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Tuesday, April 24, 2012

PARÁBOLA DO CASAL COM CONTA CONJUNTA


O Financial Times de hoje publica um artigo de Kenneth Rogoff ( professor de economia na Universidade de Harvard e co-autor de “This Time is Different”) - Uma parábola para o euro : um casal com uma conta bancária conjunta.


A parábola é conhecida, Kenneth Rogoff acrescenta, no entanto, um conjunto de outros titulares à conta inicial  para vincar mais a demonstração de que não há grupo que não acabe por se desintegrar se não houver entre os seus elementos um conjunto de valores centrípetos que lhes garanta unidade ao longo da viagem pelo tempo. 

Na sua versão original e mais simplificada que esta de Rogoff, pergunta-se se é possível a perdurabilidade da união de um casal que possui uma conta conjunta no banco mas um dos parceiros é perdulário ao ponto de afundar a solvabilidade e a credibilidade financeira do outro. A resposta óbvia é não. Por mais intensos que sejam os outros laços que os unem, mais tarde ou mais cedo o desregramento perdulário de um deles acabará por destroçá-los. A probabilidade dessa ocorrência aumenta quando aumenta o número de elementos ligados pela mesma conta conjunta. As vantagens, que também existem, na medida em que os banqueiros retribuem melhor as contas maiores, desfazem-se se um ou mais elementos do grupo colocar em causa a fiabilidade do conjunto.

Acontece o mesmo com um conjunto de países unidos por uma moeda comum. A mobilidade do factor trabalho entre os países membros é uma condição necessária mas não suficiente à coesão da união. Uma moeda comum exige, entre outros factores de coesão, uma autoridade fiscal central com autoridade tributária sobre os países membros, um regulador financeiro central, mas sobretudo não pode dispensar a legitimidade do poder de uma união política.

Em resumo: A União Europeia ou é uma união política legitimada democraticamente ou será desunião com todas as consequências dramáticas que esse divórcio implicará.

Dentro de algumas horas, cerca das 10 da noite, celebram-se 38 anos do início dos movimentos militares que no dia seguinte derrubariam um regime de quatro décadas que caiu sem que alguém tenha disparado um tiro em sua defesa. Este ano, as celebrações do 25 de Abril não vão contar com os militares representados na Associação 25 de Abril, Mário Soares também já fez saber que não contem com ele e Manuel Alegre, idem aspas. Argumentam, certamente por desmemoriação pontual, que a soberania do país está no prego e culpam este governo da afronta. 

Há dias, soube-se que o governo dos Países Baixos, que não se encontram em situação de fragilidade financeira, se demitiu por falta de apoio às medidas decorrentes do tratado recentemente assinado por 25 dos 27 membros da União Europeia.

Apenas  dois exemplos extremos, onde o incómodo das consequências da adesão a uma conta conjunta pré-nupcial ameaça acabar mais dia menos dia com a conta e destruir o grupo. A soberania, real ou imaginada, continua a determinar as emoções dos povos europeus enquanto eles não forem colocados perante a questão curial:

---, é de sua livre vontade ser europeu?, sujeitando-se a regras de convivência que não podem deixar de passar pela perda de soberania de cada um movimentar a conta conjunta conforme lhe der na real gana?  

---
Act. - É muito curioso, e essa foi a principal razão que me levou a escolher o artigo de Rogoff como tema do meu apontamento de hoje, que sejam sobretudo os economistas norte-americanos que defendem o federalismo como única saída para o impasse europeu. Na União Europeia, o assunto continua tabu. Mesmo os federalistas europeus não disfarçam o incómodo da, consequente,  perda de soberania, muitas vezes já largamente perdida.  

Tuesday, November 15, 2011

ESTEJAM À VONTADE!

Se quiserem sair, por favor, não façam cerimónia.

Partido de Angela Merkel aprova moção que permite saída de países da Zona Euro (aqui) sem que essa saída implique a saída da União Europeia.
“Não estamos a expulsar ninguém”, disse o ministro das Finanças Wolfgang Schaeuble, citado pela Bloomberg. “Queremos que a Grécia continue, que todos continuem”. Mas se um país não puder suportar o fardo ou não o quiser suportar e o povo grego tem de suportar um fardo muito pesado, então temos de respeitar a decisão do país”.

A moção aprovada pelos conservadores alemães parece mais óbvia do que na realidade é.
Se há 10 países da União Europeia que não fazem parte da Zona Euro, se um país sai de sua livre vontade da Zona Euro nada, em principio, impede que se mantenha na União Europeia. 

Mas a história pode vir a contar uma história diferente: Um país que seja obrigado pelas circunstâncias, quaisquer que elas sejam, a abandonar a Zona Euro, reoptando pela moeda nacional, será fustigado por uma vaga inflacionista que dificilmente poderá deixar de ser acompanhada por uma restrição à circulação de capitais e à emergência de um mercado negro de divisas, sobretudo euros. Uma e outra destas ocorrências é incompatível com a pertença a uma união de mercado livre.

Não será, portanto, idêntica à situação daqueles países membros da União Europeia mas não membros da Zona Euro a de um membro desta que passe à condição de apenas membro daquela.

E insisto: No caso da Grécia, a saída da Zona Euro, com todas as consequências que essa saída implicaria na vida dos gregos, geralmente já muito complicada, e digo geralmente porque há gregos por onde a crise nunca passará, poderia determinar a aproximação da Grécia aos EUA (hipótese menos provável, se atendermos à condição da Grécia como membro da Nato) ou à Rússia (hipótese mais provável, atendendo à proximidade cultural embebida na igreja ortodoxa ) até como reacção de um povo ferido com a falta de solidariedade europeia que passaria a ser, certamente, o protesto mais proclamado na rua grega. 

Há portas que quando se abrem reatraiem as saídas.

Saturday, January 22, 2011

SONHOS E RABANADAS - PARTE 12

- César! César! César!... (Por onde é que ele anda?) César!

(trrrrimmmmm)
(noque, noque, noque)
- ...
- Diz a César que se apresente!
- ...
- Posso?
- Já cá devias estar! Lê isto, aqui ! ... 
- Portugueses a um passo de inventar telemóveis de papel ...Um grupo de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa inventou as primeiras baterias de papel do mundo, que podem alimentar telemóveis e outros dispositivos eletrónicos...Nas baterias de papel tudo começa com um vulgar papel de escrita ...
- E, então?
- Parece-me uma grande conquista do Portugal Alegre, sem dúvida ...
- Só isso? Não te ocorre mais nada?
- Passam a ser ainda mais leves, os telemóveis..., por exemplo ...
- E que mais?
- Não só os telemóveis...vamos assistir, segundo tudo leva a crer a uma revolução total na electrónica. Os pacemaker, por exemplo, passarão a ser alimentados pela humidade quente da pele.  
- Isso também me pode interessar. E que mais? 
- Não me ocorre ...
- Ai César, César, o Continente bloqueou-te a imaginação. Pois não vês, César, que temos resolvidos de vez os nossos problemas da dívida ...  
- Sinceramente, não estou a ver como ...
- Explico-te. Explico-te, mas a minha paciência esgota-se, toma nota. Pois tu não vês que, não produzindo nós papel para as notas, produziremos papel para as baterias dos telemóveis ...
- E daí ...?
- Daí que passamos a ser autosuficientes na emissão monetária virtual. Acabaram-se as notas, nasceram os pagamentos por telemóvel... Temos pilhas de papel para a troca do resto, enquanto não produzirmos o resto. Brilhante, não?
- Quase ...
- Qual quase? 
- Os cientistas portugueses estão a trabalhar com uma papeleira brasileira...
- Não me digas! Quem são os traidores ...?
Não serão os desertores, que te parece?

Sunday, January 16, 2011

SONHOS E RABANADAS - PARTE 11

- O quê? Acabou-se o papel?!!! Como é que deixaram acabar o papel? Como?!!! O papel, a corda que lança a bóia à economia deste país sitiado? Quem?!!! Expropriem-se imediatamente a favor do Estado e por razões de sobreviência nacional todos os stocks de papel nos armazéns do país!!!
- Manel, ...
- Há papel!, há papel!, tem de haver papel a pontapés por aí! 
- Manel, ...
- Há papel! Como é que não há papel?!!!
- Manel, posso falar?
- Fala! Mas não me digas que não há papel!
- Há papel ...
- Claro que há! Procurem-no!
- O papel para a rotativa é especial, já uma vez te disse isso ...
- E, depois?
- Depois, temos o crédito cortado e os fornecedores recusam-se a expedir novas remessas ...
- Quem são eles?
- Todos.
- Estamos, portanto, perante um bloqueio idêntico ao que colocou Fidel de Castro à prova. Terão a resposta que merecem!...
- ...
- Tenho uma ideia! Tenho uma ideia! Tenho uma ideia! ...
- ...
- Acaba-se com o papel moeda neste país!
- ...
- Mandámos o euro às malvas, agora vamos mandar a rotativa para o museu! E também as caixas multibanco, esse confessionário do capitalismo em cada esquina! Sabes como?
- Não estou a atingir, confesso ...
- Pois é fácil. Aliás, a ideia não é nova. Por onde é que tens andado? Não lês os jornais?
Plástico, menino! Plástico! O futuro está no dinheiro de plástico. E, melhor ainda, no virtual. É uma roda já inventada, menino.  Mas nós vamos pôr a roda a rodar, fazer o que ninguém ousou fazer até agora. E ninguém ousou porque o papel moeda, para além dos trocos, é o meio de tráfico de negócios escuros que não deixam rastros. Acabaremos com eles! Com uma cajadada matamos todas as ratazanas que infestam a economia deste país. Não mais haverá corrupção sem vestígios, economia paralela, tráfico de droga, de armamento, de tudo o que engorda os ratos à custa do povo. E, sabes como?
- Continuo a não atingir...
- Te - le - mó - vel ! Telemóvel, menino. Através de um telemóvel podemos pagar, e portanto receber, tudo o que se quiser. É um cartão de débito sem cartão. Nunca ouviste falar?
- Tenho alguma ideia que sim...
- Pois é. Vamos ao trabalho e livremo-nos desses miseráveis papeleiros!
- Mas, Manel, ...
- Não há papel, já sei. Mas já não é preciso!
- Precisamos de telemóveis ...
- Toda a gente tem telemóvel ...
- Não sei se dão ...
- E porque não? Arrangem-nos!
- Há um pequeno detalhe, Manel ...
- Se é pequeno ...
- Mas é decisivo.
- E qual é, pode saber-se?
- Os fornecedores de papel são amigos dos fornecedores de telemóveis.
- Mas, afinal, o que é que se produz neste país?
- Papel, Manel. E do bom, segundo parece. Não dá é para notas.

Saturday, January 15, 2011

ASSALTOS

Casa de Manuel Alegre em Águeda foi assaltada e vandalizada.

A nossa foi assaltada. Vandalizada, parece que não.

Se a vandalização da casa de Alegre teve motivações políticas, e tudo leva  a crer que sim, porque o assaltante motivado apenas pelo roubo não perde tempo com a vandalização inútil da propriedade, o crime só pode ter efeitos contrários: o da vitimização de Manuel Alegre aos olhos da opinião pública.

Mário Soares, vítima na Marinha Grande da brutalidade de uns quantos fanáticos estalinistas, passou à segunda volta com Freitas do Amaral, e venceu as eleições.

Quem foi o imbecil ou o oportunista que se lembrou desta acção inqualificável?*

---
Uma explicação aqui. Haverá tantas quantas os explicadores enquanto os criminosos não forem apanhados. Se alguma vez o forem.

Thursday, January 06, 2011

SONHOS E RABANADAS - PARTE 9


(noque, noque, noque)

- Entra! O que é que se passa? O que é que se passa de tão grave que tenha de ser interrompido quando estava a apontar uns alexandrinos? Morreu o euro?
- Ainda não Alteza. Está lá fora uma delegação da Associação de Depositantes  com Retorno Certo Espoliados do Banco Privado Português ...
- Ah, estão? Deixa-os estar! Não. Diz a César que os receba.
- Já tentei, mas eles dizem só aceitam ser recebidos por Vossa Alteza. 
- E o que é que eles querem?
- É assunto confidencial, disseram eles.
- Manda-os entrar! E diz a César que também entre.
...

(noque, noque, noque)

- Entrem! Então o que é que os traz por cá?
- Somos representantes da Associação ...
- Já fui informado. Adiante ... posso ajudar?
- Não se trata tanto de ajudar mas de pagar...
- Pagar?!!! Pagar o quê?
- Pois a diferença entre o valor de um gato e de uma lebre.
- Não percebo. Expliquem-se, vão directo ao assunto, tenho mais que fazer!
- Sem mais rodeios a questão é esta: Vossa Alteza ajudou a promover, para além das espingardas Purley, questão que não nos diz respeito até porque não caçamos, os méritos um banco que se veio a tornar num esgoto. Admiradores da sua frontalidade e lisura seguimos-lhe a sugestão e confiámos ao banco as nossas economias...
- Retirei o apoio e devolvi a massa!
- Não demos por isso. Tínhamos depositado a nossa confiança e o dinheiro no local indicado. Agora é tarde e o dinheiro esfumou-se...
- Mas não fui só eu ...
- Pois não. Estamos a contactar todos aqueles que fizeram o mesmo. Dividido por todos, calha a bagatela de 5 milhões de euros a cada...
- Cinco milhões?!!! Vocês estão doidos?!!!  Há um tipo que embolsa 150 mil, safa-se deste berbicacho da presidência e, no máximo devolve os 150 mil e alguns juros. A mim, que embolsei e desembolsei 1500, querem vocês 5 milhões!!!? 
- É uma questão que os tribunais apreciarão se Vossa Alteza assim o etender... Os 150 mil embolsados pelo outro não induziram mais ninguém a fazer o mesmo.
- César, vamos aqui à sala ao lado.
...
- O que é que te parece?
- Parece que a coisa está preta. Se salta para os tribunais não se resolve em menos de dez anos e arruina-te a glória.
- Achas que é melhor pagar?
- Não acho, tenho a certeza. Pagando, fica o caso abafado.
- Pois que se pague! Quantas coroas são 5 milhões de euros no mercado oficial?
- Qualquer coisa como sete mil e quinhentos milhões ... É uma pipa de massa ...
- Manda imprimir!
- Mas, Manel...
- Já não há papel?
- Haver, ainda há ... Mas a dívida é tua e a impressora é do Estado ...
- Pois que se faça como fizeste na Ilha. Pede-se um empréstimo ao banco e entregam-se ao banco sete mil e quinhentos milhões de notas novas...
- Qual banco?
- Pois  qual é que pode ser se não o BPP? Ficam resolvidos os problemas dos depositantes e os do banco, hem? boa solução, não?
E andaram aqueles bananas durante anos a arrastar isto!

Wednesday, January 05, 2011

ALEGRE COM DEZ REIS DE MEL COADO


Teresa Caeiro referia-se a uma campanha publicitária do BPP em que participaram, além de Manuel Alegre, o social-democrata José Pacheco Pereira, o músico Pedro Abrunhosa, o escultor João Cutileiro, o advogado Proença de Carvalho, o pintor Julião Sarmento, entre outras personalidades.

Segundo o próprio Manuel Alegre afirmou ao "Diário de Notícias", em Dezembro de 2008, assim que se apercebeu da situação do BPP devolveu o cheque de 1500 euros relativo ao pagamento da sua participação na campanha publicitária.

Toda a gente, que se queira lembrar, se lembra que durante meses o Expresso publicou nas duas primeiras páginas da Única anúncios dessa outra instituição de logros que se chamava BPP, que, a par do BPN, constituem, para já, os exemplos da sordidez que atingiu o sistema financeiro em Portugal.

Nunca percebi como é que gente distinta e de vários quadrantes políticos se dispunham a escrever, ou a subscrever,  um texto mais ou menos desmiolado que o criativo da agência publicitária acompanhava de comentários vendedores dos supostos méritos do banco publicitado. E perguntava-me: Quanto ganha este tipo para se prestar a este papel ridículo? Imaginei uma quantia fabulosa admitindo que, afinal, talvez seja verdade que todo o homem, ou mulher, tem um preço e que o daquela gente fina deveria ser muito elevado.
Dez mil euros?
Cinquenta mil?
Cem mil?
Por quanto venderia Proença de Carvalho, um advogado afluente e influente, para dar a cara por aquele banco privado? Provavelmente seria advogado do banco e o seu cómico testemunho estaria incluido na conta.

E Manuel Alegre? Por quanto teria vendido a sua pena? Imaginei uma pequena fortuna porque, lá está, se todo o homem tem um preço, o preço de um poeta teria de corresponder à sua grandeza. Cem mil?

Não. Afinal foram 1500.
Como é que a pena que escreveu Nambuangongo, meu amor se submeteu a uns trocos de uma tença bancária? Antes o tivesse feito por uma boa margem entre a compra e a venda de umas acções do banco. Mas por 1500 euros, Manel? Vales tão pouco?
Ainda por cima os devolveste, nem precisavas deles, e a tua valia nem sequer foi condicionada por eventual indigência.

Sunday, December 12, 2010

JET LAG

Tinham passado dezassete horas entre a saída de casa e a chegada ao destino. Eram duas da manhã em Lisboa e apetecia ingerir qualquer coisa. O que há para aí que se coma? Havia várias alternativas mas escolhi feijoada de chili. Chili? A esta hora, Rui? Que disparate!
Feijoada de chili, pouca coisa, que nem a idade nem a hora convidam a exageros.

Acordei eram 7,30, hora de Portugal.  

Fui ver as notícias.
Os resultados das eleições de 23 de Janeiro tinham obrigado a uma segunda volta, e a esquerda reagrupada tinha dado a vitória a Alegre. Sócrates, contrariamente ao que geralmente se tinha suposto, empenhara-se na campanha de modo a transformá-la num plebiscito à sua governação. Ou eles ou nós, tinha sido o lema que colocara o camarada Manel em Belém. Ontem, quinta-feira, aconteceu o primeiro encontro entre o PR e o PM.

- Zé, antes demais, toma nota de que temos de atribuir a partir deste mês, e com efeitos retroactivos a 1 de Janeiro, um subsídio a todos quantos foram feitos cortes de salários e pensões ...
- Não podemos, Manel, não podemos ...
- Não podemos?!! Era o que faltava! Como é que não podemos e o César pode?
- A César o que é de César, Manel. O César tem poderes que eu não tenho.
- Como não tens? Não és, tu, o primeiro-ministro deste País?
- Pois sou. Mas, Manel, assumimos compromissos que não podemos deixar de cumprir. Bem vês, o défice, o mercado, o euro, a Merkel ...
- Pró diabo a Merkel ... Abandonemos o euro!
- Seria uma tragédia, Manel.
- Porquê?
- Porque o que devemos ao exterior, devemos em euros, ou em dólares, tanto faz ... Se voltássemos ao escudo ...
- Não. Voltamos às coroas ... O escudo nunca foi popular. Quem não falava em contos falava em paus. E de um tipo com massa dizia-se que tinha umas coroas. Ainda sou do tempo das notas de vinte escudos, que começaram por ser de vinte mil reis e passaram a ser de vinte paus. Dois-escudos-e-cinquenta-centavos eram vinte e cinco tostões e depois cinco coroas. Um escudo, dez tostões, depois duas coroas ... És novo demais para saberes destas coisas.
-...
- Estive a fazer umas contas, abandonamos o euro e introduzimos a coroa: Cada euro, quinhentas coroas... Só vantagens.
- ...
- Os subsídios compensatórios à César, já os podemos atribuir em coroas. Por cada 100 euros que cortaste atribuis 50 mil coroas de subsídio. Como já estamos em Julho, cinquenta vezes sete são trezentas e cinquenta  mil coroas de retroactivos nos salários mais cinquenta no subsídio de férias, seja quatrocentas mil coroas por cada cem euros. Já viste o impacto disto na economia?
- Mas, Manel ...
- Depois temos o salário mínimo. Andam para aí com discussões mesquinhas à volta de meia dúzia de euros ... Aumenta-se para ... Ora deixa cá ver, 500 euros serão 250 mil coroas, aumenta-se para 300 mil coroas por mês ... O que é que achas?
- Acho bem, mas ... nesse caso, bem vês, temos de arranjar dinheiro para pagar o que devemos em euros ...
- E arranja-se, qual é a dúvida?
- Só vendendo a Caixa aos estrangeiros ...
- Nem pensar!
- E as águas?
- Só por cima do meu cadáver!
- E a Madeira ... e os Açores ...
- Não estás a falar a sério, pois não?
- Nunca falei tão a sério na minha vida. De uma cajadada matavam-se dois coelhos.
- Nem mais uma privatização, ouviste?
- Seremos expulsos da União Europeia.
- E da Nato, espero.
- Provavelmente.
- Não nos expulsarão daqui!
- Não ganharemos para o petróleo.
- Temos as renováveis.
- Por enquanto, não chegam.
- Instalem-se mais!
- Precisamos de capitais.
- Não os deixem sair.
- Fugirão.
- Nacionaliza-se a banca.
- Somos minoritários na AR.
- Dissolve-se a AR.
- E se perdemos?
- César nunca perde. Zé, César nunca perde!

São dez e meia da manhã em Portugal.
Quem te mandou, a ti, Rui, comer o chili às duas da manhã?

Sunday, November 14, 2010

CONVERSA FIADA

É notável a impotência da autodenominada esquerda progressista para ultrapassar os limites da sua dialética e assumir-se responsavelmente como alternativa aquilo que odeiam: o statu quo do braço dado pelo centrão. Vocacionados como contra-poder derrubam as pontes e ficam do outro lado a fazer manguitos se os desafiam a mostrar o que valem. O PS, pela voz dos seus mais destacados dirigentes, reafirma a cada passo que não há viabilidade para uma governação em coligação à esquerda. 

É péssimo. Quando as eleições não atribuem maiorias absolutas, Portugal está condenado a governos minoritários ou a acordos, de coligação ou de incidência parlamentar ao centro. Em situação de crise profunda e prolongada, é dramático. É, sobretudo, nestas ocasiões que a esquerda dita progressista desempenha um papel extremamente nocivo para a democracia e para o País, porque nem quer governar nem deixa governar. 

Enquanto, por via de uma solução de sistema eleitoral, não for reduzido o papel dos partidos que se alimentam do descontentamento dos eleitores e recusam acordos que lhes possam atribuir responsabilidades governativas, os eleitores portugueses estão condenados a não terem alternativas credíveis: ou o centrão ou a confusão. 

Aqui escrevem uma dezena de economistas que configuram bem a revolta mas também a impotência dessa esquerda que quer mudar o mundo mas não sabe por onde lhe pegar. Hoje, diz um deles, "Isto está tudo mal ligado... " e atribui as culpas aos economistas de Belém, ao actual PR, a Angela Merkel.

Está tudo mal ligado?
Respondi-lhe: Está, claro que está.

Quando o JR faz uma análise crítica disto e culpa os economistas de Belém e Cavaco, até parece que o PR é quem governa.
Não é possível escrever com um pouco mais de isenção?

Por exemplo: Não seria esperável que Alegre, candidato que os LB apoiam, dissesse claramente o que fará se for Presidente?

Demite o Governo e convida o PS a formar uma coligação de esquerda com o BE, eventualmente, e desejavelmente com o PCP?

Se Alegre é apoiado pelo BE e pelo PS, o mais óbvio seria, para bem da separação das águas, que defendesse um governo de maioria à esquerda. Não?

E, então, a influência de Belém passaria pelos LB, que apoiam Alegre.

Assim, nada feito. Os LB continuarão envoltos de revolta contra Merkel, Cavaco etc., mas também na própria impotência da sua esquerda de se assumir, como tal, como alternativa de governo.

Porque é aí que a porca torce o rabo: rabejadores por vocação não sabem como agarrar-se ao cachaço do touro e dominá-lo, de caras ou mesmo de cernelha.

Tuesday, June 01, 2010

AFIRMA SOARES

Sócrates cometeu um erro grave, que poderá ser-lhe fatal e ao PS"
.
O antigo presidente da República, em artigo de opinião no DN, ataca a opção do PS de apoiar Manuel Alegre nas presidenciais de 2011. Mário Soares diz: "Como socialista, e pensando como sempre e só pela minha cabeça, entendo ter a obrigação de dizer o que penso." Mas Soares não está sozinho na crítica à solução.

Wednesday, May 05, 2010

ALEGREMENTE

Como poeta, um político.
Como político, um poeta.