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Friday, September 01, 2023

POR UMA QUESTÃO DE MÁ CONSCIÊNCIA COLECTIVA?

O casal chegou às 23:30 ao aeroporto de Lisboa vindo dos EUA.
Cá fora, entrou no táxi que lhe coube em sorte determinada pelo agente de serviço.
 
- Bom dia!
 (nenhuma resposta)
- Leve-nos, se faz favor, a (morada indicada em Sintra)
 
O táxi movimentou-se no sentido do IC19, ali chegado o taxista começou uma corrida desenfreada, pressionando, com os faróis nos máximos, quem circulava à sua frente, movendo-se irrequieto, o volante a desandar-lhe nas mãos como se estivesse num autódromo a tentar ganhar o circuito.

- Pode, por favor, conduzir com menos velocidade? Não estamos com pressa ...
(nenhuma resposta)
 
Nenhuma alteração no comportamento daquele potencial homicida à solta na estrada.

- O senhor faz favor de conduzir com mais cuidado?
- O táxi é meu, quem sabe como devo conduzir sou eu! Ora esta ...
 
A corrida continuou imparável sem respeito pelos pedidos dos passageiros, nem pelos limites de velocidade, nem pelas regras de ultrapassagem, pressionando sempre, com os faróis nos máximos e o cláxon grosso a insistir sem tréguas, aqueles que encontrava à frente.

- O senhor encoste!
- Quê?
- Encoste logo que puder! Queremos sair!
- Quer o quê?
- Queremos sair! Sim, queremos sair,  e já!, ali na estação de serviço! Está a ver? 
- Está fechada a esta hora....
- Pois está mas entre! entre e pare já!
 
Parou. Recebeu e pôs-se a andar.
Ligou o casal para a Uber. Andava próximo dali um motorista aderente da plataforma. Levou o casal a destino, a respirar de alívio.

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Situações como esta não são raras. São mesmo muito frequentes são as práticas agressivas de muitos condutores na estrada, sobretudo em vias geralmente congestionadas com o é o caso do IC19. Procedem como querem (não só automobilistas mas também os motars e motociclistas), assumindo-se senhores da estrada, ziguezagueando ao sabor do seu depósito de adrenalina.

- E não é possível denunciá-los à polícia.
 
- Aqui a denúncia destes e de outros casos semelhantes, reprime-se pela de má consciência colectiva, do tempo em que a denúncia de judeus (ou não) levava dezenas, centenas, ... a serem queimados nas fogueiras da Inquisição, para gáudio da populaça; depois, no tempo da ditadura, em que, pela denúncia (geralmente anónima) de pensamentos, actos e palavras contrários ao regime, eram os desobedientes da prepotência do regime presos e incomunicáveis. Talvez por persistência dessa má consciência colectiva são raras as denúncias por agressões domésticas, muitas das quais terminam no homicídio de (sobretudo) muitas mulheres. E, na estrada, não podendo a polícia estar em toda a parte e os radares interceptarem alguns excessos de velocidade, os crimes por gincanas de automobilistas, motars e motociclistas, são impunes. Podiam estas situações de alto risco serem denunciadas à polícia por quem conduza com civismo? Podiam, mas não está a consciência cívica colectiva para aí voltada. E ninguém faz nada.


Thursday, January 07, 2021

A MAIOR NÓDOA NA HISTÓRIA DOS ESTADOS UNIDOS


"National Guard troops were deployed to the Lincoln Memorial on June 2, 2020, during protests held in Washington, DC, over the death of George Floyd".- c/p aqui

Os EUA acabam de viver o dia vergonhosamente mais longo da sua história.

Por que é que a polícia não interveio para evitar a invasão do Capitólio? 

Só há uma explicação: a polícia não interveio porque os invasores foram, inequivocamente, mandados por Trump. Não tendo intervindo, a ausência da polícia permitiu a Trump demonstrar a dimensão da sua irresponsabilidade e da sua capacidade para trair os valores do país. É ele, Trump, quem sobe a escadaria principal do Capitólio, quem trepa para chegar ao topo do edifício, quem quebra os vidros para entrar no interior, quem invade, quem se faz fotografar nos locais mais icónicos do edifício, quem mata, quem se diverte a incentivar os assaltantes para mais tarde os desconvocar e recomendar que recolham a casa porque o crime foi perpetrado, obrigado proud boys!, vocês são os guardiões do bem contra os espíritos malignos que defraudaram os votos, nunca reconhecerei os resultados falsificados das eleições de 3 de Novembro, fiquem cientes disso. Obrigado, proud boys, fiquem a meu lado, estarão sempre no meu coração, obrigado!

E assim se estatelou Trump na trampa que bolsou, com transmissão directa para todo o mundo, do atentado à democracia.

Espera-se que, pelo menos uma vez por todas, cumpra agora o que prometeu: assegurar uma transição tranquila do poder até às doze horas do dia 20.

Sunday, November 05, 2017

NÃO CHAMEM A POLÍCIA


A segurança privada é um negócio em crescimento exponencial.
Há casos, e não são poucos, em que de segurança pouco fazem.
Refiro-me a funções de recepcionista em serviços públicos. Não consigo entender porque contratam órgãos do Estado serviços a empresas privadas para este tipo de trabalhos. 
Percebe-se que, até, a segurança de instalações militares esteja entregue a privados?

Por outro lado, percebe-se que o controlo de entradas de passageiros com bagagens nos aeroportos portugueses esteja entregue a uma empresa privada?

Quanto à questão que tem estado a abrir os noticiários, estamos a falar de um tipo de segurança onde impera a lei da força bruta.
Há pouco, passava num canal de televisão num espaço público o repetido relato dos acontecimentos nas proximidades da discoteca.

Alguém esclarecia:

"Aquilo não teve nada a ver com a discoteca. Foi o dono de uma rulote que, ali perto, vende bifanas e cachorros, que pediu ajuda porque foi ameaçado de assalto. Aliás, era bom que a polícia já tivesse visto o cadastro criminal do rapaz que foi atacado pelos seguranças"

Por que não chamou o dono da rulote a polícia?
Porque a polícia não tem força?

Comentário colocado aqui

Ainda a propósito de segurança pública:

Há dias, na noite de 31/10 para 1/11, a juventude daqui deste lugar, alguma dela acompanhada de mamãs e papás, entretinha-se a brincar ao halloween. Talvez para lhe dar alguma originalidade, alguns grupos rebentavam petardos.  Isto, na sequência de um período dramático de incêndios que relembrou aos mais esquecidos ou mais irresponsáveis que estava proibido o lançamento de artefactos de fogo.
Telefonámos à GNR local.
Respondeu-nos, quem nos atendeu, que já tinham conhecimento do que relatava, e que colegas seus  já estavam a dirigir-se para o local. Eram cerca de 22 horas. Ouvimos petardos até à meia noite. 
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Correl. O Jogo da Cabra Cega

Tuesday, September 26, 2017

O JOGO DA CABRA-CEGA


Esta manhã, ouvia-se na Antena 1 o Primeiro-Ministro a indignar-se, alto e bom som, contra "a falta de sentido de Estado do líder do maior partido da oposição" ao pretender que o Governo devia imiscuir-se na investigação de casos (Tancos, incêndios) entregues ao Ministério Público violando o princípio democrático da separação de poderes entre órgão de soberania.

Não tem razão.

A investigação do Ministério Público, e as conclusões e consequências que dela possam decorrer, não impedem que subsista o funcionamento do princípio da responsabilização dentro da cadeia de comando onde ocorreram falhas de controlo dos stocks de armas.
Dito de outro modo: o Ministério Público até pode, por reconhecida incapacidade na obtenção de provas sobre os autores dos roubos ou perdas das armas em falta, decidir o arquivamento dos processos. Mas tal incapacidade não obsta nem justifica a falta de responsabilização daqueles a quem competia garantir a segurança dos locais dos depósitos das armas. 
Não se sabe a quem competiam essas responsabilidades? Sabe-se quem estava no comando dos locais de onde saíram, ou não chegaram a entrar, as armas em falta.

Reconhecidamente, o Governo recusa-se a reconhecer as múltiplas falhas e incapacidade de comando dos Ministros da Defesa e da Administração Interna e sacode a água do capote para cima da independência institucional do Ministério Público.

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Correl . 

"A investigação ao roubo das 57 pistolas Glock do quartel-general da PSP, conduzida pela própria polícia e pelo Ministério Público (MP), está parada. O inquérito criminal foi aberto há mais de oito meses, quando o roubo foi detetado. As pistolas foram furtadas do armeiro, localizado na direção nacional, em estojos juntamente com 18 munições e dois carregadores em cada um. Os investigadores não têm conseguido novas pistas desde que, a 25 de janeiro passado, uma das Glock foi apreendida na posse de um suspeito traficante de droga, no Porto, e outras três, dias depois, apreendidas pela polícia espanhola numa operação em Ceuta, facto que alargou a dimensão da investigação para suspeitas de haver organizações de tráfico internacional envolvidas. Apesar deste já ser um crime da competência da PJ, o MP manteve a confiança na PSP para investigar." - aqui

"O que ontem também continuava por clarificar era a existência do alegado relatório secreto publicado este sábado pelo Expresso e igualmente relacionado com o furto nos paióis de Tancos. Daí resultou a manutenção das especulações sobre o autor ou autores do documento, após ser formalmente desmentida a sua existência nos termos em que foi noticiado pelo jornal." - aqui


Sunday, August 13, 2017

TUDO NA MESMA, DEPOIS DE PEDROGÃO GRANDE

D. sabia que nós íamos a caminho da A8 e telefonou-nos a avisar que tinha lido na internet que aquela auto estrada estava cortada na zona de Torres Vedras.
Nesse momento ainda estávamos na A17, a uns vinte quilómetro antes da possibilidade de desvio para a A1, em Leiria.

Tentámos contactar o 112 para para confirmar se o corte da A8 ainda se mantinha e se não iríamos encontrar situação semelhante na A1, para onde nos iríamos desviar se a A8 continuasse cortada.
Não obtivemos resposta porque a chamada, passados largos minutos, caiu. 
Voltámos a ligar, e só então, fomos atendidos. Do outro lado da linha responderam-nos que no 112 não têm informações sobre cortes de estradas por causa de incêndios florestais e que devia ligar para a GNR, para o número 1820 (chamada de valor acrescentado ...).

Ligámos para o 1820, foi-nos confirmado, após alguma espera, o corte na A8 e dito que não havia notícias de corte na A1 a partir de Leiria. Agradecemos e sugerimos que informassem os meios de comunicação social, nomeadamente a Antena 1 da RTP, para conhecimento útil dos que circulavam aquela hora, uma vez que vínhamos a ouvir aquela rádio para saber notícias, pelo menos durante os noticiários, e nada havia sido referido a propósito do corte na A8 em Torres Vedras no noticiário das 18. Também nos quadros avisadores não havia qualquer informação útil, indicavam inutilmente apenas a hora naquele momento na A17. 

Em conclusão: os meios de comunicação social, nomeadamente de rádio e televisão, que sugam até ao tutano as imagens dos fogos florestais em transmissões repetidas ad nauseam, ignoram e não informam os que circulam pelas estradas do país acerca dos perigos resultantes de incêndios florestais que os aguardam mais à frente. 
O 112 limita-se a informar que não tem informação e remete-nos para a GNR;
Da RTP não há informação oportuna;
A GNR informa mas o utente paga a chamada de valor acrescentado;

Isto quando o país continua a ser violentamente assaltado por uma vaga de incêndios de dimensões nunca antes atingidas, mês e meio depois da tragédia de Pedrogão Grande. 

E os militares? O que fazem 35 mil militares perante este inimigo que semeia o pânico de norte a sul e chegou mais uma vez à  Madeira?
E a Justiça? Que eficácia tem a justiça na dissuasão dos criminosos?
E a senhora ministra da Administração Interna porque espera para retirar consequências políticas desta tragédia de que também é culpada? Porque ela mesma reconheceu já ter havido "descoordenação no posto de comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil no teatro de operações em especial com outros agentes de protecção civil". 
Houve, e continua a haver, senhora Ministra.

Saturday, July 08, 2017

O JOGO DA CABRA CEGA

Normal, em Portugal:

"Suspeito de ter desviado peças do Museu da Presidência da República, o antigo director da instituição, Diogo Gaspar, apresentou-se ao serviço na passada segunda-feira, ao fim de um ano de suspensão de funções. No entanto, não regressou ao anterior cargo. Foi de férias logo de seguida. "-  aqui

Aconteceu há um ano em instalações onde a passagem de visitantes é guardada por agentes da GNR com equipamento radiográfico idêntico ao usado nos aeroportos.
E ainda há quem nos queira fazer crer que do assalto ao paiol de Tancos é responsável a ausência do sistema de audio vigilância.


"Depois de 12 anos à frente do museu, Diogo Gaspar foi detido no Verão passado, por indícios de abuso de poder, tráfico de influência, peculato e participação económica em negócio, entre outros crimes. Móveis antigos, tapeçarias e quadros foram alguns dos objectos do espólio museológico apreendidos pela Polícia Judiciária em sua casa e em casa de amigos seus, nas buscas da chamada Operação Cavaleiro – assim baptizada por ter sido com este título referente à Ordem de Santiago que Cavaco Silva o agraciou quando estava a terminar o seu último mandato em Belém, no final de Fevereiro de 2016. Foi detido quatro meses depois, faz agora um ano.
E é precisamente por ter passado um ano desde que foi constituído arguido, sem que tenha sido produzido ainda um despacho de acusação contra ele – ou, em alternativa, que o processo tenha sido arquivado – que caducaram as medidas de coacção que lhe tinham sido impostas pela juíza de instrução criminal do processo, explica o seu advogado, Raul Soares da Veiga. Medidas essas que incluíam a suspensão de funções.

Diogo Gaspar ficou proibido de entrar na secretaria-geral da Presidência da República, no Museu da Presidência e no Palácio da Cidadela, em Cascais (que também faz parte da Presidência), além de ter sido proibido de contactar com diversas pessoas. Motivos invocados pela magistrada: perigo de continuação da actividade criminosa e de perturbação do decurso do inquérito.
“À cautela, embora a caducidade seja automática, requeremos ao tribunal que reconheça que as medidas de coacção já caducaram”, explica o advogado. “Como Diogo Gaspar é um funcionário zeloso e cumpridor apresentou-se ao serviço. Tem o dever e o direito de exercer o seu trabalho”.
Acontece que durante este ano outra pessoa foi nomeada para ocupar o cargo de principal responsável pelo museu – e não de forma interina. Trata-se da directora do Museu do Azulejo, Maria Antónia Pinto de Matos, que passou a acumular funções. “Seria natural que Diogo Gaspar reassumisse as suas funções, mas agora parece que existem dois directores para a mesma instituição”, observa Raul Soares da Veiga.

A Presidência da República não partilha, porém, deste entendimento. O despacho de nomeação da nova responsável é de 30 de Setembro de 2016 e nele está escrito que naquela data cessava a comissão de serviço de Diogo Gaspar. O último despacho de nomeação deste é de 1 de Outubro de 2013 e tinha efeitos por três anos." 

Friday, June 30, 2017

CAUSAS NATURAIS

Em Fevereiro deste ano soube-se que, vd. aqui, tinham sido roubadas 57 pistolas de armazém da PSP.

Ontem soube-se que foi roubado de Tancos diverso material de guerra. 
Hoje, vd. aqui, soube-se que o roubo foi maior do que se pensava (quem é que pensava?, não sabemos). Sem explicitamente reconhecer que houve roubo, o "Exército informou que foi detectada a falta de “granadas foguete anticarro, granadas de mão de gás lacrimogéneo, explosivos e material diverso de sapadores como bobines de arame, disparadores e iniciadores". 

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Act. - (1/7/207) 

O Chefe do Estado-Maior do Exército admite fuga de informação no furto em Tancos
"Para haver algo deste género tem de haver informação interna", diz o responsável. - aqui
Demita-se, sr. Chefe do Estado-Maior do Exército! Se homens sob seu comando roubaram ou deixaram roubar armas, e o senhor não sabe quem roubou, só tem uma saída minimamente honrosa: a demissão.

Monday, November 10, 2014

ACERCA DE POLÍCIAS E LADRÕES

Ouvem-se com alguma frequência vozes desculpabilizadoras da ineficácia do Banco de Portugal na prevenção dos casos que levaram a totalidade dos maiores bancos portugueses, de um modo ou de outro, a recorrerem à intervenção do Estado, isto é, aos bolsos dos contribuintes. Nuns casos, essas intervenções são, espera-se, transitórias e, eventualmente não penalizadoras dos contribuintes, noutras, mais graves, as intervenções concretizam-se, inequivocamente, pelo roubo aos cidadãos portugueses de valores que arrombam irremediavelmente o Orçamento de Estado. Inquivocamente, roubos, porque não há palavra mais adequada; irremediavelmente, porque contribuiem para o empolamento de uma dívida pública que ninguém sabe ainda como pode vir a ser domada. 

Defendem essas vozes que o Banco de Portugal não é polícia nem juiz. E que os casos de polícia  acontecidos no tempo do sr. Vitor Constâncio e que agora ocorrem com o sr. Carlos Costa, são do foro policial e, eventualmente, judicial. Ponto final.

Não sei o que é que o sr. Mário Draghi e os outros veneráveis governadores dos bancos centrais pensam do assunto, mas admito que pensem o mesmo, isto é, não são polícias, as suas atribuições, em matéria de fiscalização dos bancos, não vão muito além de pescar das contas uns números e com eles calcularem uns rácios. E se os rácios estão conforme as regras, a corporação está limpa. Se os valores são manipulados e os caixas disfarçadamente roubados, esses assuntos já não são com eles. Nem com os revisores oficiais de contas ou os auditores, que é para isso que lhes pagam, para não verem para além da superfície das contas. 

Mas, indiscutivelmente, acontece haver ladrões dentro dos bancos. Internos. Se o roubo é cometido por graduados ou subalternos, a administração sabe o que deve fazer e a solução é privada. Mas se os gabirus são administradores, e, normalmente, o administrador presidente o gabiru chefe, quem tem o olho no que roubam porque o que roubam vai ser pago pelos contribuintes? A polícia? Nem a polícia nem os tribunais percebem de bancos ou de moscambilhas banqueiras. Quando a polícia é chamada já o roubo foi consumado e apresentada a conta aos inocentes. Depois seguem-se anos a arrastar processos até às prescrições finais.

Mais grave, no entanto, é o facto do papel atribuido, ou assumido, ao governador e à sua tripulação ser de embrulho. Ao governador Carlos Costa, e ao governador Constâncio, chegaram informações que os deveriam ter levado a, oportunamente, actuar ou a chamar a polícia, de modo a evitar ou a reduzir os roubos. Não actuaram, embrulharam. Mais valia que não contássemos com eles. 
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Correl. -
aqui: 
"A auditoria forense ao BES descobriu que foram feitas gigantescas transferências de dinheiro para fora do banco através de quatro offshore, segundo uma notícia da SIC, que dá conta que terão sido favorecidos "alguns accionistas e clientes do banco" e que a gestão de Ricardo Salgado é acusada da prática de "actos ruinosos".
"Ricardo Salgado considera que as notícias em torno das conclusões da auditoria forense que estão a ser avançadas, e que indicam que houve transferências que favoreceram accionistas e clientes pouco antes do fim do seu mandato enquanto presidente executivo do BES, são "gravemente difamatórias".
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Wednesday, March 12, 2014

CORRUPÇĀO E STRIPTEASE

Agente da GNR surpreendido por colegas seus a fazer striptease, vid. aqui. A notícia seria pífia, de tablóide, se a Associaçāo de Profissionais da Guarda nāo tivesse assumido que prefere essa situaçāo a casos de corrupçāo que podem acontecer devido à crise e às penalizaçōes que estāo a suportar.

Deduz-se daqui que o agente da GNR se dedica à actividade de striptease com o objectivo de compensar com um "cachet" aquilo que outros seus colegas cobram em actos de corrupçāo, em ambos os casos para compensar as penalizaçōes a que estāo sujeitos? Nāo necessariamente, mas a posiçāo da APG permite pelo menos a dúvida.

O que seria inadmissível num país democraticamente, porque civicamente, adulto, mas que em Portugal, onde até a Associaçāo de Juízes Portugueses se permite alusāo do mesmo calibre, nāo passa de uma banalidade numa sociedade civicamente menor.


Mais vale strip que corrupção, diz associação

Saturday, December 14, 2013

SÃO OS MAIORES

Há bastante tempo que não passava pela José Fontana.

- Que é isto?
- É o novo edifício da Polícia Judiciária.

Olhei-o de relance, e recordei uma jornada alegre que ocorreu naquele espaço, então ocupado pela Escola Superior de Medicina Veterinária, durante uma prova pública de um concurso entre três candidatos à cátedra de Matemáticas, transferida para ali da sala da biblioteca do ISCEF, ao Quelhas, onde tinha decorrido o início das provas no meio de um alarido incontrolado da assistência estudantil. 

Na ESMV o número de espectadores das provas foi limitado à capacidade de uma galeria que existia no salão nobre, no lado oposto ao palco onde decorriam as provas. Iniciadas estas no espaço emprestado, retomou-se o espectáculo de apoios e protestos. Fomos expulsos pela polícia. Mas foi uma experiência original, o que não significa recomendável, em tempos de ditadura: os candidatos apoiados ou vaiados consoante as simpatias que grangeavam junto dos estudantes. Foram os três candidatos aprovados e, logicamente, um deles, que não era o que merecia os aplausos da generalidade dos estudantes, escolhido por mérito relativo. A mim, pareceu-me bem ponderada a decisão do júri.

J edgar hoover bldg.jpg

Hoje, leio no Expresso/Economia que o novo edifício-sede da Judiciária é o maior de 2103.

Tem o tamanho de dez campos de futebol, possui um heliporto no topo de uma torre com 12 andares, com capacidade para aterragem dos helicópteros da Marinha, um Laboratório de Policia Científica com cinco vezes a área do actual, sala adaptável a bunker em caso de atentado terrorista e carreira de tiro subterrânea, 80 mil metros quadrados de área construida, 40 mil dos quais abaixo do solo, sendo 20 mil dedicados a estacionamento. Comparado com este complexo o edifício do FBI, em Washington, em termos volumétricos de cimento, parece-me um pigmeu.

Custa 87,1 milhões de euros, pagos essencialmente com verbas do OE.

Julgo ter lido, há pouco tempo atrás, que a Polícia Judiciária está com problemas de operacionalidade por insuficiência de fundos, além do mais, para aquisição de combustível para as viaturas. Ali mesmo ao lado, as instalações da Escola Secundária Camões carecem de significativas obras de manutenção urgentes.

Mas nada disto é novo nem obra nova.

Tuesday, October 22, 2013

POR QUÊ NO ROSSIO?


Quem passa pelo Rossio, em Lisboa, depara-se com uma construção tosca de blocos de cimento que, à primeira vista, é uma aberração sem justificação plausível. Já em casa, constatámos que o mamarracho é, vd. aqui, uma instalação de arte «HHP» – High Heel Project, criada pela artista holandesa Marian van der Zwaan, e foi inaugurada na sexta-feira passada. com a presença do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, tem o Alto Patrocínio da UNESCO (Patronage) para as cidades de Accra, Lisboa, São Paulo e Luanda*. A exposição estará patente até 6 de Novembro.
 
Accra, São Paulo, Luanda, e Lisboa.
A que critério terá obedecido esta selecção patrocinada pela UNESCO?
Passa por Lisboa uma corrente de tráfico humano de tal modo relevante que justifique juntar a capital portuguesa com Accra, São Paulo e Luanda num labirinto de vergonha idealizado por uma holandesa? Por quê Lisboa, por que não Roterdão ou Amsterdão? Que sensibilização se pretende transmitir aos lisboetas, ou a quem visita Lisboa, que os londrinos ou parisienses dispensam?   
...
---
* Correcção - Chama um comentador (a) anónimo (a) a minha atenção para o facto de ter omitido Berna. Com o meu obrigado pela observação pertinente, registo a inclusão da capital da Suíça no conjunto selecionado. Ainda que a minha dúvida subsista, considerando as estatísticas conhecidas sobre o tráfico de seres humanos acessíveis a partir dos links que atrás coloquei.

Monday, July 02, 2012

JARDINOCRACIA

"Não existe democracia na Madeira, isto é uma fantochada, é uma sessão do PSD-M, fui expulso como um cachorro, humilhado por uma polícia que devia estar ao serviço dos portugueses"... "A polícia deve estar ao serviço dos portugueses e não dos gatunos do PSD e não estar ao serviço da canalha do PSD-M."

A cena (vd. aqui) é tão caricata quanto revoltante: O deputado regional da Madeira J M Coelho, useiro e vezeiro em atitudes de escárnio ao governo da região e muito particularmente ao seu presidente de quase sempre, foi mais uma vez expulso de uma assembleia, desta vez esperneando ao colo de um polícia da brigada de intervenção rápida.

O senhor J M Coelho não é mais do que um discípulo travesso do mestre em provocações e insultos  que governa a Madeira há trinta e quatro anos. Comparado com o seu mestre, J M Coelho é um traquinas menor, um pobre diabo que jamais conseguirá surripiar qualquer migalha de poder aos senhores da Ilha. 

Mas o que da cena de ontem me motivou a escrever esta nota não foi, no entanto, nem a repetição da expulsão pela força do deputado da assembleia regional madeirense, nem o burlesco espernear do expulso ao colo da polícia de intervenção rápida, nem a falta do mínimo estremecimento do convidado conferencista constitucionalista com a derrogação da democracia na Ilha, nem o servilismo regional que continua a resguardar AJ Jardim dos seus atropelos constantes. Nada disso é novo, e a banalização enferrujou as dobradiças das portadas democráticas, que nunca foram abertas.  

O que me motivou a escrever esta nota é a persistente atonia dos partidos da oposição na região que, por falta de presença, deixam o palco livre para as tropelias do Coelho na fita infindável que somos, os cubanos do contenente, chamados também a pagar, e que tem como protagonista vitalício o fumador de habanos AJJ.

Friday, June 29, 2012

E TIRAR OLHOS?

Noticia o Público online de hoje que o ministro da Economia foi insultado e cercado na Covilhã quando saía do Parque da Ciência e Tecnologia, por algumas dezenas de pessoas que protestavam contra as medidas do Governo e contra o desemprego. O ministro "ainda parou para conversar mas, quando começou a ser insultado, rapidamente entrou para o carro"... "...alguns manifestantes tentaram travar a progressão do veículo com uma mulher, primeiro, e um homem depois e deitarem-se sobre a frente do carro. O carro do ministro acabou por seguir marcha e, pouco depois, os manifestantes desmobilizaram".

Ingenuidade excessiva do ministro, que não conhece o país nem os métodos dos sindicalistas da CGTP, e que classificou mais tarde a manifestação contra o Governo como "legítima"?

As manifestações, geralmente mobilizadas pela CGTP, começam a não poupar nenhum membro do governo nem, o que é gravíssimo, o Presidente da República, que deveria, sobretudo nas actuais circunstâncias, encontrar-se protegido de razões para as invectivas populares sempre que põe o pé na rua. Lamentavelmente, de algum modo por culpa própria, nem ele escapa.

Poder-se-á argumentar que a protecção policial, que não existia de todo, poderia ter evitado o confronto de hoje na Covilhã, e que nem o ministro nem quem o acompanhava se aperceberam que havia ameaças à porta. Discordo.

Quando há uns tempos atrás o PR, quando se dirigia para uma visita à Escola António Arroio, deu meia volta e faltou à chamada, por recomendação da segurança que considerou de risco o ambiente que se observava na AA, foi criticado de alto a baixo. No caso de hoje na Covilhã, se o ministro tivesse ignorado os manifestantes e metesse o rabo no carro protegido pelos casse-têtes da polícia, o que diriam a estas horas os media?

Continuo a considerar que um governo nesta conjuntura gravíssima necessitava de uma maior base de apoio parlamentar; continuo a considerar que o PM fez mal em desobrigar o PS de participar na execução dos compromissos a que obrigou o país; mas considero que não é de modo algum tolerável que um membro do Governo, e muito menos o PR, seja ou venha a ser enxovalhado na praça pública; e que os arruaceiros deveriam ser penalizados.

Ou vale tudo?

Monday, June 11, 2012

EM NOME DO ESTADO

Em nome do Estado acontecem situações repugnantes. Umas vezes do ponto de vista de uns, outras do ponto de vista de outros. Nunca a mesma coisa do ponto de vista de todos ao mesmo tempo. Ainda que se encontrem, frequentemente, de acordo os extremos por razões diametralmente opostas.

Ontem, na repetição do programa da Sic notícias à meia noite, os malfeitores reprovaram na generalidade a intervenção da PSP na intersecção de automobilistas suspeitos de terem impostos por pagar ou manifestações exteriores de riqueza sem declarações de impostos correspondentes.

- É uma intervenção espúria! (talvez as palavras tenham sido outras com o mesmo sentido). O que é que tem a ver a PSP com o ministério da Finanças? Isto é uma situação intoterável. Talvez até inconstitucional! - argumentou um que anda geralmente a sabor das circunstâncias
- Deixámos há muito de viver num estado de direito, confirmou a senhora do nariz arrebitado.
- É normal. Nos dias que correm o Estado está cada vez mais em toda a parte, disse o terceiro.
- É a perseguição aos pequenos delitos. Há quanto tempo andam a tentar legislar o fim do segredo bancário? Lembram-se? Pois é. Quando se trata de perseguir as fugas para os offshores a coisa é demorada; mas as medidas para apanhar os delitos menores aparecem de um dia para o outro, sentenciou o bloquista.

Estiveram, portanto, os quatro de acordo: é um abuso de poder colocar a PSP a colaborar com o fisco.
Uma perspectiva vesga em múltiplos sentidos (não há separação de poderes nos poderes do governo, a intersecção policial atinge também os carros de gama alta, etc.) que, no entanto, é susceptível de ser absorvida pela grande maioria dos que a ouviram, e que decorre do naipe de valores com que se joga na sociedade portuguesa. 

Hoje:

- Quanto tenho a pagar?
- O senhor é sócio?
- Não senhora.
- São dezoito euros e três cêntimos.

- Quanto devo?
- O senhor é sócio?
- Sim senhora. Está aqui o cartão.  
- São dezoito euros e três cêntimos.
- Não há desconto para sócios?
- Há. Esse é o preço para sócios.
- E se não fosse sócio, quanto pagava?
- A mesma coisa.
- ?
- Mas não levava factura.
- E qual é a vantagem?
- Pode ser interceptado pela polícia.
- E o que é que acontece a um cliente não sócio que seja interceptado pela polícia com a compra que aqui fez na bagageira do carro?
- O problema é dele.
- Mas se ele disser à polícia onde comprou?
- Nunca aconteceu.
- Mas se acontecer.
- Logo se vê.

Friday, November 04, 2011

ARTE COM M GRANDE


O Expresso online de hoje publica hoje aqui um artigo sobre graffitis nas carruagens da CP, os custos da limpeza, a reincidência permanente, a obstrução da visão dos passageiros sobre a paisagem.  

É uma reportagem de um exemplo revoltante (há, infelizmente muito mais, e muito mais graves)  do grau de indigência moral a que chegou   este país, da pusilaminidade colectiva, da desmobilização da segurança interna, da chacota corrente num estado que deixou de ser de direito.

É, no mínimo, caricato que uma empresa pública, encostada ao Orçamento do Estado seja incapaz de mobilizar os muitos meios internos de que dispõe para defesa primária dos seus equipamentos. É no mínimo inquietante a indiferença com que a polícia consente estes desacatos contra bens públicos. É no mínimo intolerável a forma como se aceita que estes desmandos continuem a ser levados à conta dos impostos que pagamos porque não podemos, os do costume, deixar de os pagar.

Mas é ainda mais inquietante  a erosão que estes e outros vandalismos,  atentados à segurança dos cidadãos e aos seus salários, provocam, lenta mas irreversivelmente, na democracia. Basta ler a generalidade dos comentários feitos ao artigo.

Saturday, March 05, 2011

VANDALISMO À SOLTA


Há vandalismo, cretinice, estupidez, mostruosidade, por toda a parte. Mas há mais de tudo isso nuns sítios que noutros. Em Portugal, lamentavelmente, a densidade de bestialidade é, relativamente, muito elevada. E não se vê, da parte de quem deveria prevenir ou penalizar os actos de vandalismo sobre o património público, a intervenção que o alastramento da   praga exige.
Entre o conjunto de edifícios construidos no local onde antes existia o Hotel Estoril-Sol e o passeio junto ao mar foi aberto um túnel e decorado com azulejos de Nadir Afonso. 
Quando por ali passei este Verão passado, fiquei encantado com a obra mas, imediatamente, pensei: Não tarda muito, estará vandalizado. Ainda não voltei lá mas já me disseram que, lamentavelmente, acertei. Não era difícil. Com tanto vandalismo à solta e impune, o que seria difícil era que tal não acontecesse.

Saturday, January 15, 2011

ASSALTOS

Casa de Manuel Alegre em Águeda foi assaltada e vandalizada.

A nossa foi assaltada. Vandalizada, parece que não.

Se a vandalização da casa de Alegre teve motivações políticas, e tudo leva  a crer que sim, porque o assaltante motivado apenas pelo roubo não perde tempo com a vandalização inútil da propriedade, o crime só pode ter efeitos contrários: o da vitimização de Manuel Alegre aos olhos da opinião pública.

Mário Soares, vítima na Marinha Grande da brutalidade de uns quantos fanáticos estalinistas, passou à segunda volta com Freitas do Amaral, e venceu as eleições.

Quem foi o imbecil ou o oportunista que se lembrou desta acção inqualificável?*

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Uma explicação aqui. Haverá tantas quantas os explicadores enquanto os criminosos não forem apanhados. Se alguma vez o forem.

Tuesday, December 14, 2010

ACERCA DA INVERSÃO DO PODER

Oficiais da PSP acusam Câmaras de Lisboa e Porto de quererem dinheiro das multas.

Tantos anos depois de recuperada a democracia, as corporações ainda não entenderam que em democracia o poder pertence ao povo que o exerce através dos seus representantes eleitos em liberdade.
Os senhores oficiais da polícia não percebem, ou não querem perceber, que não lhes compete gerir os fundos pagos pelos cidadãos, qualquer que seja o enquadramento legal que lhes dá cobertura.
Os senhores oficiais da polícia são funcionários públicos e, nessa condição, devem obediência aos representantes do povo.
Se os senhores oficiais da polícia pretendem passar por cordeiros e iludir a boa fé do povo, devem mudar de rebanho. Tornando-se políticos.

A propósito: Há dias, em Zurique, uma cidade rica, observei que há quem se voluntarize para passar multas de estacionamento, cuja receita reverte, evidentemente, a favor do município. Esses voluntários recebem formação adequada e são investidos da autoridade de multar quem prevarica nos locais de estacionamento público: ou porque se esqueceram de pagar, ou porque estacionam onde não devem, ou porque estacionaram mais tempo do que é consentido.

Em Washington, capital federal dos EUA, as multas de estacionamento são uma das fontes de receita mais relevante da cidade.

Resultado: Tanto em Zurique como em Washington, para dar só dois exemplos, o trânsito flui sem dificuldade. O trânsito em Lisboa é uma confusão medieval comparada com as capitais dos países dos outros países europeus.

Tuesday, July 14, 2009

LIBERDADE E SEGURANÇA

"They that can give up essential liberty to obtain a little temporary safety deserve neither liberty nor safety." -- Benjamin Franklin, Historical Review of Pennsylvania (1759)

"Quem troca a liberdade por segurança, acaba por não merecer nem uma coisa nem outra", citou, há dias, o Procurador-Geral da República, a propósito do aumento da intervenção securitária que muitos reclamam como forma de suster o crescimento dos índices de criminalidade, e que leva a generalidade das pessoas a considerar a segurança como uma das questões mais relevantes.

Citando Benjamin Franklin, (Thomas Jefferson teria dito mais ou menos o mesmo uns anos mais tarde numa carta a James Madison) o PGR pretendeu alertar para o risco que corre a liberdade da sociedade com a progressiva instalação de meios de controle das actividades dos cidadãos. Dois polícias tinham sido baleados na zona da Amadora e a questão coloca-se entre considerar o facto como um "risco que se corre", nas actuais circunstâncias, ou como "um acto intolerável" que exige o reforço de medidas que o tornem irrepetível.

JMFernandes, em editorial do Público do dia 10, considerava o discurso de Pinto Monteiro como o "mais à esquerda dos últimos anos, corajoso e desassombrado sobre o equilíbrio entre liberdade e segurança. Palavras certeiras mas que dificilmente qualquer partido subscreveria nos dias que vivemos".

Lê-se este e outros comentários, e parece ponto assente para muita gente que liberdade e segurança são irreconciliáveis: quando uma sobe a outra tem, inevitavelmente, que descer. Em certa medida, trata-se da mesma perspectiva, muito frequente, que considera serem incompatíveis nos políticos a competência na gestão com a honestidade de processos, a que aludi aqui.

Uma perspectiva de equilíbrio deprimente, porque exclui a hipótese de conciliação entre liberdade e segurança por um lado, e da competência e honestidade por outro. Talvez por isso, haja, entre nós, tantos casos de reeleição de políticos a contas com a Justiça e a Justiça não tenha o brio de garantir que a segurança seja a condição primeira de liberdade.

Tuesday, June 23, 2009

LIGAÇÕES PERIGOSAS

State of Play (Ligações perigosas, no título dado em português) é um thriller onde o cruzamento de situações e o inesperado desenrolar da história são condimentos habituais no género. Para além do entretenimento proporcionado pela intriga onde se movem jornalistas e políticos em caminhos de sombras, há dois ou três temas que são os mundos onde a história se desbobina.

Um desses temas é a segurança privada. Trata-se, sem dúvida, de uma actividade que tem vindo a crescer um pouco por toda a parte, motivada por duas razões fundamentais: porque a insegurança, percepcionada pelos indivíduos, é cada vez uma das maiores preocupações das sociedades; porque os Estados se têm mostrado incapazes de responder a esse sentimento alargado de insegurança crescente. Há ainda uma terceira razão que se coloca noutro plano de análise: a emergência do outsourcing oferecendo vantagens económicas e de especialização relativamente aos meios próprios das organizações.
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Em State of Play o outsourcing atinge a intervenção norte-americana em palcos de guerra (Iraque, Afeganistão) em manobras paralelas à das forças armadas. No thriller não é perceptível como e em que medida esse envolvimento ocorre, o que daria, seguramente, matéria para vários outros thrillers. Não sei se a série televisiva que precedeu este filme se alarga a este aspecto.
Do que trata State of Play é da captura do Estado pelas corporações de segurança interna (aliás, disfarçadamente, agregadas numa organização única) que, progressivamente, adivinha-se, acabarão por dominar completamente o Estado. Nessa captura participam os políticos comprados e promovidos por essas (por essa) corporações.
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A questão não é tipicamente norte-americana. Progride um pouco por toda a parte. Se há uma particularidade que coloca este assunto com a dimensão que thriller lhe dá, é o envolvimento militar norte-americano e a participação dos lóbis da segurança no envolvimento de empresas privadas à volta dos teatros de guerra.
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Mas a presença de guardas privados em Portugal, por exemplo, é tão evidente que causa estranheza ninguém dar por isso. Ou então habituámo-nos como o sapo em água a aquecer. Quando dermos por ela estamos cozidos.