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Thursday, August 05, 2021

A ADSE E O 19

A juntar às referidas  aqui.

" ... A pandemia veio pôr um travão ao aumento da despesa da ADSE com a saúde dos funcionários e aposentados do Estado que atingiu, em 2020, o nível mais baixo dos últimos cinco anos. Mas se os gastos caíram 13% em comparação com 2019, já as receitas provenientes dos descontos dos beneficiários aumentaram 2,6%, o que acabou por ter um efeito positivo na sustentabilidade do sistema." - aqui

A ADSE, repete-se esta afirmação pela enésima vez neste caderno de apontamentos, é um dos sistemas de saúde que prova, pelo menos 

- Que o SNS não é universal; todos os utentes do SNS, incluindo os associados da ADSE podem, teoricamente, recorrer ao SNS mas a inversa não é verdadeira.

- Que a ADSE representa um encargo contingente para todo os contribuintes, através do  OE.

- Que se todos os associados de sistemas particulares de saúde suportados pelo OE e pelos subscritores de seguros privados recorressem ao SNS, este, manifestamente implodiria. A prova desta afirmação está no conhecimento público dos milhares de utentes do SNS aguardam vez em longas listas de espera para cirurgias e actos médicos em geral; a longa lista de espera de quem aguarda a indicação do (a) seu (sua) médico (a) de família.
Por que é que só os associados da ADSE podem escolher o seu médico de família e os restantes utentes do SNS não? O aumento do número de associados da ADSE parece beneficiar as contas deste sistema particular de saúde e a redução da contingência sobre o OE. Ou não?
Por que razão, 

Em conclusão: por que razão não se alarga a associação à ADSE de todos os utentes do SNS?
 
47 anos depois de 25 de Abril de 1974
42 anos depois de instituído o SNS, uma das mais aclamadas "conquistas do 25 de Abril", continua, provadamente, a existir desigualdade entre portugueses no acesso aos cuidados de saúde.

Monday, August 02, 2021

ORA VIVA O AMIGO 19!

“La Vida Loca” regressou a Lisboa: dançou-se e bebeu-se numa noite para celebrar e fintar regras - aqui

Cristina Margato e Nuno Fox 

Não se pode consumir bebidas alcoólicas na rua, põe-se uma mesa na rua. Não se pode dançar na pista, dança-se à volta da mesa. Não se tem certificado, serve uma fotografia do cartão de vacinas. Não se pode beber um café na mesa da pastelaria, bebe-se ao balcão. A criatividade voltou no primeiro dia do mais recente desconfinamento, na noite de Lisboa, e alguns agentes da Polícia Municipal assobiaram para o lado.

 

 

 

O Covid 19 tem, pelo menos cinco vantagens, para quem é novo e saudável.

Morrendo os velhos:

- a idade média da população decresce; o país rejuvenesce-se.

- a Segurança Social paga menos pensões; o défice das contas agradece.

- reduzem-se as despesas com assistência médica e hospitalar; o défice agradece.

- os herdeiros recebem mais cedo as heranças; deixam de pagar as despesas em lares ou, simplesmente, deixam de aturar os velhos.

- a imunidade de grupo atinge-se a níveis de imunização (natural ou por vacinação) mais cedo;

- cresce o PIB/capita: para o mesmo PIB (os reformados não produzem) há menos "capitas"; O decréscimo de consumo privado induzido pela redução dos consumos dos pensionistas será sempre inferior à redução do PIB, isto é, às pensões pagas; ganha a imagem do Governo.


Tuesday, July 09, 2019

ADSE


Em Fevereiro de 2013 escrevi isto:

Numa altura em que a questão da redefinição das atribuições do Estado está na ordem do dia, o mais importante não será, neste caso da assistência na doença, confirmar o que já se sabe mas calcular o que não sabemos. E não sabemos, por exemplo, se não seria menos dispendioso e mais vantajoso para utentes e contribuintes que os serviços normalmente prestados pelos centros de saúde fossem contratados a consultórios médicos e enfermagem privados, reservando-se o Estado para a prestação de serviços hospitalares.
Se em vez de extinguir a ADSE, como está previsto, o sistema fosse alargado e financiado de modo a ser comportável pela sociedade à medida das possibilidades de cada utilizador, não seria mais justo e mais conveniente para todos? Se não, porquê? Alguém sabe? - OPERAÇÃO MEIA LIMPEZA

Muito antes, já tinha colocado a mesma sugestão/opinião em vários comentários no Quarta República em artigos de Maria Corrêa de Aguiar, ex-secretária de estado da Segurança Social: Não faz sentido que, também em matéria de cuidados de saúde, subsista discriminação entre funcionários públicos e trabalhadores privados. Se, como afirmam, a ADSE é hoje paga integralmente pelos seus beneficiários por que razão não é a ADSE alargada a todos os portugueses?
Dizem-me que nem todos os portugueses têm capacidade para pagar o prémio de seguro à ADSE. 
Pois quem provar essa incapacidade, total ou parcial, deve ser apoiado total ou parcialmente pelo OGE.

É, aliás, a única forma de garantir, sustentadamente, a assistência na doença a todos os portugueses.

"

Há dias, comentei aqui " CDS PROPÕE ALARGAR ADSE A TODOS OS TRABALHADORES."

Hoje soube-se que "Estudo académico propõe ADSE alargado a todos os cidadãos
Quem são os autores deste estudo: Paes Mamede e Adão Silva coordenaram o relatório.
Direita e esquerda estão de acordo.
E o centro?

Seria bom que os senhores António Costa e Rui Rio nos dissessem o que pensam sobre o assunto.
E, já agora, o que pensa a senhora Catarina Martins, o senhor Jerónimo de Sousa, o senhor André Silva, do partido dos Animais, da Natureza e das Pessoas.

Dizer-se que o SNS é universal é dizer uma mentira hipócrita porque são aqueles que mais apregoam as suas virtudes e universalidade que podem escolher o serviço de saúde, o médico, o hospital que mais lhe convém.

Friday, June 21, 2019

ADSE


Querem uma nova Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde, perdurável, sem baias ideológicas? Discutam esta proposta: CDS PROPÕE ALARGAR ADSE A TODOS OS TRABALHADORES.
Escrevi neste caderno de apontamentos várias notas sobre o assunto.
Por exemplo, em Maio de 2015, aqui:        

"ADSE quer abrir a porta a novos grupos de beneficiários. 
Em estudo está o alargamento a trabalhadores das empresas públicas, aos filhos adultos de funcionários e aos cônjuges que trabalhem no privado, explica o plano de actividades para este ano, que o Governo aprovou mas não comenta." - 
aqui

Repito o que, a propósito do âmbito da ADSE, anotei já várias vezes neste caderno de apontamentos: Se, como tem sido muito realçado pelos serviços oficiais responsáveis, a ADSE não representa para o Estado um encargo superior aquele que resultaria da sua extinção e consequente transferência dos cuidados de saúde dos seus utentes para o Serviço Nacional de Saúde, não se compreende porque razão não são ADSE e SNS colocados à disposição da escolha por um deles por parte de todos os cidadãos abrangidos pelos dois sistemas.

Tal como existe, a faculdade de escolha apenas por parte dos elementos de um grupo, eventualmente alargável de reforma restrita, continua a constituir uma discriminação entre portugueses: os que estão abrangidos pela ADSE, podendo optar pelo SNS, e os que estão abrangidos pelo SNS sem alternativa.

Se este alargamento representa um ensaio para um alargamento total no futuro, permitindo que ADSE e SNS sejam  acessíveis, em alternativa, a todos os cidadãos qualquer que seja o sector, público ou privado, em que trabalham, é aceitável. Se representa apenas o alargamento a mais um grupo restrito, ainda que relativamente numeroso, de privilegiados, reforça uma desigualdade que só não é considerada inconstitucional porque, aqueles a quem compete julgar, julgam neste caso em causa própria. 
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Junho, 21, 2019

“Propomos o alargamento da ADSE para todos, reconhecendo o seu papel complementar ao SNS e a sua mais-valia, que deve estar disponível independentemente de se ter ou não um vínculo laboral ao Estado“, ... o CDS também defende que se dê o mesmo “tratamento fiscal aos seguros privados de saúde em sede de IRS que é dado à ADSE”. Ou seja, além de propor que qualquer português, seja ou não funcionário público, possa escolher aceder ao seguro de saúde do Estado, o CDS também quer que a dedução à coleta em sede de IRS seja feita de igual forma, quer na ADSE quer nos demais seguros privados de saúde. O objetivo é não haver tratamento preferencial ou discriminação. No entender dos centristas, que dizem “acreditar num país em que os funcionários públicos e os trabalhadores do setor privado não vivem em sistemas distintos”, o atual governo “desconfia da iniciativa privada” e por isso agravou as “distinções” que ao longo dos anos foram conduzindo à existência de dois sistemas num só país: “o sistema dos trabalhadores do Estado e o sistema dos trabalhadores do privado”. Para os centristas, a discriminação existe no sentido em que, apesar de a ADSE ser paga exclusivamente através de descontos mensais, tendo deixado de ser um benefício dado pelo Estado-empregador aos seus funcionários, só estes é que continuam a poder aceder a este tipo de seguro de saúde que tem mais vantagens em sede fiscal. Os restantes ficam de fora. “Os funcionários públicos são livres de adquirir um qualquer seguro privado, para além do direito ao acesso ao SNS, mas já um trabalhador do setor privado não tem o mesmo conjunto de opções. Tem como garantido o SNS e pode adquirir um seguro privado, mas não pode aceder à ADSE e às eventuais vantagens que esta lhe possa oferecer”, ... c/p aqui

Sunday, December 11, 2016

EU CHOREI POR TI, DANIEL BLAKE



O nacionalismo alimenta-se da ausência, ou da fragilidade, das estruturas sociais que apoiem os marginalizados pelo crescimento da aldeia global. A humanidade ou será globalmente solidária ou explodirá numa guerra total. O Estado Social não é um instrumento obsoleto insustentável porque é a única via que pode garantir a sustentabilidade da espécie humana.  

*****

Friday, June 03, 2016

INVÁLIDOS BANCÁRIOS

"...  Problemas de saúde como colesterol elevado ou fígado gordo têm sido suficientes para garantir a reforma por doença e invalidez a centenas de funcionários bancários com mais de 55 anos e 35 anos de trabalho. Estas reformas têm sido incentivadas por vários bancos através de indemnizações e outras vantagens, como aconteceu este ano no Montepio, que desta forma garantiu a saída de 167 trabalhadores.
Estas reformas, em alguns casos com uma antecedência de dez anos face à idade normal de reforma no sector, têm custos inferiores para os bancos, quando comparadas com outras soluções para cortar trabalhadores, mas sobrecarregam a Segurança Social, que recebeu os fundos de pensões e ficou responsável pelo pagamento destas prestações... "- aqui
A moscambilha não é de agora, tem precedentes antigos.
A redução dos quadros dos bancos fez-se frequentemente com reformas por inteiro forjadas com atestados médicos de invalidez fictícia encomendados pelos bancos e pelos bancários envolvidos. 
O que agora torna a manobra notícia é o facto do número de inválidos ser elevado, em consequência das reduções de efectivos forçadas pela evidência do barro dos pés dos bancos, e o facto de as custas do logro caírem por inteiro nas contas da segurança social a partir da integração dos fundos de pensões dos bancos na segurança social.  

Um segredo de polichinelo que é a permissão de um roubo público e que só persiste porque conta com a conivência impune dos envolvidos, incluindo os médicos e o ministério da Segurança Social. 

Sunday, December 13, 2015

VOLTANDO A KRUGMAN

Ontem registei aqui mais um apontamento de Krugman - Debt and Demographic Debt Spirals - sobre a situação social, económica e financeira, em Portugal. O artigo suscitou muitos comentários de leitores norte-americanos (67, no momento em que componho estas linhas), alguns dos quais merecem a atenção de quem se interessa por estas questões porque nos dão, de algum modo, uma ideia da imagem de Portugal no contexto da União Europeia observada por quem vive do lado de lá numa grande e relativamente antiga união de estados federados. 

Krugman e outros economistas norte-americanos, de entre os quais é elementar destacar Stiglitz, têm dedicado bastante a sua atenção à evolução da situação na UE, sobretudo depois da erupção da crise de 2008 na Europa. E o seu diagnóstico não pode ser mais claro: a política de austeridade, liderada pela Alemanha, para enfrentar a crise iria agravá-la e seriam os países periféricos do sul da Europa os mais atingidos por essa política, segundo eles, errada. É esta perspectiva que está subjacente ao artigo de Krugman publicado ontem. 

O tema tem pontas múltiplas e não se puxa uma por inteiro sem puxar todo o incomensurável novelo.
Limito-me hoje a uma prometida* brevíssima reflexão sobre dois pontos:

- O financiamento do pagamento de pensões geridas pelo Estado em sistema de pay as you go apresenta vulnerabilidades evidentes em conjuntura económica deprimida, fustigada por dois factores cumulativamente negativos: desemprego e emigração.
A alternativa dos sistemas de capitalização, por outro lado, tem demonstrado poder ser ainda menos segura quando os mercados financeiros são abalados pela sua própria natureza e desses abalos não sabem como escapar. 
A conjugação mista dos dois sistemas, e de todas as suas variantes, permanecerá sempre sob a ameça do, até agora, inevitável comportamento dos ciclos económicos. 
Resumindo: Se as crises são inevitáveis, resta-nos tentar minimizar as suas consequências. E, em Portugal, não fez isso, fez-se o contrário.

A leitura do gráfico editado por Krugman, que transcrevi ontem, deve acompanhado da leitura de, pelo menos, outros dois gráficos.



É muito evidente (primeiro gráfico) qua a dívida pública portuguesa subiu abruptamente na última década tendo o número de activos começado a decrescer só a partir de 2009 quando se fizeram sentir os efeitos da contracção provocada pelas medidas de austeridade. A conclusão parece-me óbvia: não foi o défice demográfico natural que provocou o aumento fulgurante da dívida mas as medidas de austeridade (erradas ou não, evitáveis ou inevitáveis,  é outra questão) que provocaram o desemprego e a aceleração do fluxo emigarório (que já vinha de trás) e o refluxo da imigração,aumentando o défice demográfico total.

O gráfico seguinte, por outro lado, evidencia até que ponto a irresponsabilidade do sistema financeiro, importando crédito ao sabor das vantagens dos interesses de banqueiros e de políticos, colocou o país em posição de cheque-mate perante a raínha Merkel.

E.T. - Nada do que afirmo contraria a evidência de que a redução da população activa contrai a base de incidência dos impostos e ameaça dramaticamente a capacidade do Estado solver os seus compromissos na ordem externa e interna.

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 * Vd. aqui

Thursday, December 03, 2015

TRABALHEM MAIS!, MANDA A OCDE

A OCDE divulgou anteontem o relatório - Pensions at a Glance 2015 -, uma análise comparativa entre os sistemas de pensões vigentes em 2014 em cada um dos estados membros e em alguns outros países não membros da organização.  

Uma análise sucinta deste relatório está hoje publicada aqui, no EL PAÍS. Este trabalho do diário espanhol tem ainda o mérito de incluir um conjunto de mapas e gráficos de acesso interactivo, retirados do relatório da OCDE, que vão além da comparação dos sistemas de pensões para incluir vários indicadores da realidade económica e social observada em cada um dos países.

Outro artigo do EL PAÍS,  sustentado no mesmo relatório, comenta aqui a reprovação pela OCDE das reformas antecipadas, indicando um caminho diferente,  de mais anos de trabalho. 
Por estar a ser um dos tópicos mais discutidos do Programa do Governo, a síntese do EL PAÍS, para quem não tem tempo nem pachorra para ler as 370 páginas do relatório da OCDE é uma ferramenta mais manejável. 

Thursday, September 10, 2015

NA PISTA DE 600 MILHÕES PERDIDOS

Um dos assuntos que mais tempo ocupou no debate de ontem à noite foi a insuficiência de financiamento da segurança social calculada pelo Governo em 600 milhões de euros, e a rejeição do líder do PS de novos cortes nas pensões para assegurar o equilíbrio do sistema. 
Contudo, se o sr. Passos Coelho não esclareceu os portugueses, nem agora nem nunca, onde se situa tal desequilíbrio, ao sr. António Costa também não ocorreu, nem agora nem antes, levantar a questão.

E, no entanto, não há reflexão séria sobre o assunto se não se souber se o défice é devido

- a insuficiência no sistema de segurança social financiada pela TSU por exceder o montante das pensões pagas os valores das contribuições recebidas;
- a insuficiência de financiamento da Caixa Geral de Aposentações por acumulação das contribuições devidas e não pagas pelo Estado ao sistema;
- ao pagamento de pensões a não contributivos;
- ao anormal crescimento de prestações sociais decorrentes de uma situação de recessão económica. 


Iludiu o sr. Passos Coelho a questão quando, mais uma vez, referiu a inevitabilidade de colmatar com aumento de impostos as insuficiências de financiamento em causa, se outras alternativas não forem admitidas.
.
Ora,  das três hipóteses anteriores, só a primeira não deve suportada por impostos. O financiamento das pensões da segurança social dos funcionários públicos, ou equiparáveis neste caso, e dos não contributivos só devem ser suportadas por impostos, ou pelo seu aumento se houver défice. 
Por outro lado, é claramente iníquo que os custos sociais decorrentes de uma situção económica recessiva sejam suportados apenas pelos rendimentos, declarados, do trabalho.

Se uma parte do défice ocorrer no sistema contributivo (privado) deveria o Governo esclarecer os portugueses acerca da situação em que este sistema se encontra e apresentar propostas correctivas que, do meu ponto de vista, deveriam assentar na uniformização das condições de reforma para todos os beneficiários, actuais e futuros, tendo em conta toda a carreira contributiva e tudo mais que possa contribuir para o equilíbrio e equidade do sistema.

Quando o sr. António Costa afirma que "Não aceitaremos qualquer novo corte das pensões" isso significa que "aceita os cortes actualmente em vigor se for primeiro-ministro?". Se for este o caso, o sr. António Costa recua de posições antes assumidas.
.
É importante notar que uma parte desses cortes decorre, certamente, do facto de haver pensões, fundadas em regras ou manobras imorais sobejamente conhecidas, que deveriam deveriam ser ajustadas.
Um sistema de segurança social financeiramente equilibrado exige que as regras em que se suporta ponderem as contribuições de cada um ou o suporte que a colectividade se dispõe a dar aqueles que não contribuiram para a segurança social ou contribuiram de modo insuficiente para uma vida com um mínimo de dignidade.

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* Minuto-a-minuto: Passos V Costa
"Não aceitaremos qualquer novo corte das pensões. Não aceitamos qualquer corte de 600 milhões nas pensões. A sustentabilidade depende da confiança e que é o que o Constitucional tem obrigado o Governo cumprir", diz António Costa. Lembra a maior reforma em 2007, do governo de PS. "O grande buraco aberto da segurança social foi este governo que abriu". Fez perder oito mil milhões à segurança social, nomeadamente com o desemprego. Por isso diz que para o PS "a prioridade máxima é a criação de emprego". E diversificar fontes da segurança social, como diz propor. E atira: A coligação propõe "maior aventura financeira para a segurança social".

"As pessoas só podem ter confiança na segurança social se corrigirmos essa situação". Volta a reafirmar necessidade de sentar-se à mesma mesa que o PS. Volta a dizer que espera ser possível após as eleições. "O programa do PS perfaz mais do que 600 milhões de euros", e contrapõem que o que ganha na receita de IRC "é de 4%, só isso, comido pela restituição IVA na restauração".


Saturday, July 18, 2015

DEMAGOGIA E CONTAS PÚBLICAS

"Quando a função pública entra em cena, os limites da equidade e da solidariedade ficam sem contornos..."- cf. aqui

"Sendo a ADSE totalmente financiada pelos seus beneficiários, uma vez que o Estado deixou de comparticipar, não encontro justificação para que o Estado continue a administrar a ADSE " - cf. aqui

"Agora, aquilo que realmente me parece desequilibrado, anti-social, injusto e a necessitar de reforma, é o facto de no país, os trabalhadores do Estado terem acesso a um serviço de saúde comparticipado nos prestadores privados e os outros desgraçados terem de gramar com listas de espera de meses ou anos até, para serem submetidos a tratamentos ou a intervenções cirurgicas e ainda para consultas de especialidade. Se queremos ser um Estado democrático, é mesmo necessário e urgente alterar esta situação e dar a todos os contribuintes-benefíciários dos diferentes sistemas de saúde, condições iguais." - cf. aqui
 ... ... ... ...

O mais bizarro no meio desta algazarra acerca dos superavits da ADES é que estes críticos ignoram (ou querem ignorar) que durante muitos anos os superavits da segurança social (contribuições dos privados) serviram sistematicamente para reduzir não só os saldos negativos das contas mas também a dívida pública. Os fundos excedentes não só massajaram as contas públicas como voaram dos depósitos da segurança social (privados).

Enfatizo - privados - porque ao mesmo tempo os sucessivos governos não depositaram em nome da entidade patronal - o Estado - as contribuições que deveriam ter feito para a Caixa Geral de Aposentações. Pelo mesmo crime foi condenado a prisão há muitos anos atrás, como se fosse o único transgressor - um tal sr. Cebola* -, na altura gerente da Oliva. 

Se a ADSE é agora autosuficiente por que razão se mantém na esfera da gestão do Estado, i.e., do governo?
A razão é simples: porque os governos (este, os anteriores e os que virão) não quererão nunca abrir mão de fundos que lhes permitirão safar parte dos défices do OE. Como neste caso de agora.

A mesma razão pela qual não fazem o que deveriam fazer: separar as contas da segurança social (privados) das contas da segurança social da função pública e dos não contributivos. 

Ouvi ontem o ministro da Saúde (para a tutela de quem vão ser transferidas as responsabilidades da gestão da ADSE) referir, e com razão, que sendo a ADSE um seguro de saúde dos seus associados a observância de excedentes agora pode justificar-se para prevenir défices futuros, que podem ocorrer com a alteração etária do universo abrangido. Devolver ou não esses fundos excedentários ou reduzir as contribuições actuais depende das conclusões de uma análise actuarial que, disse ele, já está (ou vai ser) encomendada.
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* O Odisseia Fiscal de João Cebola

Tuesday, June 23, 2015

COLOCANDO O DEDO NA FERIDA

“O que (o Ministro da Saúde) disse foi algo que os portugueses não pensam nem vem no debate público. Vamos ter um aumento dos custos com a saúde e as pessoas dizem que precisam de ser financiados mas ninguém diz como. O financiamento ou é feito de uma forma solidária como é hoje, genericamente através dos impostos dos portugueses, ou é feito através de outras formas que nós recusámos como por exemplo os co-pagamentos” - vd. aqui.  Ou redução de despesas em outros sectores da administração pública, permito-me acrescentar eu, já que o ministro, por razões óbvias, não o disse mas certamente pensou. 

De qualquer modo o debate está lançado e deveria estender-se a outras áreas da governação pública.
A Segurança Social, por exemplo, na parte que excede o pagamento de pensões a beneficiários do sistema contributivo financiado pelas prestações incidentes sobre os salários pagos pelas empresas.Todas as outras prestações sociais, incluindo as pensões da função pública e as dos não contributivos, deveriam ser, pelas razões de solidariedade invocadas pelo Ministro da Saúde, suportadas, inquívocamente, por impostos.

E talvez esta separação de águas suscitasse outro debate necessário: o da igualização das condições e dos cálculos de atribuição de pensões de reforma aos contributivos dos sectores privados e dos sectores públicos. O que implicaria a consideração de toda a carreira contributiva.

Wednesday, May 27, 2015

O JOGO DAS REFORMAS E PENSÕES

Anda meio mundo a discutir a reforma da segurança social há anos. Agora que a campanha eleitoral já começou, de facto, o tema volta em força à baila, outra vez com música da TSU. E o estribilho mais ouvido de qualquer lado que governe ou espere governar continua a repetir que é preciso reformar o Estado, reforma que passa pela reforma da segurança social. E de tal modo associam a tão badalada necessidade reforma do Estado à reforma da segurança social que um cidadão desprevenido que os ouça é levado a concluir que uma reforma e outra são uma e única reforma. Mas a nenhum dos grupos concorrentes parece convir admitir que o sistema de segurança social que temos consente alguns entorses de evidente iniquidade que lhe comprometem a sustentabilidade.

E não convém porque, desde que foi adoptado o sistema pay as you go na gestão de reformas e pensões no início da década de 70 do século passado, todos os governos aproveitaram os excedentes da previdência social dos contributivos do sector privado para benefício dos saldos sistematicamente negativos do Orçamento do Estado. O alargamento do pagamento de pensões aos não contributivos foi suportado pelos excedentes das contribuições do sector privado. Mas não de todos: por exemplo, os bancos, os banqueiros e os bancários, não participaram até muito recentemente na solidariedade social. E agora, que foram integrados no sistema geral, numa situação de sério aperto das contas do Estado, muito provavelmente essa integração beneficiou os balanços dos bancos e prejudicou o sistema. 

Repito-me: o que deveria ser feito mas nenhum partido de governo ou candidato a governar quer fazer:

1 - O sistema de segurança social das empresas privadas, ou públicas sujeitas a idêntico regime contributivo, financiado pelas contribuições das empresas e seus trabalhadores (económica e financeiramente é irrelevante separar TSU da entidade empregadora da TSU dos seus trabalhadores) deveria ser gerido de forma inteiramente separada das contas públicas. A sua gestão deveria ser tripartida entre o Estado, as empresas e os trabalhadores.

2 - O Estado deveria devolver à Segurança Social financiada pelos contributivos privados os saldos dela retirados ao longo dos últimos cinquenta anos se, e à medida que, se vierem a observar saldos negativos nas contas da Segurança Social dos privados, até ao reembolso total dos saldos retirados.

3 - O sistema de pensões da função pública, financiados com as contribuições do Estado enquanto entidade empregadora e dos trabalhadores da função pública, deveria ser igualmente separado das contas do Estado. A eventual ocorrência de saldos anuais negativos deveria, obrigatoriamente, ser colmatada com transferências do Orçamento do Estado. 

4 - O pagamento de pensões a não contributivos deveria ser exclusivamente suportado pelo Orçamento do Estado, o mesmo é dizer com impostos. 

5 - Todas as pensões e reformas deveriam ser recalculadas tomando como base toda a carreira contributiva dos pensionistas ou reformados e utilizando os mesmos modelos de cálculo.

Fora disto, a discussão da insustentabilidade da segurança social continua a ser um jogo de faz-de- conta que a redução ou não da TSU resolve o problema. 

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Correl. - Ministra das Finanças diz que PS pode agravar passivo da Segurança Social em 12,4 mil milhões de euros

Friday, May 22, 2015

AO FUNDO!

Bagão Félix comentava há dias, vd. aqui, que "a Segurança Social transformou-se na cortesã do reino". Não me parece que a imagem seja a adequada, das suas relações com os homens da corte retiravam as cortesãs as suas vantagens. Das relações do Orçamento da Segurança Social com o Orçamento do Estado, desde há várias décadas a esta parte, têm os sucessivos governos disfarçadamente usado e abusado da complacência do primeiro para tapar os buracos por eles abertos no segundo. 

Agora, nos seus anúncios de programa eleitoral para as próximas legislativas, propõe-se o PS usar os fundos da Segurança Social para financiar projectos de reabilitação urbana para, segundo eles, reactivar a economia, aumentar o emprego, aumentar as contribuições para a segurança social e reduzir o desemprego e os concomitantes subsídios. Tudo vantagens, segundo os proponentes. 

O que o programa não diz é como serão, se forem, reembolsados os  fundos desviados se as contas vierem a demonstrar-se erradas.

E depois clamam que a situação da Segurança Social está insustentável!

Thursday, May 21, 2015

O ESTADO DOS OUTROS

Materialmente, o assunto não é relevante.
Se apreciado do ponto de vista do comportamento cívico já revela bastante acerca da atitude dos portugueses (muito provavelmente, da grande maioria) perante as contribuições prestadas e as responsabilidades exigidas á função pública.

Hoje, depois de ter colocado 50 cêntimos na ranhura do parquímetro, constatei que alguém que desconheço e me desconhece, tinha deixado um talão com um prazo de validade superior aos que os meus 50 cêntimos consentiam. A impressão era diferente, tinha sido emitido pela máquina do outro lado da rua, não se tratava, portanto, do esquecimento de um apressado. Alguém terá estacionado deste lado, pagou no outro, e quando saiu ainda lhe sobrava tempo. Decidiu oferecê-lo a um desconhecido. Neste caso, a mim. Por quê? Só encontro uma explicação. O benemérito entendeu que, entre dar uma vantagem ao Estado ou cedê-la a um desconhecido preferiu beneficiar o desconhecido, inconsciente de que da sua decisão resultava um prejuízo (embora infinitesimal) para ele próprio e para todos os outros cidadãos contribuintes. Uma decisão, certamente inconsciente, porque geralmente ninguém decide conscientemente contra si próprio, que decorre de uma animosidade subconsciente contra o Estado ... dos outros.

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Ontem anotei neste caderno de apontamentos a recorrente relevância dada aos impostos que pagamos e a quase ausência da crítica aos resultados obtidos. Com os impostos pagamos serviços prestados pela função pública e o que deveria estar em causa não era o nível dos impostos pagos mas a relação entre o preço desses serviços e a sua utilidade para a globalidade dos utentes. O que conduz a uma questão, também recorrente, sobre a concorrência entre sector público e sector privado. Também ontem, transcrevi um comentário feito dias antes onde afirmava que "os países escandinavos têm cargas fiscais máximas e índices de desenvolvimento que os colocam em lugares do topo do ranking do PNUD." Já não é assim, e o gráfico transcrito contrariava a minha afirmação. A crise, ou a estratégia de combate à crise, alterou bastante o ranking da carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho nos países membros da OCDE. A progressão da carga fiscal em Portugal nos últimos anos coloca agora os trabalhadores portugeses entre os mais tributados.

Voltarei ao assunto.


Monday, March 02, 2015

A SÍNDROME DOS SUBMARINOS

O sr. Passos Coelho diz-se, vd. aqui, "perplexo com a divulgação de "dados pessoais e sigilosos" em ano de eleições, a propósito das informações dadas pelo PÚBLICO sobre anomalias observadas nas contribuições por ele devidas à segurança social. Mas é uma perplexidade que não tem sentido algum.

Primeiro porque o sr. Passos Coelho não ignora, nem ninguém minimamente informado, que neste país aparecem e reaparecem em época de eleições os escândalos com que se atiçam mutuamente os partidos políticos. Há, obviamente, uma gestão da carteira de escândalos gerida pelos adversários de cada parte através dos media. 

Segundo, porque as actividades dos políticos, enquanto tal, devem ser julgadas pelas suas acções que interferem na esfera pública. Ora o caso das dívidas à segurança social não pagas em devido tempo pelo actual primeiro-ministro, e pagas, agora que estavam prescritas, sem se perceber com que consentimento legal, é tanto mais grave quanto se sabe que o devedor tem sido, além do mais, um escrupuloso defensor do pagamento dos compromissos assumidos e da sustentabilidade da segurança social.

Terceiro, porque os dados pessoais com tradução financeira, activa e passiva, de cada titular de cargos governativos deveriam ser obrigatoriamente escrutinados antes da tomada de posse e após a cessação de funções. Como dizia alguém que ouvi na rádio há duas horas atrás, se um investidor que se candidata a benefícios fiscais é obrigado a apresentar declaração da segurança social atestando que não tem dívidas naquele instituto, por que razão não são obrigados os políticos eleitos a idênticas provas antes de tomar posse?

Quarto, porque a lei impõe a obrigatoriedade dos políticos declararem junto do Tribunal Constitucional os bens que detêm no início e no termo dos seus mandatos e tais declarações pressupõem, para serem integralmente verídicas, a inclusão das responsabilidades financeiras a par dos activos declarados. De outro modo pode (poderia) um titular de cargo público alterar quanto quiser o seu património líquido durante os seus mandatos sem que os seus activos declarados observem alterações relevantes. Pelos vistos nem o sr. Passos Coelho declarou as suas dívidas à segurança social nem a segurança social intimou o sr. Passos Coelho a pagar o que devia, sob pena de acção executiva de penhora de bens, uma prática que, segundo os media, estão a ocorrer aos milhares.
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(3/3) -  "O presidente dos sociais-democratas e chefe do executivo PSD/CDS-PP referiu que foi questionado pela comunicação social sobre a eventual entrega de declarações fora de prazo e, dirigindo-se a quem quer "remexer" na sua vida, disse que já se atrasou com certeza muitas vezes, mas que quando o Estado lhe exigiu sempre pagou o que devia, que não tem nenhuma dívida ao fisco e que nunca usou o cargo de primeiro-ministro em seu benefício" -  vd. aqui.

Saturday, February 28, 2015

ENTRE A IMPOTÊNCIA E A FALTA DE VERGONHA

As gaffes*  do sr. António Costa na sua alocução aos chineses no primeiro dia do Ano Chinês  apareceram, depois de espraiadas nas redes  sociais e potenciadas nos media, como uma oferta inesperada ao sr. Passo Coelho, numa altura em que o esperançoso carisma do sr. António Costa não consegue melhores resultados nas sondagens do que o discurso morno do seu, por ele apeado, antecessor.  

Mas eis que hoje se soube, vd. aqui, que o sr. Passos Coelho "acumulou dívidas à Segurança Social durante cinco anos, e, questionado pelo PÚBLICO afirma que nunca foi notificado da dívida, criada entre 1999 e 2004, e que ela prescreveu em 2009, facto de que diz ter tomado conhecimento em 2012. Apesar disso adianta que pagou já este mês, voluntariamente, cerca de 4 mil euros".

Se isto é verdade, e se neste país existisse um mínimo de exigência cívica colectiva, o sr. Passos Coelho deveria demitir-se.

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*gaffe -
1. ação ou palavra impensada que provoca uma situação embaraçosa ou um equívoco; deslize
2. disparate, tolice
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(2/3) - Passos: Não tinha consciência dessa obrigação
"Primeiro-ministro insiste que não foi notificado pela Segurança Social por ter estado cinco anos sem pagar contribuições e que só por isso não pagou o que devia. E não vê razões para se demitir."
Marcelo: Como é que Passos pagou uma dívida que já não existe? 



Sunday, January 25, 2015

A SÓCRATES O QUE É DE SÓCRATES

"Não consigo olhar para a PT hoje sem ver a fotografia do engenheiro Sócrates e do Dr. Ricardo Salgado"
Daniel Bessa / Observador

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E., enviou-me aquele link para uma entrevista a Daniel Bessa publicada há dias no Observador. Eu tinha, numa reunião de amigos, discordado da imputabilidade das maiores responsabilidades na tragédia da PT ao sr. José Sócrates. O sr. José Sócrates é certamente culpado de muita coisa que aconteceu neste país. Mas não pode ser justamente considerado como um dos principais culpados dos actos danosos e fraudulentos ocorridos na PT se o juízo não estiver condicionado por convicções ou proximidades partidárias. 
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Entrevistador pergunta  
"Mas acha que o Governo devia ter feito alguma intervenção". 
Responde, perguntando Bessa:  
"Em qual?"  
Na PT, por exemplo. E Bessa responde indirectamente que não: 
"No caso da PT, o Governo interveio no tempo do engenheiro Sócrates. E não consigo desligar o estado em que a PT se encontra da intervenção do engenheiro Sócrates. E de Ricardo Salgado".
Subscrevo, sem quaisquer reservas, aquelas afirmações de Daniel Bessa.

Mas já não subscrevo, porque considero contraditórias, as considerações seguintes de DB: 
"Quando nós olhamos para a PT, tal como está, aquilo que hoje se está discutir – claro que estava lá dentro o Dr. Henrique Granadeiro e o engenheiro Zeinal Bava, num nível de responsabilidade muito elevada, mas acima dos gestores habituei-me a colocar os acionistas e o poder político, quando chega a esse grau de envolvimento com os acionistas. E é por isso que eu não consigo olhar em momento nenhum para o estado em que a PT está hoje sem ver a fotografia do engenheiro José Sócrates e do Dr. Ricardo Salgado".

Se Bessa considera, e eu concordo com ele, que o Governo não deve interferir nas relações accionistas das empresas privadas, não se percebe que coloque acima dos gestores os acionistas e o poder político como maiores responsáveis das ocorrências verificadas na PT Telecom até agora.
Sem dúvida que os accionistas são os maiores responsáveis. Mas serão todos? Não são. Na assembleia geral de Setembro, que aceitou por quase unanimidade a redução da participação da PT SGPS na CorpCo de cerca de 37% para cerca de 27%, esteve representado menos de metade do capital social, verificando-se a mesma situação na assembleia de 22 deste mês, que aceitou a venda da PT Portugal à Altice. 

A PT SGPS é uma empresa cotada em bolsa e cerca de metade do capital accionista está de tal modo disperso que torna a sua agregação para efeitos de voto virtualmente impossível. Daí que a tradicional representatividade do capital accionista nas assembleias gerais (o mesmo ocorre, p.e. na EDP) fique sempre aquém de uma maioria do capital social da empresa. Dito de outro modo: há poucos mas grandes accionistas que governam ou delegam o governo da empresa e há accionistas que, de facto, investem confiantes na capacidade dos gestores, nos auditores e na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. Sem uma capacidade de vigilância efectiva da CMVM, a bolsa de valores perde honorabilidade e só não a abandonam de vez os que têm a memória curta ou os que participam apenas no jogo especulativo. Dos accionistas, só aqueles accionistas com capacidade efectiva de intervenção na gestão da empresa são responsáveis pelos actos de gestão praticados.

Quanto à intervenção do poder político, se ela não decorre de uma decisão tomada publicamente em nome da defesa do interesse público, e não foi o caso, quaisquer actos que envolvam estritamente os negócios ou as participações accionistas da empresa são da exclusiva responsabilidade de quem tem poder para os praticar: os accionistas ou os gestores por eles escolhidos. Se o engenheiro Sócrates de algum modo influenciou os actos de gestão da PT Telecom, a responsabilidade efectiva das consequências dos actos praticados terão de ser assacadas por inteiro aos gestores que concretizaram esses actos. Do mesmo modo que não é aceitável que o poder político intervenha na gestão dos negócios da empresas privadas, também não é aceitável que os gestores das empresas privadas endossem responsabilidades, que são unicamente suas, ao poder político decorrentes de eventuais situações de promiscuidade entre os negócios e a política.

Quanto à colocação de DB dos gestores num segundo patamar de responsabilidades, a minha discordância é total. Porque Bessa não ignora, porque ninguém minimamente informado ignora, que a indicação dos gestores nas listas dos orgãos a votar em assembleia geral, decorre de contratos entre os accionistas e os gestores quando os primeiros não assumem eles próprios a gestão corrente dos negócios. Não raramente esses contratos prevêm, tacitamente, contrapartidas entre as retribuições (de natureza e vias várias) aos gestores e liberalidades, para utilizar uma expressão que está a tornar-se moda, aos accionistas que os nomearam. Piketty em "o Capital no Séc XXI" demonstra até que frequentemente os gestores das grandes corporações acabam por dispensar os apoios accionistas quando o capital é quase totalmente fragmentado, e subalternizam os interesses dos investidores aos seus próprios interesses tornando-se eles, e não mesmo  os maiores investidores, quem mais riqueza acumula. 

Foi isto que aconteceu na PT Telecom.
Ricardo Salgado comprou os empréstimos, sem racionalidade financeira, da PT aos GES por contrapartida dos rendimentos que, por sua proposta, foram atribuidos a Zeinal Bava e seus companheiros da alegria. E os outros accionistas, perguntar-se-á, não deram por isso? Eles dizem que não, mas não é crível. Terão também embolsado as suas contrapartidas. De outro modo não teriam, entre outros actos esquisitos, cedido tão pacificamente à redução dos 37% para 27% na participação no capital da CorpCo, nem tão docilmente defendido a venda da PT Portugal à Altice. 

Ainda quanto à publicamente declarada não intervenção do Governo: se é muito compreensível que nenhuma intervenção poderia ser feita na ssembleia de accionistas porque o Estado não é accionista da PT SGPS, é muito incompreensível que o Estado, representado pelos fundos de estabilização financeira da Segurança Social, se conforme com perdas que eventualmente rondarão os cem milhões de euros, segundo notícias vindas a público, alinhando ao lado dos grandes accionistas, que são também os grandes responsáveis, nas votações tomadas nas assembleis gerais de Setembro do ano passado e de 22 deste mês. 

Porque, das duas uma: ou os gestores dos fundos de Segurança Social são incompetentes, e devem ser despedidos, ou decidiram em função da informação que conheciam e foram ludibriados pela sonegação de informação relevante, e devem ser punidos os responsáveis por essa sonegação.

Ou não acontece nada,  e a bolsa de valores de Lisboa continua a ser um caneiro camuflado?

Friday, January 16, 2015

APARIÇÕES

Tinha-me prometido não voltar a anotar neste bloco de notas mais qualquer apontamento sobre a batota que envolve a PT SGPS, a PT Portugal, o BES, o GES, a Rioforte, a Oi, o sr. Zeinal Bava, o sr. Granadeiro, e todos os seus acompanhantes na golpada. Quanto mais se mexe no gato fedorento mais mal ele cheira. Mas ontem houve uma vaga torrencial de declarações sobre estes molhos de escândalos, e é forçoso deixar aqui os links, que se espera não sejam apagados tão cedo, para memória futura.

Logo, de manhã, soube-se que o sr. Henrique Granadeiro tinha saído do casulo para onde entrara quando foi apanhado com o rabo do escândalo do empréstimo de 900 milhões à Rioforte na boca. Saiu, e disse que defende fim da fusão entre PT e Oi, alegando que, afinal, foi a Oi, por intermédio da sua participada PT Portugal emprestou à Rioforte o famigerado empréstimo! Desta, suponho, é que ainda ninguém se tinha lembrado. Lembrou-se ele, mas só agora por quê? À tarde a Oi fez saber que vai processá-lo pela carta enviada à CMVM.

Em conclusão, irrefutavelmente a administração da PT SGPS defende as pretensões e as alegações da Oi.
Hoje a Oi veio novamente à porta do buraco para afiançar que a venda da PT Portugal não afecta princípio da fusão. 
Porquê ou como, não diz. E não diz porque é muito óbvio que com a venda da PT Portugal à Altice o princípio da fusão escapa-se pelo esgoto juntamente com as burlas com que este conjunto de escândalos se tece.

Seguramente, o inteligente que decide as opções de investimento do fundo da Segurança Social desconhecia que a PT aplicava na Rioforte valores que nenhuma gestão financeira minimamente capaz podia justificar. Porque não se deu ao trabalho de analisar as contas da PT ou porque as contas da PT eram tão herméticas ou tão falseadas que o inteligente não lobrigou o logro?
Não sabemos, muito provavelmente nunca nos irão dizer, mas deveriam dizer, a Segurança Social é uma instituição pública e obrigada ao dever da informação dos resultados dos actos que pratica. Se a Segurança Social foi ludibriada pelas práticas de omissão ou sonegação de informação relevante pela administração da PT, vai a Segurança Social exigir os reparos devidos pelas consequências de tais práticas?

Há alguém em casa ou tudo isto não passa de aparições?
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 *Cronologia das relações entre a PT e o GES que culminaram com o investimento na Rioforte 
Act. (16/1) - Logo após a edição deste apontamento recebi comunicado ao mercado de informação enviada, com data de ontem, à CMVM. Está aqui.
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A FRASE DO ANO- ACORDO ORTOGRÁFICO
  
"É impossível escrever corrupto sem PT"
Claudio Tognolli, jornalista brasileiro