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Sunday, December 13, 2015

VOLTANDO A KRUGMAN

Ontem registei aqui mais um apontamento de Krugman - Debt and Demographic Debt Spirals - sobre a situação social, económica e financeira, em Portugal. O artigo suscitou muitos comentários de leitores norte-americanos (67, no momento em que componho estas linhas), alguns dos quais merecem a atenção de quem se interessa por estas questões porque nos dão, de algum modo, uma ideia da imagem de Portugal no contexto da União Europeia observada por quem vive do lado de lá numa grande e relativamente antiga união de estados federados. 

Krugman e outros economistas norte-americanos, de entre os quais é elementar destacar Stiglitz, têm dedicado bastante a sua atenção à evolução da situação na UE, sobretudo depois da erupção da crise de 2008 na Europa. E o seu diagnóstico não pode ser mais claro: a política de austeridade, liderada pela Alemanha, para enfrentar a crise iria agravá-la e seriam os países periféricos do sul da Europa os mais atingidos por essa política, segundo eles, errada. É esta perspectiva que está subjacente ao artigo de Krugman publicado ontem. 

O tema tem pontas múltiplas e não se puxa uma por inteiro sem puxar todo o incomensurável novelo.
Limito-me hoje a uma prometida* brevíssima reflexão sobre dois pontos:

- O financiamento do pagamento de pensões geridas pelo Estado em sistema de pay as you go apresenta vulnerabilidades evidentes em conjuntura económica deprimida, fustigada por dois factores cumulativamente negativos: desemprego e emigração.
A alternativa dos sistemas de capitalização, por outro lado, tem demonstrado poder ser ainda menos segura quando os mercados financeiros são abalados pela sua própria natureza e desses abalos não sabem como escapar. 
A conjugação mista dos dois sistemas, e de todas as suas variantes, permanecerá sempre sob a ameça do, até agora, inevitável comportamento dos ciclos económicos. 
Resumindo: Se as crises são inevitáveis, resta-nos tentar minimizar as suas consequências. E, em Portugal, não fez isso, fez-se o contrário.

A leitura do gráfico editado por Krugman, que transcrevi ontem, deve acompanhado da leitura de, pelo menos, outros dois gráficos.



É muito evidente (primeiro gráfico) qua a dívida pública portuguesa subiu abruptamente na última década tendo o número de activos começado a decrescer só a partir de 2009 quando se fizeram sentir os efeitos da contracção provocada pelas medidas de austeridade. A conclusão parece-me óbvia: não foi o défice demográfico natural que provocou o aumento fulgurante da dívida mas as medidas de austeridade (erradas ou não, evitáveis ou inevitáveis,  é outra questão) que provocaram o desemprego e a aceleração do fluxo emigarório (que já vinha de trás) e o refluxo da imigração,aumentando o défice demográfico total.

O gráfico seguinte, por outro lado, evidencia até que ponto a irresponsabilidade do sistema financeiro, importando crédito ao sabor das vantagens dos interesses de banqueiros e de políticos, colocou o país em posição de cheque-mate perante a raínha Merkel.

E.T. - Nada do que afirmo contraria a evidência de que a redução da população activa contrai a base de incidência dos impostos e ameaça dramaticamente a capacidade do Estado solver os seus compromissos na ordem externa e interna.

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 * Vd. aqui

Saturday, December 12, 2015

DÍVIDA E DÉFICE DEMOGRÁFICO

Paul Krugman está hoje em Portugal para participar na conferência promovida pelo Banco de Portugal de homenagem a Silva Lopes. A propósito desta visita, com o restrito intento de participar na conferência e encontrar-se com amigos, Krugman dedica hoje na sua habitual coluna no The New York Times mais uma reflexão sobre os "terrible times" que   Portugal atravessou recentemente.

Desta vez, a sua observação -Debt and Demographic Debet Spirals - incide sobre a correlação entre o crescimento da dívida e o decréscimo da popução activa em Portugal desde a erupção da crise  em 2008.


A mobilidade do trabalho é fundamental para o ajustamento dos choques assimétricos nas uniões monetárias. Mas como se garante o reembolso da dívida e o pagamento das pensões de reforma quando decresce o número de trabalhadores activos? 

Dispenso-me de transcrições: A mensagem de Krugman merece bem uma leitura no original. 



"Oh, and Lisbon is really lovely despite all 
— and seems, justifiably, to be attracting a lot of tourists, which surely helps."


Thursday, February 05, 2015

DANÇA COM DRAGHI

Venho a chegar a casa e ouço na Antena 1 que milhares de gregos se manifestaram esta tarde em Atenas contra a decisão do BCE de hoje, que muitos consideram uma chantagem, de recusar aos bancos gregos a aceitação como colaterais de empréstimos os títulos da dívida pública grega e, deste modo, provocar o asfixiamento do sistema financeiro grego. No Parlamento, Tsipras afirmava que  "a Grécia não pode ser chantageada".
Mas não é, ou ainda não é, este o caso. 

Porque os bancos gregos podem continuar a financiar-se junto do banco central grego e, hoje mesmo, o BCE deu luz verde a financiamento de 60 mil milhões aos bancos gregos. A curto prazo, observou o sr. Schäuble para que toda a gente perceba que ele também tem voto na matéria. Ora, das duas decisões do BCE, só a segunda é substantiva porque a primeira não ditou nada de novo e não se aplica apenas à Grécia. Só atinge a Grécia porque só a Grécia, neste momento, é atingida pelas regras do BCE em consequência do rating da sua dívida pública.   Funcionou com recordatória para quem, eventualmente, estivesse esquecido.  

A missão de Draghi é extremamente difícil porque não lhe basta ser um técnico de craveira excepcional, tem de ser também um político suficientemente hábil para demarcar o terreno em  que governa e antecipar-se às tentativas de intromissão nas suas competências e nos seus objectivos num tempo de enorme perturbação da UE, e, em particular, da Zona Euro.  

Aqui pergunta-se, e recomenda-se: Draghi está seguro dos resultados da sua intervenção? De modo algum - ninguém nesta confusão sabe o que vai acontecer. Mas não entrem em pânico - para já.

Sunday, January 04, 2015

AFINAL, O EURO

Para muita gente supostamente respeitável por aquilo que afirma, o euro é uma construção insustentável, que não resistirá às crises inerentes aos inevitáveis ciclos económicos. Pode a resiliência demonstrada pela moeda única europeia em 2014 considerar-se um dos eventos que mais marcou o ano passado,  tendo em conta que foram muitos os que lhe previram o fim? Aqui, considera-se que sim - Ainda houve quem apostasse no seu fim no início do ano, mas agora para 2015 isso parece ter desaparecido.
Mas terá desaparecido mesmo?

2015 promete ser um ano politicamente muito complicado na União Europeia, com eleições legislativas na Grécia, dentro de duas semanas, Reino Unido, Espanha, Portugal e Itália, num contexto de generalizada progressão dos movimentos mais radicais. De direita, sobretudo a norte, mobilizados por reivindicações anti-imigração, que facilmente descambam para acções xenófobas e racistas. De esquerda, a sul, mobilizados pelo descontentamento que as políticas de austeridade geraram e continuam a gerar, porque o crescimento económico estagnou, e as dívidas soberanas continuam a crescer. 

Culpa do euro?
Anteontem, Paul Krugman comentava aqui um artigo de Simon Wren-Lewis, um economista britânico - How good has the UK recovery been? - resumindo neste gráfico,

as consequências das políticas de austeridade adoptadas na Europa vis-a-vis a evolução observada nos EUA. Notável é ainda o comportamento da economia francesa, que é parte da zona euro, avaliada em termos de PIB/capita relativamente à britânica, que não abdicou da sua libra.

Eis o triunfo da austeridade, ou talvez não, comenta Krugman
E continua: (cito, resumindo)

"O sucesso da economia reclamado pelo governo britânico durante os últimos um ou dois anos é uma falácia porque ignora o mau comportamento no período anterior. ... Por outro lado, atribui-se geralmente à dimensão do estado social em França a causa da estagnação da economia francesa. E à austeridade no Reino Unido é atribuido o sucesso da sua economia nos últimos tempos"

Tudo isto é deprimente, remata Krugman, desde o início da crise um crítico tenaz das políticas de austeridade adoptadas na Europa. 
Receio que continue a ter razão.

Tuesday, September 16, 2014

ALGUÉM TERÁ DE MUDAR

Paul Krugman tem sido muito persistente na crítica às opções de política orçamental adoptadas na Europa, e sobretudo na Zona Euro, para enfrentar a crise que irrompeu há seis anos atrás. É incontável o número das suas intervenções públicas no sentido de demonstrar que a Europa se atola cada vez mais  no caminho que escolheu. À medida que o tempo passa, as suas críticas, os seus alertas, (e os de outros que têm assestado as suas posições em sentidos idênticos) têm-se provado certeiras. Hoje, publica aqui "Replaying the 30s in Slow Motion"

concluindo que, se na década de 30 a Europa emergiu da crise politicamente fragilizada (a segunda grande guerra começaria poucos anos depois) a recuperação económica tinha ultrapassado o ponto de partida cinco anos após o início da recessão. Desta vez, as medidas adoptadas para o controlo da crise financeira impediram que a recessão fosse menos cavada e os conflitos sociais melhor dominados mas a evolução da produção agregada está estagnada abaixo dos valores observados antes do período homólogo. 

Quem terá de mudar? 
Obviamente, o governo de Berlim. Mas não só. A União Europeia, e em particular a Zona Euro, é um clube que, como qualquer clube, só pode perdurar (e ganhar) se houver um conjunto fundamental de princípios respeitados pelos seus membros. Ouve-se com alguma frequência afirmar que "não pode a Alemanha pretender germanizar a Europa" porque os povos europeus têm culturas diferenciadas e não podem pretender impor uns os seus valores culturais a outros. O que sendo do mais elementar bom senso não pode alijar outro bom senso igualmente elementar: o de que a perdurabilidade da permanência de um sócio num clube, qualquer que ele seja, depende da sua aceitação das regras fundamentais comumente aceites. 

Espera-se que da situação ilustrada no gráfico hoje publicado por Krugman o governo de Berlim retire a conclusão que os alicerces da União estão a ser minados pela estagnação e a sua inflexibilidade terá de ceder se a Alemanha pretender participar na unidade europeia.
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Correl.- (18/9) Yellen considera que baixo crescimento da Europa ameaça a economia global

Wednesday, December 18, 2013

ECONOBLOGOSFERA

P. Krugman comentou ontem aqui a ascendência da blogosfera sobre os anteriores meios de divulgação da evolução da construção, e da desconstrução, do discurso económico. A propósito, cita Onalytica, um blog que se reclama dedicado a "Indicadores Económicos Alternativos", que em Agosto publicou o seu ranking dos 200 blogs "económicos" mais influentes. Como seria de esperar, são em esmagadora maioria de autores norte-americanos.

Também nada surpreendentemente,  "The Conscience of a Liberal" lidera o ranking "Onalytica". Krugman afirma-se, tanto nos meios académicos como junto de todos quantos se interessam razoavelmente pelas questões económicas, como um pensador infatigável e disponível à discussão do que pensa sobre as questões mais polémicas e fracturantes. Pode-se discordar dele, total ou pontualmente, mas não se lhe pode negar a capacidade, o empenho, a frontalidade, a honestidade, com que procura equacionar os rumos das várias rotas do mundo em cada dia que passa e desafiar os outros a demonstrar o contrário. 

A sua presença diária no "The New York Times" seria mais que suficiente para lhe grangear uma notoriedade ímpar entre os seus pares. Krugman, contudo, há muito tempo que se apercebeu que os tempos estão cada vez menos favoráveis à utilização dos media tradicionais como forma de suscitar a discussão sobre questões de interesse universal e susceptíveis de serem apreendidas pela generalidade dos interessados, e a blogosfera assume-se como a plataforma mais conveniente à exposição das ideias de quem tem algumas que valham o tempo de as pensar. 

Uma evidência que muita gente supostamente bem pensante  ainda se recusa, sobranceiramente,  a reconhecer em Portugal. Mas também há quem marque presença regular na econoblosgosfera portuguesa com um sentido de compromisso cívico com a sociedade e sujeição ao contraditório público. Lamentavelmente, o hábito de comentar descamba com muita facilidade para os extremos: ou o inócuo bem visto senhor autor ou a truculência de um desacordo sem fundamento. 

A propósito, destaco a publicação em ibook das crónicas de Pedro Lains editadas no seu blog - A Crise por Dentro, 2008-2013 -. Aplaude-se a iniciativa mas lamenta-se que ela coincida com o termo do blog.
  

Friday, August 30, 2013

O EURO NA PENHA LONGA

Soube-se há dias que em Maio do próximo ano (25 a 27) se realizará na Penha Longa um "Fórum do BCE sobre Bancos Centrais", E que "o  BCE pretende organizar este Fórum no mesmo local nos próximos anos, por volta da mesma data que em 2014, com eventuais ajustamentos, tomando em consideração outras reuniões internacionais dos decisores de política ao mais alto nível." 
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Uma notícia que  assim como apareceu assim se sumiu abafada pelos calores balneares, pela flagelação dos incêndios e as mais que extensas reportagens dessa guerra invencível, pelas tricas e os truques  das  autárquicas, pelas expectativas à volta das decisões políticas solicitadas ao Tribunal Constitucional, e, last but not least, pelo arranque dos campeonatos de futebol e a derrota do Benfica logo na primeira jornada. Com uma fartura destas quem é que perde tempo a pensar e a fazer algumas contas acerca das possibilidades, das vantagens e desvantagens do euro subsistir em Portugal?

Curiosamente, já o referi neste bloco de notas várias vezes, são sobretudo britânicos e norte-americanos os economistas que mais se dedicam a observar, analisar e a especular sobre a vida do euro em cada país membro que o adoptou. De entre eles destaca-se o incansável Krugman a juntar às suas análises, conclusões ou simplesmente hipópeses as pontas que outros tecem e não lhe escapam. 

Ontem, juntou mais uma nota - Aging Euroskpetics* -, um título irónico mas acertado para quem há tanto tempo tem vindo a reflectir sobre um tema que nos atinge a todos mas não bule sequer os académicos deste país, mais lestos a reivindicar bolsas que a apresentar resultados. Ao desafio que o imbróglio lhes coloca respondem, geralmente, que a questão não é uma questão de contas mas de opções políticas.
Tomadas de queixo?
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Transcrevo:
 
"I would say, by the way, that while our skepticism has been pretty well vindicated, the key weaknesses of Europe as a currency area have been somewhat different from what we imagined. Low labor mobility is a problem; but lack of fiscal integration and lack of banking union have been even bigger problems."

Comments
Kubus/Germany

"Low labor mobility is a problem; but lack of fiscal integration and lack of banking union have been even bigger problems."

Mr. Krugman, I think you missed the core problem: political integration!
I wonder how a fiscal integration, banking union, etc could work without a common democratic representation. As we've seen in the last years, the lack of that issue creates a perfect moral hazard situation where every single member state just follows their very own national interests. So, rightfully many authors on the oca-theory stress the political integration as a precondition of a working currency area.

Thursday, July 04, 2013

"ÀS VEZES HÁ MILAGRES"*

Caro A.,

Sabemos que não confias nas reflexões de Krugman e o consideras um académico demasiado enfronhado nas suas teorias não confirmadas pela realidade. Permito-me discordar. Krugman é um pensador prestigiado em todo o mundo que se expõe diariamente à crítica de todos quantos queiram refutar o que ele afirma. Uma lista colocada hoje no WSJ, (vd. aqui, citada pelo próprio Krugman como resposta aqueles que afirmam que ninguém presta atenção ao que ele diz)  atribui o primeiro lugar a Krugman entre os pensadores contemporâneos mais influentes.
 
O confronto Krugman-Reinhart/Rogoff é bem significativo da capacidade de Krugman para se apresentar a defender os seus pontos de vista sempre que a ocasião o desafia. E é verdade que Reinhert/Rogoff já reconheram alguns erros no paper que deu tanto que falar e escrever. Aliás, Reinhart afirmava há tempos em Lisboa que o tal paper não receitava a austeridade como remédio para  as crises e que, no caso português, provavelmente a receita não era recomendável. Reconheça-se, por outro lado, que Krugman ao opor-se à política de austeridade imposta pela Alemanha e companheiros do norte à Europa do sul não ignora que há um gravíssimo problema com as dívidas soberanos destes países. O que ele defende é que, ou a Alemanha muda de política ou acabará com a zona euro e a União Europeia.
 
É evidente que um país sobre endividado não pode crescer porque, a partir de certo limite, o custo da dívida excede de modo galopante o potencial de crescimento. Mas a solução não passa, ou não passa prioritariamente, por medidas de austeridade.
 
Quem trabalhou no sector privado (e refiro isto porque apontas a Krugman o seu alheamento da realidade empresarial) sabe que se uma empresa entra em situação de falência (incapacidade de pagar integralmente aos credores) aos fornecedores só restam duas hipóteses: ou desistem de parte ou da totalidade das dívidas e contabilizam os prejuízos ou acordam num plano de recuperação do devedor que pode incluir várias medidas, que, no entanto, passam sempre por conceder ao devedor, qualquer que seja a estrutura societária superveniente, condições de pagamento exequíveis.
 
Os países não são empresas mas as soluções não podem ser muito diferentes. No caso de Portugal o crescimento imparável da dívida passou há muito para lá do point of no return. Seria preciso que o crescimento económico ultrapassasse a taxa de juro implícita da dívida e o superavit da balança comercial ultrapassasse o défice primário. É isto possível? Eu não sei como.
Mas gostaria que alguém me explicasse.
Abc
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"Às vezes há milagres, afirma EC, a propósito de uma discussão à volta deste paper de Paul Krugman, e acrescenta "... A solução para o excesso de divida está na mutualização parcial pontual e extraordinária a par da retoma económica e da ajustamento em curso. Temos de substituir semanticamente AUSTERIDADE por RIGOR"
 

Monday, June 17, 2013

ECONOMIA & IDEOLOGIA

No princípio deste ano realizou-se em San Diego a reunião anual dos economistas norte-americanos, e Paul Krugman comentou aqui um dos temas centrais discutidos: até onde a investigação económica é isenta da ideologia preponderante na mente do investigador? É um artigo interessantíssimo, como são, aliás, em geral todas as suas opiniões publicadas no Wall Street Journal ou no seu blog, The Conscience of a Liberal. Neste caso, porém, Krugman - confessadamente, um liberal no sentido norte-americano do termo -, coloca-se perante a pergunta recorrente - até onde é possível a objectividade na investigação no campo das ciências sobrepor-se à subjectividade decorrente da ideologia de quem investiga - a partir de um paper apresentado por dois outros economistas tendo como base as respostas dadas por um painel de economistas aquela questão.

Recordei-me deste artigo de Krugman quando li esta manhã que Francisco Louçã, prevê, vd. jornal i, que

"Num cenário de saída do euro será necessário um governo capaz de inspirar "confiança" às pessoas, já que os sacrifícios serão equivalentes aos "que os avós passaram na II Guerra Mundial. "No dia seguinte à saída do euro passamos a transaccionar em moeda estrangeira", aponta o economista, que prevê que nesse mesmo dia o novo escudo desvalorize cerca de 30% (uma estimativa considerada simpática por outros economistas presentes no debate). Ainda segundo o ex-líder bloquista, imprimir moedas e notas do novo escudo levará entre três a seis meses, o que vai fazer com que as trocas durante esse período inicial sejam efectuadas ainda em euros. Mas no dia-a-dia da população, a manutenção do euro em circulação pode complicar-se. "O que é que vai fazer o merceeiro de bairro ou que é que vai fazer o Soares dos Santos? Vão dizer que o multibanco está avariado porque é mau negócio ser pago em escudos e é bom ficar com euros em notas e moedas porque o euro vai valorizar" Mesmo que isto não aconteça, caso passem a ser permitidos levantamentos controlados de 50 euros por dia nos multibancos, nos dias seguintes à saída do euro, o economista prevê que passados dois meses deixe de haver notas de euros em circulação no país, já que toda a gente tentará ficar com o máximo da moeda antiga - que valorizará com a saída de Portugal.Também a inflação afectará o quotidiano das famílias portuguesas, especialmente nos produtos importados, como medicamentos e combustíveis. Um argumento que para Francisco Louçã justifica o receio da população de uma saída da moeda única e se sobrepõe às previsões dos economistas que apontam para um crescimento a longo prazo fora da zona euro."

Fica muito claro que as perspectivas de uma saída do euro traçadas por Louçã (e estas declarações sobre assunto não são novidade) são em grande medida opostas às de Ferreira do Amaral, que, tendo-se publicamente oposto à entrada no euro é agora muito combativo pela saída, argumentando que a manutenção de Portugal no euro é insustentável e o modus faciendi da saída negociável.

Tanto Louçã como Amaral se situam ideologicamente à esquerda, e Louçã mais à esquerda que Amaral. Não sendo extraordinário que, dentro do mesmo quadrante ideológico haja desencontros nos caminhos para atingir os mesmos objectivos, neste caso as posições dos dois professores de economia na mesma escola parecem também opostas nas melhores (ou menos más) soluções que propõem: Amaral, a saída do euro, Louçã, vejam bem no que nos iremos meter.

Não os juntando a ideologia, alguém já fez umas contas?

Monday, May 20, 2013

ONDE DEVE HAVER AUMENTOS DE SALÁRIOS

Em Portugal ou na Alemanha?
É de admitir que, sobre o assunto, hoje muita gente já tenha mudado de ideias em Portugal. Ainda assim, as reivindicações das organizações sindicais têm como objectivo natural melhores condições salariais, qualquer que seja a forma como elas se traduzam.
 
Paul Krugman, que a si mesmo se considera um liberal, o que na tradição norte-americana se traduz por esquerda política, escreve hoje em "The conscience of a liberal" a propósito dos salários alemães e da competitividade da economia portuguesa. Depreende-se do início do apontamento de Krugman que a questão lhe foi suscitada por um debate encurralado entre  Ryan Avent, Tyler Cowen e  Karl Smith sobre até que ponto uma política mais expansionista do BCE pode ajudar a recuperação dos países periféricos.
 
Segundo Cowen, uma tal política expansionista teria um efeito inflacionista na Alemanha e não determinaria um boom em Portugal. Krugman concorda com Avent e Smith que Cowen não está a ver o ponto crítico da questão ao focar a sua atenção sobretudo no nível de concorrência directa entre Portugal e a Alemanha e na dimensão das exportações portuguesas para a Alemanha. O que é mais relevante, segundo Krugman, é o facto de Portugal e Alemanha terem uma moeda comum e o que acontece na Alemanha influencia o valor dessa moeda (o euro) relativamente a outras moedas.
 
Afirma Cowen que um aumento dos salários na Alemanha resolve, quanto muito, um dos principais problemas da zona euro, corrigindo os preços relativos entre Portugal e a Alemanha mas isso teria menos impacto do que a redução dos salários nominais, demasiado altos, em Portugal.  
 
Pergunta Krugman: Os salários nominais são demasiado altos relativamente a quê? Um valor real resulta da comparação de dois valores nominais. E a resposta é clara: são demasiado elevados relativamente aos salários alemães. Argumenta Cowen que é pouco relevante a concorrência entre as economias portuguesa e alemã. Pois é. Mas imagina, Cowen, que os salários na Alemanha aumentam 20%. Imediatamente o euro desvalorizar-se-ia contra outras moedas, nomeadamente o dólar. E, consequentemente, as exportações portuguesas tornar-se-iam mais competitivas em todo o lado, e não só na Alemanha e restantes membros da zona euro. 
 
Ora isto, conclui Krugman, implica determinadas obrigações para a Alemanha, quer os alemães queiram quer não.
 
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Acontece que nem Frau Merkel quer (ou pode) concordar com Krugman nem o senhor Arménio Carlos com Cowen. De qualquer modo, há muito mais variáveis para além do valor do euro na equação da competitividade da economia portuguesa. Desde logo a insuficiência de potencial de crescimento no caso de uma eventual desvalorização do euro. Resumir a avaliação dos factores de competitividade da economia portuguesa ao valor relativo da moeda de transacção permite encontrar um (transitório) bode expiatório mas ignora os seus pontos mais débeis. O excessivo enfoque geralmente dado à competitividade monetária prejudica a análise dos constrangimentos reais da competitividade global da economia portuguesa.

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Há, porém, um efeito, cujo impacto seria muito relevante, de uma eventual onda inflacionista controlada, duradoura: o de resolver o problema das dívidas soberanas.  
 

Sunday, March 17, 2013

VALE TUDO

Durante quase dois anos os resultados dos exames ao cumprimento do contrato assinado pelo trio - PS, PSD, CDS - com a troica foram publicamente anunciados como positivos, regozijando-se o Governo português, o FMI, a União Europeia e o Banco Central Europeu com os esforços, a disciplina e a resistência do povo português, o melhor do mundo, segundo o senhor Vítor Gaspar, num dia em que tinha recebido os parabens dos examinadores à sua capacidade para cumprir o programa de ajustamento.
 
Hoje, disse o senhor Daniel Bessa, "estamos todos a evitar anunciar a bancarrota". O senhor Daniel Bessa é livre de dizer o que bem entende mas, em matéria de economia, é suposto que entende da poda. Como é que foi possível só agora se tornar nítido que estamos mais próximos do precipício do que quando pedimos ajuda para evitar a queda no abismo? Erraram todos, troicos e Governo, durante trimestres seguidos, e só agora compreenderam que o compromisso era incumprível desde o momento em que foi negociado e assinado?
 
Ou enviesou-lhes os cálculos a ideologia com que o FMI compõe a sua metodologia, e a União Europeia fervorosamente abraçou por determinação da senhora Merkel? Nunca acreditei nisso. Se as recomendações da troica em matéria de reestruturação do Estado eram geralmente pertinentes - e muita gente concluiu que nunca a troica poderia ter feito um diagnóstico tão preciso se não tivesse recebido sugestões dos entrevistados -, por que razão só agora a troica acusa o Governo de ter descurado essa parte fundamental do programa? 
 
Por uma questão de tempo. O tempo necessário para retirar os bancos, nomeadamente alemães e franceses, do atoleiro para onde nos tinham conduzido. Vítor Gaspar errou quase todas as previsões, mas não errou só agora. A reforma do Estado continua em grande medida por fazer e não é razoável imputar a Gaspar toda a culpa do fracasso.  Porquê, então, só à sétima avaliação, Gaspar é chumbado? Porque ainda não tinha sido atingido o objectivo primordial: salvar o sistema. E, para o salvar, sabemos agora, segundo eles, vale tudo. 
 
Ontem soube-se que aos cipriotas foi imposto, sem aviso nem aprovação no parlamento, um corte nos seus depósitos bancários. Hoje, os cipriotas, amanhã quem? Paul Krugman escreveu hoje no seu blog, a este propósito, "It´s as if Europeans are holding up a neon sign, written in Greek and Italian, saying "time to stage a run on your banks!".
 
As corridas aos bancos começam por ser irracionais e tornam-se, naturalmente, racionais.
Amanhã, veremos.
 

Thursday, January 24, 2013

O DÉFICE NÃO É UM PROBLEMA


Martin Wolf, citado por Paul Krugman aqui, defendia ontem no Financial Times que  a política fiscal norte-americana não está em crise - America´s fiscal policy is not in crisis -, o desafio mais urgente é a promoção da recuperação da economia. Sem dúvida, reconhece MW, a evolução da dívida poderá vir a colocar sérios problemas a longo prazo, mas a única forma de os evitar não é a redução da despesa a curto prazo mas a criação de condições de crescimento económico que obrigue a inflexão da curva do endividamento antes que este assuma proporções indomáveis. Em resumo: Martin Wolf alinha pela política da administração de Obama, ainda que pondere nela alguns trajectos que deverão ser equacionados, por exemplo, o crescimento dos custos de um sistema, ineficiente, de saúde. Do ponto de vista da oposição republicana no Congresso, que já engoliu metade do sapo do aumento do tecto da dívida, Martin Wolf será um socialista infiltrado no diário de maior expansão mundial, um símbolo inequívoco do capitalismo.

Uma das consequências imediatamente visíveis desta política é persistente desvalorização do dólar relativamente à moeda única europeia que, obviamente, favorece as exportações norte-americanas e dificulta as economias europeias, sobretudo aquelas que, por se encontrarem num patamar tecnológico médio menos competitivo, enfrentam desarmadas a guerra das moedas. A desvalorização da moeda não é uma  uma boa via para ganhar competitividade de forma sustentada, mas a valorização é certamente um handicap que algumas economias, e nomeadamente a portuguesa, com um tecido produtivo não geralmente sofisticado,  dificilmente poderão compensar com outros argumentos.

Assim sendo, é esperável que a União Europeia do norte reconheça a curto prazo que a política prioritária da austeridade tem de dar lugar a uma política mais flexível que, sem descurar a prosecução do aumento da eficiência do Estado, permita criar condições à revitalização das economias mais fragilizadas. A obsessiva polarização do discurso político no saneamento das finanças públicas, de que a reentrada nos mercados é um exemplo flagrante, tem desvalorizado o caminho económico que permitirá pagar a dívida. Alguns argumentam que não há crescimento económico sem saneamento das finanças públicas e que a economia não é o governo que a promove mas os empresários. O que sendo verdade, não é totalmente verdade. Se fosse, as exportações portugueses não representariam, apesar dos progressos observados, ainda uma parte menor do PIB do país.  

Monday, October 15, 2012

GASPAR CONTRA TODOS

Ouço na conferência de imprensa de hoje um jornalista perguntar ao ministro das Finanças porque razão não tinha o governo em conta a revisão da posição do FMI quanto às políticas de austeridade impostas aos países intervencionados. Respondeu o ministro que não há uma posição oficial do FMI, o que há, segundo Gaspar é um texto, sem precedentes, subscrito por Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI. Acrescentou Gaspar que a imprensa confundiu opiniões Paul Krugman com as do FMI.

Ora não foi apenas Blanchard que colocou em causa a persistência das políticas de austeridade em economias em fase recessiva. A directora-geral do FMI, Christine Lagarde em declarações recentes publicadas em todo o mundo alertou para a necessidade de cautela com as consequências das medidas de austeridade, e nomeadamente com as que estão a ser impostas em alguns países europeus. São também declarações sem precedentes, são também declarações irrelevantes, apesar das suas funções de responsável máxima do FMI?

Poder-se-á perceber que não poderia Vítor Gaspar alterar as principais linhas de força (ou de fraqueza) do OE que teria de ser apresentado hoje na AR dois ou três dias depois daquelas declarações serem conhecidas. Mas, se o ministro das Finanças conhece, e não poderá deixar de conhecer, as posições públicas desde há algum tempo mais benevolentes do FMI do que aquelas que têm sido também publicamente reveladas do BCE e da Comissão Europeia, é difícil perceber o distanciamento a que colocou a sua resposta de hoje.

Contrariamente ao que Gaspar reafirmou não há apenas uma via  para ultrapassar a situação crítica em que Portugal se encontra mergulhado. A sua proposta de OE poderia não ser outra neste momento mas tal facto não invalidava que Gaspar pudesse invocar a expectativa de medidas que têm sido enunciadas (união bancária, globalização dos seguros de depósitos, por exemplo) com reflexos nos custos da dívida pública e privada.

Já que não lhe seria possível admitir o caminho mais provável: o da renegociação da dívida, aquele que, segundo Willem Buiter, economista-chefe do Citigroup, é a única via para salvar o euro.



 

Monday, August 20, 2012

MR RYAN NÃO É HONESTO

Anteontem, Martin Wolf no Financial Times - Paul Ryan´s plan for America is note credible - já tinha rebatido a ideia que Ryan, o candidato a vice-presidente dos EUA em Novembro imposto a Romney,  não é o homem honesto que reclama ser. Em abono da sua afirmação, Martin Wolf cita depoimentos insuspeitos do lado republicano, além do menos insuspeito, a este respeito, Paul Krugman.

Krugman tem vindo a denunciar, naquele modo de reagir oportuno e geralmente contundente, na sua habitual coluna no New York Times as incongruências de um plano que não são apenas políticas mas também aritméticas.
  
Em "Un unserious man" datado de ontem, e que no momento em que o começo a ler conta com 261comentários e quando termino está já com 559, Krugman prevê daqui até às eleições um inevitável debate renhido sobre a política fiscal dos EUA. Inevitável, porque Ryan, a eminência parda do Tea Party congregou à sua volta a popularidade que hoje desfruta nos meios conservadores porque decidiu que era Honesto e um Conservador Sério, e que as sua suas propostas devem ser merecer consideração mesmo da parte de quem não goste dele. 

Mas, garante Krugman, nem Ryan é honesto nem as suas propostas têm merecimento.
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"Do lado da receita fiscal, o senhor Ryan propõe grandes cortes nos impostos dos mais ricos e das empresas. O Tax Policy Center calcula em $4,3 triliões (1 trilião=1 milhão de milhões) as perdas de receitas resultantes desse corte ao longo de uma década. Do lado da despesa, o senhor Ryan propõe cortes na ""Medicaid", poupando $800 biliões, redução do apoio em alimentos aos mais pobres, poupando $130 cerca de 130 biliões, outras reduções, incluindo a redução de ajudas a estudantes. Tudo junto, estas poupanças não excederão $ 1trilião de dólares

Em cima disto, Ryan inclui mais $716 biliões de poupanças em Medicare, uma parte do programa "Obamacare", ainda que a sua intenção seja acabar com ele. Apesar disto, Ryan juntou-se a Romney denunciando o Presidente Obama de estar a cortar o "Medicare"... É demais em tão curto espaço de tempo. Portanto, para cortes nos impostos de $4,3 triliões, Ryan não conta mais do que $1,7 triliões de poupanças, com a particularidade de os cortes de impostos beneficiarem desproporcionalmente os 1% mais ricos, e o défice agravar-se-ia em $2,5 triliões de dólares. Ryan reconhece que seria um défice falcão, e adianta que seriam necessários outros cortes mas recusa-se a identificá-los" 

"É notório que o "Medicare" vai ser o prato forte da campanha e que aos republicanos não repugnará repetirem as acusações a Obama, feitas durante a campanha das eleições intercalares em 2010, de fazer algumas reduções que são parte do plano Ryan."  

"So will the choice of Mr. Ryan mean a serious campaign? No, because Mr. Ryan isn’t a serious man — he just plays one on TV."

Wednesday, August 08, 2012

CIENTIFICAMENTE, TUDO NA MESMA*

A 13 de Maio deste ano, Krugman ilustrava o seu apontamento do dia - Eurodämmerung - com um youtube do final de Götterdämmerung - O Crepúsculo dos Deuses.

Segundo Krugman (que citei aqui),

1.- A Grécia sai do euro, provavelmente já no próximo mês; (em Junho, portanto)
2.- Espanhóis e italianos transferirão largos montantes de dinheiro para os bancos na Alemanha;
3a.- Talvez possam ser introduzidos controlos, de facto, proibindo a saída de fundos desses países, e limitando os montantes levantados;
3b.- Alternativamente, ou em simultâneo, largos montantes de crédito serão disponibilizados pelo BCE de modo a evitarem o colapso do sistema;
4a.- A Alemanha tem de escolher entre aceitar mudar de estratégia, permitindo medidas que reduzam os custos dos empréstimos, e, consequentemente, que a inflação faça o ajustamento possível dos preços na Zona Euro, ou

4b.- Acaba o euro.

Quatro dias antes, a Fitch garantira que a eventual saída da Grécia não determinaria o fim da moeda única europeia (cf aqui). Recentemente, um estudo realizado pela mesma agência financeira confirma a garantia que deu há cerca de três meses: a zona euro será capaz de resistir às pressões dos mercados e manter-se intacta a longo prazo.

Apesar da oposição das previsões, tanto Krugman como a Fitch (ou quaisquer outros opinadores mais ou menos credenciados) partem da mesma premissa: o comportamento da Alemanha. Krugman critica as obstinações alemãs e prevê o fim do euro se elas persistirem. Fitch garante a sobrevivência da zona euro porque, segundo eles, a Alemanha será perdedora com a sua extinção. Mas a Fitch terá razão se, e só se, os alemães estiverem convencidos disso mesmo.

Até lá, se entretanto nada de muito inesperado acontecer, Merkel quer que os bancos alemães continuem a tirar o cavalo da chuva, e, cientificamente, continuará tudo na mesma.
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* Para um mote publicado aqui.

Tuesday, June 26, 2012

O FUTURO DA EUROPA JOGA-SE EM ESPANHA

Num artigo publicado no New York Times (aqui) e no  El País (aqui ) - The Great Abdication -, Krugman afirma a meio do texto: " Vejam como os líderes têm lidado com a crise dos bancos em Espanha (Esqueçam a Grécia, que é uma causa perdida; É em Espanha que se decide o destino da Europa). Como na Áustria em 1931, a Espanha tem bancos que necessitam desesperadamente de mais capital, mas o actual governo de Espanha, como o da Áustria de então, tem problemas de solvência".

Pode discordar-se da política preconizada por Krugman para a solução da crise que envolve as economias dos EUA e da União Europeia, que, no caso da EU, coloca em causa o futuro da própria União, mas é difícil discordar dele quanto ao local para onde a batalha se deslocou, e onde, certamente, se decidirá o futuro da Europa no sec XXI.  

Pouco depois do anúncio de ontem do pedido formal de ajuda externa para recapitalização da banca espanhola - através do estado espanhol -, a Moody´s anunciava que baixava os níveis  de rating a 28 bancos de Espanha (aqui). Não é a primeira vez, aliás, que esta perversa sequência acontece, o que permite supor que o trajecto de Espanha, se nada acontecer, prosseguirá o caminho que os países intervencionados estão a percorrer. Com um senão enorme: o recorde mundial do desemprego no país vizinho não consente mais medidas de austeridade sem que o empurrem para situações socialmente incontroláveis.

Entretanto, há uma hora atrás o El País noticiava que os ministros das finanças da Alemanha, França, Itália e Espanha, reunidos em Paris, prepararam uma proposta para ser discutida na cimeira da UE de quinta e sexta feira próximos que prevê a existência de um superministério das Finanças que terá amplos poderes para modificar os orçamentos nacionais dos estados membros que infrinjam as regras de equilíbrio orçamental.

Comenta-se no El País a propósito desta proposta (vd texto publicado hoje aqui que ela "aposta no avanço para uma união monetária baseada numa maior integração dos sectores financeiro, orçamental e das políticas económicas. Há muito tempo que estes aspectos vêm sendo falados, mas a sensação que o desastre eurropeu está iminente pode levar os líderes a decidirem-se esta semana por estas políticas, sem as quais a união monetária continuará coxa."

A leitura integral do texto publicado por Rompuy, contudo, não é tão animadora quanto o comentário do El País poderá induzir. A experiência observada até agora da existência de um superministro das Relações Externas comunitário tem revelado o que era previsível: um fiasco. Um superministério das Finanças poderá dar mais garantias à Alemanha de observação das suas regras mas não é adquirido que convença os mercados. Poderá não ser um passo em frente para a integração politica mas um passo para o lado, o que, na situação de emergência actual, poderá significar um recuo estrondoso.

Para a semana se verá se a batalha de Espanha se exacerba ou se começa a extinguir-se.

Tuesday, May 15, 2012

O CREPÚSCULO DA UNIÃO EUROPEIA

Paul Krugman ilustrou anteontem a sua previsão de colapso do euro, muito provavelmente no próximo mês, parafraseando o título - Eurodämmerung - da obra de Wagner,  Götterdämmerung, "O crepúsculo dos Deuses", numa encenação simbólica carregada de dramatismo qb para fazer história. 

Segundo Krugman, daqui em diante assistiremos a seis estações no caminho para a liquidação do euro. 

 1.- A Grécia sai do euro, provavelmente já no próximo mês;
 2.- Espanhóis e italianos transferirão largos montantes de dinheiro para os bancos na Alemanha;
 3a.- Talvez possam ser introduzidos controlos, de facto, proibindo a saída de fundos desses países, e limitando os montantes levantados;  
3b.- Alternativamente, ou em simultâneo, largos montantes de crédito serão disponibilizados pelo BCE de modo a evitarem o colapso do sistema;
4a.- A Alemanha tem de escolher entre aceitar mudar de estratégia, permitindo medidas que reduzam os custos dos empréstimos, e, consequentemente,  que a inflação faça o ajustamento possível dos preços na Zona Euro, ou
4b.- Acaba o euro. 

Portugal e a Irlanda são figurantes. Serão os pesos pesados, os protagonistas da sequência do drama.

Alguma coisa a objectar?
Só relativamente ao primeiro passo, aquele que pode desencadear o processo de liquidação do euro e, acrescento eu, muito provavelmente, a dissolução da União Europeia, que pode ser o preâmbulo de mais uma guerra que os fundadores da União quiseram, ao criá-la, prevenir. 

Quero acreditar que os líderes europeus estão muito conscientes das consequências dramáticas, não só no plano económico e financeiro mas sobretudo no plano geoestratégico, que a entrega da Grécia ao seu próprio drama poderia implicar. Venho anotando este ponto há muito tempo neste caderno de notas. Não quero acreditar que os líderes europeus (e norte-americanos) desvalorizem, porque não podem ignorar, esse risco inicial que pode desencadear a hecatombe europeia. 

Quanto ao resto, no texto de Krugman apenas o título é semi original.

Wednesday, February 15, 2012

KRUG TRIPLE HONORIS CAUSA MAN

Dia 27 de Fevereiro é dia de Hat-trick em Portugal para Paul Krugman, segundo notícia publicada aqui.

O doutoramento será concedido pelas universidades de Lisboa, Técnica e Nova . O Nobel da Economia de 2008, que conhece Portugal desde que foi estudante no MIT, visita Lisboa na sequência da sua entrada para a Academia de Ciências de Lisboa como correspondente estrangeiro.

A mim parece-me bem: Como as coisas estão, dividir os encargos das cerimónias sairá mais barato para as universidades e menos fatigante para o triplo-doutorado, o que não deixará de pesar nas suas análises acerca do esforço deste povo que ele estima para se tornar mais parcimonioso e eficiente em época de crise galopante.

As políticas de austeridade adoptadas pela União Europeia (leia-se Alemanha), FMI e BCE para a solução da crise têm merecido repetidas críticas do Prof. Krugman, também neste caso muito sintonizado com as opiniões do Prof. Stiglitz. O tempo tem vindo, aparentemente, a dar-lhes razão. E digo aparentemente, porque nunca poderemos saber se a opção expansionista (se a Alemanha a consentisse) poderia resgatar as finanças e recuperar as economias mais fragilizadas e tonificar-lhe as suas fraquezas estruturais.

Realmente não sabemos nem uma coisa nem outra.
O Prof. Krugman e o Prof. Stiglitz têm sido incansáveis a repetir o erro europeu. Mas as suas abordagens macroeconómicas não consideram, geralmente, os micro-meandros de uma realidade atrofiada que não se resolve simplesmente com mais dinheiro.

Mas, a este respeito, também não tem sido relevante o contributo dos académicos que no dia 27 o vão aplaudir. 

Saturday, February 11, 2012

KRUG NON STOP MAN



Luis Aguiar-Conraria, dá conta aqui do seu espanto perante a prolixidade de Paul Krugman. Da leitura do comentário fico na dúvida se LA-C considera Krugman prolixo ou prolífico. No texto considera-o prolixo mas o conteúdo não aponta, suponho, nesse sentido.

"O que mais surpreende é ( ) Paul Krugman. Quem conhece os seus contributos para a profissão, que, merecidamente, lhe granjearam o Prémio Nobel, não pode deixar de ficar a espantado com a sua exuberância blogosférica. Krugman não larga o esférico. É tão prolixo que se torna complicado acompanhá-lo. Ontem, escreveu o seu primeiro post às 10h30m. Ainda não eram 11h da manhã e já escrevia a sua segunda entrada. A meio da tarde, sai-se com uma outra entrada, para, 12 minutos depois publicar uma nova. Ainda não tinham passado 25 minutos e já tinha algo de novo a dizer ao mundo. 7 minutos depois escreve uma nota metodológica. Logo a seguir ao jantar, às 6h20 – nos EUA janta-se cedo – deixou mais uma entrada, esta de índole musical.

Isto foi ontem. Hoje, sábado, às 8h da manhã, já tinha uma nova entrada, com três gráficos. Aqui, em Portugal continental, pouco passa das 2h da tarde, dado que lá são menos 5 horas, Krugman ainda terá tempo para mais 5 ou 6 entradas, que isto de fins-de-semana é para tenrinhos."
 
Comentei:
 
Comungo há muito tempo do seu espanto.
Tanto quanto me espanta a escassa presença dos académicos portugueses na discussão dos problemas com que Portugal se confronta.

Há, é certo, alguns artigos publicados em jornais, entrevistas ou participações em mesas redondas televisionadas. Mas que, frequentemente, não passam de afirmações redondas e não quantificadas.
Os blogs portugueses pretensamente vocacionados para a discussão de questões económicas e financeiras não suscitam, não sei porquê, o contraditório dos seus pares ou ... dos seus impares.
O "The Portuguese Economy", redigido em inglês, não cativou até hoje comentadores estrangeiros em número que justifique a opção pela língua inglesa. Salvo melhor opinião.
O último artigo, que considero muito bem estruturado (e merecedor de contributos porque nada neste domínio é definitivo nem cientificamente exacto), grangeou dois comentários: "very good", "very good". E já lá vão cinco dias.

Mas o deserto alarga-se a outros blogs mais ou menos conhecidos catalogados como "económicos".
É certo que um blog não é um tratado, "um paper", é uma coisa tão leve quanto possível.
Krugman, para além de prolífico, atrai os comentários de gente que, geralmente, discute num plano equivalente. Nem sempre, é verdade, e ele já tem tentado espantar os menos bem intencionados.
Por outro lado, penso que Krugman é, mais do que Krugman, um grupo que krugminiano que lhe facilita a recolha de dados e realiza pesquisas orientadas por ele.
Não é possível nada de semelhante nas faculdades de economia portuguesas?

Monday, September 12, 2011

KRUGMAN CONTRA TRICHET

Paul Krugman volta a avisar no "New York Times" de hoje que a política de defesa intransigente a estabilidade dos preços na zona euro está a conduzir a  moeda única para o colapso. Não podendo defender-se contra o comportamento dos investidores/credores que lhes impõem condições progressivamente insuportáveis, os governos da Espanha e da Itália, que já concordaram e impuseram reforçadas medidas de austeridade, que já aceitaram constitucionalizar os limites da dívida, estão a ser empurrados pelos mercados para o default, que, em consequência da dimensão das economias envolvidas, se vier a acontecer, provocará o colapso do sistema financeiro europeu.

Quem é que poderá estar interessado neste desastre, para além dos suspeitos do costume?

Trichet, alvo das principais críticas de Krugman, que também não poupa os advogados do estado mínimo nos EUA, obedece aos estatutos do BCE e transige tanto quanto lhe deixam os alemães, holandeses, finlandeses e uns quantos mais. E é, quanto a este ponto, o da responsabilidade de Trichet (ou de Ben Bernanke, do outro lado do Atlântico) que me parece que Krugman, e todo aqueles que perfilham as mesmas teses, atira para o alvo errado. 

Trichet (e BB), são funcionários que tomam as decisões que os regulamentos lhes consentem. Dentro dos limites em que se circunscrevem esses poderes, podem tomar boas ou más decisões - e, geralmente, só muito tarde as más decisões se revelam - mas, nas circunstâncias excepcionais actuais, que exigem soluções excepcionais, as competências de um de outro dependem, sobretudo, dos governantes políticos, com particular destaque para os alemães.

Krugman, reconheça-se, também não tem poupado Angela Merkel. Mas Merkel, apesar da intransigência na aceitação dos eurobonds (por exemplo) tem vindo a perder todas as últimas eleições, sinal, pelo menos aparente, de que os eleitores alemães se posicionam de modo mais intransigente que a Chanceler. Porquê?
Estarão os cidadãos alemães (e os holandeses, os finlandeses, os austríacos) cientes dos efeitos de um colapso de Espanha ou da Itália sobre os seus bancos, isto é, sobre as suas economias, sobre as suas poupanças?  

Precisa a União Europeia, e em particular a Zona Euro, de um abalo de intensidade superior à falência do  Lehman Brothers para a abanar e acordar?

Serão os eurobonds a terapêutica adequada? Talvez tivessem sido há largos meses atrás. Agora, é tarde demais para medidas pontuais. A crise actual veio impor um reequacionamento total da construção europeia, construção essa que passa inevitavelmente por uma integração a caminho acelerado de um governo federal das funções que sejam o travejamento essencial do edifício.
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Acabo de escrever esta nota e oiço já observarem-me: O sr., e todos quantos pensam o mesmo, em que planeta vivem? Pois se nem para os eurobonds os do Norte estão dispostos a avalizarem as indisciplinas do Sul como é que v. quer que, assim de um dia para o outro, 27 países se concertem à volta de um governo federal a tempo de evitar o precipício?

(continua)