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Thursday, October 10, 2019

1969 - ODISSEIA NO QUELHAS


Em 18 de Março de 1969, à noite, houve récita dos finalistas de Económicas (ISCEF - Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) no Teatro da Trindade.

A 20 de Julho desse mesmo ano, um homem, o norte-americano Neil Armstrong pisou pela primeira vez a lua. Em 1968, Stanley Kubrick tinha produzido e realizado 2001- A Space Odyssey.
Neste contexto de ficção tornado realidade, que melhor título se poderia dar a um divertimento académico daqueles que se preparavam para sair da cápsula onde, pelo menos, tinham estagiado durante cinco anos, mais adequado e ambicioso que  "1969 - ODISSEIA NO QUELHAS"?

Fui cúmplice de um atrevimento reprovado pelo então director do ISCEF, Professor Jacinto Nunes.  Salazar tinha ficado física e mentalmente inválido em Agosto do ano anterior mas a polícia política continuava feroz e só 5 anos depois o país viria a experimentar o sabor agridoce da democracia.
Disseram-me que o Prof. Jacinto Nunes veementemente desaconselhara a integração dos "Jograis do Quelhas" no programa das festas para me perguntarem de seguida: E agora? Respondi: agora façam como entenderem, eu não escrevo outros. 
E foi, sentado na plateia, com um olho no palco e outro em individualidades desconhecidas, que assisti aos Jograis, a finalizar o primeiro acto da récita. Ninguém foi preso.

Hesitei muito na transcrição neste caderno de apontamentos, da jogralada em versão de mal-dizer, não só por pudor e respeito que o tempo impôs sobretudo relativamente aqueles que já faleceram, mas também pelo excesso de verrina, resultado de uma consulta onde se uns diziam mata outros diziam esfola. 
Mas se os "Jograis do Quelhas", cinquenta anos depois, inspirarem aos de 69 que os lerem hoje alguma nostalgia e gratidão por aqueles com quem aprendemos a mostrar que no velho Quelhas se forjaram armas de razoável toque, então transcrevam-se os Jograis para penitência da consciência dos nossos excessos.




JOGRAIS DO QUELHAS


(Senhoras)
(Senhores)
(Doutoras)
(Doutores)
(E Professores)

Somos jograis
(Excepcionais)
(Insofismavelmente)
(Paradoxalmente)
(E irremediavelmente)
Bestiais
Com outras profissões.
Andámos pelo Quelhas
a aprender
a fazer
cadeirões
(Não, não fizemos esse ...)
Mas fizemos muitos mais
(Mais duros)
mas menos nacionais
Que irão também (um dia)
pr´a Torre do Tombo
("Monumento Nacional")
só, em verdade,
terá então um nome com flagrante
e impressionante
propriedade.

(Eis aqui alguns daqueles
que tais coisas engendraram)
Doutros nem sequer falamos
nem sabemos se por cá veranearam ...

1ª. cadeira - 1º.pincel
(O Jesus fez-nos tratos de polé)
É um sujeito indesejável
(É ou não é?)
                          (todos) É!!!

(Música: a caminho de Viseu)

Ai Jesus, truz-truz
Chumba que trás-trás
Se não fosse tanto chumbo
Tu serias bom rapaz.

Pezinhos de lã, mansinhos,
vem do Porto o Madureira
e as MGs, nm instantinho
parecem uma brincadeira.

Mas Madureira só quer
impressionar a geral
(Afinal é fura-greves
por um tacho trivial.)

(Música : A mim não me enganas tu)

A mim não me enganas tu,
a mim não me enganas tu,
a mim não me enganas tu,
já as tinha tirado quando vieste tu.

O Alves da Geografia
(Tem cuidado, olha que o mano ...)
Pregou-se-lhe agora a mania
Chumbar mais de ano para ano
         (todos)  Fora o Caetano!!!

O Lopes, seu sacristão,
segue as pisadas do dono.
Tem uma voz, que piadão,
Faz-nos tanto, tanto sono
          (todos) (óóóó ....)

(O Chico no PTC)
(tinha fama de ser bera)
(depois na Contabilidade)
era porreiro, ou não era?
               Não, era !!!!

O sábio e a sua súcia
(coitado do Ramalheira)
(Agora é Comendador
da grande Ordem da Asneira)

O sr. Carvalho trazia
a ciência num cartão.
Acabava-se a ciência
(tornicotim, tornicotão)
E se não topa um sujeito,
Tornicotim ombro encolhe,
e afinfa-lhe logo a eito
"o argumento não colhe"
(Pequenino, mas não dança)
Tornicotim saltitão
(Deu-lhe um tacho o Mestre, e pensa,
está servida a Fundação)

(Música: "Você pensa que a cachaça é água" )

Você pensa que que tal súcia é boa
primeiro p´lo Tornicotão,
chumbam muita gente à toa,
tal súcia não é boa não.
Nosso sábio não dá o cavaco,
a ninguém dá o cavaco, não.
O Sábio quere-os  todos
a lixar a Fundação.

Vista esta causa com senso,
estes são "não gratos"?
(todos) São !!!
(O Rómulo e o seu apenso)
(todos) Não ...

(Música: Sim Carolina Ó i Ó Ai)

A saia da Clementina
Não é uma saia qualquer,
sim Clementina ó i, ó ai,
Sim Clementina, ó ai, meu bem.
Terá toga, Clementina
É o Rómulo que assim quer.
Sim Clementina, ó i, ó ai,
sim Clementina, ó ai, meu bem.

(O Albuquerque é liru)
Dizem uns. (Ele é honesto)
dizem outros.
(Sabes tu?)
O que é preciso é ser lesto.

(O ajudante, coitado ...)
(Coitado, mas como assim???)
Há lá tipo mais errado
que este sr. Amorim?! ...

(Eu gosto do Amorim, gosto do Amorim aos molhos)

(Música : "Alecrim aos Molhos")

Amorim, Amorim aos molhos,
por causa de ti matou-se o Frechet

(P´ró Moura, a electricidade
é feita pelo electricista)
Já que a economia, tá visto,
(é obra do economista)

(E eu já não sei do que sou contra,
parece que agora mudou)
talvez com grandes remorsos
de chumbar o que chumbou.

(Música: "Ai Mouraria") 

Ai, Mouraria
da velha Rua do Quelhas,
anda tanta gente à nora
com economias velhas.

(O Didi vendia as folhas)
(punha o Lino a receber)
Não vinha o resto das folhas
e a malta sem perceber.

O Pelé chumbava à toa
(pulava)
(espumava)
(ralhava)
Punham-se-lhe os cabelos em pé (o resto)
Toda a gente concordava!!!
Era tonto e desonesto!!!

Menino Jardim, (que graça)
veio para o Comercial,
acompanhava as bronquites
e até era bestial.

Foi-se o Pelé, e o Jardim,
mudou-se pr´obrigações.
(Oxalá não seja Bera)
quem para Vera tem razões,

(Britinho Corporativo)
É mais uma jóia alheia,
Direito é asfixiativo.
E se os levasse uma cheia?!!!

E vejam só meus senhores,
como isto anda tão mal.
(Escreve Bruto com i)
Mas dá Internacional

Pinto Barriga, coitado,
já andava um tanto cheché
(Mas se não fora o nosso capitão de cavalaria)
(Imprescindível num Quelhas inconcebível)
Mais chumbaria o Pelé.

(Récita sem Pinto Barriga)
(É uma praça sem ninguém)
(Deus lhe dê boa saúde)
(E à sua tese)
                           (todos)  Amen!


Mestre Gonçalves da Silva
tem uma quinta em Tomar.
Se a manada dá estrume,
há estrume a contabilizar.

(As oliveiras do Mocho
vão-lhe dar umas patacas)
Quando lhe nasce uma cria
Faz logo : crias / a vacas

Doce país de poetas,
onde qualquer deputássio,
lendo Da Silva, as sebentas,
rima rácio com Inácio.

Da Silva deu uma festa,
e convidou para a farra
o seu Mestre Fábio Besta
e o bestial Mestre Escarra

(O Rui Nunes nos martelos)
da orquestra parte fazia.
Nem para fazer a chamada
a sua boca se abria.

(Mestre Gonçalves da Silva tem um afilhado ...)
(o rapaz tem uma cabeça tão bela ...
pena foi que a ciência
tenha descido à barbela.

Tem uma cabeça o rapaz,
o mestre revê-se nela.
(Menino, para seres um ás
tens de puxar pela barbela)

Entra na sala o Manel
e mai-lo seu garrafão,
rapa logo do papel,
e puxa pelo barbelão.
E lê por ali abaixo
(o Manel, que sabichão)
Da barbela, não sai nada,
mas Manel faz figurão.

Estudou com o Schneider,
agora ensina o Cachudo,
e este pimpolho há-de vir
a saber aquilo tudo.

Não puxa pela barbela,
que ainda não a tem (bem precisa),
mas para treinar na barbela,
vai puxando pela camisa.
Ainda não usa papel
para ler à rapaziada.
Não admira que ele,
na aula não diga nada.

(Toma nota rapazinho)
(Já é idade de aprenderes)
(Faz como fez teu amo)
(Serás doutor sem saberes)
                                              (Mas cautela!)
Traduz um autor qualquer
(aconselho-te o chinês)
Acautela-te, no entanto,
se há tradução em francês.

É que o teu dono, coitado,
teve enorme trabalhão.
(Traduziu)
                (Logo era dele)
Só ele sabia alemão ...

Eis senão que um francês,
que de alemão bem percebe,
traduziu e fez asneira.
(Pôs lá: autor Gutemberg,
em vez de autor: Manuel Pereira)

Sr. Magro, é bom de ver
o curso não está na mão,
e se há coisas a dizer,
não fariam com ... Gestão?

Visto o curriculum, senhores,
destes três, verdade nua,
qual a sentença a ditar?
                           (todos) Rua!!!

(Música: Arrebita, arrebita, arrebita)

Da Silva que és o maestro,
desta charanga que é tua,
tem ao menos um bom gesto,
e põe-os todos na rua.

Com Laranjinha e Bochechas
Mr. Murteira esta ...estica.
Ora bolas para quem sai
Ora bolas para quem fica.

(Se quem passa pelo Rossio)
(olha o placard mesmo em frente)
(qual e a probabilidade
de lhe cair um presente?)

Ora bolas para as urnas
(uma castanha)
(uma roxa)
(uma preta)
(uma amarela)
(de um amarelo mais quente)
Qual é a probabilidade
de sair um Presidente?


(Música: "Ó Oliveira da Serra")


Mister Murteira calcula,
mas calcula muito bem,
ó i, ó ai, Murteirinha diz-me lá
ó i, ó ai, quando vai pr´ó pé da mãe.

(Na Terceira Economia)
pontifica o director.
(Começou na Quarta, um dia,)
desistiu ... o Professor

Acompanham-no à guitarra
o Hernâni, calmeirão,
o Arouca que é sabido,
o outro que sabichão...

(Música: Tia Anica de Loulé)

Ó Hernâni, Ó Hernâni,
não sejas tão presunçoso,
o Arouca copiava,
é assistente, que gozo!
Olé, olá,
tal parelha tá tão má
Olá, olé,
dá-lhes Jacinto c´o pé.

(Ó Santos Fernandes, actualiza-te)
Se pões chinó, dás um salto.
Não ponhas papel no giz,
e vê se falas mais alto.

(Sidreira Lopes) - Sarilhos!
ficou-lhe o queixo na rua
(Ele é da pauta um dos filhos)
A alfândega fica em Lisboa

(La La Labisa disse um dia)
ninguém mais será formado
se na velha Quelharia
alguém disser um bocado.

(O patrão Borges, da Câmara)
Já viu que nunca diz nada
(E é melhor)
(que o Labisa só diria labisada)

(Música :"Lá, Lá, Lá, Lá ..."

Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
Lá Lá Lá     
                      (todos) Bisa!

Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
                      (todos) Bisa!

(tanto há-de labisar que há-de aprender!)

O Vidal, especulador,
no bacalhau triunfou.
Mandaram-no dar Gestão
mas nada modificou.

(Música : "Malhão")

Ó Vidal, Vidal,
(palmas, palmas,palmas)
que vida é a tua
(palmas, palmas,palmas)
andas a dar aulas, andas a dar aulas,
e a malta na rua!

(Sô Taxeira, essa Doutrina)
é coisa que há-de rever.
Você acha que o Carlinhos
era assim tão tanso a valer?
(Você, que já foi da Corte,)
é capaz de nos dizer
(Por que é que cá no cantinho
é tão difícil viver)?

Para ensinar aos rapazes,
não sabe o Taxeira mais,
mas para brilhar como os ases,
já ensina generais.

(grito da geral)
                           (Ó Taxeira, Taxeira!
                            Onde é que está o Taxeira?)

(resposta com ar circunspecto)  
                           O Taxeira  foi para os Altos Estudos Militares.

(Mestrrre Barrrbosa, a política)
A política não é prrrá gente.
Ás vezes é como castanha
que se põe na boca ... muito quente!
E então Barrbosa, política,
é prrós outros, quem dirrria,
que no velho e rrrelho Quelhas
se crrria a apolitiquia

(Música : "La Mamam") 

Já estão aqui, chegaram já, 
os dois meninos do papá,
já são doutores, de altos valores,
mas com favores ....
Um ... Um ... Um ...

(Foi-se embora Mestre Broncas)
(Bronca o Da Silva, interino.)
(Ainda este broncava)
(entra outro a broncar fino)

(Era o Jacinto e trazia)
Notas, notas, a saltar.
Não deu nenhumas à malta,
eram para ele assinar.
A malta foi ter com ele
(Havia broncas em curso)
Mestre Jacinto sorriu
(aquele sorriso de ... amigo)

A malta diz que a cantina
até tem panelas rotas.
(Jacintinho ri, de cima),
e vaia assinando notas.

E a malta põe-se a pensar
se o Jacinto tem ou não
tempo p´ra tanta assinar
p´ra acudir à inflação.

Jacinto, Jacintozinho,
Pára lá, escuta agora,
olha bem como está isto,
põe-me a vista cá de fora.

(Música"Quando sair de Cuba) 

Quando sair do Quelhas,
recordações levo comigo,
daquelas salas velhas,
daquele Convento
soturno e antigo.

Quando sair do Quelhas,
vou lamentar tempo perdido,
com matérias velhas,
mal ensinadas, e sem sentido.

Quando sair do Quelhas
levo comigo esta amargura,
não ser a Escola livre,
actualizada,
não estar segura.

Com autonomia
com ousadia,
robusta, sã,
formando em cada dia
a galhardia
do amanhã.

 

Friday, August 30, 2013

O EURO NA PENHA LONGA

Soube-se há dias que em Maio do próximo ano (25 a 27) se realizará na Penha Longa um "Fórum do BCE sobre Bancos Centrais", E que "o  BCE pretende organizar este Fórum no mesmo local nos próximos anos, por volta da mesma data que em 2014, com eventuais ajustamentos, tomando em consideração outras reuniões internacionais dos decisores de política ao mais alto nível." 
.
Uma notícia que  assim como apareceu assim se sumiu abafada pelos calores balneares, pela flagelação dos incêndios e as mais que extensas reportagens dessa guerra invencível, pelas tricas e os truques  das  autárquicas, pelas expectativas à volta das decisões políticas solicitadas ao Tribunal Constitucional, e, last but not least, pelo arranque dos campeonatos de futebol e a derrota do Benfica logo na primeira jornada. Com uma fartura destas quem é que perde tempo a pensar e a fazer algumas contas acerca das possibilidades, das vantagens e desvantagens do euro subsistir em Portugal?

Curiosamente, já o referi neste bloco de notas várias vezes, são sobretudo britânicos e norte-americanos os economistas que mais se dedicam a observar, analisar e a especular sobre a vida do euro em cada país membro que o adoptou. De entre eles destaca-se o incansável Krugman a juntar às suas análises, conclusões ou simplesmente hipópeses as pontas que outros tecem e não lhe escapam. 

Ontem, juntou mais uma nota - Aging Euroskpetics* -, um título irónico mas acertado para quem há tanto tempo tem vindo a reflectir sobre um tema que nos atinge a todos mas não bule sequer os académicos deste país, mais lestos a reivindicar bolsas que a apresentar resultados. Ao desafio que o imbróglio lhes coloca respondem, geralmente, que a questão não é uma questão de contas mas de opções políticas.
Tomadas de queixo?
---
Transcrevo:
 
"I would say, by the way, that while our skepticism has been pretty well vindicated, the key weaknesses of Europe as a currency area have been somewhat different from what we imagined. Low labor mobility is a problem; but lack of fiscal integration and lack of banking union have been even bigger problems."

Comments
Kubus/Germany

"Low labor mobility is a problem; but lack of fiscal integration and lack of banking union have been even bigger problems."

Mr. Krugman, I think you missed the core problem: political integration!
I wonder how a fiscal integration, banking union, etc could work without a common democratic representation. As we've seen in the last years, the lack of that issue creates a perfect moral hazard situation where every single member state just follows their very own national interests. So, rightfully many authors on the oca-theory stress the political integration as a precondition of a working currency area.

Saturday, February 11, 2012

KRUG NON STOP MAN



Luis Aguiar-Conraria, dá conta aqui do seu espanto perante a prolixidade de Paul Krugman. Da leitura do comentário fico na dúvida se LA-C considera Krugman prolixo ou prolífico. No texto considera-o prolixo mas o conteúdo não aponta, suponho, nesse sentido.

"O que mais surpreende é ( ) Paul Krugman. Quem conhece os seus contributos para a profissão, que, merecidamente, lhe granjearam o Prémio Nobel, não pode deixar de ficar a espantado com a sua exuberância blogosférica. Krugman não larga o esférico. É tão prolixo que se torna complicado acompanhá-lo. Ontem, escreveu o seu primeiro post às 10h30m. Ainda não eram 11h da manhã e já escrevia a sua segunda entrada. A meio da tarde, sai-se com uma outra entrada, para, 12 minutos depois publicar uma nova. Ainda não tinham passado 25 minutos e já tinha algo de novo a dizer ao mundo. 7 minutos depois escreve uma nota metodológica. Logo a seguir ao jantar, às 6h20 – nos EUA janta-se cedo – deixou mais uma entrada, esta de índole musical.

Isto foi ontem. Hoje, sábado, às 8h da manhã, já tinha uma nova entrada, com três gráficos. Aqui, em Portugal continental, pouco passa das 2h da tarde, dado que lá são menos 5 horas, Krugman ainda terá tempo para mais 5 ou 6 entradas, que isto de fins-de-semana é para tenrinhos."
 
Comentei:
 
Comungo há muito tempo do seu espanto.
Tanto quanto me espanta a escassa presença dos académicos portugueses na discussão dos problemas com que Portugal se confronta.

Há, é certo, alguns artigos publicados em jornais, entrevistas ou participações em mesas redondas televisionadas. Mas que, frequentemente, não passam de afirmações redondas e não quantificadas.
Os blogs portugueses pretensamente vocacionados para a discussão de questões económicas e financeiras não suscitam, não sei porquê, o contraditório dos seus pares ou ... dos seus impares.
O "The Portuguese Economy", redigido em inglês, não cativou até hoje comentadores estrangeiros em número que justifique a opção pela língua inglesa. Salvo melhor opinião.
O último artigo, que considero muito bem estruturado (e merecedor de contributos porque nada neste domínio é definitivo nem cientificamente exacto), grangeou dois comentários: "very good", "very good". E já lá vão cinco dias.

Mas o deserto alarga-se a outros blogs mais ou menos conhecidos catalogados como "económicos".
É certo que um blog não é um tratado, "um paper", é uma coisa tão leve quanto possível.
Krugman, para além de prolífico, atrai os comentários de gente que, geralmente, discute num plano equivalente. Nem sempre, é verdade, e ele já tem tentado espantar os menos bem intencionados.
Por outro lado, penso que Krugman é, mais do que Krugman, um grupo que krugminiano que lhe facilita a recolha de dados e realiza pesquisas orientadas por ele.
Não é possível nada de semelhante nas faculdades de economia portuguesas?

Thursday, October 20, 2011

OUTRO

O bastonário da Ordem dos Economistas, comentando a situação de austeridade, afirmou que os portugueses são os "culpados" porque aceitaram viver durante os últimos anos numa "sociedade assente nos princípios de pouca riqueza criada e muito financiamento alheio". (aqui).

Este, ouviu (João Salgueiro) e repetiu.
Mas quantos portugueses sabiam os níveis que tinham sido atingidos pelo endividamento externo? 
Aqueles que deveriam saber, bancos,  Associação Poruguesa de Bancos, Banco de Portugal, etc., o que fizeram? Fecharam-se em copas e deixaram correr os negócios. 
Mais: a banca pagou  a Scolari, Figo, Cartarina Furtado, entre outros, para empanturrarem de dívidas o povo desprevenido.
Hoje pagam a Cristiano Ronaldo e José Mourinho não se sabe para quê.

Mais: Vítor Constâncio, na altura governador do Banco de Portugal, desvalorizou o crescimento da dívida externa, convencido que a presença na plataforma de uma moeda comum afastava o risco da perda de credibilidade nos mercados financeiros. Enganou-se, como outros, redondamente. Foi promovido a vice-presidente do BCE!

Deveriam os portugueses em geral terem-se contido nos limites das suas capacidades de endividamento? Certamente que sim. Mas alguém os avisou de que o crédito barato e abundante não procedia de uma fonte inesgotável? Ninguém. Antes, pelo contrário, foram, e continuam a ser, metralhados com publicidade de consumos, geralmente supérfluos, a que ninguém põe freio.

No meio do desaire há alguma lei, há algum aviso, há alguma recomendação pública que impeça ou modere esta promoção consumista que continua a tentar os portugueses?

Senhor bastonário, não há.

Tuesday, October 11, 2011

A ARTE DA FUGA PARA O LADO

"Austeridade não basta" foi o tema do Prós e Contras de ontem à noite. Que, como é habitual, terminou cerca da uma da manhã. E continuo a perguntar-me: Quem vê aquele programa até ao fim, a que horas se levanta na manhã seguinte, a que horas começa a trabalhar, com que resistência física e psíquica enfrenta o dia de trabalho? Se a intenção do serviço público da RTP, que custa milhões aos constribuintes, ao colocar o programa aquelas horas, é entorpecer os trabalhadores portugueses, o objectivo é seguramente atingido.

Dos seis convidados para o painel de comentadores, destacou-se pela clareza dos argumentos e pela serenidade convicta das suas intervenções o dr. Manuel Pedro de Magalhães, cirurgião, presidente do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. Disse algo de novo? Não disse. Mas o que disse só não convenceu quem, por razões de enquistamento ideológico ou exibição mal disfarçada de galões académicos, não quis entender.

E o que disse, no essencial, o cirurgião: Que a alternativa a austeridade é produzir mais e melhor. Elementar, portanto. Se não podemos desvalorizar a moeda nem reerguer as barreiras alfandegárias, não temos alternativa senão, para já, trabalhar mais horas.Tal ideia ainda há dias foi relançada por uma intervenção de Campos e Cunha, que comentei  aqui. O contraditório que se seguiu foi, geralmente, decepcionante.

Dos três economistas de serviço, dois professores universitários, um discordou, porque, dizia ele, não tinha horário de entrada e saída e trabalhava muito mais horas do que aquelas que a lei determina. Como se a economia fosse um conjunto de professores de economia com horário livre. Outro, Pedro Lains, posicionou-se na tese que defende há muito: Deixem-se de iniciativas, isto vai aos eixos é uma questão de tempo, o nosso futuro aos outros pertence, somos periféricos nunca seremos ricos como os do centro. Isto não é, nunca foi nem nunca será outra Suiça. O terceiro, professor de marketing, recomendou aos jovens que  façam o que houver para fazer e não aquilo que um dia pensaram que queriam fazer.

O psicólogo recomendou uma terapêutica de confiança mas não disse quem administrará o elixir nem como é que ele se toma. O sociólogo atirou-se aos empresários (em média, mais ignorantes que os trabalhadores que os aturam), em resumo: os ricos que paguem a crise.

Intervieram ainda quatro convidados sentados na plateia: um, ex-quadro da Jerónimo Martins (um grupo fantástico, uma escola a valer) que trocou a condição de empregado com um futuro auspicioso pela de empresário na área da panificação. Tem sido bem sucedido mas é grande a dificuldade para recrutar pessoal capaz e permanente. A maior parte dos candidatos apresenta-se para obter o carimbo de que se candidatou e apresentá-lo na Caixa para renovação do subsídio de desemprego, a rotação é enorme porque trabalho não é propriamente emprego, custa-lhes até esboçar um sorriso para os clientes.

O segundo, professor, trabalha há vários anos a recibos verdes, ao ouvir o anterior disse pensar estar noutro planeta mas acabou por dar recomendações aos desempregados que ele, pelos vistos, não sabe praticar.

Os restantes dois falaram deles, uma bióloga que se passou para a área da motivação pessoal. Motivada como anda,  disse que está sempre a trabalhar, salvo enquanto dorme, mas não apoia o aumento de horas de trabalho. O quarto, já era tarde demais para perceber onde ele quis chegar.

Em conclusão: salvou-se o cirurgião mas não se salva este país onde a propensão para a divagação afasta quaisquer hipóteses de construir alternativas para a austeridade.
Como concluiram, sem apelo nem agravo, dois dos economistas: estamos condenados a ser pobres.
Pelo menos enquanto não mudarmos de economistas quem quiser livrar-se deste fado escape-se o mais rápido que puder.

Friday, September 09, 2011

Saturday, August 27, 2011

CIENTISTAS DOGMÁTICOS

Existem? Existem.

Um tanto à retardador começaram a aparecer agora apreciações críticas à proposta Merkel/Sarkozy, mais intenção que proposta, para já, de constitucionalização das dívidas soberanas. Estranha-se o atraso mas não a reacção, porque coloca em confronto a disciplina orçamental na zona euro com o laissez faire que consentiu a situação a que se chegou. 

O que não se compreende, se admitirmos que estamos perante comentários de gente que não se tem por possuidora exclusiva da verdade, são os termos arrogantes com que se classificam as decisões, as posições, as convicções de outros.

Zapatero e Rajoy, primeiro-ministro e principal líder da oposição, em Espanha, entenderam que a constitucionalização da dívida pode, além do mais, dar uma imagem de credibilidade junto dos mercados financeiros, e decidiram avançar antes que um qualquer acordo venha no futuro a ser subscrito pelos outros membros da zona euro. Boa ou má, a decisão é deles.

Não o entendem assim alguns cientistas-economistas-dogmáticos, que, por discordarem, não o fazem por menos que acoimar de estúpidos aqueles que decidiram em sentido contrário aquele que eles julgam acreditar ser o caminho certo.

Cientistas, porque a maioria é paga pelo Estado para investigar.
Economistas, porque essa investigação se faz na área da economia.
Dogmáticos, porque consideram as suas conclusões inabaláveis e estúpidas as convicções contrárias.  

Thursday, August 25, 2011

KEYNESIANS ECONOMICS VS. REGULAR ECONOMICS

By ROBERT J. BARRO

Keynesian economics—the go-to theory for those who like government at the controls of the economy—is in the forefront of the ongoing debate on fiscal-stimulus packages. For example, in true Keynesian spirit, Agriculture Secretary Tom Vilsack said recently that food stamps were an "economic stimulus" and that "every dollar of benefits generates $1.84 in the economy in terms of economic activity." Many observers may see how this idea—that one can magically get back more than one puts in—conflicts with what I will call "regular economics." What few know is that there is no meaningful theoretical or empirical support for the Keynesian position.

The overall prediction from regular economics is that an expansion of transfers, such as food stamps, decreases employment and, hence, gross domestic product (GDP). In regular economics, the central ideas involve incentives as the drivers of economic activity. Additional transfers to people with earnings below designated levels motivate less work effort by reducing the reward from working.

In addition, the financing of a transfer program requires more taxes—today or in the future in the case of deficit financing. These added levies likely further reduce work effort—in this instance by taxpayers expected to finance the transfer—and also lower investment because the return after taxes is diminished.

This result does not mean that food stamps and other transfers are necessarily bad ideas in the world of regular economics. But there is an acknowledged trade-off: Greater provision of social insurance and redistribution of income reduces the overall GDP pie.

Yet Keynesian economics argues that incentives and other forces in regular economics are overwhelmed, at least in recessions, by effects involving "aggregate demand." Recipients of food stamps use their transfers to consume more. Compared to this urge, the negative effects on consumption and investment by taxpayers are viewed as weaker in magnitude, particularly when the transfers are deficit-financed.

Thus, the aggregate demand for goods rises, and businesses respond by selling more goods and then by raising production and employment. The additional wage and profit income leads to further expansions of demand and, hence, to more production and employment. As per Mr. Vilsack, the administration believes that the cumulative effect is a multiplier around two.

If valid, this result would be truly miraculous. The recipients of food stamps get, say, $1 billion but they are not the only ones who benefit. Another $1 billion appears that can make the rest of society better off. Unlike the trade-off in regular economics, that extra $1 billion is the ultimate free lunch.

How can it be right? Where was the market failure that allowed the government to improve things just by borrowing money and giving it to people? Keynes, in his "General Theory" (1936), was not so good at explaining why this worked, and subsequent generations of Keynesian economists (including my own youthful efforts) have not been more successful.

Theorizing aside, Keynesian policy conclusions, such as the wisdom of additional stimulus geared to money transfers, should come down to empirical evidence. And there is zero evidence that deficit-financed transfers raise GDP and employment—not to mention evidence for a multiplier of two.

Gathering evidence is challenging. In the data, transfers are higher than normal during recessions but mainly because of the automatic increases in welfare programs, such as food stamps and unemployment benefits. To figure out the economic effects of transfers one needs "experiments" in which the government changes transfers in an unusual way—while other factors stay the same—but these events are rare.

Ironically, the administration created one informative data point by dramatically raising unemployment insurance eligibility to 99 weeks in 2009—a much bigger expansion than in previous recessions. Interestingly, the fraction of the unemployed who are long term (more than 26 weeks) has jumped since 2009—to over 44% today, whereas the previous peak had been only 26% during the 1982-83 recession. This pattern suggests that the dramatically longer unemployment-insurance eligibility period adversely affected the labor market. All we need now to get reliable estimates are a hundred more of these experiments.

The administration found the evidence it wanted—multipliers around two—by consulting some large-scale macro-econometric models, which substitute assumptions for identification. These models were undoubtedly the source of Mr. Vilsack's claim that a dollar more of food stamps led to an extra $1.84 of GDP. This multiplier is nonsense, but one has to admire the precision in the number.

There are two ways to view Keynesian stimulus through transfer programs. It's either a divine miracle—where one gets back more than one puts in—or else it's the macroeconomic equivalent of bloodletting. Obviously, I lean toward the latter position, but I am still hoping for more empirical evidence.

Mr. Barro is an economics professor at Harvard and a senior fellow at Stanford's Hoover Institution.

Friday, September 24, 2010

A CRISE DOS ECONOMISTAS

Pego no Metro, o diário gratuito, à saída do parque de estacionamento e, enquanto espero pelos outros parceiros de almoço, entretenho-me a ler a opinião de Luciano Amaral, professor de história económica na Universidade Nova de Lisboa, que conclui:

"O FMI não tem à sua disposição na Zona Euro os instrumentos que historicamente fizeram o sucesso dos seus programas de estabilização, combinando austeridade e expansão." ..."A ser assim, o FMI nem sequer seria o provicencial pai tirano com que tantos sonham, pondo a casa em ordem com muita pancada. A ser assim, ter-se-ia de pensar em coisas ainda mais inimagináveis"
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A ser assim, não é o FMI é o fim.

Na opinião deste professor de economia, muito referido recentemente a propósito do seu livro ( Economia Portuguesa - As últimas décadas) editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, no ponto em que as coisas estão, nem a entrada do FMI nos salva. Ainda, segundo Amaral, a alternativa estará em coisas mais inimagináveis. Quais serão? Não diz.

Quando se esperava uma opinião completa, ainda que necesariamente sintética, Amaral fica-se pela semi-opinião: Nem o FMI nos pode valer, agora mesmo só coisas inimagináveis. O economista é o ilusionista que suspende o truque, arruma o estojo e acaba o espectáculo.

Assim não vale, professor Luciano Amaral. 

Saturday, March 06, 2010

O QUE PARECE

"Ou seja, alguma coisa mais faltou fazer, e parece que continua a faltar.”
Fernando Alexandre
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Discordo do seu parece porque se de alguma coisa temos certeza é de que falta mesmo. Se assim não fosse, estariam reunidas as condições para uma conveniente coabitação da economia portuguesa no euro. Faltar, falta mesmo, resta saber o quê.
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E esta dúvida é tão intrigante quanto urgente é a sua solução.
Intrigante, porque repetidamente se tem dito que chegámos a esta situação porque não fizemos em tempo oportuno o que deveríamos ter feito; urgente, porque repetidamente se tem dito que a situação é insustentável. Virá o PEC anunciado para breve dar a resposta que se precisa. Provavelmente dará resposta a um imperativo (reduzir o défice e o crescimento da dívida) sem resolver o problema de fundo: a crescente anemia de uma parte (ainda) importante do tecido económico.
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Vários economistas se têm debruçado sobre a questão mas observa-se uma certa renitência na passagem do diagnóstico para a terapêutica. Um bom diagnóstico não é nunca o diagnóstico óptimo, passe o cliché.
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Pedro Lains afirmava há dias num artigo que referiu no seu blog que a solução não está na adopção de reformas estruturais*:"Ponham em cima da mesa um caso de crescimento com base em reformas estruturais.” Fiquei perplexo.
E mais perplexo fiquei quando no mesmo artigo (Fomos enganados) Lains conclui “O resto da história passa pela constatação de que o engano foi descoberto e que é tempo para encontrar a verdadeira solução do problema. Qual é ela, ninguém sozinho sabe. Mas é para a encontrar que pagamos os gabinetes e os funcionários onde estas coisas se discutem e os problemas se encontram”. A contradição não poderia ser maior, penso eu. Por um lado recusa que as reformas estruturais possam ser a resposta, por outro, entrega aos funcionários o encargo de resolver o assunto.
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Ontem, Luciano Amaral, no The Portuguese Economy ( My problem with austerity) punha em causa a solução austeridade invocando, e bem, que uma terapêutica para os problemas imediatos não é solução perdurável. Mas acerca desta nada disse.
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Hoje, Ricardo Reis, também no The Portuguese Economy compara a economia portuguesa com a de alguns Estados dos EUA (The Portuguese economy is more flexible than the U.S). E conclui que existe flexibilidade na solução dos nossos problemas sobretudo nos modelos teóricos de alguns ilustres prescritores, que não contemplam os impactos políticos e sociais porque se debruçam sobre uma realidade distante dos seus autores.
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Hoje, Pedro Lains, escreve sobre os transaccionáveis, um conceito de que ele desconfia por não lhe conhecer os limites (Non-tradables). E conclui que convém analisar a sua dimensão, ficando-se por aí.
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Precisamos, realmente, de estruturar um modelo de coabitação da economia portuguesa no euro. Precisamos dele desde que entrámos no SME mas esquecemo-nos disso. Agora que a casa foi arrombada é forçoso colocar trancas na porta.
Quem é que diz como é que isso se faz sem dor?
Pela minha parte tenho colocado alguns apontamentos no meu caderno. Muitos anos de trabalho obrigaram-me a reflectir sobre uma solução sempre que me deparo com um problema. Por mais tosca que seja, se o engenho não é suficiente para descortinar outra mais subtil.
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*No Expresso de hoje, Rui Ramos escreve: Que resta experimentar? Talvez as "reformas estruturais" que o Bloco Central não fez - nem nenhum Bloco Central poderá fazer. (...) O consenso que houver para aplicar um PEC não chegará para o resto, que hoje é tudo. Só umammaioria reformista poderá fazer reformas: haverá socialistas que, individualmente, poderão entrar nessa maioria mas não o PS.
Com que sonha Rui Ramos?

Wednesday, February 24, 2010

COMO É QUE ISTO SE DIZ EM PORTUGUÊS?

"Será que com isso as ideias teriam de ficar mais claras, pois o público seria mais exigente, nem que fosse apenas porque seria mais amplo? Será que o blogue conseguiria ter reacções interessantes vindas de fora? "
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E assim nasceu The Portuguese Economy , um blog em inglês de um grupo de economistas e historiadores da economia para pensar a economia portuguesa no contexto internacional.
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Alves Martins, que foi Catedrático de Finanças no ISCEF, emperrava de vez em quando na língua materna, só lhe ocorria a ideia em língua inglesa, estalava o polegar no médio e perguntava para o ar: Como é que isto se diz em português???
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Ficou célebre por isso.

Monday, August 31, 2009

PERDIDOS POR CEM

Perdidos por mil.
É assim que muita gente se perde no labirinto da procura de melhor sorte.
Uns tentam o totobola, outros o totoloto, outros o euromilhões, outros as slot-machines, outros persistem na lotaria da santa casa. Nos EUA, com as consequências da crise às costas, há muitos que procuram bater o mercado. Uns ganham, outros perdem. Dos que ganham, a grande maioria persiste até perder tudo; aos que perdem espera-os um futuro sempre ameaçado.
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Entretanto, uma nova ordem financeira internacional, que imponha a transparência necessária à não ocorrência de fraudes que estiveram na origem da actual crise, continua por acontecer. As bolsas persistem em concorrer com os casinos estendendo-se, através da internet, até às casas e aos locais de trabalho dos apostadores.
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Se uma nova crise ocorrer dentro de pouco tempo muitos culparão os economistas de não preverem as crises. E mesmo alguns economistas acusar-se-ão mutuamente como se lhes tivesse sido atribuída alguma competência divina para prevenir a pulhice humana.
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By Walter Hamilton
Los Angeles Times
In a Battered Market, Many Opt to Gamble

Stung by punishing losses in the bear market, some investors are souring on traditional buy-and-hold investing in favor of aggressive trading aimed at scoring big gains.
Trading at online brokerages has soared in recent months as investors have tried to capitalize on rising securities markets. But individual investors are increasingly embracing strategies that carry outsize risks.
In some cases, for example, investors have ventured into a relatively new type of investment product designed to magnify the movement of the underlying markets, which can yield big gains if investors bet correctly but bruising losses if they don’t.
To critics, the push into aggressive trading is the equivalent of doubling your bets at a casino to recoup earlier losses.
“It would be a terrible tragedy if people try to recover from the devastation of the financial crisis by creating even more devastation in their personal investment accounts by taking on risks they don’t understand and can’t afford,”
said Barbara Roper, director of investor protection for the Consumer Federation of America.
Financial experts have long preached portfolio diversification, caution and patience when it comes to long-term investing. Still, some people think they have no choice but to take matters into their own hands.
Two bear markets — after the bursting of the Internet bubble in 2000 and the housing bubble two years ago — have decimated portfolios and left many people poorer than a decade ago.
With losses incurred by mutual funds and stockbrokers and figure they cannot do any worse on their own by darting in and out based on market conditions.
“The equity markets have not been steady long-term gainers for a long time now,” said Nicholas Colas, market strategist at BNY ConvergEx Group, a New York brokerage. “There is a growing sense of frustration, and [investors feel that] if you do want to play in equities you have to have a shorter time frame.”
Susan York was fed up with the dismal performance of her 401(k) retirement account. Then her husband saw a Sunday-morning infomercial in January touting the benefits of trading options, which give an investor the right to buy or sell stocks and other securities at predetermined prices.
The 50-year-old from Naples, Fla., had limited investment knowledge but attended several seminars before beginning to trade in May. So far, York said, she’s up an average of 40 percent a month and is trading full time.
“It’s the best job I’ve ever had, not just for the enjoyment but from the compensation standpoint,” said York, who previously sold telecom equipment. “I’ve replaced a significant six-figure income.”
Trading activity at online brokerages jumped in the second quarter as the stock market began rebounding in early March from its deep sell-off. Compared with a year earlier, activity was up 28 percent at E-Trade Financial and 36 percent at TD Ameritrade Holding.
Frenetic trading also is rising among Wall Street professionals.
High-frequency trading, which involves souped-up computers trading stocks in milliseconds, makes up at least half of total trading volume, according to estimates.
Among individuals, activity is picking up in risky areas.
Currency trading by retail investors, for example, is expected to jump to $125 billion a day this year from $100 billion last year, according to Aite Group, a research firm. It has risen steadily from $10 billion in 2001.
Some people recently have jumped into leveraged ETFs, one of the newest and riskiest investment products.
An ETF, or exchange-traded fund, is a mutual fund that trades like a stock and can be bought and sold continually throughout the day leveraged ETF is like a regular fund on steroids. It gives two to three times the return of an underlying stock index. For example, if financial shares rise 2 percent on a given day, a fund could jump as much as 6 percent. Some leveraged funds move in the opposite direction of an index. If an index rose 2 percent, an inverse fund could fall as much as 6 percent.
Leveraged funds are among the fastest-growing products on Wall Street. Total assets surged to $32 billion at the end of June from $11 billion 18 months earlier, according to State Street Global Advisors. The first leveraged fund debuted three years ago. There are now 126.
Concern is mounting, however, that small investors don’t understand the risks of leveraged funds.
In some cases, critics say, the funds have suffered sharp and unexpected losses.
According to a lawsuit filed this month by a Connecticut stockbroker, one fund was supposed to return two times the inverse performance of an index of real estate stocks. Thus, the ProShare Advisors’ UltraShort Real Etate Fund should have risen if the index declined, according to the suit.
But even though the index sank 39 percent through much of last year, the fund also fell, by 48 percent, according to the suit.
“This should have been an extraordinary home run, and yet he lost money,” said Thomas Grady, the broker’s attorney. “It’s just preposterous.” Many other funds have suffered similar fates, according to Morningstar, a research firm.
Over the past year, 55 percent of leveraged ETFs have gone in the opposite direction from where they were expected to, said Scott Burns, a Morningstar analyst. The reason is that the funds are designed to track daily market moves but can fluctuate wildly over longer periods.
ProShares, the suit said, “touts the simplicity” of the funds when there are actually enormous risks.
ProShares said in a statement that the allegations are “wholly without merit.” Fund companies say they warn investors about the danger in holding the funds for extended periods.
“I think we’ve done a very good job in disclosing what these funds are, what they’re not, and what they do and don’t do,” said Michael Sapir, chairman of ProShare Advisors.
Still, leveraged funds are raising concerns among securities regulators.
Massachusetts issued subpoenas to four brokerages last month to determine whether investors are adequately warned of the risks. Some companies have suspended sales of the products, while others have issued warnings to customers.
Still, experts worry that in their haste to recover bear-market losses, people are rushing in blindly.
“People shouldn’t be messing around with stuff they don’t understand,” Burns said.
York has another view: Doing nothing is riskier than taking action.
She has devoted a lot of time, she said, to understanding how options trading works and believes she can prosper in good markets or bad.
“I saw with my 401(k),” she said, “that buying and holding was just not working out.”

Sunday, July 26, 2009

ACERCA DA (DES)NECESSIDADE DAS CONTAS

Os economistas desentenderam-se ainda mais com a emergência da crise. Se já havia fissuras no edifício, a crise derrubou uma parte significativa dele: a macroeconomia. De um dia para o outro, aquilo que dava à arte alguma reputação científica - a análise quantitativa -, foi mandada às malvas pelos que imputaram ao neo liberalismo, à sua fé no princípio do equilíbrio dos mercados, e nos modelos econométricos em que se baseavam, as culpas de ter causado a crise.
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Entre nós, onde a aversão às contas até chega a ser considerado um must, os cálculos nunca foram levados a sério, não há obra pública que não demore mais que o previsto e não tenha revisões de custos sucessivas. É natural, portanto, por muitas razões e mais estas, a discordância entre a nata dos economistas portugueses acerca do interesse público, e da oportunidade, na realização dos chamados mega projectos e, nomeadamente, do TGV.
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Há dias ouvi na mesma emissão de rádio a opinião de três desses economistas, por acaso formados na mesma escola, não formalmente alinhados políticamente, opinarem de modo radicalmente diferente. Enquanto dois deles apontavam a dívida externa como obstáculo o terceiro ignorava o obstáculo e as contas dos outros e defendia o TGV por razões de integração do país na Europa.
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Este é, aliás, o modo com que frequentemente se discutem os grandes projectos em Portugal, se elaboram programas eleitorais, se tomam decisões estratégicas: por instinto. As contas ficarão para serem feitas à posteriori pelo Tribunal de Contas do dr. Oliveira Martins, sem consequências visíveis.
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Afinal de contas, para quê tanta ânsia à volta dos resultados dos exames de matemática, se as contas estão cainda cada vez mais em desuso?

Thursday, July 23, 2009

MÁ (CONS)CIÊNCIA

"Tão espertos, tão brilhantes, tão hábeis no manejo dos números - e nenhum deles, no mundo inteiro, soube prever nem travar a epidemia de ganância e corrupção que nos fez dar a todos com os burrinhos na água" - Inês Pedrosa, in Expresso/Única


O que atrás se transcreve reflecte o estilo de liberdade com que os ficcionistas compõem os seus textos mas também a liberdade com que o público em geral olha a realidade à sua volta: de forma caricaturada e, portanto, tendencialmente desfocada.

Reconheça-se, no entanto, que os economistas têm grossas culpas no cartório onde registam as suas tentativas de apreensão da realidade social e económica a que se dedicam. Transcrevi ontem para aqui alguns exemplos de textos publicados em órgãos de referência no campo económico e financeiro, mas outras posições, de índole parecida, podem ser encontradas transcritas neste caderno de apontamentos. Na generalidade dos casos, os autores assumem culpas de co-responsáveis pela crise, admitindo o falhanço de algumas convicções que eles tinham adquirido como verdades sólidas.

Tenho alguma dificuldade em entender grande parte deste autoflagelo por parte de uma classe de académicos que i) teve alguns representantes que contestaram, alguns há muito tempo, o princípio do equilíbrio dos mercados financeiros ii) outros que previram a evolução para a situação de crise que veio a deflagrar iii) mas, como frequentemente acontece em qualquer domínio da evolução do conhecimento as hipóteses adoptadas pelas maiorias sobrepõem-se às das minorias até ao momento em que a experiência demonstram maior consistência das segundas relativamente às primeiras iv) para além de não existirem nexos de causalidade entre a maior parte dos acontecimentos que originaram a crise e quaisquer teorias económicas por mais neo-liberais que fossem.
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E, depois, o que é que impediu estes arrependidos de terem denunciado a "má teoria" durante tantos anos em que a ensinaram?

Sunday, July 12, 2009

DIVERTIMENTOS

A crise, como a maré-baixa, pôs a descoberto várias e velhas querelas que se encontravam submersas pelas vagas de prosperidade, em grande parte aparente, que garantiram sucessos e fortunas a muita gente. Hoje, quando do lodo sobressaem os conflitos apaziguados no fundo em tempos de mará-alta, cada qual aponta o bode expiatório que convém aos seus interesses ou às suas convicções.
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Os economistas académicos (há outros?) envolveram-se, praticamente desde o começo da crise, numa dicussão, inevitavelmente académica, acerca da responsabilidade das academias na formação, incorrecta segundo alguns, daqueles que inventaram e distribuiram os produtos que intoxicaram a economia global. Quando a crise global emergiu, nós já tínhamos a nossa, mas essa tinha, e continua a ter, outros fertilizantes.
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De um momento para o outro, fomos surpreendidos pelas declarações de muitos daqueles que ensinam nas escolas de economia e gestão de que, eles mesmos, tinham andado a injectar no cérebro más teorias aos aprendizes de feiticeiro que, coitados deles, acabaram por lançar fogo ao sistema que lhes vinha a dar grande glória e grossos proventos. E nem o facto de Madoff ter sido condenado a 150 anos de prisão parece poder convencer esses professores de economia e gestão de que da sua arte pouco aproveitam artistas como o Bernard. A arte destes é outra e não haverá regulação, qualquer que ela seja, que os contenha dentro dos limites da legalidade, se, directa ou indirectamente, das suas artes resultarem benefícios para o infractor e seus comparsas.
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Outra guerra do alecrim trava-se entre os que privilegiam as finanças relativamente à economia e os que esquecem as finanças nas suas propostas económicas. Ora, para além da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos, e das suas inevitáveis repartições de finanças, não sei doutra entidade onde economia e finanças não andem necessariamente de braço dado. De modo que a desintonia só pode atribuir-se a uma perspectiva irresponsável por parte daqueles para quem é possível comprar tudo porque serão outros a pagar a factura.
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É ainda nesta desintonia que aparece invocado o nunca demais venerado nome de J M Keynes. Mas a questão é outra. A política de investimentos públicos concretizados em doses maciças de betão armado, como estímulo da economia, com invocação de Keynes serve primordialmente os interesses cruzados entre políticos e empresários de obras públicas e não é de agora, porque estamos em crise dupla. Pelo contrário, ela tem caracterizado a gestão pública central e local, qualquer que tenha sido o sinal da conjuntura, que encaminhou para ela os recursos, próprios, doados ou emprestados, colocados à sua disposição. Deixar obra tem sido o lema aferidor dos mandatos. O keynesianismo, neo ou clássico, não tem nada a ver com as reais motivações de muitas destas obras.

Sunday, March 15, 2009

OS ECONOMISTAS PERCEBEM ALGUMA COISA DISTO?

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A Conversation With Nassim Nicholas Taleb
Options trader Nassim Nicholas Taleb made his name and career anticipating the powerful historic events he calls "Black Swans," which include World War I, the rise of the Internet and the stock market crash of 1987. In two books published in 2001 and 2007, he urges readers to concentrate more on what they don't know than on what they do.
More recently, Taleb has blasted bankers and economists who issued reassuring forecasts right up to the brink of the current global financial crisis. He spoke recently with Washington Post reporter Peter Whoriskey. Excerpts:

You're a fierce critic of the entire field of economics. Don't economists know anything?
You have close to a million people out there in economic life. How many people saw the extent of what could happen in this financial crisis? Some people said we'd have a problem of too much leverage, but very few saw the potential total impact that could come out of it. They didn't see the cascading effects that can be produced by a complex system.
Years ago, I noticed one thing about economics, and that is that economists didn't get anything right. I wanted to find out the reason. They would say their models are not perfect. But data show that you do much worse using their models than you would without them. It's a bull [expletive] science.
Can you give a specific example?
Every time I saw [Federal Reserve Chairman Ben] Bernanke [on television], I would have a fit of rage. He claimed that we were in a period of "great moderation." He did not understand that Black Swans are preceded by low volatility and the buildup of hidden risks. He mistook absence of volatility for the absence of risk. It was like someone sitting on dynamite and saying "It's okay, we're safe because nothing has happened."
In a complex system, things that are fragile should be allowed to fail very fast. [Former Fed Chairman Alan] Greenspan and Bernanke let something fragile, like the banks, survive very long. The longer it takes to break, the worse the outcome.
That's why I think Obama needs to start with a new economic team -- Treasury Secretary Tim Geithner and Lawrence Summers were among those who didn't see this coming in the first place. He needs new people who understand complex systems.
What about economist Nouriel Roubini? Wasn't he calling attention to the potential danger?
Yes, Roubini got it right. But Roubini wasn't right because he's an academic economist. He was right because he is a very insightful fellow. He is so good he managed to surmount his education in economics.
Other than you, who would be the right choice for the Obama administration?
I know who should not be on his team -- anyone who did not understand that the world financial system included more risks than it showed. This leaves plenty of individuals outside the administration and outside the economics profession who warned about it. Aside from Roubini, the closest thing in the economics profession would be Ken Rogoff. I would also require that the person be a business person -- someone who did not make a career writing papers to impress fellow economists.
So what's your prescription for the economy?
The first thing we need to do is to get rid of the vicious bonus system at banks that encourages you to take these huge hidden risks. When it all blows up, they still have their bonuses, because the Black Swans happen only every so often. You see a lot of people walking around who are massively wealthy who never made a penny for their investors.
Look at [former Treasury secretary Robert] Rubin at Citigroup. He made and kept a $115 million bonus while the taxpayer has to bail them out.
We should not be paying the Bob Rubins anymore. We have to have clawback provisions to make sure that we punish people for their bad bets.
I am in favor of partially nationalizing the banks for this reason and banning complex derivatives. Nobody understands them.
I would also start indicting the vendors of these financial risk management systems that everyone relied upon to tell them everything was okay when it wasn't.
How do you define a Black Swan? If they're so unexpected, how can we prepare for them?
A Black Swan is an exception, like the bird. It is an event with massive consequences that is unexpected. My idea is not simply to say that these things happen. My idea has been to identify the vulnerabilities, the spots where people are driving the school bus blindfolded. In banking, I identified a huge amount of risk taking on the part of banks that were using bogus models to estimate their risks.
It was so painful to watch the banking system become so fragile to the Black Swans. Now there is wealth turning into air as we speak.
What do you see ahead? What do you make of the mainstream economists who predict that the economy will turn around later this year or next?
Look, globalization has created this interlocking fragility. At no time in the history of the universe has the cancellation of a Christmas order in New York meant layoffs in China. So for a while it created the illusion of stability, but it has created this devastating Black Swan.
Complex systems do not like debt. So it will proceed to destroy tens of trillions in debt until society rebuilds itself in an ultraconservative manner. We are in for a worse ride than people think.
People have the problem of denial. This is one of the things I learned in Lebanon. Everybody who left Beirut when the war started, including my parents, said, 'Oh, its temporary.' It lasted 17 years! People tend to underestimate the gravity of these situations. That's how they work.
Is this crisis going to last 17 years?
Unfortunately no, complex systems cascade much faster than that. However, the destruction will be deeper than people anticipate. It will bring down a lot of people.
My rosy scenario is that a better economic environment will develop, a low-debt, robust growth world, in which whatever is fragile will be allowed to break early and not late.
My nightmare scenario is that the government saves Citibank once again, as well as the other banks, and business resumes as usual. Then, the next time the system breaks, it breaks much, much bigger.