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Monday, August 10, 2020

EM NOME DO ESTADO - 3


 
Mais uma revelação do Público* acerca das manobras feitas no Novo Banco para deitar fora o que consideram lixo tóxico e, ao mesmo tempo, proporcionar gordas margens ao sucateiro comprador, muito provavelmente, obscuro participante, directa ou indirectamente, na decisão das vendas a preços de liquidação do negócio.

O presidente do Novo Banco já veio a público** garantir que todas as operações de despejo do lixo, incluindo a seguradora objecto da notícia de hoje, mereceram a aprovação do regulador (do Banco de Portugal do sr. Carlos Costa? ou do ministério das Finanças do sr. Mário Centeno, agora governador do Banco de Portugal?) e do fundo de resolução (quem é quem, e quem manda no Fundo de Resolução?).

Entretanto, ontem à noite, o sr. Marques Mendes dava, "em primeira mão"  a notícia de que, para desfazer dúvidas, o Novo Banco "vai contratar consultora internacional de renome para uma avaliação independente".

Independente de quem sr. Marques Mendes, se é o avaliado que contrata o avaliador?
No fim, ficará tudo em águas de bacalhau, em nome do Estado e às costas dos tansos fiscais.

*   Novo Banco vendeu GNB Vida com desconto de 70% coberto com ajuda do Estado

** Novo banco diz que venda de seguradora com desconto de 70 % teve a aprovação do regulador e fundo de resolução

Actualização : Fundo de Resolução nega que seguradora do novo banco foi vendida a gestor condenado por corrupção

Deputados do PS com "enorme preocupação" relativamente a negócios do Novo Banco
 

Saturday, August 01, 2020

EM NOME DO ESTADO


Ficaram os políticos, jornalistas, e os media em geral, indignados com a redução da presença programada do primeiro-ministro de quinze em quinze dias na Assembleia da República. E, mais que indignados, chocados que a decisão de reduzir as presenças, programadas, já se disse, porque há outras presenças, programadas ou eventuais, de quinzenais para bimensais, tenha sido proposta pelo líder do maior partido da oposição e votada pelos dois partidos maioritários.
É um atentado à democracia, à transparência, ao controlo dos actos do governo pelo poder supremo do povo representado pelos deputados no Parlamento!

Conversa fiada. 
Assistimos durante os últimos anos, dez?, vinte? anos, cada um que faça as contas à maneira que mais lhe convir, a uma vaga de escândalos financeiros que ninguém, colocado em posições que lhes permitiam, se estivessem ou quisessem estar atentos, denunciar e abortar antes que os monstros crescessem e nos assaltassem os bolsos, denunciou; os bolsos, não os offshores, entenda-se.
Que fizeram os deputados? Dormiram ou olharam para o lado. São eles os maiores responsáveis pelos escândalos? Evidentemente, não. Os assaltantes são muito planeados, e, sobretudo, muito assistidos por quem é especialista em legalizar a imoralidade. 

E é neste ponto que os deputados têm mostrado a maior incompetência ou conivência, por acção ou omissão, entretendo-se a tecer ou a encomendar rede apertada para o peixe miúdo e suficientemente complacente para deixar escapar os tubarões;

Os escândalos abundam e não param de nos cair em cima, os mais recentes a fazerem esquecer os mais antigos, por julgar há anos, a corrupção de colarinho branco banaliza-se, e, agora, escândalo dos escândalos, foram reduzidos os tempos de antena aos senhores representantes do povo no órgão onde é esperado existir o poder máximo. 

Algum dos escândalos financeiros, ou outros, foram denunciados em primeira voz na Assembleia da República? Admito que tenha existido um ou outro, não me recordo de nenhum, alguém se recorda de algum? Pois não. A vigilância democrática tem-se localizado no jornalismo de investigação, ainda que lhe possam ser assacadas várias saídas em falso, e não na Assembleia da República. 

O Novo Banco, é mais do que um escândalo, é uma ratazana separada de um ninho delas. 
O contrato, os contratos, parece que existem vários contratos, de venda da NB a um fundo abutre prevê a alienação de activos transferidos que não façam parte do core business do banco. Por este lado, tudo bem.
Se o valor de venda desses activos for feita por valor inferior ao registado no balanço, quem paga?
O Fundo de Resolução? O que é isso? O que disseram os deputados quando souberam, tinham obrigação de saber, quando se deu a conhecer esta marosca? Sabiam, ou tinham obrigação de saber, que o Fundo de Resolução, uma coisa nunca antes vista, iria cair em cima dos contribuintes, dos tansos fiscais, assim nos chamou Ferraz de Carvalho. 

E, obviamente, começaram a cair as facturas para pagamento, em nome do Estado, o infinitamente estúpido Estado,  pelo Ministério das Finanças. Alguém cuidou de conferir as facturas? perguntava há dias, já terá perguntado antes, o chefe do maior partido da oposição. Ninguém. 
O Chefe de Estado, sempre muito sábio, esperava que a auditoria pedida, muito ganham os auditores e os advogados com a estupidez do Estado, tivesse aparecido ontem,  não apareceu, "lamenta que, ao contrário do previsto a auditoria não tenha sido concluída,  era melhor para todos ter a auditoria concluída". 
Alguma vez as lamentações levaram a algum lado, senhor Presidente? Se não tem nada a a dizer que seja consequente, não lamente, espere que chegue auditoria. Ela dirá que tudo o que foi feito, em nome do Estado, foi legal. Como e por quem? É um mistério que entrou num buraco negro, obviamente, legal.

A TAP é um negócio incrível, porque só em nome do Estado, e à custa da sua infinita estupidez, seria possível ser concretizado. Por razões que só a ideologia cripta-estatista justifica, o Estado privatizou a transportadora aérea mas reservou uma parte minoritária para seu domínio. Domínio de quê? Obviamente, de nada. Obviamente, porque foi assim e assim  o consentiram os representantes do povo e o feitor do Estado. 
Não satisfeitos com uma posição inconsequente minoritária, reclamaram os estatistas uma posição paritária, exactamente cinquenta por cento, e o feitor para ter o rebanho sossegado, forçou a compra da paridade, em nome do Estado, fazendo o que, obviamente, nenhum empresário, em seu perfeito juízo faria. Com a agravante de ter deixado nas mãos da parte privada o comando das operações sem obrigação de satisfações mas a oportunidade de colocar o Estado entre a espada e a parede: a pandemia exigia injecção de capitais na empresa, se até ali tinha acumulado perdas sucessivas, com a pandemia caiu nos braços do Estado. E o feitor em nome do Estado, ficou com a TAP toda, excepto cerca de 5%, irrelevantes, detidos por empregados, e 25% (22,5%?) pelo senhor Barraqueiro, que caiu nesta anedota e não vai sair dela de mãos a abanar. 
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Correl. :

Saturday, November 05, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS - PAPEL DE JORNAL*

Primavera, 1986

- Telefonaram para aí, da parte do gabinete do Ministro, a perguntar se tínhamos suspendido o fornecimento de papel de jornal. Sabe o que se passa?
- Sei. Fui eu que mandei suspender o fornecimento ...
- A todos???
- Aos que não pagam e já nos devem muita massa. Ao Expresso, que continua a pagar, continuamos a fornecer, ao "Diário de Lisboa" que fez um acordo de pagamento do atrasado, e que por enquanto está a cumprir, não suspendemos. Suspendemos aos que não pagam e que, repetidamente, foram avisados de que não poderíamos continuar a fornecer sem receber...
- Fez bem, fez bem. Mas agora vamos ter chatice com o governo ... Sem jornais, amanhã voltam a sair os blindados para a rua ...
- Talvez nos bombardeiem e fica resolvido o assunto. Que quer que eu faça?
- ... ... ...
- Mando retomar as entregas?
- Manda nada. Fez bem, fez muito bem. Já devíamos ter tomado essa decisão há mais tempo.
- E tomámos. Vezes sem conta, mas do ministério mandaram sempre aguentar até terem uma solução alternativa.
- Pois é. ... A porra do governo ... bom, vou falar com o chefe de gabinete do ministro e depois digo-lhe alguma coisa. Até lá, não há mais papel para quem não paga. Ausente-se! Diga ao pessoal que teve de ir ao médico ....
- Isso não, pode dar azar ...
- Então mantenha-se no posto até novas ordens. Quanto é que nos devem?
- Já passa dos cinquenta mil contos ...
- Tanto???
- Está escrito em todos relatórios mensais ...
- Pois está, pois está .... Pois está .... Já lhe digo alguma coisa.
....
....
....

 - Ficou tudo excitado no ministério! Sem papel, amanhã não haverá jornais ... Parece que já estávamos a fornecer só para o dia seguinte ...
- É o que tínhamos combinado ... Mas só para os que não pagam. O Expresso tem papel. O Diário de Lisboa também...
- Pois é, pois é, mas o Expresso só sai aos sábados e hoje é ... Que dia é hoje?
- Segunda ... - E nós não fornecemos papel de jornal. Quem fornece são os finlandeses, nós pagamos aos finlandeses e deveríamos receber dos jornais ... mas a quase totalidade destes não paga.
- É uma porra de negócio, este, em que o Estado nos meteu ...
- Não foi o Estado, foi o governo.
- Pois, pois, o governo ... Este ou anterior?
- Todos, desde 1976, 1977, por aí ...
- Há dias o ministro voltou a perguntar por que razão não produzimos papel de jornal em Portugal.
- Perguntam todos.
- É. São uns ignorantes. ...
- Voltou a explicar porquê?
- Mil vezes! Mas naquelas cabecinhas só entra o que não os chateia ...
- E o que é que eu faço? Mando entregar ou mantenho a suspensão?
- Mande entregar mas só o papel que está em stock, no armazém, e o que vem no barco que já saiu da Finlândia. Depois ... Não há mais nada para ninguém. Entretanto, prepare as contas para as ir explicar amanhã ao ministro, as dívidas de cada jornal, você conhece o ministro não conhece?
- De vista.
- Então vai conhecê-lo pessoalmente. É um tipo simpático, não sabe o que está a fazer mas é simpático. Ele quer ficar bem inteirado do assunto. A coisa escalda, e ele quer ver se não se queima.
Você vai lá na qualidade de administrador-delegado da empresa que nem produz, nem vende, só paga e não recebe, ou quase.
- Espere aí. Eu não sou administrador-delegado da coisa, se fosse, a coisa já teria acabado há muito ...
- Vai passar a ser a partir desta tarde. Já mandei fazer acta.  Ah! E já vai estar na reunião do CA, que se realiza na sexta-feira da semana que vem para aprovação das contas, as tretas habituais.
E não há aumento de ordenado pelo exercício do cargo mas vai almoçar ao Aviz com os outros membros do conselho, são sete, todos não executivos,  três finlandeses, três portugueses e o administrador-delegado, que passa a ser você em substituição do Pilar. No Aviz, hem! Contas aprovadas em menos de um quarto de hora, e depois ala, para o Aviz! Quer melhor?
...
...
...
- É isso, é isso, é dos corredores do Quelhas. Lembro-me de si, só pode ser de lá.  Vamos lá, então, a ver essas contas e as histórias que tem para contar ...
... ...  ...

- Hum! Temos que acabar com isto ... Desta vez vamos mesmo acabar com isto. Depois de esgotado o que está em armazém e o que já foi embarcado na Finlândia não há mais crédito para ninguém ...
- Não chega ...
- Ah! não??
- Não, não chega. Se não suspendemos os embarques na Finlândia, deixando de avançar com o pagamento antecipado aos finlandeses, continua a pressão para o entregarmos ...
- Pois, pois, é verdade. É isso mesmo que devemos fazer, aliás já o deveríamos ter feito há muito tempo. Avisa-se os finlandeses que este barco que aí vem é "la dernière". Depois, eles que arranjem agente. Deve haver quem queira, que lhe parece?
- Parece-me que o problema deixa de ser nosso. E quanto aos créditos a cobrar, que fazemos?
- Cobramos!
- Em tribunal?
- Acha que só podemos apanhá-los em tribunal? Quanto é que temos de incobráveis, você já disse, mas passou-me...
- Para cima de cinquenta mil contos, a subir todos os dias. Não vejo alternativa senão metê-los no tribunal.
- Nem eu... ... ... Bom. Para já estancamos a dívida, não é?  Depois levamos a perdas os valores incobrados. Este ano, vinte por cento, para o ano ... é, em cinco anos temos as contas limpas. Parece-lhe bem?
- Bem, não me parece, mas o senhor ministro manda.
...
...
...
- Meus senhores, agradeço muito a gentileza das vossas palavras de boas-vindas, mas teria de haver grande falta de sinceridade da minha parte para escusar-me a dizer-vos que, tendo analisado as contas de exploração dos últimos cinco anos encontrei nelas várias imprecisões e alguns erros materialmente relevantes. Passo a detalhar;
... ... ...

Quero, contudo, antes de irmos almoçar no Aviz informar este  conselho de administração que a minha representada pretende anunciar hoje a dissolução da empresa e a denúncia do contrato de agência em consequência das suas características claramente leoninas. Os nossos amigos finlandeses aqui presentes sabem bem que recebem antecipadamente os fornecimentos que vêm fazendo há vários anos mas também não ignoram que não temos recebido dos clientes a maioria dos valores facturados.
Não é culpa deles, vai deixa de ser culpa nossa.
... ... ...
- (Quer dizer que este  o almoço de hoje vai ser o nosso último almoço no Aviz?)
- (Comigo, sim)

E foi.
---
*A semelhança entre estas "Histórias" e a realidade contemporânea não é pura coincidência. Como neste caso, o Estado, isto é, o dinheiro dos contribuintes, continua a ser chapéu debaixo do qual se abriga gente pouco séria.

Wednesday, October 28, 2015

O JOGO DA CABRA CEGA

Esta é de cabo de esquadra.

Não leio o "Correio da Manhã" mas conheço-lhe o estilo e as intenções.  
Apesar do pendor sensacionalista e do despudor com que o CM atinge o persistente recorde de tiragens, a decisão judicial de silenciar o jornal e os jornalistas que vasculham as pegadas do ex-primeiro-ministro são inadmissíveis num país livre.


Porque, das duas uma, ou o jornal publicou informação verídica mas judicialmente reservada e deve ser condenada a fonte que facultou a informação e não o mensageiro ou a informação publicada não é verdadeira e o jornal e os jornalistas deverão pagar pelas atoardas que espalharam. 

O director-adjunto do CM afirma aqui que  jornal vai acatar a decisão judicial  e contestar. 
Quem pode contestar os fundamentos das razões avançadas por E. Dâmaso?

"A providência cautelar foi requerida pela defesa de Sócrates e tem o estranho efeito de silenciar o CM sobre o processo, mas não o próprio nem os seus advogados. Numa democracia que tem a liberdade de imprensa e de expressão como pilares, este tipo de silenciamento aproxima-se perigosamente da ideia de censura prévia. É típica do velho país do respeitinho que políticos como Sócrates e alguns setores do poder judicial tanto gostam. Vai, de resto, em colisão frontal com a jurisprudência nacional e do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Uma coisa é certa: não será esta providência cautelar que vai parar a investigação do CM sobre o político Sócrates e que vem desde um tempo em que não havia qualquer investigação sobre ele. Jornalismo que se demite da sua obrigação de escrutínio dos atores políticos não é digno nem do nome nem da nobre história da profissão." 

Sunday, October 26, 2014

PATETICAMENTE EDUCADOR

O sr. Passos Coelho, no encerramento das jornadas parlamentares dos partidos que suportam o seu governo, acusou, vd.aqui, com incontida irritação jornalistas e comentadores de serem preguiçosos e orgulhosos, e de patético o que se ouve nas televisões e se lê nos jornais, por não verem ou desvirtuarem as virtudes evidentes do OE para 2015. Todos os jornalistas e todos os comentadores? Não há excepções convenientes? Já se passaram todos para a concorrência?

Admitamos que a crítica negativa compensa, que a apologia do governo não vende jornais nem sustenta as audiências televisivas, e que o governo do sr. Passos Coelho é vítima de uma orquestrada campanha para o derrubar. E que, resumidamente, o OE 2015 é uma peça de excepcional governação que só por preguiça e por orgulho (ou por gorgulho?) os media pateticamente treslêm. E, então? Pretende o sr. Passos Coelho ser o grande educador da classe media?

Se pretende, a lição tem de ser outra. 
Há relativamente pouco tempo trouxeram de novo, com novos dados, os jornais à baila um caso em que o sr. Passos Coelho é, porventura mal, suspeito de irregularidades em tempos idos  envolvendo dinheiros públicos. A acusação é grave, e não prescreve politicamente, considerando as suas actuais funções. Assim sendo, está a perder o sr. Passos Coelho uma oportunidade soberana para dar uma lição aos plumitivos que se atreveram a escrever o que, talvez por preguiça na recolha e confirmação de informações, não poderão provar.

Se, assim fosse, se as notícias não passam de atoardas, deveriam ser sacadas as cartas profissionais aos caluniadores e pesadamente multados os jornais veículos das calúnias. Se não, faltam ao sr. Passos Coelho razões morais para ainda estar a apresentar o OE 2015.

Thursday, August 07, 2014

ONDE ESTAVA O GOVERNADOR?

O senhor Carlos Costa tem muita gente que defende a sua incapacidade para ter detetado a tempo e horas a mascambilha que o senhor Ricardo Salgado e sua trupe engendraram à volta do banco que levava o nome do seu bisavô, usando mais ou menos argumentos com que outros, ou os mesmos, absolveram quatro anos antes a confessada distracção do senhor Vítor Constâncio, e promoveram-no a vice-presidente do BCE, responsável pela supervisão!

Um destes preclaros benevolentes defensores dos reguladores atira-se no Público de hoje - O precog lusitano - aqueles que, naturalmente menos informados mas mais tramados pelas consequências dos crimes praticados, ousam perguntar:  
“Onde estava o regulador?”.
Vê cair o BPN e questiona: “Onde estava o regulador?”
Vê cair o BPP e inquere: “Onde estava o regulador?”
Vê cair a Dona Branca e interroga: “Onde estava o regulador?”
Vê cair o Lehman Brothers e demanda: “Onde estava o regulador?”
Vê cair o Northern Rock e indaga: “Onde estava o regulador?”
Vê cair Bernard Madoff e interpela: “Onde estava o regulador?” 
Vê cair Alves dos Reis e perquire: “Onde estava o regulador?”

Perguntas pertinentes que o articulista considera bisonhas, despropositadas, porque, argumenta ele, os reguladores não são capazes de identificar e punir os culpados antes dos crimes serem cometidos. Pois não. Os reguladores não são paranormais capazes de tal proeza. Mas pede-se que façam o trabalho para que são excepcionalmente pagos, não por antecipação mas no momento próprio. Se depois dos casos "Alves dos Reis", "Dona Branca", "Madoff", " Northern Rock", "Lehman Brothers", "BPN", "BPP", para usar a lista do plumitivo,  os contribuintes continuam sujeitos aos pesados pagamentos dos descaminhos em proveito próprio dos banqueiros e coniventes, o governador deve explicar muito bem porquê. Parece que vai começar a fazê-lo hoje, e é de supor que dispensa testemunhas abonatórias certamente ignorantes da matéria.

Ao português comum, pagante, assiste o direito de perguntar porquê. Ou paga e não bufa, por recomendação do senhor jornalista?

Wednesday, October 02, 2013

UM MILHÃO DE EUROS É QUASE NADA

Estado tem de pagar este mês multa de um milhão de euros por atrasos na justiça, é o que se lê no título da notícia mas o título está errado. O Estado não tem de pagar nada, porque o Estado é uma ficção que se intromete entre quem paga (os contribuintes) e quem recebe através da administração pública. Quem vai pagar este milhão, quem paga muitos milhares de milhões por danos causados pelos atrasos da justiça somos nós, os que pagam impostos. Um milhão de euros é materialmente irrelevante quando comparado com o enormíssimo custo para os contribuintes, que não se mede em milhões mas em muitos milhares de milhões, dos atrasos da justiça.  
 
E não há culpados, identificados e responsabilizados, por estas perdas incalculáveis porque são enormíssimas? Não há. A lei que determina o direito à indemnização dos lesados por erros cometidos pela administração pública não prevê o obrigatório reembolso dos culpados e, consequentemente, pagamos todos.
 
E é porque pagamos todos, mas embaciados por uma neblina que leva a generalidade dos cidadãos a acreditar que quem paga é essa coisa etérea a que chamamos Estado, uma ilusão persistentemente também transmitida pelos media - o Estado é sempre o culpado - é que a reforma da justiça continua, e continuará, por fazer.
 
Quando é que os jornalistas apreendem esta ideia elementar de que o Estado não paga nem recebe nada. Senhores jornalistas, ou aprendizes do ofício: o Estado é um ente abstracto, aqui e em toda a parte, sem capacidade de decisão, em nome do qual os seus tutores, além do mais, nos cobram impostos, em grande medida para pagarem os erros que eles mesmos cometem.
 
Resumindo: Também eu tenho de pagar este mês uma parte da multa de um milhão de euros por atrasos na justiça. Eu, que não tenho culpa nenhuma neste caso, nem nos outros, sendo que o que muito mais me arromba são os outros.

Saturday, December 31, 2011

OLHÓ JANEIRO!*

Filipe Neri de OLiveira, Oliveira da parte da mãe, Filipe Neri da parte do santo da devoção materna, tornou-se ardina ao domingo quando o titular abandonou o cargo. Ia buscar os atados do Primeiro de Janeiro e do Diário Popular à estação de caminho de ferro e distribuía os jornais montado numa pasteleira. Durante a semana ocupava-se com um ou outro trabalho leve que a fragilidade física lhe consentia.

Era um homem cordato, sóbrio, despercebido, que se entretinha à noite a assistir aos jogos de cartas no clube, calado e atento. Aos domingos era tão esperado como o Chora, um tipo que motorizou a distribuição de pescado numa Zundapp em segunda mão e fez desaparecer as peixeiras que corriam duas léguas com as canastas na cabeça. Anunciava-se retinindo a campaínha do velocípede, o Chora apertava a pêra da buzina do cucciolo.

No primeiro dia de Janeiro, já o anotei aqui, o Primeiro de Janeiro esmerava-se com uma edição disputadíssima pelos seus habituais leitores. Mas, como era de prever, o número de habituais leitores era superior aos habituais leitores nos outros domingos, de modo que, naquele ano, o primeiro em que o Filipe se aventurara no negócio, os fregueses de A. de Baixo viram o Felipe passar de saco vazio de Janeiros por excesso de procura em A. de Cima, por onde o jornalista começava a volta. No domingo seguinte os de A. de Baixo  mandaram vender o Janeiro aos habituais leitores de A. de Cima, o Filipe desistiu da actividade, e acabou a distribuição ao domicílio, e eu deixei de ler o Janeiro.

Tempos depois espantava-me com a pontaria dos ardinas em Lisboa que faziam voar os diários para as varandas dos seus habituais leitores, como space shuttle em origami feitos em três tempos, e deliciavam-me os pregões à tardinha: Olhó Popular!, Olhó Notícias!Olhó Século!Olhá Bola! É a Bola! A Bola! Olhá Bola! Olhó Record! O Janeiro não chegava cá abaixo.
Mais tarde a distribuição dos jornais sedentarizou-se em quiosques pela cidade e acabou a distribuição ao domicílio.

Continua aqui, na Virgínia, a vinte milhas de Washington DC.
Todos os dias, uma mão invisível deixa à porta cerca das seis da manhã o Washington Post numa saqueta de plástico.
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* Editado às 19,30 horas locais, já chegara 2012 a Portugal, aparece datado com a data de ontem, por culpa dos fusos horários.  

Wednesday, June 16, 2010

PAGAR E ENTREGAR


Segundo o Negócios online de hoje, o Governo já pagou aos bancos os 450 milhões de euros que os bancos emprestaram ao BPP para evitar a insolvência desta instituição de descrédito. Aconteceu o que era fácil prever: uma garantia do Estado a uma operação privada resulta sempre em perdas para os contribuintes.

Aliás, a notícia, começa, como sempre acontece com as confusões que jornalistas e outros comentadores fazem com estas questões, com uma imprecisão grave: o Governo não pagou aos bancos, quem pagou fomos nós, os contribuintes, o Governo entregou aos bancos o dinheiro dos impostos e taxas que nos cobra.

Se houvesse da parte de quem comenta estas coisas um pouco mais de cuidado com o que afirmam quando se referem à intervenção dos poderes públicos na gestão dos dinheiros dos contribuintes teríamos uma sociedade mais esclarecida, mais exigente, mais próspera.  

Tuesday, April 06, 2010

Friday, March 05, 2010

O JOGO DA CABRA CEGA

Ministério Público considera que existem indícios para Valentim Loureiro ir a tribunal
O Ministério Público considerou, no debate instrutório do processo da Quinta do Ambrósio, que subsistem indícios suficientes para levar a julgamento Valentim Loureiro e outros oito dos 11 arguidos.
Face Oculta: Felícia Cabrita e Ana Paula Azevedo constituídas arguidas
As jornalistas do "Sol" Felícia Cabrita e Ana Paula Azevedo foram constituídas arguidas no inquérito instaurado à divulgação de notícias sobre escutas telefónicas efectuadas no caso Face Oculta.
Manuel Godinho tentou obter a demissão da secretária de Estado dos Transportes, revela jornal Sol
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Continua o corso apesar do temporal.

Friday, February 12, 2010

SOL E SOMBRA

Chegam-nos as notícias através da Internet e a sensação estranhamente incómoda de nos encontrarmos em casa.
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No tempo em que as telecomunicações se faziam por telefone com pedido de chamada internacional para a central, onde a operadora se encarregava das cavilhas e nos poderia fazer esperar umas horas, o país estava longe, mesmo que se estivesse a meia dúzia de quilómetros dele, e o regresso era sempre uma alegria mesmo que as notícias que se começavam a sintonizar junto à fronteira confirmassem que a Oeste nada de novo.
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Agora, se a curiosidade é mínima, estar a cinco fusos horários de distância ou a umas dezenas de quilómetros do Terreiro do Paço a imersão na peixeirada que tem caracterizado a vida política em Portugal, é a mesma. Até cá chega o cheiro.
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Quando tudo recomendava que houvesse decência e bom comportamento porque os tempos estão complicados, a justiça, sempre ela, consente toda a iniquidade e toda a desfaçatez. O estado de direito desfaz-se perante a complacência e a pusilaminidade dos seus mais altos dignatários, inimputáveis, inamovíveis, irresponsáveis.
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Ninguém se salva porque todos parecem apostados em arrastar-nos para o naufrágio colectivo.

Sunday, February 07, 2010

UM HOMEM PERIGOSO?

Não sou admirador de Vasco P. Valente e várias vezes o critiquei aqui.
Mas o artigo que transcrevo é um desafio. Se fica sem resposta, é consentido.
Com sentido?
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Alegadamente, o primeiro-ministro aprovou (ou, pelo menos, conhecia) um plano secreto e pouco saboroso para remover alguns críticos, que o irritavam, fazendo comprar a TVI e parte da imprensa por gente da sua confiança. As criaturas que ele queria exterminar eram, entre outras, o casal José Eduardo Moniz-Manuela Moura Guedes, como responsável pelo Jornal de Sexta, e José Manuel Fernandes, como director do PÚBLICO. Isto, a ser verdade, roça o absurdo. Nem o Jornal de Sexta, nem o PÚBLICO tinham o poder de pôr em risco o Governo ou sequer de afectar significativamente o prestígio e o estatuto de Sócrates. Se alguém tinha esse poder era o próprio José Sócrates, para não falar no grupo obscuro e anónimo, que, segundo se depreende dos documentos que o Sol revelou, o serviu zelosamente no terreno.
Não vale a pena insistir na ilegalidade e, sobretudo, na profunda imoralidade da operação, se por acaso existiu como a descreveram. Em qualquer sítio para lá de Badajoz, nenhum político sobreviveria um instante a essa grosseira tentativa de suprimir com dinheiro público o livre exame e a livre crítica, que a Constituição e os costumes claramente garantem. Mas não deixa de surpreender (e merecer comentário) que um primeiro-ministro de um partido que se gaba das suas tradições democráticas, declare por sua iniciativa, e sem razão suficiente, guerra aberta à generalidade dos media, que não o aprovam, defendem e bajulam. Não há precedentes na história deste regime de um ódio tão obsessivo à discordância, por pequena que seja, ou a qualquer oposição activa, de princípio ou de facto.
O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós.
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/07-02-2010/um-homem-perigoso-18749558.htm

Thursday, June 25, 2009

LIGAÇÕES PERIGOSAS - 2

State of Play é também, para além de um thriller acerca de lobbies e políticos corruptos, uma história de relações entre políticos, jornalistas e bloggers, e a polícia. Como é esperável nestas histórias, cabe aos jornalistas, e agora também ao bloggers, a perseguição da descoberta dos maus da fita. A polícia já deu o que tinha a dar, o jornalismo tradicional segue pelo mesmo caminho: dependentes das vendas e pressionados por quem detem o poder, os jornalistas são cada vez menos independentes nas suas opiniões e investigações. State of Play não vai por aí mas sugere: sem um obstinado que resiste (Russell Crowe), arriscando a pele, o jornal acabaria por ceder às conivências e ligações espúrias de quem nele manda com os lobbies e os políticos.
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Escaparão a esta teia os bloggers independentes, aqueles que não compram nem facturam?
Em muitos casos, sim. A actividade bloguística ao serviço da resistência no Irão, por exemplo, durante os recentes acontecimentos, tem sido decisiva na transmissão de informação bloqueada nos canais de media tradicionais: a televisão, a rádio e a imprensa.
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A blogosfera independente, aquela que não deve obediência a qualquer media online, tende a ser o refúgio da liberdade de expressão, ainda que, em grande parte, os blogs de abordagem política sejam claramente alinhados com as convicções pessoais ou os interesses próprios dos seus autores.
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Não é credível que o negócio PT/ Media Capital/TVI, que hoje constitui a notícia do dia, depois de ter sido referido ontem por MFLeite na entrevista que concedeu à SIC, não fosse do conhecimento do Governo. Ao negar esse conhecimento, o PM assume o ónus da suspeita de querer dominar o canal televisivo incómodo. Que não tenha interferido no negócio, aceita-se. Que não tenha tido dele conhecimento, é demais.
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