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Sunday, June 18, 2017

TERIA SIDO POSSÍVEL EVITAR UMA TRAGÉDIA TÃO GRANDE?

Quando, esta manhã, ouvi a notícia da tragédia perguntei-me se não havia gente nos postos de observação de fogos, activos e atentos, quando o fogo deflagrou a meio da noite. E se, tendo observado fogo, foram avisadas imediatamente, entre outros, as entidades que poderiam ter encerrado as entradas nos fornos crematórios em que, provavelmente, se iriam transformar as principais comunicações rodoviárias naquela área.  

Algumas horas depois ouvi uma entrevista, depois publicada aqui, e que transcrevo a seguir.
Como o engenheiro Paulo Fernandes, também considero irresponsável o coro que se apressou a desresponsabilizar tudo e todos porque as causas foram naturais e, segundo o coro, foi feito tudo o que poderia ter sido feito.
Não foi, senhor Presidente da República, não foi, senhor Primeiro-Ministro. 
Mandem averiguar. 
Aqueles que foram sacrificados pela eventual incúria de alguém impõem-nos que o assunto não seja sumariamente encerrado com o convencimento de que vivemos no melhor dos mundos quando a dimensão desta tragédia nos avisa do contrário.  

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Teria sido possível evitar uma tragédia tão grande? Especialista acredita que sim
“No mínimo, pedia-se que se tivessem encerrado as estradas a tempo e horas”, defende o engenheiro florestal e especialista Paulo Fernandes.

A pergunta que todos fazem agora é: teria sido possível evitar esta tragédia? Paulo Fernandes, engenheiro florestal e professor no Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, acredita que pelo menos teria sido possível minimizar a sua dimensão. Desde logo porque era possível antecipar que existia um potencial de factores combinados, como a temperatura elevada, ventos muito fortes e, sobretudo, a instabilidade atmosférica (trovoadas e raios), que já estava prevista há dias, explica. “Uma mistura fatal”, sintetiza.
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“Estas coisas nunca são totalmente previsíveis, mas o sistema tem de estar preparado. No mínimo, pedia-se que se tivessem encerrado as estradas a tempo e horas”, defende o especialista, que se espanta com a surpesa manifestada por vários responsáveis no terreno. “Estou é surpreendido por isto não ter acontecido antes e mais vezes”, enfatiza.
Paulo Fernandes faz um paralelo com o que aconteceu em 2003 [ano em que arderam 152 mil hectares de floresta e morreram 21 pessoas], “com incêndios enormes causados por raios” e lamenta que os fogos naturais sejam em Portugal sistematicamente desvalorizados por representarem apenas 2% do total.
“Temos de estar preparados. Em Portugal, não há pessoas especializadas em meteorologia de incêndios, há académicos, mas não há operacionais”, diz, notando que qualquer país com este potencial adverso tem de ter pessoas a trabalhar nestas áreas “a tempo inteiro”.
Todo o sistema de prevenção e combate a incêndios precisa, aliás, de ser reformado, defende. “Esta originalidade portuguesa de ter fases alfa e charlie não faz sentido hoje. Um sistema moderno não pode estar dependente do calendário, tem de ter flexibilidade para responder sempre que necessário, até por causa das alterações climáticas.”

A própria concepção do sistema, “pulverizado por várias forças com pouca massa crítica, torna tudo mais difícil”, acrescenta, lembrando que temos “um sistema muito focado no combate”, em que 90% do investimento é para esta área.
Mas Paulo Fernandes também acentua que se lembrou dos incêndios ocorridos em 2009 na Austrália, “um dos países mais avançados na prevenção e combate e até na preparação das pessoas” para lidarem com este tipo de situações. Nesse ano, morreram na Austrália cerca de 170 pessoas, “quase todas quando tentavam fugir”. Mas a frente das chamas chegou a ser de 200 quilómetros e as projecções (de materiais, como cascas) chegaram a 30 quilómetros, nota.

Agora, o que pede é que se retirem ilações desta tragédia. “Acho inconcebível que responsáveis do Governo e até o Presidente da República comecem logo a declarar à queima-roupa que tudo correu muito bem”, porque isto, acredita, contribui para “a desresponsabilização”. 

Sunday, July 15, 2012

TEORIA LOUÇÃ E PRÁTICA PASSOS COELHO

A expressão é do primeiro ministro e foi  por ele usada durante o recente debate na AR sobre o estado da nação. Passos Coelho, a propósito  de uma intervenção do líder do BE, ironizou com a "Teoria Louçã": "estou falido e não tenho como pagar, mas tenho um amigo que tem crédito que eu não tenho. E digo-lhe para ele ir pedir um empréstimo, pagar os juros que eu depois quando tiver dinheiro pago-lhe, mas não os juros". (cit aqui). A ironia primária do PM foi, esperadamente, aplaudida entusiasticamente pelas bancadas que apoiam o governo.

Louçã, que abafa muito dos seus discursos mais válidos quando os embrulha na opacidade da demagogia, tinha, na sequência do julgamento de inconstitucionalidade dos cortes e pensões da função pública e das pensões dos regime geral  da segurança social (pensionistas do sector privado), apontado para outras alternativas de redução défice e, nomeadamente, os juros agiotas da dívida pública.

Louçã não disse, no entanto, como é que podem ser evitados os juros que representam, de longe, a fatia maior da despesa do estado. Renunciamos à dívida e, consequentemente, aos juros? Ou solicitamos renegociações, com as diferentes mas inevitáveis consequências que qualquer destas opções implica? Louçã, se pretende ser levado a sério,  não pode ficar-se pelo enunciado de propostas sem lhes pesar os efeitos. Nem pode o seu discurso ser um conglomerado de tiradas que não tecem uma estratégia coerente de interesse público, para além dos interesses políticos próprios do bloco que lidera condicionados por uma ideologia radical.

Mas a ironia fácil de Passos Coelho, neste caso, não foi menos demagógica que a de Louçã. Porque o PM sabe bem que i) Portugal não pode pagar a carga da dívida e dos juros se não houver renegociação que aligeire significativamente essa carga; ii) que essa situação foi em grande medida fomentada pelos banqueiros credores que, ao privilegiarem os lucros e os bónus a curto prazo, esconderam os riscos; iii) que a situação engendrada está a penalizar fortemente os membros mais fragilizados e a beneficiar escandalosamente os outros, dentro de uma união que provadamente deixou de o ser; iv) que o sistema que permitiu o descalabro continua praticamente intocado e os seus mentores confortavelmente incólumes; v) que a UE não tem viabilidade de continuidade dentro dos parâmetros  em vigor.

Passos Coelho sabe, não é crível que não saiba, que "Insanity is doing the same thing over and over again, expecting different results" - Albert Einstein. O seu antecessor, pelos vistos não sabia. Esperava-se que Passos Coelho tivesse aprendido.

Friday, April 15, 2011

Saturday, April 09, 2011

47 PERSONALIDADES 47



O Expresso de hoje publica um apelo de compromisso nacional subscrito por 47 personalidades, incluindo Eanes, Soares e Sampaio, cinco reitores, empresários, vultos da cultura, da ciência e da política.

Mais vale tarde que nunca, mas os quarenta e sete chegam atrasadíssimos.

Anotei dezenas de vezes neste caderno que para enfrentar a crise o Governo deveria ser maioritário e pluripartidário e que o PR, não se encontrando reunidas essas condições por iniciativa partidária, deveria ter sido muito mais interveniente e, sobretudo, não deveria ter dado posse ao actual Governo minoritário sem ter esgotado todas as possibilidades de contribuir para que o País fosse governado com maior consenso e firmeza.

Dezenas de vezes me responderam, os meus amigos e muitas pessoas com quem falei, que o PR não o fez porque não podia nem deveria fazer mais nada. Geralmente, estas respostas reflectiam as ideias que sobre o tema passavam nos media. Só muito recentemente mudaram as opiniões e se lembraram de Santa Bárbara.
Porque são pouco sagazes, pouco informados, pouco espertos? Nada disso. Uma parte, porque a ideologia lhes exigia o compromisso de fidelidade partidária, pelo menos pública, uma outra porque aguardava que o one man show se espalhasse, ainda outra porque os compromissos têm custos. O PR porque queria recandidatar-se e PR que não mexa é reeleito pela certa.

Agora, mas só agora, quando a confiança entre os principais artistas está em cacos, 47 personalidades se levantam da plateia e clamam: meninos, ponham-se de acordo naquilo que é fundamental para o País antes de começarem o espectáculo de luta livre. Não seria mais eficiente que as recomendações tivessem sido feitas nos bastidores?

Na abertura do congresso do seu partido, o PM discursou exaltadamente com promessas aos fiéis e acusações aos adversários, enchendo de certezas na sua liderança o peito de filiados e simpatizantes, regendo uma liturgia de infalibilidade dogmática. Na véspera, tinha feito o que já devia ter feito há muito nas reafirmara sempre que não faria, mais uma vez sem dar cavaco ao PR, que soube pela comunicação social - o pedido de ajuda externa. No dia seguinte, o ministro das finanças endossava para o PR a responsabilidade de coordenar a negociação daquilo que ele, PR, tivera conhecimento ao mesmo tempo que o cidadão comum.

Mais do que publicitarem um documento subscrito por 47, os 47 deveriam começar por falar com os artistas. A começar pelo secretário-geral do PS a quem deveriam fazer entender que, por mais que isso lhe doa no ego enorme, ele não é dono do país.

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Friday, April 08, 2011

AFIRMA NARCISO


Outro ressabiado?
Admitamos que sim. Mas o que não pode é negar-se oportunidade ao comentário.

Wednesday, April 06, 2011

XERAZADE E O FILÓSOFO

Carrilho: Comportamento de Sócrates «trai» interesse do país. Manuel Maria Carrilho considera que a forma como o primeiro-ministro demissionário está «agarrado ao poder» o torna «incapaz de servir» vd vídeo aqui.

Pode pensar-se que se trata de um testemunho de um ressabiado, afastado do lugar que ocupava na UNESCO sem aviso prévio. Será?
Ou trata-se de uma apreciação à personalidade do PM, de alguém que o conhece de perto, e que, muito ajustadamente, a retrata?

A cada qual a sua perspectiva, e, para muitos admiradores de Sócrates, todos os seus actos são acertados e as suas palavras pérolas admiráveis. Afirma Carrilho que Sócrates é um contador de histórias para prolongar a sua vida política. Um bom contador, reconheça-se.

O problema dele, o nosso problema, é que histórias destas não pagam dívidas.

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Estava a rematar este apontamento quando ouço a notícia de que o Governo decidiu hoje enviar à UE o pedido de ajuda externa. Não é caso para dizer que mais vale tarde, porque nunca só era possível numa obstinação insustentável. E porque tão tarde só agravou a dureza das medidas que teremos de suportar.

Wednesday, March 23, 2011

UM EXAGERO

O artigo que acaba de ser publicado no Economist, e que transcrevi aqui, exagera no título: The death of Sócrates. ( Este título remete-nos obviamente para o quadro de David e a mensagem de Mark Twain: a notícia da minha morte é um exagero, c/p a seguir).

Sócrates prometeu continuar a lutar pelo PS quando avisou que um chumbo do PEC 4 na AR o levaria a apresentar a demissão.

Ninguém que promete luta está morto.
E com Sócrates nunca se sabe até onde chega a dimensão da sua condição de animal feroz. Expressão dele, como se sabe. Outro exagero?

THE DEATH OF SÓCRATES

The Portugal governement´s collapses

The death of Sócrates

IN IRELAND a bail-out by the euro zone’s rescue fund helped to force the government into calling (and losing) an early election. In Portugal an early election may force the government into accepting a bail-out. The question is: which government?

Tonight's defeat of the minority Socialist government, led by José Sócrates, in a parliamentary vote on austerity measures—the fourth such package in 12 months—triggered his prompt resignation as prime minister. But it also created a political vacuum in which nobody may have enough authority to negotiate a bail-out.

Few doubt that Portugal is close to the moment when it has no alternative but to seek assistance from the European Financial Stability Facility (EFSF), the euro-zone’s bail-out fund. But economists say that the crisis increases the chances that Portugal will need EU funds soon. Commerzbank predicts it will “increase pressure on Portugal to accept EFSF aid over the coming days”.

The austerity measures, which included a special tax of as much as 10% on pensions above €1,500 ($2,110) a month, were drafted with input from the European Central Bank and the European Commission as an “additional guarantee” that Lisbon would meet its fiscal targets. But Pedro Passos Coelho, leader of the centre-right Social Democrats (PSD), the main opposition party, refused to support them because they were aimed at “the most vulnerable”.

The PSD has a big lead in the opinion polls. And unlike Mr Sócrates, who has fiercely resisted a bail-out, Mr Passos Coelho is ready for one. That is because, as Antonio Garcia Pascual of Barclays Capital says, the PSD might not feel that it has much to lose from a bail-out if, as seems likely, the blame falls on Mr Sócrates's government instead.

It now falls to Aníbal Cavaco Silva, Portugal’s conservative president, to sort out the immediate future. The general election he is likely to call cannot legally be held for a minimum of two months; it will probably not happen before mid-June. Mr Sócrates would normally expect to stay in office as a caretaker (he was due to attend this week’s EU summit in Brussels, for example). But his powers to negotiate are limited. So Mr Cavaco Silva might call on all political parties to form an interim coalition. Or he could appoint a transitional non-party “technical government”.

Gilles Moec, head of European economic research at Deutsche Bank, says a “technical cabinet” would be better placed to negotiate a bail-out. But he argues that the Irish experience would probably deter other European countries from cutting a deal with a government that lacks the clear backing of its parliament. Portugal’s bond yields are already higher than at any time since the country joined the euro (see chart).


Yet Emilie Gay, an economist with Capital Economics, notes that Portugal’s budget deficit is lower than in most other troubled euro-zone economies. The country’s most serious challenge, she says, is to avoid “another lost decade” of low growth. Since the start of the euro in 1999 Portugal has been on average the slowest growing economy in the club, despite being its poorest member when it joined.

Ms Gay concludes that Portugal is likely to become the third peripheral euro-zone country to need a bail-out. Yet to overcome the deep-seated structural problems which have held back the economy will take not just rescue money but ambitious reform as well. The country’s need to issue debt is only €2 billion or so a month. Although that is small by most measures, and the government may have enough cash to meet redemptions in April, Portugal could struggle to last until June. Yet the markets are expecting action long before then. In mid-March Moody’s, a rating agency, downgraded Portuguese debt.

Portugal’s political turmoil and its urgent need for a rescue will create new problems at the EU summit, which is due to sign off on an effective expansion of the bail-out fund and a German-led “pact for the euro”. If EU leaders agree to bail out Portugal, they may find they have already used quite a big chunk of their fund. Judging by experience, the markets will then move on to attack the Spanish. The bail-out fund can easily finance Portugal. But it is not clear that it could deal with Spain.

O DIA DO GRANDE DISPARATE

A esta hora ainda não começou a sessão de pugilato verbal (espera-se que fique por aí) na AR.

Tudo leva a crer que o PEC 4 vai ser chumbado, muito provavelmente com os votos da oposição, ou a abstenção de alguns, sobre a proposta de resolução do PSD para a rejeição da proposta do Governo.  Consumar-se-á o objectivo de José Sócrates de precipitar a queda do governo e medir forças em eleições legislativas antecipadas,  uma opinião que a Oposição, onde se destaca a importância parlamentar relativa do PSD, transformou em argumento contra Sócrates mas que este vai, certamente, fazer reverter a seu favor durante a campanha eleitoral.

Até que ponto o vai conseguir é um dos tais prognósticos que só são consistentes depois de conhecidos os resultados.

O dia de hoje promete ficar para a história como aquele em que todos vão ajudar a afundar ainda mais o país, e o PSD, pela forma como se tem conduzido no caminho para a crise que Sócrates alargou, deu uma muleta a Sócrates para ele se levantar.

Se, como tudo leva a crer, Sócrates apresentar a demissão ao PR esta tarde, Cavaco Silva poderia corrigir o rumo para o desastre completo convocando os partidos para formarem um governo maioritário pluripartidário, eventualmente sem Sócrates, no âmbito do actual arco parlamentar e informar o país dessa alternativa que, no actual contexto, seria o mal menor. Mas nada leva a pensar que ele o fará, preferindo integrar-se no cortejo do disparate.

Tuesday, March 22, 2011

ANGÚSTIA PARA DEPOIS DE AMANHÃ

O apelo angustiado de Mário Soares no DN de hoje seria uma angústia patética se Soares não fosse quem é: um político experimentadíssimo nas artes políticas de vestir com palavras convictas intenções ocultas.

Porque, lendo este apelo de Soares, ninguém poderá deixar de concordar que o velho senhor tem toda a razão: Cavaco deve, neste momento crítico da vida nacional, dizer o que importa ser dito. Uma crise política, que no caso de eleições antecipadas se prolongará até ao último trimestre do ano, na melhor das hipóteses, arrasará ainda mais o já debilitadíssimo corpo do país.

Mas basta, ou é pelo menos um factor desbloqueador do actual impasse, que o PR se dirija à AR e diga aos deputados o óbvio? Claro que não é.
Quanto muito, e é essa a intenção encoberta do apelo de Sócrates, ajudaria a justificar perante a opinião pública as acções e omissões do PM no processo que está na origem desta recaída grave das relações entre os dois principais partidos.
Note-se, a este propósito por exemplo, que Soares denuncia as pressões internas no PSD para a convocação de eleições mas omite completamente as intenções no PS e as responsabilidades de Sócrates no desencadear da recaída.

O PR deve intervir. Há muito tempo que escrevo isso mesmo neste caderno. E agora mais que nunca. Mas Cavaco Silva encontra-se enquadrado por uma moldura constitucional que limita os seus poderes aos de notário do Estado e a dissolver a AR, o oito e o oitenta. Os constitucionalistas que gizaram as estruturas fundamentais do regime e os que as alteraram conceberam um edifício absurdo: o de convocarem o povo à eleição por sufrágio universal de um presidente com uma intervenção condicionada a ser exercida nos extremos. Mário Soares poderia promover a abertura do debate urgente desta absurdidade.

Mário Soares poderia ainda, com a autoridade moral que todos lhe reconhecem, dizer que a governação do país exige um apoio parlamentar muito amplo e que esse apoio deve ser promovido pelo PR mas que só pode ser atingido se o actual secretário-geral do PS e PM estiver disponível para aceitar partilhar a definição dos objectivos necessários, dos meios para os atingir e a realização das correspondentes acções.

Porque Mário Soares sabe, toda a gente sabe, que a alternativa às eleições antecipadas é a renúncia de Sócrates à liderança obsessivamente isolada de um país sujeito a ameaças de todos os lados.

O problema com que o país hoje se confronta não é de agora. Repito-me pela enésima vez: Cavaco Silva não deveria ter dado posse a este Governo da forma expedita com que o fez, atendendo às condições já periclitantes da altura.
A partir do início dessa aventura com naufrágio anunciado, Sócrates convenceu-se que poderia governar como se dispusesse de maioria absoluta porque o mar era de rosas. E as oposições estariam dispostas a aceitar-lhe todas as decisões. Não estavam, e ele sabia bem, que não estavam, não tinham estado já quando ele dispunha de maioria absoluta e foi obrigado a recuar com inicitivas de reformas que as oposições, muitas vezes estupidamente, diga-se em abono da verdade, boicotaram.

Mário Soares poderia, se quisesse dar mais um grande contributo para a consolidação da democracia e evitar a angústia que o atormenta, falar com Sócrates: Zé, é tempo mudares. Ou mudas de estilo, e alargas a base de apoio de um governo que possa completar a legislatura,  ou pedes a passagem à reserva. Eleições legislativas antecipadas só te garantem lá para Outubro, na melhor das hipóteses,  uma situação tão ruim como aquela em que nos encontramos e tu teimas não reconhecer.

Mas também a lucidez de Mário Soares é obnubilada pelo clubismo que fomenta um maniqueísmo, que ele repudia mas que o infectou irreparavelmente há muito.    

Monday, March 21, 2011

PRESIDENTE OU ESCRIVÃO

O Governo entrega hoje na AR a versão revista do PEC 4 aprovada pelo Conselho de Ministros. O líder do PSD declarou, a propósito, que o seu partido não vai deixar passar a proposta do Governo. Ao mesmo tempo que entrega o PEC 4, o Governo disponibiliza-se para negociar, só agora, os termos da sua proposta. Entretanto, o ministro dos Assuntos Parlamentares, declarou que  não pode ser afastado o cenário de demissão do Governo na sequênciade um chumbo do PEC na AR, uma declaração que amortece a afirmação do PM quando considerou não ter condições para governar no caso de o PEC ser chumbado na AR.  (vd aqui)

De Bruxelas, Luís Amado, entrevistado pela SIC, avisa que estamos todos a jogar aos dados há muito tempo com os destinos do país (vd. vídeo aqui).
E será "muito mau pela imagem que projecta do país e pelas dificuldades em que a economia do país se encontrará se não houver rapidamente uma solução em relação às condições" da participação de Portugal "nesta nova fase do euro", o chefe de diplomacia lamentou que não se tenha perseguido antes com mais esforço e responsabilidade um amplo consenso nacional.
"Eu creio que estamos há demasiado tempo a jogar aos dados com o destino da economia portuguesa e dos portugueses. Creio que deveria haver mais responsabilidade política no país, tenho-o dito recorrentemente há mais de um ano", afirmou, à entrada para uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia. Segundo Amado, "o país merecia estar noutra situação e seria muito importante que houvesse um entendimento relativamente ao destino do país no projecto europeu num momento tão decisivo".

"É preciso não esquecer que o Conselho da próxima sexta-feira é um conselho histórico, uma vez que vai aprovar o 'pacto para o euro', o que significa que desde Maastricht que o desequilíbrio entre a união monetária e a união económica se vai corrigir com a adopção deste «pacto para o euro», que consubstancia o pilar económico do euro e consubstancia também uma divisão em dois círculos claros no projecto europeu"

... é por isso "muito mau para o país" que Portugal não se possa apresentar em Bruxelas perante os seus parceiros "com um forte consenso nacional em relação ao lugar que o país pretende ter nesta nova configuração que a UE vai passar a assumir. Como disse, estamos a jogar aos dados há muito tempo com o destino do país, porque nós não podemos antever as consequências de uma falta de consenso neste momento em torno de objectivos essenciais para a estabilidade do país no projecto europeu, face aos desenvolvimentos que uma crise política pode vir a provocar no curto e médio longo prazo no nosso país"
Questionado sobre se a situação política interna já terá chegado a um ponto sem retorno, com a inevitabilidade de eleições legislativas antecipadas, Amado admitiu que esse "é um cenário que está pela frente", mas escusou-se a "antecipar a decisão final, que caberá aos deputados da Assembleia da República, ao parlamento e, em ultima instância, também ao Presidente da República". (aqui)

Há muito tempo que venho repetidamente defendendo o mesmo que Luís Amado refere nesta entrevista: A superação da crise requer como condição necessária, mas não suficiente, um governo o mais amplamente maioritário possível.

E mantenho a opinião que expressei já há algum tempo neste caderno: Neste momento em que às labaredas da crise económica estrutural e da falência financeira os políticos se preparam para lançar baldes de combustível de insansatez, Luís Amado seria quem poderia reunir um consenso para chefiar um governo de coligação alargada. Tem mostrado competência, bom senso, e excelente conhecimento dos corredores em Bruxelas, e, aspecto relevante, tem vincado a independência dos seus pontos de vista num governo caracterizado por uma subordinação geral ao quero-posso-mando de Sócrates.

Sei que não o deixam chegar lá.  A começar por Sócrates.
Mas Cavaco Silva não deve dissolver a AR sem tentar aquilo que, ele também, realçou no seu discurso de posse: a governabilidade do país exige um governo com uma ampla base de apoio na AR. E não é adquirido, bem antes pelo contrário, que de eleições antecipadas resultem essas condições de governabilidade.
Repito-me: Se Sócrates se demitir na sequência do chumbo do PEC, ou qualquer outro chumbo ulterior, Cavaco Silva deve convocar os partidos a intimá-los a formarem o governo que o país necessita no momento altamente crítico que atravessa. Se não conseguir deve informar claramente o país das suas diligências e das respostas que obteve.

É tempo de o país poder escolher outros políticos e a palavra de Cavaco Silva pode ser decisiva nesse sentido.

Se o não fizer ficará para a história como o escrivão de uma história triste.

Sunday, March 20, 2011

ENGENHOS DE UM MALABARISTA


Tal afirmação poderia não acrescentar nada ao que se conhece do estilo do PM, sabendo-se que ele não está disponível para governar com ninguém, se por detrás dela não estivesse uma bem urdida táctica para se manter na corda bamba.

Sócrates sabe que o cumprimento das metas do PEC 3 não seriam atingidas e muito menos seriam suficientes para inverter a tendência imparável do crescimento das taxas de juros. Também sabe que a crise financeira internacional não pode continuar a ser argumento para justificar o agravamento da situação portuguesa: as economias ocidentais já recuperaram, com particular destaque para os dois principais motores: EUA e Alemanha.

Para continuar a sustentar a ideia de que Portugal não precisa de ajuda externa, e muito menos da intervenção do FMI, dispôs-se perante a UE, e sobretudo perante Angela Merkel, a assumir o compromisso de mais medidas de austeridade sem ouvir ninguém. E gizou todo o embróglio que hoje é público.

Com a facilidade que se lhe conhece de dizer com a mesma convicção hoje o contrário do que disse ontem, levando muitos a aplaudir acríticamente tudo quanto ele afirma, Sócrates, de cada vez que vai à cartola, tira um coelho para empolgar os devotos e colocar em dificuldade os críticos.

Ao afirmar ontem que não está disponível para governar com o FMI, Sócrates coloca a barra mais alto, os devotos ovacionam e o PSD que se cuide.

Porque Sócrates quer eleições mas também quer responsabilizar as oposições pela sua convocação e terá meio caminho andado se na próxima Quarta-Feira o PEC 4 for chumbado obrigando-o a demitir-se. Para a generalidade da opinião pública esvair-se-ão as contradições em que se envolveu, as faltas que cometeu, os desvarios de governação, sobretudo muito evidentes nestes últimos meses. Sobram contra ele as medidas de austeridade e os principais atingidos, justa ou injustamente, por elas.

E, das duas uma, i) ou Sócrates ganha as eleições por pequena margem (hipótese pouco provável mas possível) e terá de governar com o FMI, porque da bagunça das eleições só poderá resultar uma situação financeira ainda mais dramática e uma economia mais debilitada, e argumentará que foi a oposição que provocou uma derrocada numa altura em que ele tinha a recuperação garantida, ii) perde as eleições e responsabilizará a oposição por governar com o FMI, uma situação em que ele jamais deixaria descambar o país.

Tudo conjugado, a tendência da evolução da situação política ajusta-se ao cenário que há muito tempo desenhei neste caderno: Se o PSD cai na tentação de querer a curto prazo ser poder, mesmo que acompanhado pelo CDS, provocará um reagrupamento de conveniência da esquerda, e assumirá o ónus de, muito provavelmente, ficar esturricado em pouco tempo.

E Sócrates, maquiavélico, a assistir.
Cavaco Silva? Esfíngico.

Saturday, March 19, 2011

HISTÓRIA HISTÉRICA - 3

A decisão do CDS (idêntica, mas com fundamentos diferentes, às do PCP e BE) de chamar à AR a apreciação do conjunto de medidas com que Sócrates se comprometeu em Bruxelas* sem consultar nem informar ninguém - incluindo o Presidente da República, perante o qual tinha o dever constitucional de o fazer - é um brinde para o Primeiro-Ministro.

É um brinde porque i) força o PSD a pronunciar-se na AR em conformidade com as declarações públicas de Passos Coelho de não aprovar este PEC, e a chumbá-lo, ii) dá a Sócrates a oportunidade para, também conforme declarações públicas suas, declarar que não tem condições para continuar a governar e, desse modo, iii) obrigar o PR a dissolver a AR e convocar eleições. 

É, claramente, o que Sócrates pretende e as oposições, por razões muito diferentes, lhe oferecem. Sem governo em efectividade de funções, tudo se complica: os juros sobem ainda mais, o recurso a ajuda externa passa a ser explícita e Sócrates argumentará que esse é o resultado de uma sofreguidão de poder por parte do PSD e do CDS** (o que é parcialmente verdade), e de uma irresponsabilidade política do PCP e BE que jogam na capitalização do descontentamento popular (o que é totalmente verdade).

Argumentos que vai repetir à saciedade durante a campanha eleitoral onde conta vencer os adversários usando os seus trunfos de malabarista exímio.

Mas, se esses argumentos se mostrarem insuficientes porque o artista fartou com as mesmas  artes a assistência, que farão o PSD e o CDS sozinhos com o tição em chamas nas mãos?***
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*O anúncio das novas medidas de austeridade apanhou o país de surpresa, mas há três semanas que o novo pacote era do conhecimento de Angela Merkel, apurou o SOL. A chanceler alemã acompanhou o PEC 4 e levou Sócrates a comprometer-se com ele na reunião entre ambos em Berlim, há exactamente quinze dias.
E o primeiro-ministro terá saído mesmo dessa reunião com a certeza de que o novo acordo não iria afastar o FMI - uma vez que o acesso aos empréstimos europeus, ainda que pontuais, exigirá a aprovação deste organismo. A «análise e aconselhamento» por parte do FMI farão parte do futuro fundo de resgate europeu, admite-se até em S. Bento.
As medidas mais contestadas - o corte de pensões acima de 1.500 euros, o compromisso de não aumentar a despesa com as restantes pensões (congeladas até 2013), os despedimentos mais baratos ou os cortes na Educação e na Saúde - estão, aliás, em linha com os princípios aceites pelos países do Euro (e pelo FMI), no acordo que saiu da cimeira do passado fim-de-semana.

**Paulo Portas, para além da tentação urgente do poder, ao mesmo tempo que oferece o brinde a Sócrates coloca uma fava nas mãos de Passos Coelho.    

*** Ouço a intervenção de Nobre Guedes no Congresso de hoje do CDS a pedir a reunião à volta da direcção actual do partido, apesar das divergências. Depois, quando interrogado, disse esperar que, tendo em conta o momento muito difícil com que o país se confronta, haja ainda uma forma de evitar que o PM se apresente em Bruxelas demissionário e com o PEC chumbado.

Wednesday, March 16, 2011

XEQUE AO REI - 20

Ouço na Antena 1 esta manhã (vd. aqui) o PM declarar que "se a AR votar contra o PEC,  não tem que votar a favor, mas se votar contra o PEC está a dizer ao Governo que não tm condições para se apresentar numa cimeira europeia e para se comprometer com um programa de médio prazo de redução do défive orçamental. Isto quer dizer que retiram todas as condições ao Governo para prosseguir a sua acção e, então terá de ser devolvida a palavra ao povo. Mas, nessas circunstâncias, cá estarei para lutar pelo Partido Socialista, porque eu sou o líder do Partido Socialista, e tenciono recandidatar-me."

Para lutar pelo Partido Socialista: Sócrates não poderia ser mais claro na defesa dos seus interesses próprios. E da estratégia que está subjacente à subalternização a esses interesses a que submeteu os interesses do país, a dignidade do cargo de Presidente da República, a representatividade dos portugueses na AR, as posições dos parceiros sociais, a cooperação institucional que lhe foi dada pelo principal partido da oposição na aprovação das anteriores versões do PEC e do OE2011.

Se, nestas condições, o Presidente da República não intervém para circunscrever o pântano e criar condições para o secar, para que elegemos por voto directo um Presidente da República? Para dissolver a Assembleia da República mesmo quando as circunstâncias exigem a formação de um governo com amplo apoio parlamentar e todas as sondagens apontam para uma distribuição de votos não muito diferente do leque parlamentar actual? Mesmo que PSD e CDS garantam uma maioria absoluta, o que não é muito provável, a situação do país não pode dispensar  a participação do PS num próximo executivo. Eleições legislativas antecipadas só poderão degradar a imagem do país e aumentar os juros.

De quem será a culpa?
Este é o meu vigésimo apontamento com o mesmo título acerca do mesmo tema. Inevitavelmente, tenho-me repetido naquilo que lhe é fulcral: a responsabilidade do PR num sistema semi-presidencialista quando o governo não dispõe do apoio de uma maioria parlamentar. Cavaco Silva adoptou uma posição instituicional de interpretação minimalista dos seus poderes durante o primeiro mandato. Essa posição defensiva garantiu-lhe a reeleição. Entretanto várias personalidades de diferentes quadrantes pronunciaram-se no sentido de uma intervenção mais actuante. Ainda hoje, António Arnaut, um histórico da ala esquerda do PS, num depoimento que prestou esta tarde à Antena 1, e que transcrevi aqui, apela a um consenso partidário, e especialmente dos grandes partidos, sob o patrocínio do PR. É muito óbvio, contudo, que a personalidade do actual PM, e já declarado candidato a novo mandato, não se coaduna com soluções consensuais que envolvam partilha de responsabilidades governativas com outros partidos.
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A responsabilidade da ultrapassagem deste impasse a que os partidos conduziram o país transfere-se cada vez mais para o PR. Com menos culpas no cartório, Cavaco Silva se hesita em promover o consenso necessário, que dificilmente passará pelo actual PM,  ou não for suficientemente hábil para o conseguir, arrisca-se a ser visto, se dissolver a AR sem tentar claramente evitá-lo, como alguém que lavou as mãos mas não se livrou de também ele ser considerado culpado.

OUTRO




António Arnaut defende solução de concertação entre PS e PSD com apoio do Presidente

Ouvido pela Antena 1, o histórico socialista António Arnaut defende que a única forma de enfrentar as dificuldades atuais do país é encontrar uma solução de concertação entre os dois principais partidos, PS e PSD, com o auxílio do Presidente da República.

Tuesday, March 15, 2011

A QUARTA CRISE

Já tínhamos em cima a nossa crise económica, a nossa crise financeira, a crise financeira global, agora aguarda-se o agudizar da nossa crise política. É crise a mais.

Nestas questões de crise, mais do que discutir as causas e consensualizar terapêuticas, o que mobiliza a opinião pública é a guerrilha político-partidária para atribuição de culpados. Numa altura em que, mais do que nunca nas décadas mais recentes, se impunha um cerrar de fileiras para o defesa contra as ameças que impendem sobre o país, observa-se um acirramento do confronto partidário procurando cada um dos actores assacar aos outros a responsabilidade da crise política e tirar proveito eleitoral dela.

O Primeiro-Ministro, a quem competia reconhecer, nestas circunstâncias, a inviabilidade política de governar sem suporte maioritário parlamentar, capricha em exibir despudoradamente a sua autosuficiência e a sua falta de rigor democrático. Ao ignorar o Presidente da República, a Assembleia da República, os parceiros sociais, e os outros partidos, nomeadamente o PSD que tem permitido passar os PEC e OE2011, e avançar com compromissos junto de Merkel & Cª., que, por mais imperiosos e inadiáveis que sejam, não podem ser ocultados aos portugueses, Sócrates, que prima pela programação das suas actividades políticas, só engana quem quer ser enganado ao clamar que não deseja esta crise. E que a culpa será daqueles que, por sofreguidão de poder, para usar a sua expressão, não lhe respaldarem os compromissos que assumiu em nome dos portugueses sem ouvir ninguém.  

PCP e BE, vêm a crise política em perspectiva, prenunciadora de eleições antecipadas, como uma oportunidade para cavalgar a onda descontentamento porque não são nem querem ser candidatos a governar. Repetem até à exaustão que lutam contra os interesses coligados da direita, onde incluem o PS, e demonizam toda e qualquer consensualização que possa tornar a governação viável. Vivem nas margens da democracia retirando proveitos da sua complacência. 

Pelo PSD e CDS perpassam, ao lado da contenção e sentido das realidades de alguns, a sofreguidão do poder de outros, de que fala Sócrates. São perigosos porque podem fazer pender a evolução da crise para eleições antecipadas das quais não resultará, seguramente, nenhuma solução que garanta o suporte parlamentar maioritário que a situação requer se excluir o PS, o PSD e, preferivelmente, o CDS. Se se considerar que uma coligação à esquerda (PS/PCP/BE) continuaria a não ser viável nem seria bem acolhida pelos outros parceiros europeus. 

Finalmente, o PR. 
Não sabemos porque elegemos um PR por voto directo que, nas actuais circunstâncias, continua manietado pelos poderes obtusos, por se localizarem nos extremos, que a Constituição que ele jurou cumprir lhe confere.  

Afigura-se-me, no entanto, na linha do que neste caderno venho há muito tempo a apontar, que Cavaco Silva não deveria deixar que a situação se encaminhasse para eleições antecipadas e deveria convocar o Primeiro-Ministro e os partidos para a construção de uma base de apoio parlamentar suportada no actual quadro parlamentar. E só se essa tentativa, que deveria ser muito transparente e do conhecimento dos portugueses, se mostrasse inviável, deveria dissolver a Assembleia da República.   

Se o não fizer, Portugal arrisca-se a continuar sem um governo com suporte político suficiente para mudar de rumo. E Cavaco Silva acabará por ser envolvido na responsabilidade pela crise.

AFIRMA SOARES

Sócrates não ter informado Cavaco "é imperdoável"
Triste Europa

por MÁRIO SOARES
1. Para quem há mais de cinquenta anos, como eu, é um europeísta convicto, a situação de decadência anunciada da União Europeia, sem valores - incluindo os comunitários, como a unidade, a solidariedade e a igualdade de todos os Estados membros -, representa uma imensa tristeza. Para além da falta de uma resposta concertada e conjunta à crise financeira e económica, as "receitas" propostas que corroem alguns dos Estados membros e a manifesta paralisia em matéria político-diplomática.
... Tento reagir, com realismo, como é meu dever, com a maior isenção e preocupado acima de tudo com o nosso país. Mas não é fácil, dado o clima de incerteza quanto ao futuro da União, a sobranceria do Governo alemão, que parece querer "germanizar" a Europa, e o facto de não haver comparação possível entre a generalidade dos grandes líderes europeus do passado e o egoísmo nacionalista dos de hoje.

A União Europeia - note-se - nesta fase é profundamente conservadora. Basta lembrar que entre os 27 Estados membros que a integram só três se reclamam do socialismo democrático ou da social-democracia e, mesmo assim, com poucas convicções.

... O capitalismo especulativo, sem valores éticos - que a crise financeira revelou, no seu pior -, está desacreditado, como os mercados especulativos, que só pensam no lucro, ignoram a crise, as pessoas, e põem Estados muitas vezes seculares, como o português, em tremendas dificuldades.

A globalização é um fenómeno irreversível - é evidente - mas está cada vez mais desregulada, o que torna imprevisível o futuro. As desigualdades entre pessoas e entre os Estados têm vindo a agravar-se perigosamente. O neoliberalismo, como ideologia, revelou-se um fracasso colossal, como há duas décadas foi a queda do comunismo, suscitando a mesma surpresa geral.

... É incontestável que a União Europeia, vista antes como um projecto político-social, invejável, original, de paz e de bem-estar, para todos, está hoje à deriva e sem rumo. Os seus dirigentes actuais, esmagadoramente conservadores, estão a perder contacto com a realidade e as populações, numa espécie de autismo político, que conduz ao descrédito, numa primeira fase, e depois à revolta. Perigosa situação!

Os actuais dirigentes europeus, e, em especial, os alemães e os franceses, que os seguem, obedientemente, negam-se a compreender que as receitas economicistas que impõem a certos Estados membros, longe de lhes resolverem as dificuldades, as complicam, até porque os conduzem, necessariamente, à recessão: mais desemprego, mais precariedade do trabalho, menos investimentos, crescimento zero e, em vez de progresso, regressão...

... é necessário um novo paradigma. Isto é: um novo modelo de crescimento. Introduzir regras e valores no capitalismo, pondo as pessoas acima dos mercados e estes submetidos a princípios éticos, o que implica a abolição dos paraísos fiscais e da economia virtual. Numa palavra: a economia real submetida à política e não o contrário. Ora, a verdade é que os actuais dirigentes europeus se recusam a ver a realidade e prosseguem ignorando a própria crise e deixando impunes os seus responsáveis. A prazo, se não houver mudanças, esta situação vai tornar-se intolerável e vamos assistir, não tenho dúvidas, a grandes convulsões.

Portugal nesta Europa

2. ... Criticar é fácil e protestar, mais ainda. É legítimo, aliás, em democracia, criticar e protestar, desde que o façam pacificamente. Mas agir, desinteressada e conscientemente, é melhor, desde que seja em função de uma alternativa, coerente, eficaz e estruturada, tendo uma visão do futuro, inserida num mundo em mudança. É o caminho para podermos sair do atoleiro em que nos encontramos.

É preciso informar completamente os portugueses da situação em que estamos, para os poder mobilizar. O que não tem sido feito suficientemente pelos responsáveis. O Presidente da República, no seu discurso de posse, insistiu neste ponto. Mas omitiu que a crise portuguesa actual foi causada e continua a ser, altamente influenciada, pela crise internacional e, em especial, pela europeia. Ora isso constituiu uma falha inaceitável, mesmo que não tenha sido voluntária.

O primeiro-ministro tem-se esforçado, na resolução da crise, com um zelo patriótico e uma energia pessoal absolutamente excepcionais. Mas cometeu erros graves: não tem informado, pedagogicamente, os portugueses, quanto às medidas tomadas e à situação real do País. Nos últimos dias, negociou o PEC IV sem informar o Presidente da República, o Parlamento e os Parceiros Sociais. Foram esquecimentos imperdoáveis ou actos inúteis, que irão custar-lhe caro. Avisou tão só o líder da Oposição, após a reunião de Bruxelas, pelo telefone. A resposta pública foi-lhe dada no discurso que Passos Coelho proferiu, em Viana do Castelo, muito didáctico, e foi negativa: "Não conte com o PSD para aceitar as novas medidas (negociadas/impostas?) pelos líderes da Zona Euro, reunidos no dia 11 de Março, em Bruxelas." Assim se abre, ao que parece, uma crise política, a juntar às outras que a precederam: financeira, económica (estamos a entrar em recessão), social, ambiental e de valores.

E agora? Ao invés do que parece, tudo ainda pode acontecer. Porque os Partidos da Oposição - todos - não querem ir para o Governo, nem assumir responsabilidades, numa situação que não é agradável para ninguém. O Presidente da República, perante o impasse criado, vai dissolver o Parlamento e provocar eleições? Para cairmos, no pior momento, numa campanha eleitoral, como a última presidencial, com as culpas atiradas uns aos outros, sem tratarmos dos problemas nacionais? E para quê? Para chegarmos, talvez, a resultados, mais ou menos, idênticos? Mas se o não fizer, deixa que o Governo - e o PS, o que é mais grave - fiquem a fritar em lume brando? Com que vantagem para o futuro?

As informações (poucas) que me chegaram da reunião de Bruxelas indicam que houve pela parte da União dos Estados da Zona Euro um pequeno passo em frente, incluindo, obviamente, a Senhora Merkel. ... o que seria importante era que os dois Estados ibéricos exigissem uma política europeia convergente e falassem no mesmo sentido. Dar-lhes-ia, em termos europeus, uma importância redobrada. Temos connosco a Comunidade Ibero-Americana e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Não é pequena coisa, em termos europeus.

Veremos o que se passará nas duas próximas semanas, que serão decisivas para a União Europeia e, seguramente, também, para Portugal.

A geração à rasca

3. Entretanto, realizaram- -se em várias capitais de diferentes distritos, incluindo Lisboa e Porto, manifestações da chamada "geração à rasca", contra o desemprego e a precariedade do trabalho e, como se previa, contra o Governo, os políticos em geral, alguns conhecidos empresários, gestores públicos, juízes e promotores do Ministério Público... Conforme os gostos, as frutrações ou a raiva dos participantes interrogados, pelas televisões e as rádios.

Foram manifestações perfeitamente ordeiras que mostraram o desespero que se vive e em que participaram muitos milhares de pessoas de todas as idades. Curiosamente tantos idosos e gente de meia-idade, mulheres e homens, como jovens. Em certos momentos, com um ar de festa, a lembrar as manifestações espontâneas do 25 de Abril. Os jovens mais pobres - desempregados e imigrantes - dos arredores das grandes cidades, poucos participaram, estranhamente, em comparação com os jovens com cursos superiores, sem emprego, filhos em geral das classes médias, que disseram querer emigrar. Foi uma manifestação que merece um estudo sociológico aprofundado e isento. Mas que o Governo, nas dificuldades do presente, não pode nem deve menosprezar. É um sinal tremendo que deve ser tomado em conta. Tanto mais que, estrategicamente, os professores também se manifestaram, no mesmo dia; os condutores de veículos pesados entraram em greve no dia seguinte e por tempo indeterminado; e no dia 19, salvo erro, a Intersindical (CGTP/IN) tem convocada uma grande manifestação. Perante tais sinais os responsáveis não devem encolher os ombros, como habitualmente. São expressões múltiplas de um mal-estar social e político que está a levedar, vai intensificar-se, mas contém energias que podem ser úteis. Pode ser muito perigoso.

Compreendamos que não é só a juventude que está à rasca - a palavra pegou -, é o País, no seu conjunto, que está à rasca! Há que ter consciência da situação em que estamos - sobretudo o Governo, os Partidos e os movimentos cívicos democráticos - e agir, rapidamente, em conformidade. Antes que seja tarde.

Sunday, March 13, 2011

AQUI, ENTRE NÓS

- Tudo bem convosco? Por onde é que anda a tua gente?
- Tudo bem. A C., como sabes, continua em Paris, a M. está em Lisboa.
- Então vens a Lisboa este fim-de-semana?
- Não posso. Para a semana não haverá gasolina nos postos de abastecimento. Estão os camionistas em greve.
- Vem de comboio. Por que é que não vens de comboio?
- Vão estar em greve os maquinistas. O Cavaco incitou às manifestações de rua, aí as tens. O discurso dele foi uma vergonha, sobretudo na segunda parte.
- Parece-me que exageras. As ameaças dos transportadores rodoviários e as greves dos maquinistas da CP têm alguma coisa a ver com o discurso? 
- Tudo tem a ver com tudo. Ao incitar a juventude a manifestar-se juntou-se ao desfile...e incentivou os outros.
- É uma leitura. Pode ter outras. Não foi a primeira vez nem a segunda que CS tomou a juventude como um dos temas centrais dos seus dircursos. Mas concordo que a coincidência de agora não foi brilhante. Quando a responsabilizá-lo pelas greves dos rodoviários e dos ferroviários parece-me exagero da tua parte.
- Só não percebo é porque é que ele fez o discurso que fez e não demitiu o Sócrates.
- Porque não é a altura própria. Na situação em que o país se encontra ninguém, responsavelmente, e o Presidente menos que ninguém, pode precipitar uma crise que coloque o país numa situação de completa ingovernabilidade. Mas Sócrates, face aquele discurso,  deveria demitir-se e, ao faze-lo, permitiria que o PR o convidasse a formar um governo maioritário pluripartidário para enfrentar a crise. Hoje muita gente diz isto, eu venho-o apontando há muito tempo no meu caderno.
- Então precisam do Sócrates?
- Precisa-se do PS, evidentemente.
- E tu achas bem que o PSD tenha votado ao lado do BE, do PCP e do CDS para derrotar a decisão do Governo em terminar com a duplicação de professores nas aulas de Educação Visual e Tecnológica e a extinção da "Área do Projecto" e do "Estudo Acompanhado"?
- Não conheço suficientemente o assunto para me pronunciar. Mas parece-me mal o gasto de dinheiros públicos sem utilidade que os valha. Se esse é o caso, o alinhamento do PSD com a restante oposição é reprovável. Como reprováveis são as greves de serviços públicos, porque ao poder reivindicativo dos grevistas não podem opor-se os que terão de pagar as reivindicações se elas são atendidas, isto é, os contribuintes.
- Compete ao PR gerar consensos e não fomentar conflitos...
- Tens toda a razão. Mas também não pode esperar-se que o PR fique mude e quedo como um penedo quando o PM não cumpre o protocolo e deixa o PR, o Presidente da Assembleia da República e a fila de convidados à espera dele. Portou-se mal. E voltou a portar-se mal nesta cena do aumento das medidas de austeridade, não informando o PR, como constitucionalmente lhe competia, não informando os parceiros sociais, não negociando nada com o PSD. Mais uma vez colocou o PSD perante um facto consumado.
- Quem manda é a Merkel!
- Isso não mandou. A Merkel não disse a Sócrates, vamos fazer isto mas não digas nada a minguém!
- E agora, o que é que o PSD vai fazer? Deita abaixo o Governo com uma moção de censura?
- Não sei. O que sei é que novas eleições, qualquer que seja o resultado, não resolveriam a parte fundamental do problema: Portugal precisa de um Governo mairitário pluripartidário, o PS é necessário, assim como todos os partidos que queiram colocar os interesses do país acima dos interesses partidários e os enquistamentos ideológicos. Se eleições antecipadas permitirem que os dirigentes partidários que delas emergirem forem capazes de consensualizar um estratégia, venham elas. Com Sócrates na liderança do PS, sabemos que a procura de consensos pluripartidarios não é possível. Nem à esquerda nem à direita.
- Não é ao PR que compete fomentar esses consensos?
- Só o PM em exercício ou indigitado pode formar um Governo que reuna o consenso mais alargado possível. A Constituição não permite uma intervenção decisiva do PR nessa matéria. Pode influenciar mas não pode decidir.
- Pode ter um discurso diferente.
- Até tem tido. Mas Sócrates não atende aos avisos de ninguém. Quantas vezes o PR já referiu, aliás na sequência do que muita gente diz, que os grandes projectos têm de esperar? Pois bem, ainda há dias o Ministro das Obras Públicas veio a público anunciar um pacote de 25 mil milhões ... isto depois de ter sido concertado com o PSD, a propósito do PEC 4 (ou terá sido o 3?, ou o 5?) que os grandes projectos seriam objecto de reapreciação. É obsessão ou não?