Monday, June 01, 2015

O INVESTIMENTO DILETO DOS PORTUGUESES

"Portugueses compram 21 mil carros em Maio. Nos primeiros cinco meses de 2015, o mercado matriculou 92.605 veículos automóveis." - cf. aqui

O crescimento das vendas de automóveis em Portugal já não pode atribuir-se apenas à recuperação da queda durante os primeiros anos da crise porque, por um lado, a tendência excepcionalmente crescente já perdura há mais tempo do que o período de contracção sem que tal evolução tenha qualquer correspondência com o aumento de poder de compra dos portugueses em geral, e por outro porque são sobretudo notáveis os crescimentos das vendas de viaturas de gama alta.

Explicação para este entusiasmo automóvel em tempo de crise só pode encontrar-se, parece-me, em dois factores: 

- A redução das taxas de juro que, por um lado, incentiva a expansão de crédito para este tipo de investimentos, que irão contribuir para a retoma do desequilíbrio da balança comercial, e, por outro, desincentiva a poupança, desencaminhando-a para o consumo e equipamentos domésticos, em grande parte importados, reforçando a tendência referida para o desequilíbrio das contas com o exterior provocado pelo aumento do crédito.

- O aumento em tempos de crise dos rendimentos das classes sociais mais abonadas, para o crescimento espantoso das vendas de automóveis de gama alta.
Se as operações de "Quantitative Easing" do BCE vieram aliviar significativamente o custo da dívida das economias mais fragilizadas, ainda que muito tardiamente, os efeitos económicos poderão estar a desviar-se bastante dos objectivos supostamente pretendidos: a liquidez injectada nos mercados não está a dirigir-se ao investimento produtivo mas sobretudo para o consumo e operações financeiras especulativas. 

Os taxas dos depósitos a prazo são agora, salvo um ou outro caso para captura de clientes novos, quase nulas; nestas condições, os depositantes preferem a liquidez dos depósitos à ordem ao rendimento exíguo dos depósitos a prazo. Os certificados de aforro e os certificados do tesouro, apesar de tudo mais compensadores que os depósitos a prazo, também não são competitivos com a tentação do consumo.

E, assim, os automóveis vendem-se como pãezinhos quentes.
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Correl. - (16/06) - "Portugal continua a liderar o crescimento das vendas de carros na Europa" - cf. aqui - " Em Portugal, a venda de carros novos totalizou 18.343 unidades em Maio - um crescimento de 33,1% face ao mesmo mês do ano anterior. Este aumento, que é o mais expressivo de toda a Europa, compara com um crescimento médio de 1,3% na União Europeia."
 

5 comments:

IsabelPS said...

Por acaso desta vez o automóvel mais vendido é um Clio que custa menos de 20000 euros, e o segundo um Mercedes que parece que não é bem um Mercedes e custa 2000 euros. Eu cá até acho que é um bom sinal.

IsabelPS said...

Correcção:
Mercedes e custa 28000 euros

Rui Fonseca said...



Obrigado, IsabelPS, pelo seu contributo.
Comprar carro não é mau sinal, concordo.
O que pode ser mau sinal é o crescimento inusitado das vendas decorrente ou da facilidade de crédito ou do encaminhamento das poupanças para o consumo importado em consequência do praticamente nulo rendimento dos depósitos e dos certificados de dívida pública.
Por outro lado, notícias vindas a público têm referido o crescimento das vendas de carros de gama alta muito superior ao observado nos outros países da UE.


Antonio Cristovao said...

Tambem podem ser os clientes dos bancos que perderam a confiança e fizeram levantamentos

Rui Fonseca said...

"Crédito ao consumo
aumenta e regressa
aos níveis pré-troika
Bancos emprestaram 272 milhões de euros em Março, o valor mais alto
em quatro anos. Compra de carro impulsiona este aumento, mas os bancos dizem que vão manter critérios de concessão mais apertados" in Público, hoje.

Caro A. Cristovão,

Leia sff o meu apontamento de hoje que transcreve uma conversa real.