Showing posts with label bpi. Show all posts
Showing posts with label bpi. Show all posts

Thursday, January 19, 2017

UMA DESTRUIÇÃO COLOSSAL NA BANCA PORTUGUESA

O Negócios online resumia na sua edição de ontem as declarações de Fernando Ulrich* num encontro com os jornalistas. Transcrevo, vd. abaixo* o artigo, não vá a pérola perder-se pelo caminho.

Ulrich sempre se destacou do comportamento sonso dos seus confrades banqueiros Em alguns momentos foi premonitório, noutros polémico, em alguns casos surpreendente pela falta de razoável contenção ou equilíbrio no discernimento. Registei e comentei algumas das suas declarações públicas: aqui, aqui, aqui, aqui ( Ulrich : Fusão PT/Oi é uma tragédia que deve ser travada imediatamente), aqui, aqui, aqui, aqui, aqui (se a medida relativa à taxa social única avançar, o BPI deverá ter um ganho de 10 milhões de euros em 2013), aqui, aqui.

Ontem, as declarações de Ulrich registadas por Maria João Gago, só são surpreendentes quando "defende que custo suportado por Estado e contribuintes foi muito baixo quando comparado com accionistas ...". 
Mas só são surpreendentes para quem desconheça a convicção desde sempre cimentada na cabeça dos banqueiros de que lhes assiste o direito de embolsar rendimentos estratosféricos sob todas as formas possíveis e imaginárias, e endossar as perdas para os contribuintes quando os accionistas dos bancos batem a asa. Moral hazard, no jargão anglo-saxónico, uma designação dúbia para uma iniquidade evidente que torna legal a penalização dos inocentes. 

Não há outra explicação possível para interpretar a petulância de julgar responsável pelas perdas resultantes de actos de gestão quem não é, nunca foi, nunca será interveniente, nas decisões e moscambilhas dos que se aproveitam ou aproveitaram delas.

Em Outubro de 2006 escrevi aqui:

"É um facto indesmentível, porque eles próprios se encarregam de propagandear, que os lucros dos Bancos (consistentes ou não, um dia se verá) nada têm a ver com a miserabilidade em que a economia portuguesa se arrasta já há alguns anos. Não há Banco que se preze que não anuncie, semestralmente, pulos de lucros sempre de dois fortes dígitos.
Como é possível uma vaca esquelética ser tão generosa na produção de leite?"

Em Janeiro de 2013, aqui: 

"Há muitos anos, em reunião com um banqueiro que hoje é presidente do banco de que na altura era administrador, referi que, com o andamento que se observava na economia portuguesa, enfezada e cada vez mais sugada pelos bancos, um dia a vaca acabaria por tombar para cima dos que dela mamavam em excesso.
Respondeu-me o banqueiro: Esteja tranquilo, os bancos nunca vão à falência.

E, até agora, o tal banqueiro acertou. O moral hazard que permite aos banqueiros tudo e mais alguma coisa, em Portugal não abriu até agora uma única excepção. "

Em Junho de 2014, aqui :
"Olhando para trás, da geração de banqueiros que se vangloriava dos lucros espantosos no meio de uma economia débil por, diziam eles, terem sabido aumentar os seus níveis de produtividade quando ela estagnava nos outros sectores, quantos sobram hoje? A maioria caiu dos pedestais para onde haviam pulado em trampolins manhosos de formas diversas mas geralmente indignas. Dos da primeira divisão sobra Ulrich, ou, se se preferir, a dupla Artur Santos Silva e Fernando Ulrich. Todos os outros tropeçaram, mais ou menos estrondosamente, nos seus próprios dribles."

Sabe-se agora que o La Caixa vai adquirir cem por cento do Grupo BPI.
O srs. Artur Santos Silva e Fernando Ulrich, reformam-se, ainda que muito provavelmente continuem com um pé no estribo e financeiramente bem estribados. 

Nada estribados estão os portugueses com as dívidas que os banqueiros importaram. Se a taxa média de juro subir mais 1 ponto percentual, só não haverá novo resgate se a tempestade sobre a Europa for tão forte que nem um novo resgate seja possível. 

--- 
* Desde 2001 "houve uma destruição colossal de capital" na banca portuguesa" ""O BPI fez contas ao capital injectado em cinco bancos e aos seus dividendos e resultados e concluiu que houve "destruição" de 35 mil milhões em capital. Ulrich defende que custo suportado por Estado e contribuintes foi muito baixo quando comparado com accionistas e outros países."  - aqui

"Cinco dos maiores bancos portugueses - CGD, BCP, BES/Novo Banco, Banif e BPN - destruíram cerca de 35 mil milhões de euros em capital injectado pelos seus accionistas entre 2001 e 2017, de acordo com as contas feitas pelo BPI com base em informação pública, cujas conclusões foram apresentadas esta quarta-feira, 18 de Janeiro, por Fernando Ulrich, num encontro com jornalistas.
"É uma história de destruição de capital brutal. Em 16 anos é uma verba verdadeiramente colossal", sublinhou o banqueiro. Em causa está "19% do PIB estimado para 2016".
Já o balanço dos apoios do Estado aos bancos analisados mostra que as perdas públicas nos bancos podem variar entre 4,4 e 6,4 mil milhões de euros, ou seja, o equivalente a 2,4% a 3,5% do PIB. "Até agora, o esforço efectivamente suportado pelo Estado e pelos contribuintes foi muito baixo quando comparado com o dos accionistas e o que foi suportado pelos outros países", defendeu Ulrich.
Com base nestes dados, o banqueiro pretende contestar a ideia muitas vezes transmitida na opinião pública de que "os custos dos bancos têm sido suportados pelos contribuintes. É mentira!", sublinhou o líder do BPI.
O levantamento também incluiu o BPI, mas no caso do banco que lidera, Ulrich conclui que entre dinheiro injectado pelos accionistas e os dividendos pagos, o balanço é positivo, já que os accionistas fizeram um esforço líquido de dividendos de 53 milhões. 
Já o apoio do Estado ao banco foi liquidado em 2014, com ganhos líquidos de 102 milhões de euros para o Tesouro "Os bancos não são todos iguais", frisou o banqueiro, garantindo que destacar a diferença do seu banco não foi o objectivo da análise realizada." 

Saturday, December 03, 2016

A COMÉDIA DA CAIXA ROTA - ENÉSIMO ACTO

A Caixa continua a indignar-nos, os pategos que somos coagidos a  pagar bilhetes para ver uma comédia que não queríamos que acontecesse. 
Dizem-nos alguns que não podemos dispensar a Caixa, porque a Caixa é indispensável como serviço público - o critério de fixação do seus objectivos não pode ser a maximização dos resultados na conta habitual .
Dizem outros que a Caixa é fundamental para o equilíbrio do sistema financeiro, um argumento excessivamente subtil para quem lê os desvarios, os abusos, as incompetências, as conivências, os ludíbrios que se têm abrigado impunemente na Caixa. 
Acrescentam outros que a Caixa é necessária mas os seus objectivos não podem ser outros senão os que são prosseguidos por qualquer banco com que concorre - maximizar a remuneração dos capitais que gere. 
Para quê, então, a Caixa pública?

Paulo Macedo, o indigitado próximo presidente da Caixa vai defrontar-se à entrada com 3 mil milhões de prejuízos. De quem teve engenho e arte para carrilar a Direcção Geral de Contribuições e Impostos espera-se que faça na Caixa o que fez na DGCI: eficiência na cobrança dos calotes. Um banco, simplesmente, empresta o que lhe emprestaram. Emprestar não custa,  o que pode custar é recuperar o emprestado. As perdas da Caixa resultaram exclusivamente da incompetência, conivência ou incontinência dos que emprestaram em seu nome e estão a continuar a cantar para outros cantos. 

No mesmo dia em que mais um acto da "Comédia Caixa" parecia ter terminado com a nomeação de Paulo Macedo e uma equipa em construção, lê-se no Expresso Revista que  a "CGD pagou indemnização de 71 mil euros a Henrique Cabral Menezes - que tinha sido quadro do BPI durante mais de 10 anos - e era presidente do Banco Caixa Geral (BCG) - do grupo Caixa Geral de Depósitos - para este integrar a equipa presidida por António Domingues. 

Menezes, que não entregou a declaração de património e rendimentos, acompanhou Domingues na demissão, sucedeu em Abril de 2014 a Deborah Vieitas, uma brasileira que ganhava quatro vezes mais que o anterior presidente da Caixa, José de Matos, valor que incluía um prémio, algo que estava vedado aos gestores em Portugal.  Criado em 2009, o BCG nunca gerou uma rentabilidade satisfatória.

Aliás, em Espanha, a Caixa, onde pontificou o actual presidente da Associação Portuguesa de Bancos, e ex-presidente da Caixa,  o desastre não foi menor mas o participante foi alcandorado à presidência no edifício Ceauşescu de Lisboa.

Acabou a Comédia Caixa?
Na Caixa a comédia nunca acabará, a menos que acabem com ela.

Tuesday, November 29, 2016

PINTO DA COSTA CEDE IKER CASILLHAS AO BENFICA

Imaginem que a notícia do dia era a decisão do presidente do FC Porto  de cedência gratuita de Iker Casillas ao SL Benfica. E que, para maior pasmo dos leitores, ouvintes ou telespectadores, o sr. Pinto da Costa tinha acrescentado à oferta mais quatro ou cinco jogadores do plantel principal da equipa portista. Ocorreu-me o nome do guarda-redes do FC Porto porque, valha a verdade, desconheço o nome de outros jogadores. Poderia ter imaginado a cedência de Rui Patrício e mais quatro ou cinco leões ao Benfica, ou ao FC Porto, porque, aonde quero chegar, qualquer exemplo, assim ou vice-versa, serve.

Mais irónicos, ou realistas, alguns diriam, se a notícia fosse verdadeira, que o sr. Pinto da Costa demonstraria, mais uma vez, com este inconcebível negócio, uma sagacidade que a idade não atrofia. Pois que se com o Casillas e os outros andam os dragões à deriva, oferecê-los à concorrência seria a melhor jogada de Pinto da Costa nesta temporada.

Imaginem agora que onde se lê (notícia falsa) presidente do FC Porto, ou do Benfica ou do Sporting, se lia presidente do BPI (ou presidente do La Caixa, que es quien tiene más poder). E que (notícia verídica) o BPI cedeu à Caixa Geral de Depósitos, por tempo indeterminado, o seu vice-presidente e mais quatro ou cinco altos quadros do banco. 

Ouço na rádio esta manhã que, mesmo depois de ter o sr. António Domingues e mais uns quantos terem apresentado demissão dos cargos de administradores da Caixa, o líder do partido mais votado, na oposição, insiste em reclamar ao primeiro-ministro explicações para o sucedido.
Não sei se vão deitar mais molho ou a caldeirada já está pronta. Mas a ninguém, minimamente atento, escapou o modo como foi cozinhada.

O que parece escapar a toda a gente, incluindo o líder do partido mais votado, na oposição, é a razão pela qual o sr. Fernando Ulrich, (ou o sr. Gonzalo Gortázar Rotaeche) se dispôs a oferecer à concorrência, aparentemente gratuitamente, quatro ou cinco titulares do seu plantel.
Que agora, sendo eles tão bons como os melhores, serão certamente recebidos de volta a casa de braços abertos.
E o que faria Pinto da Costa?

Friday, November 25, 2016

RIQUEZA ENVERGONHADA

Aqui próximo da área em que resido há uma propriedade ladeada por um muro alto, talvez quatro metros, laranja ocre, sempre bem cuidado. Visíveis da estrada, tem dois portões, mas só hoje, de relance, quando passei de carro defronte daquela que julgo ser a entrada lateral, percebi que por detrás dos muros da fortaleza se esconde uma majestosa mansão que deve ter sido construída no tempo da outra senhora. Nas proximidades há outros muros longos e altos que devem esconder outras propriedades da mesma geração onde só o google, suponho, é capaz de meter olho míope. 

Não são apenas as fortunas antigas que escondem as residências dos olhares de quem passa. Se há portugueses que exibem, sem complexos de qualquer dimensão, e, talvez, até com orgulho ou demonstração ou presunção de sucesso, as mansões em que habitam, há outros que rodeiam os edifícios de muros tamanhos ou paliçadas de vegetação cerrada. 

A pobreza envergonhada esconde a perda de bens ou rendimentos que a posicionavam em escalão alto ou remediado da sociedade e que se viu privada, por razões diversas, do suporte financeiro que lhe dava prestígio social, apartando-se discretamente da sociedade a que pertenceu. 
Da riqueza envergonhada não se ouve falar. E, no entanto, ela existe e esconde-se, sabe-se lá porquê, em mansões requintadas mas camufladas na paisagem. 

Nos EUA, e em geral nos países do norte da Europa, os proprietários de moradias, desde as mais grandiosas às mais discretas, não as escondem e percebe-se até a intenção de as fazer participar no prestígio dos locais em que se situam. Por cá, os muros escondem a beleza de muita riqueza estética que o conjunto poderia, sem perda de valor para os proprietários, dar ao meio em que se insere.
Há pudor neste recolhimento de alguns muito ricos, simétrico daquele que leva a marginalizar-se quem perdeu o que tinha?

Relembrei-me disto quando ouvi esta manhã na rádio que o sr. António Domingues continua sem apresentar as declarações que deve. Riqueza envergonhada de quê, neste caso? À custa de que pobreza envergonhada?


Friday, October 28, 2016

O TAUMATURGO

Anda para aí uma barafunda acerca das retribuições concedidas ao sr. António Domingues e seus companheiros da alegria, prodigamente cedidos pelo BPI, e pela recusa deles na entrega das declarações exigidas aos incumbidos de cargos políticos e gestão de empresas ou institutos do Estado. 
Curioso é que, mesmo os contestatários dos volumes das retribuições e das faltas de declarações, concordam na generalidade que o sr. António Domingues é muito competente e capaz de operar o milagre de transformar um insensível quadrúpede numa águia ágil. 
Será mesmo?

Foi o sr. António Domingues um gestor bancário assim tão brilhante durante os 27 anos que aplicou as suas competências ao serviço do BPI antes de precocemente começar o embolso da reforma?
Os resultados não confirmam tanta sagacidade. O BPI viu a sua estrutura accionista quase completamente revolvida ao longo daquele período, uma situação que denuncia a insatisfação dos accionistas fundadores perante a incapacidade da sua gestão de lhes retribuir competitivamente os capitais aplicados. 
É certo que, se uns saíram, outros entraram, mas não terão estes apreciado assim tanto a competência do sr. António Domingues e companhia ao ponto de os manter nos seus quadros. 

Reconheça-se que, entre o lamaçal em que se atolou a banca supostamente portuguesa, o BPI foi o que ficou menos enlameado. Mas, mesmo o BPI, onde o sr. António Domingues vice-presidia, se aventurou em operações (entre outras, aplicações em dívida grega) que colocaram o banco em situação temporariamente dependente da bóia de salvação do Estado.

É complexa a gestão bancária?
É muito mais complexa a gestão da indústria.
Prova do que afirmo está no facto de, depois da reprivatização da banca, terem crescido como cogumelos os banqueiros em Portugal. Tantos e tão bons que era um enigma não ter nascido, nem então, nem nunca, um único industrial com gabarito parecido.

O sr. António Domingues, municiado com as exigências que colocou ao accionista (i.e., ao governo) 
tem, espera-se, condições para colocar a Caixa e os caixeiros nos eixos. Como?
Estranhamente, do meu ponto de vista, um dos participantes na "Quadratura do Círculo" dizia, ontem à noite, que esperava que o sr. António Domingues reestruturasse a Caixa e obtivesse os resultados esperados. Como: Pois, dizia ele, ganhando quota de mercado, tirando quota de mercado aos principais concorrentes, ao Santandertotta, ao BPI ...
Estranhamente, porque, quem isto afirmava, é administrador do BPI. E o sr. António Domingues, accionista do mesmo banco. Até mais ver.

---- 
Correl . - vd. aqui

TUESDAY, FEBRUARY 07, 2006


CONTOS DA ÁGUA TÓNICA


A história é antiga mas repete-se a cada passo: um amigo dos copos costumava desdobrar os chutos com água tónica, bebia gim com água tónica, ficava bêbado, bebia vodka com água tónica, idem, bebia whisky com água tónica, bêbado ficava, bebia rum…, bebia tudo quanto era álcool com água tónica, mesmo que o casamento nem sempre fosse feliz, e embebedava-se. De modo que concluiu que a água tónica embriaga mesmo.

Conclusões semelhantes extraem alguns comentadores e atentos observadores da realidade circundante seja ela política, económica, ou qualquer outra.

Alguns exemplos:

Lucros da banca portuguesa explicam-se por ser o único sector do país ao nível do topo mundial, disse ontem o Presidente do MillenniumBCP em entrevista na Antena 2, Público e Rádio Renascença.

O Presidente do BES, em entrevista dada antes no mesmo programa dissera, sobre o assunto, praticamente o mesmo. Em outras ocasiões ouvimos convicções parecidas. Os banqueiros deste País, e só eles, bebem de uma água tónica qualquer que os transmuta em génios de gestão empresarial. Os outros, bebem qualquer água tónica e não passam de Pedro.

Porque ninguém pergunta: Como é que todos os Bancos são altamente rentáveis, porque é que todos os Bancos são superiormente dirigidos, porque é que todos eles são casos de sucesso, porque é que, até hoje, nenhum falhou, porque é que o BCP subiu como um foguete no meio de uma economia de caracol, porque é que o BPI, o BANIF, Financia, o Banco Privado Português, todos, crescem, crescem, crescem, e os seus presidentes são sempre tão bem sucedidos, como é que o BPN fulgura e até a Caixa, imaginem a Caixa! um banco do Estado, um paquiderme, arrecada milhões e deita foguetes independentemente do Presidente e vogais que o Governo nomeia. Até hoje, nenhum banqueiro falhou, ou se falhou, falhou tão pouco que não se deu por isso. São todos excelentes. Acaso? Tanta competência num contexto em que ela é tão rara deve-se à ingestão de alguma rara água tónica.

Em contrapartida os gestores da indústria neste país são geralmente pouco espertos porque não bebem o que deviam. O próprio engenheiro Belmiro, malgré lui, tem tido mais problemas do que contava com o seu sector industrial e é sobejamente sabido que não foi nele que fez fortuna, quanto muito deu-lhe um pouco de altura inicial, assim uma espécie de banquito parecido com aquele de onde as pessoas se esticam para ver as marchas passar. Dá a impressão que o engenheiro bebe o que deve mas tem fases de hidrofobia.

Se os seus negócios da distribuição do engenheiro não se situam a nível do topo mundial, na opinião do presidente do BCP, os seus proveitos, segundo tudo leva a crer, não se ficam atrás dos seus pares banqueiros. Hoje mesmo ficámos a saber que o engenheiro está novamente a atirar isco para o charco, e se não é desta que apanha a PT, alguma coisa vai, certamente, ganhar o engenheiro com a jogada. De que água se saciará o engenheiro? Terá, também ele, acesso á poção mágica e os banqueiros não sabem?

Mas há, seguramente, mais gente a beber do fino. O sector de construção civil e obras públicas, por exemplo, está recheado de casos a merecerem teses de doutoramento. Na PT, a tal água tónica é certamente dada a beber aos presidentes e vogais nomeados, porque todos eles, sem excepção, têm desempenhado as suas funções com brilhantismo que só os desígnios governamentais não reconhecem quando alternam. Se os deixarem lá chegar, os Azevedos, excederão todos os que os antecederam a beber da tónica com que a PT conta.

Noutro lado, alinham aqueles que não bebem a tónica que deviam beber: geralmente nos sectores primário e secundário, aonde só vão parar, aparentemente, gestores incapazes ou, quanto muito assim-assim.

E, contrariamente à versão dos banqueiros, o sucesso de uns e o desastre dos outros, não é uma fita recente, é uma história antiga. Industriais com I grande estão para aparecer em Portugal, alguns deram um ar da sua graça, mas, seguramente, nenhum bebeu da tal tónica ou não bebeu o suficiente.

Se nas telecomunicações sabem do que bebem nas comunicações, geralmente, não bebem do que deviam. O actual CEO da TAP parece ter dado meia volta ao texto mas não escapa ao contexto. Definitivamente, á CP, à Carris, ao Metro, e a outras artes equiparadas só arribam lázaros.
Porque é que ninguém lhes diz onde se bebe a tal água tónica?

Tuesday, October 25, 2016

QUEM É O ACCIONISTA DA CAIXA?

"António Domingues* e os restantes gestores da Caixa Geral de Depósitos estão dispensados de apresentarem a sua declaração de rendimentos perante o Tribunal Constitucional, esclareceu o Ministério das Finanças, em resposta às questões do Negócios. "Não foi lapso. O escrutínio já é feito pelo accionista", adiantou fonte oficial do gabinete de Mário Centeno ... " - aqui 

E quem é o accionista de todas as outras empresas públicas?

---- 
* Não declaração de alguns interesses, e a confusão entre interesses públicos e privados:

"António Domingues recebeu 56.042 acções do BPI quando deixou o conselho de administração deste banco, a 30 de Junho de 2016, para assumir a presidência da Caixa Geral de Depósitos. O seu valor é de 62 mil euros, aos quais acrescem os 233 mil euros referentes a 426.820 opções de compra (que só podem ser exercidas a partir de Julho de 2018)". - aqui

Ao sr. Domingues não basta ser honesto. Também deve parecer. 

Sunday, October 23, 2016

ACERCA DOS PÉS DOS MENINOS DE OIRO

A nomeação do sr. António Domingues para a presidência da Caixa Geral de depósitos foi de execução opaca. Mas não mais nem menos opaca que a nomeação dos seus antecessores no cargo.
O lugar poderia ter sido colocado a concurso, porque não? mas, mais uma vez, foi escolhido pelo governo em funções. Foi o sr. António Domingues ungido à nascença para presidente da Caixa quando os accionistas o dispensassem com reforma antecipada, e a mais uns quantos, por certo dispensáveis, que levou consigo do BPI para a Caixa? 

Não é, contudo, a forma de nomeação do vice-presidente do BPI, antecipadamente reformado, que tem causado celeuma desde que foram publicamente conhecidas as intenções do governo nesse sentido. O sr Passos Coelho, que teve um longo período em poderia ter discordado da nomeação do sr. António Domingues, mas esperou por ontem, - vd. aqui - depois de ter juntado os votos do seu partido aos do PS para aprovação das remunerações dos gestores nomeados pelo actual governo para a Caixa, para denunciar a lisura do processo. Curiosamente, ao sr. Passos Coelho parece importunar mais o eventual recebimento pelo sr. António Domingues de informações não publicadas sobre a situação da Caixa antes da tomada de posse do que o possível uso futuro de informações sigilosas  em sentido inverso. 

O que tem sido, e continua a ser, contestado é o nível remuneratório do sr. António Domingos, igual ao que recebia no BPI, por coincidência igual ao que resultou dos cálculos das medianas das remunerações do sector segundo esclareceu, com a convicção retórica que lhe é peculiar, o sr. ministro das Finanças. 

É assim tão elevada a complexidade do cargo de modo a justificar a remuneração fixa e adicionais variáveis que podem globalmente superar os 600 mil euros anuais?

Se olharmos pelo retrovisor do tempo são raríssimos os casos de bancos não destroçados pelas especiais qualidades destes senhores banqueiros, que, dos acidentes, apurados os salvados, nos têm mandado pagar os governantes ou os accionistas, que os nomearam ou elegeram, os enormíssimos custos dos acidentes que praticaram à conta dos contribuintes. 
Não, não é tão elevada. 
Eles recebem altas remunerações - aqui e em toda a parte - porque lhes passa o dinheiro pelas mãos. 
Por quanto tempo mais?

A edição de 29 de Agosto deste ano da Bloomberg Businessweek, que não é de esquerda, publicava um artigo - This is Your Company on Blockchain - que afirmava "contabilistas, banqueiros, advogados e burocratas tornar-se-ão desnecessários no futuro"

Há sete anos atrás, a Economist, que também não é de esquerda publicava aqui um artigo sobre os taras do sector  financeiro e das suas consequências para os contribuintes. Vale a pena ler na íntegra. Transcrevo os períodos iniciais do artigo que remete para uma análise mais detalhada publicada na mesma revista. 

"COULD there be a better time to be a bank? If you have capital and courage, the markets are packed with opportunities—as they well understand at Goldman Sachs, which is once again filling its boots with risk. Governments are endorsing high leverage and guaranteeing huge parts of the financial system, so you get to keep the profits and palm off the losses on the taxpayer. The threat of nationalisation has receded, reinvigorating the banks' share prices. Money is cheap, deposits plentiful and borrowers desperate, so new lending promises handsome margins. Back before the crash, banks' profits just looked big; today they might even be real.
The bonanza is intentional. Governments and regulators want the banks to make profits so that they regain their health faster after roughly $3 trillion of write-downs. It is part of the monstrous bargain that bankers have extracted from the state (see our special report this week). Taxpayers have poured trillions of dollars into institutions that most never knew they were guaranteeing. In return, economies look as if they have been spared a collapse in payment systems and credit flows that would probably have caused a depression.
In an ideal world any government would vow that, next time, it will let the devil take the hindmost. But promises to leave finance to fail tomorrow are undermined by today's vast rescue. Because the market has seen the state step in when the worst happens, it will again let financiers take on too much risk. Because taxpayers will be subsidising banks' funding costs, they will also be subsidising the dividends of their shareholders and the bonuses of their staff. 

It should be obvious by now that in banking and finance the twin evils of excessive risk and excessive reward can poison capitalism and ravage the economy. Yet the price of saving finance has been to create a system that is more vulnerable and more dangerous than ever before. ..." - more here

Monday, September 05, 2016

PARA QUEM AINDA TIVESSE DÚVIDAS


Crise portuguesa também teve origem na banca
 c/p Jornal de Negócios

"Trabalho de investigação do ISEG mostra que o elevado crescimento do crédito após a adesão ao euro provocou uma crise bancária em Portugal. Custo do Estado com a banca já soma 26% do PIB.

Em países como Espanha ou Irlanda foi a situação na banca que obrigou a pedir auxílio externo. Em Portugal, a crise sempre foi mais associada ao excessivo endividamento do Estado. Um artigo publicado no Journal of Economic Policy Reform argumenta que Portugal também atravessou, e atravessa, uma crise bancária, gerada após a adesão ao euro.

"Após a adopção do euro, Portugal foi palco de uma crise bancária severa, com seis episódios críticos envolvendo todos os maiores bancos do país (CGD, BPI, Banif, Millennium-BCP, BES, BPN e BPP)", conclui o artigo científico "Portugal's banking and financial crises: unexpected consequences of monetary integration?", da autoria de dois professores do ISEG, Tiago Cardão-Pito e Diogo Baptista.

"O debate sobre a crise económica europeia tem estado focado nos relevantes temas da política orçamental e da necessidade de reformas estruturais na zona euro. No entanto, a situação de Portugal pode ter sido consideravelmente piorada por uma crise bancária", refere o artigo.


Os autores sustentam que a adopção da nova moeda eliminou o risco de taxa de câmbio dentro do euro, mas não os riscos de crédito e liquidez. Os bancos, no entanto, actuaram como se todos estes riscos tivessem desaparecido. Seguiu-se um período em que os bancos introduziram grandes quantidades de dinheiro em Portugal, contraindo financiamento no estrangeiro com baixas taxas de juro.

A enorme liquidez criou aquilo a que na teoria económica se designa por bonança de capital. Neste período o endividamento privado e do Estado aumentou de forma expressiva. Depois deu-se o estouro, com os bancos a ficarem privados do acesso ao financiamento estrangeiro. A dívida pública aumentou ainda mais com o resgate dos bancos.

O artigo sustenta a sua tese nos vários indicadores de explosão do crédito após 1999, como por exemplo o crescimento da massa monetária (M2), identificando vários períodos de bonança de capital. E aponta a alavancagem do balanço dos bancos, com o crédito a superar os depósitos em mais de 60% em 2009.
Os problemas começaram em 2008. "Depois de 2007, Portugal tem vivido várias ocorrências de uma crise bancária, que podem ser relevantes para explicar porque o país, nos anos seguintes, encontrou tantas dificuldades em cumprir as obrigações com os credores", escrevem os autores.

Durante o período de aumento do crédito, os empréstimos junto de bancos estrangeiros dispararam. "Este acesso ao financiamento internacional tornou-se quase impossível após o programa de resgate de 2011, dadas as taxas de juro muito elevadas exigidas aos bancos portugueses", salienta o artigo.
O que levou os governos a irem em auxílio dos bancos. "Em vários anos, as garantias públicas à banca, a capitalização pública e os custos com nacionalizações em percentagem do PIB excedem os patamares usados para identificar uma crise bancária", dizem Tiago Cardão-Pito e Diogo Baptista.

Custo chega aos 26% do PIB

Tudo somado, os apoios e intervenções do Estado na banca entre 2008 e 2015 chegam a 26% do PIB anual. O valor não deduz o valor dos juros pagos pelos bancos ao Estado, nos casos em que a intervenção pública a isso obrigou.
"A combinação de um programa de resgate e a necessidade de os bancos se financiarem através do BCE é consistente com a tese de Reinhart e Rogoff (2010) de que as crises bancárias precedem, ou acompanham, as crises de dívida soberana", notam os autores.    
Tiago Cardão-Pito e Diogo Baptista propõe várias explicações para a crise bancária, que se interligam, sem darem nenhuma como definitiva. São elas a mudança da banca portuguesa para um sistema bancário baseado no financiamento em mercado, a falta de adequação das regras e instituições europeias para a adopção do euro, o comportamento das instituições financeiras europeias, a associação entre a indústria bancária e políticos de topo e a falta de preparação da banca nacional para operar no contexto do euro." 

Friday, August 19, 2016

A ANEDOTA DESTES DIAS

A Caixa continua na ordem do dia. 

Dos 19 nomes propostos pelo Governo ao BCE para a administração, o BCE vetou 8, todos indigitados como administradores não executivos, incluindo a única mulher que constava da longa lista, e recomenda que o total não ultrapasse os 15, dos quais, 3 a 6 devem ser mulheres. 
Dos 7 administradores executivos aceites pelo BCE, seis são provenientes ou passaram pelo universo BPI; a excepção, Pedro Leitão, que foi administrador da PT, que viria a cair no buracão brasileiro da Oi, está envolvido no processo judicial do caso BES-PT.
O presidente da comissão executiva poderá acumular funções de presidente do conselho de administração durante seis meses, período após o qual deverá tomar posse um presidente do CA distinto do presidente da comissão executiva. 
Três dos sete administradores executivos, devem frequentar curso de gestão bancária estratégica no INSEAD.

Porque o veto dos 8 decorre uma lei bancária que não consente a excessiva acumulação de cargos dos propostos, supondo que tanta carga horária não lhes permitiria mais que assinar as actas, ao secretário de estado do pelouro ocorreu a luminosa ideia de alterar a lei. BE e PCP já disseram que não, que a haver alteração da lei ela deve ir no sentido de uma restrição ainda maior.

Entretanto, a Comissão de Trabalhadores da Caixa deu publicamente conta da sua estranheza pelo facto de nenhum director da instituição ter sido convidado para o quadro de administradores.
É, realmente, espantoso que o BPI possa dispensar vários colaboradores para a administração da Caixa, ainda que três deles tenham de ir para a escola aprender gestão bancária estratégica, e, desses, um tenha que prestar contas à Justiça, e a Caixa, que dispõe de um efectivo de pessoal bem mais numeroso, não tenha conseguido que pelo menos um dos seus quadros superiores tenha adquirido as competências necessárias para ascender à administração. Talvez por falta de frequência do INSEAD.
Ou terão nascido todos apenas para servir.


Wednesday, May 04, 2016

ULRICO

O presidente executivo do BPI disse ontem aos socialistas, de portas abertas ao sector bancário para conversas, que "a consolidação da banca é a única saída para a crise" . 



Da banca, supõe-se, porque a banca engendrou a crise, importando crédito que a economia nunca teria capacidade de reembolsar, embolsando os banqueiros prémios por resultados contrafeitos, expandindo-se em balcões em cada esquina, não raras vezes de um do outro lado da rua, tolerando-se mutuamente em todas as manobras dos membros da corporação, faz lá tu as tuas moscambilhas e deixa-me a mim fazer as minhas. O que é que eles discutiam e combinavam na associação corporativa, não sabemos, o que sabemos é que andaram largos a fazer de conta que a economia não tem leis. Mas tem, e a vaca tísica acabou por lhes cair em cima. Nada que não fosse previsível, nada que até neste caderno, desde as primeiras notas, há dez anos, não tivesse sido apontado.

Agora, só agora, o sr. Ulrich, conclui aquilo que há tanto tempo era evidente: havia banca a mais para o tamanho da mesa. O que pensam os outros?  É neste ponto que a porca torce o rabo.

A Caixa não pensa. A publicar prejuízos há cinco anos a fio, precisa que o governo lhe entregue mais dinheiro dos contribuintes depois de há, apenas, três anos ter recebido fundos para recapitalização sob a forma de aumento de capital e de um empréstimo reembolsável de que ainda não reembolsou um cêntimo. O novo presidente condicionou a aceitação da incumbência na condição de lhe ser permitido aumentar as retribuições, e o governo aceitou sem que se conheça qualquer reciprocidade de compromissos de objectivos. A Caixa absorveu há anos o Banco Nacional Ultramarino mas só cresceu em tamanho. Demonstradamente, não tem tradição nem competência para ser o La Caixa português.
Há quem proponha a nacionalização do Novo Banco - "já que o dinheiro já lá está, o melhor é ficar com ele" - mas da fusão com a Caixa só resultariam ganhos de produtividade se fosse drasticamente reduzido o quadro conjunto de pessoal, uma hipótese inviável para um governo suportado pela asa esquerda do parlamento.

O Santander estará alegremente de acordo na expectativa de lhe calhar na rifa mais um brinde tipo Banif.

O BPI do sr. Ulrich será, tudo aponta nesse sentido, a médio prazo, se não mesmo imediato, uma filial, de facto, do La Caixa. E o sr. Ulrich o seu representante em Portugal por mais algum tempo. Estará o sr. Ulrich a considerar uma eventual integração do Novo Banco no grupo La Caixa como um negócio de consolidação da banca portuguesa? Só por ironia.

O presidente do BCP diz que sim, que quer o Novo Banco. Se não há duas sem três, o BCP tem boas hipóteses de ser contemplado depois dos salvados do BPN terem sido vendidos por nada ao BIC e os do Banif por quase nada ao Santander. Num e noutro caso, a sucata ficou a preço de ouro do lado dos contribuintes

Resumindo: Aquilo a que o sr. Ulrich chama consolidação só resultará em ganhos de sinergia com redução de custos em meios, sobretudo meios humanos. Terá o PS entendido a mensagem?

É complicado, sobretudo para um governo todo à esquerda.

Saturday, April 23, 2016

OS MILAGRES DOS SANTOS DA CASA

Ontem, no Expresso da Meia Noite, assistimos a mais uma discussão sobre o imbróglio accionista no BPI. 

Um dos convidados, o jornalista angolano Rafael Marques, colocou, durante a sua primeira intervenção, a abordagem do tema no plano das razões que preponderam no conflito que extravasou dos negócios privados para a intervenção política e que, neste campo, colocam em confronto os governos em Luanda e Lisboa. 
À lei do governo em Lisboa, que retirará  a vantagem a Isabel dos Santos de um peso accionista não equivalente ao número de acções que detém no BPI, ameaça retaliar o governo em Luanda retirando, por decreto, o poder (maioritário) do BPI no Banco de Fomento de Angola. 
E tudo isto porquê?

Respondeu Rafael Marques que se a srª. Isabel dos Santos não fosse filha do sr. José Eduardo dos Santos, se essa vantagem tutelar não existisse, ela não beneficiaria, como tem beneficiado em larga escala, do sistema corrupto nem da protecção política. O que inquina a discussão entre os dois maiores accionistas do BPI é o facto de, em Luanda, os negócios da srª. Isabel dos Santos se confundirem com os negócios do Estado num processo promíscuo alimentado pela corrupção generalizada ao mais alto nível.

Contou, logo a seguir, sr. Vítor Ramalho, socialista soarista, nascido em Angola, agora presidente da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e "uma das 5 personalidades de reconhecido mérito do Conselho Económico e Social", que tendo-se empregado numa empresa aos 21 anos de idade, observou um acto de corrupção e decidiu denunciar o facto ao seu superior hierárquico. Recebeu uma lição que, pelos vistos, lhe ficou para o resto da vida: Vítor, toma nota que a moral acaba quando começam os negócios.

Rafael Marques sorriu. 
Imaginando, talvez, as personalidades de mérito de lá e de cá como membros do mesmo clube amoral. 

Thursday, June 19, 2014

OS MELHORES JÁ NÃO SÃO QUEM ERAM

Hoje é notícia que a família Espírito Santo vai abandonar a administração do banco por desentendimentos familiares que terão forçado o govenador do Banco de Portugal a impor uma solução rápida para uma crise já demorada. Vd. aqui. Ricardo Salgado, tido durante muito tempo como o banqueiro português mais reputado e a personalidade mais influente do país, vai renunciar à presidência e sair pela porta das trazeiras.

Olhando para trás, da geração de banqueiros que se vangloriava dos lucros espantosos no meio de uma economia débil por, diziam eles, terem sabido aumentar os seus níveis de produtividade quando ela estagnava nos outros sectores, quantos sobram hoje? A maioria caiu dos pedestais para onde haviam pulado em trampolins manhosos de formas diversas mas geralmente indignas. Dos da primeira divisão sobra Ulrich, ou, se se preferir, a dupla Artur Santos Silva e Fernando Ulrich. Todos os outros tropeçaram, mais ou menos estrondosamente, nos seus próprios dribles.

Mas nenhum perdeu até agora o quer que seja daquilo que embolsaram durante os períodos mais ou menos longos em que reinaram.  Agora cai Ricardo. Ele que suportou a marca do banco durante os últimos anos na imagem do "melhor jogador do mundo" acabou por revelar -se ter ele próprio jogado mal.

Em que eram, afinal melhores aqueles banqueiros que conseguiam mungir produções milagrosas de vacas esqueléticas? A governarem-se regaladamente sob os olhares benevolentes do governador central.



Tuesday, April 22, 2014

O JOGO DA CABRA CEGA

Já vem de longe.

Hoje foram divulgados os resultados de uma sondagem à opinião pública conduzida pla Universidade Católica para o DN, JN, RTP, Antena 1, que, além do mais confirmam, a imagem mais negativa dos tribunais junto da opinião pública, mal acompanhados pelos bancos e pelos políticos. 


Um amigo enviou-me hoje por e-mail um artigo de M Sousa Tavares publicado no Expresso em 29/12/2007, onde a tríade se reune. Deve andar a cirandar pela net desde então.  Mas vale sempre a pena recordá-lo. Os protagonistas de um jogo jogo iniciado há mais de uma década atrás estão em vias de ser todos ilibados nos dias de hoje. 

Da Opus Dei à maçonaria: a incrível história do BCP
Em países onde o capitalismo, as leis da concorrência e a seriedade do negócio bancário são levados a sério, a inacreditável história do BCP já teria levado a prisões e a um escândalo público de todo o tamanho. Em Portugal, como tudo vai acabar sem responsáveis e sem responsabilidades, convém recordar os principais momentos deste "case study", para que ao menos a falta de vergonha não passe impune.
 
1 Até ao 25 de Abril, o negócio bancário em Portugal obedecia a regras simples: cada grande família, intimamente ligada ao regime, tinha o seu banco. Os bancos tinham um só dono ou uma só família como dono e sustentavam os demais negócios do respectivo grupo. Com o 25 de Abril e a nacionalização sumária de toda a banca, entrámos num período 'revolucionário' em que "a banca ao serviço do povo" se traduzia, aos olhos do povo, por uns camaradas mal vestidos e mal encarados que nos atendiam aos balcões como se nos estivessem a fazer um grande favor. Jardim Gonçalves veio revolucionar isso, com a criação do BCP e, mais tarde, da Nova Rede, onde as pessoas passaram a ser tratadas como clientes e recebidas por profissionais do ofício. Mas, mais: ele conseguiu criar um banco através de um MBO informal que, na prática, assentava na ideia de valorizar a competência sobre o capital. O BCP reuniu uma série de accionistas fundadores, mas quem de facto mandava eram os administradores - que não tinham capital, mas tinham "know-how". Todos os fundadores aceitaram o contrato proposto pelo "engenheiro" - à excepção de Américo Amorim, que tratou de sair, com grandes lucros, assim que achou que os gestores não respeitavam o estatuto a que se achava com direito (e dinheiro).
 
2 Com essa imagem, aliás merecida, de profissionalismo e competência, o BCP foi crescendo, crescendo, até se tornar o maior banco privado português, apenas atrás do único banco público, a Caixa Geral de Depósitos. E, de cada vez que crescia, era necessário um aumento de capital. E, em cada aumento de capital, era necessário evitar que algum accionista individual ganhasse tanta dimensão que pudesse passar a interferir na gestão do banco. Para tal, o BCP começou a fazer coisas pouco recomendáveis: aos pequenos depositantes, que lhe tinham confiado as suas poupanças para gestão, o BCP tratava de lhes comprar, sem os consultar, acções do próprio banco nos aumentos de capital, deixando-os depois desamparados perante as perdas em bolsa; aos grandes depositantes e amigos dos gestores, abria-lhes créditos de milhões em "off-shores" para comprarem acções do banco, cobrindo-lhes, em caso de necessidade, os prejuízos do investimento. Desta forma exemplar, o banco financiou o seu crescimento com o pêlo do próprio cão - aliás, com o dinheiro dos depositantes - e subtraiu ao Estado uma fortuna em lucros não declarados para impostos. Ano após ano, também o próprio BCP declarava lucros astronómicos, pelos quais pagava menos de impostos do que os porteiros do banco pagavam de IRS em percentagem. E, enquanto isso, aqueles que lhe tinham confiado as suas pequenas ou médias poupanças viam-nas sistematicamente estagnadas ou até diminuídas e, de seis em seis meses, recebiam uma carta-circular do engenheiro a explicar que os mercados estavam muito mal.
 
3 Depois, e seguindo a velha profecia marxista, o BCP quis crescer ainda mais e engolir o BPI. Não conseguiu, mas, no processo, o engenheiro trucidou o sucessor que ele próprio havia escolhido, mostrando que a tímida "renovação" anunciada não passava de uma farsa. E descobriu-se ainda uma outra coisa extraordinária e que se diria impossível: que o BCP e o BPI tinham participações cruzadas, ao ponto de hoje o BPI deter 8% do capital do BCP e, como maior accionista individual, ter-se tornado determinante no processo de escolha da nova administração... do concorrente! Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o presidente do BPI dá uma conferência de imprensa a explicar quem deve integrar a nova administração do banco que o quis opar e com o qual é suposto concorrer no mercado, todos os dias... 
 
4 Instalada entretanto a guerra interna, entra em cena o notável comendador Berardo - o homem que mais riqueza acumula e menos produz no país - protegido de Sócrates, que lhe deu um museu do Estado para ele armazenar a sua colecção de arte privada. Mas, verdade se diga, as brasas espalhadas por Berardo tiveram o mérito de revelar segredos ocultos e inconfessáveis daquela casa. E assim ficámos a saber que o filho do engenheiro fora financiado em milhões para um negócio de vão de escada, e perdoado em milhões quando o negócio inevitavelmente foi por água abaixo. E que havia também amigos do engenheiro e da administração, gente que se prestara ao esquema das "off-shores", que igualmente viam os seus créditos malparados serem perdoados e esquecidos por acto de favor pessoal.
 
5 E foi quando, lá do fundo do sono dos justos onde dormia tranquilo, acorda inesperadamente o governador do Banco de Portugal e resolve dizer que já bastava: aquela gente não podia continuar a dirigir o banco, sob pena de acontecer alguma coisa de mais grave - como, por exemplo, a própria falência, a prazo.

6 Reúnem-se, então, as seguintes personalidades de eleição: o comendador Berardo, o presidente de uma empresa pública com participação no BCP e ele próprio ex-ministro de um governo PSD e da confiança pessoal de Sócrates, mais, ao que consta, alguém em representação do doutor "honoris causa" Stanley Ho - a quem tantos socialistas tanto devem e vice-versa. E, entre todos, congeminam um "take over" sobre a administração do BCP, com o "agréement" do dr. Fernando Ulrich, do BPI. E olhando para o panorama perturbante a que se tinha chegado, a juntar ao súbito despertar do dr. Vítor Constâncio, acharam todos avisado entregar o BCP ao PS. Para que não restassem dúvidas das suas boas intenções, até concordaram em que a vice-presidência fosse entregue ao sr. Armando Vara (que também usa 'dr.') - esse expoente político e bancário que o país inteiro conhece e respeita.
 
7 E eis como um banco, que era tão independente que fazia tremer os governos, desagua nos braços cândidos de um partido político - e logo o do Governo. E eis como um banco, que era tão cristão, tão "opus dei", tão boas famílias, acaba na esfera dessa curiosa seita do avental, a que chamam maçonaria. E, revelada a trama em todo o seu esplendor, que faz o líder da oposição? Pede em troca, para o seu partido, a Caixa Geral de Depósitos, o banco público.
 
8. Pede e vai receber, porque há 'matérias de regime' que mesmo um governo com maioria absoluta no parlamento não se atreve a pôr em causa. Um governo inteligente, em Portugal, sabe que nunca pode abocanhar o bolo todo. Sob pena de os escândalos começarem a rolar na praça pública, não pode haver durante muito tempo um pequeno exército de desempregados da Grande Família do Bloco Central.
 
Se alguém me tivesse contado esta história, eu não teria acreditado. Mas vemos, ouvimos e lemos. E foi tal e qual.

Tuesday, June 05, 2012

UM BURACO AINDA MAIOR

No fim de Outubro de 2011 escrevi uma nota - O maior buraco vai começar a ser aberto dentro de pouco tempo - acerca da evolução do BCP (Millennium não pegou) um case study que se transformou num caso perigoso para os bolsos dos contribuintes.

Passaram-se sete meses. Vão começar os trabalhos.
Segundo o Negócios de hoje, para ajudar os bancos a cumprirem as novas exigências de rácios de capital, o Estado vai injectar um total de 6.150 milhões de euros no BCP, BPI e CGD. Montante pode atingir os 6.650 milhões em caso de insucesso no aumento de capital do BCP.

1650 milhões de euros para a CGD em acções e obrigações convertíveis (coco bonds)
1500 milhões para o BPI em obrigações convertíveis.

3000 milhões para o BCP em obrigações convertíveis. Mas pode ser mais (até mais 500 milhões) se os accionistas privados não subscreverem a parte ou a totalidade do aumento de capital que lhe está reservada. Neste caso, o Estado subscreve a parte não subscrita pelos privados a uma cotação, ainda não confirmada de 0,04 cêntimos por acção. A diluição provocará uma inundação de acções, passando das actuais 7 mil milhões para 19 mil milhões. O Estado será, de longe, o maior accionista, sem direito a voto.
Um absurdo promovido pela troica (ou Merkel), que obriga que o financiamento do BCE aos estados membros se faça através dos bancos e que a recapitalação dos bancos se faça através dos estados*.
 
No caso da Caixa o aumento é a fundo perdido. A menos que a Caixa fosse privatizada e os contribuintes  recuperassem mais este desembolso. Como o accionista é estúpido e o tutor conivente, o chairman continua regaladamente sentado e principescamente remunerado.
 
Quanto ao BCP, diz o presidente que o banco sairá reforçado, uma forma eufemística de dizer que, sem este calço, e que calço!, cairia dentro de pouco tempo. Calçado, quanto tempo se aguentará mais? Não sabemos. E não sabemos porque se desconhece a profundidade das imparidades não evidenciadas no balanço. Mas pode  suspeitar-se que são profundas uma vez que a subscrição do Estado será feita com um desconto de mais de 50% sobre a cotação em bolsa neste momento (abaixo dos 10 cêntimos).  
 
Relembre-se que o Estado garantiu, pelo menos, duas emissões de obrigações (vd aqui) do BCP: uma em Dezembro de 2011 de 1,35 mil milhões, outra já em Fereiro deste ano de 1,5 mil milhões. Tudo contado, o encravanço dos contribuintes neste buraco excederá já, segundo as minhas contas de somar e se não faltam parcelas, os 6 mil milhões de euros depois do aumento de capital.

Até ver o que ainda não se vê.
Há muitos que continuam a acreditar que, no caso do mostrengo que se chamou BPN, ninguém poderia prever o que iria acontecer.
Obviamente, ninguém, é gente a mais.
---
Act- aqui: BCP fecha em mínimos abaixo de 9 cêntimos com dúvidas dos analistas sobre reembolso ao Estado.

Há coisas em que só não acreditam os fiéis.
---
Correl. Resgate directo aos bancos também poderia implicar políticas condiciopnadas (Draghi - 9 /6)

Saturday, October 29, 2011

IMPERDOÁVEL

Ulrich: Cortar subsídios dos reformados da banca "seria um confisco" (aqui )

Concordo com esta afirmação do presidente do BPI na exacta medida em que discordo, e me indigno, contra o argumento invocado: o de que, contrariamente aos regimes do resto da população, os fundos de pensões da banca "têm o capital" necessário. Ora esta afirmação é um insulto e uma inverdade.

Porque, desde logo, nenhum fundo de pensões, qualquer que ele seja, está definitivamente capitalizado. O valor das aplicações em activos, qualquer que seja a natureza destes, flutua consoante os mercados financeiros, e nunca está garantido se não for actualizado e reforçado.  

Depois, porque Ulrich sabe perfeitamente que nunca os bancos (à excepção do Totta) participaram na solidariedade social. Como, repetidamente, aqui venho anotando, mas, obviamente, Ulrich não lê nem precisa para saber, foram ao longo das décadas os contribuintes do regime geral, que participaram com mais de 1/3 dos seus salários brutos durante a sua vida profissional, que sustentaram o pagamento das pensões pagas aos não contributivos a partir do momento em que foi feito o alargamento ainda no tempo de Caetano.

É óbvio que esta mudança implicou também a mudança do regime de fundamento das responsabilidades a pagar pela segurança social (que vinha do tempo de Salazar) para o pay and go que ainda subsiste e do qual, agora, é impossível sair. Mas as receitas da segurança social ainda superam o valor das pensões pagas aos contributivos e, segundo os relatórios divulgados pelo anterior governo, que não foram ainda denunciados, essa situação manter-se-á ainda durante bastante tempo.  

Não confundo bancários com banqueiros, e aqueles, de um modo geral, não são coniventes das acções altamente condenáveis com que estes que conduziram o país à bancarrota. Subscrevo, por isso, inteiramente, que o corte nas pensões da forma iníqua que vai ser feita seria um confisco se abrangesse as pensões dos bancários mas será igualmente um confisco ao abranger os outros pensionistas. 

Porque o presidente do BPI não ignora que as pensões dos que forçadamente descontaram para o regime geral da segurança social foram calculadas numa base anual e, discricionariamente, repartida em 14 prestações, a duas das quais chamaram, anedoticamente, subsídios.  

Mais amarga, contudo, do que a justificação indigna dada por Ulrich é a causa pela qual as pensões vão ser cortadas, e, tudo leva a crer, o confisco não ficará por aqui: a banca, movida pela ganância, endividou o país para lá dos limites honestamente aceitáveis e, em alguns casos, cometeu crimes que a (in)justiça portuguesa promete ficarem impunes. Segundo a Unidade Técnica de Apoio Orçamental o custo acumulado do BPN no défice é maior que o corte nos subsídios de Natal e de férias. Desgraçadamente, a lista não se limita a esse mostrengo que dá pelo nome de BPN e ainda mexe, sabe-se lá porquê.  

"Os sindicatos da banca defenderam imediatamente que os cortes não podem ser aplicados aos bancários. Isto porque, os fundos da banca estão capitalizados o suficiente para fazer face às despesas futuras."
Pelos outros, pelos não contributivos, que paguem os do costume!

(Termino, e exclamo para mim um desabafo que não transcrevo)

Wednesday, May 19, 2010

PARA ONDE VAI A BANCA PORTUGUESA?

Explicação para o fenómeno: La Caixa quer reforçar a sua posição actual de 30%. Quando chegar a 33% terá de lançar uma OPA. Já não falta tudo para o BPI ser espanhol.
E os outros?
O endividamento excessivo é o caminho sem retorno para a perda de independência. Das famílias, das empresas, dos bancos, dos países.

Thursday, December 18, 2008

ANGOLA É DELA


A aquisição por Isabel Santos, filha do presidente angolano, de 9,69% do BPI ao BCP não é um negócio inesperado tendo em conta a posição crescente da família Santos em algumas empresas portuguesas, e nomeadamente no BCP, e da crise que este banco, já vulnerabilizado pelas ocorrências internas recentes, também tem de enfrentar.
.
Não sendo um negócio inesperado é, contudo, algo inconfortável por envolver, directa ou indirectamente os dignatários de um regime que, mais tarde ou mais cedo sossobrará.
Porque nenhuma oligarquia alguma vez teve um fim sossegado.
.
Que uma parte importante do sistema financeiro português esteja a cair a pouco e pouco na alçada de posições politicamente muito vulneráveis, parece preocupante.
.
Houve um tempo em que as tropas portuguesas marchavam ao som de "Angola é nossa!". Obviamente, não era. O óbvio, nestas coisas, leva sempre algum tempo a revelar-se.
.