Ontem, Ricardo Araújo Pereira entrevistou Alexandra Leitão, destacada socialista, que já desempenhou cargos no Governo, e é agora candidata à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, e que afirmou apnntar sempre para os seus objectivos e nunca "atirar para canto".
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Monday, January 27, 2025
COERÊNCIA, PRECISA-SE
- Mas a senhora deputada, sendo socialista convicta defensora do ensino público como explica terem os seus filhos estudado num colégio privado?
- Já me fizeram muitas vezes essa pergunta. Primeiro, matriculei os meus filhos em escola pública, depois porque ambiciono para eles uma carreira internacional, matriculei num colégio que oferecia essa garantia.
Alexandra Leitão não procedeu de modo diferente do seguido por muitos outros, em matéria de educação e saúde, também eles acérrimos defensores da escola pública e do SNS.
A propósito:
Recebi hoje convite de um amigo, também ele um homem, sem concessões, de esquerda para me inscrever no Instagram.
As redes, ditas sociais, podem e já estão a ser um instrumento de dissolução da democracia.
Elon Musk apoia declaradamente os mal disfarçados herdeiros dos nazis alemães.
E todos os regimes autocráticos,
Os canais de Zuckerberg são esgotos por onde passam algumas águas limpas misturadas com muitas sujidades.
Uso WhatsApp num círculo familiar.
A liberdade de expressão deixa de o ser se consentir a mentira.
A democracia também se defende boicotando os multi bilionários que usam os seus canais para conspurcar a liberdade limpa.
Correlacionado:
Sunday, May 19, 2024
POSSO CHAMAR-LHE FILHO DA PUTA?
Em Julho de 2013, perguntava neste buraco de grilo livre, a Miguel Sousa Tavares: Posso chamar-lhe filho da puta?
Obviamente, Miguel Sousa Tavares não respondeu, ele não ouve nem, provavelmente, entende os grilos, aliás, lamentavelmente, uma espécie em vias de extinção.
Mas soube-se na toca do grilo e tocas vizinhas que
"A Procuradoria-Geral da República (PGR) arquivou o inquérito aberto
contra Miguel Sousa Tavares por ter chamado “palhaço” a Cavaco Silva,
considerando que essas declarações se enquadram no direito à liberdade
de expressão do escritor e antigo jornalista." (aqui)
E soube mais., Mas para saber mais faça o favor de ler tudo o que grilo ouviu nessa altura.
Vem esta nota a propósito do banzé provocado por uma intervenção do prof Ventura na Assembleia da República a propósito do tempo previsto para a construção do aeroporto em talvez Alcochete. Só me dei conta do que disse Ventura porque seria difícil ignorar o alarido histérico ("Histerismo - Falta de controle emocional, geralmente, acompanhada por
gritos ou gestos descontrolados. Nervosismo; excesso de irritação, de
exaltação."), que a intervenção do Ventura provocou, e, sobretudo, a indignação contra o Presidente da Assembleia da República, acusado de não ter impedido Ventura de dizer o que disse.
Insultos, mentiras, confusões, condenáveis pelo frequente desrespeito do chefe do Chega pelos valores democráticos, lamentavelmente, não faltam. A utilização de um argumento débil, debilita sempre a força do conjunto. Dito de outro modo, o que disse Ventura, explicita ou implicitamente, beneficiou Ventura junto dos seus admiradores e de muitos que não estejam contaminados pelo histerismo colectivo na área que não governa o país neste momento.
E concordo com o que escreveu ontem João Miguel Tavares no Público:
"Para quem se deu ao trabalho de ouvir a intervenção original, eis o que disse André Ventura: “O aeroporto de Istambul – os turcos não são propriamente conhecidos por serem o povo mais trabalhador do mundo – foi construído e operacionalizado em cinco anos.” Em linguagem grunha: se o otomano, que é calão, constrói aeroportos em cinco anos, quão calão tem de ser o tuga para demorar dez anos a fazer Alcochete? Ventura estava a insultar os portugueses. No meio de tanta indignação, ninguém percebeu."
O histerismo geralmente falha os seus alvos.
"Para quem se deu ao trabalho de ouvir a intervenção original, eis o que disse André Ventura: “O aeroporto de Istambul – os turcos não são propriamente conhecidos por serem o povo mais trabalhador do mundo – foi construído e operacionalizado em cinco anos.” Em linguagem grunha: se o otomano, que é calão, constrói aeroportos em cinco anos, quão calão tem de ser o tuga para demorar dez anos a fazer Alcochete? Ventura estava a insultar os portugueses. No meio de tanta indignação, ninguém percebeu."
O histerismo geralmente falha os seus alvos.
Friday, September 01, 2023
POR UMA QUESTÃO DE MÁ CONSCIÊNCIA COLECTIVA?
O casal chegou às 23:30 ao aeroporto de Lisboa vindo dos EUA.
Cá fora, entrou no táxi que lhe coube em sorte determinada pelo agente de serviço.
- Bom dia!
(nenhuma resposta)
- Leve-nos, se faz favor, a (morada indicada em Sintra)
O táxi movimentou-se no sentido do IC19, ali chegado o taxista começou uma corrida desenfreada, pressionando, com os faróis nos máximos, quem circulava à sua frente, movendo-se irrequieto, o volante a desandar-lhe nas mãos como se estivesse num autódromo a tentar ganhar o circuito.
- Pode, por favor, conduzir com menos velocidade? Não estamos com pressa ...
(nenhuma resposta)
Nenhuma alteração no comportamento daquele potencial homicida à solta na estrada.
- O senhor faz favor de conduzir com mais cuidado?
- O táxi é meu, quem sabe como devo conduzir sou eu! Ora esta ...
A corrida continuou imparável sem respeito pelos pedidos dos passageiros, nem pelos limites de velocidade, nem pelas regras de ultrapassagem, pressionando sempre, com os faróis nos máximos e o cláxon grosso a insistir sem tréguas, aqueles que encontrava à frente.
- O senhor encoste!
- Quê?
- Encoste logo que puder! Queremos sair!
- Quer o quê?
- Queremos sair! Sim, queremos sair, e já!, ali na estação de serviço! Está a ver?
- Está fechada a esta hora....
- Pois está mas entre! entre e pare já!
Parou. Recebeu e pôs-se a andar.
Ligou o casal para a Uber. Andava próximo dali um motorista aderente da plataforma. Levou o casal a destino, a respirar de alívio.
---
Situações como esta não são raras. São mesmo muito frequentes são as práticas agressivas de muitos condutores na estrada, sobretudo em vias geralmente congestionadas com o é o caso do IC19. Procedem como querem (não só automobilistas mas também os motars e motociclistas), assumindo-se senhores da estrada, ziguezagueando ao sabor do seu depósito de adrenalina.
- E não é possível denunciá-los à polícia.
- Aqui a denúncia destes e de outros casos semelhantes, reprime-se pela de má consciência colectiva, do tempo em que a denúncia de judeus (ou não) levava dezenas, centenas, ... a serem queimados nas fogueiras da Inquisição, para gáudio da populaça; depois, no tempo da ditadura, em que, pela denúncia (geralmente anónima) de pensamentos, actos e palavras contrários ao regime, eram os desobedientes da prepotência do regime presos e incomunicáveis. Talvez por persistência dessa má consciência colectiva são raras as denúncias por agressões domésticas, muitas das quais terminam no homicídio de (sobretudo) muitas mulheres. E, na estrada, não podendo a polícia estar em toda a parte e os radares interceptarem alguns excessos de velocidade, os crimes por gincanas de automobilistas, motars e motociclistas, são impunes. Podiam estas situações de alto risco serem denunciadas à polícia por quem conduza com civismo? Podiam, mas não está a consciência cívica colectiva para aí voltada. E ninguém faz nada.
Thursday, March 31, 2022
O JOGO DA CABRA CEGA
Mais uma vez, na lama.
Entre juízes desembargadores.
MP quer condenar dirigente do Tribunal da Relação: “gajo” e “corno” não são o mesmo
- Ana Henriques -
Dois magistrados travam guerra sem quartel há mais de uma década.
Desembargador Marcolino de Jesus é acusado de ter difamado juíza Paula
Sá. “Não lhe chamei puta”, defende-se.
São as últimas palavras com que se defende o desembargador Marcolino
de Jesus, esta quarta-feira sentado no banco dos réus. Impávidos, os
juízes conselheiros Supremo Tribunal de Justiça que o hão-de absolver ou
condenar dentro de dias escutam-no.
Marcolino de Jesus dirige uma
das secções criminais do Tribunal da Relação do Porto. Mas uma guerra
sem quartel que trava há mais de uma década com uma juíza do Minho
colocou-o na insólita situação de empestar com o mais puro vernáculo o
tribunal judicial mais importante do país. - mais aqui
Sunday, August 01, 2021
HÁ RACISMO NA JUSTIÇA?
Há.
A lentidão da justiça é racista quando, como neste caso relatado hoje no Público, demora tempo imenso para se pronunciar.
Se o médico insultado fosse um branco demoraria a justiça tanto tempo a condenar o insulto?
"Pedro Gomes da Costa ganhou o caso depois de ter processado a mãe de uma criança que o insultou com “preto de merda, seu macaco”. Médico critica: “Esta senhora tem mãos livres” para ser racista “porque a sociedade é permissiva”. Lei deveria ser mais dura, defende. - aqui
DANIEL ROCHA
Pedro Gomes da Costa será dos poucos, senão o primeiro médico em Portugal, a denunciar uma situação de racismo numa consulta, a ir a tribunal e a ganhar o processo contra a mãe de uma criança que o ofendeu em plena consulta.
Na noite de 29 de Julho de 2018 o médico de 53 anos estava a fazer o serviço de urgência no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, onde trabalha no serviço de pediatria, quando entrou uma criança de 20 meses com febre e aftas na boca, acompanhada pela mãe, Daniela Domingos. Como habitual para aquelas situações, usou uma espátula para a observar, baixou a língua da criança. Ela deu um grito. “A mãe pega-me no braço, puxa com uma violência e a partir daí começaram as ofensas: ‘preto de merda, seu macaco, você pensa que está a observar um animal? Animal é você! Isso é que era bom, a minha filha ser observada por um preto, exijo que seja observada por um médico branco!”, disse-lhe a mulher aos gritos continuando-os pelo corredor e depois na sala de espera ..."
Thursday, July 01, 2021
O MAI CALADO
J.B. - "... Se há alguém que sabe muito bem se a viatura ia com excesso de
velocidade e na faixa da esquerda sem justificação é de facto o senhor
ministro Cabrita, a não ser que viesse a dormir….por isso não se percebe
porque continua calado perante a indignação geral!
Se quer “safar” o desgraçado do motorista basta que assuma a
responsabilidade (e as consequências) de lhe ter ordenado para conduzir
desse modo, ou não lhe ter dado ordem para conduzir dentro dos limites
de velocidade impostos legalmente….
Isso sim, seria digno de um ministro de um Estado democrático ! Penso eu ..."
E pensas bem, J.B.
Este caso recorda-me um outro passado há uns cinquenta e tal anos.
Viajava na EN1, nessa altura a A1 era menos de meia A 1, um presidente de câmara municipal e deputado à Assembleia Nacional.
Do acidente resultou, além do mais que agora não recordo, o presidente deputado ter sido hospitalizado e amputada uma perna.
O
presidente deputado declarou-se logo culpado: tinha-se atrasado por ter
sido demorada mais do que previra a reunião na câmara municipal e pedira
ao motorista que acelerasse o que pudesse porque tinha de estar em
Lisboa para uma reunião na AR.
Nem todos, naqueles tempos, eram safados para procurarem safar-se de qualquer modo.
--- act. 02/07
Wednesday, May 05, 2021
DEMASIADA TRANSPARÊNCIA - 2
Diogo Lacerda Machado: o melhor amigo agora é lobbyista - aqui
Num país que conhecesse o significado da expressão “conflito de interesses” isto seria um escândalo. Em Portugal, é mais um dia normal.
Graças ao novo semanário Novo ficámos a conhecer há dias mais um capítulo de uma história antiga: Diogo Lacerda Machado, melhor amigo de António Costa e seu negociador favorito em matérias sensíveis, é agora consultor de uma empresa privada britânica num megaempreendimento em Sines de 3,5 mil milhões de euros, que Costa anunciou com pompa e circunstância a 23 de Abril.
Lacerda Machado às vezes é representante do Governo em negócios com privados; outras vezes é representante de privados em negócios com o Governo; e salta de uma posição para a outra como se fosse uma abelhinha na Primavera, pulando de flor em flor. Num país que conhecesse o significado da expressão “conflito de interesses”, isto seria um escândalo. Em Portugal, é mais um dia normal.
Desde que António Costa assumiu o cargo de primeiro-ministro já tivemos Diogo Lacerda Machado envolvido na negociação do acordo com a associação dos lesados do BES, na renegociação da privatização da TAP e na negociação do acordo entre o CaixaBank e Isabel dos Santos no BPI. A coisa sempre foi esquisita, no sentido em que Lacerda agia como um ministro-sombra sem vínculo ao Estado. E, após muitos protestos, o primeiro-ministro lá se decidiu a estabelecer um contrato com Lacerda Machado, por ridículos 2000 euros mensais.
Em 2017, acabou a consultoria oficial, e Lacerda entrou para a administração da TAP. Reparem: em 2017 administrou a TAP, em 2016 tinha assegurado a reversão da privatização, e em 2005 já tinha estado envolvido na compra da famosa empresa de manutenção do Brasil que deu prejuízos de mais de 500 milhões de euros à TAP e uma investigação judicial por suspeitas de gestão danosa. Essa era a época – já depois de Lacerda ter saído do Governo de António Guterres, no qual foi secretário de Estado da Justiça entre 1999 e 2002, era então António Costa ministro da Justiça – em que trabalhava para Stanley Ho, que conheceu nos tempos de Macau, através da empresa Geocapital. Foi também através de Ho e de sociedades suas participadas que Lacerda acabou em conselhos de administração de bancos de Moçambique (Moza Banco), Guiné-Bissau (BAO – Banco da África Ocidental) e Cabo Verde (Caixa Económica).
Bem podem inventar novos crimes, novas estratégias e novos pacotes. Enquanto um primeiro-ministro achar que o seu melhor amigo pode trabalhar para o Estado de manhã, fechar negócios privados à tarde e ir jantar lá a casa à noite, nunca passaremos do simulacro de uma democracia desenvolvida
Em 2015, não quis regressar ao governo como ministro, mas acabaria por regressar como consultor, aproveitando para colocar na primeira linha do seu currículo uma frase que vale muitíssimo mais do que 2000 euros por mês: “Consultor do Gabinete do Primeiro-Ministro em assuntos estratégicos e jurídicos de elevada especialidade e complexidade.” E, mesmo terminada a consultoria e finda a aventura na administração da TAP (em que não terá sido especialmente feliz com Pedro Nuno Santos), ninguém duvida que Lacerda continue a conversar sobre “assuntos estratégicos” com António Costa. E isso é pago a peso de ouro.
Ao semanário Novo Diogo Lacerda Machado confirmou que sim, que é mesmo consultor de uma empresa que vai investir 3,5 mil milhões em Sines e que já andava a ter contactos com membros do Governo sobre o tema enquanto ainda administrava a TAP como representante do Estado. É espantosa a facilidade com que se assume à descarada este tipo de promiscuidade. Bem podem inventar novos crimes, novas estratégias e novos pacotes. Enquanto um primeiro-ministro achar que o seu melhor amigo pode trabalhar para o Estado de manhã, fechar negócios privados à tarde e ir jantar lá a casa à noite, nunca passaremos do simulacro de uma democracia desenvolvida.
Saturday, March 27, 2021
HÁ PESSOAS QUE ESTÃO A MENTIR PARA SEREM VACINADAS
O título retirei-o anteontem do The Washington Post - Some people are lying to get vaccinated, and it’s testing their friendship - c/p aqui - o que, traduzido, afirma que "há pessoas que estão a mentir para conseguirem ser vacinadas e esta atitude está a ser um teste de amizade entre pessoas".
E por cá?
Tal como lá?
Perante a ameaça do covid 19 a reacção de salve-se quem puder vai deixar-nos a todos como antes? Individual, colectivamente, mundialmente?
É difícil prever. Mas o resultado das guerras (o covid é um inimigo com poder destruidor ainda por avaliar) só é visível perante os destroços, a contagem das vítimas.
Até lá, que relevância tem a amizade? Depois do fim, que pensarão disto os sobreviventes para além de sentirem a felicidade de poderem continuar a saborear a vida?
---
" ... Thornburg was shaken. “I was surprised at how immediate and negative my
reaction was,” she said. When a close friend “just acts in a way that I
wouldn’t and feel is strongly wrong in this kind of life-or-death moment
or pandemic, it just — it felt almost like a betrayal.”
Thornburg wondered, too, if she was alone in feeling personally offended by someone else’s line-jumping. Was that even a thing? “I immediately went to Google,” she said. ...
... The rules seem simple enough: For hundreds of millions of people to
receive a lifesaving vaccination efficiently, you have to wait your
turn. But as many Americans wait, they’re watching others exploit the
system in plain view. And while some of the moral murkiness of the
moment is rooted in the uneven, somewhat haphazard vaccination rollout
in much of the country, the truth is that some friends may never see
their line-jumping loved ones the same way again ....
Sunday, December 27, 2020
Tuesday, September 29, 2020
OS DEPLORÁVEIS
A 10 de Setembro de 2016, Hillary Clinton, candidata à presidência dos EUA, qualificou como deploráveis metade dos apoiantes de Trump - Half of Trump supporters 'basket of deplorables' -
Pressionada pelo politicamente conveniente dos media, e, muito provavelmente, pelos seus assessores, depois retratou-se pedindo desculpa aos (deploráveis) apoiantes trumpistas, prometendo, no entanto, continuar a lutar contra a intolerância e retórica racista. E, no entanto, é muito claro que tudo o que Clinton afirmou era e continua a ser verdade: Trump é racista, misógino, homofóbico, xenófobo, e não só".
Trump durante toda a campanha, e até nos debates, não se coibiu de insultar Clinton e, implicitamente, os apoiantes da candidata democrata, aliás, Trump mente e insulta a uma cadência imparável e insuperável. Alguém, alguma vez, o ouviu desculpar-se ou emendar o que disse por mais grosseiras e insultuosas que sejam as suas insolências? Nunca. Trump não hesita sequer em colocar em causa os princípios básicos da democracia e recusa-se a declarar que aceita os resultados das próximas eleições se as perder. Porque não admite uma eventual derrota, se os resultados eleitorais determinarem o contrário, Trump já anunciou que considerará as eleições fraudulentas. O descaramento de Trump foi feito à medida da sua insolência.
Hillary não deveria ter recuado um milímetro sequer na qualificação que atribuiu a metade dos apoiantes de Trump porque era, e é verdade, o que afirmou, e, se calculou mal foi por defeito porquanto é muito mais de metade o número daqueles que votam em Trump porque Trump é tudo aquilo e muito pior. Trump, aliás, não é culpado de ser presidente dos EUA nem será culpado da sua eventual reeleição. Culpados são deploráveis e os oportunistas que o apoiam e votam nele.
Hoje, às oito locais, uma da manhã de Lisboa, realiza-se o primeiro debate televisivo entre Trump e Biden. De um lado um touro, do outro um forcado sem envergadura física nem jogo de cintura que possam convencer os indecisos a dar a vitória aos democratas. Biden não pode jogar à defesa, Trump joga sempre ao ataque, mas a Biden falta força e determinação para, em contra ataque, pegar o touro de caras ainda que não lhe faltem argumentos.
Como é que é possível defrontarem-se dois velhos nestas duas eleições para a presidência da nação (ainda) mais poderosa do mundo? Entre a força bruta de um apoiado por deploráveis que votam contra a sua própria dignidade (os mais desfavorecidos que pagam mais impostos que Trump, as mulheres de quem Trump afirma o pior, os latinos que Trump considera estúpidos) e a inexplicável escolha dos democratas que se apresentam com um candidato sem força física e anímica para anular as investidas erráticas de Trump é muito provável que Trump seja reeleito apesar as sondagens serem geralmente favoráveis a Biden.
Foi o que aconteceu com Hillary Clinton em 2016.
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Monday, September 21, 2020
SE ISTO É VERDADE
"Substância química é usada em contexto médico em Portugal apesar de poder causar vómitos, febre e queimaduras de estômago, ( ) . Nenhuma entidade nacional diz ter autoridade para proibir este tratamento fraudulento ... Tem um nome simpático, “Miracle Mineral Solution”, mas é na verdade feito à base de dióxido de cloro, um composto químico usado, por exemplo, no tratamento das águas e no fabrico de lixívia. É vendido em Portugal, e quem o comercializa diz que é indicado para tratar o VIH, o autismo, ou, mais recentemente, a covid-19. Em Espanha, entre abril e junho, foram detectados 26 casos de intoxicação por MMS. "- cit aqui
Não pode proibir-se o que é permitido nem permitir-se o que é proibido" - sentenciou há algum tempo a senhora ministra da saúde. Como o Miracle Mineral Solution não é proibido, cada qual que se trate, ou se mate, da forma que lhe aprouver.
Ouvi esta manhã na rádio, Antena 1, que (se ouvi bem) na Faculdade de Letras do Porto os estudantes, divididos em dois grupo, frequentarão alternadamente aulas presenciais e online. Nas aulas presenciais não é obrigatório o uso de máscara.
Não há uma lei, ou directiva, qualquer que torna obrigatório o uso de máscara em espaços públicos fechados? Não estão os médicos a recomendar que se alargue essa obrigatoriedade aos espaços públicos exteriores em casos de densidade de presença humana que impossibilite o distanciamento social?
Não são os médicos quem na linha da frente suporta o embate das brechas abertas pelos que consideram que cada um cuide de si e que se tramem os outros? Os outros, e os médicos, enfermeiros e todos os que têm de os tentar salvar, arriscando a própria vida. Quem é tão estúpido que não compreenda que uma doença contagiosa só pode ser combatida se houver respeito pela vida dos outros? Pelos vistos, muitos; a estupidez humana é infinita, e catastrófica quando a sociedade não a trava.
Monday, July 13, 2020
SINTRA DESERTA
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra,
Enviei
no dia 18 do mês passado uma mensagem via e-mail com alguns reparos
acerca de um passeio que demos naquele dia, eu e minha mulher, com
máscara, no Parque da Liberdade.
Além do mais, referi naquele e-mail que dois homens envolvidos em trabalhos de manutenção do referido parque não usavam máscara
e varriam o chão sem se preocuparem com a poeira que lançavam na nossa
direcção. Fizemos sinal, pararam, e ficaram especados a olhar para nós
como se no parque tivessem entrado dois extraterrestres.
Entretanto,
há cerca de duas semanas, recebi na caixa de correio um envelope com
indicação de ter sido remetido pela Câmara de Sintra contendo cinco
máscaras cirúrgicas.
Hoje voltámos ao Parque da
Liberdade, vimos no parque a uma distância de segurança apenas uma
senhora com quatro crianças e dois funcionários da manutenção. Um
carregava uma mangueira de rega, não usava máscara, parou a olhar para nós como se os extraterrestres tivessem voltado ao parque.
Mais adiante ultrapassou-nos, sem máscara, um indivíduo, que nos pareceu ser o capataz.
Numa
das entradas fotografámos, fotografia em anexo, um aviso da C M de
Sintra recomendando, além do mais, o uso de máscaras e a distância de 2
metros. Nenhuma destas recomendações estava a ser observada pelos
funcionários da Câmara durante a nossa primeira visita nem nesta
segunda.
Estão isentos do cumprimento das
recomendações os funcionários da Câmara ou não há verba para comprar
máscaras nem tempo para formação dos profissionais? Enganaram-se os
serviços da Câmara quando me enviaram as cinco máscaras que deveriam ter
sido entregues a funcionários a trabalhar em locais públicos?
Encontrámos,
novamente, deserto, o centro da nossa cidade, reflexo da péssima imagem
que estamos a dar ao mundo, até no Parque da Liberdade.
---
Act.
Act.
Acusamos a receção do presente email, o qual mereceu a nossa melhor atenção.
Face ao seu conteúdo, informa-se V.Exa. que o mesmo foi remetido para o
Departamento de Obras Municipais e Intervenção no Espaço Público, para diligências.
Com os melhores cumprimentos,
Alexandra Carvalho
(Assistente Técnica)
Gabinete de Apoio ao MunícipeThursday, June 18, 2020
MOBI.E SA, UM LOGRO IMPUNE
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra,
São poucos os espaços públicos onde um idoso possa aventurar-se fora de casa sem assumir elevados riscos.
Hoje,
decidimos, eu e a minha mulher, passear durante uns escassos três
quartos de hora no Parque da Liberdade, junto do qual está colocado um
posto de carregamento de carros eléctricos. Como temos viatura
eléctrica, tentámos carregar o carro durante o tempo da visita.
Tentámos, mas não conseguimos porque o posto de carregamento não está
activo, informação que me foi confirmada após telefonema para o
800916624.
Está desactivado, disse-nos um polícia municipal que se tinha aproximado de nós, sem máscara, se deixa o carro aí é multado.
Colocámos o carro duas posições ao lado, pagámos 90 cêntimos e fizemos a visita.
A razão deste e-mail, sr. Presidente, é um protesto contra a utilização abusiva de um bem público por parte da MOBI.E
A
MOBI.E não tem, a nenhum título, direito de utilizar dois espaços de
parqueamento sem qualquer interesse público e, além do mais, reduzir o
número de lugares de parqueamento disponíveis.
Espero
que, em nome do bem público, a MOBI.E seja intimada a retirar os postos
inactivos ou a activá-los, sob pena de incorrer em multa equivalente
aquela que eu pagaria se estacionasse o carro nos lugares destinados a
carregamento mas onde o carregamento não é possível.
Atentamente
PARQUE DA LIBERDADE
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra
Não há muitos espaços público onde os idosos possam aventurar-se sem grandes riscos de contágio na actual situação pandémica.
Hoje, decidimos, eu e a minha mulher, ( ), dar um pequeno passeio no Parque da Liberdade.
Não
encontrámos outros visitantes mas fomos surpreendidos com a poeira
levantada por dois varredores que, sem máscara, procediam à limpeza de
folhas caídas no caminho.
Ficámos, naturalmente, preocupados.
Compreendemos
perfeitamente que os caminhos devem ser limpos, o que não compreendemos
é que as entradas não sejam encerradas a visitantes enquanto decorrem
esses trabalhos.
Também não compreendemos, ainda que se tenha
intuído na generalidade da população que a pandemia já passou, que
aqueles dois trabalhadores não tenham sido dadas máscaras de protecção
deles das poeiras que levantam e dos visitantes que, sem aviso
contrário, entraram no parque.
Nós, ( ), com máscaras, protegiamo-los, eles, ( ) não nos protegiam a nós.
São assim tão dispendiosas as máscaras para uso de funcionários a trabalhar em espaços públicos de áreas limitadas?
Atentamente
--- Actualização às 14,55 h
--- Actualização às 14,55 h
Exmo. Senhor Rui Fonseca,
Acusamos a receção do presente email, o qual mereceu a nossa melhor atenção.
Face ao seu conteúdo, informa-se V.Exa. que o mesmo foi remetido para o Departamento de Obras
Municipais e Intervenção no Espaço Público, para diligências.
Com os melhores cumprimentos,
Teresa Antunes
(CoordenadoraTécnica)
Gabinete de Apoio ao MunícipeMonday, October 07, 2019
VOTASTE?
Ontem
- Já cumpriste o teu dever?
- Qual dever?
- Ora essa! Qual dever? O dever de votar.
- Exerci o meu direito.
- Não é a mesma coisa?
- Temos o direito de votar, não temos obrigação de votar.
- ?
- Vê ao contrário e percebes.
- Não percebo como é que uma gaga é candidata a deputada.
-Também não entendo. A mim aflige-me ouvi-la.
- Também a mim. Aliás não consigo perceber o que ela diz.
- Ela não vai ser deputada. Se o partido eleger um deputado, ela cede lugar ao seguinte invocando quaisquer razões para não se sentar no parlamento.
- Pois eu não concordo com a vossa opinião. Se ela for eleita, vai exercer o mandato e será ouvida com menor ruído, interrupções, contestações, apartes, gracejos que qualquer outro deputado. Mesmo o presidente da Assembleia da República só em última instância a vai interromper ou tirar a palavra. Quem o fizer será trucidado pela opinião pública.
Monday, June 24, 2019
BANKSY NA CORDOARIA
até 27 de Outubro
Organizada por uma empresa privada, a exposição diz-se "não autorizada" decalcando a via de promoção de um artista sobretudo reconhecido pelo anonimato. O marketing tem vias incontáveis.
Repugnam-me os grafitti que emporcalham as barreiras ao som das autoestradas, que vandalizam monumentos, comboios, túneis e pontes, prédios públicos e privados, que conspurcam a imagem das cidades. Não têm valor estético nem sentido ético na esmagadora maioria dos casos.
Deveriam ser obrigados a limpar a porcaria que fizeram.
Mas não todos.
Há obras de arte dignas desse nome na arte urbana.
Quem define o que é arte e, neste caso, arte urbana?
É complicado. Mas não parece difícil consensualizar os locais onde os artistas de rua não devem exprimir-se, onde a proibição deve ser total para que não funcione a teoria das janelas quebradas: uma vez lançada uma borrada nas escadas e corredores de acesso ao metropolitano, por exemplo, depressa o espaço se torna repugnante. Quem limpa? A Câmara. Quem paga? Nós.
Dito isto, diga-se que há arte urbana que merece aplauso, e a exposição de réplicas, vídeos ou serigrafias de Banksy merece ser vista.
THE WALLED OFF HOTEL
O hotel com a pior vista do mundo
(ampliar para ler)
Sunday, June 17, 2018
À ESPERA DOS ALARVES
Ontem,
Metro de Lisboa
Entrada na estação Restauradores
Nunca a tinha visto limpa.
Camadas sobrepostas de borradas davam aquele espaço a sensação de entrada num submundo repelente.
Agora, que a vemos limpa, a pergunta ocorre: Por quanto tempo?
Se a Câmara (ou será o Metro?) não tiverem câmaras de visualização montadas e os agentes organizados para encurralarem os alarves em flagrante delito, dentro de pouco tempo eles voltarão a conspurcar o espaço que é de todos mas que eles consideram privativo para imporem as suas artes.
Friday, June 08, 2018
JÁ FOI À CRESMINA?
Se não foi, então vá.
E não se arrependerá, se gosta de dar um pequeno passeio, cerca de 1,6 quilómetros (metade) ou 3 quilómetros na totalidade, a subir e, naturalmente, a descer, entre dunas, coloridas sobretudo nesta época do ano, o mar do Guincho ao fundo, a Serra de Sintra ao lado. Mais informações aqui.
Em 21 de Janeiro e 2 de Abril de 2017 escrevi (vd. aqui) mensagens via-email aos responsáveis pela reserva natural em que se inserem as dunas da Cresmina. Respondeu-me no dia 3 de Abril o Director da Gestão da Estrutura Ecológica.
Transcrevo, de uma resposta longa, as afirmações finais:
"Assim
e depois de várias tentativas e modelos, a estratégia encontrada foi a
colocação de “obstáculos” ao longo do passadiço que dissuadissem os
cães e pessoas a sair do mesmo. Deixar gradualmente a vegetação natural
regenerar e fechar as áreas abertas onde estas saídas ocorrem. Em suma,
os “ramos” secos colocados ao longo do passadiço, embora esteticamente
possam ser por ora pouco interessantes, esses
consistem em estruturas biofísicas com as seguintes funções:
- Dissuadir a saída do passadiço
- Evitar a destruição da vegetação nativa pelo pisoteio e alteração da química do solo
- Fixação das sementes que circulam no ar ao longo do sistema
- Estrutura de apoio ao crescimento da vegetação mais sensível
A
vegetação utilizada foi essencialmente o Pinheiro de Alepo, espécie
pioneira e sem interesse para a conservação da natureza, que não sendo a
ideal
pela sua estrutura de ramos e tipo de madeira, é a mais abundante. Foi
esta intervenção de poda seletiva, centrada no corte e eliminação destas
árvores com potencial de risco de incêndio, dando primazia ao Junípero
espécie autóctone de crescimento mais lento
que estava a sofrer pressão e em competição com o pinheiro de Alepo.
Se verificar no terreno, por debaixo destas estruturas está a crescer
vegetação natural, em breve esta irá ocupar estas faixas e os ramos
secos que já cumpriram a sua função vão ser removidos
ou se degradados vão incorporar no sistema.
Não voltei ao assunto até que, decorrido mais de um ano, pudesse avaliar a consistência dos argumentos da resposta. E não constato agora, que sejam pertinentes. O tempo encarregou-se de minorar o aspecto dos ramos secos secos amontoados ao longo de algumas partes do passadiço, mas as maiores mazelas provocadas por cortes escusados persistem. Por outro lado, de algumas dezenas (centena?) de espécies plantadas protegidas por tubos protectores, não tendo sido cultivadas nem regadas na época própria, poucas sobreviveram, se é que sobreviveu alguma. Como é costume neste país, investe-se e deixa-se o futuro por conta do abandono.
Abandono que começa também a observar-se na falta de manutenção de alguns segmentos do passadiço.
Dito isto, pareço contradizer o desafio que coloco a abrir este apontamento.
Mas não. Mesmo com os reparos que fiz o ano passado, e que mantenho agora um ano depois, vale muito a pena conhecer a Cresmina. Nem que seja para admirar a paisagem a partir do terraço do "café" instalado cá em cima junto à estrada. Mesmo sem o desfrute do melhor, o passeio.
Sunday, April 22, 2018
Friday, April 13, 2018
NATUREZA VIVA
O quadro estava exposto num museu de uma cidade de província, há anos sem conta.
Raramente aparecia um visitante, o vigilante passava os dias a dormitar, à hora do almoço fechava a porta, reabria-a de tarde consoante, mais ou menos, se prolongasse a conversa com os amigos que apanhasse pelo caminho. Era uma natureza-morta, aquilo que os britânicos designam mais apropriadamente, para o meu gosto, still life.
Um dia, era Setembro, às três da tarde, passou por ali um grupo excursionista, que incluía três garotos. Dois deles, preferiram não entrar e ficar a entreter-se com uma bola no lago fronteiro ao museu. O outro, o que entrou no museu, poderia ter ido para outro lado qualquer, às vezes à miudagem dá-lhes para desaparecer e pregar um susto aos progenitores, quando a comitiva já debandava, após uma ronda breve pelas obras expostas, que não eram muitas, e foi feita a contagem de quem estava ou faltava na viatura, tinha ficado lá dentro, a olhar e a remirar, em bicos de pés, porque o puto ainda era baixote, o tal quadro.
Nada, nem naquele quadro nem nos outros, havia suscitado interesse que tivesse merecido a mais, fugaz que fosse, atenção dos que tinham entrado e saído tão silenciosamente que o vigilante não deve sequer ter acordado da passagem pelas brasas com que habitualmente se reconfortava depois do almoço. Se fosse gente entendida, capaz de avaliar o que tinha ali para ver, e mal intencionada, talvez um ou outro daqueles quadros tivesse sido levado naquela tarde, ou em qualquer dos dias em que o museu estava aberto, quando não estava aberto também estava mal guardado.
O quadro era de autor desconhecido, provavelmente do Séc. XVII, e figurava sobre uma mesa coberta com toalha branca, um peru com ar bem disposto, de bem bebido, de asas abertas, se aquilo era natureza morta ele parecia estar ainda bem vivo, umas ostras, umas frutas num cesto descaído ao lado do peru, uns pedaços de pão, um vaso de vidro, um vaso de estanho, o trivial em obras daquela natureza.
A atenção do pequeno homem centrava-se, no entanto, apenas no canto inferior direito, quando, alvoraçados, os pais e mais uns quantos, que o procuraram durante uns bons dez minutos nas redondezas do museu, foram dar com ele naquela concentração que o fazia mover muito ligeiramente a cabecita à esquerda e à direita, à volta de qualquer coisa onde ninguém mais via senão o remate indiferenciado do fundo da tela. Mas o rapazinho garantia que havia ali naquele cantinho, mesmo no cantinho, um passarinho que voava, mas é que voava mesmo, de um lado para o outro, mas só no cantinho.
Entretanto, voltaram ao museu os outros viajantes que tinham ficado no autocarro, e todos eles, e mais dois ou três visitantes ocasionais, passaram a discutir se era ou não era visível, ali naquele cantinho do quadro, um passarinho a voar, pequenino, talvez um beija-flor. Uns tinham a certeza que, sim senhor, o rapazinho tinha razão e boa vista, havia ali passarinho a voar, podia não ser beija-flor mas se não era beija-flor era passarinho parecido; outros, que miravam e remiravam, coçando e balanceando a nuca, afiançavam, uns com óculos outros sem óculos, que não havia ali passarinho nenhum. Havia, não havia, a discussão já levava um tempão, esgotou-se a paciência ao motorista, que entrou no museu, que é que se passa?, ele não tinha mais tempo para esperar por conclusões unânimes, tinha horário a cumprir, e, ainda a discutir o caso do passarinho, voltou a gente ao autocarro, um ainda disse que passarinho não tinha visto mas passarinhas havia várias a bordo, só que não estavam visíveis naquele momento, e, com a brejeirice, pôs o pessoal bem disposto, e acabou com a questão do passarinho.
E nunca mais se soube daqueles nem do pequenote que tinha visto naquela natureza morta um passarinho a voar, que outros também viram e os outros não viram, nem nada que se parecesse com um passarinho a voar.
Voltou a calma regulamentar à sala do museu, despertou o vigilante da sua modorra, e, por desfastio ocasional, foi olhar para o que nunca tinha olhado, aliás, um vigilante não é pago para ver os quadros mas vigiar quem entra para os ver, regras do regulamento. Para comodidade conveniente e atenção concentrada, trouxe o banco do canto em que se sempre se sentava e sentou-se nele em frente do quadro que talvez tivesse mas talvez não tivesse um passarinho a voar. Mirou, remirou, foi até buscar a lanterna para melhor observar, não viu passarinho nenhum, voltou a colocar o banco no canto do banco, e dormitou até que no relógio da torre da igreja tocaram as seis, horas para fechar as portas e ir até casa, não sem ter passado antes pela roda de amigos que se reunia por ali à tardinha até ao sol se pôr.
No outro dia, de manhã, fez o que fazia desde que fora contratado como vigilante do museu municipal: abriu a porta de entrada principal e as portadas das janelas, deu uma volta de ronda às salas, que eram só cinco, a confirmar que não havia parede sem quadro, nem quadro torto na parede, o que mais o chateava era ver um quadro torto, um desequilíbrio que lhe arranhava os nervos e obrigava a indispor-se com a mulher da limpeza que, por acaso, era a sua mulher.
Depois, ia a sentar-se no banco, ainda não se tinha sentado, entra um grupo excursionista que o vigilante, facilmente, percebeu serem brasileiros. Se não a totalidade, pelo menos a maioria era. Ficou abismado com o fenómeno, nunca antes, que ele se lembrasse, tinha o museu recebido excursões em dois dias seguidos, e ainda estava a começar aquele dia. Não restavam dúvidas que o país estava agora em franco crescimento e o turismo era o grande motor desse desenvolvimento.
Também facilmente percebeu, eles falavam bem alto, subvertendo as regras em visitas a museus, que tinham aqueles brasileiros voado de São Paulo e Rio até Paris, e dali tinham passado em autocarro por Madrid, Salamanca, Santiago de Compostela, Coimbra, Fátima, e, a caminho de Lisboa, de onde voltariam a Paris para o voo de retorno, convenceu-os a casualidade de o avô de um deles ter nascido numa aldeia que ficava perto, a passarem aquela amanhã naquela cidadezinha de província que nenhum dos restantes alguma vez ouvira falar. O descendente foi até à aldeia avoenga, por, prometeu ele, não mais que três horas, e a comitiva tinha-se ali dispersado entre o mercado, algumas lojas de roupa e calçado, tudo caríssimo não acha?, um ou outro preferiu uma ou outra tasca para petiscar as especialidades locais, umas bebidinhas da zona, uma escassa dezena, a princípio, uns quinze depois, entraram no museu, mais pela traça antiga do edifício do que qualquer chamamento do recheio.
Já viu Nenhinha esta belezinha de natureza morta? Adoro natureza morta. Não perco. No Louvre não tinha muito pois não?
Ah! O Louvre, querida, o Louvre é um mundo inteiro de cultura ... Você teve lá tempo de ver o que há naquele luvrão todo?
Pois não...pois não. Aquela entrada é simplesmente esmagadora, a gente sente-se imergir num oceano de cultura clássica. A gente desce, e, só de olhar para toda aquela pirâmide cai de pasmo, sem saber por onde é melhor começar. Aquilo, para ser visto como deve ser, quanto tempo precisa, tem ideia?
Tenho, não, mas não aguentava mais do que aguentei. Ao fim do dia estava mortinha para zarpar para o hotel e dormir até ao dia seguinte.
Já o Prado, é diferente, tem muito corredor, é mais orientativo. Em todo o caso, nada que se compare ao Louvre, não acha?
E o Rainha Sofia, que lhe pareceu?
Para lhe ser franca, minha amiga, a mim não me pareceu museu.
Nem Guernica?
Bom, nesse caso, o que eu não gosto mesmo é do Picasso. Mas não diga às nossas amigas, por favor.
Para elas, o Picasso é o máximo. Você gosta do Picasso?
Não muito ... não muito ...assim, assim, tem coisas que gosto, tem outras que não gosto. Gosto do período azul, do rosa ...
Pois isto será anedota, mas eu não sabia que Picasso tinha períodos ...
Teve. E teve até períodos de naturezas mortas.
Nados-mortos?
Não, não, naturezas mortas ...
Como estas, com peru e tudo isso, tão bem pintado que até parece estar vivo?
Diferentes, bastante diferentes, menos realistas, menos fotográficas, não sei se me fiz entender.
Quase. Tenho de dar, um dia destes, uma mirada nisso.
Ia a conversa cultural entre as duas neste ritmo alucinante quando se aproximou delas um homem do grupo.
Não é uma maravilha?
O homem chegou-se ao quadro, mais do que a distância regulamentar permitia, mas o vigilante entendeu condescender e não fazer cumprir as regras.
Logo a seguir outro, outro, e outro, enfim todos, obedecendo à força da curiosidade individual na formação dos grupos quando ignora as razões pelas quais os grupos se começaram a formar, e, em pouco tempo, estavam todos à volta, se não todos, quase todos a desrespeitar as regulamentadas distâncias mínimas de proximidade das obras expostas.
Não é uma maravilha?, voltava a perguntar a senhora que adorava naturezas mortas a cada um que se ia juntando ao grupo . Não é uma maravilha de natureza morta?, insistia perante a mudez do grupo.
É quê?, arriscou um tímido do fundo para o vizinho do lado.
Natureza morta, sussurrou quem estava à frente dos dois.
Em minha casa não entraria, nem dada. É coisa mórbida, não é? Eu acho. Prefiro os impressionistas...
Acercou-se o vigilante do grupo com a intenção de proteger o quadro de tanta concentração de gás carbónico, e, num inesperado momento de génio, que nele existia congénito mas nunca antes se manifestara, informou que aquele quadro era uma natureza morta mas que também era uma natureza viva.
Como é isso?, perguntou a maior admiradora de naturezas mortas, que nunca tinha ouvido falar em naturezas mortas e vivas ao mesmo tempo, e já lhe custara a engolir aquela do Picasso ter dado à luz nados-mortos.
É assim, começou a explicar o vigilante quando o grupo todo se calou, aqui neste quadro, que sem dúvida alguma é uma natureza morta, de autor desconhecido, talvez do séc.XVII há, no canto inferior direito, mesmo no cantinho, um passarinho que voa de um lado para o outro ... sempre no cantinho. Por isso lhe chamamos o quadro do passarinho, acrescentou o vigilante, e fez história.
Como é isso?
Sente-se, o senhor, aqui neste banco, concentre-se, e verá que um passarinho, muito pequeninho, esvoaça constantemente. Há quem pense que seja um beija-flor.
O homem sentou-se, colocou óculos de ver ao perto, espreitou que se fartou, saiu do banco, e disse, não tem porra de passarinho nenhum.
Há beija-flor em Portugal, perguntou curiosa e tímida uma das senhoras que até ali não tinha aberto a boca.
Não tem, mas natureza morta pode ser matada em qualquer lado, respondeu e riu-se do que disse, um que entendia estar o assunto a ficar pesado demais para o momento.
Pelo sim, pelo não de averiguação, sentou-se um voluntário, espreitou, fez óculo juntando polegar ao indicador, esteve tempo estranho a espreitar, estranho por coisa tão pouca, entenda-se, levantou-se vagarosamente e disse: tem passarinho, sim senhor. É mesmo muito pequenininho, mas tem.
E voa?
Voa, está sempre a voar. Se é beija-flor não sei.
A partir dali, sentaram-se todos e as conclusões só não foram unânimes porque o primeiro observador nem quis repetir a observação. Para ele, não havia passarinho nenhum, ponto final, e vamos embora.
Foram quase todos, só ficaram dois na sala.
E você acha mesmo que pode ser negócio mesmo?
Pela alma da minha mãe lhe juro que estou seguro que pode ser negócio mesmo. Vamos falar com o vigilante.
Vigilante, o senhor, por favor pode marcar uma reunião, ainda hoje, com o presidente do município?
Eu???, perguntou com interrogação aterrorizada o vigilante.
A questão, senhor vigilante, é que nós dois estamos interessados em comprar esse quadro, o do passarinho, entende?, e estamos dispostos a pagar um preço justo por ele.
O quadro do passarinho? O quadro do passarinho não está à venda, aliás, nenhum quadro aqui está à venda. Isto é um museu, senhores, não é galeria de arte.
Que bobagem!, vigilante, tudo se compra e vende mesmo sendo quadro de museu. Telefone a ele! Vá telefone a ele!
É do séc. XVII, senhores, não tem preço.
Tudo tem preço, vigilante, tudo neste mundo tem preço. Muito ou pouco, tudo tem preço.
Neste ponto, chamou um dos interessados o outro à parte, o vigilante aproveitou para voltar ao seu posto, se bem se lembram, sentado no banco.
Você acha mesmo que, sendo o quadro do séc. XVII, pode andar o passarinho andar a voar há mais de trezentos anos? Quanto tempo de esperança de vida tem um beija-flor? Não mais que três anos, cinco no máximo, sabia?
Pode não ser beija-flor. Aliás, pelo que você agora se lembrou, não é beija-flor, mas não é por isso que deixa de ser passarinho.
Então que passarinho pode ser este que voa há trezentos anos, pelo menos?
Só Deus sabe os limites ilimitados da criação. Talvez o quadro tenha sido pintado por Deus? Tem prova do contrário?
Não, não, o quadro é de autor anónimo. Pode ter sido Deus quem pintou essa coisa morta-viva? Pode, mas não vamos alterar a chapa da autoria na moldura. Iria o negócio do quadro ao ar, como autor de obra de arte, Deus não vende, como milagre talvez possa vir a ser mina sem fundo.
Vamos comprar a porra do quadro!
Vigilante, por favor pode pelo menos indicar-nos o número do telefone do município.
Posso, não é favor nenhum, aqui o tem, mas devo informá-los que hoje nem o presidente nem os vereadores estão disponíveis.
E por que não? É feriado?
Estão todos reunidos em sessão de discussão de aumentos ao pessoal.
Bom, se assim é, convém não perturbar eles. E amanhã?
Amanhã é sábado, fim-de-semana, e na segunda-feira é feriado municipal.
Que azar, hem! Bom, estamos de saída para Lisboa para pegar o voo de Paris para o Rio e São Paulo.
Vamos telefonar de lá. Afinal, que negócio é que não pode ser feito hoje pelo telefone? Como é que licitam os árabes, e outros parecidos com eles, nos leilões da Sotheby´s ou da Christie´s para comprar anonimamente por milhões e milhões arte europeia, americana, ou do fim do mundo? Pelo telefone. Pelo telefone! Pela internet! Talvez até pelo feicebuque, pelo WhatsApp ... A propósito, você já instalou no seu celular o Instagram? Instale.
Viu como o museu estava a precisar de obras?
Se vi! Eles vão vender-nos o quadro por tuta-e-meia.
Não tinha ainda passado uma semana, a quietude do museu voltara ao normal, um ou outro visitante de passagem, de vez em quando uma excursão ou outra, do passarinho vivo em natureza morta guardou o vigilante o maior segredo, que, afinal nem segredo seria, porquanto ele, vigilante experimentara, entretanto, sem sucesso, aproximado que fosse, enxergar passarinho ou réstia dele, quando toca o telefone, da secretaria da câmara. Vigilante, pode comparecer na câmara esta tarde, por volta das quatro? Sim. Pode encerrar esta tarde mais cedo. Deixe aviso na porta que o museu reabrirá amanhã com o horário habitual.
Tremeu o vigilante com a convocatória, nunca lhe tinha acontecido coisa assim em tantos anos de serviço, às quatro horas em ponto estava ele a entrar na secretaria.
Veio a secretária do vereador da cultura e desportos, como está senhor vigilante, ligou para aqui um senhor brasileiro, disse que esteve no museu há uma semana, que viu lá uma natureza morta, e que quer comprar o quadro ...
Sim, senhora secretária, tivemos a visita de uma excursão de brasileiros, aliás tínhamos tido antes outra de gente de não sei donde no dia anterio, esgotou-se há uns tempos o livro das visitas, requisitei outro mas ainda não chegou, e dois brasileiros quiseram falar com o nosso senhor presidente, logo naquele instante. Disse-lhes que não seria possível, que era dia de reunião da câmara, foi isto, portanto, na sexta-feira passada, depois metia-se o sábado, o domingo e o feriado municipal, disseram-me que nesse caso, porque tinham de voltar ao Rio e São Paulo, contactariam o nosso presidente pelo telefone.
E não disseram mais nada?
Disseram que queriam comprar o quadro.
E o vigilante que lhes disse?
Que o quadro era de museu, que eu soubesse, não estava à venda, depois eles disseram que tudo se compra e tudo se vende, pelo telefone fazem-se vendas de quadros por milhões e milhões. Ah! Já me esquecia, não sei se é importante, antes, no grupo da excursão anterior, um rapazinho, seis, sete anos, tinha estado a ver o quadro e afirmava que no canto inferior direito do quadro havia um passarinho, vivo, a esvoaçar. Às tantas andava toda a gente à procura do miúdo que faltava no autocarro, e, em pouco tempo estava toda a gente a ver se via ou não via o passarinho. Uns viam, outros não viam, e lá se foram sem acordo sobre o assunto.
Na manhã seguinte, logo que abri a porta entraram os brasileiros, uma dúzia, para mais, não para menos. E logo duas senhoras se puseram a admirar o tal quadro de natureza morta. Devem ter entabulado conversa sobre arte, pelos vistos tinham estado no Louvre e no Prado, às tantas estava todo o grupo a falar mais alto no museu do que o regulamento do museu permite. Para desanimar a discussão disse-lhes que um menino que tinha estado no museu no dia anterior tinha visto um passarinho vivo naquele quadro de natureza morta. Toda a gente se calou, e, calmamente, cada um se pôs a observar, a distância conveniente, o quadro para tentar encontrar o passarinho que, alguém admitiu, pudesse ser um beija-flor. Depois, discordaram todos entre si. Uns viam, outros não viam, uns às vezes viam, depois deixavam de ver, acabaram por sair todos menos dois, que, à viva força queriam falar com o senhor presidente. O resto já contei tudo, penso eu.
E o vigilante viu algum passarinho?, perguntou com sorriso irónico a secretária.
Não, senhora secretária, não vi, mas confesso que a minha curiosidade também me levou a espreitar numa altura em que não tinha visitantes na sala.
Não tem mais nada a acrescentar?
Sobre este caso, não, senhora secretária.
Obrigado, boa tarde!, despachou a secretária antes que tivesse ouvir o relato de casos que, certamente, o vigilante teria para contar mas não constavam da convocação daquele dia.
Na sessão da câmara da sexta-feira seguinte foi agendado, a pedido do vereador da cultura e desportos, o inusitado telefonema, depois confirmado por e-mail, de dois cidadãos brasileiros, convenientemente identificados e referenciados como industriais no sector da produção de etanol, propondo a compra de uma natureza morta que tinham visto no nosso museu há duas ou três semanas
durante uma visita ocasional no caminho para Lisboa, onde iam apanhar o avião para o Rio e São Paulo na segunda-feira seguinte ao da visita ao museu. Pela obra de arte, de autor anónimo, tido por pintada no séc. XVII, ofereciam os magnatas brasileiros trezentos e cinquenta mil cruzeiros.
Lida a proposta pelo vereador da cultura e desportos, insurgiu-se logo de seguida o mesmo vereador, considerando a proposta simplesmente repugnante. Que pensam, esses ricalhaços pançudos, quem somos para vender património cultural nosso? Que estamos de rastos a ponto de vendermos aquilo que é parte importante da nossa memória?
Seguiu-se o silêncio da praxe, aguardando a palavra do presidente.
Parece que o quadro tem passarinho, disse o presidente ao fim de alguns momentos de expectativa, por que não vamos lá dar uma olhadela? Já agora, aproveitamos para ver como está o museu, confesso que há já alguns anos que não entro lá.
Parecia à generalidade da vereação que talvez a visita ao museu fosse justificável, a maioria nunca lá tinha posto os pés, mas aquela do passarinho uma treta que só podia caber na cabeça do presidente.
E, na sexta-feira seguinte, depois da sessão da câmara foram até ao museu, considerando a visita um prolongamento dos trabalhos do dia.
Viram e consideraram unanimemente que o museu estava a precisar de obras urgentes. No canto do vigilante, por exemplo para o qual o mesmo chamara a atenção, pingava água em dias de chuva, obrigando o trabalhador a sentar-se noutro canto, menos conveniente para a observação do espaço.
Quanto à natureza morta com passarinho a voar, ninguém conseguiu ver passarinho algum, também os esforços foram poucos para não dizer negligentes, salvo o vereador dos cemitérios que viu e se entusiasmou com o que viu, e que nunca tinha pensado que alguma vez poderia vir a ver, uma natureza morta com um passarinho, talvez um beija-flor a voar.
Resumindo e concluindo, nenhum vereador, incluindo o vereador da cultura e desportos, nem o presidente, que foi o primeiro a observar e a dizer que não tinha visto passarinho algum, e, para irritar o vereador discordante, o dos cemitérios, que era da oposição, disse que só poderia ver passarinho naquele quadro quem tivesse defeito na vista.
Quanto é que oferecem os brasileiros?
Trezentos e cinquenta mil cruzeiros, líquidos de impostos.
Quanto é isso?
Hoje, para aí uns setenta mil euros, calculou o vereador tesoureiro, recorrendo ao telemóvel, mas,
cruzeiro não é moeda de transacção, amanhã pode não valer nada. Se queremos negociar devemos negociar em euros.
Responda-se que o quadro se vende por duzentos mil euros, disse o presidente, para logo acrescentar, se houver unanimidade da vereação, oposição incluída.
Duzentos mil euros dariam um jeitão, o orçamento tinha sido aprovado mas muito esmagado, com algum dinheiro daquele, inclusive, se repararia o museu que bem precisado estava de obras, como todos haviam visto.
Observou o vereador da cultura e desportos que a proposta de venda tinha de ser submetida a aprovação da tutela, mais prudente seria que não se contasse com o ovo ainda no ovário da galinha.
Vigilante, diga-nos quantas naturezas mortas temos em acervo? ... Na cave.
Para aí umas dez.
Em boas condições?
A mulher da limpeza passa-lhe com o espanejador todas as semanas.
Constam todas do inventário?
Peço desculpa mas não sei responder.
Saberia, ou deveria saber o vereador da cultura e desportos, mas não assim do pé para a mão.
A sessão camarária do dia terminou por ali, em inventário havia menos naturezas mortas que as que tinham sido contadas no dia seguinte, e, para não alongar demais nem ser indiscreto mais do que a prudência aconselha, o que ouvi dizer é que, passados três meses, chegava a São Paulo, embalado com seguro assegurado pelos compradores, uma natureza morta onde uns viam, outros não viam, mas os compradores tinham visto, um passarinho, pequenininho a esvoaçar constantemente, para aí há uns trezentos anos, não menos, no canto inferior direito.
O valor da transacção foi colocado, por unanimidade e compromisso de confidencialidade, no saco azul, alegadamente por já não ter chegado a tempo de constar no orçamento aprovado para aquele ano. Oportunamente, seria feita a correcção com a justificação devida. E, na sala do museu, ninguém deu por falta de quadro algum, nem o vigilante nem a mulher da limpeza que, como já se disse, era a
mulher dele.
Entusiasmados com a chegada do quadro, trataram os compradores de contratar agente que garantisse o lucro que uma natureza morta e viva merecia, quanto mais não fosse pela originalidade impossível no campo da física, talvez da física quântica, mas, se assim viesse a ser concluído, aquilo era negócio
para deixar para trás todos os recordes imagináveis por largo tempo.
Não fosse o diabo tecê-las, guardaram a natureza morta e viva num cofre forte capaz de se aguentar com uma bomba atómica, assegurou o vendedor do cofre forte.
Compareceu um agente, representante local de uma leiloeira mundialmente bem conhecida, que não mencionamos, não vá alguém pensar que vivemos de publicidade, abriu-se o cofre, colocou-se o quadro em local com luz adequada, e, perguntou um dos vendedores ao agente se ele conhecia aquele quadro.
Aquele não, mas conhecia centenas, quase todos de autores conhecidos, reconhecia algum mérito à obra, mas não tinha valor que merecesse ser levado a leilão. Valeria, com boa vontade e muito amor às naturezas mortas, para aí uns duzentos mil cruzeiros, valor sujeito a correcção contra o câmbio o dia em dólares.
Duzentos mil cruzeiros, sem passarinho? Em quanto avaliaria o agente quando visse o passarinho?
Fortunas!
Sente-se, por favor, senhor agente aí em frente do quadro, concentre-se no canto inferior direito, o que vê?
O agente fez várias tentativas para ver algum coisa que não tivesse visto à primeira vista, pôs óculos, tirou óculos, usou lente, e disse, não vejo nada de especial, nem cagadela de mosca sequer. Talvez uma muito imperceptível ruptura mesmo no canto da tela, mas isso ocorre com muita frequência, com obras antigas e contemporâneas, é simplesmente irrelevante.
Caíram os corações aos pés dos industriais de etanol, agradeceram ao agente, depois mande a factura para pagarmos o seu trabalho.
Mal o agente saiu, sentaram-se e levantaram-se os dois industriais junto do quadro, tantas vezes que
ficaram-lhes derreados os ossos e a arder insuportavelmente os olhos.
O que é que se passou? O que é que se passou? O que é que se passou?
Trocaram os portugueses o quadro e mandaram-nos um, parecido, com peru bêbado e tudo, mas sem passarinho? Teria o passarinho aproveitado o voo no avião para se safar de um aprisionamento de três séculos?
Foram descansar, voltaram no dia seguinte, e, para os mesmos ensaios, os mesmos resultados. Não havia dúvida, ou os portugueses tinham feito marosca, mas como prová-lo?, ou o passarinho andaria agora a voar, talvez por ali perto, mas quem é que poderia convencer um passarinho em liberdade a voltar para um quadro do séc. XVII, de mais a mais, uma natureza morta?
Talvez o Tancredo?
Quem?
O Tancredo é um restaurador, pessoa muito competente e idónea, talvez o Tancredo possa colocar-nos aqui um passarinho, afinal uma coisa que passa tão despercebida mas com tanto potencial.
Foram ter com o Tancredo.
O Tancredo estava de saída, era fim de dia, ouviu atentamente os parceiros, e foi peremptório recusando o trabalho, mesmo sem saber por que queriam aqueles dois etanois um rabisco seu numa obra antiga.
Porquê, Tancredo, diz cá ao teu amigo há tantos anos já, porque recusas uma coisa que para ti é uma pequeníssima pincelada, para ti que já fizeste tantas ... Quantas pinceladas já fizeste Tancredo, em toda a tua vida? Milhões e milhões, hem?!
Destas, que vocês me pedem, nunca fiz na minha vida. Nem vou fazer.
Tancredo, pagamos bem.
Não pagam, que eu não recebo.
Olharam os do etanol um para outro, fizeram sinal entre eles, e colocaram, cada um cinco mil cruzeiros num envelope.
Tancredo, se não te importas, ficas cá com o quadro na oficina até amanhã, e este envelope.
E decides livremente, se fizeres o trabalho, ficas com o envelope, se não levamos o quadro e o envelope, o que nunca deixaremos é de ser amigos como dantes. Nem teve tempo o Tancredo de dizer que não, porque saíram os dois antes que ele desse por isso.
Por prudência guardou o envelope num cofre que tinha escondido em lugar bem seguro, na cave.
No dia seguinte, aparecem-lhe os dois do etanol ao fim do dia, estava o Tancredo a fechar a loja, a começar a correr a cortina de aço que protegia a entrada. Entraram, olharam para o quadro e não viram o envelope. O Tancredo tinha cedido, estava o trabalho feito. Olharam os dois o quadro, e lá estava o passarinho. Entretanto, o Tancredo tinha descido à cave da oficina, quando subiu já os dois tinham sumido, tanta era a pressa para chegar a qualquer lado que, de cá de cima, disseram até um destes dias Tancredo e saído com o quadro.
Um ou dois anos depois, estava o Tancredo às voltas com uma restauração delicadíssima, entram os do etanol com cara de satisfeitíssimos da vida, dá cá um abração, desculpa termos saído naquele dia tão sem te dar um abraço, tinhas descido à cave, mas não esquecemos o que te deve ter custado fazer o que fizeste por nós. Nunca, nunca em caso algum contaremos a quem quer que seja esse trabalho que tanto te deve ter custado à consciência de homem impoluto. Fica para sempre entre a gente. Só te pedimos que aceites este envelope para tranquilidade da nossa consciência e da nossa amizade.
Tancredo sentiu-se, por breves instantes, faltar-lhe o sentido do equilíbrio, tinha estado todo o dia envolvido num trabalho extenuante de restauro de uma obra valiosíssima, a exigir-lhe a máxima atenção, precisão, competência, e, a ouvir aqueles dois, não percebeu patavina da conversa deles. Quando recuperou a memória, subitamente nublada, passou a mão esquerda pela testa e, a segurar-se com a mão direita no corrimão que dava para a cave, desceu, e demorou-se lá por pouco tempo. Quando subiu, trazia um envelope com ele.
Tenho aqui o envelope que aqui deixaram há um, dois anos? o tempo passa depressa, esperando que vocês por aqui passassem. Nunca passaram e eu também não tive tempo, com o trabalho que tenho tido, de vos procurar. Mas aqui está ele, é vosso, e pelas mesmas razões não vou aceitar esse que me querem oferecer agora.
Mas porquê, Tancredo, tanta honestidade é exagero, amigão. Sabemos que foi só uma pincelada, nem pincelada sequer se deve chamar, mas foi uma pinceladazinha, que nos trouxe o passarinho de volta.
Queremos, fazemos questão, de partilhar contigo, ainda que simbolicamente, o trabalho teu, que sem ele, o passarinho nunca mais voaria.
Ao fim de muitas insistências de um lado e mais resistência do outro, saíram os do etanol com os dois envelopes
Se me perguntarem se eu vi ou não vi o passarinho, devo confessar que nunca vi o quadro.
Nem sei onde para agora.
No outro dia, de manhã, fez o que fazia desde que fora contratado como vigilante do museu municipal: abriu a porta de entrada principal e as portadas das janelas, deu uma volta de ronda às salas, que eram só cinco, a confirmar que não havia parede sem quadro, nem quadro torto na parede, o que mais o chateava era ver um quadro torto, um desequilíbrio que lhe arranhava os nervos e obrigava a indispor-se com a mulher da limpeza que, por acaso, era a sua mulher.
Depois, ia a sentar-se no banco, ainda não se tinha sentado, entra um grupo excursionista que o vigilante, facilmente, percebeu serem brasileiros. Se não a totalidade, pelo menos a maioria era. Ficou abismado com o fenómeno, nunca antes, que ele se lembrasse, tinha o museu recebido excursões em dois dias seguidos, e ainda estava a começar aquele dia. Não restavam dúvidas que o país estava agora em franco crescimento e o turismo era o grande motor desse desenvolvimento.
Também facilmente percebeu, eles falavam bem alto, subvertendo as regras em visitas a museus, que tinham aqueles brasileiros voado de São Paulo e Rio até Paris, e dali tinham passado em autocarro por Madrid, Salamanca, Santiago de Compostela, Coimbra, Fátima, e, a caminho de Lisboa, de onde voltariam a Paris para o voo de retorno, convenceu-os a casualidade de o avô de um deles ter nascido numa aldeia que ficava perto, a passarem aquela amanhã naquela cidadezinha de província que nenhum dos restantes alguma vez ouvira falar. O descendente foi até à aldeia avoenga, por, prometeu ele, não mais que três horas, e a comitiva tinha-se ali dispersado entre o mercado, algumas lojas de roupa e calçado, tudo caríssimo não acha?, um ou outro preferiu uma ou outra tasca para petiscar as especialidades locais, umas bebidinhas da zona, uma escassa dezena, a princípio, uns quinze depois, entraram no museu, mais pela traça antiga do edifício do que qualquer chamamento do recheio.
Já viu Nenhinha esta belezinha de natureza morta? Adoro natureza morta. Não perco. No Louvre não tinha muito pois não?
Ah! O Louvre, querida, o Louvre é um mundo inteiro de cultura ... Você teve lá tempo de ver o que há naquele luvrão todo?
Pois não...pois não. Aquela entrada é simplesmente esmagadora, a gente sente-se imergir num oceano de cultura clássica. A gente desce, e, só de olhar para toda aquela pirâmide cai de pasmo, sem saber por onde é melhor começar. Aquilo, para ser visto como deve ser, quanto tempo precisa, tem ideia?
Tenho, não, mas não aguentava mais do que aguentei. Ao fim do dia estava mortinha para zarpar para o hotel e dormir até ao dia seguinte.
Já o Prado, é diferente, tem muito corredor, é mais orientativo. Em todo o caso, nada que se compare ao Louvre, não acha?
E o Rainha Sofia, que lhe pareceu?
Para lhe ser franca, minha amiga, a mim não me pareceu museu.
Nem Guernica?
Bom, nesse caso, o que eu não gosto mesmo é do Picasso. Mas não diga às nossas amigas, por favor.
Para elas, o Picasso é o máximo. Você gosta do Picasso?
Não muito ... não muito ...assim, assim, tem coisas que gosto, tem outras que não gosto. Gosto do período azul, do rosa ...
Pois isto será anedota, mas eu não sabia que Picasso tinha períodos ...
Teve. E teve até períodos de naturezas mortas.
Nados-mortos?
Não, não, naturezas mortas ...
Como estas, com peru e tudo isso, tão bem pintado que até parece estar vivo?
Diferentes, bastante diferentes, menos realistas, menos fotográficas, não sei se me fiz entender.
Quase. Tenho de dar, um dia destes, uma mirada nisso.
Ia a conversa cultural entre as duas neste ritmo alucinante quando se aproximou delas um homem do grupo.
Não é uma maravilha?
O homem chegou-se ao quadro, mais do que a distância regulamentar permitia, mas o vigilante entendeu condescender e não fazer cumprir as regras.
Logo a seguir outro, outro, e outro, enfim todos, obedecendo à força da curiosidade individual na formação dos grupos quando ignora as razões pelas quais os grupos se começaram a formar, e, em pouco tempo, estavam todos à volta, se não todos, quase todos a desrespeitar as regulamentadas distâncias mínimas de proximidade das obras expostas.
Não é uma maravilha?, voltava a perguntar a senhora que adorava naturezas mortas a cada um que se ia juntando ao grupo . Não é uma maravilha de natureza morta?, insistia perante a mudez do grupo.
É quê?, arriscou um tímido do fundo para o vizinho do lado.
Natureza morta, sussurrou quem estava à frente dos dois.
Em minha casa não entraria, nem dada. É coisa mórbida, não é? Eu acho. Prefiro os impressionistas...
Acercou-se o vigilante do grupo com a intenção de proteger o quadro de tanta concentração de gás carbónico, e, num inesperado momento de génio, que nele existia congénito mas nunca antes se manifestara, informou que aquele quadro era uma natureza morta mas que também era uma natureza viva.
Como é isso?, perguntou a maior admiradora de naturezas mortas, que nunca tinha ouvido falar em naturezas mortas e vivas ao mesmo tempo, e já lhe custara a engolir aquela do Picasso ter dado à luz nados-mortos.
É assim, começou a explicar o vigilante quando o grupo todo se calou, aqui neste quadro, que sem dúvida alguma é uma natureza morta, de autor desconhecido, talvez do séc.XVII há, no canto inferior direito, mesmo no cantinho, um passarinho que voa de um lado para o outro ... sempre no cantinho. Por isso lhe chamamos o quadro do passarinho, acrescentou o vigilante, e fez história.
Como é isso?
Sente-se, o senhor, aqui neste banco, concentre-se, e verá que um passarinho, muito pequeninho, esvoaça constantemente. Há quem pense que seja um beija-flor.
O homem sentou-se, colocou óculos de ver ao perto, espreitou que se fartou, saiu do banco, e disse, não tem porra de passarinho nenhum.
Há beija-flor em Portugal, perguntou curiosa e tímida uma das senhoras que até ali não tinha aberto a boca.
Não tem, mas natureza morta pode ser matada em qualquer lado, respondeu e riu-se do que disse, um que entendia estar o assunto a ficar pesado demais para o momento.
Pelo sim, pelo não de averiguação, sentou-se um voluntário, espreitou, fez óculo juntando polegar ao indicador, esteve tempo estranho a espreitar, estranho por coisa tão pouca, entenda-se, levantou-se vagarosamente e disse: tem passarinho, sim senhor. É mesmo muito pequenininho, mas tem.
E voa?
Voa, está sempre a voar. Se é beija-flor não sei.
A partir dali, sentaram-se todos e as conclusões só não foram unânimes porque o primeiro observador nem quis repetir a observação. Para ele, não havia passarinho nenhum, ponto final, e vamos embora.
Foram quase todos, só ficaram dois na sala.
E você acha mesmo que pode ser negócio mesmo?
Pela alma da minha mãe lhe juro que estou seguro que pode ser negócio mesmo. Vamos falar com o vigilante.
Vigilante, o senhor, por favor pode marcar uma reunião, ainda hoje, com o presidente do município?
Eu???, perguntou com interrogação aterrorizada o vigilante.
A questão, senhor vigilante, é que nós dois estamos interessados em comprar esse quadro, o do passarinho, entende?, e estamos dispostos a pagar um preço justo por ele.
O quadro do passarinho? O quadro do passarinho não está à venda, aliás, nenhum quadro aqui está à venda. Isto é um museu, senhores, não é galeria de arte.
Que bobagem!, vigilante, tudo se compra e vende mesmo sendo quadro de museu. Telefone a ele! Vá telefone a ele!
É do séc. XVII, senhores, não tem preço.
Tudo tem preço, vigilante, tudo neste mundo tem preço. Muito ou pouco, tudo tem preço.
Neste ponto, chamou um dos interessados o outro à parte, o vigilante aproveitou para voltar ao seu posto, se bem se lembram, sentado no banco.
Você acha mesmo que, sendo o quadro do séc. XVII, pode andar o passarinho andar a voar há mais de trezentos anos? Quanto tempo de esperança de vida tem um beija-flor? Não mais que três anos, cinco no máximo, sabia?
Pode não ser beija-flor. Aliás, pelo que você agora se lembrou, não é beija-flor, mas não é por isso que deixa de ser passarinho.
Então que passarinho pode ser este que voa há trezentos anos, pelo menos?
Só Deus sabe os limites ilimitados da criação. Talvez o quadro tenha sido pintado por Deus? Tem prova do contrário?
Não, não, o quadro é de autor anónimo. Pode ter sido Deus quem pintou essa coisa morta-viva? Pode, mas não vamos alterar a chapa da autoria na moldura. Iria o negócio do quadro ao ar, como autor de obra de arte, Deus não vende, como milagre talvez possa vir a ser mina sem fundo.
Vamos comprar a porra do quadro!
Vigilante, por favor pode pelo menos indicar-nos o número do telefone do município.
Posso, não é favor nenhum, aqui o tem, mas devo informá-los que hoje nem o presidente nem os vereadores estão disponíveis.
E por que não? É feriado?
Estão todos reunidos em sessão de discussão de aumentos ao pessoal.
Bom, se assim é, convém não perturbar eles. E amanhã?
Amanhã é sábado, fim-de-semana, e na segunda-feira é feriado municipal.
Que azar, hem! Bom, estamos de saída para Lisboa para pegar o voo de Paris para o Rio e São Paulo.
Vamos telefonar de lá. Afinal, que negócio é que não pode ser feito hoje pelo telefone? Como é que licitam os árabes, e outros parecidos com eles, nos leilões da Sotheby´s ou da Christie´s para comprar anonimamente por milhões e milhões arte europeia, americana, ou do fim do mundo? Pelo telefone. Pelo telefone! Pela internet! Talvez até pelo feicebuque, pelo WhatsApp ... A propósito, você já instalou no seu celular o Instagram? Instale.
Viu como o museu estava a precisar de obras?
Se vi! Eles vão vender-nos o quadro por tuta-e-meia.
Não tinha ainda passado uma semana, a quietude do museu voltara ao normal, um ou outro visitante de passagem, de vez em quando uma excursão ou outra, do passarinho vivo em natureza morta guardou o vigilante o maior segredo, que, afinal nem segredo seria, porquanto ele, vigilante experimentara, entretanto, sem sucesso, aproximado que fosse, enxergar passarinho ou réstia dele, quando toca o telefone, da secretaria da câmara. Vigilante, pode comparecer na câmara esta tarde, por volta das quatro? Sim. Pode encerrar esta tarde mais cedo. Deixe aviso na porta que o museu reabrirá amanhã com o horário habitual.
Tremeu o vigilante com a convocatória, nunca lhe tinha acontecido coisa assim em tantos anos de serviço, às quatro horas em ponto estava ele a entrar na secretaria.
Veio a secretária do vereador da cultura e desportos, como está senhor vigilante, ligou para aqui um senhor brasileiro, disse que esteve no museu há uma semana, que viu lá uma natureza morta, e que quer comprar o quadro ...
Sim, senhora secretária, tivemos a visita de uma excursão de brasileiros, aliás tínhamos tido antes outra de gente de não sei donde no dia anterio, esgotou-se há uns tempos o livro das visitas, requisitei outro mas ainda não chegou, e dois brasileiros quiseram falar com o nosso senhor presidente, logo naquele instante. Disse-lhes que não seria possível, que era dia de reunião da câmara, foi isto, portanto, na sexta-feira passada, depois metia-se o sábado, o domingo e o feriado municipal, disseram-me que nesse caso, porque tinham de voltar ao Rio e São Paulo, contactariam o nosso presidente pelo telefone.
E não disseram mais nada?
Disseram que queriam comprar o quadro.
E o vigilante que lhes disse?
Que o quadro era de museu, que eu soubesse, não estava à venda, depois eles disseram que tudo se compra e tudo se vende, pelo telefone fazem-se vendas de quadros por milhões e milhões. Ah! Já me esquecia, não sei se é importante, antes, no grupo da excursão anterior, um rapazinho, seis, sete anos, tinha estado a ver o quadro e afirmava que no canto inferior direito do quadro havia um passarinho, vivo, a esvoaçar. Às tantas andava toda a gente à procura do miúdo que faltava no autocarro, e, em pouco tempo estava toda a gente a ver se via ou não via o passarinho. Uns viam, outros não viam, e lá se foram sem acordo sobre o assunto.
Na manhã seguinte, logo que abri a porta entraram os brasileiros, uma dúzia, para mais, não para menos. E logo duas senhoras se puseram a admirar o tal quadro de natureza morta. Devem ter entabulado conversa sobre arte, pelos vistos tinham estado no Louvre e no Prado, às tantas estava todo o grupo a falar mais alto no museu do que o regulamento do museu permite. Para desanimar a discussão disse-lhes que um menino que tinha estado no museu no dia anterior tinha visto um passarinho vivo naquele quadro de natureza morta. Toda a gente se calou, e, calmamente, cada um se pôs a observar, a distância conveniente, o quadro para tentar encontrar o passarinho que, alguém admitiu, pudesse ser um beija-flor. Depois, discordaram todos entre si. Uns viam, outros não viam, uns às vezes viam, depois deixavam de ver, acabaram por sair todos menos dois, que, à viva força queriam falar com o senhor presidente. O resto já contei tudo, penso eu.
E o vigilante viu algum passarinho?, perguntou com sorriso irónico a secretária.
Não, senhora secretária, não vi, mas confesso que a minha curiosidade também me levou a espreitar numa altura em que não tinha visitantes na sala.
Não tem mais nada a acrescentar?
Sobre este caso, não, senhora secretária.
Obrigado, boa tarde!, despachou a secretária antes que tivesse ouvir o relato de casos que, certamente, o vigilante teria para contar mas não constavam da convocação daquele dia.
Na sessão da câmara da sexta-feira seguinte foi agendado, a pedido do vereador da cultura e desportos, o inusitado telefonema, depois confirmado por e-mail, de dois cidadãos brasileiros, convenientemente identificados e referenciados como industriais no sector da produção de etanol, propondo a compra de uma natureza morta que tinham visto no nosso museu há duas ou três semanas
durante uma visita ocasional no caminho para Lisboa, onde iam apanhar o avião para o Rio e São Paulo na segunda-feira seguinte ao da visita ao museu. Pela obra de arte, de autor anónimo, tido por pintada no séc. XVII, ofereciam os magnatas brasileiros trezentos e cinquenta mil cruzeiros.
Lida a proposta pelo vereador da cultura e desportos, insurgiu-se logo de seguida o mesmo vereador, considerando a proposta simplesmente repugnante. Que pensam, esses ricalhaços pançudos, quem somos para vender património cultural nosso? Que estamos de rastos a ponto de vendermos aquilo que é parte importante da nossa memória?
Seguiu-se o silêncio da praxe, aguardando a palavra do presidente.
Parece que o quadro tem passarinho, disse o presidente ao fim de alguns momentos de expectativa, por que não vamos lá dar uma olhadela? Já agora, aproveitamos para ver como está o museu, confesso que há já alguns anos que não entro lá.
Parecia à generalidade da vereação que talvez a visita ao museu fosse justificável, a maioria nunca lá tinha posto os pés, mas aquela do passarinho uma treta que só podia caber na cabeça do presidente.
E, na sexta-feira seguinte, depois da sessão da câmara foram até ao museu, considerando a visita um prolongamento dos trabalhos do dia.
Viram e consideraram unanimemente que o museu estava a precisar de obras urgentes. No canto do vigilante, por exemplo para o qual o mesmo chamara a atenção, pingava água em dias de chuva, obrigando o trabalhador a sentar-se noutro canto, menos conveniente para a observação do espaço.
Quanto à natureza morta com passarinho a voar, ninguém conseguiu ver passarinho algum, também os esforços foram poucos para não dizer negligentes, salvo o vereador dos cemitérios que viu e se entusiasmou com o que viu, e que nunca tinha pensado que alguma vez poderia vir a ver, uma natureza morta com um passarinho, talvez um beija-flor a voar.
Resumindo e concluindo, nenhum vereador, incluindo o vereador da cultura e desportos, nem o presidente, que foi o primeiro a observar e a dizer que não tinha visto passarinho algum, e, para irritar o vereador discordante, o dos cemitérios, que era da oposição, disse que só poderia ver passarinho naquele quadro quem tivesse defeito na vista.
Quanto é que oferecem os brasileiros?
Trezentos e cinquenta mil cruzeiros, líquidos de impostos.
Quanto é isso?
Hoje, para aí uns setenta mil euros, calculou o vereador tesoureiro, recorrendo ao telemóvel, mas,
cruzeiro não é moeda de transacção, amanhã pode não valer nada. Se queremos negociar devemos negociar em euros.
Responda-se que o quadro se vende por duzentos mil euros, disse o presidente, para logo acrescentar, se houver unanimidade da vereação, oposição incluída.
Duzentos mil euros dariam um jeitão, o orçamento tinha sido aprovado mas muito esmagado, com algum dinheiro daquele, inclusive, se repararia o museu que bem precisado estava de obras, como todos haviam visto.
Observou o vereador da cultura e desportos que a proposta de venda tinha de ser submetida a aprovação da tutela, mais prudente seria que não se contasse com o ovo ainda no ovário da galinha.
Vigilante, diga-nos quantas naturezas mortas temos em acervo? ... Na cave.
Para aí umas dez.
Em boas condições?
A mulher da limpeza passa-lhe com o espanejador todas as semanas.
Constam todas do inventário?
Peço desculpa mas não sei responder.
Saberia, ou deveria saber o vereador da cultura e desportos, mas não assim do pé para a mão.
A sessão camarária do dia terminou por ali, em inventário havia menos naturezas mortas que as que tinham sido contadas no dia seguinte, e, para não alongar demais nem ser indiscreto mais do que a prudência aconselha, o que ouvi dizer é que, passados três meses, chegava a São Paulo, embalado com seguro assegurado pelos compradores, uma natureza morta onde uns viam, outros não viam, mas os compradores tinham visto, um passarinho, pequenininho a esvoaçar constantemente, para aí há uns trezentos anos, não menos, no canto inferior direito.
O valor da transacção foi colocado, por unanimidade e compromisso de confidencialidade, no saco azul, alegadamente por já não ter chegado a tempo de constar no orçamento aprovado para aquele ano. Oportunamente, seria feita a correcção com a justificação devida. E, na sala do museu, ninguém deu por falta de quadro algum, nem o vigilante nem a mulher da limpeza que, como já se disse, era a
mulher dele.
Entusiasmados com a chegada do quadro, trataram os compradores de contratar agente que garantisse o lucro que uma natureza morta e viva merecia, quanto mais não fosse pela originalidade impossível no campo da física, talvez da física quântica, mas, se assim viesse a ser concluído, aquilo era negócio
para deixar para trás todos os recordes imagináveis por largo tempo.
Não fosse o diabo tecê-las, guardaram a natureza morta e viva num cofre forte capaz de se aguentar com uma bomba atómica, assegurou o vendedor do cofre forte.
Compareceu um agente, representante local de uma leiloeira mundialmente bem conhecida, que não mencionamos, não vá alguém pensar que vivemos de publicidade, abriu-se o cofre, colocou-se o quadro em local com luz adequada, e, perguntou um dos vendedores ao agente se ele conhecia aquele quadro.
Aquele não, mas conhecia centenas, quase todos de autores conhecidos, reconhecia algum mérito à obra, mas não tinha valor que merecesse ser levado a leilão. Valeria, com boa vontade e muito amor às naturezas mortas, para aí uns duzentos mil cruzeiros, valor sujeito a correcção contra o câmbio o dia em dólares.
Duzentos mil cruzeiros, sem passarinho? Em quanto avaliaria o agente quando visse o passarinho?
Fortunas!
Sente-se, por favor, senhor agente aí em frente do quadro, concentre-se no canto inferior direito, o que vê?
O agente fez várias tentativas para ver algum coisa que não tivesse visto à primeira vista, pôs óculos, tirou óculos, usou lente, e disse, não vejo nada de especial, nem cagadela de mosca sequer. Talvez uma muito imperceptível ruptura mesmo no canto da tela, mas isso ocorre com muita frequência, com obras antigas e contemporâneas, é simplesmente irrelevante.
Caíram os corações aos pés dos industriais de etanol, agradeceram ao agente, depois mande a factura para pagarmos o seu trabalho.
Mal o agente saiu, sentaram-se e levantaram-se os dois industriais junto do quadro, tantas vezes que
ficaram-lhes derreados os ossos e a arder insuportavelmente os olhos.
O que é que se passou? O que é que se passou? O que é que se passou?
Trocaram os portugueses o quadro e mandaram-nos um, parecido, com peru bêbado e tudo, mas sem passarinho? Teria o passarinho aproveitado o voo no avião para se safar de um aprisionamento de três séculos?
Foram descansar, voltaram no dia seguinte, e, para os mesmos ensaios, os mesmos resultados. Não havia dúvida, ou os portugueses tinham feito marosca, mas como prová-lo?, ou o passarinho andaria agora a voar, talvez por ali perto, mas quem é que poderia convencer um passarinho em liberdade a voltar para um quadro do séc. XVII, de mais a mais, uma natureza morta?
Talvez o Tancredo?
Quem?
O Tancredo é um restaurador, pessoa muito competente e idónea, talvez o Tancredo possa colocar-nos aqui um passarinho, afinal uma coisa que passa tão despercebida mas com tanto potencial.
Foram ter com o Tancredo.
O Tancredo estava de saída, era fim de dia, ouviu atentamente os parceiros, e foi peremptório recusando o trabalho, mesmo sem saber por que queriam aqueles dois etanois um rabisco seu numa obra antiga.
Porquê, Tancredo, diz cá ao teu amigo há tantos anos já, porque recusas uma coisa que para ti é uma pequeníssima pincelada, para ti que já fizeste tantas ... Quantas pinceladas já fizeste Tancredo, em toda a tua vida? Milhões e milhões, hem?!
Destas, que vocês me pedem, nunca fiz na minha vida. Nem vou fazer.
Tancredo, pagamos bem.
Não pagam, que eu não recebo.
Olharam os do etanol um para outro, fizeram sinal entre eles, e colocaram, cada um cinco mil cruzeiros num envelope.
Tancredo, se não te importas, ficas cá com o quadro na oficina até amanhã, e este envelope.
E decides livremente, se fizeres o trabalho, ficas com o envelope, se não levamos o quadro e o envelope, o que nunca deixaremos é de ser amigos como dantes. Nem teve tempo o Tancredo de dizer que não, porque saíram os dois antes que ele desse por isso.
Por prudência guardou o envelope num cofre que tinha escondido em lugar bem seguro, na cave.
No dia seguinte, aparecem-lhe os dois do etanol ao fim do dia, estava o Tancredo a fechar a loja, a começar a correr a cortina de aço que protegia a entrada. Entraram, olharam para o quadro e não viram o envelope. O Tancredo tinha cedido, estava o trabalho feito. Olharam os dois o quadro, e lá estava o passarinho. Entretanto, o Tancredo tinha descido à cave da oficina, quando subiu já os dois tinham sumido, tanta era a pressa para chegar a qualquer lado que, de cá de cima, disseram até um destes dias Tancredo e saído com o quadro.
Um ou dois anos depois, estava o Tancredo às voltas com uma restauração delicadíssima, entram os do etanol com cara de satisfeitíssimos da vida, dá cá um abração, desculpa termos saído naquele dia tão sem te dar um abraço, tinhas descido à cave, mas não esquecemos o que te deve ter custado fazer o que fizeste por nós. Nunca, nunca em caso algum contaremos a quem quer que seja esse trabalho que tanto te deve ter custado à consciência de homem impoluto. Fica para sempre entre a gente. Só te pedimos que aceites este envelope para tranquilidade da nossa consciência e da nossa amizade.
Tancredo sentiu-se, por breves instantes, faltar-lhe o sentido do equilíbrio, tinha estado todo o dia envolvido num trabalho extenuante de restauro de uma obra valiosíssima, a exigir-lhe a máxima atenção, precisão, competência, e, a ouvir aqueles dois, não percebeu patavina da conversa deles. Quando recuperou a memória, subitamente nublada, passou a mão esquerda pela testa e, a segurar-se com a mão direita no corrimão que dava para a cave, desceu, e demorou-se lá por pouco tempo. Quando subiu, trazia um envelope com ele.
Tenho aqui o envelope que aqui deixaram há um, dois anos? o tempo passa depressa, esperando que vocês por aqui passassem. Nunca passaram e eu também não tive tempo, com o trabalho que tenho tido, de vos procurar. Mas aqui está ele, é vosso, e pelas mesmas razões não vou aceitar esse que me querem oferecer agora.
Mas porquê, Tancredo, tanta honestidade é exagero, amigão. Sabemos que foi só uma pincelada, nem pincelada sequer se deve chamar, mas foi uma pinceladazinha, que nos trouxe o passarinho de volta.
Queremos, fazemos questão, de partilhar contigo, ainda que simbolicamente, o trabalho teu, que sem ele, o passarinho nunca mais voaria.
Ao fim de muitas insistências de um lado e mais resistência do outro, saíram os do etanol com os dois envelopes
Se me perguntarem se eu vi ou não vi o passarinho, devo confessar que nunca vi o quadro.
Nem sei onde para agora.
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