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Monday, March 06, 2017

A CAIXA DE LOUÇÃ

O Prof. Louçã afirmou, em entrevista publicada aqui, que o plano de negócios da Caixa Geral de Depósitos é errado. E, do meu ponto de vista, é. Mas por algumas razões diferentes das apresentadas por Louçã. 

Do que conheço das suas linhas gerais, por terem vindo a público algumas apreciações críticas do documento, o plano de negócios elaborado pelo sr. António Domingues e a sua equipa conforma-se com as exigências do BCE, como condição sine qua non para a recapitalização da Caixa, em grande parte com dinheiros públicos, não ser considerada ajuda do Estado e, portanto, não agravar o défice das contas públicas. E as exigências do BCE impõem que a Caixa seja governada segundo critérios idênticos aos que estão subjacentes à banca privada. Com uma condição espúria: a suposta independência concedida à administração da Caixa sobreleva qualquer outra dominante em bancos de capitais privados, coibindo o governo em funções, enquanto representante do accionista, o Estado, entidade onde convergem os interesses e responsabilidades de todos os portugueses, de decidir em qualquer matéria que restrinja a capacidade pretensamente quase ilimitada da administração proceder como entender. Comentei aqui esta vertente do documento.

Critica Louçã que a seguradora Fidelidade tenha sido vendida (foram as perdas da Caixa que obrigaram esta e outras alienações de activos) e a Caixa amputada de um sector primordial como complemento da actividade bancária. A questão é, no mínimo, discutível e, de momento, inoportuna.

Defende Louçã que a Caixa não deverá reduzir a sua rede balcões, e, se as actividades em Espanha foram um desastre, há balcões no estrangeiro junto de comunidades emigrantes que justificam a presença da Caixa junto dessas comunidades.  
O acidente espanhol, sem que o condutor tenha sido julgado e condenado, mas transferido e promovido, deveu-se a arriscados créditos concedidos que se revelaram incobráveis. Se a Portugal faltam recursos financeiros parece absurdo que a Caixa exporte fundos que deveriam promover o crescimento em Portugal. Se a intenção é a canalização das poupanças dos emigrantes para Portugal, a forma mais eficaz é a recuperação da confiança perdida pelo sistema financeiro, tendo a Caixa enormes culpas no cartório. E não é visível, nem Louçã demonstra o contrário, que  a Caixa possa sair do atoleiro onde a meteram sem reduzir custos, o mesmo é dizer, sem dispensar os meios excessivos.

Mas é sobretudo a missão da Caixa, que Louçã não aborda nesta entrevista, que deveria merecer um debate avaliador do nível de consenso possível sobre o que se espera de um banco público, administrado como banco privado, que justifique a sua razão de existir. Do ponto de vista de Louçã, a propriedade pública sustenta-se em princípios ideológicos que sobrelevam quaisquer outros, tão inamovíveis quanto os sacrossantos direitos da propriedade privada defendidos pelos ultra liberais. Qualquer discussão balizada por cerradas barreiras ideológicas é inútil. 

Louçã poderia, por exemplo, defender que a Caixa, como banco público, fosse exemplar no repúdio de actividades especulativas, as eufemisticamente designadas operações de intermediação em fundos de investimento, ou transacções com offshores. Há muito tempo já, anotei neste caderno de apontamentos a necessidade de criar "bancos verdes", não poluídos, nem susceptíveis de virem a ser, de activos tóxicos; e que só esses poderiam contar, em última instância, do respaldo dos contribuintes. 

Poderia, mas nisso cairia em contradição com as suas convicções ideológicas, um chapéu de abas mais largas que as da teoria económica em que Louçã é catedrático.

Monday, June 17, 2013

ECONOMIA & IDEOLOGIA

No princípio deste ano realizou-se em San Diego a reunião anual dos economistas norte-americanos, e Paul Krugman comentou aqui um dos temas centrais discutidos: até onde a investigação económica é isenta da ideologia preponderante na mente do investigador? É um artigo interessantíssimo, como são, aliás, em geral todas as suas opiniões publicadas no Wall Street Journal ou no seu blog, The Conscience of a Liberal. Neste caso, porém, Krugman - confessadamente, um liberal no sentido norte-americano do termo -, coloca-se perante a pergunta recorrente - até onde é possível a objectividade na investigação no campo das ciências sobrepor-se à subjectividade decorrente da ideologia de quem investiga - a partir de um paper apresentado por dois outros economistas tendo como base as respostas dadas por um painel de economistas aquela questão.

Recordei-me deste artigo de Krugman quando li esta manhã que Francisco Louçã, prevê, vd. jornal i, que

"Num cenário de saída do euro será necessário um governo capaz de inspirar "confiança" às pessoas, já que os sacrifícios serão equivalentes aos "que os avós passaram na II Guerra Mundial. "No dia seguinte à saída do euro passamos a transaccionar em moeda estrangeira", aponta o economista, que prevê que nesse mesmo dia o novo escudo desvalorize cerca de 30% (uma estimativa considerada simpática por outros economistas presentes no debate). Ainda segundo o ex-líder bloquista, imprimir moedas e notas do novo escudo levará entre três a seis meses, o que vai fazer com que as trocas durante esse período inicial sejam efectuadas ainda em euros. Mas no dia-a-dia da população, a manutenção do euro em circulação pode complicar-se. "O que é que vai fazer o merceeiro de bairro ou que é que vai fazer o Soares dos Santos? Vão dizer que o multibanco está avariado porque é mau negócio ser pago em escudos e é bom ficar com euros em notas e moedas porque o euro vai valorizar" Mesmo que isto não aconteça, caso passem a ser permitidos levantamentos controlados de 50 euros por dia nos multibancos, nos dias seguintes à saída do euro, o economista prevê que passados dois meses deixe de haver notas de euros em circulação no país, já que toda a gente tentará ficar com o máximo da moeda antiga - que valorizará com a saída de Portugal.Também a inflação afectará o quotidiano das famílias portuguesas, especialmente nos produtos importados, como medicamentos e combustíveis. Um argumento que para Francisco Louçã justifica o receio da população de uma saída da moeda única e se sobrepõe às previsões dos economistas que apontam para um crescimento a longo prazo fora da zona euro."

Fica muito claro que as perspectivas de uma saída do euro traçadas por Louçã (e estas declarações sobre assunto não são novidade) são em grande medida opostas às de Ferreira do Amaral, que, tendo-se publicamente oposto à entrada no euro é agora muito combativo pela saída, argumentando que a manutenção de Portugal no euro é insustentável e o modus faciendi da saída negociável.

Tanto Louçã como Amaral se situam ideologicamente à esquerda, e Louçã mais à esquerda que Amaral. Não sendo extraordinário que, dentro do mesmo quadrante ideológico haja desencontros nos caminhos para atingir os mesmos objectivos, neste caso as posições dos dois professores de economia na mesma escola parecem também opostas nas melhores (ou menos más) soluções que propõem: Amaral, a saída do euro, Louçã, vejam bem no que nos iremos meter.

Não os juntando a ideologia, alguém já fez umas contas?