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Friday, November 05, 2021

TUDO MENOS SACERDOTE. DEFINITIVAMENTE!

Freira franciscana e cientista política é primeira mulher “número dois” do Vaticano - aqui

Raffaella Petrini tem 52 anos e é licenciada em Ciências Políticas. O Papa Francisco tem vindo a dar visibilidade ao trabalho das mulheres na Igreja e, em Agosto, escolheu seis como especialistas leigas do Conselho de Economia.

 
Raffaella Petrini, à esquerda Reuters/VATICAN MEDIA 
 
 
O Papa Francisco nomeou secretária-geral da Governação do Estado da Cidade do Vaticano a freira franciscana e cientista política Raffaella Petrini, tornando-a assim a primeira mulher a ocupar o cargo de “número dois” do Vaticano.

Petrini, de 52 anos, que até agora era funcionária da Congregação para a Evangelização dos Povos, nasceu em Roma e pertence à Congregação das Irmãs Franciscanas da Eucaristia.

É licenciada em Ciências Políticas pela Universidade Internacional Livre de Guido Carli e doutorada pela Pontifícia Universidade de San Tommaso d'Aquino, onde actualmente é professora de Economia do Bem-Estar e Sociologia dos Processos Económicos.

O Papa Francisco tem vindo a dar visibilidade ao trabalho das mulheres na Igreja e, em Agosto, escolheu seis como especialistas leigas do Conselho de Economia.

Uma delas, a professora Charlotte Kreuter-Kirchhof, foi nomeada vice-coordenadora deste conselho em Setembro.

---- Por que não podem as mulheres ser padres

A Igreja Católica argumenta que não pode ordenar mulheres como sacerdotisas porque não tem sequer essa faculdade. Advoga que se limita a seguir a tradição começada por Jesus Cristo, que apenas escolheu homens como discípulos.

A posição da Igreja relativamente a este assunto está formalizada numa carta apostólica de 1994, assinada pelo Papa João Paulo II. Neste documento, intitulado Ordinatio Sacerdotalis, o Papa define que “esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”.

O documento cita uma outra declaração, aprovada pelo Papa Paulo VI em 1976, onde são apresentados seis argumentos para impedir o acesso das mulheres àquele sacramento:

  1. A tradição da Igreja, que foi sempre mantida “de tal maneira firme” que nunca foi contestada. “Todas as vezes que esta tradição teve oportunidade para se manifestar, ela deu testemunho da vontade da Igreja de se conformar com o modelo que o Senhor lhe havia deixado”, lê-se no documento.
  2. A atitude de Jesus Cristo, que não chamou nenhuma mulher para o grupo dos apóstolos.
  3. A prática dos apóstolos que, apesar de reservarem um “lugar privilegiado” para Maria, sempre se mantiveram fiéis “à atitude de Jesus”.
  4. O “valor permanente da atitude de Jesus e dos apóstolos”. Isto é, as atitudes de Jesus não podem ser desligadas atualmente do comportamento da Igreja. Segundo a declaração de 1976, a prática “é seguida assim porque é considerada conforme com os desígnios de Deus sobre a sua Igreja”.
  5. O padre atua in persona Christi, o que quer dizer que age “na pessoa de Cristo”. Por isso, argumenta a Igreja, “não se pode transcurar o facto de que Cristo é um homem”, o que significa que “o seu papel há de ser desempenhado por um homem”. Ainda assim, recorda o documento, “isto não depende de haver neste último superioridade alguma pessoal na ordem dos valores, mas tão-somente de uma diversidade de facto, ao nível das funções e do serviço”.
  6. Em última análise, a escolha é de Deus e não do homem, segundo a explicação oficial do Vaticano. Mais do que isso, “o sacerdócio não é conferido para honra ou para simples vantagem daquele que o recebe; mas sim para ser um serviço a Deus e à Igreja”, lê-se no documento.

 

 

Tuesday, February 16, 2016

O PAPA WOJTYLA E A MULHER

Ontem, foi tornada pública correspondência mantida, ao longo de três décadas, entre o Papa João Paulo II e a filosofa norte-americana Anna Teresa Tymieniecka, nascida na Polónia de uma família aristocrata franco-polaca. Os noticiários televisivos transmitiram excertos dessa correspondência, regalando, certamente, o voyeurismo que habita, com mais ou menos intensidade, em cada indivíduo psicologicamente imaturo. 

Mas o acontecimento, contudo, pode suscitar reflexões que exorbitam da esfera da curiosidade mórbida porque situa-se no plano da interrogação que as relações contraditórias de Wojtyla com as mulheres caracterizadas por um comportamento desinibido demonstrado em muitas situações e circunstâncias e uma posição rigidamente conservadora que nunca reconheceu nem ensaiou qualquer convergência para a igualdade entre sexos na mediação religiosa.

A este propósito publica o El País de hoje um artigo - La conflictiva relación del Papa Wojtyla con las mujeres - que merece ser lido. 

Monday, May 11, 2015

RAUL NAS MÃOS DE FRANCISCO

Por obra e graça de Obama,
 "Si el Papa sigue así volveré a rezar y regreso a la Iglesia.Y no lo digo en broma " - Raul Castro, presidente de Cuba.

"A reacção de Raúl Castro, depois de conhecer Francisco foi muito parecida com a de Barack Obama após a sua visita em Março de 2014. "O Papa desafia-nos, disse então o residente dos EUA, põe os nossos olhos perante o perigo de nos acostumarmos à desigualdade. E a sua autoridade moral faz com as suas palavras contem. É uma voz que o mundo deve escutar. A visita de Obama consagrou a liderança mundial de Jorge Mario Bergoglio, mas foi necessário esperar até 17 de Dezembro para descobrir até que ponto o primeiro Papa latino americano estava disposto a colocar a diplomacia do Vaticano ao serviço da paz e do diálogo. Naquela jornada histórica em que os presidentes dos EUA e Cuba se declararam dispostos a deixar para trás o conflito que dividiu a América durante meio século, um e outro dastacaram publicamente o trabalho  medianeiro de Francisco. Agora, a visita de Castro a Roma vem confirmar que o caminho da reconciliação, ainda que difícil, está aberto" - aqui
 
Se o Prémio Nobel da Paz foi atribuído prematuramente a Obama, também foi premonitório.

Monday, December 22, 2014

ESTA NÃO É A MINHA IGREJA

Diria Cristo se voltasse à Terra. Disse-o, hoje, por outras palavras o Papa Francisco, um Papa excepcional.

Durante o tradicional encontro na sala Clementina para as felicitações de Natal aos membros da Cúria romana, cf. aqui, apontou sem rodeios, perante os cardeais  responsáveis pelos dicastérios, as quinze doenças que ameaçam a Igreja e a sua Cúria.  A uma dessas doenças chamou "alzheimer espiritual". Não me parece que a designação seja a mais feliz mas percebe-se a intenção da carga emotiva da metáfora com que Francisco quis relembrar aos altos dignatários da Igreja o seu relapso esquecimento da mensagem primordial dos Evangelhos.

Lê-se o resumo desta mensagem do Papa e ocorre-nos, inevitavelmente, a vaga de esquecimento, que não é mais de que uma vaga de falta de vergonha descarada e em larga escala, que se faz sentir especialmente nos países predominantemente católicos do sul da Europa. Dos negócios obscuros, das moscambilhas, das conivências, dos roubos, que, sendo esta gente pretensamente de bem, se chamarão desvios, ninguém se lembra, ninguém colaborou, ninguém estava lá, se assinaram de cruz foi por confiança nos outros comparsas.

Francisco, alarga a tua mensagem urbi et orbi. Pode ser que alguns desavergonhados, se forem crentes como a generalidade dirá que é, sintam algum temor e recuperem a lembrança dos actos praticados.

Wednesday, December 17, 2014

UM DIA MEMORÁVEL

O Presidente Obama, vd. aqui, anunciou ao princípio da tarde de hoje que os EUA e Cuba iriam restabelecer relações diplomáticas pondo termo a mais de meio século de isolamento e de hostilidades entre vizinhos. Registe-se, a par da grandeza do gesto de Obama e Raúl Castro, o encorajamento à iniciativa do Papa Francisco, que acolheu os dois presidentes no Vaticano para as conversações finais que conduziram ao passo de reaproximação dado hoje.


Um passo que tem um valor simbólico idêntico à queda do muro de Berlim e terá consequências para os cubanos não menos relativamente relevantes que a unificação da Alemanha teve para os alemães da ex-RDA. O isolamento forçado pelo bloqueamento norte-americano foi até agora o maior sustentáculo do regime ditatorial em Cuba. Sem os espanta fantasmas do gigante inimigo externo, a população cubana teria evoluído há muito tempo para uma sociedade intelectualmente libertada. O bloqueio não serviu os interesses dos norte-americanos e teve conquências dramáticas para os seus vizinhos do sul. 
Mas há quem discorde: aqueles que durante todos estes anos de isolamento se convenceram, e, pelos vistos, ainda continuam convencidos, que o partido único cubano só seria (só será) derrubado pela revolta de um povo esmagado pelo subdesenvolvimento económico. Enganaram-se até agora. Espera-se que a história, a partir de agora, continue a não lhes dar razão.

Monday, February 11, 2013

ELEIÇÃO PAPAL - UMA QUESTÃO DE CIÊNCIA POLÍTICA


Bento XVI resigna a partir do fim deste mês, e na Páscoa já terá sido anunciado  do balcão da  Basílica de São Pedro "Habemos Papam". É a notícia do dia que, para além de realçar a excepcionalidade da decisão do Cardeal Ratzinger, desde 1415 todos os sumo pontífices deixaram este mundo no seu posto, desencadeou a especulação do costume acerca do nome do cardeal que será papa nas festas da Semana Santa, que este ano decorrem entre 24 (Domingo de Ramos) até 31 (Dia de Páscoa) de Março. Até lá, o papado de Ratzinger será aplaudido por uns, criticado por outros, mas o filão das notícias passará pelo escrutínio mediático dos mais prováveis papabiles. 
 
Colocar-se-á o Cardeal resignado à margem dos movimentos de influências que acontecem na eleição de um novo papa como em outras eleições quaisquer? Apesar das razões invocadas, Bento XVI não deixará, certamente, de influenciar a decisão do conclave. Neste paper  publicado em Abril de 2006 por três professores de ciência política da Universidade de George Washington, e citado aqui são deduzidas algumas conclusões curiosas, a partir de dados públicos e de outros conhecidos a partir de fontes fidedignas. Segundo aquele estudo, é provável que  Ratzinger terá sido eleito papa em em conformidade com as intenções de João Paulo II.
 
Até 1996 a eleição requeria uma maioria qualificada de dois terços dos votantes do conclave. João Paulo II, ou alguém por ele, terá observado que a continuidade dessa tradição para um colégio que tinha sido amplamente renovado e diversificado, e apesar de em meados de 90, cerca de dois terços dos cardeais tinham sido nomeados por João Paulo II, poderia conduzir a uma situação insustentável de bloqueamento da eleição. E a maioria qualificada de dois terços foi revogada.
 
Em 1994, João Paulo II tinha criado a Academia Pontifícia de Ciência Social com o objectivo de prestar à igreja assessoria de politicólogos, sociólogos e economistas de grande mérito. Kenneth Arrow, que foi Nobel da Economia, conhecido sobretudo pelos seus trabalhos relacionados com "paradoxos em votações" (voting paradoxes), foi um dos convidados iniciais. A decisão papal de abolir o requisito da maioria qualificada poderá estar no contributo de Arrow.   
 
Em 1997, Bento XVI, certamente movido pelo instinto conservador do Cardeal Ratzinger, determinou o regresso ao requisito da maioria qualificada de dois terços. Se ele mesmo não assegurar até lá essa maioria, o conclave poderá entrar num impasse com a Páscoa à porta.

A dúvida parece, portanto, ser esta: Quem é o favorito de Ratzinger? Ao tomar uma decisão sem precedentes há quase seis séculos, Ratzinger tem a faculdade de influenciar em vida a eleição do seu sucessor e não deixará, seguramente, de o fazer. Tanto mais que, por escolha dele, o tempo urge, poderia ter decidido anunciar a renúncia após a Páscoa, e, também por sua decisão, pelo menos dois terços têm de se colocar do mesmo lado. Tanta coincidência só pode ser intencional. Intencionalmente, divina, segundo Ratzinger.
 

Sunday, September 24, 2006

AL GORE E O PAPA

Fé, Razão e Universidade: Memórias e Reflexões

Discurso do Papa na Universidade de Regensburg (tradução em inglês)

Vossas Eminências, Vossa Magnificência, Excelências,Distintos Senhoras e Cavalheiros,

É uma experiência comovente para mim estar de volta á universidade e poder, mais uma vez, dar uma lição neste pódio. Penso naqueles anos em que, depois de um período agradável na Universidade de Freisinger, comecei a ensinar na Universidade de Bona. Estávamos em 1959, nos tempos em que a universidade era feita de professores catedráticos. As várias cadeiras não tinham nem assistentes nem secretarias, mas em recompensa havia muito mais contacto directo entre estudantes e entre os próprios professores. Encontrávamo-nos com frequência antes e depois das lições nas salas de professores. Havia um intercâmbio vivo com historiadores, filósofos e, naturalmente, entre as duas faculdades de teologia. Uma vez por semestre havia o dies academicus, em que professores de cada faculdade apareciam perante os estudantes de toda a universidade, tornando possível uma experiência genuína da universitas - algo que V. Ex.ª também, Magnífico Reitor, acabou de mencionar - a experiência, noutras palavras, do facto, de que, apesar das nossas especializações que, por vezes, tornam difícil comunicarmos uns com os outros, fazemos parte de um todo, trabalhando em tudo na base de uma racionalidade única nos seus vários aspectos e partilhando responsabilidade no uso adequado da razão - esta realidade tornava-se uma experiência vivida. A universidade tinha também muito orgulho das suas duas faculdades de teologia. Era claro que, inquirindo sobre a razoabilidade da fé, também levavam a cabo um trabalho que era necessariamente parte do "todo" da universitas scientarum, mesmo se nem toda a gente pudesse partilhar da fé que os teólogos procuram correlacionar com a própria razão. Este sentimento profundo de coerência da razão dentro da universidade não foi sequer perturbado, mesmo quando uma vez foi noticiado que um colega nosso dissera algo estranho acerca da nossa universidade: que tinha duas faculdades dedicadas a algo que não existia: Deus. Mesmo face a tão radical cepticismo é ainda necessário e razoável colocar a questão de Deus pelo uso da razão, e fazê-lo no contexto da tradição da fé cristã: isto, na universidade, considerada na sua totalidade, era aceite sem qualquer questão.Fui recordado disto, quando recentemente li a edição do Professor Theodore Khoury (Münster) de parte do diálogo levado a cabo - talvez em 1391 no acampamento de Inverno perto de Ankara - entre o erudito Imperador Bizantino Manuel II Paleólogo e um intelectual Persa sobre o assunto da Cristandade e do Islão e a verdade de ambos. Presumivelmente foi o Imperador que iniciou este diálogo, durante o cerco de Constantinopla entre 1394 e 1402; e isto explicaria porque é que os seus argumentos são mostrados em maior detalhe do que os do seu interlocutor Persa. O diálogo situa-se largamente nas estruturas da fé contidas na Bíblia e no Corão e trata especialmente a imagem de Deus e do homem, ao mesmo tempo que retorna sucessivamente à relação entre - como são chamadas - as três "Leis" ou "regras de vida": o Antigo Testamento, o Novo Testamento e o Corão. Não é minha intenção discutir esta questão nesta lição; eu gostaria de discutir aqui apenas um aspecto - ele próprio bastante marginal ao diálogo na sua totalidade - que, no contexto do tema "fé e razão", me parece interessante e serve como ponto de partida para a minha reflexão sobre esta matéria.No sétimo colóquio ("diálesis" - controvérsia) editado pelo Professor Khoury, o imperador toca no tema da guerra santa. O imperador devia saber que surah 2, 256 diz: "Não há compulsão nas coisas da fé". De acordo com os peritos, este é um dos suras do período inicial, em que Maomé não tinha ainda qualquer poder e era perseguido. Mas o imperador também conhecia as instruções, mais tardes desenvolvidas e transcritas para o Corão, e que dizem respeito à Guerra Santa. Sem descer a detalhes, tais como as diferenças em tratamento relativas aos que seguiam o "Livro" e aos "infiéis", ele dirige-se ao seu interlocutor com uma brusquidão inesperada que nos surpreende acerca da questão central sobre a relação entre religião e violência, em geral, dizendo: "Diz-me o que é que Maomé trouxe de novo e aí apenas encontrarás coisas más e desumanas tais como a sua directiva de espalhar com a espada a fé que pregava". O imperador, depois de se ter expresso assim tão fortemente, segue para explicar em detalhe as razões pelas quais divulgar a fé pela violência é qualquer coisa de irrazoável. A violência é incompatível com a natureza de Deus. "Deus", diz ele, "não se compraz com sangue - e agir irrazoávelmente (syn logo) é contrário à natureza de Deus. A fé nasce da alma, não do corpo. Quem quer que conduza alguém à fé precisa da habilidade de falar bem e de julgar adequadamente, sem violência ou ameaças... Para convencer uma alma razoável, não é preciso um braço poderoso, ou armas de qualquer tipo, ou qualquer outro meio de ameaçar uma pessoa de morte...."A afirmação decisiva neste argumento contra a conversão violenta é esta: não agir de acordo com a razão é contrário à natureza de Deus. O editor, Theodore Khoury, observa: Para o Imperador, um Bizantino formado pela filosofia Grega, esta afirmação é auto-evidente. Mas para a mentalidade muçulmana é absolutamente transcendente. A Sua vontade não está limitada por nenhuma das nossas categorias, mesmo pela da racionalidade. Aqui, Khoury cita um trabalho do notável islamista Francês R. Arnaldez, que assinala que Ibn Hazn foi tão longe a ponto de afirmar que Deus não está ligado a cumprir a sua própria palavra e que nada o obriga a revelar-nos a verdade. Se fosse essa a vontade de Deus, nós seríamos inclusive obrigados a praticar a idolatria.Neste ponto, e tanto quanto somos capazes de compreender Deus e, por isso, a concretizar a prática da religião, deparamo-nos com um dilema inevitável. Será que a convicção de que actuar irrazoavelmente contradiz a natureza de Deus é apenas uma ideia Grega, ou é sempre e intrinsecamente verdade? Acredito que podemos ver a harmonia profunda entre o que é Grego no melhor sentido da palavra e a compreensão bíblica da fé em Deus. Modificando o primeiro versículo do Livro do Génesis, o primeiro versículo de toda a Bíblia, João começou o prólogo do seu Evangelho com as palavras: "No princípio era o Verbo" - logos -. Esta é a exacta palavra usada pelo Imperador: Deus age pela palavra (logos). Logos significa razão e palavra - uma razão que é creativa e capaz de auto-comunicação, precisamente porque é razão. João diz assim a última palavra sobre o conceito de Deus e nesta palavra todos os meandros penosos e tortuosos da fé bíblica encontram o seu cume e a sua síntese. No princípio era o verbo, e o verbo era Deus, diz o Evangelista. O encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento Grego não aconteceu por acaso. A visão de S. Paulo, que viu as estradas da Ásia bloqueadas e num sonho viu um Macedónio pedindo-lhe "Passa à Macedónia e vem ajudar-nos" (cf. Acts 16:6-10) - esta visão pode ser interpretada como uma "destilação" da necessidade intrínseca de uma reaproximação entre a fé bíblica e a pesquisa Grega.De facto, esta reaproximação já decorria há algum tempo. O misterioso nome de Deus, revelado na sarça ardente, um nome que separa este Deus de todas as divindades com todos os seus diferentes nomes e declara simplesmente: "Eu sou", já representa um desafio à noção de mito, em analogia próxima com a tentativa de Sócrates de vencer e transcender o mito. No Antigo Testamento, o processo que começou na sarça ardente alcançou nova maturidade no tempo do Exílio, quando o Deus de Israel, um Israel então privado da sua terra e do seu templo, foi proclamado como Deus do céu e da terra e descrito numa fórmula que ecoa nas palavras sussurradas na sarça ardente: "Eu sou". Esta nova compreensão de Deus é acompanhada por uma espécie de iluminação que encontra a sua expressão completa no desprezo de deuses que são simples obras de mãos humanas (Sl 115, 4). Assim, apesar do conflito amargo com os governantes helénicos que almejaram acomodá-la à força aos costumes idólatras do culto dos Gregos, a fé bíblica, no período Helenístico, encontrou o melhor do pensamento Grego num nível profundo, resultando num enriquecimento mútuo evidente, especialmente na mais tardia literatura da sabedoria. Hoje, sabemos que a tradução grega do Antigo Testamento produzida em Alexandria - a tradução dos Setenta - é mais do que uma simples (e, nesse sentido, realmente menos do que satisfatória) tradução do texto Hebreu: é um testemunho textual independente e um passo distinto e importante na história da revelação, um passo que trouxe consigo um encontro genuíno entre iluminação e religião, um passo que trouxe este encontro de forma tão decisiva que permitiu o nascimento e difusão do Cristianismo. Um profundo encontro entre fé e razão tem lugar agora, um encontro entre entre iluminação genuína e religião. Do próprio coração da fé cristã e, ao mesmo tempo, do coração do pensamento Grego então juntos pela fé, Manuel II podia dizer: Não agir "segundo o 'logos'" é contrário à natureza de Deus.Com toda a honestidade devemos observar que na Idade Média tardia encontramos tendência teológicas separatistas desta síntese entre o espírito Grego e o espírito Cristão. Em contraste com o assim chamado intelectualismo de Agostinho e de Tomás, surgiu com Dusn Escoto um voluntarismo que, nos seus desenvolvimentos mais tardios, levou a proclamar que nós só podemos conhecer a voluntas ordinata de Deus. Para além disto, é o domínio da liberdade de Deus, em virtude da qual, Ele poderia ter feito o oposto de tudo o que Ele realmente fez. Isto dá lugar a posições que se aproximam claramente das de Ibn Hazn e podem mesmo conduzir à imagem de um Deus caprichoso, que nem sequer está comprometido com a verdade e a bondade. A transcendência e alteridade de Deus são tão exaltadas que a nossa razão, o nosso sentido de verdade e de bem, já não são um autêntico espelho de Deus. Cujas possibilidades mais profundas permanecem eternamente inatingíveis e escondidas por detrás das suas decisões reais. Opostamente, a fé da Igreja insistiu sempre que entre Deus e nós, entre o Seu eterno Espírito Criador e a nossa razão criada existe uma analogia real, em que - como o 4.º Concílio de Latrão afirmou em 1215 - a dissemelhança permanece infinitamente maior do que a semelhança, porém, não ao ponto de abolir a analogia e a sua linguagem. Deus não se torna mais divino quando nós o empurrámos para longe de nós, num voluntarismo separador e voluntarista; pelo contrário, o Deus verdadeiramente divino é o Deus que se revelou como logos e, como logos, actuou e continua a actuar amorosamente por nós. Certamente, o amor, como S. Paulo diz, "transcende" o conhecimento e, por isso, é capaz de perceber mais do que só o pensamento (cf. Ef 3:19); apesar disso continua a ser o amor de Deus que é Logos. Consequentemente, a oração cristã é, citando outra vez S. Paulo - latreía logica - oração em harmonia com a Palavra eterna e com a nossa razão (cf. Rom 12:1).Esta reaproximação interna entre a fé bíblica e a pesquisa filosófica Grega foi um acontecimento de importância decisiva do ponto de vista da história das religiões, mas também da história universal - é um acontecimento que nos diz respeito a nós mesmo hoje. Dada esta convergência não é surpreendente que o Cristianismo, apesar das suas origens e de alguns desenvolvimentos significativos no Oriente, adquiriu finalmente o seu carácter decisivo na Europa e permanece o fundamento daquilo a que podemos chamar com justeza, Europa.A tese de que a herança Grega criticamente purificada forma uma parte integrante da fé Cristã tem sido confrontada com uma chamada à deshelenização do Cristianismo - uma chamada que tem dominado cada vez mais as discussões teológicas a partir do início da Idade Moderna. Vistos mais de perto, podemos observar três estágios no programa de dehelenização: apesar de interligados, são claramente distintos uns dos outros nas suas motivações e objectivos.A deshelinização emerge em primeiro lugar em ligação com os postulados da Reforma no século XVI. Olhando para a tradição da teologia escolástica, os Reformadores viram-se confrontados com um sistema de fé totalmente condicionado pela filosofia, isto é, com uma articulação da fé com um sistema estranho de pensamento. Em resultado disto, a fé não mais aparece como uma Palavra histórica viva mas como um elemento de um sistema filosófico regulador. O princípio sola scriptura, por outro lado, pensou a fé na sua forma mais pura e primordial, como originalmente se encontra na Palavra bíblica. A Metafísica apareceu como uma premissa derivada de outra origem, da qual a fé tinha que ser libertada, de modo a poder tornar-se mais ela própria. Quando Kant afirmou que precisava de pôr o pensamento de lado de modo a dar espaço à fé, levou este programa a um radicalismo que os Reformadores nunca tinham sonhado. Deste modo, ele ancorou a fé exclusivamente na razão prática, negando-lhe o acesso à realidade como um todo.A teologia liberal dos séculos XIX e XX deslizou para um segundo estádio no processo de deshelenização, com Adolf Harnack como seu representante mais significativo. Quando eu era estudante e nos meus primeiros anos de aprendizagem, este programa era muito influente mesmo na teologia católica. Tomou como seu ponto de partida, a distinção de Pascal entre o Deus dos filósofos e o Deus de Abrão, Iasaac e Jacob. Na minha lição inaugural em Bona, em 1959, tentei abordar este assunto e não tenciono repetir aqui o que disse nessa ocasião, mas simplesmente descrever, pelo menos brevemente, o que era novo neste segundo estádio de deshelenização. A ideia central de Harnack era voltar simplesmente ao homem Jesus e à sua mensagem simples, por debaixo dos acréscimos de teologia e verdadeiramente de helenização: esta mensagem simples era vista como o culminar o desenvolvimento religioso da humanidade. Jesus teria posto termo à adoração em favor da moralidade. Em última análise ele era apresentado como o pai de uma mensagem moral humanitária. Fundamentalmente, o objectivo de Harnack era voltar a trazer o Cristianismo para a harmonia com a razão moderna, libertando-o, numa forma de dizer, de elementos filosóficos e teológicos tais como a fé na divindade de Cristo e no Deus trinitário. Neste sentido, a exegese histórico-crítica do Novo Testamento, tal como ele a via, rerstaurava à teologia o seu lugar na Universidade: a teologia, para Harnack, é qualquer coisa essencialmente histórica e, portanto, estritamente científica. O que ela é capaz de dizer criticamente acerca de Jesus é, por assim dizer, uma expressão da razão prática e consequentemente pode tomar o seu lugar de direito na universidade. Por detrás deste pensamento, jaz a auto-limitação moderna da razão, expressa classicamente por Kant nas suas "Críticas", mas ao mesmo tempo, ainda mais radicalizada pelo impacto das ciências naturais. Este conceito moderno de razão é baseado, para o dizer brevemente, numa síntese entre Platonismo (Cartesianismo) e empiricismo, uma síntese confirmada pelo sucesso da tecnologia. Por um lado pressupõe a estrutura matemática da matéria, a sua racionalidade intrínseca, que torna possível compreender como a matéria funciona e como a usar eficientemente: esta premissa básica é, por assim dizer, o elemento Platónico na compreensão moderna da natureza. Por outro lado, há uma capacidade da natureza para ser explorada para os nossos propósitos e aqui, apenas a possibilidade de verificação ou falsificação através da experimentação pode conduzir à certeza. O peso entre estes dois pólos pode, dependendo das circunstâncias, mudar de um lado para outro, a ponto de, J. Monod, um forte pensador positivista, se ter declarado um convicto platónico/cartesiano.Isto dá origem a dois princípios cruciais para a questão que levantamos. Em primeiro lugar, só o tipo de certeza que resulta da interacção entre elementos matemáticos e empíricos pode ser considerada científica. Algo que se reclame científico pode ser confrontado com este critério. Deste modo, as ciências humanas, como a história, a psicologia, a sociologia e a filosofia, tentam conformar-se com este canon de cientificidade. Um segundo ponto, importante para as nossas reflexões, é que pela sua própria natureza este método exclui a questão de Deus, fazendo-a aparecer como não científica ou como uma questão pré-científica. Consequentemente, deparamo-nos com uma redução do alcance da ciência e da razão que precisa de ser questionada.Voltarei a este problema mais tarde. Entretanto, deve observar-se que deste ponto de vista qualquer tentativa de manter a pretensão teológica de ser "científica" acabaria reduzindo o Cristianismo a um mero fragmento da sua identidade inicial. Mas devemos avançar: se a ciência como um todo é isto e isto só, então é o próprio homem que acaba sendo reduzido, porque as questões especificamente humanas acerca da sua origem e do seu destino, as questões levantadas pela religião e pela ética, não terão então lugar no conjunto dos objectos da razão colectiva como definida pela "ciência", assim compreendida, e devem, por conseguinte, ser relegadas para o domínio do subjectivo. O sujeito então decide, na base das suas experiências, aquilo que ele considera adequado em matérias de religião, e a "consciência" subjectiva torna-se o único árbitro do que é ou não ético. Deste modo, contudo, a ética e a religião perdem o seu poder de criar uma comunidade e tornam-se uma matéria completamente pessoal. Este é o perigoso estado de coisas da humanidade, tal como vemos a partir das perturbadoras patologias da religião e da razão que irrompem necessariamente quando a razão é de tal modo reduzida que as questões de religião e ética já não lhe dizem respeito. As tentativas de construir uma ética a partir das regras da evolução ou da psicologia e sociologia, acabam por se mostrar simplesmente desadequadas.Antes de retirar as conclusões a que tudo isto conduz, devo referir brevemente o terceiro estádio de deshelenização, que está em progresso. À luz da nossa experiência com o pluralismo cultural, diz-se frequentemente hoje que a síntese com o Helenismo conseguida na Igreja inicial era uma inculturação preliminar que não deveria ser obrigatória para as outras culturas. Diz-se destas últimas que têm o direito de regressar à mensagem simples do Novo testamento, anterior àquela inculturação, de modo a poderem inculturar de novo de cada modo particular correspondente ao ambiente em que se encontram. Esta tese não é apenas falsa; é grosseira e imprecisa. O Novo Testamento foi escrito em Grego e traz consigo a impressão do espírito Grego, que já tinha atingido a maturidade enquanto se desenvolvia o Antigo Testamento. É verdade que há elementos de verdade na evolução da Igreja inicial que não têm que ser integrados em todas as culturas. Contudo, as decisões fundamentais tomadas acerca da relação entre fé e o uso da razão humana são parte integrante da mesma fé; são desenvolvimentos consonantes com a natureza da própria fé.E chego assim à minha conclusão. Esta tentativa, a pinceladas largas, de uma crítica da razão moderna por dentro, que não tem nada a ver com recuar no tempo anterior ao Iluminismo ou rejeitar as conquistas da idade moderna. Os aspectos positivos da modernidade devem ser reconhecidos sem reservas: estamos todos gratos pelas maravilhosas possibilidades que foram abertas à humanidade e ao progresso que nos foi concedido. O ethos científico, é, para além disso, - como mencionou o Magnífico Reitor - a vontade de obedecer à verdade e, deste modo, incorpora uma atitude que pertence às decisões essenciais do espírito do Cristianismo. A intenção aqui não é de entrincheiramento ou de criticismo negativo, mas de alargamento do nosso conceito de razão e da sua aplicação. Ao mesmo tempo que nos alegramos com as novas possibilidades que se abrem à humanidade, também vemos os perigos que decorrem destas possibilidades e devemos perguntarmo-nos como os poderemos ultrapassar. Seremos bem sucedidos só se a razão e a fé se juntarem de uma forma nova, se ultrapassarmos a auto-imposta limitação da razão ao empiricamente verificável, e se uma vez mais libertarmos os seus vastos horizontes. Neste sentido, a teologia tem lugar na universidade e dentro do largo leque de diálogo entre as ciências, não apenas como uma disciplina histórica e uma das ciências humanas, mas precisamente como teologia, como inquérito sobre a racionalidade da fé.Só assim nos tornaremos capazes desse diálogo genuíno entre culturas e religiões tão urgentemente necessário hoje. No mundo ocidental domina largamente a opinião de que só a razão positivista e as formas de filosofia nela baseadas são válidas universalmente. Contudo, as culturas do mundo profundamente religiosas vêm esta exclusão do divino da universalidade da razão como um ataque às suas mais profundas convicções. Uma razão que é surda ao divino e que relega a religião para o âmbito das subculturas é incapaz de se inserir num diálogo de culturas. Ao mesmo tempo, como tentei mostrar, a razão científica moderna com o seu elemento intrinsecamente Platónico traz consigo uma questão que aponta para além de si própria e para além das possibilidades da sua metodologia. A razão científica moderna tem, muito simplesmente, que aceitar a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais prevalecentes na natureza como um dado, na qual a sua metodologia tem que ser fundada. Contudo, a questão porque isto tem que ser assim é uma verdadeira questão que tem que ser redireccionada pelas ciências naturais para outros modos e planos de pensamento - para a filosofia e a teologia. Porque a filosofia e, apesar de em modo diferente, a teologia, escutando as grandes experiências e descobertas das tradições religiosas da humanidade, e as da fé cristã em particular, é uma fonte de conhecimento, e ignorá-lo seria uma restrição inaceitável do nosso ouvir e responder. Aqui lembro-me de algo que Sócrates disse a Phaedo. Nas suas primeiras conversas, tinham surgido muitas opiniões filosóficas falsas e então Sócrates diz:"Seria facilmente compreensível que alguém ficasse tão aborrecido com todas estas noções a ponto de, para o resto da sua vida, desprezar e troçar de toda a conversa acerca do ser - mas deste modo ficaria privado da verdade da existência e sofreria uma grande perda". O Ocidente tem, desde há muito tempo, sido ameaçado por esta aversão às questões que suportam a sua racionalidade e daqui para a frente só pode ser ainda mais prejudicado. A coragem de incluir todo o âmbito da razão, e não a negação da sua grandeza: é este o programa com que uma teologia enraizada na fé bíblica entra nos debates do nosso tempo. "Não agir razoavelmente, não agir com logos, é contrário à natureza de Deus" disse Manuel II, de acordo com a sua compreensão cristã de Deus, em resposta ao seu interlocutor persa. É a este grande logos, a este respiro da razão, que convidamos os nossos parceiros no diálogo de culturas. Redescobri-lo constantemente é a grande tarefa da universidade.
Aula Magna da Universidade de Regensburg, 12 de Setembro de 2006
ext. de Blue Lounge
A ULTRA-EUROPA
Bruxelas - Dia sem carros. A festa do políticamente correcto. Pancada no Papa em tudo quanto é media. O filme do Al Gore como Verdade Revelada. Na Waterstones uma nova secção: "bushisms", no humor.
Está sol. Na cidade, milhares de pessoas na rua, o que não é mau.Mas não estão todas na rua nos mesmos sítios. Bruxelas é hoje uma grande metrópole étnica. Zairenses nas sombras do Congo belga, por detrás da Porte Namur. Gregos, espanhóis e portugueses nas ruas de Saint-Gilles. Árabes do Magrebe por todo o lado, menos um.
Menos um. O único sítio em Bruxelas em que não se via um árabe, um véu, uma djellaba, era na feira ecologista perto do metro de Louise. Aí, entre os pavilhões da "economia positiva", a apologia dos alimentos biológicos, a palha e os cavalos a cheirar às remotas quintas do passado que já ninguém conhece, só se viam mães e pais de crianças louras, milhares de filhos e filhas da burocracia europeia, entre mochilas e carrinhos de bebé de luxo e vestuário correcto na sua nonchalance, capacetes de bicicleta de ligas de carbono, bicicletas armadilhadas de gadgets.Boa consciência correcta, culpa face ao resto do mundo. Culpa até às entranhas. Mas ali não estão os Outros.
Será que ninguém se pergunta porquê, tão grande era o contraste da humana geografia?
JPP - Abrupto
É, no mínimo, preocupante a forma como o mundo islâmico está a alimentar a fogueira das reacções contra o já célebre discurso de Bento XVI ("Fé, Razão e Universidade: Memórias e Reflexões"), na Universidade de Regensburg.E digo expressamente mundo islâmico porque, por muito que procure (e até mesmo que considere a sua existência), neste caso, rapidamente transformado em (pseudo-) conflito, não se vislumbram , em termos de corrente de opinião sólida e publicitada, posições moderadas, nem sectores islâmicos moderados (será um problema da imprensa?).Por exemplo, pedem, pura e simplesmente, o afastamento do Papa. E não se diga que se trata de uma mera posição moderada, uma simples expressão de uma qualquer indignação, pois, logo de seguida, surge a cominação: "Se o Ocidente não mudar a sua posição em relação ao Islão, enfrentará severas consequências"!!Nem interessa que o dito Ocidente não se reveja inteiramente nas posições do Vaticano e da Igreja Católica, nem sequer que não seja, todo ele, Católico, Apóstólico, Romano - desde logo, começando pelo Grande Satã, os E.U.A. onde o Catolicismo não é predominante! Tudo isso são minudências para os clérigos muçulmanos...O que é mais curioso é o facto de estes muçulmanos arrogarem-se o direito e pretendem (exigirem mesmo!) mudar as regras, as instituições - neste caso, o Papa - do tal mundo ocidental que renegam e que combatem! Não lhes chega berrarem, indignarem-se, laborarem em equívocos e alimentá-los nas suas práticas de oração, nem afastarem-se do tal mundo ímpio....não, apesar de o renegarem, querem, contudo, nele interferir!
PMF - Blasfémias
E, no entanto, se Deus existe, é único.
Pelo menos, nesta base racional elementar, poderia a parte da humanidade deísta fundar um pacto de convivência religiosa pacífica.
Ou, também neste caso, a concorrência é fundamental à eficiência do mercado?Porque o que está em jogo não é a crença em Deus mas a ambição do poder por parte de quem maneja os fios das marionetas?
Mas se é lamentável que o Ocidente se ponha de cócoras perante os fanáticos do Islão não é menos lamentável que Ratzinger tenha, pretensamente, retornado à convergência da Fé com a Razão, com citação propositadamente polémica, porque não pode pensar-se que tenha sido inocente, digam o que disserem os seus advogados de defesa brandindo o texto completo.
Aliás, esta intervenção de Ratzinger, tinha sido antecedida por outra tentativa tambem polémica: a de revisitar o tema já estafado do criacionismo versus evolucionismo.Por mim, teria sido mais conveniente para a Humanidade, que o Papa visse e comentasse "Verdade Inconveniente". Mesmo que saísse de lá convencido que se trata de um filme de promoção pessoal, seria bom que se posicionasse perante o que o filme diz, independentemente de outros juízos de valor.
Porque o mundo pode acabar de muitas maneiras.
Cito, do Prefácio de
"A TERRA À PROCURA DE EQUILÍBRIO (ECOLOGIA E ESPÍRITO HUMANO", publicado em Portugal pela Ed. Presença, em 1993. O original foi publicado nos EUA em 1992, era Al Gore Vice-Presidente e não estaria, portanto, em campanha.
"Pertencemos à fé e à ciência e há séculos que frequentemente seguimos caminhos diferentes. Numa altura de crise ambiental, descobrimos que esses caminhos convergem. Simbolizadas por este encontro, as nossas duas antigas tradições, por vezes antagónicas, buscam-se uma à outra, num esforço comum para preservar o lar que partilhamos "
e, mais adiante, a pag 27 da Introdução "O povo americano suspeita por vezes que as agendas das campanhas saem direitinhas dos peritos de opinião e dos políticos profissionais. Têm razão a maior parte das vezes. Em minha própria defesa, direi que durante toda a campanha procurei sempre oportunidades de voltar à questão do ecossistema global...Mas a imprensa nacional, reflectindo o consenso da comunidade política, recusou veementemente considerar o ambiente como uma parte importante da agenda eleitoral."