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Monday, January 02, 2017

BOA QUEDA

Há quedas que vêm por bem.

A queda do euro contra o dólar (1,04874, no momento em que teclo este apontamento), que agora se situa em mínimos dos últimos catorze anos, depois de ter atingido um máximo em Abril de 2008 (1,59752), tem as suas vantagens, sem que possamos ignorar os seus inconvenientes: o custo das importações de combustíveis fósseis, o aumento da dívida externa titulada em dólares, por exemplo. (vd. aqui gráfico da evolução euro/dólar nos últimos dez anos)

As vantagens, que se traduzem sobretudo no crescimento (transitório) da competitividade monetária das exportações com reflexo no crescimento económico na Europa, são boas notícias no meio de um leque de ameaças que pairam sobre o ocidente europeu, que animam os extremistas nacionalistas, xenófobos, racistas e todos quantos aproveitam as pragas para dominar as sociedades democráticas infectadas pelos vírus que eles espalham descaradamente e quase sem oposição que eficazmente os denuncie e anule. Estão os valores democráticos condenados a submeterem-se à tirania disfarçada dos seus algozes, por uso abusado desses mesmos valores, redimindo-se da sua pusilanimidade apenas in-extremis ou por desgraça de outra guerra? 

Se até agora ao euro tem sido atribuído o papel de bode expiatório de todos as causas perturbadoras da união europeia, pode acontecer que, por obra e graça da ascensão do populismo nos EUA, se torne menos grave o  contágio deste lado de cá do Atlântico. Pelo menos até que do lado de lá caia Trump por trumpgate. 

Vem este apontamento a propósito desta noticia: 

"A percepção dos gestores de compras da Zona Euro aponta para que a actividade da indústria dos 19 do clube da moeda única tenha atingido um máximo de quase seis anos em Dezembro, fechando o ano de 2016 com uma tendência de crescimento.

De acordo com a Markit, o índice PMI ficou no último mês do ano em 54,9 pontos, confirmando a primeira leitura e reforçando o perfil de crescimento em relação a Novembro, quando tinha sido de 53,7. É o valor mais elevado desde Abril de 2011, mantendo-se acima da linha de 50, o limite a partir do qual se estabelece que a actividade registou expansão.

A actividade acelerou entre os dois últimos trimestres (passando de 52,1 para 54), elevando a média anual deste indicador para 52,5, levando a que o ano fechasse no valor mais elevado desde 2010.


Por mercados, a Holanda e a Áustria são aqueles onde se denota maior expansão da actividade, ao passo que na Alemanha, a "locomotiva económica" do euro, regista um máximo de três anos. O maior parceiro comercial de Portugal, Espanha, atingiu a melhor marca em 11 meses, enquanto o desempenho de França é o melhor em quase seis anos.

Na base do desempenho do clube dos 19 está, segundo a Markit, um crescimento mais rápido da produção e de novas encomendas, tanto no mercado interno como para exportação, a beneficiar da queda do euro face ao dólar nas últimas semanas. 

O crescimento da procura elevou as listas de encomendas também para o maior valor em mais de cinco anos, resultando na criação de mais postos de trabalho. A empresa de estudos de mercado destaca ainda o aumento da pressão inflacionista, perante o aumento dos custos das importações devido a factores cambiais e ao aumento dos preços das matérias-primas. 

Apesar de reconhecer o forte final de 2016 para a economia do euro, Chris Williamson, o economista-chefe da Markit, destaca o risco político trazido pelo ano novo, nomeadamente em torno do desfecho das eleições na Holanda, França e Alemanha. Eventuais alterações geopolíticas podem conduzir a uma "intensificação da incerteza política na região", o que leva a organização a estimar um abrandamento no crescimento da economia, dos 1,7% de 2016 para 1,4% no ano que vem."

Wednesday, September 14, 2016

UE VERSUS EUA

Uma das questões mais recorrentes colocadas por aqueles que defendem, e é o meu caso, o euro como instrumento de integração europeia quando colocados perante os argumentos daqueles - Stiglitz, Krugman, entre muitos outros - que consideram que o euro está condenado como moeda do uma zona monetária que não é suficientemente políticamente integrada, é :

se os norte-americanos têm o dólar porque não pode o euro sustentar-se como moeda única numa zona única monetária europeia?

Para uma pergunta cândida, uma resposta óbvia: a União Europeia, e, particularmente a Zona Euro, não é uma federação de estados como os Estados Unidos da América. 

A diferença, que é enorme, explica não só as fortes turbulências observadas na Europa - que, por exemplo, ameaçam a permanência da Grécia, e não só, como membro da Zona Euro e, muito provavelmente, da União Europeia, e instigaram os resultados do referendo sobre o Brêxit - mas também as dificuldades da recuperação económica da União Europeia após 2008. Mesmo a Alemanha, fortemente superavitária na balança comercial, tem experimentado um crescimento económico débil de 0,9%/ano, desde então.
No mesmo lapso de tempo, que coincide com os dois mandatos da administração Obama, os EUA, onde a crise financeira tinha espoletado, conseguiram uma inversão rápida da recessão e um crescimento económico, débil, mas consistente, de 1,2%/ano.  
Por outro lado, enquanto a taxa de desemprego na Europa se mantém em níveis médios de dois dígitos, nos EUA o desemprego caiu de 11% no início da crise para cerca de 5%, actualmente. 

Hoje, lê-se aqui no Washington Post, que segundo relatório do "Census Bureau" publicado ontem, as  classes médias e pobres nos EUA obtiveram em 2015 o maior crescimento (+5,2%) de rendimentos familiares nas últimas décadas, sem, contudo terem recuperado para os níveis que dispunham antes da crise. A aparente disparidade esclarece-se pelo facto ter aumentado a desigualdade de rendimentos - o mesmo aconteceu na Europa - em consequência de mais apropriação das classes afluentes durante a crise. 

Se os membros da União Europeia não acelararem o processo de integração política, aproximando suficiente e adequadamente, as suas instituições daquelas que são imprescindíveis à sobrevivência da  moeda única, a UE não subsistirá com a configuração actual,obrigando à saída de alguns membros da Zona Euro, muito provavelmente os do Sul, ou de todos.
Isto é, resumidamente, o que diz Stiglitz. 
Até prova em contrário.

Monday, January 11, 2016

QUANTO VALE O EURO SEGUNDO O BIG MAC

O Economist publica na edição desta semana o seu já icónico "The Big Mac index", desta vez comparativo dos preços de um Big Mac em Janeiro de 2014 e Janeiro de 2016 para, através dele, "medir" a subvalorização ou sobrevalorização de um conjunto de moedas relativamente ao dólar americano. 
E conclui que "as fortes desvalorizações de moeda não estão, agora, a provocar os crescimentos de exportações que antes se observavam". Se o Big Mac serve para alguma coisa, esta conclusão não confirma a tese daqueles que vêm no euro, desde sempre, um obstáculo à reanimação da economia portuguesa.

Registe-se o apontamento feito aqui em Julho de 2012:
"Para Martin Feldstein, professor em Harvard, "uma queda brusca do euro pode salvar a Espanha do colapso". Veja aqui porquê." 

Nem o euro não caiu bruscamente nem a Espanha colapsou. 


Em Janeiro de 2014 a cotação média do euro relativamente ao dólar (0,734198/1,36203) avaliada pelo Big Mac Index denotava uma valorização do euro, que entretanto se inverteu. Durante os últimos 11 dias aquela relação apresentou um valor médio (0,921563/1,085113) reflectindo uma desvalorização do euro relativamente ao dólar rondando os 19%. O equilíbrio das duas moedas situar-se-á agora, pelo menos na compra de um Big Mac, em quase 1,30 dólares por um euro.




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Vd. aqui dados sobre a dimensão da McDonald´s

Sunday, January 18, 2015

PODE SALVAR-SE A EUROPA COM A DESVALORIZAÇÃO DO EURO?



O euro celebra este mês o 16º aniversário e a  pergunta é colocada aqui, numa altura em que a cotação da moeda única europeia contra o dólar atingiu o valor mais baixo ($ 1,15512) nos últimos dez anos. A inesperada decisão do Banco Nacional da Suiça tomada na passada quinta-feira de abandonar a intervenção no mercado de divisas iniciada em meados de 2011, veio confirmar a antecipação de uma desvalorização inevitável com o anunciado programa do BCE de aquisição de dívida pública de menor risco. 

Pode esta desvalorização ajudar à reanimação das economias europeias, e não apenas as da zona euro considerando a colagem da generalidade das outras moedas ao euro, e, mais alargadamente, à economia global? Não é garantido. E não é garantido porque, apesar da desvalorização da moeda única ser, praticamente, agora a único mola capaz de funcionar no ambiente estagnado em que se deixou cair a Europa, as probabilidades de sucesso, segundo os analistas citados no artigo que refiro, são indecisas.

Em todo o caso, a desvalorização do euro vai, certamente, proporcionar às exportações portuguesas ganhos, transitórios como todos os ganhos de competitividade monetária. Tendo, por outro lado, caído as cotações do crude para níveis não previsíveis há alguns meses atrás, o efeito da desvalorização sobre as exportações e importações portugesas será significativamente positivo. Será? Ou seria? As últimas notícias sobre as restrições de Angola às importações de Portugal é um dos vários factores que podem afectar negativamente algum optimismo das expectativas.

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Correl . - The eurozone : a strained bond


Monday, June 24, 2013

E SE OS JUROS SOBEM?

A evolução das taxas de juro efectivas (yields) das dívidas soberanas dos países do sul da Europa tem sido um dos poucos resultados apresentados como sucesso das políticas fiscais e monetárias adoptadas pela União Europeia, e, muito em particular, na zona euro. Essa evolução, com flutuações que até agora têm provocado reacções de sinais contrários consoante o quadrante em que se posicionam (simplificadamente, pró ou contra a política de austeridade) os políticos e comentadores da praça, tem, inequivocamente, observado uma tendência decrescente.
A essa tendência se têm agarrado aqueles que acreditam, se confiarmos  nas suas declarações ou opiniões públicas, que o problema da dívida pública é solúvel apenas com a prossecução de uma política de equilíbrio orçamental e do tempo previsto, e entretanto alargado, para fazer inflectir o crescimento da dívida.
Subsistia interminável discussão, e eis senão quando, o senhor Ben Bernanke  o homem incumbido, na qualidade de Chairman da Reserva Federal dos EUA, de informar as decisões de política monetária tomadas pelo board de Governadores que integram o Sistema da Reserva Federal - Fed - espantou os mercados ao anunciar a redução dos estímulos à economia norte-americana, o que, em termos práticos, significa a redução das compras de dívida norte-americana e, consequentemente, a redução da liquidez e o aumento dos juros.
Consequentemente, além de outras convulsões que estas declarações provocaram à volta do mundo,
"Os juros da dívida portuguesa estão esta segunda-feira em forte alta, em linha com o comportamento das obrigações europeias e de outros países, com os investidores a continuarem a reduzir a exposição aos activos de dívida devido aos receios que a Reserva Federal diminua a compra de obrigações." - aqui.
Se para muitos, entre os quais me permito incluir-me, é inviável a inflexão da dívida externa considerando a insuficiência de potencial da economia portuguesa a médio prazo e o custo crescente da dívida, parcialmente bonificado pelas condições dos empréstimos da troica, duvido que reste alguém com um mínimo de conhecimentos de aritmética que continue a acreditar que a inflexão é possível mesmo que a tendência decrescente das taxas de juro se inverta.
Não. Alguma coisa tem de acontecer.
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Tuesday, June 18, 2013

UMA MOEDA DE PÍRRICO

"It is a sad story", escreve Martin Wolf  a concluir "The toxic legacy of the Greek crisis", o seu artigo de hoje no Financial Times. E é.
 
Quando se ouve ou lê aqueles que a todo o transe procuram justificar a obcecada posição do ministro das Finanças Vítor  Gaspar,  e a repetição do mesmo pelo primeiro-ministro, de que a volta aos mercados é o santo e senha da recuperação plena da soberania perdida, somos levados a concluir que ou não sabem fazer contas ou estão hipnotizados pelo mago de Berlim.
 
Martin Wolf segue neste seu artigo uma abordagem de Simon Wren-Lewis, professor em Oxford ao relatório de avaliação crítica do Fundo Monetário Internacional. E as conclusões dessa avaliação crítica não podem ser mais claras: O FMI reconhece que   as medidas impostas à Grécia, por evidente  impossibilidade de incumprimento  não  não acabaram com o drama grego. Mas ainda pior que isso, provocaram uma crise na Europa com consequências ainda bem longe de estarem limitadas.
 
É improvável que Vítor Gaspar ou alguns dos seus assessores não tenham lido este e outros artigos, curiosamente geralmente da autoria de economistas norte-americanos ou do Reino Unido, que repetidamente vêm denunciando as políticas erradas adoptadas na União Europeia para ultrapassagem da crise. Portugal não é a Grécia. Pois não. Mas há muito tempo que já se percebeu que vai pelo mesmo caminho.
 
O euro continua hoje a valorizar-se contra as principais moedas mundiais, cotando-se a 1,34 contra o dólar. Fora isso, tudo mal.
 
 
 
 

 

 tells the story in an excellent blog post. He draws on a  of the programme for Greece agreed in May 2010. Here is the report’s summary of the failings: “Market confidence was not restored, the banking system lost 30 per cent of its deposits, and the economy encountered a much-deeper-than-expected recession with exceptionally high unemployment. Public debt remained too high and eventually had to be restructured, with collateral damage for bank balance sheets that were also weakened by the recession. Competitiveness improved somewhat on the back of falling wages, but structural reforms stalled and productivity gains proved elusive.”

     
While the programme forecast a 5½ per cent decline in real gross domestic product between 2009 and 2012, the outcome was a fall of 17 per cent. According to the OECD, the association of high-income countries, real private demand fell by 33 per cent between the first quarters of 2008 and 2013, while unemployment rose to 27 per cent of the labour force. The only justification for such a depression is that a huge fall in output and a parallel rise in unemployment is necessary to force needed reductions in relative costs on to a country that is part of a currency union. Since the Greeks want to remain inside the eurozone, they have to bear the resultant pain.
Yet even this cannot justify one aspect of the programme. The International Monetary Fund is supposed to lend to a country only if its debt has been made sustainable. But it was not, in the least, as a host of commentators pointed out at the time. Instead of making debt sustainable, the programme merely let many private creditors escape unscathed. In the end, a reduction in debt to private creditors was imposed. Yet Greek public debt remains, arguably, too high: the IMF forecasts it at close to 120 per cent of GDP in 2020. This debt overhang will make it hard for Greece to return to the markets and to economic health. Deeper debt reduction is still needed.
All this tells us depressing things about the politicisation of the IMF and the inability of the eurozone to act in the best interests of its weaker members. But the Greek crisis, alas, also had two global results.
First, inside the eurozone, the fact that Greece was the first country to fall into trouble cemented the view of northern Europeans that the crisis was fiscal. For Greece was, indeed, a case of remarkable fiscal profligacy, with net public debt at more than 100 per cent of GDP even before the crisis. But elsewhere the position was quite different: private borrowing was the root cause of the crisis in Ireland and Spain and, to a lesser extent, in Portugal. Italy’s public debt was high, but not because of recent profligacy. By deciding that the crisis was largely fiscal, policy makers could ignore the truth that the underlying cause of the disarray was irresponsible cross-border lending, for which suppliers of credit are surely as responsible as users. If the culpability of both sides – lenders and borrowers – had been understood, the moral case for debt write-offs would have been clearer.
Second, the Greek crisis frightened policy makers everywhere. Instead of focusing efforts on remedying the collapse of the financial sector and reducing the overhang of private debt, which were the causes of the crisis, they focused on fiscal deficits. But these were largely a symptom of the crisis, though also, in part, an appropriate policy response to it. As I have noted, in June 2010, shortly after the first Greek programme, leaders of the Group of 20 leading countries, meeting in Toronto, decided to reverse the stimulus, declaring that “advanced economies have committed to fiscal plans that will at least halve deficits by 2013”. A sharp tightening followed (see charts). Policy makers justified the shift with supportive academic research: the view that fiscal contraction could be expansionary was an encouragement; the view that growth would fall if public debt grew too high was a warning.
What looked, until mid-2010, to be a burgeoning recovery from the nightmare of the “Great Recession” was aborted, notably so in the UK and eurozone. The greater success of the US in surviving austerity was probably due to its more aggressive clean-up of the financial sector, greater acceptance of deleveraging by households and its more aggressive monetary policy, particularly relative to the eurozone’s. If the latest forecasts from the OECD are right, eurozone GDP will be lower in the fourth quarter of 2014 than it was in the first quarter of 2008 and a mere 0.7 per cent higher than in the first quarter of 2011. Did fiscal tightening cause such a weak recovery on its own? Certainly not. But it removed a still desperately needed offset to the contractionary forces emanating from crisis-hit private sectors.
What makes this story depressing is that it was unnecessary. At first, it might have made sense to fear the Greek crisis was the first outbreak of a fiscal-crisis pandemic. Yet it soon became clear that countries with their own floating currencies could still sell public debt at ultra-low interest rates. This was partly due to “quantitative easing” by their central banks. Possessing a central bank of your own gives a government a degree of freedom in managing its response to a financial crisis. For such countries, the time for rapid structural fiscal tightening comes only after the private sector starts to eliminate its structural financial surpluses. That would not be so soon after the crisis. It would also require prior restructuring of the financial sector and writedowns of excessive private debt.
In brief, the Greek crisis proved a triple calamity: a calamity for the Greeks themselves; a calamity for the popular view of the crisis inside the eurozone; and a calamity for fiscal policy everywhere. The result has been stagnation, or worse, particularly in Europe. Today, we have to recognise that the huge falls in output relative to pre-crisis trends may well never be recouped. Yet the reaction of policy makers has not been to admit the mistakes, but to redefine acceptable performance at a new, lower level. It is a sad story.

Monday, May 20, 2013

ONDE DEVE HAVER AUMENTOS DE SALÁRIOS

Em Portugal ou na Alemanha?
É de admitir que, sobre o assunto, hoje muita gente já tenha mudado de ideias em Portugal. Ainda assim, as reivindicações das organizações sindicais têm como objectivo natural melhores condições salariais, qualquer que seja a forma como elas se traduzam.
 
Paul Krugman, que a si mesmo se considera um liberal, o que na tradição norte-americana se traduz por esquerda política, escreve hoje em "The conscience of a liberal" a propósito dos salários alemães e da competitividade da economia portuguesa. Depreende-se do início do apontamento de Krugman que a questão lhe foi suscitada por um debate encurralado entre  Ryan Avent, Tyler Cowen e  Karl Smith sobre até que ponto uma política mais expansionista do BCE pode ajudar a recuperação dos países periféricos.
 
Segundo Cowen, uma tal política expansionista teria um efeito inflacionista na Alemanha e não determinaria um boom em Portugal. Krugman concorda com Avent e Smith que Cowen não está a ver o ponto crítico da questão ao focar a sua atenção sobretudo no nível de concorrência directa entre Portugal e a Alemanha e na dimensão das exportações portuguesas para a Alemanha. O que é mais relevante, segundo Krugman, é o facto de Portugal e Alemanha terem uma moeda comum e o que acontece na Alemanha influencia o valor dessa moeda (o euro) relativamente a outras moedas.
 
Afirma Cowen que um aumento dos salários na Alemanha resolve, quanto muito, um dos principais problemas da zona euro, corrigindo os preços relativos entre Portugal e a Alemanha mas isso teria menos impacto do que a redução dos salários nominais, demasiado altos, em Portugal.  
 
Pergunta Krugman: Os salários nominais são demasiado altos relativamente a quê? Um valor real resulta da comparação de dois valores nominais. E a resposta é clara: são demasiado elevados relativamente aos salários alemães. Argumenta Cowen que é pouco relevante a concorrência entre as economias portuguesa e alemã. Pois é. Mas imagina, Cowen, que os salários na Alemanha aumentam 20%. Imediatamente o euro desvalorizar-se-ia contra outras moedas, nomeadamente o dólar. E, consequentemente, as exportações portuguesas tornar-se-iam mais competitivas em todo o lado, e não só na Alemanha e restantes membros da zona euro. 
 
Ora isto, conclui Krugman, implica determinadas obrigações para a Alemanha, quer os alemães queiram quer não.
 
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Acontece que nem Frau Merkel quer (ou pode) concordar com Krugman nem o senhor Arménio Carlos com Cowen. De qualquer modo, há muito mais variáveis para além do valor do euro na equação da competitividade da economia portuguesa. Desde logo a insuficiência de potencial de crescimento no caso de uma eventual desvalorização do euro. Resumir a avaliação dos factores de competitividade da economia portuguesa ao valor relativo da moeda de transacção permite encontrar um (transitório) bode expiatório mas ignora os seus pontos mais débeis. O excessivo enfoque geralmente dado à competitividade monetária prejudica a análise dos constrangimentos reais da competitividade global da economia portuguesa.

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Há, porém, um efeito, cujo impacto seria muito relevante, de uma eventual onda inflacionista controlada, duradoura: o de resolver o problema das dívidas soberanas.  
 

Thursday, February 14, 2013

MÁS NOTÍCIAS, DONA MERKEL

A recessão em Portugal atingiu os 3,2% em 2012, segundo dados acabados de divulgar pelo INE, excedendo as previsões do Governo, sobretudo em consequência da queda de 3,8% observa no último trimestre. Ontem,  soube-se que a taxa de desemprego subiu para 16,9% no último trimestre do ano. O senhor Passos Coelho reconheceu a calamidade mas disse que a evolução se encontrava razoavelmente em linha com as previsões, ainda vai aumentar, para inflectir a seguir, se...
 
E aquele se é um prenúncio de maior desastre. Fluente no discurso, Passos Coelho tinha a resposta engatilhada para a circunstância: por enquanto a recuperação tem de valer-se da procura externa, a retoma económica vai acontecer algures ainda este ano e só em 2014 poderá contar-se com um crescimento induzido pela procura interna.
 
As perspectivas de crescimento da procura externa na Europa são medíocres: Soube-se também hoje (o Financial Times chama-lhe massacre em dia de S. Valentim) que a Zona Euro caiu 0,6% no último trimestre de 2012, -vd aqui - o pior resultado dos últimos quatro nos, não poupando a Alemanha, a França, a Itália. Se os exportadores portugueses têm tentado diversificar os seus meus mercados clientes fora da Europa, a União Europeia continua ainda a ser, de longe, o seu principal mercado.
 
Não sabemos se estes resultados vão influenciar a determinação da Chanceler Merkel e dos seus seguidores do norte na política de austeridade a todo o custo, para usar a expressão que o senhor Passos Coelho lhe deve ter ouvido dizer. Uma política que, é por demais evidente, tem tido como preocupação primeira o resgate dos bancos e a absolvição dos banqueiros que se atiraram alegre e inimputavelmente para fora de pé.
 
Nos EUA, a via escolhida foi outra, e não sabemos se seria diferente se Obama tivesse perdido contra os republicanos John McCain em 2008 e Mitt Romney em 2012. Mas podemos perguntar-nos sobre o que sucederia se os republicanos tivessem adoptado uma política fiscal tão contraccionista como a que a Zona Euro adoptou. Haverá quem duvide que seria o desastre global?

Wednesday, February 13, 2013

NA PISTA DO DÓLAREURO

Eurodólares já há. Dólareuros, invenção minha, salvo se já há patente registada, passou a haver*.

Tal designação foi-me sugerida pelas notícias acerca do "Discurso da União" que o Presidente Obama dirigiu ontem aos congressistas, a todos os norte-americanos e, porque não reconhecê-lo, dada a resiliente liderança norte-americana, também ao mundo. Não menos que "Urbi et Orbi", sem intenção de heresia.
 
Os EUA tinham perdido, sobretudo durante os mandantos de Bush II, o respeito do mundo, atolando-se quase isolados em algumas guerras intermináveis e numa teia de aranha financeira gigante que quase sufocou o sistema financeiro global. Obama, o mais improvável de todos os presidentes norte-americanos, foi eleito quando o país quase desabava. Depois de um primeiro mandato, de que não resultou o melhor dos mundos do dr. Pangloss, os EUA, no entanto, recuperaram o respeito perdido internacionalmente, o sistema financeiro, se não melhorou a olhos vistos encontra-se estabilizado, a economia recuperou, o desemprego, ainda alto para os hábitos locais, mantem-se a níveis bem mais baixos que os observados na Europa, o emprego voltou a crescer. O contraste com o que, entretanto, se passou na União Europeia não poderia ser maior.
 
A diferença está em Obama e na sua equipa? Em parte, sim. Mas a grande diferença reside no facto de Obama representar e responder perante todos os norte-americanos enquanto a Chanceller Merkel, o Presidente Hollande, o par do directório que de facto governa a UE, representam e respondem apenas perante os eleitores alemães e franceses, respectivamente. A política da Chanceler Merkel, ou de qualquer outro chanceler alemão, será sempre fixada em função dos votos alemães.
 
Voltando ao "Discurso da União",  que aqui se considera incluir propostas políticamente possíveis, umas, mas implausíveis, outras, Obama presidente reeleito mostrou-se mais decidido e ambicioso do que Obama candidato à reeleição. Normalmente, sucede o contrário. Obama, ao avançar para um conjunto de objectivos, alguns deles fracturantes, implausíveis, pretende, segundo a leitura de Ezra Klein, marcar a agenda política e encostar os republicamos à parede. Na Europa, as regras do jogo são outras, completamente diferentes, a política europeia está enredada em contradições sem desenleio à vista.  
 
Há, no entanto, neste discurso de Obama um ponto, que mais do que qualquer outro, confronta as disparidades e as incongruências da União Europeia na encruzilhada em que se encontra e do qual parece não saber sair. Obama anunciou, e desde logo é estranho que nenhum sinal tenha sido dado da parte da UE a seu propósito, que os EUA e a UE vão entrar em negociações tendo em vista a construção de um espaço económico alargado que incluirá 800 milhões de pessoas.
 
Ouve-se, abisma-se e interroga-se: onde é que ele, ou eles, querem chegar? E, mais do que, aonde, como? Com uma moeda única, o dólareuro? Sem moeda única, e fé em Deus? Pode um espaço económico comum funcionar guerreando-se as moedas de parte a parte? Escapa-me completamente a
plausibilidade desta intenção de Obama e de mais não sabemos quem.  
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* Designação que, de tão obtusa, também por essa razão, nunca seria usada

Thursday, January 24, 2013

O DÉFICE NÃO É UM PROBLEMA


Martin Wolf, citado por Paul Krugman aqui, defendia ontem no Financial Times que  a política fiscal norte-americana não está em crise - America´s fiscal policy is not in crisis -, o desafio mais urgente é a promoção da recuperação da economia. Sem dúvida, reconhece MW, a evolução da dívida poderá vir a colocar sérios problemas a longo prazo, mas a única forma de os evitar não é a redução da despesa a curto prazo mas a criação de condições de crescimento económico que obrigue a inflexão da curva do endividamento antes que este assuma proporções indomáveis. Em resumo: Martin Wolf alinha pela política da administração de Obama, ainda que pondere nela alguns trajectos que deverão ser equacionados, por exemplo, o crescimento dos custos de um sistema, ineficiente, de saúde. Do ponto de vista da oposição republicana no Congresso, que já engoliu metade do sapo do aumento do tecto da dívida, Martin Wolf será um socialista infiltrado no diário de maior expansão mundial, um símbolo inequívoco do capitalismo.

Uma das consequências imediatamente visíveis desta política é persistente desvalorização do dólar relativamente à moeda única europeia que, obviamente, favorece as exportações norte-americanas e dificulta as economias europeias, sobretudo aquelas que, por se encontrarem num patamar tecnológico médio menos competitivo, enfrentam desarmadas a guerra das moedas. A desvalorização da moeda não é uma  uma boa via para ganhar competitividade de forma sustentada, mas a valorização é certamente um handicap que algumas economias, e nomeadamente a portuguesa, com um tecido produtivo não geralmente sofisticado,  dificilmente poderão compensar com outros argumentos.

Assim sendo, é esperável que a União Europeia do norte reconheça a curto prazo que a política prioritária da austeridade tem de dar lugar a uma política mais flexível que, sem descurar a prosecução do aumento da eficiência do Estado, permita criar condições à revitalização das economias mais fragilizadas. A obsessiva polarização do discurso político no saneamento das finanças públicas, de que a reentrada nos mercados é um exemplo flagrante, tem desvalorizado o caminho económico que permitirá pagar a dívida. Alguns argumentam que não há crescimento económico sem saneamento das finanças públicas e que a economia não é o governo que a promove mas os empresários. O que sendo verdade, não é totalmente verdade. Se fosse, as exportações portugueses não representariam, apesar dos progressos observados, ainda uma parte menor do PIB do país.  

Friday, January 18, 2013

A MELHOR APOSTA


Soube-se hoje - vd aqui - que nos EUA os Republicanos dicidiram aumentar o teto da dívida por três meses, o que representa uma quase vitória de Obama. Quase, porque este recuo da oposição é significativo de que os conservadores dificilmente virão a querer assumir a responsabilidade de uma recessão que a admissão das suas propostas implicaria. De qualquer modo haverá um ajustamento da despesa, isto é, cortes de despesa suficientes para conformarem o défice com o novo teto "debt ceiling". São frequentes os relatos das consequências das restrições orçamentais.

No Economist desta semana, por outro lado, destaca-se a decisão do primeiro-ministro japonês, eleito recentemente, de realizar um programa de renovação de infraestruturas - vd aqui - de 13 triliões de yenes, cerca de 150 biliões de dólores, equivalente a 2,6% do PIB, um valor que excede o investimento público de reconstrução em consequência do terramoto de 2011. Criticado pela oposição de reincidir em políticas de obras públicas, defendem-no os seus apoiantes confiantes argumentando que este programa de cimento relançará a economia por, além dos efeitos directos sobre a actividade de obras públicas, provocar a desvalorização do yene e, desse modo, aumentar a competitividade da indústria japonesa no exterior.


A aposta de crescimento económico prevalecente nos EUA e no Japão subalterniza, portanto, o crescimento da dívida pública, que no Japão atinge os 200% do PIB, mas muito maioritariamente interna, e o câmbio das respectivas moedas. Aliás, se alguma intenção deliberada existe em matéria cambial ela parece resumir-se a "quanto mais baixo melhor". Krugman*, que tem apoiado uma política anticíclica nos EUA desde o deflagrar da crise em 2008 e criticado a politica de austeridade na União Europeia, determinada sobretudo pela Alemanha, a partir de 2010, tem aplaudido repetidamente a decisão do primeiro-ministro japonês logo que ela foi anunciada.

Porque a China joga com cartas viciadas e o valor da sua moeda, internacionalmente, reflete sobretudo as decisões do governo, a aposta da União Europeia é singular na mesa que junta os ainda principais protagonistas da economia a nível mundial. Até quando a aposta europeia pode ainda sair vencedora, não se sabe. O que se  sabe é que parece, e cada vez mais, perdedora.
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*Krugman publicava há dias um gráfico comparativo da dívida pública, que tem observado uma escalada sem precedentes  desde a Segunda Guerra Mundial, com a evolução praticamente insensível dos preços no consumidor.

Wednesday, December 26, 2012

POR QUE EMIGRAM OS JOVENS PORTUGUESES

O Washington Post de hoje dedica três quartos de uma página do seu caderno principal - vd aqui - à emigração de jovens europeus, com formação superior, e, muito focadamente na  emigração de jovens portugueses para o Brasil. Pergunta-me o RM: O que é que está a acontecer em Portugal que leva a esta emigração massiva de gente jovem e habilitada a emigrar para o Brasil? RM. entende as causas imediatas referidas no artigo - falta de oportunidades de emprego - mas escapam-lhe as causas primordiais. Por que é que não investem em Portugal, os alemães, por exemplo, se há disponibilidade de mão-de-obra e de quadros qualificados, que, certamente, aceitariam salários mais baixos do que aqueles que são pagos na Europa do Norte? Para um residente nos EUA, onde a mobilidade do trabalho é um dado comum, o que acontece na Europa do Sul neste momento é intrigante porque o investimento não procura as regiões onde os factores de custo são, pelo menos aparentemente, mais baixos. 

Mas é, precisamente, nas aparências que se escondem as principais razões da drenagem de jovens portugueses para o Brasil. E chamo a atenção de RM para a explicação dessas causas, dada na segunda parte do artigo do WP., que têm impacto não apenas em Portugal mas que em Portugal assumem uma maior dimensão relativa em consequência da deterioração rápida de uma situação económica que nunca foi estruturalmente consistente: a ameaça de um colapso na zona euro, a persistência da recessão, as sombrias perspectivas de crescimento económico, estão a levar os investidores a drenar triliões de dólares para outras partes do mundo, provocando a deslocalização dos negócios e a revisão das suas estratégias. Alguns bancos europeus estão a resumir as suas actividades às suas fronteiras nacionais, outros, como o Santander, que hoje recolhe apenas uma pequena parte dos seus lucros em Espanha,  reposicionam-se fora do seu âmbito nacional e da Europa, no Brasil e no México, por exemplo.

Mas há alguma luz ao fundo do túnel: As recentes decisões de intervenção do Banco Central Europeu estão a reduzir os riscos do colapso da zona euro, e os fluxos de dinheiro estão a começar a inverter-se. Largos montantes devidos pelos bancos centrais dos países mais fragilizados, como o de Espanha ao da Alemanha, estão a reduzir-se, o que significa que cessou a drenagem em sentido contrário, das economias fragilizadas para as mais fortes.

Subsiste, contudo, a disfunção original da zona euro: Segundo a teoria económica, os capitais deveriam fluir das zonas mais desenvolvidas da zona euro para as menos desenvolvidas - aproveitando as vantagens de salários mais baixos e o facto de, geralmente, proporcionarem as zonas menos desenvolvidas oportunidades de melhores taxas de retorno dos investimentos que as zonas mais desenvolvidas. Por outro lado, é esperável que os trabalhadores emigrem de áreas onde o desemprego é elevado e os salários baixos para aquelas onde o desemprego é reduzido e os salários estão a subir. 
Mas a teoria não se confirmou suficientemente na zona euro, e essa falha explica a emigração massiva de jovens portugueses e gregos habilitados para fora da Europa, reduzindo a capacidade de recuperação e comprometendo o futuro, uma vez que a maior parte desses emigrantes, muito provavelmente, não voltará aos países de origem. 

Estas, as razões descortinadas por Howard Schneider, colunista do WP para assuntos de economia internacional, em São Paulo, Brasil. Por que é que a teoria não funcionou, H Schneider não sabe ou não quis dizer. Talvez porque, pelo menos para muitos norte-americanos, não é fácil entender que exista uma zona económica usando uma moeda única que não seja suportada por institutos que garantam os mesmos níveis de confiança nas áereas onde essa moeda, e só essa moeda, tem curso legal. Dito de outro modo, a maior parte dos norte-americanos supõe a União Europeia, e particularmente a Zona Euro, feita à quase imagem e semelhança dos EUA. E não há, pelo menos por enquanto, nenhuma semelhança possível. E enquanto não houver, enquanto as promessas andarem bem à frente da realidade, a emigração jovem do sul da Europa para fora da Europa continuará.

By the way, it´s snowing in Virginia today.






Tuesday, December 18, 2012

AS ARMAS E A DÍVIDA

São os dois mais complexos dossiers que se encontram sobre a mesa de Obama neste final de ano.
Em qualquer deles a oposição republicana, com algumas excepções, parece continuar irredutível, e mesmo do lado democrata há reticências à subida do teto da dívida federal e opositores à restrição do uso de armas.

Segundo o Washington Post de hoje, Obama entregou ao vice-presidente Joe Biden a liderança de um grupo que apresente propostas para enfrentar o problema do uso privado de armas. A tarefa, que a um norte-americano poderá parecer fácil, não é. E não é porque, desde logo, colide com a liberdade de uso individual de armas consagrado na Segunda Emenda Constitucional. Depois, porque mesmo após um massacre perpretado por um louco, as posições mantêm-se praticamente inamovíveis, dividindo a nação. Ainda que uma maioria de 52% da população apoie a adopção de medidas de controle da venda de armas semi-automáticas uma grande maioria de 71% desaprova restrições à venda a civis de quaisquer armas. Por outro lado, não é grande a diferença entre os que consideram o massacre de Newtown um acto isolado (43%) e os que o consideram um problema mais amplo (52%).  

Os argumentos dos apoiantes da continuação da liberdade de uso de armas são, na sua grande maioria, chocantemente estúpidos: "as armas não matam pessoas" ou "tivesse a directora uma arma com ela ...". Mas, lamentavelmente, não podemos matá-los. Os argumentos. Resta-nos esperar que o peso do ridículo acabe por pesar nas consciências dos que pensam ou proferem tais barbaridades.

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Quanto ao precepício da dívida, e também segundo o Washington Post, parece próximo um acordo entre Obama e o líder da Câmara de Representantes, o que não significa, contudo, que esse acordo tenha o apoio garantido dos republicanos na Câmara. A este respeito é curioso o principal artigo do Outlook do WP deste fim-de-semana: Nele, Steve Mufson, reporter especializado em questões energéticas e financeiras, propõe - vd aqui - a venda do Alasca!, o que se traduziria na venda das reservas de petróleo e gás do Estado gelado. Pode valer, segundo Mufson, dois e meio triliões de dólares (trilião, igual a um milhão de milhões, na short scale, usada nos EUA ). Como a dívida federal atingiu o teto dos 16 triliões, se republicanos e democratas não se entenderem, os EUA ou suspendem pagamentos ... ou vendem o Alasca.
Esta última hipótese, a médio prazo, parece mais improvável do que na realidade é.

Por aqui se percebe porque é que estando a zona euro em crise, e a UE em recessão, o dólar esteja hoje cerca de 32% abaixo da moeda única europeia.

O mal é geral. Mas, por aí, não há petróleo em Alcobaça.
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Correl.- Menino de 11 anos leva arma para a escola não vá aparecer lá um serial killler

Sunday, November 18, 2012

A MENOS MÁ DAS MAIORES




A erupção violenta nos EUA da crise latente desde o movimento de deslocalização industrial para o oriente, atingiu depressa as economias ocidentais. Krugman, o infatigável Paul Krugman, afirma nos textos que publicou mais recentemente na sua habitual coluna do New York Times que, apesar de se encontrar ainda longe dos valores que lhe são habituais, a economia norte-americana mostra sinais evidentes de uma recuperação desperta sobretudo quando se compara com a continuidade da crise na zona euro, no Reino Unido e no Japão.
 
Causas para esta divergência: a política de austeridade prosseguida deste lado Atlântico, segundo Krugman. Uma explicação demasiado simplista? Talvez, porque não haverá apenas uma explicação mas um conjunto delas. Em todo o caso, é inquestionável que, como a tristeza, a austeridade não parece que pague dívidas nem ou nos arrede deste caminho de descontentamento sem fim à vista.
 
Segundo Kruman, se a política tivesse sido outra, outro galo cantaria na Europa nestes dias de Outono incerto.
 
 
Teria, não teria, é uma discussão interminável porque a economia não é uma ciência experimental, e as tentativas experimentais nestes domínios geralmente acabam por deixar em pantanas os laboratórios. Na União Europeia, podem deitar abaixo o edifício todo. 

Friday, September 14, 2012

QE 3 E ESPERAR PELO RESULTADO


"As preocupações aumentaram na última semana com o relatório, decepcionante, do emprego em Agosto e o aumento do número de desempregados. Qualquer destes indicadores confirma uma quebra de dinamismo no mercado do trabalho, e aparecem numa altura em que o desempego de longa duração e o desemprego jovem são muito elevados, os norte-americanos estão a desistir de conseguir trabalho, a pobreza está aumentar, a desigualdade de rendimentos está a alargar-se."  (aqui)

Onde se lê " os norte-americanos" poder-se-ia ler "os portugueses" porque o diagnóstico possível, salvo o tamanho do doente e a gravidade relativa da situação, não difere substancialmente. Mas os EUA são, pelo menos, em termos de PIB, sessenta vezes maiores que Portugal e a taxa de desemprego cerca de metade. 

Envolvido numa situação económica que parece ter perdido a resiliência que permitiu inverter vigorosamente das fases descendentes dos ciclos, que caracterizam as economias de mercado, em crises anteriores, Obama, a mês e meio de eleições presidenciais, só pode contar agora que a nova dose de "quantitive easing" - leia-se, libertação de mais liquidez pela FED - possa espevitar o indolente e quebrar a apatia dos empresários, que, segundo alguns, se sentaram nos lucros acumulados à espera que a crise passe, segundo outros, porque não há ambiente macroeconómico que faça germinar mais investimentos.

A crise espoletada pelo imobiliário decorreu em larga medida da dimensão que este sector tinha atingido na economia norte-americana (mas também em Espanha, no Reino Unido, em Portugal, entre outros). Os EUA desindustrializaram-se, e o sector industrial que no passado tinha sido a mola fundamental das retomas em crises anteriores, desta vez tem a mola pasmada. Alguma semelhança com a situação da economia portuguesa, o aumento de desemprego, a falta de políticas consequentes (de que muita gente fala sem dizer em que pensa, se é que pensa em alguma coisa, salvo injectar dinheiro sem proveito consistente) não é, portanto, mera coincidência.

Passos Coelho reafirmou ontem a sua determinação de ir por diante com as políticas anunciadas, e de outras a anunciar, com cariz idêntico. Por agora, a discussão e a contestação polarizam-se nas medidas de austeridade, porque ninguém sabe como é que se podem recuperar centenas de milhares de postos de trabalho perdidos em sectores económicos que irremediavelmente pasmaram. Na entrevista da RTP, o primeiro-ministro referiu que "muitas empresas do sector de construção civil e obras públicas encerraram as portas mais cedo do que o Governo esperava", e daí o aumento de desemprego acima das suas previsões. O que, não custa a crer, pode ser verdade. Mas é uma verdade que não aponta para uma solução. Logo a seguir, Passos Coelho afirmou que "não é possível voltar aos níveis de actividade nesses sectores - construção civil e obras públicas - que se observaram no passado recente". Estou a citar de cor, mas creio estar a reproduzir o sentido das afirmações produzidas pelo PM.  

Não é possível, não senhor. Então que fazer? Que fazer, senhor primeiro-ministro? Que fazer, senhor líder do principal partido da oposição?

Voltando aos EUA, e a Obama, Ben Bernanke decidiu injectar QE3 sem limite de volume. Resulta, não resulta, alguma coisa resultará. Para já o dólar está a cair significativamente contra o euro (está neste momento a fazer 1,316) e até o franco suíço (que está a fazer 1, 218 contra o euro) parece agora mais agarrado à moeda norte-americana que à moeda única europeia. O Yuan Renmimbi chinês, apesar da valorização pontual, deve manter-se no intervalo de variação em que tem flutuado nos últimos doze meses. A competitividade monetária resultante desta injecção de QE3 vai, portanto, sobretudo impor-se às economias da zona euro, se nada fizer inverter a tendência. Mas resolverá o problema da mola pasmada?
Duvido.

Voltando a Portugal, à QE3 da FED só podemos, parece, corresponder com a fé do senhor ministro das finanças. O que é manifestamente pouco. Quando em Maio do ano passado aquecia a campanha eleitoral em Portugal, anotei algures neste caderno de apontamentos que uma coligação que não englobasse os três partidos subscritores do programa de ajuda externa estaria condenada a não governar mais que dois anos.
Insisto nisto: O PS nunca deveria, nas circunstâncias da crise em que o país se afogou, ter sido dispensado de participar directamente na solução dos problemas de cuja criação foi principal protagonista. Não o tendo feito, o primeiro-ministro confronta-se agora com a totalidade da oposição externa e parte significativa do seu próprio partido. Até quando? Receio que me tenha enganado por excesso.

Monday, September 10, 2012

CINCO MITOS ACERCA DA CRISE DO EURO


Se há economistas norte-americanos que há bastante tempo vêm a prognosticar o fim do euro (Paul Krugman, Joseph Stiglitz, Nouriel Roubini, por exemplo) também há quem tenha uma perspectiva mais optimista acerca do futuro da moeda única europeia. O Washington Post publica no seu caderno semanal "Outlook" uma série genericamente intitulada "Five myths about" onde  procura desmistificar um conjunto de ideias adquiridas (supostamente mal adquiridas) pela opinião pública acerca dos mais variados assuntos da vida social. Do tema de ontem - "Five myths about the euro crisis" incumbiu-se C. Fred Bergsten que terá uma opinião tão abalizada quanto as de alguns que discordarão dele.

Em todo o caso é interessante saber o que pensam muitos norte-americanos acerca da crise do euro e o que pensa acerca do mesmo assunto o senhor Fred Bergsten, cuja opinião reflectirá, certamente, a opinião de muitos norte-americanos geralmente bem informados.

1 - Os europeus nunca se unirão numa união política.
A zona euro nunca evoluirá para a os Estados Unidos da Europa, e a cacofonia de vozes na Europa continua a baralhar os mercados. Mas, apesar disso, os países da zona euro têm respondido à crise com uma rapidez notável. Para evitar o colapso financeiro dos membros mais fragilizados foram criados fundos de resgate da ordem de 1 trilião de dólares e o Banco Central Europeu tem emprestado muito mais, como aliás o tem feito a Reserva Federal Americana, e, recentemente, reafirmou o propósito de fazer o que for necessário para evitar uma catástrofe. Os membros da zona euro concordaram no estabelecimento de um conjunto de regras fiscais - com penalizações aos prevaricadores - com o objectivo de limitar os défices orçamentais, avançando no sentido de uma união fiscal parcial que possa sustentar uma política de ajuda dos países mais fortes aos outros. Vão avançar também para uma união bancária total que previna corridas aos bancos através de garantias globais aos depósitos. Os países devedores estão a implementar políticas de reformas estruturais que promovam o crescimento, encoragem o emprego e aumentem a produtividade.
Os países mais fortes, e nomeadamente a Alemanha, não podem dizer que garantem resgates ilimitados de modo a manter a pressão sobre os devedores. Mas a zona euro parece estar encaminhada para a completa união monetária e económica que foi prometida há vinte anos e que, por falta dela, emergiram as actuais dificuldades.

2 - A saída da Grécia da zona euro acabará com a zona euro
Não. Se a Grécia sair, a moeda única europeia sairá reforçada. O resultado será tão caótico para a Grécia que os outros devedores farão tudo o que for preciso para evitarem um desastre semelhante, acelerando as reformas. Por outro lado, no caso de "Grexit", os países mais fortes reforçarão as barreiras financeiras de defesa e acelerarão a união fiscal e bancária.
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3 - Os contribuintes alemães jamais pagarão para que sejam assegurada as pensões de gregos (ou espanhóis ou italianos)

A Alemanha é, e continuará a ser, o principal pagador da Europa, reclamando e exigindo austeridade e reformas, mas fará tudo para manter a zona euro unida. Tem assegurado a maior parte dos fundos de resgate e financiado os défices dos países devedores através do BCE.

Há várias razões para a Alemanha manter esta posição. Primeiro, o projecto de integração europeia iniciado há seis décadas atrás, de que o euro é o símbolo mais decisivo, surgiu a seguir à guerra provocada pela Alemanha. Os alemães não vão querer correr o risco de destruir a Europa outra vez, uma acção de que serão facilmente acusados se espoletarem a desintegração. Para além disso, a  economia da Alemanha sustenta-se em larga medida nas exportações para os outros estados membros e os bancos alemães estão muito expostos nos países devedores, pelo que os contribuintes alemães não têm alternativa senão resgatá-los se a Espanha ou a Itália falharem os seus compromissos. Na Alemanha todos os líderes políticos estão cientes destes factos e os partidos pró-euro têm ganho as eleições mais decisivas desde a erupção da crise.

4 - Se as medidas de austeridade continuarem, os eleitores revoltar-se-ão e os extremistas tomarão conta do poder

Um dos aspectos mais interessantes da crise do euro até agora tem sido a permanência em funções dos governos liderados por partidos moderados, e a rejeição das alternativas radicais tanto à esquerda como à direita. Na Grécia os eleitores entusiasmaram-se com as propostas de um partido radical mas o início de uma corrida aos bancos levou-os a mudar de ideias. 

5. A crise do euro deprimerá a economia dos EUA e poderá até influenciar a eleição presidencial em Novembro.
Sem dúvida, a recessão na Europa reduziu as exportações dos EUA e os lucros das empresas norte-americanas, desencentivou o emprego e a confiança dos investidores, reduzindo-nos cerca de 1% do produto. Analistas de macroeconomia calculam que o eventual colapso do euro provocaria nova recessão no próximo ano e a taxa de desemprego atingiria os 9% em 2013. Como as economias emergentes, lideradas pela China e Índia, que já representam metade da economia global, continuarão a expandir-se a uma taxa anual agregada de 6%, a economia, incluindo os EUA, continuará globalmente a crescer. Por outro lado, as perturbações na zona euro provocam a preferência de muitos investidores pelas obrigações do Tesouro americano, permitindo a manutenção das taxas de juro muito baixas, o que permitirá a recuperação do imobiliário e o crescimento do consumo interno.
Finalmente, a perspectiva de uma evolução favorável na Europa protege-nos - e às nossas eleições - de piores repercussões económicas.

Thursday, July 26, 2012

BIG MAC INDEX


Segundo o último Big Mac Index do Economist publicado hoje aqui o euro estará agora em equilíbrio cambial com o dólar.

Vale o que vale mas, utilizando algumas medidas expeditas, os resultados que tenho obtido conformam-se recorrentemente com este indicador mascote do Economist.

Apesar da desvalorização observada nas últimas semanas relativamente à divisa norte-americana, o euro está ainda acima do ponto de partida e bem longe do seu ponto cambial mais baixo. Não será por este lado que a casa virá abaixo. Pelo contrário, uma correcção do valor do euro relativamente às outras principais moedas e, nomeadamente, relativamente ao dólar, poderá ajudar a resolver os intrincados problemas com que a União Europeia se confronta.

Para Martin Feldstein, professor em Harvard, "uma queda brusca do euro pode salvar a Espanha do colapso". Veja aqui porquê.  

Tuesday, April 03, 2012

EUROPA CAPTURADA - 2

Há quem acredite que haja uma conspiração anglo-saxónica orquestrada pelo Tesouro norte-americano contra o euro. Comentei aqui. Contrariando tal tese, o euro continua a mostrar uma resiliência notável ainda que o pavor que tem sido construido a seu respeito tenha certamente assustado muita passarada nas zonas mais apavoradas. Hoje o euro está a cotar-se 33,4% acima do dólar mas as mais recentes notícias (vd FT de hoje) dão conta que a economia norte-americana continua a recuperar contrastando com a contração na Zona Euro. Boas notícias para a administração de Obama que tem optado por uma política monetária maleável que Berlim não tem consentido para a Europa. À condução conseguida pelo razoável equilíbrio entre o acelerador e o travão, a travagem forçada de forma abrupta dos que, no Zona Euro, ganharam níveis de velocidade de endividamento excessivo, continua a conduzir a Europa para o despiste.   

A anemia económica observada na Europa, que no seu conjunto é o mais forte espaço económico mundial,  não podia deixar de ter consequências no processo de crescimento vigoroso a que se vinha assistindo na Ásia, ainda que sejam contraditórias as indicações acerca do comportamento da economia chinesa no primeiro trimestre. Surpreendentemente para muitos, são os EUA que, neste momento, apresentam sintomas mais confortáveis de recuperação económica. Manter-se-ão até fins de Outubro quando a disputa eleitoral presidencial norte-americana chegar ao fim? Para já, o momentum está do lado de Obama.

Transcrevo:

"Manufacturing activity in the US is picking up as its domestic economy recovers, underlining the diverging fates of the world’s biggest economy and the eurozone. American factory output expanded at an accelerating rate in March, according to the Institute for Supply Management’s purchasing managers’ index. Similar PMI surveys for the eurozone confirmed an earlier estimate that manufacturing activity contracted in the region, with French manufacturing proving exceptionally weak. UK manufacturers, however, surprised economists by expanding a little quicker in March spite of the woes of Britain’s eurozone trading partners.“The world is polarised by the strength in the US domestic economy, which is providing a source of demand for companies worldwide, but against that you’ve got the eurozone,” said Chris Williamson, chief economist at Markit, the company that runs most of the PMI surveys. “We’re left in a position where overall global manufacturing growth isn’t what it was before the crisis.”
(...)
Overall, the world’s manufacturing sector continued to expand, though at a slow rate, for the fourth month running, according to an aggregation of the surveys. The JPMorgan Global Manufacturing PMI was 51.1 in March, little changed from 51.2 in February. New orders continued to increase gradually, after they fell towards the end of last year when the escalating eurozone crisis sent a chilling effect through the global economy.


One source of worry for manufacturers in all countries was the sharp rise in oil and transport prices. Globally, input price inflation in March was the highest in eight months, Markit said, though it remained much less dramatic than in the first quarter of last year. There were pockets of manufacturing strength in Brazil, Japan and South Korea, but India’s output growth slowed sharply. China’s official PMI survey, released a day earlier, also defied expectations of a slowdown by notching up its strongest reading for a year. However, a separate China PMI released by HSBC showed a fifth monthly decline.

Saturday, March 24, 2012

A CONSPIRAÇÃO CONTRA A EUROPA

Há uma conspiração anglo-saxónica orquestrada pelo Tesouro norte-americano conta o euro?
               
Aqui, afirma-se que, como o outro que não acredita em bruxas mas afirma que elas existem, que se não há uma conspiração há coincidências estranhas coincidentes com os interesses norte-americanos. 
A mim, a teoria da conspiração norte-americana contra o euro parece-me um tanto ou quanto esotérica se para a contraditar se fazem levantar do banco dos suplentes "coincidências estranhas", o mesmo é dizer, presumo, com origens ocultas voltadas para o mesmo objectivo: tramar o euro para eternizar o dólar.

Philip Roth escreveu há uns anos uma novela - A Conspiração Conta a América - que simula como seria a América na década de 40, se, hipoteticamente, Charles Lindbergh, o mítico aviador norte-americano, e herói nacional, a quem tinha sido raptado um filho, simpatizante do nazismo, tivesse vencido Roosevelt nas eleições presidenciais de 1936. Aliás, Lindbergh nem sequer se candidatou. 

Sem querer desvalorizar, minimamente que seja, a coincidência da deterioração dos indicadores económicos dos EUA com a repentina profusão de notícias, relatórios e depoimentos que dão como certo - e para breve - o colapso financeiro de Espanha, poderemos simular o mundo financeiro após um eventual colapso da banca espanhola e, por tabela, a mais que certa implosão da Zona Euro.

Escaparia mesmo a Goldman Sachs aos eventuais efeitos dessa mega explosão? Dispõe o dólar de um abrigo nuclear em caso de um rebentamento financeiro de tal ordem de grandeza?
Por outro lado, estará, neste caso, a Goldman Sachs e outros comparsas de Wall Street ou na City ao serviço do tesouro norte-americano e, naturalmente, da reeleição de Obama? É visível que David Cameron tem mostrado maior apoio à reeleição de Obama do que entusiasmo por Mitt Romney na Casa Branca. Mas poderá isso indiciar a existência de um complot contra o Euro armadilhado em relatórios que dão por certo e iminente  o colapso financeiro em Espanha?

Parece-me ficção a mais.
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Obs . - Não sou admirador, antes pelo contrário, dessa súcia que dá pelo nome de Goldman Sachs e seus comparsas.
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Cor. - (in Economist)

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Sunday, October 02, 2011

O OURO E O EURO

A crise do euro anda anunciada por toda a parte, aliás, muita gente sabida anda a rezar-lhe pela alma desde que ele nasceu. E, no entanto, ele continua firme mesmo quando o sistema bancário é abalado pelo descontrolo, que ele mesmo promoveu, de algumas dívidas soberanas. Relativamente ao dólar, a divisa de referência ainda mais usada nas transacções internacionais, o euro vem-se mantendo desde o seu lançamento, salvo um período quase inicial relativamente curto, bem acima da moeda norte-americana. Se os investidores não são generalizadamente tontos, o desaparecimento do euro não acontecerá nos tempos mais próximos.

Dos 27 países membros, 10 não aderiram ainda à zona euro, mas destes, 4 têm o valor das suas moedas ligadas ao euro. Das 6 restantes, a libra enleou-se ao euro nos últimos doze meses (aqueles em que a crise do euro tem sido mais badalada) entre um mínimo de 0,830 e um máximo de 0,905 EUR/GBP, e uma desvalorização do euro de apenas 1,3% no período considerado; a coroa sueca flutuou entre 8,70 e 9,40 EUR/SEK e uma variação quase nula; contra a coroa checa, entre 23,99 e 25,36 EUR/CZK, e uma variação quase nula; contra o florint hungaro, entre 262,46 e 294,5 EUR/HUF e uma valorização de 7% ; contra o zlot polaco, entre 3,84 e 4,52 EUR/PLN e uma valorização de 25%; contra o leu romeno, entre 4,06 e 4,36 EUR/RON e uma valorização de 1,6%; Conclusão: Com excepção da Polónia, todos os países membros da UE não membros do SME, Reino Unido, incluido, têm as suas moedas ancoradas ao euro em situação de crise do euro.

Contra as moedas de refúgio: duas moedas fortes europeias de países não membros da UE - Noruega e Suiça - a coroa noruegesa flutuou entre 7,50 e 8,20 EUR/NOK e uma desvalorização do euro de 13% ; o franco suíço, que se colou ao euro recentemente por razões de defesa de competitividade da economia suiça, e que apanhou muita gente desprevenida, flutuou entre 1,02 e 1,37 EUR/CHF e o euro desvaloriza 10%. Contra o Yen japonês, entre 101,27 e 123 EUR/JPY e uma desvalorização de 10%. Contra o dólar, entre 1,289 e 1,484 e uma desvalorização de 2,8% .

Se alguns dos mais abonados foram apanhados desprevenidos com a desvalorização súbita do franco suíço, aqueles que se refugiaram no ouro acabam de apanhar um balde de água fria. Há dias, Odyssey Ocean, uma empresa dedicada à caça de tesouros, encontrou ao largo da Irlanda um barco afundado em 1941 com 220 toneladas de prata a bordo, afundando as cotações do ouro.  Conclusão: Não há, definitivamente, nenhum refúgio seguro.

Segundo o FT de hoje, "Investors discovered that, in an interconnected world, all assets move together in a crisis. Just as in 2008, traders who had borrowed or used futures to invest in, say, shares or copper, last week had to stump up more cash to back the loans as prices fell. To raise money, they turned to the one part of their portfolios showing a profit – and that meant selling precious metals, hurting their price".

Mas, ainda segundo o articulista do FT, há quem não duvide que o ouro voltará a subir e chegará aos 2000 dólares/onça.
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A menos que a Odyssey Marine lhes baralhe outra vez os prognósticos.