... quem tem a massa é quem manda. É o que se vê nesta actual crise mundial, a maior de há um século, para cá. Essa coisa a que chamam sistema financeiro transformou o mundo da finança num casino mundial, como os casinos nunca tinham visto nem suspeitavam, e levou os EUA e a Europa à beira da ruína. É claro, essas pessoas importantes levaram o dinheiro para casa e deixaram a gente como nós, que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos, a ver navios. Os governos, então, nos EUA e na Europa, para evitar a ruína dos bancos tiveram de repor o dinheiro.

E ONDE O FORAM BUSCAR?
- Onde havia de ser!? Aos impostos, aos ordenados, às pensões. De onde havia de vir o dinheiro do Estado?...

MAS METERAM OS RESPONSÁVEIS NA CADEIA?
- Na cadeia? Que disparate! Então, se eles é que fizeram a coisa, engenharias financeiras sofisticadíssimas, só eles é que sabem aplicar o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos, como Raymond McDaniel, que era o presidente da Moody's, uma dessas agências de rating que classificaram a credibilidade de Portugal para pagar a dívida como lixo e atiraram com o país ao tapete, foram... passados à reforma. Como McDaniel é uma pessoa importante, levou uma indemnização de 10 milhões de dólares a que tinha direito.

E ENTÃO COMO É? COMEMOS E CALAMOS?
 Isso já não é comigo, eu só estou a explicar...
---
* O texto transcrito circula há algum tempo já na internet. Recebi-o hoje via e-mail remetido por um ex-líder líder durante alguns anos de um dos partidos representados na AR. Se ele não entende, haverá por aí alguém que lhe explique. E, já agora, a mim também.
 

Monday, June 16, 2014

O BANCO CENTRAL PORTOU-SE MAL

Na abertura de um  Seminário - La Europa que deja la crisis -, na Universidade Menéndez Pelayo de Santander, Durão Barroso - vd. aqui - culpou o Banco de Espanha "de erros de supervisão muito importantes ao permitir a expansão desmesurada do sector imobiliário, que provocou a crise em Espanha, e recusou que a Comissão Europeia tenha sido culpada dos problemas".Resumindo: A supervisão do Banco de Espanha portou-se mal. E a supervisão do Banco de Portugal?

Deve ter-se portado lindamente... Tanto que o governador Constâncio foi nomeado vice-presidente do Banco Central Europeu em 2010, com responsabilidades de supervisão do sistema, depois de ter sido acusado de falhar na regulação bancária, por alegadamente ter actuado tardiamente no casos BPN e BPP, que custaram aos contribuintes portugueses um montante superior a 9.500 milhões de euros. Em Março deste ano, em entrevista do Expresso, Barroso disse ter alertado Constâncio, então presidente do Banco de Portugal (BdP), para a situação do BPN quando era primeiro-ministro ...".
Sócrates, comentador, comentou a propósito "por que razão não afastou o Governo (de Durão Barroso) e o seu partido das pessoas do PSD que tinham responsabilidades" no banco dirigido por Oliveira Costa?". Boa pergunta.

Dir-se-á que Durão Barroso falava em Espanha perante um auditório espanhol, e seria despropositada qualquer alusão ao comportamento do banco central português. Mas não pode esquecer-se que o figurão era primeiro-ministro, estava o país de tanga - disse ele-, no BPN e no BPP andavam os gandulos a tecer a teia - e ele, confessadamente sabia disso -, e embarcou para Bruxelas a tratar da vidinha.

Agora, desavergonhadamente, em fim de mandato, sente-se alçado para falar de poleiro esquecendo o chão sujo de onde armou o salto.
---
Correl. - (17/06) Guindos admite erros. Linde considera "muito pouco útil" culpar o Banco de Espanha pela crise financeira.

Sunday, May 18, 2014

UMA SAÍDA LIMPA COM UM OSSO DURO DE ROER

Ontem terminou o programa de ajustamento saindo Portugal de debaixo da tutela da troica sem qualquer programa cautelar, uma saída limpa segundo a versão oficial apadrinhada pelos media em geral. Curiosamente, hoje, o primeiro dia em que estamos limpos, ouviu-se alguns governantes afirmarem que "se tudo correr mal ... se voltarmos a fazer as mesmas asneiras, poderá haver necessidade de um segundo resgate".

O aviso parece óbvio e decalcado daquele que os pais fazem aos filhos traquinas que acabaram de recuperar o andar depois de terem partido uma perna. Mas não é. Desde logo não é preciso que tudo corra mal nem que o país faça as mesmas asneiras para que o fantasma de um segundo resgate nos venha bater outra vez à porta. Basta que nada se altere na política europeia de resolução das dívidas públicas dos países com endividamento excessivo para que dentro de um ou dois anos Portugal esteja, novamente, cercado pelos credores.

E esta questão - da impossibilidade de autonomamente podermos inverter a tendência de crescimento da dívida e cumprir o tratado orçamental - ninguém a aborda, ninguém nos explica como é que isso se faz, salvo os partidos dos extremos que defendem soluções extremas, políticamente inviáveis num quadro político dominado pelos partidos que governam na Europa e, muito sobretudo, na Alemanha.

É neste contexto de enorme indefinição, em que a saída será limpa, porque sim, mas tem atrelado um notável osso duro de roer, que o senhor Passos Coelho, em entrevista concedida à CNBC, citada aqui, recusa que o BCE deva ter um papel interventivo no crescimento económico - numa altura em que mesmo em países membros economica e financeiramente robustos experimentam crescimentos titubeantes - e, nomeadamente, é contrário a uma política de injecção de liquidez, quantitative easing, no jargão anglo-saxónico.

Está doido ou iluminado?

Monday, May 05, 2014

CHUTO PARA CANTO

Cavaco Silva quer programa cautelar para Portugal
Portugal deve optar por um programa cautelar
Cavaco e Barroso preferiam cautelar

"O que mais me vem à memória, no dia de hoje, são as afirmações perentórias de agentes políticos, comentadores e analistas, nacionais e estrangeiros ainda há menos de seis meses, de que Portugal não conseguiria evitar um segundo resgate. O que dizem agora?

Neste tempo pré-eleitoral
é apenas isto que respondo a todos aqueles que pedem a minha reação ao anúncio de ontem de que Portugal não recorrerá a qualquer programa cautelar, ao mesmo tempo que lhes recomendo a leitura integral – e não truncada – do prefácio que escrevi para Roteiros VIII, disponível na página oficial da Presidência da República na Internet.- aqui"

Peremptoriamente, chuto para canto é medida cautelar e saída limpa.


Thursday, April 10, 2014

A EXPLICAÇÃO DO MILAGRE

O sucesso da emissão, hoje, de 3 milhões de dívida publica grega a 5 anos, a uma taxa de 4,95%, aliado ao facto da Irlanda ter obtido uma taxa de 2,91% numa emissão a 10 anos, levou o FT a titular "entusiasmo investidor alastra-se pela Europa". Como a Grécia continua embaraça da com uma dívida pública elevadíssima - cerca de 175% do PIB -, mesmo depois dos resgates e reestrurações, envolvendo reduções de dívida  de juros, estamos a assistir a uma súbita comovente alteração dos objectivos dos investidores de todo o mundo?

Certamente que não. Os investidores não se comovem. Os investidores movem-se consoante as circunstâncias com que se lhes deparam. Neste caso, a explicação mais plausível para esta mudança de atitude só pode envontrar-se no único facto novo: as declarações de Draghi que há uma semana atrás comentei aqui.

Se o  que disse Draghi em Julho de 2012 e a semana passada tivesse sido dito quando deflagrou a crise outra seria a situação dos países que o tsunami financeiro apanhou fora de pé. Alguns dirão que, nesse caso, não teriam os que tinham sido afoitados para se lançar  em águas em que não sabiam nadar recuado das posições de perigo. Mas é uma justificação inconsistente porque as medidas tomadas para resgatar os afogados não os deixou livre de perigo - a reforma do Estado em Portugal continua por fazer após três anos de intervenção da troica - e deixou-os ainda com menos pé - a nossa dívida pública subiu, ainda que não tenha subido tanto quanto reclama a oposição.

E a dúvida subsiste: até onde irá, ou poderá ir, Draghi sem ser desautorizado por Schäuble?
O entusiasmo investidor é embalado pelo fulgor das paixões: dá forte mas passa depressa. O peso do ambiente envolvente está longe de estar desanuviado. Antes, pelo contrário, o confronto aberto na Ucrânia vai ser decisivo para uma clarificação do que pretendem os europeus fazer com a União Europeia.