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Monday, February 10, 2014

O TESTE SUÍÇO

Inquestionavelmente, o resultado do referendum suíço que, por pequena margem de votos, obriga o governo da Confederação a restringir no prazo de três anos a entrada de imigrantes no país, tem incidências que transbordam muito para além das relações entre a Suiça e a União Europeia. O tratado, (conjunto de vários acordos) que determina a livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, entre a Suiça e a UE, se for posto em causa por uma das partes relativamente a um qualquer daqueles quatro vectores de liberdade, dará à outra parte a faculdade de denunciar o acordo na totalidade (cláusula de guilhotina). Mais de um terço da produção e mais de metade das exportações da Suíça dirige-se a mercados da UE.


Deverá a UE accionar o mecanismo de retaliação denunciando os acordos em vigor?
É uma questão complexa que, espera-se, não vai ser respondida pela UE sem uma bem amadurecida ponderação de todas as consequência previsíveis. 

Gideon Rachman lembra no FT de hoje - Should the Swiss be punished? - alguns aspectos sensíveis a ter em conta. Habituados ao exercício da democracia directa, os suiços obrigam com este referendo o governo da Confederação a diligenciar num sentido que a maioria representada no parlamento e no governo não apoia.  Estarão imunes a um confronto semelhante os governos de países membros da UE - Reino Unido, Holanda, Áustria, França, Alemanha, Dinamarca -,  onde o referendo não tem sido utilizado para aprovar os tratados europeus, mas onde a pressão popular vai em sentido idêntico à posição maioritária, ainda que minimamente maioritária, dos suiços expressa este fim-de-semana? Se Marie Le Penn* ganhar as eleições em França, por exemplo?

O que vai acontecer, não sabemos.
O que sabemos é que este teste suíço irá adensar uma discussão no seio da UE, contituindo mais um dos pontos  críticos de uma agenda sobrecarregada de questões à espera de clarificação. E sabemos também que, deixando de existir livre circulação de pessoas num espaço económico comum, não haverá condições para a UE subsistir. Com ou sem a Suíça amarrada ao barco. 
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Correl. -* Le Pen quer seguir o exemplo suíço contra a imigração

Monday, March 04, 2013

O POVO É QUEM MAIS ORDENA


Contra a oposição do Governo, 67% dos eleitores suíços aprovaram neste domingo, em referendo, a adopção de medidas legislativas para controlar os salários dos conselhos de administração.

Que consequências poderão resultar desta imposição do povo suíço, que o Governo terá agora de converter em lei para ser aprovada no Parlamento, é a grande dúvida que se coloca considerando a eventual deslocalização das holdings que dominam as grandes corporações não financeiras suíças. É, no entanto, esperável que a tentação de desobediência aos resultados do referendo através de virtual fuga dos centros de decisão para outras paragens seja coartada pela coriácea idiossincrasia helvétiva que garante uma coesão ímpar num país culturalmente diversificado.

A questão da atribuição de bónus aos gestores das empresas cotadas em bolsa, que atingiram dimensões estratosféricas com a liberalização e o capitalismo dito popular, e a análise das suas consequências perversas na economia é há muito objecto de discussão entre políticos e economistas. A crise emergente em 2008 nos EUA e o seu alastramento à Europa veio tornar premente a adopção de medidas salutares da economia, da ética, e da moral, que têm sido anunciadas, adiadas, e transitoriamente esquecidas. Os suíços, um povo civicamente maduro, sabe fazer do referendo um instrumento democracia directa sem sujeição ao risco de propostas demagógicas. O referendo de anteontem foi certamente amadurecido e pesadas as eventuais vantagens e as ameaças dos seus resultados.

A União Europeia parece estar a preparar (mas na UE o que parece nem sempre é, salvo se está em causa a regulamentação de peanuts) medidas timidamente semelhantes, enfurecendo a City em Londres, ciosa dos seus privilégios e independências. Os bónus aos banqueiros são os que mais colidem com os interesses dos cidadãos enquanto depositantes e contribuintes, porque, sendo facilmente forjáveis os lucros, embolsam os banqueiros manipuladores fortunas, e em nome do risco sistémico pagam os contribuintes -chamam-lhe moral hazard - o que burladamente foi retirado dos bancos pelos banqueiros.

O instituto do referendo pode ser um instrumento facilmente tocado pelos demagogos em sociedades civicamente imaturas. Contudo, mesmo correndo esse risco, será sempre mais consequente que o cântico de uma multidão desesperada por maior que seja o simbolismo da canção entoada.

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Correl. - (05/03) - Ecofin deve silenciar queixas do Reino Unido sobre limitação dos bónus na banca

Sunday, May 13, 2012

PORTUGAL NÃO É A SUÍÇA

Tínhamos pedido ao TomTom para nos indicar o caminho de Hombi, nos arredores de Zurique, até Reichenau, no lago Constança, evitando autoestradas e vias rápidas. A atravessar as paisagens do planalto entre montanhas de verde primaveril, deparamos em todo o lado  com uma actividade de formiga que ou aproveita o sol para com uma engenhoca atrelada aos tractores  revolver a erva já cortada que será enrolada ou enfardada antes que volte a chover, ou com a charrua atrelada lavra a terra já disponível para as sementeiras de gramíneas ou plantações hortícolas. Nas pastagens, que se intercalam com os terrenos cultivados, permanece imutável o cliché suíço: os bovinos a dar ao dente dando ao badalo, a preguiçar e ruminar, as casas agrícolas com a estrumeira à porta a exalar o cheiro a fartura, as estufas, os pomares, os vinhedos nas encostas, o combóio a fugir ao longe.

Atravessa-se a Suiça de qualquer ponta a outra e é sempre o mesmo impressionante pulsar de actividade entremeando as cidades e os serviços com a indústria e a agricultura, e pescas à beira dos lagos. Está redondamente enganado, já o anotei neste bloco de notas, quem pensa que a economia suíça se sustenta fundamentalmente do sector financeiro. O peso da indústria no PIB suíço é um dos mais elevados do mundo, os suíços são praticamente autosufientes em bens alimentares.

Reichenau é uma pequena ilha já no lado alemão do lago Constança, está classificada como Património da Humanidade desde 2000 pela UNESCO. Foi ali que no começo do sec VIII foi edificado um mosteiro beneditino e, a partir de lá, como de um alfobre,  transplantaram-se hábitos de trabalho intelectual e braçal que atravessaram os séculos e de que, ainda hoje, há testemunhos, eloquentes de um  passado cultural que iluminou na Idade Média, nos seus mosteiros, e na continuidade da azáfama nos campos onde se alinham as hortas, a céu aberto ou em estufas.

A ver esta paisagem, esta gente, estes campos cultivados, recordo-me sempre da minha aldeia  há umas dezenas de anos a fervilhar de vida vegetal e animal por esta altura do ano. Hoje é vila, um dormitório sitiado por silvados e pousios.

Tinha de ser assim?


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Friday, June 24, 2011

MILAGRO

Eh!Eh!Eh! Hoje, toca-me a vez de escrever o que penso. Para começar, penso que o meu passeio matinal deveria começar mais cedo. Ou então, que me abrissem a porta do quintal para eu poder fazer o que toda a gente costuma fazer logo que se levanta. Assim, não: obrigam-me a apertar, a apertar, até que abram a porta e eu possa chegar ali acima, aquela curva onde começa o relvado.  Mas antes, farejo a ver se o sítio continua conveniente. Depois vamos por ali acima, mais uma mija aqui, uma cagada ali... Eh!Eh!Eh! Vá lá, abre lá o saco, apanha e dobra para dentro. Isso, agora dá um nó e mete no cagão. Não há por perto? Aguenta até que apareça. O Urs costuma por no bolso. Aquece-o, penso eu. O Urs é um tipo catita. A Cherry nem tanto. Não é má cachopa, mas com aquele ar de quem está a olhar sempre contra o governo, nem alegra nem chateia. E passa pelos outros como se não os visse. Eu, não. Cada encontro é uma confraternização. Cheiramo-nos como e onde é da praxe, abraçamo-nos, e corremos doidos de alegria. Nisto, o Urs é mais parecido comigo. Cada encontro dá para uma conversa longa. Não é do tipo para passar, grüezi, e está feito. Não. Em cada encontro põe a escrita em dia. Já no físico, parece-se com mais com a Cherry: aquele andar a tombar para um lado e para o outro, ou o copiou da Cherry ou a Cherry o copiou dele, vá lá a gente saber quem é que começou a balançar-se. Toda a gente me conhece. Não admira: sou civilizado, cordato, gosto que me cumprimentem, que gostem de mim, e correspondo.

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 Já por aqui ando há algum tempo, uns três anos, talvez. Cheguei cá de avião, sim senhor. Eu e os da mesma ninhada, nascidos em Málaga. Eh! Sou um emigrante espanhol. Chegados cá, cada qual foi para onde o levaram. A mim, coube-me a sorte de cair aqui, ao pé da montanha, onde se pode caminhar entre as árvores, ouvir a passarada e farejar relva todo o caminho. Há tempos, fizeram um encontro de famílias. Lá fui encontrar-me com os meus irmãos. É sempre bom o reencontro familiar, não acham?Foi uma festa em grande, sim senhor. Reconheci-os à distância, claro. Todos me gabaram a pele sedosa, o ar lavado, a elegância. Disse-lhes o mesmo, como é norma nestas circunstâncias. Mas não fui franco com eles. Deveria ter sido?Também não me pareceram muito disciplinados. Nem toda a gente aqui é disciplinada. Dizem que são, mas não é verdade. O Urs, por exemplo, é disciplinado. Sempre que encontra um saco de plástico no chão ou uma lata vazia no meio da erva, pega neles e coloca no lixo. E pragueja. Coloca, mas pragueja: Estúpida gente! Gente estúpida! Depois faz-me umas festas e dá-me uma cookie. O Urs não gosta é dos gregos. Volta e meia, gregos à parada para uma ensaboadela! Lá terá as suas razões mas não sei se os gregos o ouvem. Desconfio que não. Hum! Para a semana tenho responsabilidades redobradas: o Urs só vem às terças e quintas, nos outros dias tenho de acompanhar a C., e a Bébé. E, se chove? A mim, lava-me o pêlo.

Thursday, June 16, 2011

ELMIRA

Bom dia! Ah, que bom começar o dia a ouvir, bom dia! Até fiquei com a pele assim. Estiveram então com a minha irmã ... pois eu sou muito mais extrovertida que ela. Saio à mãe. Esteve cá há duas semanas. Passámos todo o tempo a falar, e a minha irmã a ouvir. O meu sobrinho é, nisto de falar, mais parecido comigo. Vim para cá dois anos depois da minha irmã ter vindo. Até ganhava bem em Portugal naquele tempo. Para o que era normal, até ganhava bem. Mas vim, vim por um ano, trabalhar num hotel, voltei a Portugal,  depois disse para comigo, tenho de voltar, e voltei. Casei com um suíço, não deu certo, divorciámo-nos, mas fiquei por cá. Agora não volto a casar. Na!... Não tenho filhos, pois não, mas tenho sobrinhos. Este aqui e vários em Portugal. Hoje atrasei-me um pouco na abertura da loja, fiquei por ali a tomar um café, a fumar o meu cigarrinho, a dar uns dedos de conversa, sabem como é, precisamos de ter isto tudo controlado. Mas estava de olho aqui na porta. Abri esta loja há nove, vai fazer dez anos. Ao princípio não foi fácil, agora também não, mas cá vou resistindo. Comecei só com roupas de criança, mas depois tive de começar a trabalhar com roupas de mulher. Os suíços têm muitos filhos? Têm, têm, mas os suíços também têm hábitos muito diferentes dos nossos. Enquanto lá toda a gente quer novo e de marca, aqui eles vestem os irmãos mais novos com o que usaram os que apareceram primeiro. E também é muito frequente os vizinhos darem peças de vestuário já usadas. Quanto a marcas, olhem, tive de reduzir e oferecer vestuário mais em conta. Aqui o custo de vida está muito elevado, e as pessoas cortam na despesa com vestuário. E depois, eles não querem que isto se saiba, há muita pobreza escondida neste país. Há, há. Não querem que se saiba, mas há. Então prima, vai essa? Fica-te mesmo bem. Não fica? Eu acho que te fica mesmo muito bem. Tratamo-nos por primas porque ela é angolana, de Nova Lisboa. Pois, já sei, já me disseram que abriu ali atrás uma pequena loja de artigos portugueses. Ainda não estive lá, mas vou lá. Tem pastéis de nata? Não me diga. Adoro pastéis de nata. Ainda hoje por lá passo. Meus ricos pastéis de nata. Estiveram em Einsiedeln? Então não viram  a procissão de Pentecostes, no domingo passado. O Convento é enorme. Pois foi pena que já estivesse fechado quando lá chegaram.  Aquilo é lindo, não é? Para lá do lago, que fica do outro lado, junto a Gross, a paisagem é uma maravilha. Vale a pena voltar lá. Gostei muito que me tenham visitado. Apareçam sempre.  

Thursday, June 09, 2011

Sunday, January 03, 2010

Friday, January 01, 2010

Monday, December 28, 2009

Thursday, July 02, 2009

OS COMBÓIOS SUÍÇOS

Quando, numa altura em que a questão do TGV promete ser um dos pontos de maior divergência entre o Governo e as oposições, (salvo o BE, a avaliar pelo facto de o seu líder estar entre os 51 subscritores do segundo manifesto) atravessamos a Suíça de ponta a ponta e as suas cidades de um lado para o outro, utilizando os combóios, os carros eléctricos e os autocarros, não podemos deixar de reflectir na nossa indigência em matéria de transportes colectivos e o despropósito de se querer colocar a correr, ao lado dela, um combóio de alta velocidade.
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Não há, provavelmente, situação mais contrastante na Europa, do que a tradição de prestígio, cimentada ao longo de muitas décadas, dos combóios suíços com a decadência imparada dos caminhos de ferro em Portugal. Na Suíça, o combóio é o meio de transporte preferido, qualquer que seja a pessoa ou o seu destino; a estação de caminhos de ferro um centro de actividades sem descanso; o caminho de ferro, o transporte de mercadorias privilegiado pela lei e pela cultura ecológica do povo suíço. Na Suíça, a rede ferroviária tem crescido incessantemente; em Portugal os caminhos de ferro têm sido desprestigiados por todos, a começar por aqueles que têm sido, desde há muitos anos, chamados a governá-los.
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A Suíça é um dos países mais ricos do mundo mas não ninguém discute se três horas é muito tempo para ir de Zurique a Genebra, uma distância percorrida a uma velocidade horária média de 110 quilómetros. Para quê, mais velocidade? Para quê, se durante esse tempo pode ler ou redigir relatórios, preparar reuniões, tomar o pequeno almoço, o almoço ou o jantar consoante a hora da viagem?
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Para quê, TGV?
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Em Portugal, precisamos, seguramente, de mais e melhores combóios. Não precisamos de mais autoestradas mas precisamos de melhores vias férreas. Mas a alta velocidade excede, claramente, as nossas necessidades e os nossos recursos.