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Saturday, May 25, 2024

DEMOCRACIA CONTRA DEMOCRACIA

Há neste país comentadores para todos os desgostos. 

De futebol. Começam de manhã, continuam pela noite fora. Não aprecio, mas tropeço com eles quando, por mero acaso, ligo a TV com qualquer outro propósito. Nem a entrada do VAR (vídeo assistant referee, árbitro assistente de vídeo) desanimou os profissionais comentadores da arte.
Trata-se de uma função de treinador de bancada, que já promoveu gente ao patamar político. O prof Ventura começou por aí e promete vir a ser primeiro-ministro. O que não me espantaria, tal a publicidade promocional gratuita proporcionada pelos outros partidos. 
Apoquenta-me mais a apatia, ou o propósito?, não dos deputados portugueses no Parlamento Europeu, são apenas 21 entre 750, perante a Rússia de Putin, declaradamente em economia de guerra.  
 
Mas é no comentário político que é quase impossível evitar, a menos que se desligue a nossa atenção, ainda que breve, dos noticiários domésticos em qualquer meio de comunicação social.
Agora, que estamos em vaga de campanha eleitoral para as eleições europeias, o prof Ventura levantou uma polémica, arte em que é mestre, sobre os dez anos previstos para a construção do Talvez Alcochete: se os turcos, que não são propriamente os mais trabalhadores do mundo construiram um novo aeroporto em cinco anos porque razão, nós portugueses, levamos dez anos a fazer o mesmo?
(Abro aqui um parêntesis para declaração de desinteresses: além do mais, pela minha idade, não tenho a mínima esperança de algum dia ir apanhar o avião a Talvez Alcochete).
Logo se levantou uma densa poeira de protestos porque o presidente da Assembleia da República tinha deixado sem reparo a "alarvidade" do prof Ventura. Terá sido mesmo alarvidade ou uma acusação, fundamentada ou não, de Ventura à menor produtividade dos portugueses quando comparada, por exemplo, com a dos turcos? 
Mas a pergunta do prof Ventura, aparentemente pertinente, ficou sem resposta. Ganhou o Ventura em todos os sentidos perante quem, como eu, considera o prof Ventura um provocador, especialista em tirar vantagens da complacência democrática.
 
Anteontem, voltei a ver, já não via há algum tempo, um programa de "análise política", o assunto prometia, e eu suportei ouvir a primeira parte. O apresentador, moderador, começou por apresentar um vídeo onde, com muita clarividência e algum sentido de humor se demonstrava o que é evidente para quem quer não usa antolhos: o aproveitamento que os detractores da democracia, os inimigos da democracia, aqueles que pretendem destruí-la usam, abusam, a sua complacência para, por dentro dela, a corroer e acabar por matar.
Sentam-se nesta mesa mais ou menos redonda, quatro comentadores e o moderador.
No primeiro tema é abordada a repisada a decisão do actual presidente da Assembleia da República perante a intervenção, histriónica como sempre, do prof Ventura sobre a índole trabalhadora dos turcos: conseguiram em cinco anos construir um aeroporto novo, enquanto o aeroporto de Talvez Alcochete levará dez.
A primeira participante, considerou decisão de Aguiar-Branco correcta, e recordou que o uso das provocações, dos insultos, entre políticos em países onde o pensamento e a sua expressão pública é livre, foi iniciado durante a campanha, sórdida, das presidenciais de 2016, que Trump ganharia. Os canais subterrâneos de mentiras, das "fake news", até pelo nome se percebe a origem, potenciaram e espalharam-se por todo o mundo onde as deixaram correr... em nome do valor maior da democracia: da liberdade de pensamento e a sua expressão pública. 
("Democracy Dies in Darkness", "A democracia morre na escuridão", é o premonitório slogan do Washington Post)
Para o segundo participante, Aguiar-Branco refugiou-se num argumento político quando estava em causa um crime previsto no Código Penal.
Para o terceiro participante, comentador a tempo inteiro, Aguiar-Branco esteve mal. Não devia ter deixado passar a intervenção do prof Ventura sem uma advertência, coisa para que tem competência.
O quarto participante, geralmente baralhado nos argumentos se tem as câmaras à frente, não disse que sim nem não se Aguiar-Branco teve razão ou não. 
Desliguei a televisão. 
 
Mais anedóticos que estes programas de formação política da boa, mas politicamente ignara,  população deste país, são os painéis de comentadores, geralmente quatro, que entram ao serviço no fim de cada debate entre, neste caso,  os candidatos a deputados europeus. 
Anedóticos porque se supõem ungidos para explicar o que cada candidato afirmou, deste modo influenciando as decisões dos ouvintes, provavelmente   eleitores. Com que direito? 
Mas mais que as explicações de suas excelências são as notas que, como professores examinadores das palavras dos candidatos, atribuem classificações! Com que direito?
Não sabemos. Mas se toda a gente cala, devem estar escorados na liberdade de expressão, a tal que tanto dá vida como pode matar a democracia.
 
Em Portugal o ofício de comentador já produziu, além do mais, um Presidente da República.
Durante anos e anos, semanalmente, o "Grande Comentador", comentava sobre tudo e mais alguma coisa, com particular incidência no desempenho dos actores políticos em palco, a que atribuía notas classificativas, era comentador professor.
Depois passava às previsões, era comentador profeta.
A terminar a conversa em família, sem contraditório, mostrava os livros que tinha recebido, que ele transferiria para uma biblioteca no concelho da sua família de origem, onde foi deputado municipal.
Frequentemente, obsequiava a jornalista interlocutora, passiva, com brindes suscitados pelas oportunidades das ocasiões e ofertas recebidas dos seus admiradores. Eram passatempos felizes, que lhe aureleavam a imagem, num crescendo irreversível de um carisma que punha os atentos e veneradores ouvintes de boca aberta. Tinha-se tornado num raro fenómenos de popularidade ímpar.
 
Anos antes, candidatara-se à presidência da Câmara Municipal da capital, perdeu sem apelo nem agravo, mas tinha-se esforça do por vencer, chegando a lançar-se às águas do rio para demonstrar a sua determinação mesmo se as águas onde exibiu o mergulho estivessem poluídas. 
Alguém, não sei quem, um dia resumiu o "Grande Comentador" como "aquele que sabe tudo mas não sabe mais nada".
O que não era verdade, porque candidatou-se à presidência da República e ganhou sem qualquer investimento em artifícios de campanha, num país que se enche de cartazes, outdoors que tapam os horizontes, que custam certamente uns largos milhares, brindes de cacaracá, arruadas medievais, concertos para excitação dos fiéis, enfim, demonstrações pacóvias sem força capaz de resistir à presença persistente de uma conversa fiada na televisão.

E foi eleito Presidente, sorridente, atingiu o auge da popularidade beijocando a torto e a direito, não dispensando nem recusando selfies sem conta. O primeiro-ministro ajustou-se à personalidade aristocrática do presidente, chegando a protege-lo (da chuva ou do sol, não me recordo) com o chapéu aberto. Reeleito sem oposição com estatura popular, continuou a beijocar e selfiear, para atingir o grau de incontestado de o melhor de todos.
Tanta ânsia de popularidade, levou-o a escorregar em acções e declarações opacas, e o melhor de sempre esforça-se para não submergir nas águas em que agora mergulhou.
 
Mas deixou marca indelével que muitos adoptam como objectivo do seu trabalho comentador.
O país, não só este país, o mundo, sobretudo no mundo ocidental, onde os valores eram aquilatados pela dignidade da democracia, sustentada na liberdade de pensamento e da sua expressão pública é hoje vítima à espera de um golpe fatal que aproveita a sua permissividade. Com ampla e desavergonhada ampliação dos media, que vivem dos réditos que a mentira, a falta de decoro, a imunidade que protege os instigadores de notícias, obtidas junto de "fontes fidedignas" que ninguém conhece mas geralmente suspeitas, num ciclo vicioso que auto se alimenta.

Tuesday, May 14, 2024

COMO DAR A VOLTA AO PAQUIDERME?

Durante a campanha para as eleições legislativas em 10 de Março, do que mais se falou foi de corrupção.
 
O prof Ventura, na linha de conduta demagógica com  que  quer chegar um dia à chefia do Governo do país - "Um dia, serei Primeiro-Ministro!", proclamou ele - , não o fez por menos: o dinheiro envolvido em acções de corrupção chega e sobra para pagar todas as suas promessas durante a campanha eleitoral, isto é, as promessas dos outros partidos concorrentes acrescidas das promessas do partido do prof Ventura, que será primeiro-ministro. E quem pode garantir o contrário, quando os ventos enfunam as velas dos populismos onde a democracia navega meio desnorteada?

Pagamos a corrupção com os nossos impostos!. Era a propaganda eleitoral do prof Ventura, lia-se  e ainda se lê, os cartazes não descem de de motu proprio dos postes a que estão amarrados. Era um exagero, uma tirada demagógica, via-se à vista desarmada que o candidato Ventura, que fizera treino em serviços das Finanças Públicas, sabia bem que nem ele acreditava no exagero do que afirmava.
 
O certo é que, o estafado prometido combate à inflação, reunia consenso alargado de todos os partidos para congregar as propostas que pudessem combater eficazmente o bicho. 
E assumido o encargo pelo Governo de promover a descoberta do modo mais eficaz e eficiente instrumento de combate entre todos os que tinham assumido participar nele (quem é que iria rejeitar participar em tão essencial missão?) esperava-se que a senhora Ministra (Júdice) da Justiça fosse lesta, já tivesse dado notícia do início do combate a um paquiderme que continua impunemente a calcar caminho sobre a justiça, de que se alimenta, insensível a todas as pueris alfinetadas na sua carapaça para mudar-lhe o rumo.

Cinquenta personalidades, que abaixo assinaram manifesto para reforma da Justiça, avançaram com  pedido de audiência a Marcelo, não sei se para uma selfie de conjunto ou um bate-papo sobre as teias em que o Presidente se balanceia. O certo é que também de Belém ainda não saiu um comentário, especialidade da casa, sobre o assunto.
Rui Rio, sempre ele, generoso e várias vezes traído, a bater-se quase quixotescamente contra o paquiderme, há três dias entrevistado na Sic, foi mais uma vez assertivo e não receoso da força da besta, e, resumidamente, reafirmou que o poder judicial, e desde logo, o  Ministério Público tem de estar sujeito ao escrutínio democrático, e que a actual Procuradora-Geral da República deveria ser demitida com fundamento no não funcionamento regular das instituições, por iniciativa do Governo - proposta ao PR - ou, preferivelmente, por pedido da Procuradora da sua demissão do cargo.
 
Também abordada por Rui Rio, foi a prática impune da intrusão e divulgação do que se encontra em segredo de justiça, que deve ser firmemente travada. Só por óbvia condenável  conivência entre quem tem a responsabilidade de manter em segredo o que deve ser mantido em segredo de justiça e os divulgadores de informações em segredo de justiça (os media) que estes sabem bem que foram extorquidas, sabe-se lá a troco de quê, se decompõe a justiça.

A justiça tem sido desleixada pelos políticos porque não dá votos, disse Rui Rio, e os media precisam de informações espúrias para alimentar a congénita voracidade da populaça pelo escândalo.

Friday, February 02, 2024

ESTÁ ABERTA A ÉPOCA DA CAÇA AOS VOTOS

 
Ocorreu entre 2005 e 2015. A outros deputados, igualmente hábeis no mesmo sentido, foram abertos e encerrados processos de averiguações. O costume.
Porquê, agora, passados 9 anos sobre o período em que ocorreu, volta o assunto às páginas dos jornais?
Em Julho de 2006 coloquei uma nota aqui neste caderno de apontamentos sobre a pesca ao voto, e se agora há algo acrescentar, é porque abriu a época para caçar; a pesca é, geralmente, actividade de todo o ano.

Com a abertura sazonal da caça aos votos, as notícias de última hora oferecem uma eventual decisiva vantagem para os grupos de caçarretas mandarem chumbo contra os bandos de caçarretas adversários.
Discute-se: a caça existia e ninguém a via ou estava encoberta e foi solta porque chegou a época da caça  e alguém deu ordens para a soltar?
Nos últimos meses têm sido soltadas notícias de suspeições recentes, muitas delas arrastar-se-ão adormecidas nos gabinetes dos agentes da justiça, outras requentadas, umas pesos-pluma, outras pesos -pesados, aparentemente.

Há nesta época de caça, agora aberta, aqui neste nosso canto da terra, mas também na União Europeia e em outros cantos do mundo, um confronto, que não é original, mas também não é tão raro, simplesmente agora tornou-se mais renhido porque o mundo nunca foi tão pequeno. Confronto que opõem as democracias  liberais, suportadas nos direitos individuais de liberdade de pensamento e da sua expressão pública, e as autocracias, suportadas pela ausências das liberdades democráticas.
Contra a democracia alinha sempre a sua irmã nascida ao mesmo tempo, a demagogia. 
E a demagogia que serve, nestas ocasiões, para todos, sacode agora com mais violência com os ventos favoráveis às autocracias até que a barca mal tratada da democracia naufrague.
 
Ouvi na rádio, esta manhã, na antena 1, que, em consequência da vaga populista que se alastra pela União Europeia, Ursula von der Leyen, em fim de mandato, poderá vir a ser substituída por  Giorgia Melon ou 
Viktor Orbán.
Com o entusiástico apoio do professor Ventura. Hábil a utilizar os métodos antes usados pelos da extrema esquerda, deslocando as competências do parlamento para o combate nas manifestações de rua, nas estradas e até nas auto-estradas, o professor Ventura contou e continua contar, agora que abriu a caça aos votos, com os esforços dos outros partidos, com o admirado entusiasmo dos media motivados pelo oportuno/inoportuno MP para o levar ao cimeiro lugar do pódio.

Friday, November 26, 2021

O JOGO DA CABRA CEGA

CNN PORTUGAL GOES LIVE 

A CNN está no ar em Portugal! 

O país precisa de investimento, sobretudo investimento tecnologicamente avançado, daquele que aumenta a produtividade, o crescimento económico, condição necessária para o aumento dos salários e da felicidade dos portugueses.

Passei por lá durante uns instantes. Notícia do dia, a entrevista ao banqueiro de quem se desconhece o paradeiro. O foragido sente-se perseguido pela justiça portuguesa, que, segundo ele, usa duas medidas. Usa mais, mas para o efeito duas chegam para avaliar o argumento do entrevistado: ele, um inocente foi condenado à prisão, fugiu à iniquidade do julgamento que o quer preso; outro, o que foi dono disto tudo,  causou rombos irreparáveis, continua em liberdade a aguardar que o tempo o amnistie por prescrição dos processos.

É verdade o que diz o banqueiro sem paradeiro conhecido: por cada grande canalha preso ou perseguido pela justiça há dezenas de grandessíssimos canalhas à solta. Quase todos os dias se ouvem notícias de buscas de molhadas de procuradores à procura de provas de crimes; dias depois,  aparecem outras que apagam da memória dos dias  as anteriores.

Não é por muito trabalhar que a produtividade da justiça irá crescer apesar do investimento da CNN em Portugal. A CM já ocupou o mesmo espaço e os resultados são os que se sabem: uma indiferença total de uma audiência anestesiada que engole tudo e não regurgita nada.

 

Monday, June 11, 2018

FÉRIAS


- Então deixou de escrever no seu blog?
- Estou em férias sabáticas ... Tive a sensação que não havia assunto que não tivesse abordado, de uma forma ou de outra, mal ou bem, mais do que uma vez.
- Por que não escreve acerca do Sporting, do Bruno Carvalho?
- Falta dizer alguma coisa?

Sunday, August 13, 2017

TUDO NA MESMA, DEPOIS DE PEDROGÃO GRANDE

D. sabia que nós íamos a caminho da A8 e telefonou-nos a avisar que tinha lido na internet que aquela auto estrada estava cortada na zona de Torres Vedras.
Nesse momento ainda estávamos na A17, a uns vinte quilómetro antes da possibilidade de desvio para a A1, em Leiria.

Tentámos contactar o 112 para para confirmar se o corte da A8 ainda se mantinha e se não iríamos encontrar situação semelhante na A1, para onde nos iríamos desviar se a A8 continuasse cortada.
Não obtivemos resposta porque a chamada, passados largos minutos, caiu. 
Voltámos a ligar, e só então, fomos atendidos. Do outro lado da linha responderam-nos que no 112 não têm informações sobre cortes de estradas por causa de incêndios florestais e que devia ligar para a GNR, para o número 1820 (chamada de valor acrescentado ...).

Ligámos para o 1820, foi-nos confirmado, após alguma espera, o corte na A8 e dito que não havia notícias de corte na A1 a partir de Leiria. Agradecemos e sugerimos que informassem os meios de comunicação social, nomeadamente a Antena 1 da RTP, para conhecimento útil dos que circulavam aquela hora, uma vez que vínhamos a ouvir aquela rádio para saber notícias, pelo menos durante os noticiários, e nada havia sido referido a propósito do corte na A8 em Torres Vedras no noticiário das 18. Também nos quadros avisadores não havia qualquer informação útil, indicavam inutilmente apenas a hora naquele momento na A17. 

Em conclusão: os meios de comunicação social, nomeadamente de rádio e televisão, que sugam até ao tutano as imagens dos fogos florestais em transmissões repetidas ad nauseam, ignoram e não informam os que circulam pelas estradas do país acerca dos perigos resultantes de incêndios florestais que os aguardam mais à frente. 
O 112 limita-se a informar que não tem informação e remete-nos para a GNR;
Da RTP não há informação oportuna;
A GNR informa mas o utente paga a chamada de valor acrescentado;

Isto quando o país continua a ser violentamente assaltado por uma vaga de incêndios de dimensões nunca antes atingidas, mês e meio depois da tragédia de Pedrogão Grande. 

E os militares? O que fazem 35 mil militares perante este inimigo que semeia o pânico de norte a sul e chegou mais uma vez à  Madeira?
E a Justiça? Que eficácia tem a justiça na dissuasão dos criminosos?
E a senhora ministra da Administração Interna porque espera para retirar consequências políticas desta tragédia de que também é culpada? Porque ela mesma reconheceu já ter havido "descoordenação no posto de comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil no teatro de operações em especial com outros agentes de protecção civil". 
Houve, e continua a haver, senhora Ministra.

Monday, December 05, 2016

HÁ GENTE PARA TUDO*

Acontece com alguma frequência ao meu perclaro e muito estimado amigo António PC zangar-se com os jornalistas que abusam da sua paciência escrevendo ou transmitindo em doses enjoativas notícias, geralmente tragédias porque as boas notícias vendem-se pouco, que exploram até ao tutano. A tragédia do Chapecoense é apenas o caso mais recente desta degustação do horror servida em doses infindas.
  
Percebo-lhe bem a indignação mas parece-me que lhe falta algum tempero.
Os jornalistas são produtores de serviços que colocam à disposição da apetência dos seus clientes. Sem clientes com apetite para os produtos apresentados seriam obrigados a mudar de mercado.
Podemos concordar ou discordar mas não podemos negar-lhe a liberdade de usar o sentido de negócio em contrapartida da nossa liberdade de não os ler, ouvir ou ver. É o que eu faço sempre que o artigo não me atrai.

Conheço muitos fulanos que mamam da Sport tv de manhã à noite e muita senhora e cavalheiro que podem perder tudo menos meia dúzia de telenovelas diárias. Por que não? Posso não gabar-lhes os gostos mas não posso negar-lhes o direito de os terem.

A propósito, recordo-me da história de um tipo bem apanhado que alimentava o cão com sopas de cavalo cansado.

- E não lhe faz cair o pelo?, perguntava um
- E não lhe arruína o fígado?, queria saber outro
- E não lhe tolda o faro nem a vista?, estranhava um terceiro

- Porquê sopas de cavalo cansado e não aquilo que os cães costumam comer?, perguntou o mais cientista dos perguntadores
- Porque este cão do que gosta mesmo é de sopas de cavalo cansado.

É assim, penso eu, que pensam os jornalistas, colunistas, comentadores e outros com ofícios afins. 
---
* Comentário colocado aqui

Thursday, September 15, 2016

CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DE TANTO RALHAR


O professor insistia que, na história da humanidade, o mais importante não era o conhecimento dos acontecimentos que alteraram o seu curso mas as causas que lhe estiveram na origem e as consequências que deles resultaram. E que não confundissem os mais desprevenidos uma coisa com a outra porque se não há causas sem consequências não há consequências inconsequentes.

Ao recordar-me o aviso do professor de História, continuo a ver consequências onde, aqui, o Prof. Nuno Garoupa detecta causas.

Se o seu último parágrafo resume a sua tese nesta parte - "quanto mais o eleitorado virou à esquerda, mais a direita se empenhou na diabolização do adversário e no uso de linguagem radical em detrimento de um programa consistente e estudado."- foi o discurso que fracturou diabolicamente as hostes em confronto ou essa diabolização decorre do ambiente cerrado criado pela crise, que a receita da troica não ajudou a digerir?

O crescimento do BE é resultado da agressividade do seu discurso ou da crise espoletada há oito anos com toda a ganga de casos espúrios expelidos pelo vulcão, nomeadamente no sistema financeiro?
Se não tivesse ocorrido a crise (que já estava latente muito antes de 2008) teria o BE crescido como cresceu?
Se o anterior governo PS não tivesse as culpas que lhe são assacadas teria cedido tanto perante o BE?
Não teria.

O que justifica o crescimento do discurso do BE foi a perda de confiança no PS e a culpabilidade assumida pelo PSD na administração da receita da troica, com dispensa do negociador e subscritor do protocolo, o PS.

Depois o crescimento exponencial dos media amplificou, e continua amplificar, como nunca no passado os mimos atirados de cada um dos lados.
O sucesso do marketing político não passa, lamentavelmente não passa, pela discussão racional de propostas alternativas.
Basta olhar para os cartazes com que os partidos conspurcam sistematicamente o ambiente público.

Em casa onde não há pão ...

Friday, September 09, 2016

O COMBÓIO DOS LOUCOS

 Nuno G.,

Não discordo das premissas nem dos seus cálculos mas reafirmo a minha discordância quanto às conclusões.

Subscrevo inteiramente a primeira parte do primeiro período do seu primeiro artigo, que reconhece que:

-  não se trata de um fenómeno português;
- não sendo uma coisa recente, ..., o discurso político no espaço público é fundamentalmente um conjunto de variações sobre a diabolização do adversário, para deleite das classes dos partidos;
- esse fenómeno aumenta exponencialmente nas redes sociais, onde predomina o ódio e insulto em detrimento de qualquer debate racional;

Do que discordo é que a progressiva redução da quota do eleitorado flutuante, os ciclos políticos ou o número de deputados em disputa em cada eleição sejam causas da crescente diabolização política.

Não são. Porque se:

- não se trata de um fenómeno português (o que é muito evidente para quem se encontra minimamente informado sobre o que, a este respeito, se passa fora do nosso país)
- não é uma coisa recente (o que também é muito evidente para quem tenha uma noção razoável do caminho da história),

o aumento da diabolização para deleite das classes políticas resulta do aumento exponencial das redes sociais onde predomina o ódio e o insulto em detrimento de qualquer debate racional.

Se há redução do eleitorado flutuante é porque os media em geral, e não apenas as redes sociais, ampliam os ódios e insultos partidários, empurrando, deste modo, os "infiéis" para a escolha de um dos credos em confronto. Na transmissão televisiva dos debates cada intervenção parlamentar é uma disputa de afirmação pessoal do orador.
E a redução do número de lugares de deputado em jogo é consequência natural da redução do número de eleitores sem credo.

Por outro lado, os ciclos políticos resultam dos ciclos económicos, quaisquer que sejam os factores provocadores das suas fases.
Atravessamos tempos de grande incerteza, sem fim à vista.
A política, ausência ou excesso de políticas, e, muito criticamente, a política financeira da União Europeia, só por si, é factor fracturante mais que suficiente para exacerbar os confrontos ideológicos e extremar posições.  Não por acaso, as abordagens serenas desta questão tão crítica para o futuro de todos os membros da UE em geral e da Zona Euro, em particular,  vêm de fora da Europa.

Há saída "limpa" para este impasse?
É talvez o pressentimento, até o pânico, de que não há saída ao fundo deste túnel sem fim à vista, em que hesita entre andar e recuar o combóio da UE, que mais exalta os ânimos dos passageiros.



Wednesday, August 31, 2016

O JOGO DA CABRA CEGA


Ontem, por avaliação judicial errada de tribunais portugueses, foram os contribuintes portugueses condenados pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ao pagamento de 30 mil euros de indemnização à Medipress mais 9 mil de custas de processo. - cf. aqui
Têm os contribuintes portugueses direito de regresso sobre o beneficiário do erro, o sr. Santana Lopes, então primeiro-ministro? 
Não vi até agora questionada a, afinal, injustificada indemnização ao autor do processo. 
Se as leis consentem esta iniquidade, paga quem não deve, recebe quem não devia, deveria ter o sr. Santana Lopes a  hombridade (palavra a cair em desuso por falta de uso)  devolver o que recebeu indevidamente.
Devolverá? A julgar pelos comentários que li hoje, o sr. Santana Lopes estará nesta caçada como o coelho na moita.

Hoje lê-se no Expresso Digital que

"O Tribunal Central Administrativo do Sul condenou o Estado português a pagar uma indemnização ao Expresso, num valor ainda a acordar, por não ter sido autorizada em novembro de 2014 uma entrevista ao então detido preventivamente José Sócrates. A direção das cadeias argumentou na altura que quer o procurador Rosário Teixeira, quer o juiz Carlos Alexandre deram parecer negativo à realização da entrevista, mas nunca fundamentaram devidamente a decisão".

Vai de vento em popa o negócio das indemnizações por responsabilidade civil extracontratual do Estado (leia-se dos contribuintes portugueses) por falhas no exercício das funções dos agentes de serviço público. 
Ventos que também sorriem, pelo andar da carruagem em que se meteu, ou foi metido, ao sr. José Sócrates, condenado na praça pública e, para já, a aguardar, há mais que tempo, recurso em primeira instância num tribunal português.

Sunday, May 22, 2016

ANEDOTA DO DIA

Por notícia que é acusada de ter provocado a fuga massiva de depósitos do Banif, o regulador da comunicação social multou a TVI em 459 euros.

Hoje pela TVI, amanhã por qualquer um dos outros, a corporação regula-se por interesses próprios dos agremiados.

Monday, April 25, 2016

NEWSMUSEUM

Quem hoje tentar saber através da net se o Newsmuseum, inaugurado em Sintra à meia noite, com a presença do PR, do PM e do ex-PM, está aberto, depara-se aqui com o site do Museu do Brinquedo, que ocupou durante vários anos o espaço agora cedido ao Newsmuseum. 

Ganhou-se alguma coisa com a troca?
Saber-se-á, um dia destes, pelas receitas da bilheteira.
O Newsmuseum é um projecto que começa a tresandar a provincianismo logo no nome que lhe atribuíram. Pensarão os promotores que os visitantes estrangeiros entrarão por ali dentro, aos magotes, entusiasmados com uma ideia requentada?
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Correl. - Newseum
Newseum - Washington DC
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    Museu do Brinquedo  
    Atração Turística
    O Museu do Brinquedo estava situado em Sintra, distrito de Lisboa, Portugal e tinha uma colecção internacional de brinquedos. Estava sediado na antiga Casa da Vereação de Sintra, construída no século 18 e listada como monumento de interesse público. Wikipédia
    Endereço: R. Visc. de Monserrate 26, 2710 Sintra
    Horário: 
    Aberto hoje · 09:00–19:00
    Este horário pode mudar no seguinte feriado: 25 de Abril

Friday, September 04, 2015

TRUMP WORLD

Vd. aqui uma extensa entrevista / reportagem da Businessweek-Bloomberg - How Trump Invented Trump - Inside the empire - para compreender o personagem que, pelo menos por agora, ocupa  exuberantemente o palco da campanha eleitoral das eleições primárias para as presidenciais norte-americanas em 8 de Novembro de 2016. 

É esta exuberância de sucesso empresarial aliada a uma luquocidade destravada que estão a mobilizar as atenções e os favores dos media, entusiasmados com o caudal de declarações geralmente bombásticas do candidato, que podem vir a garantir-lhe a nomeação dos republicanos no confronto com Hillary Clinton, ou Joe Biden, se este, como parece cada vez mais provável, vier a apresentar-se na grelha de partida.

É a disponibilidade de tempo e de respostas de Trump relativamente a Hillary Clinton reservada e contida nas relações com os media que está a garantir, segundo alguns observadores, a preferência dos eleitores norte-americanos num candidato misógino, arrogante e, potencialmente perigoso.

Perigoso porque, segundo o Economist desta semana, - Why the Donal is dangerous - Trump afirma uma coisa e a contrária quase no mesmo instante consoante lhe comanda a incoerente veia populista.  "Alguns mais sofisticados troçavam que ninguem poderia querer os dedos deste magnata errático perto do botão nuclear. Mas há semanas tornou-se o candidato mais provável à nomeação republicana, apesar de fazer afirmações que teriam torpedeado qualquer campanha normal". 

Será assim tão democraticamente imatura mais de metade dos votantes norte-americanos para em Novembro de 2016 colocar à frente dos destinos dos EUA, e em grande medida do mundo, o dono do mundo Trump?

Também em grande medida, a resposta está nas mãos dos media.  Será a imensa fortuna de Trump suficiente para os comprar?

É o leilão da democracia em todo o seu repelente esplendor.

Friday, July 24, 2015

O JOGO DA CABRA CEGA

 De manhã

"Público fala em denúncia sobre Montepio, PGR não recebeu nada, banco desconhece" - cf. aqui
  
"Banco de Portugal confirma denúncia sobre o Montepio. PGR diz que não a recebeu qualquer notificação. Montepio ameaça processar PÚBLICO". - cf. aqui

À tarde
 
PGR confirma que Ricardo Salgado está a ser ouvido no âmbito das investigações do denominado "Universo Espírito Santo". - cf.  aqui




Entradas livres, mas bem pagas.

Friday, January 09, 2015

EM FRANÇA A LEI É FRANCESA

Do ZC. recebi esta manhã um e-mail sobre o assunto do dia.
Título do e-mail: I am NOT Charlie, da autoria de The Saker, que desconheço em absoluto quem seja.
Depois li o Público (obrigado ZC!) e deparo com um artigo - Terror em França - Ficamos mais seguros sem o Charlie - da autoria do director de "O Inimigo Público", que afirma "não sou humorista, sou jornalista". 

Duas, certamente entre muitas outras, posições contra a corrente - Somos Charlie -, ainda que o artigo do director de "O Inimigo Público" se contorça à volta de argumentos e dúvidas, e remata com duas perguntas: Precisamos deles (dos humoristas do Charlie)? É preciso responder?

Nunca li o "Charlie Hebdo", o que conheço do semanário satírico tem-me chegado através das referências transmitidas por outros jornais. Mas não tenho quaisquer dúvidas em colocar-me ao lado daqueles que se afirmam do lado do "Charlie". Por uma única e elementar razão: Em França, a lei aplicável é a lei francesa. Os jornalistas, os humoristas do Charlie, de qualquer jornal ou qualquer outro meio de comunicação social, todos os cidadãos franceses, os residentes ou simples visitantes são subordinados da lei francesa, e apenas da lei francesa, pelos actos que praticarem em solo francês. Quaisquer outros argumentos têm de considerar-se irrelevantes, quaisquer que sejam as bases que os pretendam sustentar.

Mas já não é irrelevante conhecer o percurso, aliás, os percursos, da Sharia, a lei islâmica. 
"Heaven on Earth" é uma boa resenha de uma história que começou há catorze séculos. 

Sunday, October 26, 2014

PATETICAMENTE EDUCADOR

O sr. Passos Coelho, no encerramento das jornadas parlamentares dos partidos que suportam o seu governo, acusou, vd.aqui, com incontida irritação jornalistas e comentadores de serem preguiçosos e orgulhosos, e de patético o que se ouve nas televisões e se lê nos jornais, por não verem ou desvirtuarem as virtudes evidentes do OE para 2015. Todos os jornalistas e todos os comentadores? Não há excepções convenientes? Já se passaram todos para a concorrência?

Admitamos que a crítica negativa compensa, que a apologia do governo não vende jornais nem sustenta as audiências televisivas, e que o governo do sr. Passos Coelho é vítima de uma orquestrada campanha para o derrubar. E que, resumidamente, o OE 2015 é uma peça de excepcional governação que só por preguiça e por orgulho (ou por gorgulho?) os media pateticamente treslêm. E, então? Pretende o sr. Passos Coelho ser o grande educador da classe media?

Se pretende, a lição tem de ser outra. 
Há relativamente pouco tempo trouxeram de novo, com novos dados, os jornais à baila um caso em que o sr. Passos Coelho é, porventura mal, suspeito de irregularidades em tempos idos  envolvendo dinheiros públicos. A acusação é grave, e não prescreve politicamente, considerando as suas actuais funções. Assim sendo, está a perder o sr. Passos Coelho uma oportunidade soberana para dar uma lição aos plumitivos que se atreveram a escrever o que, talvez por preguiça na recolha e confirmação de informações, não poderão provar.

Se, assim fosse, se as notícias não passam de atoardas, deveriam ser sacadas as cartas profissionais aos caluniadores e pesadamente multados os jornais veículos das calúnias. Se não, faltam ao sr. Passos Coelho razões morais para ainda estar a apresentar o OE 2015.